sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Texto em que o poeta convida Maximin a descolonizar-se consigo

ketefa uake kigefa uake
ketefa uake
ketefa uake kigefa uake
ketefa uake
ufisü heke ukilü
tüfüninhü heke ukilü

(tolo [canção feminina] kuikuro)

:

-- vá comigo, venha comigo
vá comigo
eu disse para o meu amado
eu disse para o precioso

(tradução de Bruna Franchetto)




na hélice dupla
de tua espiral
ascendem
e descendem

feito escada
de novos jacós
as instruções
de manual

à perfeitura
dos teus
ossos & corpos
ah cavernosos
nuca clavícula
cachos carpos
pele e pelos

não advêm
eles também
de gentes
por séculos
sem
passaportes?

dos berberes
e dos judeus
das tradições orais
aos povos do livro?

ah Maximin
já não quero
nem haikus
nem trovas
nem liras

quero cantar
com mulheres
kuikuro
subindo a dupla
hélice das
matriarcas
a mim doada
de forma
helicóptera
por minha mãevó
a cabocla

e eu
eu não
mamei louca?

ai ai
meu bebê berbere meu
bichinho de estimação
meu teutojudeujudoca
meu desnudo gorilinha

és a estimativa
de quanto de mim
é-se bicho

vem Maximin
vem e lambe de mim o cheiro
de Rexona
vem Maximin
vem e lambe de mim o cheiro
de Axe
vem Maximin
vem e lambe de mim o cheiro
de Dove

na virilha sim
nas axilas sim

das tuas as glabras
e peludas as minhas

nas dobras
dos joelhos
que se dobram
para o encaixe
ante tuas rótulas

já não quero
nem haikus
nem trovas
nem liras
quero tolo meu tolo

§

Berlim, 29 de dezembro de 2017, novo poeminha para o livro Odes a Maximin
(work in progress, ou "cuidado com a cabeça, livro em obras)

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