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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Dez anos sem Hilda Hilst



Completam-se hoje dez anos da morte de Hilda Hilst, a 4 de fevereiro de 2004, em um hospital de Campinas. Trata-se de uma década sem aquela que foi um dos mais completos e importantes escritores brasileiros do pós-guerra. Esta percepção, sabemos, tardou a chegar e mesmo hoje é provável que não seja unânime. De qualquer forma, sabemos o que dizia Nelson Rodrigues da unanimidade, e creio que a própria Hilst não esperaria que certos concidadãos seus aceitassem ou compreendessem seu trabalho, especialmente nestes dias de fanatismo religioso e reação a avanços no campo de direitos humanos ligados à liberdade sexual.

Com a edição completa de sua obra poética, dramatúrgica e em prosa nos últimos anos, Hilda Hilst avulta-se para mim como um dos artistas mais fenomenais que este território gerou, servindo de exemplo e fonte inesgotável de aprendizagem para os escritores de minha geração e os novíssimos. Sua poesia de feitio clássico, em que a renovação e uso que faz da línguagem de Catulo está baseada não em qualquer formalismo classicista de ideologia, mas na compreensão de sua atualidade propiciatória para o misticismo carnal e telúrico que informava sua mente poética, tem poucos paralelos. No país da elegância minimalista, ainda que violenta, de Machado de Assis e Graciliano Ramos, sua obra desbordada e febril talvez encontre um antecessor apenas em Raul Pompeia. Seu trabalho pertence à linhagem de autores como Genet, Beckett e Bataille, que não fizeram exatamente escola entre nós. Uma obra como Qadós (1973) é um artefato inédito e assustador, demonstrando como dualidades e dicotomias que fizeram as delícias de nossa crítica uniam-se em cicatrizes e feridas violentas no trabalho de Hilst e alguns poucos outros. Sua poesia amorosa e satírica permanecem como exemplos de exuberância de linguagem e de inteligência raramente atingidas entre nós.

Descobri seu trabalho em 1997, graças a uma resenha sobre seu último romance, Estar sendo. Ter sido (1997). A resenha terminava com os versos finais do poema "Mula de Deus", que encerrava o livro: "Palha / Trapos / Uma só vez o musgo das fontes / O indizível casqueando o nada // Essa sou eu. // Poeta e mula.Nunca me esquecerei da febre sentida, de pé, lendo aquele poema numa livraria, sem dinheiro para comprar o livro. "Mula de Deus" é um dos grandes poemas dos anos 90. Vale lembrar que 1997 foi o ano de publicação da obra completa de João Cabral de Melo Neto, em dois volumes, o tempo dos louvores à secura, à economia, ao antilirismo, com a instituição e repetição ininterrupta destes conceitos como valores estéticos inquestionáveis, que ainda povoavam ensaios e resenhas até não muito tempo atrás. Parecia natural, neste ambiente, que poetas como Hilda Hilst ou Roberto Piva, entre outros, não encontrassem ouvidos atentos.

Entre meus amigos na USP naqueles anos, criou-se uma espécie de grupo de iniciados cultores de Hilst, assim como líamos Clarice Lispector feito instâncias de insuperável sutileza e violência políticas e est-é-ticas. Lembro-me que em 2003 e 2004, a diretora de teatro Verônica Veloso e eu planejávamos uma visita não-anunciada a Hilda Hilst na Casa do Sol, viagem que íamos protelando por timidez e falta de meios, até que recebemos a notícia de sua morte a 4 de fevereiro de 2004 e nos arrependemos amargamente de não ter conseguido fazer a viagem a Campinas. 

Restou-nos a obra da grande escritora e nossa satisifação em ver seu trabalho tornar-se aos poucos um dos momentos mais altos da escrita brasileira das últimas décadas, algo que vai se firmando cada vez mais.

A Modo de Usar & Co. já dedicou uma postagem a Hilda Hilst em fevereiro de 2009, com poemas e o conto "Teologia Natural". Retornamos a ela hoje, com esta pequena homenagem e mais textos da moradora da Casa do Sol.





MAIS TEXTOS DE HILDA HILST

Trecho de Qadós (1973)

Difícil de explicar, ia dizendo aos borbotões que essas coisas senhora são para fazer uma limpeza na minha alma devo começar por aí não sei se a senhora entende mas o branco é demais importante para começar as orações e acendendo as velas fica visível para a Excelência que sou eu mesmo que me acendo, matéria de amor etc. etc. A maioria revirava os olhos, torcia a boca, umas coçavam os cotovelos, a cintura, diziam: homem, se queres comida eu entendo mas não tenho, o resto é confusão, despacha-te. Às vezes davam-me panos pretos, ou alaranjados ou com listas ou vermelho com florzinhas, nunca o branco, Excelência, e como último recurso para conseguir os círios eu entrava numa loja aos solavancos, o olho girassol e gritava: duas velas por favor, a mãe agoniza, em nome do vosso nosso Deus duas velas para as duas mãos de mamãe. E saía como o raio, como o cão danado, como Tu mesmo que te evolas quando Te procuro, ai Sacrossanto por que me enganaste repetindo: hic est filius meus dilectos, in quo mihi bene complacui? Nudez e pobreza, humildade e mortificação, muito bem, Grande Obscuro, e alegria, é o que dizem os textos, humilde e mortificado tenho sido, mas alegre, mas alegre como posso? Se continuas a dar voltas à minha frente, estou quase chegando e já não estás e de repente Te ouço, bramindo: mata o rei, Qadós, o inteiro de carne e de pergunta, pára de andar atrás de mim como um filho imbecil. Como queres que eu não pergunte se tudo se faz pergunta? Como queres o meu ser humilde e mortificado se antes, muito antes do meu reconhecimento em humildade e mortificação, Tu mesmo e os outros me obrigam a ser humilde e mortificado? Como queres que eu me proponha ser alguma coisa se a Tua voracidade Tua garganta de fogo já engoliu o melhor de mim e cuspiu as escórias, um amontoado de vazios, um nada vidrilhado, um broche de rameira diante de Ti, dentro de mim? E as gentes, Máscara do Nojo, como pensas que é possível viver entre as gentes e Te esquecer? O som sempre rugido da garganta, as mãos sempre fechadas, se pedes com brandura no meio da noite que te indiquem o caminho roubam-te tudo, te assaltam, e se não pedes te perseguem, se ficas parado te empurram mais para frente, pensas que vais a caminho da água, que todos vão, que mais adiante refrescarás pelo menos os pés e ali não há nada, apenas se comprimem um instante, bocejam, grunhem, olham ao redor, depois saem em disparada. Andei no meio desses loucos, fiz um manto dos retalhos que me deram, alguns livros embaixo do braço, e se via alguém mais louco do que os outros, mais aflito, abria um dos livros ao acaso, depois deixava o vento virar as folhas e aguardava. O vento parou, eis o recado para o outro: sê fiel a ti mesmo e um dia serás livre. Prendem-me. Uma série de perguntas: qual é teu nome? Qadós. Qa o quê? Qadós. Qadós de quê? Isso já é bem difícil. Digo: sempre fui só Qadós. Profissão. Não tenho não senhor, só procuro e penso. Procura e pensa o quê? Procuro uma maneira sábia de me pensar. Fora com ele, é louco, não é da nossa alçada, que se afaste da cidade, que não importune os cidadãos. Sou quase sempre esse, matéria de vileza e confusão para os outros, para os Teus olhos um nada que te persegue, um nada que se agarra às tuas babas, e como é difícil te perseguir, nem o rasto, nem a estria brilhante (aquela que os caracóis deixam depois da chuva) eu vejo, pois é pois é, seria fácil para o teu inteiro gosma e fereza, o teu inteiro amoldável, me dar umas pequeninas alegrias e te mostrares um dia Grande Caracol baboso aguado brilhante, te mostrares um dia intimidade, vê Cão de Pedra, agora não sei, fui íntimo para um uma ou dois, nem me lembro, e a princípio como me trataram bem, cuidado na fala, langor no olhar, a minha palavra era véu dourado que pouco a pouco pousava, translúcido, luminosidade delicada, eu Qadós falava e o espaço era pérola, leite fresco, pistilo, um ou três relinchos para aquecer ainda mais tanta mornura, sorriam, lábio frouxo encantado, gula de me possuir inteiro, se era mulher ela me dizia isso mesmo gula de te possuir inteiro, Qadós, se era homem também, aí eu me escondia, dias e dias sobre Plotino, outros dias apenas flutuava sobre o verde dos parques, de longe me seguiam, eu de névoa transfixado, melindre dissolvência, Qadós O Inteiro Desejado.

