Esta é uma nota para pedir aos leitores deste espaço, para sua própria alegria, que, aconteça o que acontecer, não deixem de ler na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co. a palestra de Gertrude Stein intitulada "Composição como explicação", com tradução de Andrea Mateus, que já havíamos publicado em 2009 na revista impressa e agora disponibilizamos a todos na franquia eletrônica.
"I will dare" é a canção que abre o álbum Let It Be (1984), terceiro da banda de Minneapolis, formada em 1979 e ativa até 1991. Vocês podem escutá-la abaixo. A imagem é a capa do álbum, também gosto muito dela, não sei bem o porquê. A discografia do grupo é formada por Sorry Ma, Forgot to Take Out the Trash (1981), Hootenanny (1983), Let It Be (1984), Tim (1985), Pleased to Meet Me (1987), Don't Tell a Soul (1989) e All Shook Down (1990).
"I will dare", do álbum Let It Be (1984), The Replacements
O vocalista e letrista Paul Westerberg (n. 1959) é um dos meus cantores favoritos no rock, e seus textos são muito legais, inteligentes, simples, diretos. Quis compartilhá-la, caso alguém não a conheça, ou talvez não a tenha escutado há muito tempo. Abaixo, uma apresentação ao vivo, com Westerberg à frente.
I will dare Paul Westerberg (The Replacements)
How young are you? How old am I? Let's count the rings around my eyes
How smart are you? How dumb am I? Don't count any of my advice
Oh, meet me anyplace or anywhere or anytime Now I don't care, meet me tonight If you will dare, I might dare
Call me on Thursday, if you will Or call me on Wednesday, better still Ain't lost yet, so I gotta be a winner Fingernails and a cigarette's a lousy dinner Young, are you?
Meet me anyplace or anywhere or anytime Now, I don't care, meet me tonight If you will dare, I will dare
O poeta, tradutor e editor alemão Timo Berger me convidou a traduzir o famoso poema de Ernst Jandl (1925 - 2000) intitulado "lichtung", de seu livro de estreia e um dos seus mais queridos, laut und luise (1966), para uma edição sobre tradução da revista alemã Kulturaustausch. O poema, um dos mais curtos que já traduzi, foi também um dos mais trabalhosos. Na verdade, desisti várias vezes, e só por insistência de Timo, que queria um versão lusófona de qualquer jeito, foi que saiu esta minha, para a qual tomei muitas liberdades (como sempre).
O poema trabalha com as palavras alemãs links e rechts, ou seja, esquerda e direita, mas encena algo como um poeta que sofresse de um distúrbio fonético, confundindo o L e o R, criando as palavras "rinks" e "lechts". Jandl segue isso pelo poema, trocando o L e o R a cada ocorrência. Vejam abaixo o original:
............................manche meinen ............................lechts und rinks ............................kann man nicht ............................velwechsern ............................werch ein illtum!
Uma tradução literal seria, ignorando o jogo de troca fonética: "alguns acham / que esquerda e direita / não se confundem / mas que equívoco!"
No terceiro verso, o verbo verwechseln, que significa "confundir", "trocar" (e tem em si ocorrência tanto do L como do R), sofre a mesma troca das letras, assim como a palavra irrtum, em que o R ocorre duas vezes e que significa "confusão", "equívoco", torna-se illtum; welch, "qual" ou "que", torna-se werch.
Parece-me um epigrama satírico muito eficiente. É óbvio que ninguém está sugerindo que isso substitua as Elegias de Duíno. Aos xiitas-órficos, eu recomendo: leiam Ovídio, queridos, mas leiam também Marcial. Cada qual cumpre uma função poética distinta e necessária.
Aqui, Jandl não está fazendo apenas um joguinho de palavras. Pois obviamente não se trata apenas das direções "esquerda" e "direita", mas de política. É quase profético quando pensamos que ele o escreveu na década de 60, muito antes do que se tornaria norma em nosso tempo: a confusão completa entre política de esquerda e política de direita, todos nas águas do neoliberalismo econômico. Basta pensar, por exemplo, na política econômica do Governo de Lula, no Partido Social Democrata alemão, e, de forma gritante, na política econômica de Barack Obama, que mantém no Governo americano os mesmos homens que levaram a economia mundial à beira do desastre em 2008, deixando um rastro de desemprego e pobreza em sua cauda. Sobre este último assunto, recomendo, e muito, assistir ao documentário Inside Job (2010), de Charles Ferguson.
Trailer do documentário Inside Job (2010), de Charles Ferguson
No Brasil, terra dos ótimos Gregório de Matos e Sapateiro Silva, poucos poetas demonstraram talento inato para a sátira, algo muito diferente de "humor em poesia". Poesia satírica é coisa muito séria, não é apenas "poema piada". Em alguns textos, Oswald de Andrade vai além da piada. No pós-guerra, poderíamos mencionar Sebastião Nunes e Zuca Sardan. O Glauco Mattoso do Jornal Dobrabil. Dentre os poetas surgidos na década de 70, há ainda Chacal, dentre os ligados à retomada das estratégias de vanguarda, eu citaria com certeza Affonso Ávila e Paulo Leminski em seus melhores momentos, e em Noigandres isso só comparece em Décio Pignatari, o único concretista que parece ter olhos e ouvidos para a sátira, da qual o "beba coca-cola" é o exemplo mais conhecido e o aproxima de Ernst Jandl.
O famoso poema visual de Décio Pignatari
Há outros, esta lista não se quer completa. Na poesia contemporânea, já escrevi um artigo a respeito da veia satírica de poetas como os gaúchos Angélica Freitas e Marcus Fabiano e o paulista Marco Catalão, por exemplo, em que me referi a textos ainda do paulista Dirceu Villa, do paraense Gabriel Beckman e do carioca Gregorio Duvivier. Poderia ter ainda mencionado alguns poemas de Pádua Fernandes ou Ismar Tirelli Neto, e, mesmo que se refira sempre a Virgílio, os poemas recentes de Érico Nogueira, como "Deu branco" e o inédito "Poesia bovina" (que sairá no terceiro número impresso da Modo de Usar & Co.), o aproximam mais de Catulo e Marcial, em minha opinião. O próximo número impresso da Modo de Usar & Co. terá ainda, entre várias outras coisas legais, um poema satírico inédito da cearense Érica Zíngano de que gostei bastante.
