USA: POETRY, FRANK O'HARA (1966) 16mm, 15 minutes, dir. Richard O. Moore (courtesy Thirteen/WNET New York, Richard O. Moore and the Estate of Frank O'Hara).
Um selinho mais doce que doce ambrosia,
Juvêncio, te roubei quando brincavas.
Mas não impunemente: pois da cruz mais alta
me vejo, há uma hora ou mais, pendido
pedindo-te perdão, e sem que minhas lágrimas
consigam aplacar a tua ira.
Assim que te beijei, teus dedos delicados
te lavaram o lábio com gotículas,
de modo que do meu no teu não resta nada,
pois julgaste ser mijo, não saliva.
Desde então me castigas com um amor negado,
e de tantas maneiras me excrucias,
que vejo, então, mudado o beijo de ambrosia
em amargor pior que o mesmo amargo;
por um selinho amor assim me castigou:
o que faria, ai, ai, se fossem dois?
(tradução de Érico Nogueira)
§
A origem
Konstantínos Kaváfis
Consumara-se o prazer ilícito.
Ergueram-se ambos do catre humilde.
À pressa se vestiram, sem falar.
Saíram separados, furtivamente;
e, ao caminhar inquietos pela rua,
como que receavam que algo neles traísse
em que espécie de amor há pouco se deitavam.
Mas quanto assim ganhou a vida do poeta!
Amanhã, depois, anos depois, serão
escritos os versos de que é esta a origem.
(tradução de Jorge de Sena).
§
Excerpt fromLifting belly
Gertrude Stein
Kiss my lips. She did.
Kiss my lips again she did.
Kiss my lips over and over and over again she did.
I have feathers.
Gentle fishes.
Do you think about apricots. We find them very beautiful. It is not alone their color it is their seeds that charm us. We find it a change.
Lifting belly is so strange.
I came to speak about it.
Selected raisins well their grapes grapes are good.
Change your name.
Question and garden.
It's raining. Don't speak about it.
My baby is a dumpling. I want to tell her something. Wax candles. We have bought a great many wax candles. Some are decorated. They have not been lighted.
I do not mention roses.
Exactly.
Actually.
Question and butter.
I find the butter very good.
Lifting belly is so kind.
Lifting belly fattily.
Doesn't that astonish you.
You did want me.
Say it again.
Strawberry.
Lifting beside belly.
Lifting lindly belly.
Sing to me I say.
Some are wives not heroes.
Lifting belly merely.
Sing to me I say.
Lifting belly. A reflection.
Lifting belly adjoins more prizes.
Fit to be.
I have fit on a hat.
Have you.
What did you say to excuse me. Difficult paper and scattered.
Lifting belly is so kind.
§
A um papa
Pier Paolo Pasolini
Poucos dias antes de morreres, a morte
pousou os olhos em alguém da tua idade:
aos vinte anos, tu estudavas, ele era pedreiro,
tu, nobre, rico, ele, um rapazote plebeu:
mas os mesmos dias douraram sobre vós
a velha Roma, voltando a dar-lhe a sua juventude.
Vi os seus despojos, pobre Zucchetto.
Andava de noite, bêbado, à volta dos Mercados,
e um eléctrico que vinha de San Paolo atropelou-o
e arrastou-o por uns metros de carris no meio dos plátanos:
durante umas horas ficou ali, sob o rodado:
poucas pessoas se juntaram em redor, olhando-o,
em silêncio: já era tarde, havia pouca gente.
Um dos homens que existem para que tu existas,
um velho polícia, desbocado como todos os patifes,
gritava aos que se aproximavam mais: «Larguem-lhe os colhões!»
Depois veio uma ambulância buscá-lo:
as pessoas desapareceram, só ficaram uns grupos aqui e acolá,
e, mais à frente, a dona de um cabaré,
que o conhecia, disse a um recém-chegado
que Zucchetto tinha ficado debaixo de um eléctrico, que estava morto.
Poucos dias depois, morrias tu: Zucchetto era um
dos do teu grande rebanho romano e humano,
um pobre bêbado, sem família nem leito,
que andava de noite, vivendo ao deus-dará.