§

O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade (I)

Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.

in Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974)

§

Dez Chamamentos Ao Amigo (I)

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

.
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domingo, 25 de dezembro de 2011

Postagem natalina, com poemas, canções e súplica por meio de sinédoques

Michelangelo da Caravaggio, La cena in Emmaus, 1601-02. Dimensões: 195 x 139 cm).
Atualmente na Galeria Nacional de Londres.

Crescendo num ambiente dos mais religiosos, quisera eu poder dizer que acompanho a poética do meu mestre Murilo Mendes, ou a de seus companheiros Jorge de Lima e Henriqueta Lisboa. Minha relação com esta religiosidade é, no entanto, muito mais conflituosa e atormentada, aparentando-se e encontrando maior guarida no trabalho de Pier Paolo Pasolini e Hilda Hilst. Mas esta manhã acordei pensando num dos poemas de Murilo Mendes que mais amo, chamado "Emaús", incluído no livro Mundo Enigma (1942), escrito durante os meses em que o poeta mineiro passou no Sanatório de Correia, em Minas Gerais, tratando-se da tuberculose. É um dos meus livros favoritos na obra de M.M., contendo outros poemas belíssimos como "Tobias e o anjo", "A noite em 1942" e "Poema barroco". O título faz referência à cidade de Emaús, a cerca de 10 quilômetros de Jerusalém, onde o Evangelho de Lucas (24, 13-35) afirma ter aparecido Jesus após a ressurreição diante de dois de seus discípulos, que não o reconheceram até o momento em que, tendo-o convidado a cear consigo, Jesus parte o pão à sua maneira inconfundível e desaparece quando os olhos dos discípulos abrem-se e eles o reconhecem. O evento tem grande importância para o pensamento místico de Murilo Mendes, que intitularia seu belo livro de aforismos O Discípulo de Emaús (1944).Parece-me ser em Mundo Enigma que se inaugura a secura-pobreza na poética de Murilo Mendes, durante a Segunda Guerra e quase uma década após sua conversão ao cristianismo, como se costuma relatar, na experiência traumática que lhe foi a morte de seu amigo Ismael Nery em 1934. O coroamento desta secura, distinta em sua est-É-tica daquela que se tornou famosa na obra de João Cabral de Melo Neto, viria no poema "Janela do caos", escrito também naqueles anos. Abaixo, o belo "Emaús":

Emaús

Sempre és o hóspede – nunca és o rei.
Muito mais derrotado que vitorioso.
Quando chegas e bates ao meu coração
Eu não te reconheço – há luz demais –
Debruço-me sobre as gravuras do caminho.
Quando te afastas - acompanhado pelo peixe azul –
Quando as formas se movem como num aquário,
Então eu levanto enternecido a lanterna
E logo começo a desejar que voltes,
Fascinado pela tua obscuridade.


Murilo Mendes, Mundo Enigma (1942)


Trata-se de um dos mais delicados poemas de amor místico da Poesia Brasileira. É esta humilitas, esta meekness ovina reconhecida por Murilo Mendes no Cristo que parece estar na base de sua busca est-É-tica, nestes anos, por uma simplicidade maior se comparada à exuberância mesmo sálmica de seus primeiros livros, distante também do satírico e paródico que marcara sua primeira produção. Há no entanto mesmo em Murilo Mendes um grande conflito, talvez o mesmo que tenha acometido todos os intelectuais, cristãos e judeus, que viveram o horror da Segunda Guerra. Basta pensarmos em poetas e intelectuais tão diversos quanto a Simone Weil dos Cahiers e ainda L'Enracinement, Prélude à une déclaration des devoirs envers l'être humain (1943, publicado em 1949), a H.D. de The Walls Do Not Fall (1944), o Paul Éluard de Les sept poèmes d'amour en guerre (1944), o Salvatore Quasimodo de Con il piede straniero sopra il cuore (1946) ou o próprio Murilo Mendes de Poesia Liberdade (1947). Em um texto menos conhecido, intitulado justamente "Natal 1961", Murilo Mendes apresenta-nos uma visão distópica da sociedade de consumo que já se formava, algo tão desmascarável em tempos de Natal como celebração do comércio.


Natal 1961
Murilo Mendes


Deslocados por uma operação burocrática — o recenseamento da te­rra - a Virgem
..............e o carpinteiro José aportam a Belém.
«Não há lugar para esta gente», grita o dono do hotel onde se reali­za um congresso
..............de solidariedade.
O casal dirige-se a uma estrebaria, recebido por um boi branco e um burro cansado
..............do trabalho.
Os soldados de Herodes distribuem alimentos radioativos a todos os meninos de menos
..............de dois anos.
Uma poderosa nuvem em forma de cogumelo abre o horizonte e súbito explode.
O Menino nasce morto.



Minha relação com esta religiosidade cristã, se não aparece de maneira temática em meu trabalho, tem sido uma constante crítico-formal, por exemplo, em minha obsessão pela relação entre metáfora e metonímia, e especialmente em meu uso da sinédoque (a parte pelo todo), como refúgio possível da poesia mística em famosos tempos dessacralizados. Há pouco tempo, assisti em vídeo a uma interessantíssima palestra de Caroline Bynum, intitulada "Contradiction, Paradox, Synecdoche: Parts and Whole in Medieval Devotion", proferida no ICI Berlin: Institute of Cultural Inquiry, em que discutia, de maneira elaborada e muito mais embasada que a minha, uma questão que vem ocupando meu pensamento desde os tempos em que escrevia o livro Carta aos anfíbios (2005), no qual esta obsessão se faz presentíssima. A palestra da impressionante Caroline Bynum é descrita desta maneira:

"All religions make some use of the material to represent or lead to something beyond. But not all religions emphasize materiality to the extent that Christianity does, impelled by the doctrines of creation ex nihilo and of the Incarnation. Hence a paradox: if the Christian God is understood to redeem, not merely to transcend, the material, then corruptible, partible matter must be capable of incorruption and eternal wholeness. In her lecture, Caroline Bynum will explore one consequence of this paradox: Christianity’s insistence on material fragmentation as a way of distributing the holy, while embedding this in the idea of synecdoche. Describing first the cult of holy matter and the way in which the anxieties about decay attendant upon it are reflected in theology and reliquaries, she will then look at five wound piety (which has often been understood as erotic or proto-feminist) as an example of the devotional sense of pars pro toto."

Você pode assistir à palestra de Bynum na página abaixo:



Caroline Bynum é professora no Instituto para Estudos Avançados da Universidade de Princeton, e ainda professora emérita na Universidade de Columbia em Nova Iorque. Sua pesquisa crítica move-se nos campos da teologia, religião e cultura da Idade Média. Seu livro Holy Feast and Holy Fast: The Religious Significance of Food to Medieval Women (1987) teve papel importante em trazer a discussão de GÊNERO para os estudos medievais, assim como seus livros Fragmentation and Redemption: Essays on Gender and the Human Body in Medieval Religion (1991) e The Resurrection of the Body in Western Christianity (1995) são paradigmáticos para a pesquisa sobre o História da Corporalidade.