Bem, comecei este artigo para falar sobre minha tradução do poema de Jandl para o português. Há dificuldades imensas: em primeiro lugar, esquerda e direita são palavras muito mais longas que links e rechts, mas o problema principal é sonoro: ao contrário das palavras alemãs, que começam com consoantes, uma das palavras lusófonas começa com vogal, o que gera problemas quase intransponíveis. Em segundo lugar, o poema é muito preciso em sua escolha vocabular, era necessário que a troca em português das letras E e D (esquerda e direita) permitisse a mesma troca nas possíveis traduções de verwechseln e irrtum. Depois de quebrar a cabeça, optei por transformar o epigrama de sátira política de Jandl em um epigrama de sátira ético-estética em português, o que parece estar na pauta das últimas polêmicas literárias no Brasil. Em vez de "esquerda" e direita", optei por "bom" e "ruim", com a troca entre B e R. Não é ideal, mas funciona e foi o que publiquei na revista Kulturaustausch. Para a aliteração em "manche meinen", optei por uma espécie de assonância/aliteração em "alguns alegam". Abaixo, a versão:
............................mobal da históbia
............................alguns alegam ............................rom e buim ............................não se pode ............................enrabalhar. ............................mas que rubbice!
("tradução" minha, publicada na revista alemã Kulturaustausch número 61.)
Verifiquei e consultei uma amiga editora, gramaticalmente tanto "pode" como "podem" seriam aceitáveis, ainda que "podem" seja considerada "boa concordância". Como eu estava trocando "bom" e "ruim", achei por bem evitar a boa concordância! Vocês acham isso ruim? Talvez seja o caso de intitulá-lo apenas "mobal", para manter o título de uma palavra só de Jandl, "lichtung". Eu também creio que em publicação futura tirarei aquele "mas" do último verso, deixando:
............................mobal
............................alguns alegam ............................rom e buim ............................não se pode ............................enrabalhar. ............................que rubbice!
Em tempos de assassinatos políticos, com narrativas de heróis e vilões, mocinhos e bandidos, uma espécie de Hollywoodização da História, eu teria gostado muito de encontrar uma versão que usasse bom e mau, o que teria sido melhor, já que há realmente pessoas que trocam o L e o R, e ocorre também em certos distúrbios a troca entre o B e o M. Mas o simples fato de haver B e M em bom já o impedia, de certa forma. Eu segui, mesmo assim, e cheguei até: "boral // alguns alegam / mob & bau / não se pode" e empaquei em busca de algum verbo que chegasse perto de "trocar" ou "confundir" e no qual houvesse tanto M como B, mas não encontrei. Poderia usar "embaralhar", com "ebmaralhar", mas não sei se funciona. Seria ainda necessário encontrar uma tradução para irrtum em que ocorresse duas vezes o M ou o B. Se alguém tiver uma sugestão, sou todo olhos e ouvidos!
Espero que bom e ruim cumpram papel parecido e funcionem. Vida longa à poesia de Ernst Jandl e aos poetas satíricos do mundo.
Convite e cartaz de maio de 2011 para a SHADE inc. Para quem nunca os viu antes: a ideia é apropriar-se, reencenar ou parodiar imagens fotográficas conhecidas do século passado, da arte ou do fotojornalismo. Este mês o jogo foi com uma de minhas favoritas: "Le saut dans le vide" (1960) – o salto para o vazio de Yves Klein (1928 – 1962). Eu diria que desta vez foi menos uma paródia que uma homenagem escancarada.
Clique na imagem para aumentá-la.
Maio de 2011. Concebido pelo coletivo SHADE, fotografado e produzido por Niklas Goldbach.
Para quem não reconhece a foto, veja a original de Yves Klein abaixo.
Yves Klein - "Salto para o vazio" (1960)
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Programa ilustrado deste mês
our little tiny private Cabaret Voltaire
Quarta-feira, 4 de maio de 2011.
A noite de ontem foi uma daquelas que ficarão na minha memória por algum tempo, forte o bastante para resistir a todos os goles de tequila por vir. Dois ícones do nosso subterrâneo abriram a noite: um concerto cowpunk do canadense Glen Meadmore, com participação especial da lendária e única Vaginal Davis. Por volta das 2:30 da manhã, uma apresentação divertidíssima e sorridente da nova-iorquina Cherie Lily, deliciosa. Além destas criaturas de outra dimensão, DJ sets dos meus queridos Marius Funk e Dickey Doo. Na plateia: Peaches, Larry Tee, Joel Gibb, Danni Daniels e outros queridos.
Glen Meadmore e seu cowpunk
Cherie Lily e sua houserobics
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Quarta-feira, 11 de maio de 2011.
Na próxima quarta, teremos um show de uma banda de Frankfurt chamada Les Trucs e um DJ set do meu amigo Florian Pühs, vocalista e letrista da banda synthpunk alemã Herpes e também produtor de música eletrônica.
Les Trucs (Frankfurt) - "Waiting for my superhero skills to come out"
Florian Pühs - "Reproduction"
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Quarta-feira, 18 de maio de 2011.
Nesta noite, discoteca nosso companheiro de coletivo Daniel Reuter, também conhecido como Almost Straight, e trago novamente Bryan Kessler a Berlim, um moço muito novo de Colônia, que eu acho muito talentoso. Ficando aos poucos bastante conhecido como singer/songwriter, mas que eu tenho convidado a cada três meses para vir nos visitar e tocar um belo set de tecno. Muito fofo o moço. Ele é da nova geração de rapazes aqui na Alemanha que levam as macacas de auditório à l-o-u-c-u-r-a quando sobem ao palco. Acho muito divertido assistir às/aos groupies que vêm ao clube só para vê-lo discotecar. Bom, eu sou obrigado a entender um pouco... estas madeixas dele são mesmo um sonho. Ele vem para um DJ set, mas mostro aqui a vocês uma das suas canções mais bonitinhas, é a minha favorita.
Bryan Kessler - "Memorization is treason"
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Quarta-feira, 25 de maio de 2011.
