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quinta-feira, 8 de março de 2018

VICTOR HERINGER UNE-SE AOS EGUNS


1.

Como naquela rara fotografia
juntos, com sua cabeça
a pender sobre meu peito,
esse gesto que diz entre nós
muito mais do que o aperto de mão,
muito mais do que o beijo na boca,
porque é o colo,
aquele que em nossa terra
expandimos para além da caixa torácica
para ir da garganta até os joelhos,
como a rede em que nos embalavam
as mães antigas,
como as cadeiras em que nos ninam
as mães novas,
cantarolando que a Cuca
não há-de vencer.

2.

Estava entre amigos
quando as mensagens de voz de amigos
começaram a entupir meu telefone
mas as ignorei, por estar entre amigos
e aos amigos presentes dá-se
toda prioridade,
como você mesmo o faria,
gladiador da ternura e do candor.

3.

É só uma notícia. Uma notícia. Pasmo
de susto, assustei eu mesmo
os vivos na sala, ao dar uma golfada de ar
adentro, como quem emerge a cabeça
para fora d’água segundos antes
de afogar-se, mas em verdade
submergia naquele instante.

4.

É como se houvesse morrido
a última gentileza.
Hoje extinguiram-se deveras
todos os dodôs.

5.

As pequenas ruas da Glória e do Catete
perderam um historiador, nestes tempos
em que não há mais historiadores de ruas.
Você sai das ruas da Glória e do Catete
e passa a fazer parte da história das ruas.

6.

Estão imediatamente órfãos alguns objetos
que só você teria visto como importantes:
uma pena de pombo qualquer, uma pedra
ou concha, que você teria erguido
em amuleto.

7.

Tenha sido cândido, gentil e terno
como era você, cavalheiro, cavaleiro,
Omolú ao cortar o cordão de prata.

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Berlim, 7 e 8 de março de 2018, triste até o caroço.

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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Minha mãe não lê a sorte, ora, porque isso é coisa do diabo.

A mãe de Victor Heringer lê a sorte no açúcar, se for ficção a realidade. Minha mãe não lê a sorte, ora, porque isso é coisa do diabo. Tanto que, em minha casa, só se referia àquele-que-não-deve-ser-mencionado como "o Inimigo". Somos povo prascóvio. Cuidem-se os que têm sonhos. Eu não jogo na Telesena.

 

Victor Heringer nasceu em 1988, no Rio de Janeiro, onde ainda vive. O poeta é autor de duas plaquetes de poesia, Quando você foi árvore (2010) e canção do sumidouro (2010), disponíveis em seu site: http://automatografo.org. Seu primeiro livro foi publicado em 2011, intitulado Automatógrafo (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011), seguido do ótimo romance Glória (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012).



No momento, o poeta está pesquisando imagens em domínio público para um livro de memórias ao estilo do Itinerário de Pasárgada, mas de um poeta fictício. 



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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Poetas morrem. Poetas trabalham.

Li este fim-de-semana o longo conto/novela fôlego sem folga (Lisboa: Língua Morta, 2012) de Miguel Martins. O texto é excelente. Conhecia apenas a poesia do autor, um dos melhores poetas contemporâneos em língua portuguesa. Foi uma descoberta poder ler agora também sua prosa. Recomendo muito a leitura aos amigos em Portugal que possam ainda conseguir o livrinho, em edição limitada. O autor enviou-me ainda alguns vídeos de seu grupo A Favola da Medusa. Compartilho aqui um deles.


 

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 O poeta carioca Victor Heringer postou ontem o novo poema-em-vídeo "oi você sumiu", de sua série "Arquespélago" (2012).


 

"oi você sumiu" (2012), HD, Stereo, 4m21s. Conceito e vídeo: Victor Heringer. Som: Victor Heringer - Fragmentos do "Noturno nº1" (1919), de Erik Satie. Texto: Trechos de mensagens que recebi na secretária eletrônica do celular e nunca respondi. Este vídeo faz parte da série "Arquespélago" (2012). Veja os outros no http://automatografo.org 


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Morreu em Portugal o poeta holandês Gerrit Komrij (1944 - 2012). Também romancista, tradutor, libretista, crítico e famoso polemista, era considerado um dos mais importantes poetas da língua na atualidade. Nascido em Winterswijk, vivia desde a década de 80 em Portugal. Por sua lealdade ferrenha à formas fixas e metros clássicos, sua poesia era estranha no ninho da poesia holandesa dos anos 60. No entanto, a publicação de sua obra completa em 2004, com o título Alle gedichten tot gisteren (Todos os poemas até ontem), firmou-o como um dos nomes mais respeitados da poesia holandesa. Foi traduzido em Portugal por Fernando Venâncio.



