Sábado de sol em Berlim, é como estar noutra cidade. É outra cidade. Berlim entre entre abril e agosto, o BERLIMBO entre setembro e março.
Se eu estivesse em São Paulo, estaria acordando em alguma rua de Pinheiros, com certeza, tomaria um café, caminharia até a Benedito Calixto e encontraria os amigos para um baião de dois no Biu.
Mas estou em Berlim, então acordo e caminho até a Kastanienallee, bebo meu Kaffee no Plazebo e sigo até o Weinbergspark para recuperar as cores que perdi durante o Berlimbo.
NO entanto, seja em São Paulo ou Berlim, nada mais divertido que estar sob o sol e sobre a grama, levemente de ressaca, gargalhando ao reler passagens favoritas de The Autobiography of Alice B. Toklas. É como uma terapia de sorrisos em chuckles. Não deixa de ser muito saudável também ver que Stein, Picasso, Matisse, Apollinaire, Crevel, todos tiveram um dia seus vinte e poucos anos, seus trinta e poucos anos, e caminhavam, bebiam café, brigavam, embebedavam-se, faziam as pazes, brigavam de novo, irritavam-se com a falta de compreensão e reconhecimento, invejavam-se, maldiziam, cumprimentavam, traíam as namoradas, os namorados, tiravam um belo de um sarro dos colegas escritores, dos colegas pintores, e seguiam com a vida, porque a lenda, meu bem, a lenda vem sempre depois.
§
§
§
"We met Ezra Pound at Grace Lounsbery´s house, he came home to dinner with us and he stayed and he talked about japanese prints among other things. Gertrude Stein liked him but did not find him amusing. She said he was a village explainer, excellent if you are a village, but if you were not, not. (...) Ezra did come back and he came back with the editor of The Dial. This time it was worse than japanese prints, it was much more violent. In his surprise at the violence Ezra fell out of Gertrude Stein´s favourite little armchair, the one I have since tapestried with Picasso designs, and Gertrude Stein was furious. Finally Ezra and the editor of The Dial left, nobody too well pleased. Gertrude Stein did not want to see Ezra again. Ezra did not quite see why. He met Gertrude Stein one day near the Luxembourg gardens and said, but I do want to come see you. I am so sorry, answered Gertrude Stein, but Miss Toklas has a bad tooth and beside we are busy picking wild flowers. All of which was literally true, like all of Gertrude Stein´s literature, but it upset Ezra, and we never saw him again."
§
"In the days when the friendship between Gertrude Stein and Picasso had become if possible closer than before ... in those days her intimacy with Juan Gris displeased him. Once after a show of Juan´s pictures at the Galérie Simon he said to her with violence, tell me why you stand up for his work, you know you do not like it; and she did not answer him. Later when Juan died and Gertrude Stein was heart broken Picasso came to the house and spent all day there. I do not know what was said but I do know that at one time Gertrude Stein said to him bitterly, you have no right to mourn, and he said, you have no right to say that to me. You never realised his meaning because you did not have it, she said angrily. You know very well I did, he replied."
§
"Eliot and Gertrude Stein had a solemn conversation, mostly about split infinitives and other grammatical solecisms and why Gertrude Stein used them. Finally Lady Rothermere and Eliot rose to go and Eliot said that if he printed anything of Gertrude Stein´s in the Criterion it would have to be her very latest thing. They left and Gertrude Stein said, dont´bother to finish your dress, now we don´t have to go, and she began to write a portrait of T. S. Eliot and called it the fifteenth of November, that being this day and so there could be no doubt tat it was her latest thing. It was all about wool is wool and silk is silk or wool is woollen and silk is silken. She sent it to T. S. Eliot and he accepted it but naturally he did not print it."
A Portrait of TS Eliot - Gertrude Stein
(Gertrude Stein - "The fifteenth of November: a portrait of T. S. Eliot", oralizado em Nova Iorque em 1934)
§
"It was not long after that that everybody was twenty-six. It became the period of being twenty-six. During the next two or three years all the young men were twenty-six years old. It was the right age apparently for that time and place."