Por fim, encerrando o mês, voltam ao clube meus queridos Marius Funk e Simon Zachrau, que discotecam pelo menos uma vez por mês. Dois queridos. Deixo vocês com mix de Marius Funk.
............................Sempre houve os que se assemelham ............................A placas de trânsito de ponta-cabeça. ............................Seus perigos são os mesmos, ao fim ............................Porém, é dos desatentos o desastre. ............................Estamos certos que nem os espíritos ............................Que Mumm-Ra invocava são capazes ............................De transformar uma forma decadente ............................De pensar, em algo de vida eterna. ............................Basta aguardarmos. Nada mais ............................Prazeroso do que ver frustrada ............................Uma sereia da catástrofe, quando ............................Por fim nota, de pulso célere, Ulisses ............................Atado ao mastro, louco e aos gritos, ............................Mas vivo. E ainda a caminho de Ítaca.
............................Berlim, 4 de maio de 2011.
Leonardo Fróes, nascido em 1941, poeta brasileiro.
Querido Ricardo Domeneck,
Leonardo Fróes nasceu em Itaperuna, município fluminense, em 1941. O poeta, tradutor, jornalista, naturalista e crítico literário brasileiro cresceu e foi criado, no entanto, na cidade do Rio de Janeiro. Como jornalista, foi redator do Jornal do Brasil e O Globo. Escreveu também para o Jornal da Tarde, de São Paulo, onde assinava a coluna "Verde". Viveu em Nova Iorque por alguns anos, passando também por alguns países europeus.
O poeta estreou em livro com a coletânea Língua Franca, em 1968. Seguiram-se A Vida em Comum (1969), Esqueci de Avisar que Estou Vivo (1973), Anjo Tigrado (1975), Sibilitz (1981), Assim (1986), Argumentos Invisíveis (1995), Um Mosaico Chamado a Paz do Fogo (1997), Quatorze Quadros Redondos (1998) e o mais recente Chinês com Sono Seguido de Clones do Inglês (2005).
Metafísica e biscoito Leonardo Fróes
no meio dos latidos da noite quando o silêncio atinge a qualidade dos latidos da morte e as folhas caem impressionavelmente sangradas; no meio frio de um colchão inquieto com os olhos pensativos resvalando no teto e as mãos descendo pelo corpo como a buscar sua realidade longínqua quando os morcegos da melancolia atravessam sem bater entre as árvores e alguma coisa enraizada confusa parece brotar de novo entre as pernas; nesse espaço fundamental reduzido onde as idéias se sucedem largadas numa associação intempestiva que é impossível deter ou compreender; no cerco sem limite de um quarto que roda em vários mundos e alterna com a sensação de não haver nada disso que dá contorno e forma à própria insônia — — o homem dá um salto e se puxa para fora do pântano e devora um biscoito e bebe um copo d'água e acende um cigarro e mais outro.
É um dos mais importantes e respeitados tradutores brasileiros e, mesmo se esta constituísse sua única atividade artística, Leonardo Fróes já mereceria lugar de destaque no cenário cultural brasileiro contemporâneo. Traduziu para o português trabalhos de William Faulkner, Percy Bysshe Shelley, Malcolm Lowry, D. H. Lawrence, Jonathan Swift, George Eliot, Virginia Woolf, Rabindranath Tagore, André Maurois, Lawrence Ferlinghetti, Flannery O'Connor e Jean-Marie Gustave Le Clézio. Além disso, em seu trabalho como naturalista, trouxe para o País livros de especialistas como os do ornitólogo Helmut Sick e o mirmecólogo Edward O. Wilson.
Sobre um tema de Confúcio Leonardo Fróes
Que fique pelo menos um homem sozinho num bar deserto pensando em nada de especial e curtindo pessoas atarefadas que passam.
Que a ele pelo menos aquilo tudo — a pressa das tarefas e os carros — pareça uma paisagem vazia e até certo ponto sem cabimento.
Que esse homem sentado, soterrado talvez em decepções amargas, se oriente para ouvir a canção além dos passos e além de sua própria pessoa
que assim no delírio urbano ressoa sem função social senão deixar que a boca filosofe assobiando e o ouvido obediente perceba.
Mas, além deste magnífico trabalho de tradução, Leonardo Fróes vem desde o final da década de 60 publicando com discrição seus livros tão bonitos de uma poesia delicada, sem alaridos, difícil de classificar e catalogar entre movimentos e gerações, o que talvez explique (mas certamente não justifica) certo silêncio que envolve seu trabalho. Especialmente quando consideramos sua qualidade. No entanto, se mesmo a poesia brasileira surgida na década de 50 ainda não foi devidamente compreendida fora das trincheiras de guerra entre grupos, apenas agora e aos poucos os poetas que estrearam na década de 60 vêm começando a receber maior atenção, alguns passando até mesmo por um processo de canonização, mas não sem polêmicas. A década viu o surgimento, além da poesia de Leonardo Fróes, de outras poéticas tão particulares e distintas entre si quanto as de Sebastião Uchoa Leite (1935 - 2003), Roberto Piva (1937 - 2010), Orides Fontela (1940 - 1998) e Torquato Neto (1944 — 1972), entre outros. Não é de surpreender que a crítica brasileira, que com frequência parece não saber distinguir o trabalho de crítica do de historiografia, sinta-se perdida, sem saber qual poética eleger como hegemônica para suas típicas generalizações. Assim, o trabalho destes poetas tem recebido, em geral, muito mais atenção crítica de outros poetas, mais jovens, que viram em alguns deles fonte de aprendizagem. Desta forma, alguns poetas ligados ao minimalismo de João Cabral, por exemplo, elegeriam como importante o trabalho de Uchoa Leite, ou poetas ligados a um trabalho mais visceral, digamos, sonhando unir os binômios vida/obra, que têm feito de Piva e Torquato mestres. Pessoalmente, confesso sempre ter tido minha atenção comandada, dentre os poetas surgidos naquela década, pelo trabalho de Orides Fontela. No entanto, pelo menos desde o lançamento de Vertigens - Obra reunida (1968-1998), a poesia de Leonardo Fróes vem encontrando a maior atenção que merece, sendo realmente uma das mais singulares do pós-guerra. É inócuo tentar enquadrá-lo nos debates entrincheirados do período. Quem sabe seu trabalho ajude a levar tanto nossa crítica como nossa historiografia literárias a uma atenção voltada ao trabalho individual de cada poeta. Se Pound dizia que a má crítica pode ser identificada por aquela que esquece o poema para falar do poeta, o que dizer da crítica brasileira, que esquece o poema e o poeta para dedicar-se muito mais ao "movimento", à "escola literária", fazendo de poemas e poetas meras tabelas ilustrativas?
