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domingo, 18 de março de 2018

O Corpo e o Morse


Doentes.
Nós, todos

doentes. Há
muito doentes

todos. Nós
em forcas.

Pungidos
e impunes.

Não,
não impunes.

Não
se constrói

impune casa
sobre covas

comuns. Não
se ergue

o prédio
em cemitério.

Não sem
velados, lavados

os ossos
e os dentes.

Não ungidos.
Untados.

Não impunes.
Doentes

de cada gota
do líquido

espesso. Derr
-amado.

Por nós, avós.
Parentes

doentes
em cada gota

que circula.
Essa corrente.

A casa abala-se.
O sangue

embebe alicerces.
A mola

mestre afrouxa.
O reboco

despenca. Não
se constrói

impune
nas costas

de gente,
escravos, depois

se mente impune,
finge-se

fraterno, diz
irmão, irmã.

Não sente
na pele,

não cose
as costas,

não pede
a bença.

Da casa
sobre covas,

do prédio
sobre costas,

frangalhos. Nem
carneiro nem cão.

Até os bois,
as balas são

mais sagrados.
Punidos

não fomos,
mas não

impunes.Estamos
doentes.

Nossas costas
em trinchas. Entre

trincheiras
do café-da-manhã

à janta. Nossas
casas escarlates.

E o Omo não lava
os ossos.

E o sangue. Omo
nenhum lava.

SOS SOS tele-
grafam ossos.

Doentes. Cada
mãe

de pele colorada.
De rubro

e de negro. Cada
mãe roubada.

E morta. Omo
não lava.

As manchas,
que a família

merece. Refeição
temperada

a coloral. Não
urucum. Nódoas

que secam
no asfalto. Todos

nós, doentes
de comer

carne, nós
que moemos

carne. Pôncios
Pilatos

nessa Jerusalém
infernal.

Não há
Cristo que baste.

Não há Cristo
que lave

com sangue
o sangue. Basta

de lavar sangue
com sangue. Basta.

Doentes,
pilhamos ossos.

Dormentes,
secamos. Cálcio.

Cauterizados,
nós, calcificados.

SOS SOS telegrafam
os ossos.

A nós, doentes
entre doentes.



*

[in memoriam Marielle Franco]

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quinta-feira, 8 de março de 2018

VICTOR HERINGER UNE-SE AOS EGUNS


1.

Como naquela rara fotografia
juntos, com sua cabeça
a pender sobre meu peito,
esse gesto que diz entre nós
muito mais do que o aperto de mão,
muito mais do que o beijo na boca,
porque é o colo,
aquele que em nossa terra
expandimos para além da caixa torácica
para ir da garganta até os joelhos,
como a rede em que nos embalavam
as mães antigas,
como as cadeiras em que nos ninam
as mães novas,
cantarolando que a Cuca
não há-de vencer.

2.

Estava entre amigos
quando as mensagens de voz de amigos
começaram a entupir meu telefone
mas as ignorei, por estar entre amigos
e aos amigos presentes dá-se
toda prioridade,
como você mesmo o faria,
gladiador da ternura e do candor.

3.

É só uma notícia. Uma notícia. Pasmo
de susto, assustei eu mesmo
os vivos na sala, ao dar uma golfada de ar
adentro, como quem emerge a cabeça
para fora d’água segundos antes
de afogar-se, mas em verdade
submergia naquele instante.

4.

É como se houvesse morrido
a última gentileza.
Hoje extinguiram-se deveras
todos os dodôs.

5.

As pequenas ruas da Glória e do Catete
perderam um historiador, nestes tempos
em que não há mais historiadores de ruas.
Você sai das ruas da Glória e do Catete
e passa a fazer parte da história das ruas.

6.

Estão imediatamente órfãos alguns objetos
que só você teria visto como importantes:
uma pena de pombo qualquer, uma pedra
ou concha, que você teria erguido
em amuleto.

7.

Tenha sido cândido, gentil e terno
como era você, cavalheiro, cavaleiro,
Omolú ao cortar o cordão de prata.

§

Berlim, 7 e 8 de março de 2018, triste até o caroço.

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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Flor da república dos fungos

Este poema surgiu durante a leitura de Hope in the Dark, de Rebecca Solnit. Na introdução, ela cria uma imagem belíssima a partir das estratégias dos fungos e seus cogumelos: 

"Mushroomed: after a rain mushrooms appear on the surface of the earth as if from nowhere. Many do so from a sometimes vast underground fungus that remains invisible and largely unknown. What we call mushrooms mycologists call the fruiting body of the larger, less visible fungus. Uprisings and revolutions are often considered to be spontaneous, but less visible long-term organizing and groundwork— or underground work—often laid the foundation. Changes in ideas and values also result from work done by writers, scholars, public intellectuals, social activists, and participants in social media. It seems insignificant or peripheral until very different outcomes emerge from transformed assumptions about who and what matters, who should be heard and believed, who has rights."

