Esta foi a primeira canção que ouvi da banda de riot grrrls de (ora, de onde mais?) Olympia, no estado norte-americano de Washington, espécie de Meca do movimento. Mais tarde, as moças fixaram quartel-general em Portland, no Oregon. Não me lembro mais ao certo onde escutei esta "A quarter to three" pela primeira vez, talvez como vinheta em algum programa da MTV. Sei que, certamente em 2001, um dos meus melhores amigos em São Paulo, o jornalista Felipe Gutierrez, me emprestou o quarto álbum da banda, chamado The Hot Rock (1999), quando comentei com ele sobre esta canção que andava me obcecando. O álbum, que é ótimo, termina justamente com a canção "A quarter to three".
Por aquela época, já estava organizando com Gutierrez uma festa de indie rock todas as quartas-feiras, no clube Matrix (ainda existe?), na Rua Aspicuelta (Vila Madalena). A festa se chamava Gum! (o nome completo da festa era, em típica arrogância indie, "Spooning Good Singing Gum", como na canção dos Cocteau Twins). Lá na festa, ao discotecar, sempre incluía esta "A quarter to three", que ainda é uma das minhas all-time-favorites:
:
"A quarter to three", da banda Sleater-Kinney, no álbum The Hot Rock (1999).
Não sei ao certo quem escreve os textos na banda. Se tivesse que chutar, diria que é a vocalista Corin Tucker. Mas como Carrie Brownstein tem hoje uma carreira consolidada também como jornalista e escritora, é possível que fosse ela a letrista, ou que Tucker e Brownstein trabalhassem em conjunto. De qualquer maneira, o texto de "A quarter to three" é muito legal.
A quarter to three
It's 1 a.m. You haven't called It must be four Wherever you are And the photobooth strip And the letter you wrote They feel like nothing I could hold
Nothing bad, nothing free There's nothing left For me to feel It's like going to bed At a quarter to three Finally tired, finally empty
Should I be up To play the game? Back and forth Get back at me And my confidence fell And I feel so mad Tell me Whose side are you on?
Nothing bad, nothing free There's nothing left For me to feel It's like going to pieces Could fix everything At this point I'm really me
A banda tem um único vídeo oficial, para uma canção do mesmo álbum em que saiu "A quarter to three", dirigido por ninguém menos que Miranda July. O nome da canção é "Get up".
Vídeo para a canção "Get up" da banda Sleater-Kinney, dirigido por Miranda July.
Thomas Eakins nasceu em Philadelphia, nos Estados Unidos, em 1844. Hoje é considerado um dos mais importantes artistas visuais americanos no século XIX e início do XX, mas sua trajetória foi cheia de percalços e obstáculos. Acabou tendo, no entanto, grande influência, tanto como pintor e fotógrafo, quanto como educador, ensinando na Academia de Belas Artes de Philadelphia, onde foi um dos primeiros a estimular os alunos a usarem a fotografia para suas pesquisas pictóricas.
Thomas Eakins, Study in the human motion
Estudo fotográfico de Thomas Eakins
Após conhecer o fotógrafo inglês Eadweard Muybridge, passa a incluir a fotografia entre suas práticas, não apenas para os estudos de seus quadros, como para criar a mais importante obra fotográfica norte-americana do século XIX, pioneira e precursora de pesquisas em fotografia que apenas o realismo da década de 70 tornaria hegemônicas.
Thomas Eakins, With Lawrence at the shore
Thomas Eakins, Swimming
Thomas Eakins, Nude study
A sociedade puritana de sua época viria a se escandalizar e gerar uma rede de fofocas e intrigas sobre o pintor e fotógrafo. Muitos de seus hábitos eram polêmicos, especialmente sua insistência em ensinar homens e mulheres nas mesmas classes e da mesma maneira, durante sua passagem pela Academia de Belas Artes. Além disso, os boatos sobre sua vida sexual, a companhia constante de homens jovens, sua fotografia de nus masculinos, dariam gás aos escândalos de sociedade da Nova Inglaterra, que espalhava por Philadelphia as histórias de sodomia e bestialidade que se alegava fazer parte da vida diária de Thomas Eakins.
Trabalho fotográfico de Thomas Eakins
Seria demitido da escola ao descobrir a genitália um jovem que servia de modelo durante uma aula onde estavam presentes mulheres, alunas. Era permitido apenas que as modelos do sexo feminino estivessem completamente nuas, não os modelos do sexo masculino na presença de mulheres. Muitos alunos e alunas viriam a abandonar a Academia e fundar sua própria escola, para seguir estudando com Eakins.
Grande parte de seu trabalho pictórico foi baseado em estudos fotográficos. Como isso foi por muito tempo visto com preconceito, seus estudiosos (e sua esposa) tentaram negar que houvesse fotografias a preceder os quadros. Hoje, quando a fotografia passou a ocupar uma função principal na arte contemporânea, muito destes preconceitos foi superado e seus estudos em fotografia passaram a ser valorizados.
