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quinta-feira, 8 de março de 2018

VICTOR HERINGER UNE-SE AOS EGUNS


1.

Como naquela rara fotografia
juntos, com sua cabeça
a pender sobre meu peito,
esse gesto que diz entre nós
muito mais do que o aperto de mão,
muito mais do que o beijo na boca,
porque é o colo,
aquele que em nossa terra
expandimos para além da caixa torácica
para ir da garganta até os joelhos,
como a rede em que nos embalavam
as mães antigas,
como as cadeiras em que nos ninam
as mães novas,
cantarolando que a Cuca
não há-de vencer.

2.

Estava entre amigos
quando as mensagens de voz de amigos
começaram a entupir meu telefone
mas as ignorei, por estar entre amigos
e aos amigos presentes dá-se
toda prioridade,
como você mesmo o faria,
gladiador da ternura e do candor.

3.

É só uma notícia. Uma notícia. Pasmo
de susto, assustei eu mesmo
os vivos na sala, ao dar uma golfada de ar
adentro, como quem emerge a cabeça
para fora d’água segundos antes
de afogar-se, mas em verdade
submergia naquele instante.

4.

É como se houvesse morrido
a última gentileza.
Hoje extinguiram-se deveras
todos os dodôs.

5.

As pequenas ruas da Glória e do Catete
perderam um historiador, nestes tempos
em que não há mais historiadores de ruas.
Você sai das ruas da Glória e do Catete
e passa a fazer parte da história das ruas.

6.

Estão imediatamente órfãos alguns objetos
que só você teria visto como importantes:
uma pena de pombo qualquer, uma pedra
ou concha, que você teria erguido
em amuleto.

7.

Tenha sido cândido, gentil e terno
como era você, cavalheiro, cavaleiro,
Omolú ao cortar o cordão de prata.

§

Berlim, 7 e 8 de março de 2018, triste até o caroço.

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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Flor da república dos fungos

Este poema surgiu durante a leitura de Hope in the Dark, de Rebecca Solnit. Na introdução, ela cria uma imagem belíssima a partir das estratégias dos fungos e seus cogumelos: 

"Mushroomed: after a rain mushrooms appear on the surface of the earth as if from nowhere. Many do so from a sometimes vast underground fungus that remains invisible and largely unknown. What we call mushrooms mycologists call the fruiting body of the larger, less visible fungus. Uprisings and revolutions are often considered to be spontaneous, but less visible long-term organizing and groundwork— or underground work—often laid the foundation. Changes in ideas and values also result from work done by writers, scholars, public intellectuals, social activists, and participants in social media. It seems insignificant or peripheral until very different outcomes emerge from transformed assumptions about who and what matters, who should be heard and believed, who has rights."

Vai dedicado ao amigo e pintor irlandês Jim Scully por nossas conversas nas últimas semanas, nas quais a palavra "república" aparece com frequência por várias razões, seja para falar de Irlanda ou do Brasil, como de Berlim e de nossos amigos.




Flor da república dos fungos

              a Jim Scully


Vejo homens e mulheres
nesse continente
caçando pelas florestas
o que cresce visível
e bojudo sobre a terra,

o corpo frutificante dos fungos
que se ramificam
feito repúblicas

invisíveis, subterrâneas, quietas

por longos períodos

à espera dos aguaceiros

edificadores de sua estipe

e guarda-chuva, e nós também

assim como outras espécies

fundamos nossas colônias,

mas sobre a terra
e ainda que com formigas
e abelhas já estejamos
competindo pelo subsolo
e pelos ares,

esperamos por anos

que algo floresça,

chegamos a pedir que flores

feias furem o asfalto,
ora que antes emerja

um cogumelo,
azul e leitoso

desabroche e desabotoe-se

sob a abóboda
também azul — imenso porta-sol

desse píleo convexo

sobre nossas cabeças —

e ao lado de abóboras
venha nutrir o estômago
vazio mas vivo de Lázaro,

esse irmão,
como um Cristo

antes Filho do Homem

do que Filho de Deus,

porque se de preto
seguimos pelas calçadas
da República,

é tanto por um luto constante

quanto para absorver

ao máximo a luz

que é o calor

do sol ao qual respondemos

mantendo também constante

nosso calor próprio.


#

Berlim, 17/18 de fevereiro de 2018


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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Texto em que o poeta medita sobre os custos da beleza do menino-garçom do outro lado do balcão no Café La Pompe em Bruxelas