Como disse, minha relação atormentada com a religiosidade ocidental acaba por encontrar guarida na leitura politizada que o mestre Pier Paolo Pasolini dela faz, seja em filmes como Il vangelo secondo Matteo (1964) ou nos poemas do livro L'Usignolo della Chiesa Cattolica (1954). Pasolini tem importância central para mim ainda e especialmente pela maneira como enfrentou o conflito entre religiosidade e sexualidade, como manifestações tanto políticas como místicas.


Cristo alla pace
del Tuo supplizio
nuda rugiada
era il Tuo sangue.
Sereno poeta,
fratello ferito,
Tu ci vedevi
coi nostri corpi
splendidi in nidi
di eternità!
Poi siamo morti.
E a che ci avrebbero
brillato i pugni
e i neri chiodi,
se il Tuo perdono
non ci guardava
da un giorno eterno
di compassione?


Pier Paolo Pasolini, L'Usignolo della Chiesa Cattolica (1954).

Recentemente, descobri o trabalho do holandês Gerard Reve, como escrevi aqui, que se mostra um parente espiritual incrivelmente próximo de Pier Paolo Pasolini e Hilda Hilst.

Canção da bebida

Agora é a hora de deixar de beber.
Parar de uma vez, é preciso.
Foi com certeza o bastante.
Consola-me então, ó Espírito,
nesta noite de 20 para 21 de julho de 1965,
em desespero profundo, e cercado de trevas.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:


Drinklied
Gerard Reve


Nu moet ik van de drank af.
Het moet maar eens uit zjin.
Het is wel genoeg geweest.
Troost mij toch, o Geest,
in de nacht van 20 op 21 juli 1965,
in diepe ontzetting, en omringd door Duisternis.



Contra a "Proposição da Aposta" de Blaise Pascal, minha religiosidade sempre direcionou-se muitíssimo mais à "Proposição do Salto no Escuro" de Søren Kierkegaard e ao cristianismo atormentado de Miguel de Unamuno, como descrito no belíssimo e perturbador Del Sentimiento Trágico de la Vida (1933), tal qual se vê já em sua página de abertura, aqui em tradução de Eduardo Brandão (vê-se que Unamuno escrevia antes da intervenção de mulheres como Caroline Bynum, mas saltemos por ora sobre a invisibilidade do gênero para Unamuno e percebamos que estamos todos contidos neste "homem de carne e osso" que ele celebra):

"Homo sum; nihil humani a me alienum puto, disse o cômico latino. Eu diria melhor: Nullum hominem a me alienum puto. Sou homem; a nenhum outro homem considero estranho. Porque o adjetivo humanus me é tão suspeito quanto o substantivo abstrato humanitas, humanidade. Nem o humano, nem a humanidade, nem o adjetivo simples, nem o adjetivo substantivado, mas sim o substantivo concreto: o homem. O homem de carne e osso, aquele que nasce, sofre e morre – sobretudo morre –, que come, bebe, joga, dorme, pensa e ama, o homem que se vê e a quem se ouve, o irmão, o verdadeiro irmão." --- Miguel de Unamuno, Do Sentimento Trágico da Vida, tradução de Eduardo Brandão (São Paulo: Martins Fontes, 1996).


Este tormento encontro em outros mestres pessoais, como a austríaca Christine Lavant, de quem traduzi um único poema, mas gostaria em breve de poder oferecer mais.

Eu quero partir com os loucos o pão,
migalhas diárias do desespero grande,
também o sino em meio ao peito,
ali onde o pombo aninha-se
e tem seu refúgio minúsculo
no ermo sobre as águas.
Residi por anos como pedra
no chão das coisas.
Eu ouvi, porém, o sino
sussurrar teu segredo
nos peixes com asas.
Hei-de aprender a voar e nadar,
deixar o pedregoso sob as pedras,
aconchegar em madrepérola
a melancolia, elevar aflição, ira.
Minhas asas são mais velhas
que tua paciência, minhas asas
vão à frente da coragem
que tomou sobre os ombros o louco.
Eu quero partir com os loucos o pão,
ali no ermo assustador do pombo,
onde o sino triparte o maior desespero
ao som tríplice do teu nome.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:



Ich will das Brot mit den Irren teilen, / täglich ein Stück von dem grossen Entsetzen, / auch die Glocke im Herzen, / dort, wo die Taube nistet / und ihre winzige Zuflucht hat / in der Wildnis über den Wassern. / Lange habe ich als Stein gehaust / am Grunde der Dinge. / Aber ich habe die Glocke gehört / leise von deinem Geheimnis reden / in den fliegenden Fischen. / Ich werde fliegen und schwimmen lernen / und das Steinerne unter den Steinen lassen, / die Schwermut betten in Perlmutter, / doch den Zorn und das Elend erheben. / Meine Flügel sind älter als deine Geduld, meine Flügel flogen dem Mut voraus, / der das Irren auf sich nahm. / Ich will das Brot mit den Irren teilen / dort in der furchtbaren Wildnis der Taube, / wo die Glocke das grosse Entsetzen drittelt / zum dreifachen Laut deines Namens. - Christine Lavant, Gedichte (Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1998).


A quem busca potência poético-mística, poucas obras comparam-se à poesia de Gerard Manley Hopkins e à crítica de Walter Benjamin.


Quatro poemas iniciais de "The Wreck of the Deutschland", publicado pela primeira vez em 1918, escrito em 1875:

1

THOU mastering me
God! giver of breath and bread;
World’s strand, sway of the sea;
Lord of living and dead;
Thou hast bound bones and veins in me, fastened me flesh,
And after it almost unmade, what with dread,
Thy doing: and dost thou touch me afresh?
Over again I feel thy finger and find thee.


2

I did say yes
O at lightning and lashed rod;
Thou heardst me truer than tongue confess
Thy terror, O Christ, O God;
Thou knowest the walls, altar and hour and night:
The swoon of a heart that the sweep and the hurl of thee trod
Hard down with a horror of height:
And the midriff astrain with leaning of, laced with fire of stress.


3

The frown of his face
Before me, the hurtle of hell
Behind, where, where was a, where was a place?
I whirled out wings that spell
And fled with a fling of the heart to the heart of the Host.
My heart, but you were dovewinged, I can tell,
Carrier-witted, I am bold to boast,
To flash from the flame to the flame then, tower from the grace to the grace.


4

I am soft sift
In an hourglass—at the wall
Fast, but mined with a motion, a drift,
And it crowds and it combs to the fall;
I steady as a water in a well, to a poise, to a pane,
But roped with, always, all the way down from the tall
Fells or flanks of the voel, a vein
Of the gospel proffer, a pressure, a principle, Christ’s gift.


Gerard Manley Hopkins, "The Wreck of the Deutschland" (1875, publicado 1918)

§


"Em toda era a luta tem que renovar-se para arrancar a tradição de um conformismo que tenta sobrepujá-la. O Messias vem não apenas como o Redentor, mas também como o Vencedor sobre o Anticristo. O dom de atiçar através do passado a chama da esperança pertence apenas ao historiógrafo perfeitamente convencido que diante do inimigo, e no caso deste vencer, nem sequer os mortos estarão em segurança. E este inimigo não tem cessado de vencer»." Walter Benjamin, Teses sobre a Filosofia da História, 1940.



Antes de encerrar com aquele que me parece o mais atormentado poema místico da poesia brasileira, "Mula de Deus", de Hilda Hilst, preparo vocês para o soco da poeta de Jaú com duas canções tão belas, a "Hallelujah" de Leonard Cohen na voz de Jeff Buckley, e "Oh Holy Night" de Josh T. Pearson, do álbum Last Of The Country Gentlemen (2011). Pearson é o ex-vocalista da banda Lift To Experience, que no primeiro ano deste século lançou seu único álbum, o fortemente místico-atormentado Texas-Jerusalem Crossroads (2001).



FELIZ NATAL A TODOS (E SALVE-SE QUEM PUDER).



§



§


Mula de Deus

I

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.

Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.

II

Há nojosos olhares sobre mim.
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.

Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.

Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.

III

Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?

Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?

E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores

Alegrou-se de mim o coração.