Vai dedicado ao amigo e pintor irlandês Jim Scully por nossas conversas nas últimas semanas, nas quais a palavra "república" aparece com frequência por várias razões, seja para falar de Irlanda ou do Brasil, como de Berlim e de nossos amigos.




Flor da república dos fungos

              a Jim Scully

Vejo homens e mulheres
nesse continente em caça
pelas florestas ao que cresce
visível e bojudo sobre a terra,
o corpo frutificante dos fungos
que se ramificam feito repúblicas
invisíveis, subterrâneas, quietos
por longos períodos
à espera dos aguaceiros
edificadores de sua estipe
e guarda-chuva, e nós também
assim como outras espécies
fundamos nossas colônias,
mas sobre a terra ainda
que com formigas e abelhas
já estejamos competindo
pelo subsolo e pelos ares,
e esperamos por anos
que algo floresça,
e chegamos a pedir que flores
feias furem o asfalto, ora antes
um cogumelo azul e leitoso
desabroche e desabotoe-se
sob a abóboda também azul
— imenso porta-sol
desse píleo convexo
sobre nossas cabeças —
e ao lado de abóboras venha
nutrir o estômago vazio
mas vivo de Lázaro,
esse irmão, como um Cristo
antes Filho do Homem
do que Filho de Deus,
porque se de preto seguimos
pelas calçadas da República,
é tanto por um luto constante
quanto para absorver
ao máximo a luz
que é o calor
do sol ao qual respondemos
mantendo também constante
nosso calor próprio.

#

Berlim, 17/18 de fevereiro de 2018


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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Texto em que o poeta medita sobre os custos da beleza do menino-garçom do outro lado do balcão no Café La Pompe em Bruxelas



Teus olhos puxados de gato
e o nariz curvado de águia
escancaram desmascaram
a teia
de heranças que compartilhas
com felinos e aves
em nossos genes que sabem
modelar urdir fabricar tecer
nossas roupas feitas
de pelos penas escamas
mas que seguem
a planta arquitetônica
a técnica de alfaiataria
o manual de instruções
escrito em meio a catástrofes
as climáticas as vulcânicas
as meteóricas as viróticas
que extinguiram uns felinos
e levaram outras aves
a se lançarem às águas
ai a estratégia dos pinguins!
e fizeram de guaxinins
golfinhos
e de certos dinossauros
galinhas
e pergunto que fuzarca
genocida homosapiense
terá doado a ti
menino-garçom
estes olhos felinos
este nariz aquilino
ora que mulheres pagaram
com o útero pelas invasões
sucessivas nesse continente
que hímens rasgados à força
custearam
tuas formas texturas e cores
garçom-menino
é cara a beleza
custa sim caro
a beleza herdada
por tantas violências
as expansionistas
as emancipatórias
sem notas de rodapé
nos livros de história
eu me pergunto
aqui em Bruxelas
Capital da Desunião
que gauleses e romanos
hoje esquecidos
que francos e normandos
hoje escondidos
nesses olhos e nariz
espiam-me espiar-te
resta-me só esta
excitação ovulante:
compartilhar a luz
com tuas pupilas
compartilhar o oxigênio
com tuas narinas
mesmo que o gás carbônico
que produzo
seja rejeitado
pelos teus pulmões
assim visitamo-nos
um ao outro
assim entramos
um no outro
assim contribuímos
com essa teia
que os dois coabitamos
com gatos e águias
e as outras cobaias
felinamente aquilinos
aquilinamente felinos

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domingo, 21 de janeiro de 2018

O sol e sua febre guardiã

         a Arno Van Vlierberghe

Dormir doente a tarde saudável toda
numa cidade estrangeira não é perda
alguma se a vó de todos a sol segue
aquecendo sua filha até as aspirinas
são infrequentes como febres as férias
estas dores nos tecidos fibras lembram-me
que meus músculos se não fotogênicos
merecem eles próprios analgésicos sóis
em louvor da febre encho de água o copo
e a água treme dentro do copo que treme
dentro da mão que treme dentro de si e do mundo
enquanto o comprimido fervilha eu febricito
só me resta adorar que as coisas tremam
dentro de coisas que tremem isso é bom
a prova simples da solidariedade de tudo

/

Gante, Bélgica - tarde febril de 17 de janeiro de 2018.