Teus olhos puxados de gato
e o nariz curvado de águia
escancaram desmascaram
a teia
de heranças que compartilhas
com felinos e aves
em nossos genes que sabem
modelar urdir fabricar tecer
nossas roupas feitas
de pelos penas escamas
mas que seguem
a planta arquitetônica
a técnica de alfaiataria
o manual de instruções
escrito em meio a catástrofes
as climáticas as vulcânicas
as meteóricas as viróticas
que extinguiram uns felinos
e levaram outras aves
a se lançarem às águas
ai a estratégia dos pinguins!
e fizeram de guaxinins
golfinhos
e de certos dinossauros
galinhas
e pergunto que fuzarca
genocida homosapiense
terá doado a ti
menino-garçom
estes olhos felinos
este nariz aquilino
ora que mulheres pagaram
com o útero pelas invasões
sucessivas nesse continente
que hímens rasgados à força
custearam
tuas formas texturas e cores
garçom-menino
é cara a beleza
custa sim caro
a beleza herdada
por tantas violências
as expansionistas
as emancipatórias
sem notas de rodapé
nos livros de história
eu me pergunto
aqui em Bruxelas
Capital da Desunião
que gauleses e romanos
hoje esquecidos
que francos e normandos
hoje escondidos
nesses olhos e nariz
espiam-me espiar-te
resta-me só esta
excitação ovulante:
compartilhar a luz
com tuas pupilas
compartilhar o oxigênio
com tuas narinas
mesmo que o gás carbônico
que produzo
seja rejeitado
pelos teus pulmões
assim visitamo-nos
um ao outro
assim entramos
um no outro
assim contribuímos
com essa teia
que os dois coabitamos
com gatos e águias
e as outras cobaias
felinamente aquilinos
aquilinamente felinos

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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Leite



Já não adianta
chorar pelo leite
mamado, querido,
seu cálcio
está agora nos ossos
que suportam
a geringonça
pelas calçadas.
Cheguei a esta idade
em que se tira o suéter
e dobra-se-o diligente
para agasalhar
a gaveta. Deixar
em ordem as reações
passíveis e possíveis
ao clima desordenado
contra o meu armário
de órgãos falíveis.
Que se dissolva
este calor
que foi da sol,
coletado por plantas,
então de herbívoros
e a mim chegou-me,
dádiva de empréstimo.
Tomo
a água e aguo
o copo.
Cozo a couve
e lavo a louça.
A casa está agora
limpa sempre
caso chegue, hóspede.
O desejado. O indesejado.
Puídos estão os lençóis
mas sem sinais de infecções.
Ainda que seja chegado
esse tempo, essa idade,
esse clima imprevisível
em que tão bem se sabe
que ao deus-dará
jamais foi ou será
promessa de holerite
em dia fixo do mês.

§

Berlim, 24 de dezembro de 2017
(ou o Ano de Nossa Senhora da Catástrofe 517)

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terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Pricísu tidizê

apesar de tudo
e todos a pesar
apesar de nada
peso o abusar
ai meu zizus

essa coisa
esse trem
brasileiroa
falaresse
iorubantuportujês
ser-se o cerceio
di-si-i-d'ôtro
qui desgraça
qui delícia
entre bigatos
e os caquis
ai desdiliça
ui deligraça
nascer aquiaí
é-se
filhadaputice
duma disgrama
de azedoce

§

No Ano de Nossa Senhora da Catástrofe 517,
Berlim, 20 de dezembro.

§


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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Trapezista bambo sobre a rede social dos silêncios de um menino

(desenho de Leonilson)


Trapezista bambo sobre a rede social dos silêncios de um menino

Faço diligente meus autorretratos
e espero que ele erga o polegar
em público, qual um césar decida
que eu posso viver um dia a mais
na arena em que nos digladiamos.
Ao fim do mês, tabelo e analiso
a informação dos seus gostos
e desgostos, estes últimos
interpretados de seu silêncio
que é, em si, o meu desgosto:
ele não gosta deste cabelo,
ele não gosta desta pose,
ele não gosta deste rosto,
mas ele gosta deste casaco!
Talvez um dia ele desça o polegar
e gládios de estranhos
me trespassem
e não afinal a sua glande,
ou abandone de todo estes sinais
mudos, esta fumaça sem fogo,
estes pombos-correios casmurros.
Mas quem sabe, ai loteria!, ele           
até mesmo, apesar de tão jovem,
seja ensinado que o telefone
foi inventado para hábitos antigos,
conversas! imaginem! ouvir vozes!
Quando então leve ao bucal a boca,
eu saberei como pentear o cabelo,
que pose não assumir no corpo,
que rostos esconder no rosto.
E estará limpo aquele casaco.


§


(No Ano de Nossa Senhora da Catástrofe 517)

Berlim, 23 de novembro de 2017.

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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Poema ao saber da morte de Vincent Warren

Vincent Warren & Frank O'Hara em Nova Iorque em 1960. A paixão
de Frank O'Hara pelo dançarino canadense, que ele conhece em 1959, é apontada
por críticos e biógrafos como um dos fatores que levariam a seu annus mirabilis (1959),
quando O'Hara escreveu grande parte dos poemas que o tornaram famoso,
incluindo vários dedicados a Warren, como "Having a coke with you", "Steps"
e "You are gorgeous and I'm coming". Vincent Warren faleceu a 25 de outubro deste ano.