Tu ignoravas: como ignoravas
outros milhares e milhares de cristos como ele.
Talvez seja cruel ao perguntar por que razão
a gente como Zucchetto é indigna do teu amor.
Há lugares infames, onde mães e filhos
vivem na poeira antiga, na lama de outras eras.
Não muito longe de onde tu viveste,
à vista da bela cúpula de San Pietro,
fica um desses lugares, o Gelsomino...
Um monte cortado ao meio por uma pedreira, e no sopé,
entre um charco e uma fieira de prédios novos,
um montão de tugúrios miseráveis, não casas mas pocilgas.
Bastava um gesto teu, uma palavra,
para esses teus filhos terem uma casa:
nunca fizeste um gesto, nunca disseste uma palavra.
Ninguém te pedia que perdoasses Marx! Uma vaga
imensa que irrompe sobre milénios de vida
te separava dele, da sua religião:
mas não se fala, na tua religião, de piedade?
Milhares de homens sob o teu pontificado,
diante dos teus olhos, viveram em estábulos e pocilgas.
Tu sabias que pecar não é fazer o mal:
não fazer o bem, isso sim, é que é pecar.
Quanto bem podias tu ter feito! E não fizeste:
não houve quem mais pecasse do que tu.
(Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)
§
A piedade
Roberto Piva
Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
dos meus sonhos
§
Poema
Frank O´Hara
Há dias em que sinto exalar uma fina poeira como aquela atribuída a Pilades na famosa Chronica nera areopagitica ao ser descoberta
e é porque um arqueólogo adentrou a câmara secreta do meu peito e chacoalhou o papel que carrega seu nome
Não gosto deste estranho espirrando sobre nosso amor.
(tradução de Ricardo Domeneck)
§
Poema
Juan Carlos Bautista
Puto decía en las frentes,
puto en las paredes pompeyanas del inodoro,
puto en las manos cebosas
y en los muros ignorados, escrito con odio:
pe de puto en los ojos cuando hacían esas hipérboles,
esas elipsis.
cuando se iban al techo, a la nuca,
la niña desmayada entre secreciones y ronca risa:
puto en esas visiones repentinas,
en esos gestos movedizos,
en la cadera, su abrupta estatua,
sus lentas, desaforadas descripciones:
puto en la locura doliente desde los ojos
como pájaros escapándose
a un cielo que respira su trágico y su cómico,
y se deja caer por el lujo de contemplarse en esa prisa:
y el dedo que rayaba las sábanas,
tan triste y tan digno,
luego removiéndose entre risas,
detenido en el aire, diciéndolo:
"pues sí,
morena (y puto) soy porque el sol me quemó,
¡oh, hijas de israel¡
§
Uma Arte
Elizabeth Bishop
A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.
(tradução de Paulo Henriques Britto)
:
One Art
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
§
De profundis amamus
Mario Cesariny
Ontem às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
é há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso
§
1955
Salvador Novo
Al poema confío la pena de perderte.
He de lavar mis ojos de los azules tuyos,
faros que prolongaron mi naufragio.
He de coger mi vida desecha entre tus manos,
leve jirón de niebla
que el viento entre sus alas efímeras dispersa.
Vuelva la noche a mí, muda y eterna,
del diálogo privada de soñarte,
indiferente a un día
que ha de hallarnos ajenos y distantes.
§
Uma litania para a sobrevivência
Audre Lorde
Para aqueles entre nós que vivem no litoral
em pé frente às arestas constantes da decisão
cruciais e sós
para aqueles entre nós que não podem dar-se ao luxo
dos sonhos passageiros da decisão
que amam de passagem por soleiras
nas horas entre auroras
olhando para dentro e para fora
no instante antes e depois
buscando um agora que possa gerar
futuros
como pão na boca de nossos filhos
para que seus sonhos não reflitam
a nossa morte:
Para aqueles entre nós
que foram impressos com o medo
como uma linha tênue no centro de nossas testas
aprendendo a temer com o leite de nossas mães
pois por esta arma
esta ilusão de alguma segurança a ser achada
os de passos pesados esperavam silenciar-nos
Para todos nós
esse instante e esse triunfo
Nunca fomos destinados a sobreviver.