§
"Gertrude Stein and Sherwood Anderson are very funny on the subject of Hemingway. The last time that Sherwood was in Paris they often talked about him. Hemingway had been formed by the two of them and they were both a little proud and a little ashamed of the work of their minds. (...) It was Ford (Madox Ford) who once said of Hemingway, he comes and he sits at my feet and he praises me. It makes me nervous. (...) However, whatever I say, Gertrude Stein always says, yes I know but I have a weakness for Hemingway."
§
"Gertrude Stein´s name was never on Who´s Who in America. As a matter of fact in was in english authors´ bibliographies before it ever entered an american one. This troubled Mildred very much. I hate to look at Who´s Who in America, she said to me, when I see all those insignificant people and Gertrude´s name not in. And then she would say, I know it´s alright but I wish Gertrude were not so outlawed. Poor Mildred. And now just this year for reasons best known to themselves Who´s Who in America has added Gertrude Stein´s name to their list. The Atlantic Monthly needless to say has not."
Mostrando postagens com marcador berlimbo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador berlimbo. Mostrar todas as postagens
sábado, 4 de abril de 2009
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Uli Buder : AKIA
Ainda me recuperando dos excessos de ontem na Berlin Hilton. Queria apenas mostrar um vídeo do live set do jovem produtor musical alemão Uli Buder, que se apresenta como Akia. Foi uma de minhas descobertas aqui no Berlimbo este inverno e fiquei muito feliz por descobrir sua música e seu consumo de oxigênio. Estamos programando uma colaboração.
O jovem produtor musical alemão Uli Buder, mais conhecido como Akia, em seu primeiro live set na Berlin Hilton.
.
.
.
Marcadores:
akia,
berlimbo,
berlin hilton,
música para os meus ouvidos,
uli buder
segunda-feira, 30 de março de 2009
Se as águas estapeassem Narciso
Não se trata de querer impor a própria visão sobre o mundo, mas da consciência de não poder escapar dela: o mundo pelos próprios olhos.
Lembro-me de ler, aos 20 anos, o livro Do Sentimento Trágico da Vida, de Miguel de Unamuno, que me causava redemoinhos na cachimónia mística, em que ele escreve que não são nossas idéias que nos tornam pessimistas ou otimistas, mas nosso otimismo ou pessimismo vem a definir que idéias teremos ou aceitaremos. Ignorando por ora o dualismo típico dos primeiros modernistas, esta afirmação ficou em algum canto do crânio. Nossa disposição estabelecendo a posição e ângulo de nosso monóculo? Mas Unamuno também escreveu: "Consciência, conscientia, é conhecimento partilhado, é consentimento, e con-sentir é con-padecer."
Como se os milhões de umbigos garantissem a descentralização do universo? Houve um tempo em que acreditava que os heterônimos de Fernando Pessoa eram sua estratégia para um realismo descentralizado. Talvez. É um ângulo, uma perspectiva. No entanto, mesmo o plural Murilo Mendes observou o caos por uma única janela. Proposição de forma convincente, em minha opinião, por Wittgenstein, ao escrever no Tractatus Logico-Philosophicus que “o eu entra na filosofia pela via de que o ‘mundo é meu mundo’.”
Enquanto muitos poetas buscam a tal da objetividade, seus sujeitos lavram atas de possessão do mundo, cartografando o universo por seus monóculos.
"& a cidade não é o
mapa mas o mapa
está correto
pois entre os sujeitos
que o
parto consagra estão
apenas os sujeitos com
corpo"
(a cadela sem Logos, 2007)
O inevitável. O inescapável. Colonialismo perceptivo dos alephianos. Portanto, expor o imposto.
"o mono-
lítico, falo: eu
sujeito a objeções"
(Sons: Arranjo: Garganta, no prelo)
Como um minimalismo que propusesse ao poeta a precariedade da sua visão, a unilateral. Aceitação da pele como parte da equação.
Fácil despencar em solipsismo, sim. Mas é a alegria difícil. “Aquele que conhece todo o resto sem ser ele mesmo conhecido é o sujeito", disse o volitivo Schopenhauer, mas nem mesmo TODO o resto conhece este sujeito limitadíssimo.
Não é narcisismo, pois não se trata de contemplarmos, em apologia, Narciso sobre as águas. Nesta fábula, as águas são a personagem principal. As águas, o limite, “o eu filosófico não é o homem, não é o corpo humano, ou a alma humana, de que trata a psicologia, mas o sujeito metafísico, o limite – não uma parte do mundo.”