IV

Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).

Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.

Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos

Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.

V

Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.

Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula

Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.

VI

Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.

Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...

Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.

VII

Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.

Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.

VIII

Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada

Essa sou eu.

Poeta e mula

(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura).


(Hilda Hilst, Estar sendo. Ter sido. São Paulo: Nankin, 1997)



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domingo, 3 de julho de 2011

Algumas cicatrizes, a ascese violenta e "A Mula de Deus", de Hilda Hilst

"34 com cicatrizes", de José Leonilson (1957 - 1993)


Na última postagem, citei Hilda Hilst com os versos: "Essa sou eu / Poeta e mula", de um dos poemas mais febris da década de 90, texto que foi publicado pela primeira vez no final de seu romance Estar Tendo. Ter Sido (1997). Eu havia acabado de chegar a São Paulo, tinha 19 anos. Deparei-me com uma resenha sobre o romance, na qual o jornalista reproduzia os versos: "Palha / Trapos / Uma só vez o musgo das fontes / O indizível casqueando o nada // Essa sou eu. // Poeta e mula". Em meio àquela cabralice exagerada, pedregulhosa e ressecuda da poesia da década de 90, eu, que estava já começando a sofrer de anemia emocional por conta de tanto antilirismo, me sobressaltei muito e pensei: "Evoé, um oásis!" Nos próximos dois anos, li tudo o que a mulher escreveu e passei a seguir seus passos, dizendo: com Murilo Mendes e Hilda Hilst, mestres, até o fim da carreira dos meus dias como poeta. Ô mestre de Juiz de Fora, ô mestra de Jaú! Comecei a passar os livros dela para meus amigos, criamos um pequeno culto em torno da mulher. Nós queríamos um matriarcado, Clarice Lispector de um lado, Hilda Hilst do outro. Um dia decidimos que iríamos a Campinas, encontrar a Casa do Sol e conhecê-la. Creio que já contei esta história aqui, mas se você está nesta página é porque você é meu amigo, mesmo que desconhecido, e como meu amigo você deve saber que eu sou meio compulsivo, obsessivo e repetitivo (perdoe). Protelamos por várias semanas. Quando estávamos preparados para a viagem, vem a notícia pela imprensa: Hilda Hilst morta, a 4 de fevereiro de 2004. Naquela tarde, desci a Avenida Brigadeiro Luís Antônio (em São Paulo) a pé, a caminho do Parque do Ibirapuera. Na cabeça, ia compondo o seguinte poema, que mais tarde se tornaria a primeira das "Seis canções óbvias", publicadas no meu livro de estreia, Carta aos anfíbios (2005):


das Seis canções óbvias

1.

Sair da cama, disse,
.....foi simplesmente
.....uma idéia incrível
.....e deliberada
De invernos frutíferos
.....construíram-se
.....muitos infernos na
.....primavera
A cama é um inferno pessoal
.....e intransferível
E a pele vestida à noite
.....desprega-se para acompanhar
.....outra calçada pela manhã
A transferência de corpo pratico-a
.....com diligência
É tudo tão simples, dizem
Hilda Hilst havia medo da morte
.....e morreu
.....assim como o MASP
.....é ao mesmo tempo
.....museu e mirante
Ergue-se o deliberado sobre
.....simples patas


(Carta aos anfíbios, Rio de Janeiro: Editora Bem-Te-Vi, 2005)


Houve duas mortes de poetas brasileiros que me deixaram realmente de luto: a de Orides Fontela, em 1998, e a de Hilda Hilst, em 2004. Muitas outras me entristeceram muitíssimo, como a de João Cabral, a de Wally Salomão, a de Haroldo de Campos. Mas as mortes de Orides Fontela e Hilda Hilst foram como perdas pessoais, difíceis de explicar, pois eu jamais as conheci, infelizmente.

Deixo vocês abaixo com o poema completo de Hilda Hilst, "Mula de Deus". Desconheço poesia desta natureza mística na poesia principal brasileira, em geral dominada pelos machos agnósticos. Tal misticismo carnoso. É como a cena final da porca em A Obscena Senhora D (1982). Economia de meios será melhor como ato de ascese? Há o momento para o seco e para a pedra, e também o momento para o úmido, para o que incha? Tal força, que é ao mesmo tempo anti-inflamatória e inflamatória, eu creio encontrar em Clarice Lispector e Hilda Hilst, em Lúcio Cardoso e Arthur Bispo do Rosário. Em Murilo Mendes e Jorge de Lima. Na ascese violenta de José Leonilson, como no trabalho que usei para ilustrar esta postagem. A violência da ascese, da secura verdadeira, aquela que João Cabral de Melo Neto deu a conhecer em "Uma Faca Só Lâmina" (1955) e eu por vezes tenho a impressão que poucos seguiram, talvez por preferirem ver a secura como técnica para um estilo, quando ela era tão, tão est-É-tica (perdoe, mais uma vez, minhas obsessões). A ascese de uma pobreza, como a que Carlos Drummond de Andrade nomeava "Nudez". Mesmo os machos agnósticos sabiam que o melhor é "na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita." Orides Fontela a escrever:


...........A um passo
...........do pássaro
...........res
...........piro



Acabei de postar este texto com uma ilustração de José Leonilson e então percebo como é apropriado: "34 com cicatrizes". Amanhã completo 34 anos. Hoje é meu último dia na idade da crucificação. E este blogue só existe, às vezes eu penso, porque eu vivo, usando as palavras de Hilda Hilst, na busca de "ornejos de outras mulas (para) se juntarem aos meus." E então, quem sabe, "Escoiceando os ares, espumando de gozo / Assustando mercado e mercadores", cada um de nós possa dizer: "Alegrou-se de mim o coração".



Mula de Deus
Hilda Hilst

I

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.

Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.

II

Há nojosos olhares sobre mim.
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.

Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.

Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.

III

Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?

Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?

E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores

Alegrou-se de mim o coração.

IV

Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).

Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.

Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos

Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.

V

Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.

Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula

Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.

VI

Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.

Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...

Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.

VII

Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.

Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.

VIII

Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada

Essa sou eu.

Poeta e mula

(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura
).



(Hilda Hilst, Estar sendo. Ter sido. São Paulo: Nankin, 1997)


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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

"Feliz aniversário, senhor Ōe", ou "O Dia em que Ele Próprio Enxugará dos meus Olhos Toda Lágrima", ou ainda "Dos textos que dão febre".

O prosador japonês Kenzaburō Ōe completa hoje 76 anos. A notícia, que li casualmente, iniciou em mim uma cadeia de recordações e pensamentos sobre os textos que amo.

Quando Kenzaburō Ōe ganhou o Prêmio Nobel em 1994, eu estava morando nos Estados Unidos, terminando o colegial como estudante de intercâmbio na cidade de Shreveport, em Louisiana. Tive a sorte de ser matriculado por minha família anfitriã na melhor escola da cidade, o que não deixou de ser muito difícil no começo, pois as aulas eram realmente muito puxadas para quem não dominava a língua, e, saindo de casa e do país pela primeira vez com 16 anos, passava ainda por um tremendo choque cultural.

O nome da escola era Caddo Parish Magnet High School, e tinha uma programação especial baseada na educação artística e literária. Para dar um exemplo, que está ligado a esta postagem sobre Kenzaburō Ōe, eu tinha uma aula que se chamava simplesmente Novels. Sim, "Romances". Nesta aula, que era diária e de 55 minutos, tudo o que fazíamos era ler, discutir, destrinçar e analisar um único romance por mês: seu texto, seu autor, sua recepção crítica. A lista de romances mensais, enquanto estive ali, foi de Fiodor Dostoiévski (Crime e Castigo, 1866) a Henry David Thoreau (Walden; or, Life in the Woods, 1854), de Primo Levi (If Not Now, When?, 1982) a Henry Miller (Sexus, 1949), entre vários outros. Creio que estes quatro exemplos dão uma ideia de como a escola era progressista. A professora chamava-se Ms. Pam Peak, e pelo que vi no site da escola, dá as aulas de English, Creative Writing e Novels ainda hoje por lá.

