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sábado, 28 de agosto de 2010

Excerto da performance de Lesley Flanigan na SHADE inc

Preparei uma postagem para a Modo de Usar & Co. com um vídeo-excerto da performance da poeta vocal e escultora sonora americana Lesley Flanigan, no evento que co-organizo aqui no Berlimbo às quartas-feiras. Foi uma coisa muito bonita, sabe? Reproduzo abaixo o que disse e mostrei por aquelas bandas:



(Lesley Flanigan, ao vivo na SHADE inc/NBI, Berlim, julho de 2010)

Lesley Flanigan é uma escultora sonora, performer eletroacústica e poeta vocal norte-americana, nascida em Tampa, Flórida. Seu trabalho pesquisa a materialidade do som e da voz, borrando as fronteiras definidas entre música, barulho e som. Flanigan já apresentou seus trabalhos em instituições e festivais como o Solomon R. Guggenheim Museum (Nova Iorque), Sónar (Barcelona), Transitio_MX (Ciudad de México), NIME (Gênova), ICMC (Copenhague), ISEA Conference (Singapura), Busan International Design Festival (Seul), entre outros.

Em nosso interesse pela textualidade, mostramos acima um vídeo da peça "Thinking real hard", em que Flanigan mescla os sons de amplificações sonoras de instrumentos criados por ela à amplificação de sua própria voz, vocalizando texto de sua autoria. A performance ocorreu no clube berlinense Neue Berliner Initiative, durante o evento SHADE inc, com curadoria minha, em julho de 2010. A performance de Lesley Flanigan tem um certo caráter xamânico, a maneira como se apresenta de joelhos, seu trabalho com a voz, os espelhamentos de sua imagem. É poesia lírica que remonta a Safo e às trobairitz medievais, assim como a contemporâneos mais velhos como Meredith Monk. Lesley Flanigan vive e trabalha em Nova Iorque.





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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Uma instalação em Berlim de/com Adelaide Ivánova

Conheci Adelaide Ivánova em 2003, quando ambos buscamos moradia e asilo político-artístico-financeiro em uma casa da Vila Madalena, atrás do cemitério da Cardeal Arcoverde em São Paulo, que já chamávamos desde sua fundação wittgenstein/tautologicamente de O Sobrado, lugar que se tornaria o epicentro de nosso grupo de amigos entre 2001 e 2000-e-alguma-coisa. Era minha segunda passagem pel´O Sobrado, a primeira de A.I., que chamamos de Ivi entre os amigos. Em seu período de existência, passaram pel´O Sobrado, todos jovens, pobres e iniciantes: poetas, cineastas, atores, fotógrafos, teatrólogos, antropólogos, escritores, todos amigos ou, em alguns casos, ocasionalmente algo mais.

Há exatos 7 anos, no aniversário de Ivi (ou "a fotógrafa Adelaide Ivánova" para vocês), em agosto de 2003, organizei sua primeira "exposição" no próprio Sobrado. Fui seu primeiro, digamos, "curador". Ah! a autoimportância deliciosa e determinante de quando temos vinte-e-poucos anos. Todos tínhamos vinte-e-poucos anos. Parecia ser a idade a se ter naqueles tempos, como Gertrude Stein escreve com humor em sua Autobiography of Alice B. Toklas: there came the time when everyone was twentysix, it just seemed the right age to be at the time, ou algo assim... citar Gertrude Stein de memória é sempre bom. No texto sobre a mostra das fotos, que se perdeu nos dias e noites daquele Sobrado, eu falava sobre Imogen Cunningham, Nan Goldin, Wolfgang Tillmans, quando tudo o que eu queria e deveria dizer é que eu simplesmente gostava das fotos de Adelaide Ivánova. É que, como jovem poeta brasileiro escrevendo seu primeiro livro, o que viria a ser o Carta aos anfíbios, olhando ao redor e vendo apenas aqueles poetas mais velhos da década de 80 e 90 trans-historicamente flutuando em um limbo cor-de-rosa pós-utópico que não se sabia se em 1822 ou 1922 fingindo-se quase todos no deserto cabralino sendo muito concisos e incrivelmente entediantes e hiper universais, eu identifiquei-me imediatamente com aquelas fotos pessoais, expondo-se em intimidade pública, baseadas em um eu que não sabia se esconder, contextuais, DATADAS NO MELHOR SENTIDO DO TERMO. No único sentido do termo. Ah, Ivi, minha querida, eu também queria e quero escrever apenas poesia datada, datada... desde que a data seja a de hoje... sabemos que aquele que escreve para hoje será lido em 1000 anos, sabemos, nós sabemos que os que escrevem para daqui 1000 anos nem hoje serão lidos. Eu aprendi isso com Catulo, Wittgenstein, Clarice Lispector, Hilda Hilst, Frank O´Hara. Acho que você aprendeu com Nan Goldin, Wolfgang Tillmans, também com Clarice, e outros?