POEMA AO SABER DA MORTE DE VINCENT WARREN
ou Texto em que o poeta lembra-se de que morrem também aqueles que ele canta

Os cafés esfriam e acabam!
As manhãs acabam e esfriam!
Deveriam ser estas as manchetes
dos jornais de amanhã, querido,
não mais guerras e golpes, não,
quando estarão enfim extintos
estes assuntos e não nosso açúcar,
nosso pó de café e nossos cigarros,
pois há tanta coisa mais importante
por discutirmos e ajeitarmos.
Calafriam-se os cafés-da-manhã!
Emboloram-se os pães de nosso açúcar!
Todos, Moço. Dessarte haveria
o mundo ou eu
- preferira que fosse eu e o mundo -
de anunciar a você a morte
de Vincent Warren
para os seus bocejos,
não de tédio e sussurros
de quem? quem?,
mas de sono em minha cama,
ainda em minha cama!
enquanto releríamos
tristes os poemas alegres
daquele Frank O'Hara,
escrito para o seu moço
pessoal, privado, intransferível,
ambos agora mortos, finados
o cantor e o cantado, mas não
a canção! nem nós! aqui vivos
numa cidade reerguida de escombros,
nessa alegria sempre temporária
dos cafés, dos açúcares, dos cigarros
e das sempre tão poucas moedas
nos bolsos de nossas calças
que escondem nossa pobreza e riqueza.
Nem por isso é menos alegria a alegria.
E então prepararíamos forte o café
e acenderíamos todos os cigarros
e açucararíamos tudo que pede açúcar
pois é nossa a goela e é nosso o bucho
e neles enfiamos o que nos apraz
em nossa ciranda de prazer e morte
e a sorte grande dos que morrem primeiro
e a sorte maior dos que morrem juntos.


                            — Berlim, 13 de novembro de 2017


§

oh god it’s wonderful
to get out of bed
and drink too much coffee
and smoke too many cigarettes 
and love you so much

—Frank O’Hara (versos finais de “Steps”, poema para Vincent Warren).

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sábado, 30 de setembro de 2017

Ao cu do cupido


muitas vezes pensei ser pena
que tal ilustre sociopata o cupido
em voo não seja um ícaro
em pouso não seja um joelma
não são inflamáveis suas asas de codorna?
são sempre apenas sublunares seus voos?
como jurei mil-mil vezes que o depenaria
com as próprias mãos e faria um pirão
desta galinha choca metida a anjo
mas no fim quando ele se aprochega
feito um pardal esfomeado
o idiota aqui esgoela de novo
MIRA NI MIM
MIRA NI MIM

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terça-feira, 8 de agosto de 2017

O duplo


Escrevi este poeminha esta madrugada. Não sei se o coloco no livro novo ou peço aos leitores que compraram a edição de Cigarros na cama que o copiem de próprio punho em alguma página em branco do livro.



Ninguém acredita todos me olham
como se eu estivesse louco
quando afirmo que você foi sequestrado
por alienígenas
e é agora mantido contra sua vontade
longe de mim longe do planeta
que costumávamos habitar juntos
todas aquelas suas leituras
Stanislaw Lem Philip K. Dick irmãos Strugatsky
eram proféticas seu manual de sobrevivência
como hei de resgatá-lo? como hei-de salvá-lo?
perscruto as estrelas noite a noite
uso aplicativos sinais de rádio e fumaça
ergo o indicador que não brilha como naquele filme
e sussurro ET BRING HIM HOME
todos os objetos voadores
são agora identificáveis
talvez você talvez você
e este agora pelas ruas do planeta
com seu corpo sua voz seu jeito de andar
ninguém acredita todos dizem louco! louco!
quando nego enfático não é ele não é ele
é um replicante um androide um body snatcher
as provas só eu sei muito bem
comprovo empiricamente a cada encontro
desde seu sequestro numa noite qualquer
quando você foi substituído por este outro
com seu corpo sua voz seu jeito de andar
a prova a prova ora que prova
olhem como ele me olha
e me trata como a um estranho
não me reconhece
não me reconhece

§


(No Ano de Nossa Senhora da Catástrofe 517)

Berlim, 8 de agosto de 2017.



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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Descoberta tardia no meio da novela


Sempre detestei aquela personagem
de filmes, livros e novelas: o bêbado penitente,
seu papel tragicômico na trama,
suas juras de corvo de nunca mais,
suas dancinhas à beira do abismão,
seu samba e capoeira na corda-bamba,
seus arrependimentos com soluços,
suas reincindências cronometradas,
seus pedidos de misericórdia a qualquer deus de plantão,
seus apelos à Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Eu sou o bêbado penitente.


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terça-feira, 11 de julho de 2017

Roteiro de colisões




Até mesmo os continentes afastam-se,
colidem, formam cordilheiras e oceanos,
detêm correntes de ar, mobilizam monções,
separam membros da mesma espécie
que se adaptam, mutações de azar e sorte.

Por que não seria assim conosco, tão mais
bruscos em nossos joelhos e cotovelos,
tão mais destrutivos em nossas erupções
pelas fendas deste corpo no qual a pele
dobra-se úmida, anunciando as crateras?

Em nós também contam apenas as quinas
e buracos. Montanhas, fiordes, precipícios.
Felizes as bactérias inquilinas de nossa pele,
como cegos que apalpassem um elefante,
só parte do planeta doente em que vivem.

E já nem sei se maldito ou bendito esse mar
de lava sobre o qual dançam nossos pés,
as erosões e tremores que expõem fósseis
onde buscamos pelo elo perdido da espécie,
aclare a desgraça de cambalearmos bípedes.

Eu culpo o eixo torto da Terra, as estações
incansáveis, essa rotina do brota-e-murcha,
a neve, seu despenca-e-derrete, eito e horto
da boca que troveja quando queria ensolarar,
une ríspida os dentes e morde ao mal lamber.


