segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Texto em que o poeta medita sobre seus dentes enquanto eles trituram a carne de um bicho


Considera
por alguns minutos
os dentes.

Os teus próprios
dentes,
facas portáteis.

Teus ossos
expostos em cálcio
e esmalte.

Dentes maceram
o tenro.
Hienas no ventre

de zebras.
A navalha, o punho.
Os dentes.

“The soft
underbelly
of Europe”

Imagina agora
o bico
do seio, a ponta

da glande.
Pensa nos dentes,
as arcadas

que agora
se abrem, fecham
-se todas.

Toda mandíbula
do mundo,
e abaixo, acima

os dentes. Trituram
molares
e rasgam os dentes

essa outra carne,
a carne
do outro. Considera

agora, entre dentes,
tua língua.
Infensa, infecta, ilesa.

Tua língua,
a carne de tua carne,
entre dentes.

Um bicho
agora entre dentes,
tua língua.

Tua língua,
bicho ainda vivo,
e o bicho

morto que ela macera.
A boca,
mãe de toda violência.

A tua carne,
a work in progress,
e teus dentes

permanentes, tua vida
dente-de-leite,
mamífero antimamífero.

§

Rodoviária de São Paulo, 21 de novembro de 2018.

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