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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Texto em que o poeta convida Maximin a descolonizar-se consigo

ketefa uake kigefa uake
ketefa uake
ketefa uake kigefa uake
ketefa uake
ufisü heke ukilü
tüfüninhü heke ukilü

(tolo [canção feminina] kuikuro)

:

-- vá comigo, venha comigo
vá comigo
eu disse para o meu amado
eu disse para o precioso

(tradução de Bruna Franchetto)




na hélice dupla
de tua espiral
ascendem
e descendem

feito escada
de novos jacós
as instruções
de manual

à perfeitura
dos teus
ossos & corpos
ah cavernosos
nuca clavícula
cachos carpos
pele e pelos

não advêm
eles também
de gentes
por séculos
sem
passaportes?

dos berberes
e dos judeus
das tradições orais
aos povos do livro?

ah Maximin
já não quero
nem haikus
nem trovas
nem liras

quero cantar
com mulheres
kuikuro
subindo a dupla
hélice das
matriarcas
a mim doada
de forma
helicóptera
por minha mãevó
a cabocla

e eu
eu não
mamei louca?

ai ai
meu bebê berbere meu
bichinho de estimação
meu teutojudeujudoca
meu desnudo gorilinha

és a estimativa
de quanto de mim
é-se bicho

vem Maximin
vem e lambe de mim o cheiro
de Rexona
vem Maximin
vem e lambe de mim o cheiro
de Axe
vem Maximin
vem e lambe de mim o cheiro
de Dove

na virilha sim
nas axilas sim

das tuas as glabras
e peludas as minhas

nas dobras
dos joelhos
que se dobram
para o encaixe
ante tuas rótulas

já não quero
nem haikus
nem trovas
nem liras
quero tolo meu tolo

§

Berlim, 29 de dezembro de 2017, novo poeminha para o livro Odes a Maximin
(work in progress, ou "cuidado com a cabeça, livro em obras)

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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Leite



Já não adianta
chorar pelo leite
mamado, querido,
seu cálcio
está agora nos ossos
que suportam
a geringonça
pelas calçadas.
Cheguei a esta idade
em que se tira o suéter
e dobra-se-o diligente
para agasalhar
a gaveta. Deixar
em ordem as reações
passíveis e possíveis
ao clima desordenado
contra o meu armário
de órgãos falíveis.
Que se dissolva
este calor
que foi da sol,
coletado por plantas,
então de herbívoros
e a mim chegou-me,
dádiva de empréstimo.
Tomo
a água e aguo
o copo.
Cozo a couve
e lavo a louça.
A casa está agora
limpa sempre
caso chegue, hóspede.
O desejado. O indesejado.
Puídos estão os lençóis
mas sem sinais de infecções.
Ainda que seja chegado
esse tempo, essa idade,
esse clima imprevisível
em que tão bem se sabe
que ao deus-dará
jamais foi ou será
promessa de holerite
em dia fixo do mês.

§

Berlim, 24 de dezembro de 2017
(ou o Ano de Nossa Senhora da Catástrofe 517)

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terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Pricísu tidizê

apesar de tudo
e todos a pesar
apesar de nada
peso o abusar
ai meu zizus

essa coisa
esse trem
brasileiroa
falaresse
iorubantuportujês
ser-se o cerceio
di-si-i-d'ôtro
qui desgraça
qui delícia
entre bigatos
e os caquis
ai desdiliça
ui deligraça
nascer aquiaí
é-se
filhadaputice
duma disgrama
de azedoce

§

No Ano de Nossa Senhora da Catástrofe 517,
Berlim, 20 de dezembro.

§


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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Trapezista bambo sobre a rede social dos silêncios de um menino

(desenho de Leonilson)


Trapezista bambo sobre a rede social dos silêncios de um menino

Faço diligente meus autorretratos
e espero que ele erga o polegar
em público, qual um césar decida
que eu posso viver um dia a mais
na arena em que nos digladiamos.
Ao fim do mês, tabelo e analiso
a informação dos seus gostos
e desgostos, estes últimos
interpretados de seu silêncio
que é, em si, o meu desgosto:
ele não gosta deste cabelo,
ele não gosta desta pose,
ele não gosta deste rosto,
mas ele gosta deste casaco!
Talvez um dia ele desça o polegar
e gládios de estranhos
me trespassem
e não afinal a sua glande,
ou abandone de todo estes sinais
mudos, esta fumaça sem fogo,
estes pombos-correios casmurros.
Mas quem sabe, ai loteria!, ele           
até mesmo, apesar de tão jovem,
seja ensinado que o telefone
foi inventado para hábitos antigos,
conversas! imaginem! ouvir vozes!
Quando então leve ao bucal a boca,
eu saberei como pentear o cabelo,
que pose não assumir no corpo,
que rostos esconder no rosto.
E estará limpo aquele casaco.


§


(No Ano de Nossa Senhora da Catástrofe 517)

Berlim, 23 de novembro de 2017.