Sete anos depois, na semana do aniversário de Ivi (ou "a fotógrafa Adelaide Ivánova" para vocês), ela apresenta hoje em nossa SHADE inc, na sala subterrânea que chamamos de Shadebox e onde artistas e DJs já apresentaram filmes, vídeos, DJ sets, instalações, Adelaide Ivánova apresenta sua instalação 100 Men, com uma peça sonora irritante-pungente minha, baseada, vejam só, em uma chanson da Edith Piaf. Especialmente quando apaixonados, nós gostamos de confundir de que lado da linha que separa o sublime e o cafona nós vivemos.

Hoje à noite, na SHADE inc, 18 de agosto de 2010, a instalação 100 Men, de Adelaide Ivánova, "projeção sobre lençol" (apropriadíssimo), com uma peça sonora deste que vos irrita.


FOTOS DE ADELAIDE IVÁNOVA
incluídas na instalação











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terça-feira, 22 de junho de 2010

Digitalizando as perguntas, digitalizando as respostas

"No fear", do duo AIDS-3D


Amanhã, quarta-feira, dia das intervenções semanais que nosso coletivo organiza, temos como convidados especiais em nossa SHADE inc o duo AIDS-3D, formado pelos jovens norte-americanos Daniel Keller, nascido em Detroit, e Nik Kosmas, nascido em Minneapolis, ambos em 1986. Eles vivem em Berlim há cerca de dois anos. O duo faz parte de uma geração de jovens artistas que primeiro tornou-se conhecida na Internet, conquistando seu primeiro espaço em revistas eletrônicas, plataformas digitais, para então passar a receber convites para galerias e bienais. Tem se tornado comum, por exemplo, que videoartistas mostrem primeiro em portais como o Youtube ou Vimeo suas intervenções em vídeo, para depois mostrá-las em galerias ou espaços institucionais.


(O duo AIDS-3D na Bienal de Veneza, em 2009)

O trabalho dos meninos do AIDS-3D é um tanto inclassificável. Em sua página eletrônica, encontramos faixas de música, fotos de instalações e esculturas, mas sua "fama" reside mais em suas instalações em 3D, investigando novas (e também velhas) possibilidades através da arte digital. As discussões aqui seriam intermináveis, sobre mimese, simulacro, e todos conceitos que já se tornaram comuns em discussões da arte contemporânea. Amanhã, eles prometem um concerto sobre nosso palco, mas com elementos visuais e digitais.


("Jerusalem 2012", performance holográfica do duo AIDS-3D)

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As possibilidades da arte digital me interessam muito, assim como aos meus colegas no coletivo. O vídeo digital é central, por exemplo, para o trabalho do meu comparsa de coletivo Niklas Goldbach, que o usa para criar alertas pré-distópicos, numa espécie de Apocalipse Yesterday, contra a sociedade uniformizada e gentrificada que está se formando, clara distopia que tenta esconder-se sob lemas como o de "liberdade de mercado".


