terça-feira, 19 de julho de 2016

Essa língua velha na manhã nova



Querido, a linguagem que usamos é arcaica, para ela a Terra é ainda plana e o centro do Cosmo, e é o sol que todavia gira ao seu redor. Você acorda, o rosto ainda sonolento, o dordolho salpicando o agudo ângulo das pálpebras, os olhos entrefechados como se ainda em semivigília, e eu digo, com o café forte nas mãos: “O sol nasceu”, quando sabemos há séculos que a ciência informa ser correto que eu, todo amoroso, diga: “Querido, nossa porção de terra já volta o rosto para o sol”. E você, desastrado, tal como já se desastrou o céu claro, ao esticar o braço e tomar a xícara, deixa-a cair, e mais uma vez nossa língua nos falha, nos engana, nos engasga ao dizermos que tombou a xícara, pois deveríamos murmurar, respeitosos, que “a Terra atraiu para si a louça”. E não há por que você desculpar-se, nada há para perdoar se já notamos que é da natureza das coisas se atraírem, as menores pelas maiores, pela mesma força irresistível da gravidade, fruto deste vinco e sulco que o planeta faz no espaço, como fizeram à noite nossos corpos no colchão e no lençol. Você acha graça nisso tudo. E na cozinha que gira e viaja, imaginamo-nos numa porção de espaço longe da Terra, onde a xícara simplesmente flutuaria, sem cacos, ainda que gélido o café, mas mesmo este flutuar é engano, pois a xícara e o café e a cozinha e a Terra e o Sol e você e eu viajamos a 140 milhas por segundo ao redor do buraco negro no centro de nossa galáxia. E mesmo a galáxia viaja em direção incerta, atraída por outra, Andrômeda, tão distante desta xícara de café, que já de novo gela, querido. Não se distraia tanto com o que digo. Beba. Tome goles grandes – mas não tem tamanho o que é líquido, apenas volume–, deixa que a mesma gravidade que tombou a xícara leve agora o líquido preto para o centro do seu estômago vermelho, no escuro. Escute: ainda ruge a tempestade em Júpiter. A Grande Mancha Vermelha, um anticiclone. Faz trezentos anos, querido, querido. Nasceu o sol em Urano, onde não há quem diga "aqui" ou "hoje", e portanto não importa que porção volta agora o rosto para o sol. E esta incerteza toda nos angustia, temendo nós mesmos afastarmo-nos em demasia do campo gravitacional do outro, ainda que pouco nos importe em nossa antibonança qual dos nossos terrestres corpos celestes é o maior. Olhe a lua que ainda brilha, antes que suma. Abra a janela, aplique a força necessária para que suas placas de madeira se afastem uma da outra e debrucem-se na varanda. São destroços da própria Terra, dizem, agora girando no espaço ao redor dela, destroços amorosos como eu seria se um planeta hipotético colidisse conosco e nos separasse. Que núcleo quente, o nosso. Mesmo a Lua se afasta da Terra a passos de bebê, querido, tornando nossos dias cada vez mais longos, nossa rotação cada vez mais lenta, e se um dia hemos de perdê-la, que não seja no espaço de tempo de nossa expectativa de vida, enquanto bebemos este café, na cozinha que gira em torno de um buraco negro, os pés firmes num chão que também se move.

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