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domingo, 19 de novembro de 2017

Ao menino que chamarei de Sexta-Feira


Raro molusco não foi, nem unicórnio
o que moveu-me naquela manhã fria,
marcha nublada a manchar a sexta-feira,
mas o encaixe entre peças de montaria,
concha a mendigar ainda mais concha.
O co-mover-se em dominó dos órgãos,
empilhados acima e abaixo do coração,
de forma coordenada, rodízio de ancas
e ombros a frigir na cama para côncavos
respeitarmo-nos, ali deitados, colheres
bastantes em calor mútuo no pergelissolo
dos lençóis, frios onde nossos corpos
não os cobriam da atmosfera do quarto,
pois jamais ressentiu-se nenhuma colher
da ausência de garfos, ou sua perfurante
insistência em ferir para manejar conter
se com vinte dedos cerrados, alternando
em cada peito, um a outro abotoamo-nos.

§


(No Ano de Nossa Senhora da Catástrofe 517)

Berlim, 17-19 de novembro de 2017.



        a F. M.

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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Poema ao saber da morte de Vincent Warren

Vincent Warren & Frank O'Hara em Nova Iorque em 1960. A paixão
de Frank O'Hara pelo dançarino canadense, que ele conhece em 1959, é apontada
por críticos e biógrafos como um dos fatores que levariam a seu annus mirabilis (1959),
quando O'Hara escreveu grande parte dos poemas que o tornaram famoso,
incluindo vários dedicados a Warren, como "Having a coke with you", "Steps"
e "You are gorgeous and I'm coming". Vincent Warren faleceu a 25 de outubro deste ano.



POEMA AO SABER DA MORTE DE VINCENT WARREN
ou Texto em que o poeta lembra-se de que morrem também aqueles que ele canta

Os cafés esfriam e acabam!
As manhãs acabam e esfriam!
Deveriam ser estas as manchetes
dos jornais de amanhã, querido,
não mais guerras e golpes, não,
quando estarão enfim extintos
estes assuntos e não nosso açúcar,
nosso pó de café e nossos cigarros,
pois há tanta coisa mais importante
por discutirmos e ajeitarmos.
Calafriam-se os cafés-da-manhã!
Emboloram-se os pães de nosso açúcar!
Todos, Moço. Dessarte haveria
o mundo ou eu
- preferira que fosse eu e o mundo -
de anunciar a você a morte
de Vincent Warren
para os seus bocejos,
não de tédio e sussurros
de quem? quem?,
mas de sono em minha cama,
ainda em minha cama!
enquanto releríamos
tristes os poemas alegres
daquele Frank O'Hara,
escrito para o seu moço
pessoal, privado, intransferível,
ambos agora mortos, finados
o cantor e o cantado, mas não
a canção! nem nós! aqui vivos
numa cidade reerguida de escombros,
nessa alegria sempre temporária
dos cafés, dos açúcares, dos cigarros
e das sempre tão poucas moedas
nos bolsos de nossas calças
que escondem nossa pobreza e riqueza.
Nem por isso é menos alegria a alegria.
E então prepararíamos forte o café
e acenderíamos todos os cigarros
e açucararíamos tudo que pede açúcar
pois é nossa a goela e é nosso o bucho
e neles enfiamos o que nos apraz
em nossa ciranda de prazer e morte
e a sorte grande dos que morrem primeiro
e a sorte maior dos que morrem juntos.


                            — Berlim, 13 de novembro de 2017


§

oh god it’s wonderful
to get out of bed
and drink too much coffee
and smoke too many cigarettes 
and love you so much

—Frank O’Hara (versos finais de “Steps”, poema para Vincent Warren).

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sábado, 30 de setembro de 2017

Ao cu do cupido


muitas vezes pensei ser pena
que tal ilustre sociopata o cupido
em voo não seja um ícaro
em pouso não seja um joelma
não são inflamáveis suas asas de codorna?
são sempre apenas sublunares seus voos?
como jurei mil-mil vezes que o depenaria
com as próprias mãos e faria um pirão
desta galinha choca metida a anjo
mas no fim quando ele se aprochega
feito um pardal esfomeado
o idiota aqui esgoela de novo
MIRA NI MIM
MIRA NI MIM

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terça-feira, 8 de agosto de 2017

O duplo


Escrevi este poeminha esta madrugada. Não sei se o coloco no livro novo ou peço aos leitores que compraram a edição de Cigarros na cama que o copiem de próprio punho em alguma página em branco do livro.