("Intruders", de Niklas Goldbach, 2007)


No trabalho de outro comparsa do coletivo, Daniel Reuter, a arte digital mistura-se com a performance e a instalação. No meu caso específico, tenho usado as possibilidades digitais, na verdade, para retornar a antigas poéticas da tradição, que acabaram desprestigiadas pela cultura literária, que Paul Zumthor chamaria, na verdade, de livresca. Meu uso das possibilidades digitais ocorre na tentativa de pesquisar elementos que estão na tradição poética há séculos. Alguns críticos ainda se prendem muito à questão do "novo", quando falam das "novas possibilidades digitais", mas não creio que haja contradição em usar as novas possibilidades digitais para investigar poéticas milenares, ligadas à oralidade e à performance. Já tentei cunhar os termos "multimedieval" ou "mídiaval", para deixar claro que minha poética está ligada à poética medieval, uma tradição que foi esquecida ou muitas vezes distorcida pelas ondas de neoclassicismo posteriores. Uso a arte digital para pesquisar uma est-É-tica que remonta a poetas como Taliesin (534 - 599), Guilherme IX da Aquitânia (1071 – 1126), Arnaut Daniel (1150 - 1210) ou Guido Cavalcanti (1250 - 1300), e então, a partir deles, até chegarmos aos grandes resgatadores da poética medieval: os dadaístas, como Hugo Ball e Kurt Schwitters.


(Ricardo Domeneck - "Six songs of causality", ao vivo no Espai d´Art Contemporani, em Castelló, Valência, Espanha) ---- poética que eu gostaria de crer "multimedieval", ou pelo menos herdeira, mesmo que indigna, dos poetas medievais, seja de um "britânico" como Taliesin, um islandês como Egill Skallagrímsson ou um occitano como Raimbaut de Vaqueiras.)

É um pouco irritante quando críticos perdem tanto tempo com essa discussão sobre o que é "novo" e o que não é, como se isso encerrasse o debate crítico ou fosse o valor mais importante de um trabalho, essa crença confusa e ingênua de que as vanguardas históricas eram meras buscas por cheap thrills novidadeiros. Muitos destes críticos sequer têm um conhecimento verdadeiro da poesia medieval, das poesias fora dos centros europeus, ou da poesia sonora contemporânea.

A noção de vanguarda propagada no Brasil ainda se concentra nesta militarização linearizante da história poética, algo que os poetas concretos, por quem tenho tanto respeito, não ajudaram a dissipar.

Entre os poetas brasileiros trabalhando com novas possibilidades tecnológicas, alguns as usam para retornarem a poéticas milenares, da oralidade e performance, como é o caso do poeta mineiro Ricardo Aleixo, que usa o vídeo muitas vezes para registrar trabalhos poéticos que passam pelas vanguardas históricas para se alojarem em poéticas ligadas, por exemplo, aos griots africanos. Isso ocorreu, no Brasil, muito mais entre "artistas visuais" que entre poetas, e penso aqui em Arthur Bispo do Rosário, Hélio Oiticica, Lygia Clark e José Leonilson. Dentre os poetas trabalhando nesta linha, poderíamos mencionar Marcelo Sahea, Márcio-André, Wladimir Cazé, entre alguns outros.



(Ricardo Aleixo, "descontinuidades número 1")


Augusto de Campos foi, entre os concretistas, o que mais investigou as possibilidades de uso de novas tecnologias e técnicas. Em alguns casos, como em poemas como "lygia finge" e outros daquela época, sua poética está completamente ligada à est-É-tica medieval, creio, algo que Eduardo Sterzi discutiu de forma muito interessante em seu ensaio para o volume Sobre Augusto de Campos (Rio de Janeiro: 7Letras, 2004), com organização de Flora Süssekind e Júlio Castañon Guimarães.


("dias dias dias", texto de Augusto de Campos, oralizado por Caetano Veloso)


Philadelpho Menezes (1960 - 2000), assim como hoje em dia Ricardo Silveira e André Vallias, entre outros, pesquisam de forma bastante assídua o que se poderia chamar de renovação com o uso das novas tecnologias, seja em termos de criação como de distribuição. A revista Errática, editada por Vallias, é uma plataforma valiosa para esta poética no Brasil.

Na Europa, o uso de novas tecnologias passa por alguém como Henri Chopin, que usou fitas magnéticas para retornar ao elemento mais primordial da poesia: a respiração antes da palavra, ou sua união em vocábulo.