--- Munique, 9/7 - Berlim, 11/7

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terça-feira, 25 de abril de 2017

O cordeiro de breus

Não estivesse enfiado até o pescoço em leitura sobre a prática da Zoopoética, teria ouvido este cordeiro balindo hoje à noite?

"Ovelha e cordeiro" (1560), de Jacopo Bassano (1510-1592)

no campo bale
um cordeiro

não só
um espééécime
de Ovis aries

mas um cordeiro

um cordeiro único
um cordeiro individual
balindo sozinho
seu balido individual
seu balido único

voz reconhecível
por pai e mãe

ele o filhote
com data de nascer e morrer
de um carneiro de uma ovelha
com data de nascer e morrer

um eu-espééécie
uma espééécie de eu

um indivíduo
que bale
um corpo
que bale

é uma língua
mais
que estrangeira
ééé-me
uma língua
alienígena

é um beeerro
ou pareeece-me

um beeerro

aos meus ouvidos
à minha língua
eu
um espééécime
de Homo sapiens
um eu-espééécie
tambééém eu

e eu
queeero ouvir
e socorrer
este outro eu

separados
e unidos

nós
nos
nós

dos geeenes
com
-partilhados

ouço o cordeiro
o cordeiro único
o cordeiro individual

não o Cristo
que insiste
eeem identificar-se
com este cordeiro
eeem minha cabeça

mas este cordeiro
balindo sozinho
no campo

que beeerra
do frio
que se abate
sobre suaminha
sobre minhasua
peeele

queeem-deeera eu
pudeeesse agora
aninhar os meus pelos
contra os seus cabelos

e

beeerro eu seu beeerro
enquanto ele diz-me
beeeeeem peeeeerto!
beeeeeem peeeeerto!

§

Starnmeer, fazenda da residência artística Buitenwerkplaats, enquanto no pasto da fazenda vizinha (separado de onde estou por um canal) um cordeiro bale alto há cerca de uma hora.

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segunda-feira, 24 de abril de 2017

No dia da maioridade de Ewout De Cat




Hoje, menino, você
chega à vigésima
-primeira primavera,
mas, nascido
nessa estação
aqui
no hemisfério norte,
devo acrescentar outra
à contagem? Conta-se
a estação
da qual se parte?

E é sorte isso,
chegar na primavera
como os animais
que cronometram
a sua alegria?

Nós humanos
não
aguardamos flor
no sol ou sol
na flor, muito
menos alegria,
para foder-nos
uns aos outros

e eu mesmo
cheguei ao mundo
em pleno inverno
do hemisfério sul
mas duas décadas
antes de você
e nem sequer
podia mais ser contado
entre virgens e inocentes
quando você deu
seu primeiro grito.

Em qualquer cultura
e jurisprudência,
você é agora,
como dizemos,
de maior.
Dono dos tropeços
no sono dos passos.
Muda agora
até em mim
o vocabulário,
e o menino que abre
este poema
melhor seria
moço ou rapaz.

Naquela epístola
disse o apóstolo:
Quando eu era menino, 
pensava como menino, 
sentia e falava como menino. 
Quando cheguei a homem,
deixei para trás as coisas
de menino.

Mas isso é o quê,
homem? O que
é isso,
coisa de homem,
nós que matamos
a quem fuja
às regras das coisas
de homem,
quando homem?

Estratão de Sardis
tardio,
se escrevo agora
sobre seus pés e mãos
são os pés e mãos
agora de homem
e já não se pode arquivar
as minhas erocisões
nas estantes
da Musa Puerilis.

Vou ser só mais
um cavo-cavafy,
um pseudo-pasolini,
um parvo-piva.

Mas daqui do fundo
dos meus quarenta
invernos, veja
como aprendi truques
para cantar você:

Posso tomar esta data,
24 de abril,
e dizer que você
nascido
é mais influente
em minha vidinha
do que a ascensão
de Tutmósis III
ao faraonato
da XVIII
dinastia egípcia
no Império Novo

estável é a manifestação de Ré

e o sol que brilhou
sobre Tutmósis III
agora brilha sobre você,
Ewout, para mim
o primeiro,
e faraó nenhum.

E houve a queda de Troia
e o casamento de Mary Stuart
e o início de uma guerra
e o começo de um genocídio
e um levante de Páscoa
e um tratado em Berlim
e o Canal de Suez reaberto
e a morte de Vladimir Komarov
retornando da órbita do planeta
e o lançamento do telescópio
Hubble para a mesma órbita,

tudo isso nessa data,
e tudo isso o planeta
e seus antepassados
precisaram sobreviver
para dar a você a chance
de nascer numa primavera,
como eu num inverno
do hemisfério
oposto
precisei da sobrevivência
de outros
antes do seu primeiro grito
quando eu,
com duas décadas
de invernos e primaveras
já havia perdido
as contas dos meus
mas agora podemos
ao menos
esgoelar juntos.