Ninguém acredita todos me olham
como se eu estivesse louco
quando afirmo que você foi sequestrado
por alienígenas
e é agora mantido contra sua vontade
longe de mim longe do planeta
que costumávamos habitar juntos
todas aquelas suas leituras
Stanislaw Lem Philip K. Dick irmãos Strugatsky
eram proféticas seu manual de sobrevivência
como hei de resgatá-lo? como hei-de salvá-lo?
perscruto as estrelas noite a noite
uso aplicativos sinais de rádio e fumaça
ergo o indicador que não brilha como naquele filme
e sussurro ET BRING HIM HOME
todos os objetos voadores
são agora identificáveis
talvez você talvez você
e este agora pelas ruas do planeta
com seu corpo sua voz seu jeito de andar
ninguém acredita todos dizem louco! louco!
quando nego enfático não é ele não é ele
é um replicante um androide um body snatcher
as provas só eu sei muito bem
comprovo empiricamente a cada encontro
desde seu sequestro numa noite qualquer
quando você foi substituído por este outro
com seu corpo sua voz seu jeito de andar
a prova a prova ora que prova
olhem como ele me olha
e me trata como a um estranho
não me reconhece
não me reconhece

§


(No Ano de Nossa Senhora da Catástrofe 517)

Berlim, 8 de agosto de 2017.



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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Descoberta tardia no meio da novela


Sempre detestei aquela personagem
de filmes, livros e novelas: o bêbado penitente,
seu papel tragicômico na trama,
suas juras de corvo de nunca mais,
suas dancinhas à beira do abismão,
seu samba e capoeira na corda-bamba,
seus arrependimentos com soluços,
suas reincindências cronometradas,
seus pedidos de misericórdia a qualquer deus de plantão,
seus apelos à Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Eu sou o bêbado penitente.


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terça-feira, 11 de julho de 2017

Roteiro de colisões




Até mesmo os continentes afastam-se,
colidem, formam cordilheiras e oceanos,
detêm correntes de ar, mobilizam monções,
separam membros da mesma espécie
que se adaptam, mutações de azar e sorte.

Por que não seria assim conosco, tão mais
bruscos em nossos joelhos e cotovelos,
tão mais destrutivos em nossas erupções
pelas fendas deste corpo no qual a pele
dobra-se úmida, anunciando as crateras?

Em nós também contam apenas as quinas
e buracos. Montanhas, fiordes, precipícios.
Felizes as bactérias inquilinas de nossa pele,
como cegos que apalpassem um elefante,
só parte do planeta doente em que vivem.

E já nem sei se maldito ou bendito esse mar
de lava sobre o qual dançam nossos pés,
as erosões e tremores que expõem fósseis
onde buscamos pelo elo perdido da espécie,
aclare a desgraça de cambalearmos bípedes.

Eu culpo o eixo torto da Terra, as estações
incansáveis, essa rotina do brota-e-murcha,
a neve, seu despenca-e-derrete, eito e horto
da boca que troveja quando queria ensolarar,
une ríspida os dentes e morde ao mal lamber.


--- Munique, 9/7 - Berlim, 11/7

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terça-feira, 25 de abril de 2017

O cordeiro de breus

Não estivesse enfiado até o pescoço em leitura sobre a prática da Zoopoética, teria ouvido este cordeiro balindo hoje à noite?

"Ovelha e cordeiro" (1560), de Jacopo Bassano (1510-1592)

no campo bale
um cordeiro

não só
um espééécime
de Ovis aries

mas um cordeiro

um cordeiro único
um cordeiro individual
balindo sozinho
seu balido individual
seu balido único

voz reconhecível
por pai e mãe

ele o filhote
com data de nascer e morrer
de um carneiro de uma ovelha
com data de nascer e morrer

um eu-espééécie
uma espééécie de eu

um indivíduo
que bale
um corpo
que bale

é uma língua
mais
que estrangeira
ééé-me
uma língua
alienígena

é um beeerro
ou pareeece-me

um beeerro

aos meus ouvidos
à minha língua
eu
um espééécime
de Homo sapiens
um eu-espééécie
tambééém eu

e eu
queeero ouvir
e socorrer
este outro eu

separados
e unidos

nós
nos
nós

dos geeenes
com
-partilhados

ouço o cordeiro
o cordeiro único
o cordeiro individual

não o Cristo
que insiste
eeem identificar-se
com este cordeiro
eeem minha cabeça

mas este cordeiro
balindo sozinho
no campo

que beeerra
do frio
que se abate
sobre suaminha
sobre minhasua
peeele

queeem-deeera eu
pudeeesse agora
aninhar os meus pelos
contra os seus cabelos

e

beeerro eu seu beeerro
enquanto ele diz-me
beeeeeem peeeeerto!
beeeeeem peeeeerto!

§

Starnmeer, fazenda da residência artística Buitenwerkplaats, enquanto no pasto da fazenda vizinha (separado de onde estou por um canal) um cordeiro bale alto há cerca de uma hora.

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segunda-feira, 24 de abril de 2017

No dia da maioridade de Ewout De Cat




Hoje, menino, você
chega à vigésima
-primeira primavera,
mas, nascido
nessa estação
aqui
no hemisfério norte,
devo acrescentar outra
à contagem? Conta-se
a estação
da qual se parte?

E é sorte isso,
chegar na primavera
como os animais
que cronometram
a sua alegria?