Preocupações palacianas Leonardo Fróes
Mulheres muitas carregando pesados papéis e leves grampeadores passam com ar febril dos mais atarefados. ...............Soldados perfilam-se nos corredores. ...............Senhores entram apoiados em negras malinhas trepidantes e paletós quadrados. A secretária atura desaforos e cala. O boy espreme espinhas pela sala, com sono. Há uma pilha de pastas em cada mesa. Em cada coração, um vazio. A hora do café no copinho de plástico é a salvação da lavoura.
Leonardo Fróes é um poeta muito bom, ainda aqui, vivo, produzindo, entre nós. Ao ler alguns de seus poemas, penso com frequência na declaração de Sérgio Buarque de Hollanda ao comentar outro poeta de Petrópolis, Dante Milano (1899 — 1991), sobre o qual disse em um ensaio: "Seu pensamento é de fato sua forma." O trabalho de Fróes parece-me uma boa fonte de aprendizagem sobre clareza de pensamento, simplicidade de apresentação que jamais se entrega ao meramente prosaico, aquilo que Ezra Pound chamava de "tratamento DIRETO da coisa, seja ela objetiva ou subjetiva."
Dia de dilúvio Leonardo Fróes
Quando chove assim tão seguidamente na serra e começa a pingar água na casa e a goteira cresce e a pia entope e alaga o chão, quando não cessa esse barulho insistente de água penetrando em tudo e rolando, sinto uma desproteção total violenta e eu mesmo sendo dissolvido também nessa casa alagada, não me acho enquanto solidez: vou flutuando como onda inconstante na correnteza.
Diretos, mas com uma sintaxe-duração que se estende e desdobra com frequência em orações únicas, encavalando sintagmas. Esta prática tem, como no grande exemplo que é o belíssimo poema "A enguia" de Eugenio Montale, implicações metafísicas muito frutíferas, que pediriam por si sós um ensaio. Poucos poetas brasileiros usaram o trabalho sintático desta maneira. Ao mesmo tempo, em alguns de seus poemas Leonardo Fróes pratica a justaposição de versos aparentemente desconexos, de forma paratática, o que nos lembra a poética de Murilo Mendes, com momentos de grande força imagética, de uma poesia fanopaica, quase surreal. Poderíamos mencionar aqui o conhecido "Mulheres de milho", com sua escrita fortemente aliterativa, não tão comum em seus poemas.
Mulheres de milho Leonardo Fróes
Milhares de mulheres de milho brotam do meu olho calado como espigas fortes. No ar elas se endireitam
como folhudas criaturas carnosas que ao vento se transmudam, de fêmeas, em formosos penachos machos.
Acho graça na cruza; penso nisso que é ser mulher a passo de, sob a vertigem solar, virar confusa
hibridação. Abro-me. Brinco de me dar. Rapto-me e opto-me como se eu mesmo fosse me comer inteiro
enquanto as coisas simplesmente nascem.
Ou ainda "Paisagem voando para o orgasmo", com sua urgência de expressão nada gratuita, ligada à apresentação do que o título já nos informara:
Paisagem voando para o orgasmo Leonardo Fróes
Trens sonolentos resfolegam na gare do escuro rostos antigos se alumbram e nos sorriem discreta- mente a razão se estilhaça os sentidos se destapam os cheiros se condensam os sabores se associam ao cuspe a vida nos penetra o vento nos penteia e espalha por coloridas areias os dias nos dividem os horários nos limitam a memória escasseia o mar devolve ondas vazias em que já fomos levados nas noites frias de outrora o outro espia o outro espera o outro nos sedimenta em nosso desvario e ensina um corpo à solidão o outro ampara a nossa queda beija nossos pudores e a boca sempre entupida de espanto o canto explode o gato canta a cama range o ar se fende o riso nos comunica o gosto diferente desse gesto largado o riso alarga eleva desarruma as gavetas de nossa servidão coitidiana.
O poeta demonstra ainda, em alguns textos, um humor sutil, como em "A poesia e a matança dos mosquitos":
A poesia e a matança dos mosquitos
Cada poema original que escrevo à máquina contém pelo menos 2 ou 3 cadáveres de mosquitos esfregados no rolo. Isso porque escrevo muito de madrugada com a luz acesa. Antes de amanhecer eu apago para espiar a mutação de cores. Meu editor um dia vai receber a coleção completa. Parece que Pablo Neruda colecionava por sua vez caramujos. Uma senhora que me visitou outro dia achou que tenho alma de artista. Como as pessoas são boas observadoras agora. Os meus cachorros latem muito de noite quando estou escrevendo. Eu acho isso muito chato porque fico tenso. Às vezes eu penso que vai sair do mato um macacão enorme.
Leonardo Fróes vive e trabalha, desde a década de 1970, em Petrópolis, em um sítio com a esposa e os filhos. Segue produzindo parte da poesia lírica mais sofisticada do país.
atenciosamente,
Ricardo Domeneck
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MAIS POEMAS DE LEONARDO FRÓES
Justificação de Deus
o que eu chamo de deus é bem mais vasto e às vezes muito menos complexo que o que eu chamo de deus. Um dia foi uma casa de marimbondos na chuva que eu chamei assim no hospital onde sentia o sofrimento dos outros e a paciência casual dos insetos que lutavam para construir contra a água. Também chamei de deus a uma porta e a uma árvore na qual entrei certa vez para me recarregar de energia depois de uma estrondosa derrota. Deus é o meu grau máximo de compreensão relativa no ponto de desespero total em que uma flor se movimenta ou um cão danado se aproxima solidário de mim. E é ainda a palavra deus que atribuo aos instintos mais belos, sob a chuva, notando que no chão de passagem já brotou e feneceu várias vezes o que eu chamo de alma e é talvez a calma na química dos meus desejos de oferecer uma coisa.