(Henri Chopin no Festival de Poesia de Berlim, em 2003)

Outros, ainda na França, como o veterano Bernard Heidsieck e os mais jovens Christophe Fiat e Anne-James Chaton, usam a poesia oral e sonora para praticar uma poética que já chamei de pós-bárdica.


(Anne-James Chaton, "évênement nº1", ao vivo em Barcelona, 2001)


E há ainda os que têm investigado poéticas que são, ao mesmo tempo, milenares e novas, como é o caso do austríaco Jörg Piringer. Este vídeo-poema abaixo, de 2004, parece-me uma peça de poética pré-distópica, e bastante assustadora, pessoalmente, desde a primeira vez que a vi. É uma das maneiras como imagino o fim do mundo.



(Jörg Piringer, "Broe Sael", 2004)


Novos ou tradicionais, estas são todas poéticas NECESSÁRIAS. Junto com aqueles poetas excelentes que se mantêm sobre a página, pesquisando as muitas e múltiplas possibilidades da escrita, como Juliana Krapp, Angélica Freitas, Érico Nogueira, Dirceu Villa, Marco Catalão, João Filho, Eduardo Jorge, Marília Garcia, Fabiano Calixto, Diego Vinhas, Carlito Azevedo, Marcos Siscar, e tantos outros. Este texto não é proposta de canonização. Parafraseando Drummond:

PRECISAMOS DE TODOS.




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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Na companhia de DJs, coletivos e outros performers

§ - Na companhia de DJs, coletivos e outros performers.

Nosso novo projeto semanal /// chamado SHADE inc ///, produzido com o coletivo de que faço parte e, como o anterior, ainda às quartas-feiras, entrou em seu segundo mês. Tenho prometido escrever a respeito aqui, indicando alguns dos performers e músicos experimentais que têm se apresentado at our own sweet Cabaret Voltaire, mas ando tão atarefado, sem um segundo de respiro, sem ao menos poder editar os vídeos que tenho feito às quartas-feiras, com os DJs e artistas convidados. Estou muito feliz com o trabalho, voltamos a nos conectar com o que há de mais interessante e ponta-de-lança acontecendo em música eletrônica e performance no Berlimbo.

No primeiro mês, convidamos alguns veteranos como Wolfgang Müller (do coletivo Die Tödliche Doris, da década de 80), Peaches (XL Recordings), Ellen Allien (BPitch Control) e Heartthrob (M_nus Records).

Nesse mês de maio, teremos alguns excelentes jovens, alguns já bastante conhecidos, como o parisiense Thomas Muller, dividindo as turntables com o jovem alemão Florian Pühs. Uma das melhores performances até agora foi a "Lecture on the Intellectual History of Cannibalism", da britânica Leila Peacock. No mês que vem, algumas lendas e novas estrelas, como Apparat, os Gebrüder Teichmann e o coletivo AIDS-3D.

Nosso website já está no ar e servirá também como revista e blog, com sugestões de artistas e músicos e novas bandas. Quem estiver interessado em música eletrônica e performance produzida no Berlimbo, tem novo endereço na Rede: a página da nossa SHADE inc.

Vou tentar desaguar algo do material por aqui também.

Abaixo, a filipeta para maio de 2010. Todo mundo reconhece a foto que parodiamos/reencenamos?





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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Hoffmann na sacola

§ - Na companhia de E.T.A. Hoffmann, no Mercado dos Gendarmes.


A editora Cosac Naify lançou este ano, pela primeira vez no Brasil, o último relato do alemão E.T.A. Hoffmann (1776 - 1822), intitulado Des Vetters Eckfenster (1822), traduzido por Maria Aparecida Barbosa como A janela de esquina do meu primo (São Paulo: Cosac Naify, 2010), com ilustrações de Daniel Bueno, quarta-capa de Modesto Carone e posfácio de Marcus Mazzari.