Todo ano em outubro, quando era anunciado o Nobel, a classe então lia um trabalho do autor, fosse ele prosador, dramaturgo ou poeta. Assim, numa manhã em outubro de 1994, a senhora Peak chegou à sala de aula e escreveu na lousa:

Kenzaburō Ōe
Teach Us to Outgrow Our Madness

O original havia sido publicado no Japão em 1969 e a primeira tradução americana em 1977. A edição que usamos, cuja capa reproduzo ao lado, reunia quatro novelas de Ōe.

Teach Us to Outgrow Our Madness é um dos trabalhos que trazem certos elementos autobiográficos de Ōe, no qual a personagem principal lida com os fantasmas de sua decisão de interromper a gravidez da mulher quando descobrem que o bebê tinha a Síndrome de Down, e sua relação quase obsessiva com o filho quando este nasce. Há uma passagem na novela envolvendo um urso polar que é memorável.

O texto me impressionou tanto que decidi ler as outras três novelas incluídas no volume. Comecei por Aghwee The Sky Monster, de 1964, que à época me pareceu um dos textos mais aterrorizantes que lera nos meus 16 anos de vida. A novela conta a história de um homem que é contratado para fazer companhia à personagem que durante toda a novela é chamado apenas por sua inicial, D., um compositor de 28 anos que enlouquecera após causar a morte de seu filho recém-nascido e deficiente. D passa a ser visitado pelo fantasma do bebê, que ele chama de Aghwee por ser a única palavra que o bebê falara antes de morrer. O livro é assustador.

Depois li Prize Stock, um trabalho mais realista, que conta a história de um piloto negro norte-americano que acaba capturado e mantido preso em uma vila japonesa, por pessoas que jamais tiveram contacto com estrangeiros. Segundo o autor, é também um trabalho baseado em acontecimentos de sua infância.

Mas foi a novela que abre o volume e que deixei por último, a mais longa, estonteante e lindamente intitulada The Day He Himself Shall Wipe My Tears Away (1972), que me causou a febre, o aguar na linha do diafragma, a natação dos pulmões.

The Day He Himself Shall Wipe My Tears Away é uma das coisas mais inesquecíveis que li, e a segunda vez na minha vida de leitor, até aquele momento, em que experimentara A FEBRE. Espero que algumas pessoas lendo isso entendam o que quero dizer, sem que eu tenha que explicar muito. A febre. Aquela febre que certos textos dão, e que apenas textos muito específicos conseguem causar. Àquela altura, com 16 anos, minhas leituras ainda consistiam em grande parte de ficção científica e histórias de terror. A única vez que me lembrava de ter experimentado aquela sensação ao ler algo fora com Clarice Lispector, com o conto "O ovo e a galinha". Em poesia, até então apenas com alguns poemas de Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes.

Não estou tentando estabelecer uma comparação entre Lispector e Ōe, dizer que são da mesma linhagem ou algo assim. Não sei o que os une. Sei apenas que há certos escritores que me dão esta febre, que vai além da mera "apreciação estética" ao nos depararmos com a grande técnica narrativa de um bom escritor. Há certos autores que fazem com que nossas cordas vocais vibrem mesmo enquanto os lemos em silêncio, como se numa frequência inaudível para os ouvidos humanos.

Você conhece a expressão "ficar aguado"? No interior de São Paulo, usa-se a expressão para aquela sensação infantil que temos quando ainda estamos aprendendo a lidar com o NÃO. Imagine uma criança a ouvir pela primeira vez o NÃO. Começando a descobrir que o mundo não é exatamente um fornecedor inesgotável de sonhos realizáveis.

"Não! Você não pode possuir esta coisa ou ser vivo do qual sua vida parece depender completamente neste exato instante dos seus 5 anos de vida sobre a Terra."

Eu me lembro ainda da primeira vez em que me foi dado, por adultos, o nome para aquela coisa horrível que estava sentindo no peito. Eu posso quase me ver encostado no portão da casa de minha avó, ouvindo-a dizer ao meu pai: "O menino ficou aguado"... sei que soa como ilusão da memória, mas às vezes eu acho que a primeira manifestação poética de que me lembro foi ali, aos 5 ou 6 anos, quando eu me maravilhei com aquela palavra, que parecia denominar tão bem aquela sensação horrível de frustração, decepção no peito, eu quase pareço me lembrar de pensar comigo mesmo: "Então é isso, eu fiquei aguado!, é isso o nome desta sensação horrível!". E fiquei muito tempo pensando no porquê do uso de um derivado de "água" para a sensação, mas, ao mesmo tempo, sabia que era perfeito. Era como estar chorando por dentro dos pulmões.

E é essa a sensação que me retorna ao ler certos escritores. Esta febre, misturada a este aguamento. Mas agora ela é subitamente um prazer! Como aquela alegria difícil de que fala Clarice Lispector em A Paixão Segundo GH? Talvez haja apenas muito masoquismo no tal prazer do texto. E vicia. Porque agora não tenho escolha, passo a vida buscando os escritores que me possam dar este prazer específico, este aguamento. Esta febre. Mas quanto mais passa o tempo mais difícil fica deslumbrar-se. São poucos os que dão a febre imensa... senti-a em "O ovo e a galinha", de Clarice Lispector, assim como, mais tarde, em várias passagens deslumbrantes de A Maçã no Escuro (1951); eu a senti neste The Day He Himself Shall Wipe My Tears Away comentado aqui, de Kenzaburō Ōe; naquelas páginas finais de Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa, ou na passagem assustadora em que Riobaldo deixa o bando e embrenha-se no ermo, à procura do diabo; em quase todas as páginas de Qadós (1973) e A Obscena Senhora D (1982), de Hilda Hilst, especialmente com aquela porca; passagens de Absalom, Absalom! (1943), do Faulkner; em Temor e Tremor (1843), do Kierkegaard; em Do Sentimento Trágico da Vida (1933), de Miguel de Unamuno; na passagem em que Aliocha lamenta-se durante os eventos perturbadores do velório de seu mestre no monastério, em Os Irmãos Karamazov (1880); em Fragmentos de um Discurso Amoroso (1977), do Barthes; etc, etc, e outro raro e precioso etc.

Eu estou sempre em busca destes textos. Acho que é por isso que a onda brasileira seca, objetiva e econômica dos poetas cabralistas e dos prosadores fonsequistas sempre me frustrou tanto - ainda que os próprios Cabral e Fonseca sejam muitíssimo capazes de tais textos, basta pensarmos, por exemplo, em Uma Faca Só Lâmina (1955), de Cabral. Eu preciso da febre, do texto que parece aumentar a temperatura do meu corpo entre o diafragma e as amígdalas, que faz a boca ficar --- nem frouxa nem rígida (o Brasil ataca o frouxo porém celebra o rígido) --- mas tesa.

Falei aqui apenas sobre os textos em prosa que mais me marcaram, compartilhando com vocês. Adoraria saber quais textos dão febre aos amigos. Quem quiser deixar uma lista nos comentários, como sugestões a este viciado por textualismo febril, me deixaria feliz.

Quero escrever sobre uns poemas na próxima vez.

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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Eu, a exceção de teu et cetera

Andei revendo vários filmes de Almodóvar na companhia de Ivánova. Primeiro vimos Hable con ella (2002); algumas noites mais tarde, Todo sobre mi madre (1999); hoje à noite, Carne trémula (1997). Estes três filmes foram muito importantes para mim. Eu os vejo como uma trilogia. Talvez pudéssemos chamá-la de O Touro Ensandecido Não Investe Contra O Vermelho Mas Contra A Genitália Do Toureiro A Chacoalhar-se, ou talvez Como A Criança Que Espera Que A Boneca A Ame De Volta Já Dizia Rilke, ou, por fim, Das Dificuldades De Buscar Financiamento Para A Cura Da Epidemia De Si Próprio.