Mundo como questão de temperamento?
Foi Lyotard que propôs o fim de nossa crença nas grandes narrativas, que unificavam a percepção discursiva de uma época, como característica de nosso tempo. Mas, os mais inteligentes perguntaram, isso não é também uma "grande narrativa"?
A falácia do Zeitgeist. Quando ouço esta palavra, sinto vontade de perguntar: "Sob que jurisdição?"
Mas os saudosos e nostálgicos da época em que a Terra
era o centro do Universo gritam: "relativismo! relativismo!"
Ah, e tudo isso apenas para dizer que a primavera está chegando em Berlim!
O berlimbo invernoso começa a se transformar, depois de 743 dias de neve, gelo e cinzânsias, os cafés põem novamente nas calçadas as mesas, alguns até ousam expor ao mundo o pescoço, a garganta. A ousadia, coragem de expor ao mundo a garganta.
Definição de poesia para os próximos 23 minutos: "Chacoalhar as águas para aborrecer Narciso."
O modernismo, afinal de contas, não passou de um conflito meteorológico.
Que perdas e ganhos pessoais levam T.S. Eliot a escrever The Waste Land no mesmo momento em que William Carlos Williams escrevia Spring and All? Note, note a diferença dos títulos. Eles viviam na mesma modernidade? Zeitgeist?
"APRIL is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.
Summer surprised us..."
(T.S. Eliot, The Waste Land, 1922)
§
A última réstia de júbilo e primavera em Eliot é uma rima em gerúndios. Eu o perdôo tudo, por causa destes gerúndios,
que mostram que ele ainda respirava o mesmo oxigênio que Stein e Williams. O verão jamais nos poderia surpreender.
§
Lifeless in appearance, sluggish
dazed spring approaches—
They enter the new world naked,
cold, uncertain of all
save that they enter. All about them
the cold, familiar wind—
Now the grass, tomorrow
the stiff curl of wildcarrot leaf
One by one objects are defined—
It quickens: clarity, outline of leaf
But now the stark dignity of
entrance—Still, the profound change
has come upon them: rooted they
grip down and begin to awaken
(William Carlos Williams, Spring and All, 1923)
§
Café nas calçadas. Moços com pescoços. Rapazes com calcanhares.
"Ricardo, o copo está cheio pela metade ou vazio pela metade?"
Cheio. Cheio. Na expectativa do transbordar.
Ainda que pela metade. Água na cintura.
Eu suporto, se vier, uma nova decepção.
Traduzir errado é uma alegria, primavera é um talvez manual.
"Como a água modela o copo."
§
"There is coagulation in cold and there is none in prudence. Something is preserved and the evening is long and the colder spring has sudden shadows in a sun. All the stain is tender and lilacs really lilacs are disturbed. Why is the perfect reestablishment practiced and prized, why is it composed. The result the pure result is juice and size and baking and exhibition and nonchalance and sacrifice and volume and a section in division and the surrounding recognition and horticulture and no murmur. This is a result. There is no superposition and circumstance, there is hardness and a reason and the rest and remainder. There is no delight and no mathematics."
(Gertrude Stein, Tender Buttons, 1914)
§
A terra sobre a qual ajoelha-se Narciso e que este ignora enquanto contempla-se na água.
§
Ah, sim, não se esqueçam que, invariavelmente,
"O céu cai das pombas"
mas podemos, como escreveu Marília Garcia, "ficar no quarto medindo o / nível do mar para descobrir / onde pôr os peixes."
Lembro-me de ler, aos 20 anos, o livro Do Sentimento Trágico da Vida, de Miguel de Unamuno, que me causava redemoinhos na cachimónia mística, em que ele escreve que não são nossas idéias que nos tornam pessimistas ou otimistas, mas nosso otimismo ou pessimismo vem a definir que idéias teremos ou aceitaremos. Ignorando por ora o dualismo típico dos primeiros modernistas, esta afirmação ficou em algum canto do crânio. Nossa disposição estabelecendo a posição e ângulo de nosso monóculo? Mas Unamuno também escreveu: "Consciência, conscientia, é conhecimento partilhado, é consentimento, e con-sentir é con-padecer."