Thomas Eakins, The wrestlers, 1899
Thomas Eakins, Study for "The wrestlers", 1899
Não estou tentando escrever uma hagiografia. Deixo isso para os que acharam que fosse necessário santificar o homem e sua reputação para salvaguardar sua obra. Sua obra permanece, tenha sido ele o homem honesto dos falsos elogios, ou o beberrão sodomita das falsas diatribes. Além do mais, creio que eu também teria arriscado minha reputação por um rapaz tão bonito como Samuel Murray (1869 - 1941), seu protégé, e companheiro até o fim da vida.
Samuel Murray, em retrato feito por Thomas Eakins
Thomas Eakins, Portrait of Samuel Murray, 1889
Samuel Murray, em retrato de Thomas Eakins
Várias de suas pinturas são consideradas obras primas do realismo norte-americano. Duas delas têm também grande importância para a História da Medicina: as pinturas The Gross Clinic (1875) e The Agnew Clinic (1889)
Thomas Eakins, The Gross Clinic (1875)
Thomas Eakins, The Agnew Clinic (1889)
Minha pintura favorita de Thomas Eakins é outra de suas obras-primas, a bela The Swimming Hole, de 1885. Eakins, que conhecera pessoalmente o poeta Walt Whitman (de quem pintou o retrato), teria se inspirado para o quadro tanto em suas tardes nos lagos ao redor de Philadelphia, com seus alunos, como no poema "Song of myself", de Whitman, no trecho:
Twenty-eight young men bathe by the shore, Twenty-eight young men and all so friendly; Twenty-eight years of womanly life and all so lonesome.
She owns the fine house by the rise of the bank, She hides handsome and richly drest aft the blinds of the window. Which of the young men does she like the best? Ah the homeliest of them is beautiful to her.
Where are you off to, lady? for I see you, You splash in the water there, yet stay stock still in your room. Dancing and laughing along the beach came the twenty-ninth bather, The rest did not see her, but she saw them and loved them.
The beards of the young men glisten’d with wet, it ran from their long hair, Little streams pass’d all over their bodies. An unseen hand also pass’d over their bodies, It descended tremblingly from their temples and ribs.
The young men float on their backs, their white bellies bulge to the sun, they do not ask who seizes fast to them, They do not know who puffs and declines with pendant and bending arch, They do not think whom they souse with spray.
–Walt Whitman, "Song of Myself", Leaves of Grass (1855)
Thomas Eakins, The Swimming Hole, 1885
Aqui, Eakins faz-se precursor de pintores como o americano Charles Demuth (1883 - 1935) e o britânico David Hockney (n. 1937), autores de belos trabalhos com a mesma delicadeza homoerótica.
Charles Demuth, Three sailors, 1917
David Hockney, Peter Getting Out Of Nick's Pool, 1966
Há alguns pontos que gostaria de acrescentar à postagem da semana passada, em que volto a discutir a questão do GENDER, especialmente após as intervenções muito boas e inteligentes de Érico Nogueira e Dirceu Villa, dois poetas com quem me é sempre muito estimulante debater. Não se trata, por fim, apenas da questão de gênero, como em GENDER. Eu acho que seria muito interessante trazer a própria questão de gênero como GENRE a esta discussão, assim como uma conversa mais ampla sobre os papéis e funções possíveis para o poeta em nosso contexto histórico, meditando sobre os vários papéis e funções que os poetas já exerceram em suas respectivas comunidades, ao longo dos tempos, como os poetas-xamãs, que eram (e ainda são em muitas regiões) os médicos e sacerdotes da comunidade; os aedos na Grécia antiga, fundadores dos mitos "nacionais" (uso o conceito anacrônico com parcimônia) em seus épicos, unificadores da comunidade; os bardos medievais, que acompanhavam os senhores em batalhas, para registrar-lhes a História; o sofisticadíssimo serviço de entretenimento dos trovadores provençais/occitanos, etc.
Penso nos cataclismos e transformações na relação entre o poeta e sua comunidade após a Revolução Francesa, algo que pode claramente ser sentido em Baudelaire e Rimbaud, ou mesmo nos jacobinos Wordsworth e Coleridge. E, não nos enganemos, ainda estamos sob os efeitos, como poetas, dos novos cataclismos e transformações catalisados pela Revolução Russa na relação entre o poeta e sua comunidade. Se Maiakóvski e Mandelshtam os sentiram nos ossos, ainda os sentimos na pele, pelas ondas de choque que nos chegam. Tenho me esforçado para esclarecer os meandros de minha defesa por um trabalho crítico que englobe forma, função e contexto.
Mas voltarei a isso na próxima postagem, tentando dialogar com a postagem de Érico Nogueira e a de Dirceu Villa.
Hoje, gostaria apenas de fazer alguns anúncios rápidos.
§ - HILDA magazine, que edito aqui no Berlimbo com um amigo, o designer britânico Oliver Roberts, está novamente no ar. Após alguns problemas com nosso servidor, mudamos o endereço da revista eletrônica, que agora é
http://www.hildamagazine.com
Lá você encontrará trabalhos que cruzam as fronteiras dos gêneros e das nacionalidades, em fotografia, vídeo, música e textualidade, de artistas contemporâneos e primordialmente jovens, que iniciaram seus trabalhos neste século, neste contexto histórico, com algumas exceções sempre necessárias, já que deixamos o dogma para os cinquentões.
