terça-feira, 7 de junho de 2011

eros

meteoro
que chegou
não
como soco
mas beijo
de todos
os cafunés
e não cavou
crateras
mas ferindo
as tais leis
da física
massageou
meu físico
macérrimo
detendo-se
a um
centímetro
da minha
atmosfera
fez de mim
seu satélite




Berlim, tarde amorosa à distância, sem cigarros ou cegueiras, na qual Eros fez do mais verborrágico dos poetas contemporâneos brasileiros um líricozinho lacônico, 07 de junho de 2011. Agora vou descer, comprar cigarros e sorvete de chocolate.


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domingo, 5 de junho de 2011

Sugestão de vídeo para ser apresentado a jovens nas escolas, contra a intolerância que aprendem em casa

Capa do álbum Ágætis byrjun (1999), da banda islandesa Sigur Rós


Tem-se falado muito ultimamente sobre o tal material a ser apresentado em escolas, para tentar começar a quebrar os séculos de preconceito e intolerância na cultura ibérica (não só nela, mas a nossa tem características específicas, eu diria), que ainda regem a educação de crianças em lares dominados por machos-alfa ignorantes, estes que fazem do Brasil um país extremamente perigoso para mulheres e homossexuais. Me assombra a falta de vergonha em nossa República pelos números da violência sexual no país. No Ocidente, sabemos que há inúmeros países onde a punição por um assalto a um banco é muito mais severa que a punição por um estupro. As prioridades são claras. No Brasil, onde a violência contra homossexuais é tão corriqueira que não parece merecer qualquer indignação, é como se, ao desviar-se da norma sexual vigente – a do macho-alfa heterossexual, um cidadão abrisse mão de parte de seus direitos constitucionais, a única explicação para a maneira como homossexuais são tratados nesta República: como cidadãos de segunda categoria. Sabemos que a laicidade da Constituição brasileira é uma ilusão, mas isso apenas torna ainda mais urgente que esta laicidade seja efetivada o mais rápido possível.

Vi algo do material proposto, mostrado por algumas pessoas nas redes sociais eletrônicas. Não quero opinar antes de conhecer tudo. Tenho minhas dúvidas, mas talvez se deva a meu desconhecimento de todo o programa.

Para mim, a prioridade não deveria ser tanto educar as crianças e adolescentes heterossexuais quanto encontrar uma maneira de proteger e apoiar as crianças e adolescentes homossexuais. Eles são a prioridade. As crianças e adolescentes homossexuais, que sofrem horrores por acreditarem que vivem/existem em um mundo que os odeia. É muito sofrimento para uma criança ou mesmo para um adolescente. Daí o altíssimo número de suicídios entre adolescentes homossexuais. É monstruoso tratá-los assim. Fazer com que crianças e adolescentes cresçam achando que a vida deles acabará quando todos descobrirem "o que são". É desumano fazer com que crianças e adolescentes se sintam desta maneira. É um horror e há algo de muito errado com uma sociedade que não se horroriza com isto, não com o que cidadãos adultos fazem de sua vida e de seus corpos em uma República que se diz democrática e laica.

Vendo algo do material, não pude deixar de pensar neste vídeo maravilhoso da banda islandesa Sigur Rós, que tem à sua frente, como se sabe, o poeta Jón Þór Birgisson, que é homossexual. O vídeo foi criado para a canção "Viðrar vel til loftárása", que parece significar "clima bom para um bombardeio", e gerou polêmica, como sempre é o caso com os machos-alfa do mundo, tão zelosos e ciosos da impenetrabilidade de seu ânus, onde parecem estocar sua masculinidade, como se esta fosse uma flor-de-lótus de cristal delicadíssimo, muito frágil.

A canção está no segundo álbum da banda, intitulado Ágætis byrjun (1999), com o qual ficou famosa. Eu tinha 21 anos quando vi o vídeo pela primeira vez. Sozinho na sala de casa, na casa onde tinha tanto medo que descobrissem o que eu sentia. Lembro de ter chorado. Hoje, morando no exterior, onde uma criança ou adolescente não é tão massacrado e humilhado por ser diferente, onde os pais não se comportam como se fossem carrascos sexuais, eu me pergunto: até quando vamos humilhar crianças e adolescentes no Brasil por serem diferentes do que se costuma esperar de uma norma sexual? Até quando não vamos sentir vergonha do alto índice de suicídio entre adolescentes homossexuais no mundo? A adolescência já é um período tão difícil, por que o tornar ainda mais traumatizante para os que são diferentes, para os que não se encaixam nas expectativas de reprodução da espécie?