§

Holanda, 24 de abril de 2017, 21° aniversário de nascimento de Ewout De Cat.




sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Poema no aniversário de Oswald de Andrade (na verdade para seu tradutor Oliver Precht)


Aqui onde cai a neve
inventada
por poetas europeus
seus maios cansativos
suas paisagens monótonas
como o capim infindo
das rodovias do interior

cá vêm pinheiros
cá vem capim
lá vão pinheiros
lá vai capim
vêm e vão
pinheiros
capim
todos em vão

para os meus olhos
de jabuticaba
e a manga coração-de-boi
que muge feito anta
no peito

muge a este gelo
despencante do céu
ó efeitos especiais
de filmes americanos
com suas crianças
esquecidas em casa
seus maníacos
por entre labirintos de hera

são os do norte
que vêm
porque os inventamos
com nosso milho
nosso tomate
nosso cacau

inventamos assim
este continente
de ficção científica
este conto de fadas
fajutas das origens
esta lorota
das idades de ouro

cumpro meu papel
fácil de memorizar
pois faço apenas
o imigrante do sul
e tenho só
duas frases no filme

sim senhor
não senhor

gaguejo-as com sotaque
para o delírio
cômico da plateia

mal suspeitam
o galã a namoradinha
do lemonde
do theguardian
do frankfurterallgemeine
com suas novelas
das seis
das sete
das oito
que vou e venho
que venho e vou
entre eles
rebolando
encapotado no casaco
antropófago às avessas
ludibriando-os a comer-me
feito quitute de feira

chega mais ó indomável
indomitável inimigo
dá a mordida profunda
o loiro ali
já pronuncia direitinho
de nada obrigado
a sardenta ali
já soletra direitinho
lispector hilst drummond

vim trazer-vos de volta
vosso turismo pornô
ó mítico povo da zooropa
sou o imigrante que jura
não estar aqui
para roubar
vossas mulheres

proponho em troca
a vitória-régia
a vosso narciso
privatizado

para que de vossa
tendência sado-maso
reste apenas a brincadeirinha
de namoradinhos
na cama do planeta

vim trazer-vos
rudá
pois de tanto eros
já estamos com os sacos cheios


§

Berlim, 11 de janeiro de 2017.

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sábado, 31 de dezembro de 2016

Cadeira-de-balanço do fim-de-ano


Foi o ano em que todos nós morremos
um pouco, claro que pouco a pouco
morríamos todos e olhávamos
                    já com cuidado
   uns para os outros,
e passamos a perguntar:
                   “será você
o próximo?
                     serei eu?”

pela manhã contávamos os vivos
pois já era mais fácil do que contar os mortos,
tirávamos do caminho
                  uns dos outros
as pedras, as cascas de bananas,
apontávamos escadas íngremes e degraus longos
e nos agasalhávamos com um pouco mais de afinco

por estas épocas foi que começamos
a nos lembrar com nostalgia
de um tempo
                     mais simples
     quando não tínhamos
jamais usado palavras como vindima
ou verbos como devir,
              não sabíamos
o que era um Dalai Lama
e ambição era poder comprar coxão mole
em vez de duro no açougue,

todas as vacas e frangos e porcos eram felizes,

           rinocerontes havíamos visto
só por fotos
                     e extintos estavam só os fogos
na mata e os dinossauros,
        mas há tanto tempo
que não os contávamos mais
para a economia doméstica.

Tivemos afinal aquelas primeiras lições
                    da fauna caseira,
as lagartixas perambulando pelas paredes
enquanto a família ouvia Cid Moreira
           relatar as desgraças da República,
e pais e mães e filhos descansavam
de vez em quando a atenção das notícias
com a caça das lagartixas
aos mosquitos e às varejeiras.

Entendia-se a cadeia
                alimentar, a família
           torcia
pelos répteis como pelo Corinthians
e quando a lagartixa abocanhava a mosca
            sentiam alívio até as panelas na mesa:
o resto da janta esfriando na cozinha
podia ser requentado
sem sobressaltos para o almoço.

Mesmo assim assistia-se à matança
            com um pouco de inveja
ressentida das moscas, tinham asas,
        escapavam mais fácil
do que nós. Não era hierarquia
                        de classes,
alguns dos insetos
                         e alguns dos mamíferos
   da casa dividiam as colheitas,
com as formigas em marcha por cantos
e quinas firmara-se um tratado de paz
desde que não surrupiassem o açúcar
e mantivessem suas patas longe do mel,
tão caros,

e se aos camundongos
              reservava-se o veneno, convivia-se
com os grilos, e os bem-te-vis bicavam os abius
e as goiabas no quintal, os cães matavam, é verdade,
muitas minhocas em suas escavações arqueológicas
       mas sempre sobrava para os primatas
suficiente para vitamina, doce e suco.

      Nos domingos de chuva, alisava-se o cão e o gato,
guiava-se o sapo
até o bueiro com a mangueira,
               com a vassoura só se alguma briga
por dinheiro tivesse perturbado a paz das paredes
da casa com suas manchas, fazendo aflorar
nossa crueldade escrita nas espirais dos genes,
aquela que levava os meninos da rua
a saírem com varas de pescar no asfalto,
agitando-as rapidíssimas para confundir os radares
dos morcegos, matando-os.

     O macho-alfa dos primatas
era amado e respeitado por todos, ainda que também temido,
           mas generoso olhava o dilúvio
minúsculo das cidades do interior, mastigava
        seu macarrão.
Jesus estava vivo, Iemanjá doava o que podia,
                   estavam vivas as avós,
o Brasil era nosso,
eram puros e infindáveis o petróleo e a água.