E quando o sol se ergue temos medo
que talvez não permaneça
quando o sol se põe temos medo
que talvez não se erga de manhã
quando nossos estômagos estão cheios temos medo
da indigestão
quando nossos estômagos estão vazios temos medo
que talvez nunca mais comamos
quando nós amamos temos medo
que o amor desaparecerá
quando estamos sós temos medo
que o amor jamais voltará
e quando falamos temos medo
que nossas palavras não sejam ouvidas
nem benvindas
mas quando estamos em silêncio
ainda assim temos medo
Então é melhor falar
lembrando-nos
de que nunca fomos destinados a sobreviver
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
A litany for survival
Audre Lorde
For those of us who live at the shoreline
standing upon the constant edges of decision
crucial and alone
for those of us who cannot indulge
the passing dreams of choice
who love in doorways coming and going
in the hours between dawns
looking inward and outward
at once before and after
seeking a now that can breed
futures
like bread in our children's mouths
so their dreams will not reflect
the death of ours:
For those of us
who were imprinted with fear
like a faint line in the center of our foreheads
learning to be afraid with our mother's milk
for by this weapon
this illusion of some safety to be found
the heavy-footed hoped to silence us
For all of us
this instant and this triumph
We were never meant to survive.
And when the sun rises we are afraid
it might not remain
when the sun sets we are afraid
it might not rise in the morning
when our stomachs are full we are afraid
of indigestion
when our stomachs are empty we are afraid
we may never eat again
when we are loved we are afraid
love will vanish
when we are alone we are afraid
love will never return
and when we speak we are afraid
our words will not be heard
nor welcomed
but when we are silent
we are still afraid
So it is better to speak
remembering
we were never meant to survive
§
Por qué seremos tan hermosas
Néstor Perlongher
Por qué seremos tan perversas, tan mezquinas
(tan derramadas, tan abiertas)
y abriremos la puerta de calle
al monstruo que mora en las esquina,
o sea el cielo como una explosión de vaselina
como un chisporroteo,
como un tiro clavado en la nalguicie.
Por qué seremos tan sentadoras, tan bonitas
los llamaremos por sus nombres
cuando todos nos sienten
(o sea, cuando nadie nos escucha)
Por qué seremos tan pizpiretas, charlatanas
tan solteronas, tan dementes
Por qué estaremos en esa densa fronda
agitando la intimidad de las malezas
como una blandura escandalosa cuyos vellos
se agitan muellemente
al ritmo de una música tropical, brasilera.
Por qué seremos tan disparatadas y brillantes
abordaremos con tocado de plumas el latrocinio
desparramando gráciles sentencias
que no retrasarán la salva, no
pero que al menos permitirán guiñarle el ojo al fusilero
Por qué seremos tan despatarradas, tan obesas
sorbiendo en lentas aspiraciones
el zumo de las noches peligrosas
tan entregadas, tan masoquistas,
tan hedonísticamente hablando
Por qué seremos tan gozosas, tan gustosas
que no nos bastará el gesto airado del muchacho,
su curvada muñeca:
pretenderemos desollar su cuerpo
y extraer las secretas esponjas de la axila
tan denostadas, tan groseras
Por qué creeremos en la inmediatez,
en la proximidad de los milagros
circuidas de coros de vírgenes bebidas y asesinos dichosos
tan arriesgadas, tan audaces
pringando de dulces cremas los tocadores
cachando, curioseando.
Por qué seremos tan superficiales, tan ligeras
encantadas de ahogarnos en las pieles
que nos recuerdan animales pavorosos y extintos,
fogosos, gigantescos.
Por qué seremos tan sirenas, tan reinas
abroqueladas por los infinitos marasmos del romanticismo
tan lánguidas, tan magras
Por qué tan quebradizas las ojeras, tan pajiza la ojeada
tan de reaparecer en los estanques donde hubimos de hundirnos
salpicando, chorreando la felonía de la vida
tan nauseabunda, tan errática.