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Estar estando
A impressão de estar, o lento espanto que se repete. Aqui e onde, eis como povôo ao mesmo tempo dois espaços ou, mais que isso, passo a noite inteira vivendo as sensações de um fragmento que me é próprio, ou é-me o corpo todo, e de repente vai sem deixar marca entre o que foi e o há de ser. Deslizo nessa fronteira vã que não separa nada e ninguém, passado nem presente, simples e uniforme faixa de areia da qual jorram palavras, visões, retratos, intenções. É sempre agora e nunca, sempre sono e manhã, sempre uma coisa que num jogo dual se nulifica para sobrar de nós sempre esse caldo de frustração e medo - ou de esperança.
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Broche vivo
Tão leve no seu vestido estampado, solto e com uma alça caída, sentada embaixo de uma árvore em cuja sombra o sol penetra com finas riscas langorosas, a mulher lendo, emparedada pelo livro que tem nas mãos, nem demonstra sentir na pele doce a chuva ou saraivada de insetos que a percorre, caindo em linha reta da árvore espaçosa, e pousa nos seus ombros nus, nos braços e no cabelo sedoso, para adornar-lhe o corpo pensativo como jóias raras, como broches vivos.
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Missal sem cerimônia
Certo ar de falência, certa estrela na testa, certa sorte bifronte, certos objetos entesourados no fundo de uma mala, certa mágoa ambígua, o som de certos ambientes, a impressão incerta de estar numa travessia sem freios, a defesa de certos itens na lembrança caolha, certos calafrios sem causa, o grau de inocência e tristeza em certas horas sombrias, a importância de certos detalhes, a pergunta não-feita e sua certa resposta incerta, o brilho anterior a certos sinais dados pela palavra espanto.
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Metacomedia
a boca da rua aberta comia amor e pipoca depois ia cuspir um cavalo na cabeça da fila fálica do sono dos ônibus com olhos-engates gozadamente se cumprimentando sorrindo na crina da velocidade sem meta, e motos raspavam na brecha roxa da nicotina contida em cada beijo de sorvete-soquéte uma vitrine de meias tardes fantas meias tintas vontades adocicadas de passar escorrer iluminar de pipoca gratuita o mar das caras fechadas de madames-fachadas que também ali seriam derretidas virando uma esquina e papéis, cavalo e motos, rótulos puxados para logo esquecer qualquer lugar na platéia da boca: aplausos falas urros sarros corridos entre os carros e a lua vigésima de neoplástico imposta aos pés doídos de todos os que estavam vagindo vagando vertendo, do mistério do céu, seu pó mais fino que não tinha função e no entanto moldava essa nossa comédia que é o pão dos divinos.
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Eu e os cabides do destino
tudo cedo parado: e eu novamente confuso usando a roupa de um fantasma tremido suando de andar por dentro de uma árvore aberta muito imprecisa e sem qualquer novidade que fosse idêntica às dentadas do sono ou aos cabides do destino abalados pelo sinal de alguém entrando tremido gemer no meu desejo dançado assim que eu próprio pensando amargurado o mastigue sentidamente absoluto e marcado usando o tição da roupa etérea de um tardo fantasma juvenil que me devora também suando de andar no caule ambíguo dos meus braços longos e rasos rasos e longos na tentativa de virar uma árvore onde antes havia simplesmente essa dúvida de dar ou receber os meus frutos que são pessoas fugitivas do acaso.
§
Introdução à arte das montanhas
Um animal passeia nas montanhas. Arranha a cara nos espinhos do mato, perde o fôlego mas não desiste de chegar ao ponto mais alto. De tanto andar fazendo esforço se torna um organismo em movimento reagindo a passadas, e só. Não sente fome nem saudade nem sede, confia apenas nos instintos que o destino conduz. Puxado sempre para cima, o animal é um ímã, numa escala de formiga, que as montanhas atraem. Conhece alguma liberdade, quando chega ao cume. Sente-se disperso entre as nuvens, acha que reconheceu seus limites. Mas não sabe, ainda, que agora tem de aprender a descer.
§
Um pastel cheio de dedos
Antes de chegar a Jardel, parei para comer um pastel do qual, quando mordi, saíram pernas bonitas de garotas fritas, mais um caroço de azeitona que comi também sem pensar que loucura um pastel erótico sentimental com cerveja que espremia não só as pernas como também braços e cabelos no balcão do bar eu não sabia se pedia um pano um balaio comecei a ficar encabulado de tantas de uma só mordida não sabia se botava no bolso ou se distribuía na rua deus do céu que situação penosa corpos em quantidade escorrendo do recheio de queijo pela comissura dos lábios, e eu, em terra estranha, tendo de parecer que era apenas um idiota se babando com pastel fresco.
§
Ambições de assombrações
Incertos os galhos tortos, você vê, armam-se como esqueletos de silenciosa e fria carnadura como se, no escuro, de cada galho surgissem numerosas pessoas vendo você observá-las na sua desabitada languidez vegetal de pessoas nuas resinosas querendo corporificar sem poder gestos aflitos, ritos solitários músicas de imperceptível tremor e, naturalmente, a semente da morte inoculada por cada criatura no seu próprio olho desmesurado.
§
Relações de estranhamento
A enxó o giz o grilo o cinzeiro a cruz a carcaça a desova a honra os retratos a herança o remorso a usura o anzol o sono e sua pesca de anseios afogados no açude da infância o gosto de sono das palavras
que nos ferem a mente o riso o vômito a lâmpada o fosso o paraíso os espelhos que de repente derramam nossos olhos pela face barbeada de um estranho.
§
Aberto para os dedos de Deus
se eu fizer pelo menos a manhã começar dos meus cabelos e tirar mais um pouco da última fatia e não ficar lamentando a primeira oportunidade perdida, e se eu não der bola para os preconceitos que me reduzem até eu mesmo achar que sendo um ser humano eu me explico na complicação cósmica desses bagaços distantes que são tão simples, se eu realmente não puser mais o pé na fantasia do dia que está à minha espera e represa tantas demonologias ferozes que eu esqueço de olhar, se eu não ficar completamente maluco por isso e o desejo de cumprimentar deus em pessoa.