Aos meus amigos cristãos (dentre os quais me incluo), eu posso apenas dizer: lembrem-se, meus caros, que a sua luta não é contra carne ou sangue.

Mas meu cristianismo é o que guiava Pasolini.

Este vídeo até hoje é um dos meus favoritos. A canção é linda, a voz de Birgisson é sublime, o vídeo é de uma delicadeza quase violenta. Ele deveria ser mostrado nas escolas brasileiras. Ajudaria talvez a começar uma discussão sobre os preconceitos que as crianças trazem de casa. E ainda as apresentaria à música de uma banda simplesmente primorosa.




Sigur Rós, "Viðrar vel til loftárása", do álbum Ágætis byrjun (1999)


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quinta-feira, 2 de junho de 2011

As prioridades do mundo



Qualquer pessoa
poderia verificar as manchetes
nos principais jornais do mundo
na manhã seguinte. O americano
The New York Times
relatava
a destruição de um tornado
no Missouri, o francês Le Monde
questionava o envio de helicópteros
para a Líbia, o espanhol El País
ocupava-se com as revoltas
do povo sob sua monarquia
e o alemão Frankfurter Allgemeine
espalhava o pânico de uma bactéria.
No Brasil, a Folha de S. Paulo
parecia deveras interessada na renda
de um ex-ministro da Fazenda
e atual Ministro-Chefe da Casa Civil.
Estou ciente de que o acontecimento
que devastara a agricultura e o turismo
dos meus sonhos, esta minha catástrofe
tão natural por causa de uma decisão
unilateral do ministro-chefe
da minha casa civil,
era minúsculo
para o mundo.
Mas a única população
cujo descontentamento
me interessava naquela manhã
era formada tão-só por um cidadão,
por isso busquei a notícia
em locais menores, onde quem
sabe alguém se importasse
com o vácuo de poder causado
pela renúncia do escolhido,
o abençoado, o ungido.
Era
como precisar de uma prova
final
de que não se tratava apenas
de um longo e elaborado
pesadelo banal. Mas no Alasca,
o Anchorage Daily News
informava sobre um barco
superlotado e seu naufrágio,
sem mencionar minha deriva
nas águas, no Alabama
The Decatur Daily questionava
a nova lei para imigrantes ilegais,
inconscientes da evacuação
de minha cidadela dessitiada.
Em Berlim, a imprensa
sensacionalista
alertava contra legumes
contaminados. Nunca
me iludi, prometo. Sempre
soube e ainda sei que o fato
de não ser mais óbvio
encontrar você em meu quarto,
em minha cama, não
merece a primeira página
de qualquer jornal
e são muito mais importantes
e respeitáveis as prioridades
deste mundo
que, no entanto, já não
me é o mesmo.






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terça-feira, 31 de maio de 2011

Poema recente de Angélica Freitas




Para as minhas calças
Angélica Freitas


Queridas calças, agora
rasgadas nas coxas
(dois rasgos horizontais
do uso intenso)
creio não mais precisar
de seus serviços, portanto
as aposento e agradeço.
Mas não sem antes cantar
a alegria que foi andar
por vocês vestida
e a sorte de não precisar
usar vestidos.
Com vocês passeei
por Lisboa, Madri e
Paris; sentei
nos jardins do palácio
em Fontainebleau.
O tecido macio
e generoso, que suportou
meu aumento de peso,
esgarçou pouco
no início, mas só
em dois anos cedeu.
O corte me permitiu
fazer poses de balé
nos jardins do palácio.
A cor, entre o verde
e o marrom,
disfarçava sujeiras.
Nos seus bolsos
guardei poemas,
recibos de supermercado,
tickets do metrô.
Perfeitas para
pernas e passeios,
descansem.
Tive outras calças,
mas vocês foram
as preferidas.
Queridos sapatos,
caso leiam esta elegia:



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domingo, 29 de maio de 2011

A morte de Gil Scott-Heron

Gil Scott-Heron (1949 - 2011)


Morreu este fim de semana inesperadamente, com apenas 62 anos, o poeta norte-americano Gil Scott-Heron, nascido em Chicago a 1° de abril de 1949, falecido ontem, 27 de maio de 2011, em Nova Iorque. Scott-Heron tornou-se conhecido com o livro de poemas/álbum Small Talk at 125th and Lenox (1970), que traz alguns de seus textos e poemas vocais mais famosos, como o icônico "The Revolution Will Not Be Televised", e ainda "Who'll Pay Reparations on My Soul?" e "Whitey on the Moon".