            Tudo seguia uma lei e uma teia
de alianças, a fauna caseira aguava
                na estiagem a flora, os cães
dependiam dos primatas, atraíam as moscas
todos os bichos peludos da casa, da mãe ao cão,
e sempre torcia-se pelas lagartixas
         em caça às moscas e em fuga dos gatos.

Tudo dava cria:
os primatas, os cães, os gatos, os morcegos, os sapos, as lagartixas e as moscas

repondo o que se perdia numa sucessão que nos iludia,
idiotas da fartura eterna como se questão de tempo apenas
para que os mortos voltassem todos na pele de filhotes nossos,

    pois morria-se e matava-se aos poucos,
éramos todos felizes, não havia
    Dalai Lama, rinocerontes ou dinossauros
nas redondezas, nos espantávamos com fenômemos
simples como aquele dia em que uma legião
de tanajuras
invadiu o céu da cidade, havia vagalumes
            no campo
e pescar tinha uma coisa de vida ou morte,
cercados que éramos por sucuris e piranhas.

Respeitava-se a cadeia, não se tentava
a pirâmide a provar que era séria e eficiente.

Mas sabemos hoje que tínhamos passado os olhos
rápidos demais sobre os desastres da República,
 que Cid Moreria selecionava os lutos
     e custava muito às moscas alimentar
nossas lagartixas, o bife no prato sofrera
   do parto da vaca ao matadouro
     que a República
tinha sido desde o começo e antes
e que morrer e matar aos poucos
era já morrer e matar demais.

Hoje, depois,
        sabemos que sobre famílias
apropriado seria escrever a carvão,
garatujas sobre a pele esticada e ressequida
das vacas e frangos e porcos
        que cederam suas carnes
para a sucessão de almoços e jantas
que nutriram esta coletânea de fotos
       tão dignas de notas-de-rodapé
quanto a sucessão de presidentes e ministros.

Mas as alegrias continuaram em verdade simples
mesmo que nossos parâmetros nunca se convençam
entre elevar-se ou rebaixar-se, e no fundo as bolsas
             que temos medo que caiam
são apenas aquelas que podem revelar
            algum segredo pessoal ou familiar
nas calçadas da avenida ou do passeio público,

           e ouvimos por fim uma mulher
tão experiente nos desastres da República
    como Elza Soares
cantar que cantaria até o fim, então erguemos
                  as vozes roucas
e prometemos o mesmo, cantar até o fim

             e as baleias responderam longe, longe,
também elas cantarão até o fim,
    e as abelhas zuniram em sua queda populacional,
                       os pés de muitos sim machucados
na avenida, cães e primatas sem casa,
     os estandartes confundindo-se com faixas
porque o samba-enredo não muda, entra ano sai ano,
é um pedido confuso,

            dá-nos Jesus e dá-nos Barrabás

com os dois debateremos que antes de Deus e César
queríamos dar ao filho, ao amigo, ao vizinho,
rezando apenas que esta balança que pende sempre para um lado
    torne-se um balanço em que nos empurraríamos
                   uns aos outros
nos ares dum parque de diversões gigante
           e que Nero não precisa incendiar Roma
pois nós mesmos já estamos com os fósforos nas mãos
e batucamos na caixinha enquanto seguimos
      cantando até o fim do mundo
com as baleias e os cães
e nossos irmãos e nossos primos entre os primatas.

§

Berlim, 28 a 31 de dezembro de 2016

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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Poema das circunstâncias todas


          "Demasiado velho para pegar em armas e combater como os demais
            foi-me generosamente atribuído o cargo inferior de cronista
            e registro – sem saber para quem – a história do cerco"
                                                        
                                                  Zbigniew Herbert


Naquela noite uma névoa pousava como lençol limpo
no céu da rua que eu cruzava em Prenzlauer Berg
no leste antigo leste de uma Berlim nova
e havia no oeste um caminhão
desgovernado num mundo governado
ou
um caminhão
governado num mundo desgovernado
restariam para sempre
desencontradas todas as notícias
na noite do meu telefonema
"você e os seus estão bem?"
e sua resposta
"você e os seus estão bem?"
uma pergunta tão corriqueira
torna-se questão de vida ou morte
e nas conversas equivalia-se
um embaixador a um arquiduque
e eu burro tão burro tentava entender
pois estava morto ou ainda morria
em Ancara um embaixador russo
estava morto ou ainda morria
em Sarajevo um arquiduque austríaco
tudo acontecia ao mesmo tempo
nalgum lugar logo ao lado
como se uma membrana fina nos separasse
e antes que o arquiduque
desse o seu último suspiro
era derrotada Aqualtune
na Batalha de Mbwila
e invadia a Alemanha a Polônia
e morria Martin Luther King
antes de Ghandi
talvez depois ou ao mesmo tempo
todas as batalhas
eram perdidas juntas
Gettysburg
Guadalcanal
Guararapes
Simone Weil morria num sanatório
(The Grosvenor House, Bockhanger, Kent)
Daniiel Kharms morria num sanatório
(Arsenal'naya st. 9, São Petersburgo)
Arthur Bispo do Rosário morria num sanatório
(Estr. Rodrigues Caldas 340, Rio de Janeiro)
e pelas montanhas sobe desce morre ainda
Walter Benjamin em Port Bou
e a maleta a maleta dos manuscritos
sumia
como somem todos os papeis cedo ou tarde
e cedo ou tarde
morrem o menino a menina em Sarajevo
morrem o menino a menina em Itaquera
morrem o menino a menina em Alepo
hoje ontem amanhã não sei
eu queria dizer contar relatar algo do sítio
de todas as cidades
despenca Jericó não despenca Stalingrado
mas há só tempo de dizer pêsames
contar os mortos
relatar o local das bombas
o mundo urge
os boletins de ocorrência e de meteorologia
empilham-se diante da porta trancada
este sítio
de todos por todos um a um
mas vinha à mente apenas aquela noite
quando pulamos a cerca da piscina pública em Berlim
éramos vários sexos etnias crendices
íamos bêbados de champagne barata e verão
e nadamos juntos juntos de mãos dadas
e ninguém se afogou


