domingo, 23 de novembro de 2014

Texto de Diego Moraes (Manaus, 1982)


Já se passaram dez anos

Acabou a bateria do relógio que você me presenteou no natal que seu tio ficou bêbado de vinho dom bosco e disse na frente dos filhos e da esposa que era gay e viveria com um travesti búlgaro em Londres

Já se passaram dez anos

Os poemas que escrevi quando gozava nos teus peitos de atriz da nouvelle vague incorporada de pomba-gira amarelaram como sífilis na fruteira

Já se passaram dez anos

A dona Gerusa que te vendia maconha morreu de AIDS na penitenciária e o cachorro sem nome que adotamos morreu atropelado por um táxi

Já se passaram dez anos

Hebe morreu. Michael Jackson Morreu. Roberto Piva morreu. James Gandolfini morreu. Manoel de Barros morreu.

Já se passaram dez anos

Mas o cheiro da sua boceta ainda está impregnado no quarto, no guarda-roupa, na cozinha, na varanda, nas estrelas.



Diego Moraes é um escritor brasileiro, nascido em Manaus, Amazonas, a 23 de agosto de 1982. É autor do livro de contos A fotografia do meu antigo amor dançando tango (2012) e da coletânea de poemas A solidão é um deus bêbado dando ré num trator (2013), ambos lançados pela Editora Bartlebee.

Os dois primeiros poemas abaixo são inéditos, seguidos de alguns textos selecionados de seu último livro. Encerro a postagem com um conto de A fotografia do meu antigo amor dançando tango (2012). Diego Moraes vive e trabalha em Manaus.

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