Scott-Heron lançaria em seguida, numa década em que foi prolífico, outros ótimos trabalhos: Pieces of a Man (1971), Free Will (1972), Winter in America (1974), The First Minute of a New Day (1975), From South Africa to South Carolina (1976), It's Your World (1976), Bridges (1977), Secrets (1978), Real Eyes (1980), Reflections (1981) e Moving Target (1984). Uma pausa de 12 anos se seguiria até o lançamento de Spirits (1994), e então outra de 15 anos até o lançamento de I´m New Here (2010). Colaborações suas com Brian Jackson, como as incríveis "Home is Where the Hatred Is" e "We Almost Lost Detroit", também foram bastante influentes sobre outros artistas.

Seus livros, além do já mencionado Small Talk at 125th and Lenox (1970), incluem o romance The Vulture (1970), The Nigger Factory (1972), So Far, So Good (1990) e a reunião de sua poesia em Now and Then: The Poems of Gil Scott-Heron (2001).

Eu poderia voltar aqui a alguns de meus assuntos obsessivos. Falar sobre como Gil Scott-Heron renova e faz renascer com força mamute em terras americanas a tradição oral da poesia africana dos griots. Sobre como a historicidade da poesia se encontra em toda a sua força de transpor contextos em uma obra como "The Revolution Will Not Be Televised". Historiadores do futuro encontrarão material de sobra neste poema para entender alguns dos conflitos do pós-guerra. Datado? Quem negará a atualidade desta peça em tempos de Wikileaks, revoltas da população do Egito e da Espanha, da Líbia e do Bahrein? É um pouco como o ótimo poema de Adrian Mitchell (1932 - 2008), intitulado "To Whom It May Concern". Sobre a Guerra do Vietnã? Ora, o que muda realmente de guerra em guerra? Nós aprendemos tanto com um poema sobre a Guerra do Vietnã como com um poema da antiguidade sobre a Guerra do Peloponeso.

Eu tenho calafrios, por exemplo, ao ler o famoso epigrama de Simônides de Ceos sobre os soldados mortos na Batalha das Termópilas (480 a.C.), que diz:


"Vai, desconhecido, diz aos lacedemônios:
aqui jazemos em obediência a suas leis.
"


Termópilas, Waterloo, Manchuria, Montecristo, Bagdá. A lista é interminável e crescente. Em qualquer lugar do mundo, dever-se-ia cavar a terra com o cuidado de quem possa estar escavando, sem saber, uma vala comum.

Será que um dia os versos de Gil Scott-Heron serão completamente incompreensíveis para os homens do futuro? Ora, todo poeta épico, se pensarmos na descrição de Ezra Pound para a poesia épica ("um poema que inclui a História") trabalha com o contextual: canta com tanta frequência o morto e o que vai morrer. Eles carregam a História em seu bojo, ainda que muitas vezes a mitificando, seja na Ilíada, ou mesmo, mais recentemente, n´O Guesa, de Sousândrade; n´Os Cantares, de Pound; no A, de Zukofsky; em The Walls Don´t Fall, de H.D.; n´A Rosa do Povo, de Drummond, e no gigantesco poema "Janela do Caos", de Murilo Mendes. A poesia reassume significados, sem ter que os engessar. Mesmo que o jogo inteligentíssimo de Scott-Heron em um verso como "You will not be able to plug in, turn on and cop out" se perca, e não saibamos que nele o poeta apropriou-se em intertextualidade da frase famosa de Timothy Leary, "Turn on, tune in, drop out", eu acredito que muito do texto sobrevive em sua própria carga de força.