Como se os milhões de umbigos garantissem a descentralização do universo? Houve um tempo em que acreditava que os heterônimos de Fernando Pessoa eram sua estratégia para um realismo descentralizado. Talvez. É um ângulo, uma perspectiva. No entanto, mesmo o plural Murilo Mendes observou o caos por uma única janela. Proposição de forma convincente, em minha opinião, por Wittgenstein, ao escrever no Tractatus Logico-Philosophicus que “o eu entra na filosofia pela via de que o ‘mundo é meu mundo’.”
Enquanto muitos poetas buscam a tal da objetividade, seus sujeitos lavram atas de possessão do mundo, cartografando o universo por seus monóculos.
"& a cidade não é o
mapa mas o mapa
está correto
pois entre os sujeitos
que o
parto consagra estão
apenas os sujeitos com
corpo"
(a cadela sem Logos, 2007)
O inevitável. O inescapável. Colonialismo perceptivo dos alephianos. Portanto, expor o imposto.
"o mono-
lítico, falo: eu
sujeito a objeções"
(Sons: Arranjo: Garganta, no prelo)
Como um minimalismo que propusesse ao poeta a precariedade da sua visão, a unilateral. Aceitação da pele como parte da equação.
Fácil despencar em solipsismo, sim. Mas é a alegria difícil. “Aquele que conhece todo o resto sem ser ele mesmo conhecido é o sujeito", disse o volitivo Schopenhauer, mas nem mesmo TODO o resto conhece este sujeito limitadíssimo.
Não é narcisismo, pois não se trata de contemplarmos, em apologia, Narciso sobre as águas. Nesta fábula, as águas são a personagem principal. As águas, o limite, “o eu filosófico não é o homem, não é o corpo humano, ou a alma humana, de que trata a psicologia, mas o sujeito metafísico, o limite – não uma parte do mundo.”
Mundo como questão de temperamento?
Foi Lyotard que propôs o fim de nossa crença nas grandes narrativas, que unificavam a percepção discursiva de uma época, como característica de nosso tempo. Mas, os mais inteligentes perguntaram, isso não é também uma "grande narrativa"?
A falácia do Zeitgeist. Quando ouço esta palavra, sinto vontade de perguntar: "Sob que jurisdição?"
Mas os saudosos e nostálgicos da época em que a Terra
era o centro do Universo gritam: "relativismo! relativismo!"
Ah, e tudo isso apenas para dizer que a primavera está chegando em Berlim!
O berlimbo invernoso começa a se transformar, depois de 743 dias de neve, gelo e cinzânsias, os cafés põem novamente nas calçadas as mesas, alguns até ousam expor ao mundo o pescoço, a garganta. A ousadia, coragem de expor ao mundo a garganta.
Definição de poesia para os próximos 23 minutos: "Chacoalhar as águas para aborrecer Narciso."
O modernismo, afinal de contas, não passou de um conflito meteorológico.
Que perdas e ganhos pessoais levam T.S. Eliot a escrever The Waste Land no mesmo momento em que William Carlos Williams escrevia Spring and All? Note, note a diferença dos títulos. Eles viviam na mesma modernidade? Zeitgeist?
"APRIL is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.
Summer surprised us..."
(T.S. Eliot, The Waste Land, 1922)
§
A última réstia de júbilo e primavera em Eliot é uma rima em gerúndios. Eu o perdôo tudo, por causa destes gerúndios,
que mostram que ele ainda respirava o mesmo oxigênio que Stein e Williams. O verão jamais nos poderia surpreender.
§
Lifeless in appearance, sluggish
dazed spring approaches—
They enter the new world naked,
cold, uncertain of all
save that they enter. All about them
the cold, familiar wind—
Now the grass, tomorrow
the stiff curl of wildcarrot leaf
One by one objects are defined—
It quickens: clarity, outline of leaf
But now the stark dignity of
entrance—Still, the profound change
has come upon them: rooted they
grip down and begin to awaken
(William Carlos Williams, Spring and All, 1923)
§
Café nas calçadas. Moços com pescoços. Rapazes com calcanhares.
"Ricardo, o copo está cheio pela metade ou vazio pela metade?"
Cheio. Cheio. Na expectativa do transbordar.
Ainda que pela metade. Água na cintura.
Eu suporto, se vier, uma nova decepção.
Traduzir errado é uma alegria, primavera é um talvez manual.
"Como a água modela o copo."