Etc, Etc, Etc.

Escrevi certa vez num poema em inglês e português:

"I
am the exception
of your etc."

ou

"Eu,
a exceção
de teu
et cetera."

Melhor disse Drummond, sobre aquela "sede tão vária / e esse cavalo solto pela cama / a passear o peito de quem ama."

Depois destes filmes, Almodóvar continuou fazendo trabalhos muitíssimo competentes, lindos até, mas a tensão espiritual (não sei chamar de outra coisa) que o afinava como um violino estressado naqueles três filmes não mais se repetiu, em minha opinião. Como poderia? Ninguém pode viver por muito tempo naquele estado.



Saio de filmes como este meio transtornado, e mal posso me recompor com as migalhas que sobram de mim no chão. Ah! O dia em que nem só de migalhas viverá o homem.

A água no peito, os pelos eretos, me ponho então a ler Hilda Hilst, Wislawa Szymborska, Diane di Prima. A escutar Dolores Duran, Maysa, Elis Regina, Ângela Ro Ro, Chavela Vargas. Como se isso pudesse acalmar alguém!

Assim deixo vocês, com algumas destas vontades, queridos. Que nos trema a carne todos os dias de nossa vida.

§



§

Cantiga para Nenê-X, por nascer
Diane di Prima, tradução de Ricardo Domeneck

Benzinho
quando rasgar-me por dentro
você encontrará
aqui uma poeta
não exatamente algo dos sonhos.

Não hei de prometer
que jamais conhecerá a fome
ou a depressão
neste globo
de vácuo
aos pedaços

Mas posso apresentar-lhe
nenê
o bastante que amar
para partir-lhe o peito
pelos séculos

(tradução de Diane di Prima)


Song for Baby-O, Unborn: Sweetheart / when you break thru / you´ll find / a poet here / not quite what one would choose. // I won´t promise / you´ll never go hungry / or that you won´t be sad / on this gutted / breaking / globe // but I can show you / baby / enough to love / to break your heart / forever

§



§

Fragmentos de um discurso ao FBI
Diane di Prima, tradução de Ricardo Domeneck

Ai vocês de borsalino ou impermeável dão testemunho
Dos dias fugidios, data & horário?
As viagens de metrô a amantes esquecidos
(Vocês em verdade os têm para sempre, identidade & 3x4?)
Os velhos números de telefone, cujo ritmo não mais
Canta por nós, descrições de carros há muito mortos?
Ai ternos cronistas de nossas vidas irisadas
Benditos obreiros no arquivo labiríntico
Querubins gravadores que relegarão ao fogo
Identidade & formulário, papéis e corpo enquanto nós
Ascendemos em cânticos acima das árvores

(tradução de Ricardo Domeneck)


Fragmented Address to the FBI: O do you in fedora or trenchcoat bear record / Of the elusive days, date & hour / The subway journeys to forgotten loves / (Do you indeed have them forever, name & picture) / The old phone numbers, whose rhythm no longer / Sings for us, descriptions of long dead cars? / O gentle chroniclers of our rainbow lives / Blessed laborers in the labyrinthine archive / Recording angels who will consign to fire / Name & form, body & papers while we / Rise singing above the trees

§


Pequena Nota sobre a Dispersão da Língua
Diane di Prima, tradução de Ricardo Domeneck

uau cara eu disse
quando você inclinou meu queixo e nutriu
de cabeça em cuspe a libação de minha língua em fluidos

e uau cara eu disse quando caímos nos trapos e espuma
e uau era a aurora: nós fervemos os cafezais
numa panela batida

uau cara eu disse o dia em que caí de sua graça
(apenas o tom foi outro)
uau cara uai uau eu colhi meu pente
e meus dois livros e sumi e pronto e acabou



Short Note on the Sparseness of the Language: wow man I said / when you tipped my chin and fed / on headlong spit my tongue´s libation fluid // and wow I said when we hit the mattressrags / and wow was the dawn: we boiled the coffeegrounds / in an unkempt pot // wow man I said the day you put me down / (only the tone was different) / wow man oh wow I took my comb / and my two books and cut and that was that

§



§

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

(Hilda Hilst, Do desejo, 1998)

§

Amor à primeira vista
Wislawa Szymborska, tradução de Júlio Sousa Gomes


Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.

Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?

Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.

Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.

Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.

Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?

Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.

Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.

§§§

domingo, 22 de novembro de 2009

Elogio da violência est-É-tica a partir das secreções em Hilda Hilst

Em uma literatura de moços e moças muito comportados e estudiosos como é o caso da brasileira, especialmente no pós-guerra, descobrir Hilda Hilst foi um refrigério. Saber que essa mulher ignorada havia produzido coisas assustadoras como Qadós (1973) e A obscena senhora D. (1982), além dos textos curtos reunidos em Pequenos discursos. E um grande (1977), como "Vicioso Kadek" e "Teologia natural", servia para reconciliar qualquer um com as possibilidades de algo estimulante na terrinha. Como não admirar uma mulher que escrevia, além disso, aqueles poemas, em plena época antilírica, dos mocinhos que ruminavam opiniões de Cabral como dogmas insuperáveis? Era muito reconfortante poder ler um livro como Cantigas do sem nome e de partidas (1995), uma das coisas mais bonitas da década de 90. Não quero insinuar qualquer "anticabralismo" de minha parte, como alguns entenderam meu a cadela sem Logos. Mas, meus caros, venhamos e convenhamos: não podemos deixar que uma admiração exagerada nos cegue para o fato de que João Cabral de Melo Neto é um poeta de imaginação limitada, que empalidece ao lado da abundância de Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes. Cabral talvez tenha uma obra mais regular e constante que a destes dois, mas eu diria que a tem porque se arriscou bem menos que eles, ou mesmo que o irregularíssimo Jorge de Lima. Seus melhores poemas foram escritos justamente sob o influxo destes dois poetas, aprendizado confirmado pelo próprio Cabral, como o lindíssimo "O cão sem plumas" (1950) ou os poemas do volume Psicologia da composição (1947). Produz as alturas de O Rio e Morte e vida severina, mas o Cabral que surge a partir de Paisagens com figuras viria a se repetir indefinidamente, sem superar o que fora capaz de fazer com essa poética no estupendo "Uma faca só lâmina" (1955), momento de risco supremo que Cabral se propôs, poema que merece figurar ao lado de textos tão importantes quanto "A máquina do mundo" e "Janela do caos", dos seus dois mestres. Dessa poética repetitiva, o importante A educação pela pedra (1966) viria a ser apenas uma variação elegante. Não há variedade formal suficiente em João Cabral de Melo Neto para nutrir com seus parâmetros, de forma unívoca, todo um projeto de poesia nacional no pós-guerra. É óbvio que não se pode culpar um poeta tão forte como Cabral por toda a literatura anódina que se produziu em seu nome ou suspostamente sob seu signo. Aquele homem possuía verdadeiramente uma est-É-tica, mais do que explícita a quem lê com atenção poemas como "A palo seco", que nada tem a ver com o que se confundiu com objetividade na poética oficial dos últimos 20 anos, com a descrição de paisagens urbanas ou o uso recorrente de "pedras" e "desertos" posando como materialidade de linguagem. Como escrevi em outro lugar, o problema com esta idéia equivocada de "objetivo" começa no fato de que esta objetivação requer, em sua base, a sobrevivência das velhas dicotomias de sempre, como interno/externo, sujeito/objeto, sua concentração sobre o "mundo externo" (daí a avalanche de poemas meramente descritivos), que depende de uma espécie de unidade de percepção do poeta, que acaba sendo centrada num sujeito monolítico, desonestamente camuflado. Enquanto isso, Hilda Hilst ousava escrever e chamar de poemas, em plena época de secura e materialidade, poemas líricos que tomavam Caio Valério Catulo por mestre. Longe de mim sugerir que Hilst superou Cabral, o que talvez tenha feito, se levarmos em conta não apenas seus poemas, mas toda sua produção literária. O que nos impede, no entanto, de abrir o nosso leque de possibilidades poéticas?