A potência sonora, em aliteração e anáfora, é quase hipnótica, torna-se quase surreal-expressionista em certas imagens, ainda que saibamos lidar com figuras históricas. É texto de poeta. Em "lose yourself on skag and skip, / Skip out for beer during commercials", ou nas imagens de força expressionista em "The revolution will not show you pictures of Nixon / blowing a bugle and leading a charge by John / Mitchell, General Abrams and Spiro Agnew to eat / hog maws confiscated from a Harlem sanctuary", sem esquecer o jogo inteligente de criar paralelos sonoros entre Xerox e o nome de Nixon. Isso é sutil e ao mesmo agressivo, um soco, coisa de poeta satírico talentoso. Versos como "The revolution will not give your mouth sex appeal. / The revolution will not get rid of the nubs. / The revolution will not make you look five pounds / thinner, because the revolution will not be televised, Brother" preconizam elementos de apropriação que se tornariam comuns na poesia de hoje, além de ligá-lo, em minha opinião, a certas táticas de poetas modernistas, como Maiakóvski talvez, ou Brecht.

Sua morte é uma perda gigante, num momento em que precisamos tanto de poetas com coragem para incluir, quando necessário, a História em seus textos.








The Revolution Will Not Be Televised
Gil Scott-Heron

You will not be able to stay home, brother.
You will not be able to plug in, turn on and cop out.
You will not be able to lose yourself on skag and skip,
Skip out for beer during commercials,
Because the revolution will not be televised.

The revolution will not be televised.
The revolution will not be brought to you by Xerox
In 4 parts without commercial interruptions.
The revolution will not show you pictures of Nixon
blowing a bugle and leading a charge by John
Mitchell, General Abrams and Spiro Agnew to eat
hog maws confiscated from a Harlem sanctuary.
The revolution will not be televised.

The revolution will not be brought to you by the
Schaefer Award Theatre and will not star Natalie
Woods and Steve McQueen or Bullwinkle and Julia.
The revolution will not give your mouth sex appeal.
The revolution will not get rid of the nubs.
The revolution will not make you look five pounds
thinner, because the revolution will not be televised, Brother.

There will be no pictures of you and Willie May
pushing that shopping cart down the block on the dead run,
or trying to slide that color television into a stolen ambulance.
NBC will not be able predict the winner at 8:32
or report from 29 districts.
The revolution will not be televised.

There will be no pictures of pigs shooting down
brothers in the instant replay.
There will be no pictures of pigs shooting down
brothers in the instant replay.
There will be no pictures of Whitney Young being
run out of Harlem on a rail with a brand new process.
There will be no slow motion or still life of Roy
Wilkens strolling through Watts in a Red, Black and
Green liberation jumpsuit that he had been saving
For just the proper occasion.

Green Acres, The Beverly Hillbillies, and Hooterville
Junction will no longer be so damned relevant, and
women will not care if Dick finally gets down with
Jane on Search for Tomorrow because Black people
will be in the street looking for a brighter day.
The revolution will not be televised.

There will be no highlights on the eleven o'clock
news and no pictures of hairy armed women
liberationists and Jackie Onassis blowing her nose.
The theme song will not be written by Jim Webb,
Francis Scott Key, nor sung by Glen Campbell, Tom
Jones, Johnny Cash, Englebert Humperdink, or the Rare Earth.
The revolution will not be televised.

The revolution will not be right back after a message
bbout a white tornado, white lightning, or white people.
You will not have to worry about a dove in your
bedroom, a tiger in your tank, or the giant in your toilet bowl.
The revolution will not go better with Coke.
The revolution will not fight the germs that may cause bad breath.
The revolution will put you in the driver's seat.

The revolution will not be televised, will not be televised,
will not be televised, will not be televised.
The revolution will be no re-run brothers;
The revolution will be live.


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quarta-feira, 25 de maio de 2011

Pequena seleção e nota sobre a poesia de Sebastião Alba

Sebastião Alba (1940 - 2000)


Não me lembro bem de que maneira descobri a poesia tão delicada e bonita de Sebastião Alba (1940 - 2000). Creio que a primeira descoberta foi buscando vídeos de poesia lusófona na Rede, quando caí em um filme intitulado Um poeta não se pega, pequeno documentário-entrevista com o poeta português naturalizado moçambicano. O filme mostra este homem, beirando os 60 anos, poeta andarilho que vive nas ruas de Braga, dormindo em um barraco improvisado, entrevistado por quem soa claramente como um brasileiro.




