terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Flor da república dos fungos

Este poema surgiu durante a leitura de Hope in the Dark, de Rebecca Solnit. Na introdução, ela cria uma imagem belíssima a partir das estratégias dos fungos e seus cogumelos: 

"Mushroomed: after a rain mushrooms appear on the surface of the earth as if from nowhere. Many do so from a sometimes vast underground fungus that remains invisible and largely unknown. What we call mushrooms mycologists call the fruiting body of the larger, less visible fungus. Uprisings and revolutions are often considered to be spontaneous, but less visible long-term organizing and groundwork— or underground work—often laid the foundation. Changes in ideas and values also result from work done by writers, scholars, public intellectuals, social activists, and participants in social media. It seems insignificant or peripheral until very different outcomes emerge from transformed assumptions about who and what matters, who should be heard and believed, who has rights."

Vai dedicado ao amigo e pintor irlandês Jim Scully por nossas conversas nas últimas semanas, nas quais a palavra "república" aparece com frequência por várias razões, seja para falar de Irlanda ou do Brasil, como de Berlim e de nossos amigos.




Flor da república dos fungos

              a Jim Scully

Vejo homens e mulheres
nesse continente em caça
pelas florestas ao que cresce
visível e bojudo sobre a terra,
o corpo frutificante dos fungos
que se ramificam feito repúblicas
invisíveis, subterrâneas, quietos
por longos períodos
à espera dos aguaceiros
edificadores de sua estipe
e guarda-chuva, e nós também
assim como outras espécies
fundamos nossas colônias,
mas sobre a terra ainda
que com formigas e abelhas
já estejamos competindo
pelo subsolo e pelos ares,
e esperamos por anos
que algo floresça,
e chegamos a pedir que flores
feias furem o asfalto, ora antes
um cogumelo azul e leitoso
desabroche e desabotoe-se
sob a abóboda também azul
— imenso porta-sol
desse píleo convexo
sobre nossas cabeças —
e ao lado de abóboras venha
nutrir o estômago vazio
mas vivo de Lázaro,
esse irmão, como um Cristo
antes Filho do Homem
do que Filho de Deus,
porque se de preto seguimos
pelas calçadas da República,
é tanto por um luto constante
quanto para absorver
ao máximo a luz
que é o calor
do sol ao qual respondemos
mantendo também constante
nosso calor próprio.

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Berlim, 17/18 de fevereiro de 2018


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