§

Berlim, 19 e 20 de dezembro do Ano de Nossa Senhora da Escuridão 2016

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sábado, 17 de dezembro de 2016

Passar a cada copo pela imigração, uma alfândega



                           
                         “Vamos voltar para a água."
                                    Murilo Mendes 

          a Guilherme Gontijo Flores

A cada copo d'água
que ergo à boca
herdada de peixes,
saúdo o oceano
que deixei no período
chamado Siluriano
para colonizar a terra,
colonos nós todos,
cada um, um imigrante,
há mais de quatrocentos
milhões de anos
obrigados várias vezes
ao dia a portar e mostrar
nosso passaporte verdadeiro
aos agentes
de imigração e alfândega
da secura da terra:
este copo d'água
que ergo
à boca de peixe
herdada,
esse traço genético
de cidadania e parentesco
a antepassados
hoje fósseis
em museus de geologia,
um copo d'água várias
vezes ao dia, a cada dia
por mais de quatrocentos
milhões de anos longe
do oceano, a cada
copo d'água
a lembrança
de ser estrangeiro
sobre qualquer terra,
há quatrocentos milhões
de anos incapaz
de naturalizar-me
em qualquer país
feito só de terra,
impedido de abandonar
de vez a água,
um estrangeiro há
quatrocentos milhões
de anos, a cada copo
d'água a certeza
de ser impossível escapar
do país primeiro,
o oceano,
que saúdo outra vez,
agora,
com este copo d'água,
meu passaporte,
chegando a minha boca
herdada de um peixe.


Berlim, 10 de dezembro de 2016.



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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Carta de um Domeneck aos Tarkóvski


O poeta russo Arseni Tarkóvski ensina o diretor Andrei Tarkóvski a nadar




      Não sei porque esta foto
de um pai
           ensinando um filho
    a nadar
             me emociona
               o caroço do coração.
Não fosse o pai
              um poeta
que amo e leio tanto
        e não fosse o filho
um diretor
            de filmes que vi
a perder a conta,
           teria menos
significado
            a mesma foto?
      Mas que raio
          de significado é este,
além de um pai
             ensinando um filho
a manter-se vivo?
                E onde e quando
esse raio significa-se,
                 torna-se digno
dos livros de História,
                a madame retroativa?
Na premência do raio
                que nasce da antetroca
de cargas elétricas
          entre o solo e a nuvem?
no relâmpago-em-si?
              no vácuo que esfaqueia
no ar? no trovão
           que assusta os cães?
Apenas nos perdemos
              nessa teia
de causas e consequências,
                        começos, meios e fins
que não sabemos distinguir.
E esta outra foto qualquer
                   de humanos ainda quaisquer,
nada mais que adolescentes
                 ridículos como todo apaixonado,
apenas namorados
                como os milhões de outros
comuns dum entreguerras
(não é todo período
                   de paz
um entreguerras,
                 se não distração
para guerras
                       em algum outro lugar?)
pergunto, por que esta fotografia
deveria ser História
                    – a madame retroativa –
por serem os jovens
                                  vocês,
Arseni Alexandrovich Tarkóvski
e Maria Ivánova Vishniákova
como se entre vocês dois
                      já estivessem contidos
os embriões
                           menos de seus filhos
Andrei e Marina,
do que de
O Espelho
e Stalker
e Solaris
e Nostalghia?
Eram só moço e moça,
             nada mais que namorados,
coisa reles que prediz prole
              nada excepcional,
e ainda não viera a guerra,
                          nem tinham vindo os filhos
promissores
                       como qualquer outra criança,
nem as primaveras, verões, outonos e invernos
            sozinhos de Maria Ivánova em Iurevets
enquanto Arseni Alexandrovich lutava
             com o Exército Vermelho
      contra o país onde eu agora vivo.
E teria que vir a guerra
                        para que Tarkóvski,
o pai,
              terminasse o poema
dos primeiros encontros
                 com Vishniákova,
a mãe futura,
                com estes versos:
"Atrás de nós o destino no encalço
feito um louco agitando a navalha"
                         ?
São sempre só retroativas
                as percepções desse teor,
iluminando a treva pesada
       do passado
que antes parecia iluminado?
                   Desde aqui,
do meu entreguerras,
amo o pai, tão lindo, e o louvo,
amo o filho, tão lindo, e o louvo,
                                    paixonite
retroativa e confessa
          por dois jovens mortos
mais a mãe, a mão
do colo e do berço
            e estas fotos de uma família
toda ela agora morta
                  e tão corriqueira
em seus afetos
              as lançam no colo da História
     – a madame retroativa –
      pela força incomum
   de suas dádivas
        e de seus dons?
Compramos com poemas
             e filmes nossa memorabília,
a nossa e de nossa família,
       nas lojas de lembranças
                       da História,
              essa madame retroativa,
    inimiga das notas-de-rodapé?
                             Eu – aqui, vivo –
obceco-me por familiares mortos
       nem sequer meus,
      mas sem ter os seus dons e suas dádivas,
hesito, não sei, duvido
                que terei a força para descrever
    e lançar no colo da madame
                  dos efeitos retroativos
         a adoração expectante
                que eu anônimo sentia
    quando minha própria mãe anônima
                emergia do quarto em sua camisola
    – azul-marinho, pontilhada de branco –
             eu que já tentei imortalizar em vocativos
     – ah, prata viva! – um lambari
            de estreia, pescado
          ao lado do meu pai,
                       se nós já sabemos
       aqui no futuro
           do presente de vocês
                que são nosso passado,
        quais estampas
              a navalha do destino carvou
                   na pele dos Tarkóvski
         mas ainda está em andamento
        a sua xilogravura
                sobre o corpo dos Domeneck,
      e se na emoção
                     dos meus caroços
       reconheço
                 apenas a esclerose precoce
       mas algo lúcida
          de saber-me Tarkóvski
                        nenhum
      e ciente de que sequer
              hão-de sair filhos das minhas coxas?



