Cá estava eu, preparando papéis para mil departamentos e ministérios e repartições alemãs, naquela vida de residente estrangeiro que precisa, de tempos em tempos, enfrentar a burocracia que faz com que se entenda na pele o que o adjetivo kafkiano pode significar, meteco a meter-se entre motins, quando alguém menciona, numa destas comunidades eletrônicas em que geralmente se repartem meras notícias de almoços e fodanças, o nome de um poeta de que você não se lembra de algum dia ter ouvido falar, e então o segue, mais uma vez pela rede eletrônica de informações verdadeiras, falsas, até pousar numa página com o poema abaixo, que doravante o ilumina, ao menos pelo resto do dia burocrático, e o qual você escolhe compartilhar com seus amigos visíveis, invisíveis, conhecidos ou não, para que eles também possam talvez sorrir por um segundo no dia de vitórias e fracassos.
O Poeta em Lisboa
Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.
Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.
Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha - numa música secreta, inaudível.
Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.
Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.
Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.
Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.
Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.
Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos.
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.
António José Forte, Uma Faca nos Dentes (1983)
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que lindo, ric. viva lisboa.
ResponderExcluirViva.
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