(A POSTAGEM QUE SE SEGUE É UMA NARRATIVA DE FICÇÃO CIENTÍFICA)
Hoje, no clube berlinense Tresor, haverá uma performance especial da britânica Janine Rostron, melhor conhecida como Planningtorock. A mulher é heroína minha, é uma delícia poder compartilhar oxigênio com ela aqui no Berlimbo. Já escrevi sobre ela algumas vezes aqui. Abaixo vocês (supondo que haja mais de um leitor por aqui) podem assistir a um vídeo de uma performance, na qual, por coincidência e sorte, eu estava presente.
Janine Rostron, melhor conhecida como Planningtorock, em performance em Berlim a 23 de abril de 2009. Tive a sorte enorme de estar na plateia desta performance, a primeira em que apresentou material inédito de seu álbum W, na Casa das Culturas do Mundo (Haus der Kulturen der Welt).
Ainda preciso escrever um artigo sobre algumas ideias futuristas, quase de ficção científica, que sempre me vêm à mente em performances de Janine Rostron como Planningtorock, assim também como de Karin Dreijer Andersson, mais conhecida como Fever Ray. Como que vislumbro um possível futuro do poeta, quem sabe retornando a aspectos da tradição trovadoresca medieval, mas com todas as inovações tecnológicas, chegando a uma noção poética de textualidade, vocalização, performance. Mas em equilíbrio: com textos sofisticadíssimos, que tomem a sextina de Arnaut Daniel como parâmetro, lembrando que o texto precisa ter altíssima qualidade literária e precisa ainda ser cantado.
Ainda estamos longe disso, INFELIZMENTE, pois muitos trovadores passaram a descuidar de seus textos, que ficaram frouxos, e muitos escritores se deixaram engessar em parâmetros dogmáticos de uma escrita que raramente funciona fora da página, com textos demasiado rígidos. O frouxo e o rígido são negativos. O que queremos é o teso.
Meus parâmetros pessoais de qualidade, hoje, são estes: respeito igualmente o poema que funciona apenas na voz e o poema que funciona apenas na página, tanto o texto para ouvidos quanto o texto para olhos - PORÉM, a que parece grande poesia para mim, hoje, aquela com que sonho, é a poesia que possa comparar-se aos textos dos trovadores occitanos, dos minnesänger germânicos, dos escaldos islandeses - os textos compostos para voz, mas tão tesos, tão tesos, que sobreviveram até hoje apenas como manuscritos. Poemas que funcionam na voz e na página, como, eu ousaria dizer, é o caso de quase toda poesia de qualidade, de Homero e Safo a João Cabral de Melo Neto e Hilda Hilst.
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O caso dos poetas medievais é especial. Como Pound argumentou, a música deles ainda está lá, esperando por uma garganta. Tenho investigado as possibilidades, nos últimos tempos, da sugestão do norte-americano:
"... nothing — nothing that you couldn't, in some circumstance, in the stress of some emotion, actually say." Pound, em carta a Harriet Monroe.
"Nada – nada que você não possa, em alguma circunstância, sob a tensão de alguma emoção, realmente dizer." Querem um exemplo de poema em que isso acontece, em minha opinião, e com o qual podemos aprender? Entre outros, o "Donna mi prega"", de Guido Cavalcanti.
É muito pessoal. Não acho que ninguém seja obrigado a pensar assim. Não estou profetizando o fim da literatura. Creio apenas que (talvez) o gênero poético retorne, graças às novas possibilidades tecnológicas de gravação e difusão, a alguns parâmetros, que eu considero muito saudáveis, da poesia medieval. E que talvez poetas-escritores começarão cada vez mais a colaborar com jongleurs. Nunca estive entre os que acham que as novas tecnologias tenham que levar necessariamente a novidades poéticas. Isso me parece que pode levar a equívocos deterministas, de quem acredita em evolução artística. Eu creio em grande parte que as novas tecnologias permitirão que atividades poéticas do passado, por tanto tempo desprestigiadas, ganhem nova força e qualidade, ressurjam como possibilidades.
São apenas hipóteses futuristas, de ficção científica mesmo, para quem sabe daqui cem anos, se ainda houver humanos sobre a Terra. Já imaginaram como seria se um poeta do talento de Arnaut Daniel ou Bertran de Born tivesse acesso às possibilidades mostradas, por exemplo, aqui abaixo?
Karin Dreijer Andersson, melhor conhecida como Fever Ray, em performance na Alemanha.
O verbivocovisual, então, talvez não será apenas o signo e sua materialidade na página (isso é legítimo e seguirá existindo), mas será também o cuidado total de escrita + voz + performance, tudo muito teso, teso, teso, como imagino ter sido com todos os poetas vocais do mundo, alguns menos, outros mais, de Safo a Taliesin, de Egill Skallagrímsson a Arnaut Daniel, de Walther von der Vogelweide a Jacques Brel. Aos que acreditam que o minimalismo de poetas como Robert Creeley ou João Cabral de Melo Neto é coisa muito modernista e nova, vocês conhecem o poema "Sonatorrek", do escaldo (espécie de trovador) islandês Egill Skallagrímsson, nascido por volta do ano 910, morto por volta do ano 990?
excertos do poema Sonatorrek
Egill Skallagrímsson
1. Mjǫk erum tregt tungu at hrœra með loptvétt ljóðpundara; esa nú vænligt of Viðurs þýfi, né hógdrœgt ór hugar fylgsni.
2. Esa auðþeystr, þvít ekki veldr hǫfugligr, ór hyggju stað fagna fundr Friggjar niðja, ár borinn ór Jǫtunheimum,
3. Lastalauss es lifnaði á nǫkkvers nǫkkva bragi; jǫtuns hals undir þjóta náins niðr fyr naustdurum.
O texto segue assim por 25 estrofes. Aqui uma tradução ao inglês das três aqui reproduzidas:
"1. I can hardly move my tongue / or lift up the steelyard of song; / now there is little hope of Viðurs / theft, nor is it easy to draw it out / of the hiding place of the mind. // 2. It is not easy, because of my / heavy sobbing, to let flow from / the mind's place the joyful find / of the kinsmen of Frigg, which / in times of yore was carried / away from the lands of giants. // 3. [Without faults, has come to / life at [name of dwarf?] ship of / Bragi]; [From] wounds on a / giant's neck [blood] flows / down in front of Nain's house / doorway."
