sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Poema de Natal


Bebê Mágico, amado, idolatrado, salva-nos, salva-nos,
nascidos como tu na pobreza feito filhotes de mansos vira-latas,
agasalha-nos na lã branca do teu casaco felpudo de jovens focas
se ainda és da candura e da graça o cordeiro
pois, por aqui, desde que morreste no país colonizado
por impérios onde ainda se digladia, quando pedimos, graça
tem mas acabou, e a candura anda
também muito em baixa nos mercados,
e quando caem as bombas em Al-Majalah,
de cordeiros e crianças não se distinguem as carnes
que são deveras fracas, Bebê Mágico,
não resistem a explosivo, projétil e lâmina,
disso estás mais que ciente, conheceste da carne a fraqueza
em espinho, cravo e lança, e quando em Gardez
reúne-se a família de Mohammed
Daoud, celebrando que se doara à luz outro infante,
sem estrela de Belém nem reis-magos que lhes tragam
oferendas, as forças especiais de Herodes
avançam pelos ares com helicópteros,
invadem a casa teto adentro e os tragam,
imolando mui democráticas homens e mulheres grávidas,
Bebê Mágico, eis que por um tempo cremos
que nos tirarias de sob o manto e jugo da Lei,
a do olho por olho, dente por dente, útero por útero,
e sobrevivemos passivos e crédulos na periferia
de Jericó, e ainda que uma vez por ano, por cinco dias
circundemos carnavalescos seus muros,
chacoalhando os adiados esqueletos
e tocando mui alto os tambores e as trombetas,
os muros jamais caem, Bebê Mágico,
ainda que já derrubados os cedros do Líbano
e do pau-brasil tornaram-se raras as frondes,
em verdade, em verdade sabes que logo haverá bezerros
mas não leões que possam com eles deitar-se sobre a palha,
e se ainda corrermos por vezes felizes pela duração
dos efeitos de nossos antidepressivos, será por eternos
campos de soja, enquanto do Egito fogem outros,
mas não se abre nem Mar Vermelho nem Mediterrâneo
à sua passagem, e de Babilônia resta hoje um mercado
para o comércio de armas, cá estamos,
cada um por si e todos contra todos,
Bebê Mágico, amado, idolatrado, salva-te, salva-te
porque em breve nestas plagas não há-de sobrar
pedra sobre água.



--- Ricardo Domeneck, Berlim, 22-25 de dezembro de 2015.

.
.
.

Nenhum comentário:

Arquivo do blog