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POEMA DE GERRIT KOMRIJ

Nada, só borras, só fundo.

Vivíamos os dois num velho palacete.
Sem chão nem tecto. De paredes nada.
So what? Palacetes diziam-nos pouco.
Era uma granja meio desmoronada.

Fazíamos sempre grandes conversas.
Nada importante. A política, o tempo.
O amor? Tá bom, íamos nós lá nisso!
Cavaco de café, um passatempo.

Bebíamos poesia dum jarro.
Nada de cristais. Um copo marado.
Conteúdo? Nada, só borras, só fundo.
Era uma poesia de tostão furado.

(tradução de Fernando Venâncio,
Gerrit Komrij, Contrabando: uma antologia poética
Tradução do holandês de Fernando Venâncio, Assírio & Alvim)

:

Niets dan droesem, niets dan draf
Gerrit Komrij

We zaten samen in een oud kasteel.
Het had geen vloeren en geen dak. Geen muur.
So what? Kastelen zeiden ons niet veel.
Het was een halfvervallen boerenschuur.


We hadden al die tijd een goed gesprek.
Niets van belang. De politiek, het weer.
De liefde? Ja, daar waren we mooi gek.
Het waren borrelpraatjes en niets meer.


We dronken poëzie uit een karaf
Van het goedkoopste glas. Niet van kristal.
De inhoud? Niets dan droesem. Niets dan draf
Het was een poëzie van niemendal.


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Leio amanhã, dia 7 de julho, na série HERE! HERE! THERE!, organizada pelo poeta norte-americano Shane Anderson na livraria St. George´s aqui em Berlim. Leem ainda o russo Dmitry Golynko e os americanos Jennifer Nelson e Ian Orti. Lerei meus textos escritos orginalmente em inglês.

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domingo, 1 de janeiro de 2012

Feliz ano novo, feliz poesia nova: vídeos e poemas de Victor Heringer na "Modo de Usar & Co."

Victor Heringer (Rio de Janeiro, 1988)

Os primeiros a me falarem sobre Victor Heringer foram Marília Garcia e Dimitri Rebello. Algum tempo depois, o próprio jovem poeta cortesmente enviou-me seu livro Automatógrafo (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011) para terras berlimbosas e viemos a publicar seu inédito "Alérgico ma non troppo" no terceiro número impresso da Modo de Usar & Co.. Quando pude finalmente dedicar uma leitura mais atenta ao livro, encontrei nele um poeta de imaginação, inteligência e o tipo de humor que me atrai, com poemas que pareciam engajar-me, como nos poetas contemporâneos brasileiros que mais me alegram, naquilo que Pound chamava de "conversation between intelligent men" - um ato de generosidade de tais poetas. No Rio de Janeiro no mês passado, tive o prazer de conhecer o poeta, que é além de tudo um cavalheiro, e Marília Garcia e eu preparamos um vídeo para a Modo de Usar & Co. em que ele vocaliza alguns de seus textos. Este vídeo e outros do próprio Heringer, assim como vários poemas, podem ser vistos/lidos/escutados na franquia eletrônica de nossa revista, encimados por um texto de apresentação meu em que, como era de se esperar, o leio a partir das minhas obsessões talvez, mas tentando apenas, com minhas parcas capacidades, simplesmente apontar para o que me alegra em seu trabalho. Perdoem minha miopia (a velha ideologia da percepção de que já falei) e leiam apenas a poesia de Victor Heringer. Quanto às sereias da catástrofe que dizem que não há bons poetas no Brasil, ora, segurem-se em suas cadeiras de balanço do cânone com unhas e dentaduras.




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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Último dia em Berlim, seguido de 32 horas no Rio de Janeiro, featuring Rebello, Garcia, Chomski, Tirelli, Heringer e Freitas (in absentia)

Marília Garcia e Ricardo Domeneck num momento: "Assim deveriam ser encontros de poetas" - Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 2011

Escrevo já do México, mas quero falar um pouco sobre as felicíssimas 32 horas que passei no Rio de Janeiro. Está sendo uma verdadeira maratona. Acho que não durmo uma noite completa há uma semana. Meu corpo está começando a pifar.

O último dia em Berlim foi um dos mais estressantes e intensos que já vivi, mas ao fim do dia senti como se estivesse finalmente na areia após nadar e nadar muito no alto-mar das borrascas. Mal pude me despedir de amigos, e serão dois meses longe.