Quando ouço poetas defendendo a "tradição", como se isto significasse tão-somente o direito de escrever sonetos, esta forma tão jovenzinha na História da Literatura, eu sempre penso: "Querido, volte mais tarde, quando você tiver composto uma sextina MUSICADA e CANTÁVEL, como a de Arnaut Daniel, ou quando você tiver dominado o dróttkvætt dos escaldos islandeses e escandinavos". É por isso que vocês nunca vão me flagrar bancando o zelador da Tradição, ainda que já possa ter bancado o papel questionável de guia turístico da Vanguarda.
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Mas, ao ver alguns destes performers contemporâneos, imagino que em cem, duzentos anos, talvez o verso de Fernando Pessoa em que famously diz que "O poeta é um fingidor" terá assumido consequências outras, talvez, talvez drásticas, na criação (quem sabe) de personas, como pressinto, num espaço que não é passado nem futuro, tão sincrônico, ao ver o vídeo de Klaus Nomi, por exemplo, em que ele vocaliza a ária da ópera "King Arthur", de Purcell. Que é, diga-se de passagem, um bonito poema lírico de John Dryden. Ora, nosso primeiro grande poeta (e foi grande poeta) Gregório de Matos, dizem, cantava seus poemas... não deixava de ter sua persona como o Boca do Inferno.
Klaus Nomi faz uma de suas últimas performances, em Munique, antes de morrer em decorrência da AIDS.
What power art thou, Who from below, Hast made me rise, Unwillingly and slow, From beds of everlasting snow
See'st thou not how stiff, And wondrous old, Far unfit to bear The bitter cold.
I can scarcely move, Or draw my breath, I can scarcely move, Or draw my breath.
Let me, let me, Freeze again. Let me, let me, Freeze again To death
(John Dryden)
É ainda o que sinto com quase todos os vídeos de gente como Kate Bush ou Linton Kwesi Johnson, por exemplo, como já disse em meus momentos mais manifesto-like, nos dias em que me sinto ativista da oralidade.
Linton Kwesi Johnson. Música? Poesia? Ou a sobrevivência de uma prática milenar, apesar de certas narrativas historiográficas?
Muitos destes têm, diga-se de passagem, maior cuidado textual que muitos poetas escritores por aí. Se eu tivesse que mencionar um "trovador" contemporâneo que mostra um pouco mais de cuidado textual, alguém que talvez poderia ser enquadrado na tradição do trobar leu, eu citaria este senhor aqui, um cidadão chamado Thom Yorke:
O vigoroso trobar leu de Thom Yorke.
São hipóteses para possibilidades. O livro não morrerá, eu creio, nem deixarão de existir bons poetas escritores. Mas não seria lindo se renascessem poetas tão bons como escritores quanto Arnaut Daniel, que ainda fossem capazes de também cantar lindamente seus poemas, com textos tão tesos quanto a sextina "Lo ferm voler qu'el cor m'intra"?
Performance moderna para a sextina "Lo ferm voler qu'el cor m'intra", de Arnaut Daniel.
Lo ferm voler qu'el cor m'intra no'm pot ges becs escoissendre ni ongla de lauzengier qui pert per mal dir s'arma; e pus no l'aus batr'ab ram ni verja, sivals a frau, lai on non aurai oncle, jauzirai joi, en vergier o dins cambra.
Quan mi sove de la cambra on a mon dan sai que nulhs om non intra -ans me son tug plus que fraire ni oncle- non ai membre no'm fremisca, neis l'ongla, aissi cum fai l'enfas devant la verja: tal paor ai no'l sia prop de l'arma.
Del cor li fos, non de l'arma, e cossentis m'a celat dins sa cambra, que plus mi nafra'l cor que colp de verja qu'ar lo sieus sers lai ont ilh es non intra: de lieis serai aisi cum carn e ongla e non creirai castic d'amic ni d'oncle.
Anc la seror de mon oncle non amei plus ni tan, per aquest'arma, qu'aitan vezis cum es lo detz de l'ongla, s'a lieis plagues, volgr'esser de sa cambra: de me pot far l'amors qu'ins el cor m'intra miels a son vol c'om fortz de frevol verja.
Pus floric la seca verja ni de n'Adam foron nebot e oncle tan fin'amors cum selha qu'el cor m'intra non cug fos anc en cors no neis en arma: on qu'eu estei, fors en plan o dins cambra, mos cors no's part de lieis tan cum ten l'ongla.
Aissi s'empren e s'enongla mos cors en lieis cum l'escors'en la verja, qu'ilh m'es de joi tors e palais e cambra; e non am tan paren, fraire ni oncle, qu'en Paradis n'aura doble joi m'arma, si ja nulhs hom per ben amar lai intra.
Arnaut tramet son chantar d'ongl'e d'oncle a Grant Desiei, qui de sa verj'a l'arma, son cledisat qu'apres dins cambra intra.
.................................Epigrama para um matrimônio monárquico
............................Segundo o Arcebispo da Cantuária ............................que acaba de unir em matrimônio ............................Príncipe William e sua Catherine, ............................o objetivo principal do casamento ............................é a reprodução. Algo que no caso ............................do Príncipe William e sua Catherine ............................(como todo matrimônio monárquico) ............................gerará futuros herdeiros possíveis ............................ao trono do Reino Unido, fazendo, ............................acompanhem minha lógica política, ............................que seja de muito maior interesse, ............................para a população do Reino Unido, ............................petição urgente a canais televisivos ............................do mundo que não só a cerimônia, ............................cortejo, mas também se transmita, ............................ao vivo, a sua noite real de núpcias, ............................com cenas da mesma pompa explícita, ............................ao som do mesmo gritinho histérico ............................desta massa anestesiada de súditos.
.................................Berlim, 29 de abril de 2011, ao som de sinos.