§
"There is coagulation in cold and there is none in prudence. Something is preserved and the evening is long and the colder spring has sudden shadows in a sun. All the stain is tender and lilacs really lilacs are disturbed. Why is the perfect reestablishment practiced and prized, why is it composed. The result the pure result is juice and size and baking and exhibition and nonchalance and sacrifice and volume and a section in division and the surrounding recognition and horticulture and no murmur. This is a result. There is no superposition and circumstance, there is hardness and a reason and the rest and remainder. There is no delight and no mathematics."
(Gertrude Stein, Tender Buttons, 1914)
§
A terra sobre a qual ajoelha-se Narciso e que este ignora enquanto contempla-se na água.
§
Ah, sim, não se esqueçam que, invariavelmente,
"O céu cai das pombas"
mas podemos, como escreveu Marília Garcia, "ficar no quarto medindo o / nível do mar para descobrir / onde pôr os peixes."
quarta-feira, 11 de março de 2009
Hoje à noite: parte 2

Hoje à noite comemoramos o quarto ano de existência do nosso evento semanal BERLIN HILTON, que iniciou suas atividades em fevereiro de 2005. Foram quatro anos em que tivemos a honra e o prazer de apresentar performances ou DJ sets de alguns de nossos heróis pessoais, como Planningtorock, Le Tigre, Tetine, Apparat, T.Raumschmiere, Kevin Blechdom, Stereo Total, Angie Reed, Mount Sims, CocoRosie, Cantankerous ou Hellvar, entre outros,
assim como mostrar o trabalho de novos artistas, como Barbara Panther, ou novos projetos de pessoas como Florian Puehs, hoje vocalista da banda Herpes.
Quatro anos do coletivo que surgiu em torno desta intervenção semanal, com meus colegas Viktor Neumann e Oliver Krueger aka OL!, além de todos os que colaboram conosco, como Niklas Goldbach, Philipp Sapp aka K.Jell, André Scheffler aka DJ Andre Lange, Jonas Lieder aka Shrivel, Daniel Reuter, Stefan Davids aka Alpha-Nerd, entre outros.
Para a festança de hoje, convidamos os meninos do Lo-Fi-Fnk, de Estocolmo, uma escolha perfeita para uma festa de aniversário, ora.
Marcadores:
berlimbo,
berlin hilton,
florian puehs,
le tigre,
planningtorock
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Heine para punks
Florian Pühs, ex-vocalista da banda Surf Nazis Must Die, atual vocalista da banda Herpes, disse-me uma vez na sala de seu apartamento em Berlim: "Se você quer ler alemães, leia Heine... só Heine."
Quando ele disse isso, não me surpreendi muito. Lembrei-me imediatamente de uma outra situação, em que outro amigo aqui em Berlim disse, quando a conversa descarrilhou para literatura, e então poesia, sem o menor pudor: "Detesto poesia... com Heine como única exceção." Em seu ABC of Reading, se não me engano, Heinrich Heine é um dos poucos alemães a quem Pound menciona com certo apreço.
Não me supreende que Florian Pühs, vocalista e letrista punk, se interesse por Heine e o considere o único poeta alemão legível. Seu exagero tem, obviamente, motivações políticas. Heine foi um dos poetas mais politicamente ativos no século XIX, tornando necessário seu exílio. Foi Heine quem exalou a profética: "Quem queima livros, logo queimará gente", 150 anos antes da Shoah. Além disso, como cantor, Florian Pühs privilegia um poeta-cantor. O "livro das canções" (Buch der Lieder) de Heine ainda é um dos trabalhos poéticos mais lidos na Alemanha.
É interessante que, em outros países, os poetas alemães "privilegiados" sejam os de outra linhagem. Pois, talvez em um mundo de hegemonia literária sobre o poético, unida à busca do que João Cabral de Melo Neto chamava de meditabúndio da poesia profunda, "poeta que canta" tenha se tornado metáfora para o vate apenas, daquele que parece estar sempre a um passo do órfico. E o órfico, em nossa cultura, passou a ser associado a um único ato: a descida ao Hades. Ou seja, na língua alemã, a linhagem de Novalis, Hölderlin, Rilke, Celan.
É como se o mundo esperasse de germânicos que eles se entregassem tão-somente ao metafísico, ao abstrato, ao eixo da transcendência, nunca ao plano da carnalidade.