Mas cheguei ao Rio de Janeiro na sexta-feira à noite com um sorriso enorme no rosto. Mal podia crer que teria apenas 32 horas ali, naquela cidade cheia de amigos tão queridos. Esta postagem é uma celebração dos reencontros e novos encontros que desfrutei nestas poucas horas.

Como foi bom ser acolhido por meu amigo Dimitri Rebello, poder conversar como se fizesse dois minutos que não nos víamos, e não dois anos! Há amizades que distância nenhuma pode esfriar. Estar ali em seu apartamento, conversando e ouvindo-o cantar foi muito revigorante para o meu miocárdio em frangalhos.

No sábado, nos encontramos com Marília Garcia (com quem estive em Bruxelas e Berlim na mesma semana) e fomos à Livraria Berinjela para que eu pudesse rever meu caríssimo Daniel Chomski, o diretor da livraria e aquele que tem sido nosso companheiro e aliado na edição das revistas impressas. Sempre tão generoso (além de possuir wit verdadeira), ganhei dele um exemplar da Poesia Reunida de Osvaldo Lamborghini (livro que queria há tempos!) e uma edição peruana linda com poemas de Francisco Alvim e Zuca Sardan traduzidos para o castelhano, estes cavalheiros tão encantadores que tive a honra de finalmente conhecer pessoalmente na Bélgica.

Em Santa Teresa, com uma câmera na mão e um poema na garganta, Dimitri filmou a leitura que Marília e eu fizemos do poema "O livro rosa do coração dos trouxas", de nossa queridíssima Angélica Freitas. Era como ter nossa amiga pelotense tão amada ali conosco.



Marília Garcia e Ricardo Domeneck leem "O livro rosa do coração dos trouxas", de Angélica Freitas,
no Rio de Janeiro. Gravado por Dimitri Rebello, 10 de dezembro de 2011.


Mais tarde, uniram-se a nós duas criaturas de quem começo a gostar muito e a quem eu, pessoalmente, considero dois dos poetas mais interessantes surgidos nestes últimos poucos anos: Ismar Tirelli Neto, a quem já conhecera no Rio em 2009, quando lancei meu Sons: Arranjo: Garganta, mas com quem não tivera ainda a chance de conversar e conviver; e Victor Heringer, que encontrei pessoalmente pela primeira vez, ainda que já conhecesse seu livro de estreia, Automatógrafo (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011), que ele tão gentilmente me havia enviado a Berlim. Vocês ouvirão mais sobre Heringer em breve, aqui neste espaço e no da Modo.

Para celebrar estes reencontros e encontros, deixo vocês com o vídeo para "Mercado negro", canção do grande Dimitri BR que ele me dedicou e que é uma de minhas canções favoritas; o vídeo das leituras de Ismar Tirelli Neto que preparamos para a Modo de Usar & Co.; e um poema de Victor Heringer do qual gosto muito. Em poucos dias, escrevo sobre os encontros maravilhosos que estou tendo aqui na Cidade do México. Beijos e abraços apertados a Marília, Dimitri, Chomski, Ismar e Victor, assim como a todos os generosos que frequentam este espaço.



Dimitri Rebello, ou Dimitri BR - "Mercado Negro"

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Ismar Tirelli Neto - "Preocupações épicas" e outros poemas, vídeo de Marília Garcia

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Posições desconfortáveis
Victor Heringer


cotovelo no asfalto em cotovelo cotovela.
a fila espera. estou na fila. espero também.
a fila dá a volta num quarteirão inteiro
que suspeito não ser um quadrado perfeito.
não sei o que espero. não sei se a fila sabe.
espero. não pergunto. seria ridículo, agora,
depois de tantas horas com a mesma cara
bovina. sei fazer cara bovina. muito bem.
trouxe coisas para me ocupar: um jornal;
um lápis para escrever o Tratado para a
desinvenção da penicilina, opus magnum
romantiquinha; cinco dores (uma moral).
esqueci algumas outras coisas. me ocupo
com as que ficaram longe: o mínimo
necessário (por exemplo) para aterrissar
um aeroplano num rio que parece o mar.

a fila anda. eu ando atrás. não sei do quê.
ouvi dizer que é bom, bonito, barato não sei.
ouvi dizer de esquina, assim, canto de boca,
assim um sussurro que cotovelou o quarteirão
que não é um quadrado perfeito porque aqui
é o Rio de Janeiro. aquele é aquele. olharam
para mim. meu nome deu a volta no cotovelo
dobrei meu rosto. tenho que esperar. espero.
não posso ir, agora, bovinamente, falam de mim:
aquele que nem chegou a amar aquela ali
no espaço daquele dia. o que faz logo aqui.

a fila anda. eu ando atrás. não sei do quê.


in Automatógrafo (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011)

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