Nós humanos
não
aguardamos flor
no sol ou sol
na flor, muito
menos alegria,
para foder-nos
uns aos outros

e eu mesmo
cheguei ao mundo
em pleno inverno
do hemisfério sul
mas duas décadas
antes de você
e nem sequer
podia mais ser contado
entre virgens e inocentes
quando você deu
seu primeiro grito.

Em qualquer cultura
e jurisprudência,
você é agora,
como dizemos,
de maior.
Dono dos tropeços
no sono dos passos.
Muda agora
até em mim
o vocabulário,
e o menino que abre
este poema
melhor seria
moço ou rapaz.

Naquela epístola
disse o apóstolo:
Quando eu era menino, 
pensava como menino, 
sentia e falava como menino. 
Quando cheguei a homem,
deixei para trás as coisas
de menino.

Mas isso é o quê,
homem? O que
é isso,
coisa de homem,
nós que matamos
a quem fuja
às regras das coisas
de homem,
quando homem?

Estratão de Sardis
tardio,
se escrevo agora
sobre seus pés e mãos
são os pés e mãos
agora de homem
e já não se pode arquivar
as minhas erocisões
nas estantes
da Musa Puerilis.

Vou ser só mais
um cavo-cavafy,
um pseudo-pasolini,
um parvo-piva.

Mas daqui do fundo
dos meus quarenta
invernos, veja
como aprendi truques
para cantar você:

Posso tomar esta data,
24 de abril,
e dizer que você
nascido
é mais influente
em minha vidinha
do que a ascensão
de Tutmósis III
ao faraonato
da XVIII
dinastia egípcia
no Império Novo

estável é a manifestação de Ré

e o sol que brilhou
sobre Tutmósis III
agora brilha sobre você,
Ewout, para mim
o primeiro,
e faraó nenhum.

E houve a queda de Troia
e o casamento de Mary Stuart
e o início de uma guerra
e o começo de um genocídio
e um levante de Páscoa
e um tratado em Berlim
e o Canal de Suez reaberto
e a morte de Vladimir Komarov
retornando da órbita do planeta
e o lançamento do telescópio
Hubble para a mesma órbita,

tudo isso nessa data,
e tudo isso o planeta
e seus antepassados
precisaram sobreviver
para dar a você a chance
de nascer numa primavera,
como eu num inverno
do hemisfério
oposto
precisei da sobrevivência
de outros
antes do seu primeiro grito
quando eu,
com duas décadas
de invernos e primaveras
já havia perdido
as contas dos meus
mas agora podemos
ao menos
esgoelar juntos.

§

Holanda, 24 de abril de 2017, 21° aniversário de nascimento de Ewout De Cat.




sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Poema no aniversário de Oswald de Andrade (na verdade para seu tradutor Oliver Precht)


Aqui onde cai a neve
inventada
por poetas europeus
seus maios cansativos
suas paisagens monótonas
como o capim infindo
das rodovias do interior

cá vêm pinheiros
cá vem capim
lá vão pinheiros
lá vai capim
vêm e vão
pinheiros
capim
todos em vão

para os meus olhos
de jabuticaba
e a manga coração-de-boi
que muge feito anta
no peito

muge a este gelo
despencante do céu
ó efeitos especiais
de filmes americanos
com suas crianças
esquecidas em casa
seus maníacos
por entre labirintos de hera

são os do norte
que vêm
porque os inventamos
com nosso milho
nosso tomate
nosso cacau

inventamos assim
este continente
de ficção científica
este conto de fadas
fajutas das origens
esta lorota
das idades de ouro

cumpro meu papel
fácil de memorizar
pois faço apenas
o imigrante do sul
e tenho só
duas frases no filme

sim senhor
não senhor

gaguejo-as com sotaque
para o delírio
cômico da plateia

mal suspeitam
o galã a namoradinha
do lemonde
do theguardian
do frankfurterallgemeine
com suas novelas
das seis
das sete
das oito
que vou e venho
que venho e vou
entre eles
rebolando
encapotado no casaco
antropófago às avessas
ludibriando-os a comer-me
feito quitute de feira

chega mais ó indomável
indomitável inimigo
dá a mordida profunda
o loiro ali
já pronuncia direitinho
de nada obrigado
a sardenta ali
já soletra direitinho
lispector hilst drummond

vim trazer-vos de volta
vosso turismo pornô
ó mítico povo da zooropa
sou o imigrante que jura
não estar aqui
para roubar
vossas mulheres

proponho em troca
a vitória-régia
a vosso narciso
privatizado

para que de vossa
tendência sado-maso
reste apenas a brincadeirinha
de namoradinhos
na cama do planeta

vim trazer-vos
rudá
pois de tanto eros
já estamos com os sacos cheios


§

Berlim, 11 de janeiro de 2017.