*

Berlim, 8 de dezembro em Berlim e 7 de dezembro no Rio de Janeiro do terrível 2016 (mas não para todos). Os antecedentes de um poema importam, e onde começam? Ontem postei um artigo sobre uma família que vivera perdida na Sibéria por 40 anos. Então, Tarso de Melo recomendou que eu assistisse ao documentário 'Happy people', de Werner Herzog. Ao assistir ao documentário, surge na tela por poucos minutos um caçador siberiano chamado Anatoly Tarkovsky, que Herzog anuncia em sua voz esquisita ser parente do "famoso diretor". Ao terminar o documentário, retorno a poemas de Arseni Tarkóvski e a cenas de Andrei Tarkóvski, e vou pesquisando obsessivamente na rede até cair nesta foto. Ou meu poema capenga começa no dia em que foi feita esta foto? Por esta historieta é que dedico o poema a Tarso de Melo.

O cineasta e o poeta, jogando xadrez em Moscou em 1947, quando a guerra estava ganha, a perna
do poeta já havia sido perdida, e o amor de Arseni e Maria já havia falhado.

.
.
.

"Num domingo como outro qualquer"


após um envenenamento alcoólico
porque este século anda pródigo
como o anterior em motivos
eu entrava e saía do sono
um fim-de-semana todo
e enquanto eu dormia
um atirador matava na finlândia
uma prefeita e duas jornalistas
um ambientalista vencia as eleições na áustria
contra o medo de que ganhasse o nazista
52 pessoas morriam num bombardeio na síria
a zona do euro ameaçava ruir na itália
o levante sioux em standing rock vencia
a luta contra a dakota access pipeline
em havana enterravam fidel castro
e no rio de janeiro ferreira gullar morria
mas eu dormia enquanto tudo isso
passava-se ocorria acontecia
e estas mortes e o meu sono
são a lição de que estivesse
eu na lista dos mortos
tanto faria


--- Berlim, 4 de dezembro de 2016.

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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

"Dear Meteor", colaboração com Nelson Bell


"Dear Meteor" (2016),  uma peça nova que fiz com o produtor alemão Nelson Bell. Abaixo, o texto e foto da nossa apresentação ontem no palco do evento vienense/berlinense Philosophy Unbound (em Berlim).


Dear Meteor

as a child i mourned
the dinosaurs
and their sad fate
at the end of a kiss
by a meteor
and i lay awake at night
fearing the meteor
fearing the virus
fearing the bomb
fearing the robot
and i thought of my sisters
thirsty in a global desert
and i thought of my brothers
freezing in a global arctic
and trembling with fear
in my pyjamas
i counted the mass extinctions
1
2
3
4
5
6
and so sad so sorry so silly
i wanted to hug
a dolphin
a bee
an orangutang
now i no longer fear
the meteor
as i realized the meteor
is my friend
no not exactly the meteor meteor
but my friend is the meteor
and my mother is the meteor
and my sister is the meteor
and everyone i love is the meteor
everyone i love and loved and will love
especially myself as i so especially love
myself
we are all the meteor
gaia mama gaia so wise
mama gets bored every once in a while
of the contraptions it spawned
and says in a yawn
LETS SHUFFLE THE CARDS
gaia mama gaia
so wise and economical
why wait for a meteor
why risk outside intervention
to shuffle the cards
so this time
mama gaia mama
came up
with a domestic solution
a homemade meteor
homo sapiens you lovely little meteor
in 7 billion pieces
i love you meteor
i love you homo sapiens
we are here to help
MAMA GAIA
SHUFFLE THE CARDS
AGAIN
turn to your side right now
and hug the meteor next to you
and call the meteor
who gave birth to you
and tell her and him
I LOVE YOU METEOR



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