quarta-feira, 7 de novembro de 2018

As ternuras brutas




Há semanas não crocitam
as musas uma única linha
sequer. Que adianta gralhem,
arrulhem, se não falo grego
antigo? Nada tenho a dizer,
rádio desligado, eu, à espera
de alguns sinais idiotas
dos Anéis de Saturno,
dos Abéis de Cains.
E os bichos que me incitam
à estumação, os meninos
feito troncos, potros ou topos
de morro estão alguns
às margens do Atlântico,
ocupados com batatas-de-pernas
ou já se agasalham em camadas
várias de lã do outro lado
desse mesmo oceano.
Uns inúteis, uns inúteis.
Queria eu só excitar ou excisar
umas alegriazinhas quaisquer,
então faço meus truques
de mágica num tempo sem mágica:
como as pinhas todas,
visto as meias novas,
ouço trinta e três vezes
a canção favorita,
releio aquele livro de Adélia Prado
e aquele outro de Marly de Oliveira,
os que folheio escondido
para não irritar os porteiros
da palavra consagrada por síndicos.
O pelicano n'o mar de permeio!
E que vieram fazer vocês
nesse mundo se não gostam
ou me proíbem exclamações?
Só queria me enceterner,
me nenertecer,
digo: enternecer. Pronto, ofendo
agora com isso os gramáticos
e os policiais do miocárdio alheio.
Peço tão pouco, cambada: alegrias
chinfrins, como o pastel
junto do caldo de cana,
o café forte, a mesa limpa,
a escrita ou a leitura lacrimosas.
Em verdade em verdade
trocaria tudo isso pela permissão
de lamber com esmero
aquilo que metade de vocês esconde.
Não: melhor seria seguir agora
pelas ruas umas batatas-de-perna,
coisas esculpidas em areia e asfalto,
e com uma faca Ginsu cortá-las,
com brutalidade e ternura,
de baixo para cima e à base do osso,
para então assá-las
como picanhas ou pocãs
nas chapas do meu cérebro.
Os perônios de moços expostos.
Ah! os churrascos dessas alegrias
todas: as pinhas e as tíbias,
as canções e os perônios,
as meias novas e sob elas
as batatas-de-pernas.

*

São Paulo, 6 de novembro de 2018.

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