No entanto, existe toda uma linhagem da poesia germânica que é extremamente telúrica, corporal, do poeta que canta com a garganta de carne e sangue, sobre um mundo terrestre, terreno, terráqueo (e nem por isso menos terrível). É a linhagem, confesso, que eu mais amo neste país, a dos minnesänger (a versão germânica do trovador), como Walther von der Vogelweide (c. 1170 - c. 1230), assim como algo desta tradição se manteve viva em Heinrich Heine, poeta telúrico, como eram telúricos Christian Morgenstern, Hans Arp, Bertolt Brecht (sem mencionar seu trabalho com Kurt Weill), H.C. Artmann ou Rolf Dieter Brinkmann.
Florian Pühs apresenta-se hoje em nossa intervenção semanal Berlin Hilton, com sua banda Herpes. Uma das minhas canções favoritas de sua banda chama-se "Neue Dresdener Schule", em que Puehs toma os primeiros versos do poema "Nachtgedanken", de Heine: "Denk ich an Deutschland in der Nacht / Dann bin ich um den Schlaf gebracht", versos tristes e ambíguos de Heine, em que a idéia de "pensar na Alemanha à noite" traz tanto o sonho, quanto o pesadelo, com "todos os que afundam às covas", como escreve Heine adiante, no poema. O contexto político da escrita de Heine desapareceu, mas repetir-se-ia de forma constante nas décadas e décadas que se seguiram na Alemanha.
Florian Pühs reatualiza o contexto político, retirando do poema, no entanto, toda nostalgia de exilado, fazendo da canção algo de resistência interna, daquele que fica para resistir à "Vaterland", dando à canção, com sarcasmo, o nome de "Neue Dresdener Schule", como é conhecida certa associação alemã em que resistem ideais fascistas.
(HERPES - "Neue Dresdener Schule",
gravado em Leipzig, janeiro de 2009)
Hoje à noite, na Berlin Hilton:
Quando ele disse isso, não me surpreendi muito. Lembrei-me imediatamente de uma outra situação, em que outro amigo aqui em Berlim disse, quando a conversa descarrilhou para literatura, e então poesia, sem o menor pudor: "Detesto poesia... com Heine como única exceção." Em seu ABC of Reading, se não me engano, Heinrich Heine é um dos poucos alemães a quem Pound menciona com certo apreço.
Não me supreende que Florian Pühs, vocalista e letrista punk, se interesse por Heine e o considere o único poeta alemão legível. Seu exagero tem, obviamente, motivações políticas. Heine foi um dos poetas mais politicamente ativos no século XIX, tornando necessário seu exílio. Foi Heine quem exalou a profética: "Quem queima livros, logo queimará gente", 150 anos antes da Shoah. Além disso, como cantor, Florian Pühs privilegia um poeta-cantor. O "livro das canções" (Buch der Lieder) de Heine ainda é um dos trabalhos poéticos mais lidos na Alemanha. É interessante que, em outros países, os poetas alemães "privilegiados" sejam os de outra linhagem. Pois, talvez em um mundo de hegemonia literária sobre o poético, unida à busca do que João Cabral de Melo Neto chamava de meditabúndio da poesia profunda, "poeta que canta" tenha se tornado metáfora para o vate apenas, daquele que parece estar sempre a um passo do órfico. E o órfico, em nossa cultura, passou a ser associado a um único ato: a descida ao Hades. Ou seja, na língua alemã, a linhagem de Novalis, Hölderlin, Rilke, Celan.
É como se o mundo esperasse de germânicos que eles se entregassem tão-somente ao metafísico, ao abstrato, ao eixo da transcendência, nunca ao plano da carnalidade.