O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade

Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.


Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974)

ou

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.


Do desejo (1992)

Mas o assustador em sua obra e o que seguirá fazendo de Hilda Hilst um dos nomes incontornáveis na literatura deste século é seu trabalho em prosa, ou o que se convenciona chamar de prosa por simplesmente ocupar toda a página. Assim como Cabral serviu de parâmetro crítico quase único para a produção poética, a prosa brasileira nas duas últimas décadas parece ter feito de Rubem Fonseca um dos seus poucos parâmetros críticos, ou a meta de qualidade a atingir. Rubem Fonseca é um bom escritor, mas jamais seria possível ordenhar uma escola literária das tetas murchas de seu trabalho. Os que temperaram sua poética ainda com o que aprenderam de escritores como João Antônio, Campos de Carvalho, João Gilberto Noll e Sérgio Sant´Anna, além de diferentes referências de outras línguas, entregaram obras mais estimulantes. Na mesma época, Hilst enriquecia a escala com essa nota:

Teologia Natural


A cara do futuro ele não via. A vida, arremedo de nada. Então ficou pensando em ocos de cara, cegueira, mão corroida e pés, tudo seria comido pelo sal, brancura esticada da maldita, salgadura danada, infernosa salina, pensou óculos luvas galochas, ficou pensando vender o que, Tiô inteiro afundado numa cintilância, carne de sol era ele, seco salgado espichado, e a cara-carne do futuro onde é que estava? Sonhava-se adoçado, corpo de melaço, melhorança se conseguisse comprar os apetrechos, vende uma coisa, Tiô. Que coisa? Na cidade tem gente que compra até bosta embrulhada, se levasse concha, ostra, ah mas o pé não agüentava o dia inteiro na salina e ainda de noite à beira d'água salgada, no crespo da pedra, nas facas onde moravam as ostras. Entrou em casa. Secura, vaziez, num canto ela espiava e roia uns duros no molhado da boca, não era uma rata não, era tudo o que Tiô possuia, espiando agora os singulares atos do filho, Tiô encharcando uns trapos, enchendo as mãos de cinza, se eu te esfrego direito tu branqueia um pouco e fica linda, te vendo lá, e um dia te compro de novo, macieza na língua foi falando espaçado, sem ganchos, te vendo, agora as costas, vira, agora limpa tu mesma a barriga, eu me viro e tu esfrega os teus meios, enquanto limpas teu fundo pego um punhado de amoras, agora chega, espalhamos com cuidado essa massa vermelha na tua cara, na bochecha, no beiço, te estica mais pra esconder a corcova, óculos luvas galochas é tudo o que eu preciso, se compram tudo devem comprar a ti lá na cidade, depois te busco, e espanadas, cuidados, sopros no franzido da cara, nos cabelos, volteando a velha, examinando-a como faria exímio conhecedor de mães, sonhado comprador, Tiô amarrou às costas numas cordas velhas, tudo o que possuía, muda, pequena, delicada, um tico de mãe, e sorria muito enquanto caminhava.

de Pequenos Discursos. E um Grande (1977)

Trata-se de um outro tipo de violência. A violência das secreções funciona de forma distinta em Hilst. Sua tática de choque vai além da atitude malcriada de Rubem Fonseca, que tanto fascina os escritores brancos e heterossexuais da classe média do Brasil de hoje. Nesse aspecto, parece-me ainda mais claro que o escritor brasileiro com o qual se poderia comparar Hilda Hilst não é João Guimarães Rosa (o que ocorre com frequência no Brasil que também costuma meter Joyce e Stein no mesmo balaio), mas Graciliano Ramos, por mais incomum que pareça a ligação. Não o Ramos de Vidas Secas (1938), talvez, mas definitivamente o Graciliano Ramos de Angústia (1936) e, de certa maneira, mesmo o de São Bernardo (1934).

Violência esta muito mais que a temática, que Rubem Fonseca pratica por vezes com brilhantismo, mas uma violência est-É-tica que encontramos em escritores muitas vezes aparentemente díspares entre si, como a Clarice Lispector de A paixão segundo GH (1964) ou A hora da estrela (1977), sem deixar de mencionar a pancada est-É-tica que é A maçã no escuro (1951), aquela diatribe metafísica e política que até hoje não foi muito bem digerida; e, é claro, penso também no mestre de nós todos, Machado de Assis. Ou não lhes parecem brutais, livros como Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom Casmurro (1899)?

O pós-guerra viu mulheres como Clarice Lispector e Hilda Hilst produzirem alguns dos artefatos (metafísicos e políticos) mais brutais de nossa literatura, numa linguagem seca e direta, mas informada por suas leituras de autores como Merleau-Ponty e Wittgenstein. A narrativa brasileira contemporânea, no entanto, com as exceções de sempre, parece ser produzida por rapazotes que cresceram lendo gibis de super-heróis, nos quais basearam seus machucados projetos de masculinidade, produzindo hoje suas narrativas ideais para um público, digamos, como o dos estudantes da UNIBAN.

No entanto, a invectiva contra nossas ilusões de "civilização" em livros como esses: Memórias póstumas de Brás Cubas, Angústia, A paixão segundo GH e Qadós é atordoante, inescapável. Testemunhos de nossa inviabilidade em meio ao inviável (que se sonha invejável) Ocidente, que já cai aos pedaços e afunda, sem que os muitos tomos das obras completas de Shakespeare e Balzac nos ajudem sequer a boiar. Esses livros nos mostram o que Euclides da Cunha estabelecera com seu anti-épico: se houver alguma sombra de justiça nessa existência, do Brasil não sobrará um dia pedra sobre pedra. Sejam estas pedras cabralinas ou não.

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Às vezes davam-me panos pretos, ou alaranjados ou com listas ou vermelho com florzinhas, nunca o branco, Excelência, e como último recurso para conseguir os círios eu entrava numa loja aos solavancos, o olho girassol e gritava: duas velas por favor, a mãe agoniza, em nome do vosso nosso Deus duas velas para as duas mãos de mamãe. E saía como o raio, como o cão danado, como Tu mesmo que te evolas quando Te procuro, ai Sacrossanto por que me enganaste repetindo: hic est filius meus dilectos, in quo mihi bene complacui? Nudez e pobreza, humildade e mortificação, muito bem, Grande Obscuro, e alegria, é o que dizem os textos, humilde e mortificado tenho sido, mas alegre, mas alegre como posso? Se continuas a dar voltas à minha frente, estou quase chegando e já não estás e de repente Te ouço, bramindo: mata o rei, Qadós, o inteiro de carne e de pergunta, pára de andar atrás de mim como um filho imbecil. Como queres que eu não pergunte se tudo se faz pergunta? Como queres o meu ser humilde e mortificado se antes, muito antes do meu reconhecimento em humildade e mortificação, Tu mesmo e os outros me obrigam a ser humilde e mortificado? Como queres que eu me proponha ser alguma coisa se a Tua voracidade Tua garganta de fogo já engoliu o melhor de mim e cuspiu as escórias, um amontoado de vazios, um nada vidrilhado, um broche de rameira diante de Ti, dentro de mim? E as gentes, Máscara do Nojo, como pensas que é possível viver entre as gentes e Te esquecer? O som sempre rugido da garganta, as mãos sempre fechadas, se pedes com brandura no meio da noite que te indiquem o caminho roubam-te tudo, te assaltam, e se não pedes te perseguem, se ficas parado te empurram mais para frente, pensas que vais a caminho da água, que todos vão, que mais adiante refrescarás pelo menos os pés e ali não há nada, apenas se comprimem um instante, bocejam, grunhem, olham ao redor, depois saem em disparada. Andei no meio desses loucos, fiz um manto dos retalhos que me deram, alguns livros embaixo do braço, e se via alguém mais louco do que os outros, mais aflito, abria um dos livros ao acaso, depois deixava o vento virar as folhas e aguardava. O vento parou, eis o recado para o outro: sê fiel a ti mesmo e um dia serás livre. Prendem-me. Uma série de perguntas: qual é teu nome? Qadós. Qa o quê? Qadós. Qadós de quê? Isso já é bem difícil. Digo: sempre fui só Qadós. Profissão. Não tenho não senhor, só procuro e penso. Procura e pensa o quê? Procuro uma maneira sábia de me pensar. Fora com ele, é louco, não é da nossa alçada, que se afaste da cidade, que não importune os cidadãos.