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sábado, 31 de dezembro de 2016

Cadeira-de-balanço do fim-de-ano


Foi o ano em que todos nós morremos
um pouco, claro que pouco a pouco
morríamos todos e olhávamos
                    já com cuidado
   uns para os outros,
e passamos a perguntar:
                   “será você
o próximo?
                     serei eu?”

pela manhã contávamos os vivos
pois já era mais fácil do que contar os mortos,
tirávamos do caminho
                  uns dos outros
as pedras, as cascas de bananas,
apontávamos escadas íngremes e degraus longos
e nos agasalhávamos com um pouco mais de afinco

por estas épocas foi que começamos
a nos lembrar com nostalgia
de um tempo
                     mais simples
     quando não tínhamos
jamais usado palavras como vindima
ou verbos como devir,
              não sabíamos
o que era um Dalai Lama
e ambição era poder comprar coxão mole
em vez de duro no açougue,

todas as vacas e frangos e porcos eram felizes,

           rinocerontes havíamos visto
só por fotos
                     e extintos estavam só os fogos
na mata e os dinossauros,
        mas há tanto tempo
que não os contávamos mais
para a economia doméstica.

Tivemos afinal aquelas primeiras lições
                    da fauna caseira,
as lagartixas perambulando pelas paredes
enquanto a família ouvia Cid Moreira
           relatar as desgraças da República,
e pais e mães e filhos descansavam
de vez em quando a atenção das notícias
com a caça das lagartixas
aos mosquitos e às varejeiras.

Entendia-se a cadeia
                alimentar, a família
           torcia
pelos répteis como pelo Corinthians
e quando a lagartixa abocanhava a mosca
            sentiam alívio até as panelas na mesa:
o resto da janta esfriando na cozinha
podia ser requentado
sem sobressaltos para o almoço.

Mesmo assim assistia-se à matança
            com um pouco de inveja
ressentida das moscas, tinham asas,
        escapavam mais fácil
do que nós. Não era hierarquia
                        de classes,
alguns dos insetos
                         e alguns dos mamíferos
   da casa dividiam as colheitas,
com as formigas em marcha por cantos
e quinas firmara-se um tratado de paz
desde que não surrupiassem o açúcar
e mantivessem suas patas longe do mel,
tão caros,

e se aos camundongos
              reservava-se o veneno, convivia-se
com os grilos, e os bem-te-vis bicavam os abius
e as goiabas no quintal, os cães matavam, é verdade,
muitas minhocas em suas escavações arqueológicas
       mas sempre sobrava para os primatas
suficiente para vitamina, doce e suco.

      Nos domingos de chuva, alisava-se o cão e o gato,
guiava-se o sapo
até o bueiro com a mangueira,
               com a vassoura só se alguma briga
por dinheiro tivesse perturbado a paz das paredes
da casa com suas manchas, fazendo aflorar
nossa crueldade escrita nas espirais dos genes,
aquela que levava os meninos da rua
a saírem com varas de pescar no asfalto,
agitando-as rapidíssimas para confundir os radares
dos morcegos, matando-os.

     O macho-alfa dos primatas
era amado e respeitado por todos, ainda que também temido,
           mas generoso olhava o dilúvio
minúsculo das cidades do interior, mastigava
        seu macarrão.
Jesus estava vivo, Iemanjá doava o que podia,
                   estavam vivas as avós,
o Brasil era nosso,
eram puros e infindáveis o petróleo e a água.

            Tudo seguia uma lei e uma teia
de alianças, a fauna caseira aguava
                na estiagem a flora, os cães
dependiam dos primatas, atraíam as moscas
todos os bichos peludos da casa, da mãe ao cão,
e sempre torcia-se pelas lagartixas
         em caça às moscas e em fuga dos gatos.

Tudo dava cria:
os primatas, os cães, os gatos, os morcegos, os sapos, as lagartixas e as moscas

repondo o que se perdia numa sucessão que nos iludia,
idiotas da fartura eterna como se questão de tempo apenas
para que os mortos voltassem todos na pele de filhotes nossos,

    pois morria-se e matava-se aos poucos,
éramos todos felizes, não havia
    Dalai Lama, rinocerontes ou dinossauros
nas redondezas, nos espantávamos com fenômemos
simples como aquele dia em que uma legião
de tanajuras
invadiu o céu da cidade, havia vagalumes
            no campo
e pescar tinha uma coisa de vida ou morte,
cercados que éramos por sucuris e piranhas.

Respeitava-se a cadeia, não se tentava
a pirâmide a provar que era séria e eficiente.

Mas sabemos hoje que tínhamos passado os olhos
rápidos demais sobre os desastres da República,
 que Cid Moreria selecionava os lutos
     e custava muito às moscas alimentar
nossas lagartixas, o bife no prato sofrera
   do parto da vaca ao matadouro
     que a República
tinha sido desde o começo e antes
e que morrer e matar aos poucos
era já morrer e matar demais.