No entanto, existe toda uma linhagem da poesia germânica que é extremamente telúrica, corporal, do poeta que canta com a garganta de carne e sangue, sobre um mundo terrestre, terreno, terráqueo (e nem por isso menos terrível). É a linhagem, confesso, que eu mais amo neste país, a dos minnesänger (a versão germânica do trovador), como Walther von der Vogelweide (c. 1170 - c. 1230), assim como algo desta tradição se manteve viva em Heinrich Heine, poeta telúrico, como eram telúricos Christian Morgenstern, Hans Arp, Bertolt Brecht (sem mencionar seu trabalho com Kurt Weill), H.C. Artmann ou Rolf Dieter Brinkmann.Florian Pühs apresenta-se hoje em nossa intervenção semanal Berlin Hilton, com sua banda Herpes. Uma das minhas canções favoritas de sua banda chama-se "Neue Dresdener Schule", em que Puehs toma os primeiros versos do poema "Nachtgedanken", de Heine: "Denk ich an Deutschland in der Nacht / Dann bin ich um den Schlaf gebracht", versos tristes e ambíguos de Heine, em que a idéia de "pensar na Alemanha à noite" traz tanto o sonho, quanto o pesadelo, com "todos os que afundam às covas", como escreve Heine adiante, no poema. O contexto político da escrita de Heine desapareceu, mas repetir-se-ia de forma constante nas décadas e décadas que se seguiram na Alemanha.
Florian Pühs reatualiza o contexto político, retirando do poema, no entanto, toda nostalgia de exilado, fazendo da canção algo de resistência interna, daquele que fica para resistir à "Vaterland", dando à canção, com sarcasmo, o nome de "Neue Dresdener Schule", como é conhecida certa associação alemã em que resistem ideais fascistas.
(HERPES - "Neue Dresdener Schule",
gravado em Leipzig, janeiro de 2009)
Hoje à noite, na Berlin Hilton:
Marcadores:
anti-fascismo,
berlimbo,
florian puehs,
florian pühs,
herpes,
política,
pühs,
punk germânico
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Dormitando na banheira quente ou meditação com chá de hortelã
Quatro auto-propostas de meditação para a tarde do meu sábado, congeminadas na banheira após excessos possessos de uma noturníssima sexta-feira no Berlimbo:
§- Ao bom imputador, vazio de o é letra.
§- Os únicos verdadeiramente capazes do discurso diacrônico: Deus e Funes, o memorioso.
§- Nós, os de corpos biodegradáveis e esquecimentos à ponta da língua, os condenados aos nós da sincronia: a seleção artificial na arena dos gladiadores, na teia da aranha que embalsama a ração para sua futura geração.
§- Cânone, meu querido inutilíssimo, improfícuo e baldado, quem dera fosses o trigo do joio, quando suspeito em tutano que indicas em teus índices apenas política e pedagogia: cartilha para castelos de cartas, costelas de castas.
Agora, ao café!
§- Ao bom imputador, vazio de o é letra.
§- Os únicos verdadeiramente capazes do discurso diacrônico: Deus e Funes, o memorioso.
§- Nós, os de corpos biodegradáveis e esquecimentos à ponta da língua, os condenados aos nós da sincronia: a seleção artificial na arena dos gladiadores, na teia da aranha que embalsama a ração para sua futura geração.
§- Cânone, meu querido inutilíssimo, improfícuo e baldado, quem dera fosses o trigo do joio, quando suspeito em tutano que indicas em teus índices apenas política e pedagogia: cartilha para castelos de cartas, costelas de castas.
Agora, ao café!
Marcadores:
berlimbo,
diário,
meditations in an emergency
Assinar:
Postagens (Atom)
Mais ou menos de mim
Projetos Paralelos
Leituras de companheiros
- Adelaide Ivánova
- Adriana Lisboa
- Alejandro Albarrán
- Alexandra Lucas Coelho
- Amalia Gieschen
- Amina Arraf (Gay Girl in Damascus)