§
Diving into the Wreck
Adrienne Rich
First having read the book of myths,
and loaded the camera,
and checked the edge of the knife-blade,
I put on
the body-armor of black rubber
the absurd flippers
the grave and awkward mask.
I am having to do this
not like Cousteau with his
assiduous team
aboard the sun-flooded schooner
but here alone.
There is a ladder.
The ladder is always there
hanging innocently
close to the side of the schooner.
We know what it is for,
we who have used it.
Otherwise
it is a piece of maritime floss
some sundry equipment.
I go down.
Rung after rung and still
the oxygen immerses me
the blue light
the clear atoms
of our human air.
I go down.
My flippers cripple me,
I crawl like an insect down the ladder
and there is no one
to tell me when the ocean
will begin.
First the air is blue and then
it is bluer and then green and then
black I am blacking out and yet
my mask is powerful
it pumps my blood with power
the sea is another story
the sea is not a question of power
I have to learn alone
to turn my body without force
in the deep element.
And now: it is easy to forget
what I came for
among so many who have always
lived here
swaying their crenellated fans
between the reefs
and besides
you breathe differently down here.
I came to explore the wreck.
The words are purposes.
The words are maps.
I came to see the damage that was done
and the treasures that prevail.
I stroke the beam of my lamp
slowly along the flank
of something more permanent
than fish or weed
the thing I came for:
the wreck and not the story of the wreck
the thing itself and not the myth
the drowned face always staring
toward the sun
the evidence of damage
worn by salt and away into this threadbare beauty
the ribs of the disaster
curving their assertion
among the tentative haunters.
This is the place.
And I am here, the mermaid whose dark hair
streams black, the merman in his armored body.
We circle silently
about the wreck
we dive into the hold.
I am she: I am he
whose drowned face sleeps with open eyes
whose breasts still bear the stress
whose silver, copper, vermeil cargo lies
obscurely inside barrels
half-wedged and left to rot
we are the half-destroyed instruments
that once held to a course
the water-eaten log
the fouled compass
We are, I am, you are
by cowardice or courage
the one who find our way
back to this scene
carrying a knife, a camera
a book of myths
in which
our names do not appear.
§
Viðrar vel til loftárása (Clima bom para um bombardeio)
Jón Þór Birgisson (Sigur Rós)
Na última postagem, comentei um pouco e mostrei o original e algumas versões de uma das minhas canções favoritas, "Song to the siren", de Tim Buckley (1947 - 1975), composta em parceria com o poeta Larry Beckett. O que não comentei é que esta canção sempre me lembra e acaba entrando, dentro da minha cabeça e em minha garganta, em diálogo com um dos meus poemas favoritos de Frank O´Hara, "To the harbormaster", publicado em Meditations in an emergency (New York: Grove Press, 1957). Tanto o poema como a canção entregam-se a um trabalho metafórico em que a linguagem das embarcações e das águas transformam-se em canto amoroso. Eu sempre acreditei que este tipo de linguagem tem tanto efeito sobre nós porque ainda ecoa dentro da água do nosso corpo a jornada de Ulisses e, ainda mais forte, o Nekuia homérico. A nós lusófonos há ainda o ecoar dos cantos de Camões e todos os diálogos de poetas posteriores com o texto do épico português, chegando à mística de Fernando Pessoa em Mensagem (1934) e a de Jorge de Lima em Invenção de Orfeu (1952). A base dessa potência aquosa em nossas poéticas talvez resida, por fim, na fonte mítica das águas como caos primordial do qual emerge toda ordem, como Mircea Eliade descreve em quase todos os seus livros. Daí a mística do batismo como morte e renascimento, retorno ao caos original e ressurgir, não apenas lavado, mas reconstruído, não apenas limpo, mas novo. Isso é fundador em meus poemas da Carta aos anfíbios (como o título já indica) ou mesmo em vários momentos de a cadela sem Logos.