Um Poeta Não se Pega, primeira parte, filme com o poeta Sebastião Alba.


Tenho, confesso, sentimentos muito conflituosos em relação ao filme. Sou grato que alguém tenha guardado algo do poeta e que eu tenha chegado a sua obra pelo vídeo. Tenho certeza que o diretor tinha respeito e carinho pelo homem e pelo poeta, mas eu sempre tenho a sensação de uma exposição da fragilidade alheia, além de um certo tom de voz no entrevistador que me parece infantilizado, talvez um pouco condescendente, não sei. Há ainda o perigo romântico de glamourizarmos a situação precária em que vivia este homem que vim a descobrir ser um dos poetas líricos mais sensíveis, delicados e competentes da língua portuguesa no pós-guerra. Pois, após ver o vídeo por alguns minutos, o que me importou foi descobrir sua poesia, e pesquisando-a na Rede, passei a encontrar textos como este:



Ninguém meu amor
Sebastião Alba

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.




É texto de poeta de verdade. Não é fácil esta simplicidade. Esta leve tensão sintática em alguns dos poemas na seleção abaixo. Sebastião Alba tornou-se um dos meus poetas favoritos. É uma pena que não edições de seu trabalho no Brasil. Poeta sensível, emocionado e que emociona, como já não se faz muito no Brasil desde que virou chique ser antilírico.

Reproduzo abaixo a nota biográfica e seleção de poemas de Sebastião Alba que preparei ontem para a Modo de Usar & Co.






Nota biográfica e seleção de poemas de Sebastião Alba
Ricardo Domeneck, especial para a Modo de Usar & Co., 24 de maio de 2011





Sebastião Alba nasceu em Braga, Portugal, a 11 de março de 1940. Seu nome de batismo era Dinis Albano Carneiro Gonçalves. Em 1950, a família do poeta emigrou para Moçambique, onde ele passaria a viver até 1984, tornando-se cidadão moçambicano. No seu novo país, trabalhou como jornalista. Estreou em livro com Poesias (1965), ao qual se seguiram O Ritmo do Presságio (a primeira edição, moçambicana, em 1974 e a portuguesa em 1981) e ainda A Noite Dividida (1982).





A editora portuguesa Assírio & Alvum reuniria em um único volume seus livros O Ritmo do Presságio, A Noite Dividida e O Limite Diáfano em 1996, reunidos uma vez mais no ano 2000, incluindo inéditos, com o título Uma Pedra Ao Lado Da Evidência. A essa altura, o poeta vivia nas ruas de sua cidade natal. No dia 14 de outubro de 2000, com 60 anos, morreu atropelado. Havia escrito recentemente um bilhete:


"Se um dia encontrarem morto o teu irmão Dinis, o espólio será fácil de verificar:
dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá".


Poeta lírico de extrema delicadeza, tentamos contribuir aqui com a divulgação de sua poesia tão bonita.



POEMAS DE SEBASTIÃO ALBA


A palhota

Espanta não ver nada
que se coma e caçarolas
As aranhas debandaram
não há moscas
até o humor secou
nas espinhas largadas
Vive-se como?
Donde a modeladora energia
que põe a carne?
Ladino um rato
como na infância o quereríamos
rói os bambus a viga
as horas urdem
e um opaco cisco indizível
aduz as proporções laqueia
a quietação à roda.


§


Ninguém meu amor

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.


§


Último poema

(ao Jorge Viegas)


Nestes lugares desguarnecidos
e ao alto limpos no ar
como as bocas dos túmulos
de que nos serve já polir mais símbolos?

De que nos serve já aos telhados
canelar as águas de gritos
e com eles varrer o céu
(ou com os feixes de luar que devolvemos)?

É ou não o último voo
bíblico da pomba?

Que sem horizonte a esperamos
em nossa arca onde há milénios se acumulam
os ramos podres da esperança.


§


Ícaro

Da Mafalala estorva-nos
a memória dos gregos
É um anjo negro segredado
e assim goza
de asas sussurrantes
Desce por entre
intervalos do vento
e findo o voo refunde
o modelo de cera
Como qualquer pássaro faz ninho
ele no vestido das mulheres
Sem céu fixo
exala a plumagem
da comum nudez interrompida.