- Ana Porrúa
- Analogue Magazine
- André Costa
- André Simões (traduções de poetas árabes)
- Angaangaq Angakkorsuaq
- Angélica Freitas
- Ann Cotten
- Anna Hjalmarsson
- Antoine Wauters
- António Gregório (Café Centralíssimo)
- Antônio Xerxenesky
- Aníbal Cristobo
- Arkitip Magazine
- Art In America Magazine
- Baga Defente
- Boris Crack
- Breno Rotatori
- Brian Kenny (blog)
- Brian Kenny (website)
- Bruno Brum
- Bruno de Abreu
- Caco Ishak
- Carlito Azevedo
- Carlos Andrea
- Cecilia Cavalieri
- Cory Arcangel
- Craig Brown (Common Dreams)
- Cristian De Nápoli
- Cultura e barbárie
- Cus de Judas (Nuno Monteiro)
- Damien Spleeters
- Daniel Saldaña París
- Daniel von Schubhausen
- Dennis Cooper
- Dimitri Rebello
- Dirceu Villa
- Djoh Wakabara
- Dorothee Lang
- Douglas Diegues
- Douglas Messerli
- Dummy Magazine
- Eduard Escoffet
- Erico Nogueira
- Eugen Braeunig
- Ezequiel Zaidenwerg
- Fabiano Calixto
- Felipe Gutierrez
- Florian Puehs
- Flávia Cera
- Franklin Alves Dassie
- Freunde von Freunden
- Gabriel Pardal
- Girl Friday
- Gláucia Machado
- Gorilla vs. Bear
- Guilherme Semionato
- Heinz Peter Knes
- Hilda Magazine
- Homopunk
- Hugo Albuquerque
- Hugo Milhanas Machado
- Héctor Hernández Montecinos
- Idelber Avelar
- Isabel Löfgren
- Ismar Tirelli Neto
- Jan Wanggaard
- Jana Rosa
- Janaina Tschäpe
- Janine Rostron aka Planningtorock
- Jay Bernard
- Jeremy Kost
- Jerome Rothenberg
- Jill Magi
- Joca Reiners Terron
- John Perreault
- Jonas Lieder
- Jonathan William Anderson
- Joseph Ashworth
- Joseph Massey
- José Geraldo (Paranax)
- João Filho
- Juliana Amato
- Juliana Bratfisch
- Juliana Krapp
- Julián Axat
- Jörg Piringer
- K. Silem Mohammad
- Katja Hentschel
- Kenneth Goldsmith
- Kátia Borges
- Leila Peacock
- Lenka Clayton
- Leo Gonçalves
- Leonardo Martinelli
- Lucía Bianco
- Luiz Coelho
- Lúcia Delorme
- Made in Brazil
- Maicknuclear de los Santos Angeles
- Mairéad Byrne
- Marcelo Krasilcic
- Marcelo Noah
- Marcelo Sahea
- Marcos Tamamati
- Marcus Fabiano Gonçalves
- Mariana Botelho
- Marius Funk
- Marjorie Perloff
- Marley Kate
- Marília Garcia
- Matt Coupe
- Miguel Angel Petrecca
- Monika Rinck
- Mário Sagayama
- Más Poesía Menos Policía
- N + 1 Magazine
- New Wave Vomit
- Niklas Goldbach
- Nikolai Szymanski
- Nora Fortunato
- Nora Gomringer
- Odile Kennel
- Ofir Feldman
- Oliver Krueger
- Ondas Literárias - Andréa Catrópa
- Pablo Gonçalo
- Pablo León de la Barra
- Paper Cities
- Patrícia Lino
- Paul Legault
- Paula Ilabaca
- Paulo Raviere
- Pitchfork Media
- Platform Magazine
- Priscila Lopes
- Priscila Manhães
- Pádua Fernandes
- Rafael Mantovani
- Raymond Federman
- Reuben da Cunha Rocha
- Ricardo Aleixo
- Ricardo Silveira
- Rodrigo Damasceno
- Rodrigo Pinheiro
- Ron Silliman
- Ronaldo Bressane
- Ronaldo Robson
- Roxana Crisólogo
- Rui Manuel Amaral
- Ryan Kwanten
- Sandra Santana
- Sandro Ornellas
- Sascha Ring aka Apparat
- Sergio Ernesto Rios
- Sil (Exausta)
- Slava Mogutin
- Steve Roggenbuck
- Sylvia Beirute
- Synthetic Aesthetics
- Tazio Zambi
- Tetine
- The L Magazine
- The New York Review of Books
- Thiago Cestari
- This Long Century
- Thurston Moore
- Timo Berger
- Tom Beckett
- Tom Sutpen (If Charlie Parker Was a Gunslinger, There'd Be a Whole Lot of Dead Copycats)
- Trabalhar Cansa - Blogue de Poesia
- Tracie Morris
- Tô gato?
- Uma Música Por Dia (Guilherme Semionato)
- Urbano Erbiste
- Victor Heringer
- Victor Oliveira Mateus
- Walter Gam
- We Live Young, by Nirrimi Hakanson
- Whisper
- Wir Caetano
- Wladimir Cazé
- Yang Shaobin
- Yanko González
- You Are An Object
- Zane Lowe