difícil convencer todas as partes do meu corpo do sentido de uma ação e assim pôr em movimento as roldanas da corpulência em direção ao abstrato cruzar o oceano tantas vezes umedece os propósitos faz querer uma cama no fundo não não é irônico que bas jan ader in search of the miraculous afunde desapareça em meio oceano
(a cadela sem Logos, SP: Cosac Naify, 2007)
Lembro-me de ir a uma homenagem a Camões na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, na qual Arnaldo Antunes oralizou a tradução (creio que de Haroldo de Campos e Augusto de Campos) para o "Canto I" dos Cantares de Ezra Pound, que por sua vez era a tradução do americano para a tradução para o latim, de Andreas Divus, do "Canto XI" da Odisséia. Lembro-me de ter sentido as águas do Caos Primordial batendo contra o casco do meu crânio. Se você nunca leu este canto de abertura do épico de Pound, recolha a âncora e lance-se ao mar, lendo-o ao fim desta postagem.
Ontem e hoje, enquanto ouvia Tim Buckley de forma obsessiva durante o dia, decidi começar a traduzir aquele poema favorito que mencionei acima, "To the harbormaster", de O´Hara, que você pode ler agora no original:
To the harbormaster
Frank O´Hara
I wanted to be sure to reach you; though my ship was on the way it got caught in some moorings. I am always tying up and then deciding to depart. In storms and at sunset, with the metallic coils of the tide around my fathomless arms, I am unable to understand the forms of my vanity or I am hard alee with my Polish rudder in my hand and the sun sinking. To you I offer my hull and the tattered cordage of my will. The terrible channels where the wind drives me against the brown lips of the reeds are not all behind me. Yet I trust the sanity of my vessel; and if it sinks, it may well be in answer to the reasoning of the eternal voices, the waves which have kept me from reaching you.
Há algo de extremamente simples neste poema, que parece ressoar em algum ponto muito primordial dentro de nossa poeticidade. Para mim, "To / you I offer my hull and the tattered cordage of my will" é uma coisa muita linda. Sempre gostei de repetir para mim mesmo, em momentos de sufoco, o verso "Yet / I trust the sanity of my vessel;"
Mostro a vocês minha tentativa de tradução.
Ao capitão do porto
Quis certificar-me que eu chegaria a você;
embora minha nau estivesse a caminho, embaraçou-se
em certas amarras. Estou sempre a ancorar-me
e então decidindo partir. Em tormentas e
no ocaso, com as bobinas metálicas da maré
cercando meus braços abissais, sou incapaz
de entender as formas de minha vaidade
ou mal estou a sotavento com o leme
à mão e o sol a se por. A você
ofereço meu casco e o cordame esfarrapado
de meu querer. Os canais aterradores onde
o vento me lança contra os lábios barrentos
dos juncos ainda não ficaram para trás. Mesmo
assim, confio na sanidade de minha embarcação;
e se naufragar, tanto poderá ser em resposta
ao raciocínio das vozes eternas,
as ondas que me impediram de chegar a você.
(tradução de Ricardo Domeneck)
Impossível traduzir este poema sem que as águas se agitem dentro de mim. Impossível é também escrever "A você / ofereço meu casco e o cordame esfarrapado / de meu querer" sem fazer dele este você, impossível sussurrar estas palavras sem que eu pense nele; e ainda que ele esteja na mesma cidade, é como se estivesse tão longe. Um dia sem sua voz e a cada toque do telefone a decepção de não ser ele que fala do outro lado. Que o visor dos celulares hoje em dia mostre o número e identidade de quem liga apenas acelera as decepções. Então eu canto com Tim Buckley, porque cada segundo de espera pela sua voz é como se ela dissesse apenas como na canção, "Touch me not, touch me not, / Come back tomorrow"; ah, moço!, moço, my heart / shies from the sorrow. Moço, quem me dera você fosse lusófono, para eu cantar um Vinícius de Moraes ou Chico Buarque ao pé do seu ouvido, com metáforas marítimas, cantarolando de "Metade de mim" que você leve os teus sinais, que a saudade dói como um barco, que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais. Faz só 24 horas que não vejo você, e já o medo, medo, medo, medo do que uma semana, um mês fariam de mim. Esta postagem era para ser toda literária e crítica, toda intelectualóide, mas você entrou nela, como entra em tudo.
Ah, amar um não-lusófono, para quem eu não posso cantar isso:
O que mais eu posso dizer, Moço?