Hoje, depois,
        sabemos que sobre famílias
apropriado seria escrever a carvão,
garatujas sobre a pele esticada e ressequida
das vacas e frangos e porcos
        que cederam suas carnes
para a sucessão de almoços e jantas
que nutriram esta coletânea de fotos
       tão dignas de notas-de-rodapé
quanto a sucessão de presidentes e ministros.

Mas as alegrias continuaram em verdade simples
mesmo que nossos parâmetros nunca se convençam
entre elevar-se ou rebaixar-se, e no fundo as bolsas
             que temos medo que caiam
são apenas aquelas que podem revelar
            algum segredo pessoal ou familiar
nas calçadas da avenida ou do passeio público,

           e ouvimos por fim uma mulher
tão experiente nos desastres da República
    como Elza Soares
cantar que cantaria até o fim, então erguemos
                  as vozes roucas
e prometemos o mesmo, cantar até o fim

             e as baleias responderam longe, longe,
também elas cantarão até o fim,
    e as abelhas zuniram em sua queda populacional,
                       os pés de muitos sim machucados
na avenida, cães e primatas sem casa,
     os estandartes confundindo-se com faixas
porque o samba-enredo não muda, entra ano sai ano,
é um pedido confuso,

            dá-nos Jesus e dá-nos Barrabás

com os dois debateremos que antes de Deus e César
queríamos dar ao filho, ao amigo, ao vizinho,
rezando apenas que esta balança que pende sempre para um lado
    torne-se um balanço em que nos empurraríamos
                   uns aos outros
nos ares dum parque de diversões gigante
           e que Nero não precisa incendiar Roma
pois nós mesmos já estamos com os fósforos nas mãos
e batucamos na caixinha enquanto seguimos
      cantando até o fim do mundo
com as baleias e os cães
e nossos irmãos e nossos primos entre os primatas.

§

Berlim, 28 a 31 de dezembro de 2016

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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Poema das circunstâncias todas


          "Demasiado velho para pegar em armas e combater como os demais
            foi-me generosamente atribuído o cargo inferior de cronista
            e registro – sem saber para quem – a história do cerco"
                                                        
                                                  Zbigniew Herbert


Naquela noite uma névoa pousava como lençol limpo
no céu da rua que eu cruzava em Prenzlauer Berg
no leste antigo leste de uma Berlim nova
e havia no oeste um caminhão
desgovernado num mundo governado
ou
um caminhão
governado num mundo desgovernado
restariam para sempre
desencontradas todas as notícias
na noite do meu telefonema
"você e os seus estão bem?"
e sua resposta
"você e os seus estão bem?"
uma pergunta tão corriqueira
torna-se questão de vida ou morte
e nas conversas equivalia-se
um embaixador a um arquiduque
e eu burro tão burro tentava entender
pois estava morto ou ainda morria
em Ancara um embaixador russo
estava morto ou ainda morria
em Sarajevo um arquiduque austríaco
tudo acontecia ao mesmo tempo
nalgum lugar logo ao lado
como se uma membrana fina nos separasse
e antes que o arquiduque
desse o seu último suspiro
era derrotada Aqualtune
na Batalha de Mbwila
e invadia a Alemanha a Polônia
e morria Martin Luther King
antes de Ghandi
talvez depois ou ao mesmo tempo
todas as batalhas
eram perdidas juntas
Gettysburg
Guadalcanal
Guararapes
Simone Weil morria num sanatório
(The Grosvenor House, Bockhanger, Kent)
Daniiel Kharms morria num sanatório
(Arsenal'naya st. 9, São Petersburgo)
Arthur Bispo do Rosário morria num sanatório
(Estr. Rodrigues Caldas 340, Rio de Janeiro)
e pelas montanhas sobe desce morre ainda
Walter Benjamin em Port Bou
e a maleta a maleta dos manuscritos
sumia
como somem todos os papeis cedo ou tarde
e cedo ou tarde
morrem o menino a menina em Sarajevo
morrem o menino a menina em Itaquera
morrem o menino a menina em Alepo
hoje ontem amanhã não sei
eu queria dizer contar relatar algo do sítio
de todas as cidades
despenca Jericó não despenca Stalingrado
mas há só tempo de dizer pêsames
contar os mortos
relatar o local das bombas
o mundo urge
os boletins de ocorrência e de meteorologia
empilham-se diante da porta trancada
este sítio
de todos por todos um a um
mas vinha à mente apenas aquela noite
quando pulamos a cerca da piscina pública em Berlim
éramos vários sexos etnias crendices
íamos bêbados de champagne barata e verão
e nadamos juntos juntos de mãos dadas
e ninguém se afogou


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Berlim, 19 e 20 de dezembro do Ano de Nossa Senhora da Escuridão 2016

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