sábado, 9 de agosto de 2014

Dois poemas da série "Odes a Maximin"

Há cerca de um mês, a revista lisboeta Enfermaria 6 publicou o primeiro texto da minha série "Odes a Maximin". Ontem, a carioca Confraria Do Vento publica em seu blogue o segundo. 

Agradeço muito a Ronaldo Ferrito pelo convite. Ele incluiu ainda uma nota (e foto do divino rapaz), explicando quem foi o Maximin histórico, que uso para ligar meu texto em arco a uma tradição específica. A da "Musa Puerilis" e do velho "culto a Antínoo". Mas gostaria de deixar claro que "Maximin" é uma máscara - para alguém que está vivinho da silva aqui em Berlim. Não, não é O Moço. (Até que enfim).

Abaixo, reproduzo os dois poemas, mas convido todos a visitarem as revistas.

:

ODES A MAXIMIN 

Ora
cansei-me d´O Moço,
há o tempo de bajular
e o tempo de escurraçar
os fantasmas
dos natais passados
para permitir-me
deixar-me encurralar
por outros
e dessarte inicio
esta celebração
do bendito
menino filantropo
que passo a chamar
de Maximin.

§

Texto para o menino que por vezes me visita, quando se cansa de meninas, e que doravante chamarei de Maximin, como se este fosse o último bilhete de Heliogábalo a Hierócles


Como o sol que incha e cresce,
Maximin, são teus
a pujança, o tônus e a tesura.
Quem-me-dera pudesse dar-te
todos os dias
o que é digno de tua condição
cesariana, ou fosse eu a carruagem
conduzida por tua potência
equina, oxalá
eu o cavalo que montas
com maestria, charioteer,
eu, tua cheerleader, que vivo
da caridade do teu epidídimo,
ora deixa-me
descansar o pescoço
extenuado sobre teu corpo
esponjoso, meu cabelo
confundindo-se com teus parcos
pelos púbicos, já quase públicos,
Maximin, tanta é a segurança
com que te exibes no mercado
e na ágora, maximiza-me
em tua perene intermitência,
diariza tuas doações
tão fluidas sobre meu rosto,
je vien, tu viens,
então vem e quebra
com teus sucos
meu jejum, Maximin,
minimiza minha idade,
mexe-me contigo em mim,
tantas são, miríade,
as posições possíveis
entre cavalgadura
e montaria, Maximin,
machuca-me
à prostrada, naquele pontículo
entre delícia e cicatriz,
pois os cães pretorianos
já se aproximam
para arrastar-me aos gritos
desse trono que usurpo
quando te cansas do vúlveo
e escalamos a torre de marfim,
mas ainda assim trono
onde se crê que alguma menina
melhor sentaria,
Maximin, e já sabemos
qual será nosso fim.

§

Texto em que o poeta quer deitar Maximin num diwan e cantá-lo feito um místico árabe, quando então se lembra da ascendência do divino rapaz

Filho de berberes e alemães
graças à fuzarca abençoada
de corpos após a Queda
do Muro, me disseste
que foste o mais perfeito
bebê da maternidade
de tua mãe, a generosa.
Eu creio e sou devoto.
Não sei se necessário
um começo perfeito
para teu óbvio sucesso,
agora, no pleito.
Seria prudente comparar-te,
seguindo a antiga arte
dos meus colegas árabes,
tal Muhammad al-Nawaji
ou meu caro Abunuwasi,
e afirmar de gazela
as tuas pernas
tão firmes, estáveis?
Seria cometer uma gafe
etnográfica, se entoasse
em cantares dos cantares,
tal um árabe, a tua púbere
belezura berbere?
Tudo o que sei
é que, se não vens,
sou um mero magrelo
a atravessar feito camelo
o Magrebe.
Maximin, ademais,
nos ademanes
da minha nomenclatura
mais que científica
dos corpos do teu gênero,
dividindo rapazes
entre touros, leões e cavalos,
sempre te considero espécime
ideal das pujanças taurinas,
teu torso e teus ombros
que seriam edredão fácil
de tão largo
ainda que não mui macio,
sobre todo o meu corpo
raquítico e geriátrico,
como esses teus membros
de tronco de carvalho
que frequente
me deixam em estado
de Salix babylonica.
Tua inteligência de cão
de rua, a forma das mãos
com que nos manipulas
fácil pela lente do desejo
que distorce tudo, fazem-te
mais perigoso que o coice
de cavalo, a garra do leão
e todos os chifres de touro,
como este que carregas
nas tuas calças
largas de skatista.
És um tanto sádico.
Maximin, queria beber
apenas uma vez mais
teu suor e saliva e sêmen
de berbere
escorrendo de tua pele
de bebê.
Quando? Onde?
Ainda não te cansaste
daquela caverna escura?
Escalemos o pico nevado.
Vamos comer sushi
diante de um Fuji
falsificado de Hokusai
nos restaurantes
dos imigrantes
dessa tua cidade.
Sou meteco,
não grego,
são esparsos
os meus privilégios
e minhas bulbouretrais
já se cansam do estado,
como em Kanagawa,
das grandes ondas.
Devo gritar dos telhados
in a barbaric yawp
teu verdadeiro nome?
Confesso que ainda
não ouso a entrega
ao mundo de tua alcunha
oficial de batismo,
apenas este, Maximin,
pois temo tua concubina,
essa ninfeta com sangue
de valquíria, os genes
de nibelungos, o gênio
de Wagner.

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