Abre hoje à noite, no espaço para arte contemporânea sob tutela do Governo de Berlim e funcionando no antigo espaço do Senatsreservespeicher, a terceira parte de uma série de exposições de vídeoarte com curadoria do meu companheiro de coletivo Viktor Neumann. Intituladas "Medo. Poder. Espaço" (Angst. Macht. Raum. I, II e III), cada uma das exposições trazia trabalhos de três artistas contemporâneos trabalhando com vídeo. Na primeira, peças de Sadie Benning, Ming Wong and Rommelo Yu; na segunda, de William E. Jones, Zhenchen Liu und Clemens von Wedemeyer. Nesta terceira parte da série, a última, estão Klaus vom Bruch, Niklas Goldbach e o duo Korpys/Löffler.
Eu conheci Viktor em 2004. Menos de um ano depois começamos juntos as nossas intervenções/festas/eventos às quartas-feiras. Logo, outros foram se unindo ao que se tornou nosso coletivo, mas tudo começou comigo e com Viktor. Somos um grupo, eu diria, heterogêneo como as peças de Lego, mas pode-se construir coisas interessantes ou engraçadas com elas quando se unem. Como qualquer grupo de jovens em colaboração. Ou, usando as palavras ótimas de Murilo Mendes, nós somos "complementares e adversativos": um poeta que trabalha (ou se atrapalha) com vídeo (euzinho), um videasta (Niklas Goldbach), um performer que, como eu, tambem é DJ (Daniel Reuter) e aquele que está se tornando um dos mais interessantes jovens curadores da cidade (e o mais jovem do nosso grupo) - Viktor Neumann. Este é o cerne, mas há ainda outros amigos com quem colaboramos.
Depois de suas duas primeiras exposições desta série "MEDO. PODER. ESPAÇO" e sua curadoria de uma noite com 8 horas de videoarte na Kunstlerhaus Stuttgart (intitulada "Our Darkness"), nosso amigo abre hoje a parte final desta sua estreia-em-série como curador. Compartilho aqui com vocês excertos dos trabalhos e artistas da exposição e o meu orgulho de amigo.
MEDO. PODER. ESPAÇO. Parte 3. Exposição de videoarte com curadoria de Viktor Neumann.
(excerto de Das Schleyer-Band, 1977-1978, de Klaus vom Bruch - trabalho incluído na exposição MEDO. PODER. ESPAÇO. Parte 3.)
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(excerto de Ten, 2010, de Niklas Goldbach - trabalho incluído na exposição MEDO. PODER. ESPAÇO. Parte 3.)
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(imagem extraída do vídeo "The Nuclear Football", 2004, do duo Korpys/Löffler – André Korpys e Markus Löffler – trabalho incluído na exposição MEDO. PODER. ESPAÇO. Parte 3.)
Depois de visitar a exposição, falo mais sobre os trabalhos.
John Maus é para mim hoje uma das criaturas mais estranhas e atraentes e fascinantes em atividade no negócio de unir palavras e notas musicais. A avalanche de superlativos já deixa claro que sua música (e o corpo de onde ela sai) entusiasma neurônios e músculos e tendões e nervos e mucosas e cavidades esponjosas espalhados (não de forma proporcional) por todo o meu corpo.
Vamos lá, "me diga, com frio na barriga", quantas vezes você ouviu, em sua vida, alguém ter sua ocupação descrita como "compositor e professor de filosofia política na Universidade do Havaí"?! Alguém referir-se musicalmente a filmes-catástrofe de Cronenberg e passagens de textos de Jacques Rancière em arpeggios que parecem subir róseos? Pelas maquiagens de Quentin Crisp, eu confesso que estes sons realmente me pegam e me jogam na parede. Uia que voz gargantosa. E que pescoço a embrulha!
As canções são estranhas e irônicas, como em "Maniac" e "Rights for gays", e, se PJ Harvey é a senhora da tristeza raivosa, é como se John Maus cantasse uma tristeza que ri de si mesma. Esta é uma leitura pessoal.
O compositor por algum tempo esteve associado a outra criatura algo genial e esquisitíssima, o compositor Ariel Pink. A paixão dos dois pelo lo-fi é já quase marca registrada. Os dois colaboraram nos álbuns Underground (Vinyl International, 1999) e Loverboy (Ballbearings Pinatas, 2002).
O primeiro álbum solo de John Maus chama-se, em perfeito estilo lo-fi simples, Songs (Upset the Rhythm, 2006). A ele seguiu-se Love is Real (Upset the Rhythm, 2007). O rapaz é por vezes deliciosamente melodramático e camp, como seu colega Ariel Pink. Isso irrita alguns, mas aqui entre meus amigos pelo menos John Maus já adquiriu status heróico. Eu ia dizer cult, mas a verdade é que seu status é de herói. Cult é para os que chegam ligeiramente tarde, a quem as coisas que amam jamais parecem realmente pertencer. Quem ama como se objeto e sujeito se misturassem, pertencendo-se mutuamente, não cultua: heroiciza. Não posso dizer esta palavra, herói, sem pensar em um dos meus poemas favoritos de todos os tempos e línguas e geografias, "The hero", da Marianne Moore.
............"Where there is personal liking we go. ............Where the ground is sour; where there are ............weeds of beanstalk height, snakes' hypodermic teeth, or ............the wind brings the 'scarebabe voice' ............from the neglected yew set with ............the semi-precious cat's eyes of the owl -- ............awake, asleep, 'raised ears extended to fine points', and so ............on -- love won't grow.
............We do not like some things, and the hero ............doesn't; deviating head-stones ............and uncertainty; going where one does not wish ............to go; suffering and not ............saying so; standing and listening where something ............is hiding. (...)"
.........................excerto de "The hero", de Marianne Moore.
Sim, "where there is personal liking we go", e nós não gostamos de certas coisas, nem gosta delas o herói, especialmente de sofrer e calar-se, não o dizer. John Maus o diz e o diz e o diz.
O selo Upset the Rhythm acaba de anunciar para junho o lançamento de seu terceiro álbum, maravilhosamente intitulado We Must Become The Pitiless Censors Of Ourselves. A canção com vídeo "Believer" é a primeira a ser lançada aos leões e ovelhas.
"Believer", de John Maus, do álbum We Must Become The Pitiless Censors Of Ourselves