Esta é a mission statement da revista:
HILDA magazine recognizes no borders between genres or national identities, and wishes to gather artists who are residents of various metropoles around the globe such as Berlin, London, São Paulo, New York, Moscow, Buenos Aires or Tokyo, where they settled in the interest of word and image exchange. We are in the business of cross pollination between lands, languages and artistic practices.
HILDA magazine is interested in cultural interventionists, political activists and any creature who has chosen to follow the code of freaks. The magazine likes to chant "one of us, one of us" at each new update. For those who do not quite fit in the puzzle.
Assim como fizemos com o poeta Caio Valério Catulo (84 a.C. - 54 a.C.), uma das fontes da est-É-tica que seguimos, convidamos cinco poetas brasileiros contemporâneos brasileiros para o ciclo, discutindo a obra de Cavalcanti, um dos melhores exemplos do que venho chamando de poesia tesa, mais que densa, concreta ou concisa. Inicia o ciclo crítico o poeta paulistano Dirceu Villa. O ciclo contará ainda com artigos e traduções de Eduardo Sterzi (RS), Érico Nogueira (SP), Bruno Brum (MG) e Rodrigo Damasceno (BA).
§ - Na semana que vem, o coletivo de que faço parte funda nosso novo projeto, que substituirá o evento semanal Berlin Hilton (2005 - 2010), que organizamos por cinco anos no clube Neue Berliner Initiative. O novo projeto chama-se SHADE inc. A estreia será no dia 07 de abril, com uma performance de Wolfgang Müller, do lendário coletivo berlinense Die Tödliche Doris (1980 - 1987), apresentando seu trabalho sonoro Seance Vocibus Avium (2008); uma pequena apresentação do cantautor berlinense Petula; uma intervenção do duo de videoartistas AlexandLiane; e DJ sets das lendas berlinenses Peaches e T.Raumschmiere.
(T.Raumschmiere - "Monster Truck Driver")
O projeto traz-nos ainda mais próximos do sonho de ter our own private Cabaret Voltaire. Primeira filipeta e programa abaixo.
§ - Ocorre hoje, no Rio de Janeiro, o evento Estrondo, organizado pela editora 7 Letras para marcar o lançamento do projeto Lado7, no qual a editora vem reunindo, há vários meses, a oralização de textos, feita pelos próprios poetas no estúdio montado por Jorge Viveiros de Castro na editora.
Chacal e Carlito Azevedo participam do evento, além dos jovens poetas cariocas Alice Sant´Anna e Gregorio Duvivier. O programa do evento o apresenta nestas palavras:
"Uma nova forma de veicular a poesia brasileira será lançada com Estrondo pelo selo Lado7, da editora 7Letras. O espetáculo traz os consagrados poetas Chacal e Carlito Azevedo e os jovens Alice Sant’Anna e Gregorio Duvivier interpretando ao vivo seus poemas com o acompanhamento musical do grupo Lado7. A versão de estúdio de Estrondo, com produção musical de Newton Cardoso e Nelson Duriez, será lançada no formato de audiolivro durante o evento, que comemora os vinte anos do CEP 20.000."
Espaço Cultural Sérgio Porto – Rua Humaitá 163 – tel. (21)2266-08696 quarta-feira, dia 31 de março de 2010 a partir das 20h30.
§ - O poeta carioca/gaúcho Marcelo Sahea lançou este mês o livro Nada a dizer (São Paulo: E, 2010).
O autor o apresenta com as seguintes palavras:
"Do meu livro anterior (Leve), lançado há quatro anos até hoje, progressos significativos ocorreram nas minhas buscas dentro do que aos poucos reconheço como arte da palavra.
É que embora ainda não as tenha abandonado, poesia, bem como poeta, são estanques denominações que vêm se mostrando insuficientes para definir o esforço que tenho feito no sentido de ampliar o alcance e a potência (que só é possível pela contaminação por outras formas de expressão – música, arte sonora, artes visuais, eletrônica, arte digital, etc – ) da minha produção poética.
Este Nada a Dizer, oficialmente meu terceiro livro, apresenta impressões desses avanços e abre picadas para o que ainda há de vir.
Nele, os poemas inéditos (a maior parte) despontaram a partir das minhas pesquisas e experiências no terreno da performance e da poesia sonora. A outra parte é composta por poemas e textos que andavam dispersos em revistas, antologias e sites literários desde 2005 e que decidi aglutinar em um suporte único.
São poemas em verso, poemas visuais, textos para página e palco, poemas objeto, textos-colagens, códigos, poema QR-Code, contágios, perquirições e tal.
A célebre e uma das definitivas definições de poesia (“I have nothing to say/ and I am saying it/ and that is poetry/ as I needed it”) que o compositor, músico, pintor e poeta norte-americano John Cage deu em seu livro Silence (1961) foi, desde a concepção deste Nada a Dizer, decisiva para a escolha do seu nome de batismo.
Coisa natural para poetas (ou artistas da palavra) como eu, sabedor de que quanto mais se diz, mais da poesia se dista. --- Marcelo Sahea, março de 2010.