terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Poema das circunstâncias todas


          "Demasiado velho para pegar em armas e combater como os demais
            foi-me generosamente atribuído o cargo inferior de cronista
            e registro – sem saber para quem – a história do cerco"
                                                        
                                                  Zbigniew Herbert


Naquela noite uma névoa pousava como lençol limpo
no céu da rua que eu cruzava em Prenzlauer Berg
no leste antigo leste de uma Berlim nova
e havia no oeste um caminhão
desgovernado num mundo governado
ou
um caminhão
governado num mundo desgovernado
restariam para sempre
desencontradas todas as notícias
na noite do meu telefonema
"você e os seus estão bem?"
e sua resposta
"você e os seus estão bem?"
uma pergunta tão corriqueira
torna-se questão de vida ou morte
e nas conversas equivalia-se
um embaixador a um arquiduque
e eu burro tão burro tentava entender
pois estava morto ou ainda morria
em Ancara um embaixador russo
estava morto ou ainda morria
em Sarajevo um arquiduque austríaco
tudo acontecia ao mesmo tempo
nalgum lugar logo ao lado
como se uma membrana fina nos separasse
e antes que o arquiduque
desse o seu último suspiro
era derrotada Aqualtune
na Batalha de Mbwila
e invadia a Alemanha a Polônia
e morria Martin Luther King
antes de Ghandi
talvez depois ou ao mesmo tempo
todas as batalhas
eram perdidas juntas
Gettysburg
Guadalcanal
Guararapes
Simone Weil morria num sanatório
(The Grosvenor House, Bockhanger, Kent)
Daniiel Kharms morria num sanatório
(Arsenal'naya st. 9, São Petersburgo)
Arthur Bispo do Rosário morria num sanatório
(Estr. Rodrigues Caldas 340, Rio de Janeiro)
e pelas montanhas sobe desce morre ainda
Walter Benjamin em Port Bou
e a maleta a maleta dos manuscritos
sumia
como somem todos os papeis cedo ou tarde
e cedo ou tarde
morrem o menino a menina em Sarajevo
morrem o menino a menina em Itaquera
morrem o menino a menina em Alepo
hoje ontem amanhã não sei
eu queria dizer contar relatar algo do sítio
de todas as cidades
despenca Jericó não despenca Stalingrado
mas há só tempo de dizer pêsames
contar os mortos
relatar o local das bombas
o mundo urge
os boletins de ocorrência e de meteorologia
empilham-se diante da porta trancada
este sítio
de todos por todos um a um
mas vinha à mente apenas aquela noite
quando pulamos a cerca da piscina pública em Berlim
éramos vários sexos etnias crendices
íamos bêbados de champagne barata e verão
e nadamos juntos juntos de mãos dadas
e ninguém se afogou


§

Berlim, 19 e 20 de dezembro do Ano de Nossa Senhora da Escuridão 2016

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