Sem você, só me restaria a catabase.
E aqueles que quisessem falar comigo, só através do Nekuia. Posso ousar escrever aqui uma linha digna de cartão para dia nos namorados?
Moço, amar é ter a quem se agarrar durante o Dilúvio.
§
Canto I
Ezra Pound
And then went down to the ship, Set keel to breakers, forth on the godly sea, and We set up mast and sail on that swart ship, Bore sheep aboard her, and our bodies also Heavy with weeping, and winds from sternward Bore us onward with bellying canvas, Circe's this craft, the trim-coifed goddess. Then sat we amidships, wind jamming the tiller, Thus with stretched sail, we went over sea till day's end. Sun to his slumber, shadows o'er all the ocean, Came we then to the bounds of deepest water, To the Kimmerian lands, and peopled cities Covered with close-webbed mist, unpierced ever With glitter of sun-rays Nor with stars stretched, nor looking back from heaven Swartest night stretched over wreteched men there. The ocean flowing backward, came we then to the place Aforesaid by Circe. Here did they rites, Perimedes and Eurylochus, And drawing sword from my hip I dug the ell-square pitkin; Poured we libations unto each the dead, First mead and then sweet wine, water mixed with white flour Then prayed I many a prayer to the sickly death's-heads; As set in Ithaca, sterile bulls of the best For sacrifice, heaping the pyre with goods, A sheep to Tiresias only, black and a bell-sheep. Dark blood flowed in the fosse, Souls out of Erebus, cadaverous dead, of brides Of youths and of the old who had borne much; Souls stained with recent tears, girls tender, Men many, mauled with bronze lance heads, Battle spoil, bearing yet dreory arms, These many crowded about me; with shouting, Pallor upon me, cried to my men for more beasts; Slaughtered the herds, sheep slain of bronze; Poured ointment, cried to the gods, To Pluto the strong, and praised Proserpine; Unsheathed the narrow sword, I sat to keep off the impetuous impotent dead, Till I should hear Tiresias. But first Elpenor came, our friend Elpenor, Unburied, cast on the wide earth, Limbs that we left in the house of Circe, Unwept, unwrapped in the sepulchre, since toils urged other. Pitiful spirit. And I cried in hurried speech: "Elpenor, how art thou come to this dark coast? "Cam'st thou afoot, outstripping seamen?" And he in heavy speech: "Ill fate and abundant wine. I slept in Crice's ingle. "Going down the long ladder unguarded, "I fell against the buttress, "Shattered the nape-nerve, the soul sought Avernus. "But thou, O King, I bid remember me, unwept, unburied, "Heap up mine arms, be tomb by sea-bord, and inscribed: "A man of no fortune, and with a name to come. "And set my oar up, that I swung mid fellows."
And Anticlea came, whom I beat off, and then Tiresias Theban, Holding his golden wand, knew me, and spoke first: "A second time? why? man of ill star, "Facing the sunless dead and this joyless region? "Stand from the fosse, leave me my bloody bever "For soothsay." And I stepped back, And he strong with the blood, said then: "Odysseus "Shalt return through spiteful Neptune, over dark seas, "Lose all companions." Then Anticlea came. Lie quiet Divus. I mean, that is Andreas Divus, In officina Wecheli, 1538, out of Homer. And he sailed, by Sirens and thence outwards and away And unto Crice. Venerandam, In the Cretan's phrase, with the golden crown, Aphrodite, Cypri munimenta sortita est, mirthful, oricalchi, with golden Girdle and breat bands, thou with dark eyelids Bearing the golden bough of Argicidia. So that:
Acordei, preparei um café bem forte, sentei-me na sala enquanto o moço ainda dorme, pus-me a traduzir um dos meus poemas favoritos de Frank O´Hara (1926 - 1966) e aqui está.
Poema
Há dias em que sinto exalar uma fina poeira como aquela atribuída a Pilades na famosa Chronica nera areopagitica ao ser descoberta
e é porque um arqueólogo adentrou a câmara secreta do meu peito e farfalhou o papel que carrega seu nome
Não gosto deste estranho espirrando sobre nosso amor.