trecho de Qadós (1973)

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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Pensando nelas uma vez mais: duas poetas incontornáveis

Havia duas poetas entre os vivos ao fim do século passado que eu sonhava um dia conhecer quando me mudei para a cidade de São Paulo, vindo do interior do estado. Talvez não necessariamente "conhecê-las", mas pelo menos sentar-me a uma mesa de uma lanchonete qualquer, próxima da mesa em que elas tomavam seu café, liam ou simplesmente olhavam pela janela. Lembro-me da descrição de Caetano Veloso sobre como Torquato Neto seguia Carlos Drummond de Andrade e Nelson Rodrigues pelas ruas do Rio de Janeiro, no fim da década de 60. Creio que era um pouco dessa mesma vontade, de olhar para os esqueletos e músculos e cabelos destas duas criaturas que me fascinavam. As duas nasceram também no interior de São Paulo, como eu, e estão entre os poetas brasileiros do pós-guerra que viriam a comandar minha atenção e ter um impacto gigantesco sobre meu trabalho e minha est-É-tica.

Falo aqui de Hilda Hilst (1930–2004) e Orides Fontela (1940–1998).


Descobrira a existência de Orides Fontela quando lançou-se o seu quinto livro de poemas, Teia (São Paulo: Geração Editorial, 1996) e a situação de pobreza em que vivia a poeta chegou aos meios televisivos. Lembro-me de uma entrevista, em que ela encerrava com a leitura do poema de abertura do livro Teia, o homônimo "Teia", como era seu costume nomear seus livros por seus poemas de exórdio.



Teia

A teia, não
mágica
mas arma, armadilha

a teia, não
morta
mas sensitiva, vivente

a teia, não
arte
mas trabalho, tensa

a teia, não
virgem
mas intensamente
...................prenhe:

no
centro
a aranha espera.



Ao terminar de ler aquele "no / centro / a aranha espera", ela olhava para a câmera de um jeito que dava frio na espinha. Tratava-se de um coisismo muito diferente do que eu aprendera a admirar e respeitar em João Cabral de Melo Neto. O coisismo de Cabral é pragmático, telúrico. Em Fontela, parecia se tratar daquele "coisismo ontológico" a que Haroldo de Campos se referira em relação a um poeta como Vasco Popa. Como o de Francis Ponge? Na biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo, eu viria a retirar muitas vezes o volume Trevo: 1968 - 1988 (São Paulo: Duas Cidades, 1988), em que leria admirado os poemas do lindo Alba (1983), livro que me parece um milagre na década de 80, assim como Asmas (1982), de Ronaldo Brito, e, é claro, Da Morte. Odes Mínimas (1981), de nossa gigante Hilda Hilst.

Foi com muita tristeza que abri o jornal, em uma manhã de 1998, para descobrir que Orides Fontela estava morta já há uma semana, mas jornal nenhum se dignara a informar o público. A poeta morrera, praticamente como indigente, num hospital público de Campos do Jordão, a 4 de novembro de 1998. O minúsculo artigo-obituário havia sido escrito por Alcir Pécora, creio, que a conhecera pessoalmente e admirava sua poesia.

Tecnicamente, toma-se o século XX como iniciando-se em 1901, terminando no ano 2000. Historiadores usam outras datas. Em minha mente, muitas vezes, o século XX da poesia brasileira inicia-se com a morte de Cruz e Sousa em 1898, terminando em 1998 com a morte de Orides Fontela. Duas mortes indigentes. Sei que seria mais "realista", digamos, apontar as mortes de Joaquim de Sousândrade e João Cabral de Melo Neto, em 1902 e 1999, para estes limites. 1902 é ainda o ano de publicação de Os sertões. Não estou, porém, tentando criar uma hierarquia. Nem estou com isso tentando estabelecer ou impor minha própria historiografia. É apenas meu hagiológio pessoal.

Tanto Cabral como Fontela comparecem com suas mortes em meu bilhete a mim mesmo, que encerra meu primeiro livro, contra a auto-glorificação que é típica entre nós, poetas, uma tentativa de lembrar a mim mesmo que somos pó, pó, pó, e se estes morreram como morreram, por que fim melhor haveria de me esperar?

Lembrete

Cruz e Sousa
em vagões de
transporte
de gado.

Paul Celan
nas águas
do Sena.

Frank O’Hara
estirado n’areia.

Christine Lavant
crivada de camas
............e escamas.

Alejandra Pizarnik,
intolerância
a C12H18N2NaO3.

Carlos Drummond de Andrade,
doze dias após a filha.

Pier Paolo
a pau e pedra.

João Cabral de Melo Neto
...................................cego.

Orides Fontela
à beira da indigência.


(publicado orginalmente em Carta aos anfíbios, 2005. Versão nova)

§


Descobri Hilda Hilst quando esta lançou o romance Estar Sendo. Ter Sido (São Paulo: Nankin Editorial, 1997). Lembro-me de ler trechos, em pé, numa livraria pequena da Avenida Paulista, onde ia ler de graça pois não tinha dinheiro para comprar os livros, até chegar ao poema que encerrava o volume, intitulado "Mula de Deus", com versos como "Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO / Alta, dourada, me pensei. / Não esta pardacim, o pelo fosco / Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO" ou "Há nojosos olhares sobre mim. / Um rei que passa / E cidadãos do reino, príncipes do efêmero. / Agora é só de dor o flanco trêmulo. / Há nojosos olhares. Rústicos senhores." Quando cheguei aos últimos versos do poema, aquele deslumbrante "Palha / Trapos / Uma só vez o musgo das fontes / O indizível casqueando o nada // Essa sou eu. // Poeta e mula / (Aunque pueda parecer / Que del poeta es locura)", quase cambaleava.


Deu a febre.

Tornei-me devoto.

Nos próximos anos passei os livros de Hilst a todos que encontrava, formando um círculo de amigos que a admiravam como eu. Em 2004, decidimos: vamos a Campinas conhecê-la. Não sabíamos que a poeta estava há semanas no hospital, após uma queda que lhe trouxera complicações. Soube, mais uma vez pelos jornais, de sua morte a 4 de fevereiro de 2004. Telefonei perplexo para os amigos com quem planejava a viagem à Casa do Sol. Não queria crer. Naquela tarde, após sair do trabalho, lembro-me de caminhar para o Parque do Ibirapuera, onde queria ver uma exposição no MAM e, descendo a pé pela Avenida Brigadeiro Luís Antônio, comecei a compor na mente a primeira das "Seis canções óbvias":


Sair da cama, disse,
........foi simplesmente
........uma idéia incrível
........e deliberada
De invernos frutíferos
........construíram-se
........muitos infernos na
........primavera
A cama é um inferno pessoal
........e intransferível
E a pele vestida à noite
........desprega-se para acompanhar
........outra calçada pela manhã
A transferência de corpo pratico-a
........com diligência
É tudo tão simples, dizem
Hilda Hilst havia medo da morte
........e morreu
........assim como o MASP
........é ao mesmo tempo
........museu e mirante
Ergue-se o deliberado sobre
........simples patas


(Carta aos anfíbios, 2005)


Algum dia quero escrever sobre essa viagem à Casa do Sol, esta viagem que jamais aconteceu. Não conheci Orides Fontela, não conheci Hilda Hilst. Não as vi beber café em copo, caneca ou xícara. Tenho os poemas. Volto a eles constantemente, como quem quer matar a sede infinita.

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