O relato é bem diferente do que nos acostumamos a associar com Hoffmann, sendo considerado um precursor da literatura realista que se tornaria hegemônica em pouco menos de duas décadas. O relato seria também uma das primeiras instâncias em que a "multidão" se torna personagem do texto literário, influenciando Edgar Allan Poe e seu "The Man of the Crowd" (1844), mais uma vez mostrando-se precursor do que passaríamos a associar com a modernidade, a partir, por exemplo, do trabalho poético de Charles Baudelaire. De qualquer forma, não é sobre isso tudo que vou escrever aqui. Como o relato se passa em Berlim, mais precisamente na praça do Gendarmenmarkt (Mercado dos Gendarmes), a Cosac Naify convidou-me para escrever um texto sobre o local hoje. Há duas semanas, com o livro de Hoffmann na sacola, peguei o bonde e fui para a praça, onde passei umas horas e alguns copos de vinho na antiga taverna onde Hoffmann costumava se embebedar. A editora publicou este fim-de-semana, no blog que mantém, o texto que produzi naquela tarde. Convido os generosos leitores deste espaço a visitarem o blog da editora e, caso se interessem, podem ler abaixo meu pequeno relato.


Mercado dos Gendarmes


No Berlimbo, abril é o mais temperamental dos meses. Após alguns dias de primavera enganosa, retorna o fim de inverno úmido, e os berlinenses e metecos preparam-se para mais uma ou duas semanas de hibernação. Como dizem os alemães, April macht was er will, abril faz o que quer. Ponho na sacola a edição brasileira do último conto de E. T. A. Hoffmann, o esquisito, e me ponho em marcha para o Gendarmenmarkt, ou Mercado dos Gendarmes, onde tanto se passa a história do alemão, como também é onde viveu o próprio Hoffmann nos últimos anos de sua vida, na esquina da Charlottenstrasse com a Taubentrasse. Havia, até então, estado duas únicas vezes no Gendarmenmarkt. A primeira delas para um concerto, no qual meu amigo Ulrich Grau tocava a trompa, com a Nona Sinfonia inacabada de Anton Bruckner e a estreia mundial do Concerto para violino do compositor contemporâneo alemão Jörg Widmann no programa daquela noite, na Konzerthaus. A segunda vez em que estive na praça que abriga, além da Casa de Concertos, a Igreja Alemã e a Igreja Francesa, foi para visitar com amigos o tradicional Weihnachtsmarkt que ocorre ali todos os natais, um costume que teria um paralelo com as festas juninas no interior de São Paulo e outros estados, com as barracas de bebidas quentes.

Segui com o bonde M1 até a Friedrichstrasse, lendo Hoffmann e pensando sobre os antigos gendarmes que deram nome ao local, há muito desaparecidos. De qualquer forma, outro nome de caráter militar, numa cidade onde ainda encontramos crateras das últimas loucuras militares. É pensando em Hoffmann, nas mudanças vertiginosas por que passou esta cidade desde os seus dias, transformações e catástrofes marcadas por ensandecidas campanhas militares, de gendarmes ou não, que eu desço a Friedrichstrasse, área por onde passo com pouca frequência.

Há uma cãibra no ar, uma tensão estranha, policiais espalhados por todos os cantos. Lembro-me então de que estamos muito próximos do dia 1° de maio, este gracioso “Dia Internacional do Trabalho”, mas também chamado, pelos moradores desta que é a cidade onde Rosa Luxemburgo foi assassinada, de Kampftag der Arbeiterbewegung (Dia de Luta do Movimento Trabalhista), quando ocorrem as manifestações anuais, choques por vezes violentos entre protestantes e a polícia que se aglomera na capital do país. Caminho com os olhos buscando as placas que sinalizam a direção para o Gendarmenmarkt, quando ouço alguns gritos e vejo um aglomerado em frente a uma das boutiques típicas nesta rua principal da cidade. Talvez guiado por aquela vertigem de rua, chego mais perto e vejo, entre as pernas dos transeuntes, agora espectadores, quatro policiais rendendo, com violência, um homem que segue gritando em uma língua que não conheço. Um dos policiais tem o joelho nas costas do homem, quase à sua nuca, e o homem, já algemado e ainda gritando, tem ainda outros dois policiais com os joelhos sobre si, abaixo da cintura e sobre suas pernas, na dobra dos joelhos. Meu corpo estrangeiro se encolhe todo, como um animal acuado, reflexo de imigrante, meu estômago revira-se em ressaca de asco por aqueles policiais. Se o aglomerado de transeuntes estivesse olhando para o alto, eu teria esperado o Anjo de Benjamin, ou ainda melhor, o do Apocalipse.

Chego ao Gendarmenmarkt com o frio cortando a cara e o estômago ainda nublado, e começo a procurar a antiga taverna Lutter & Wegner, que fica bem abaixo de sua antiga janela e onde Hoffmann costumava se embebedar. A esta altura, um copo de vinho tinto gritava em minha imaginação, pedindo para ser ingerido, quem sabe até o nível alcoólico permitido. Pela lei? Não, apenas pela minha capacidade de escrevinhar. Demorou um pouco para que encontrasse a taverna, porque buscava a que existia em minha imaginação, alguma sala escura, algo saído dos próprios contos de Hoffmann, não aquele restaurante sofisticado que hoje ali existe sob o mesmo nome. De qualquer maneira, aquilo espelhava, para mim, as próprias transformações por que passou esta parte da cidade desde a época do escritor. Se o último conto de Hoffmann descrevia a movimentação vivíssima de uma área residencial, as ruas que cercam hoje o Gendarmenmarkt conhecem, de mercado, apenas o que grandes lojas de designers internacionais têm a oferecer, além dos hotéis mais caros da cidade, como o Hilton e o Regent. Sabendo que não teria dinheiro para comer naquele lugar, entrei mesmo assim na então-taverna-boêmia, hoje-restaurante-rico, com a efígie de Hoffmann em homenagem à entrada. Que o leitor perdoe o hábito folclórico de escritor jovem, esta vontade de estar entre as mesmas quatro paredes que abrigaram um antepassado grande e famoso. Sonho de osmose.

O garçom com cara de tédio demorou, como sempre acontece em Berlim, até que eu pudesse pedir o idolatrado salve-salve copo de vinho tinto. Com o livro na mão, pus-me à janela, à espera e esperança que passassem, se eu tivesse sorte, alguns jovens moços alemães, bonitos como potros. Mas eu tinha pouca esperança e mesmo esta se frustrou. No restaurante, apenas senhores e senhoras antiquíssimos, com certa auréola de bolor, provavelmente fingindo viver ainda na década de 30 ou 40. Quando vejo estes velhotes alemães, com suas estruturas ósseas de cristal que parecem poder se quebrar ao toque da brisa, é justamente a pergunta que não consigo evitar: estavam onde, meus queridos, lá pelos idos de 1939, jubilavam pelas ruas ou se escondiam em porões? Depois do número de copos de vinho que meu parco orçamento de poeta permitia, saí da taverna, com o delírio de talvez ter inspirado algum vírus que resistira desde os tempos de Hoffmann, despregando-se das paredes e narinas adentro. Decidi caminhar alguns minutos pela praça, apesar do vento insuportável, indo da Igreja Alemã à Francesa e vice-versa, cercado por turistas, com seus exemplares atualíssimos de Let´s Go Germany, e eu por fim penso Let´s Go, Germany. Nem um moço sequer na praça, me pergunto se Hoffmann era bonito. As pinturas não prometem muito. Caminho então de volta para a minha caverna na antiga Berlim Oriental, cortando caminho pela multidão, que se mudara do Gendarmenmarkt para a sucessão de boutiques nas ruas adjacentes, entre o consumo e a consumação.

Ricardo Domeneck
Berlim, abril de 2010


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NOTA: Leituras do fim-de-semana, como sugestões:

§ - o poeta latino Marco Valério Marcial; os mexicanos Xavier Villaurrutia e Salvador Novo; uma antologia de 1955, encontrada num sebo, que reúne os expressionistas germânicos, intitulada Lyrik des expressionistischen Jahrzehnts, ou "Poesia da Década Expressionista", com introdução de Gottfried Benn; e o último livro do brasileiro Marco Catalão, chamado O Cânone Acidental (2009).

Essa semana devo finalmente começar a ler o famoso Ferdydurke (1937), de Witold Gombrowicz, numa edição que trouxe de Buenos Aires há 4 anos.

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