§


Não sou anterior à escolha

Não sou anterior à escolha
ou nexo do ofício
Nada em mim começou por um acorde
Escrevo com saliva
e a fuligem da noite
no meio de mobília
inarredável
atento à efusão
da névoa na sala.


§


No meu país

No meu país
dardejado do sol e da caca dos gaios
só há estâncias
(de veraneio) na poesia.
Nossos lábios
a um metro e sessenta e tal
do chão amarelecido
dos símbolos
abrem para fora
por dois gomos de frio.
Nossos lábios outonais, digo,
outonais doze meses.
No entanto
o equilíbrio jacente
faz florir as acácias;
a terra incha;
na derme da possível
geografia,
um frémito cinde
as estações do ano.


§


A um filho morto

Ontem a comoção foi da espessura dum susto
duma árvore correndo
vertiginosamente para dentro do desastre

E já não choramos. Passamos
sem que o mais acurado apelo
nos decida

Nas camisas
teu monograma desanlaça-se.
Tua mão vê-o nos céus nocturnos
sabe que há uma ígnea
chave algures

Minha tristeza não tem expressão visível
como quando a chuva cessa
sobre a dádiva fugaz do nosso sangue
que hoje embebe a terra

É tal a ordem em nós
que um odor a bafio sai de nossas bocas
e uma teia de aranha interrompe o olhar
que te envolveu em vão.


§


Como os outros

Como os outros discipulo da noite
frente ao seu quadro negro que é
exterior à música dispo o reflexo
sou um e baço

dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si

As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com suas grutas sinfónicas
no mar.


§


Como se o mar

Quero a morte sem um defeito.
Sem planos brancos.
Sem que pequeninas luzes se apaguem
dentro dos ruídos.
Também a não quero providencial,
com um anjo vingador e secretíssimo
enfim pousado.
Nenhuma mitologia. Nenhuma
fruição poética. Assim: Como se o mar
me aspirasse os ouvidos... etc.
Mas súbita e civil,
com repartições abertas,
comércio, a luz graduada
nas altas paredes
dum bom dia sonoro.


§


O limite diáfano

Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.


§


Há poetas com musa

Há poetas com musa. Muitos.
Eu, neste jardim do Éden,
a cargo do município,
onde um velho destece a sua vida
e, baixando o olhar,
ainda lhe afaga a trama,
quando a poesia se afoita,
amuo
na agrura de, ao acordar,
tê-la sonhado.


§


Gosto dos amigos

Gosto dos amigos
Que modelam a vida
Sem interferir muito;
Os que apenas circulam
No hálito da fala
E apõem, de leve,
Um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
Entre quem são
E quem eles me parecem,
O meu agrado inclina-se
Para o mais reconciliado,
Ao acordar,
Com a sua última fraqueza;
O que menos se preside à vida
E, à nossa, preside
Deixando que o consuma
O núcleo incandescente
Dum silêncio votivo
De que um fumo de incenso
Nos liberta.


§



Sem título


Para isto de dar
um bambo passo entre as estrelas
não se vai com a grande ocasião reclinada
na cabeça a ouvir Puccini

Breve empanadas as estrelas
não mais se acenderão e apagarão
O rumo estará raso
O silêncio a nada obrigará

De pouco serve a ida ao lugar de ausência

que o teu sono já não é extensível
Aboliu-se uma posição relativa na noite
Não circulando em ti com a sua mistura
o ar atravessará o esqueleto

E tudo será sem data e sem prenúncio

E não acrescentarei ao poema ainda um verso relvado Que buxo!
Ele não seria a medida ou a balança Seu inconcreto molde
restaria quebrado entre outros cacos

(Se bem que da infância suba até mim o coro admonitório dos anjos.)


§


As mãos


Componho com as linhas dos meus dedos outros puros
cujas pontas façam girar nenhum raio sucessivo
de sol Dedos sem o cadastro de enlaces doendo
e se declamo ficções que eles escorem
Sem par noutras mãos Nem fundos na algibeira
mexidamente obscenos e a salvo da garra dos gatilhos
Dedos com um horizonte de pálpebra baixando
que assim não acordem as formas tacteadas
donde um sono mane estrie os espaços vedados
Dedos de que mesmo a chuva escorra sem uma lágrima
Ou os que já compus e assinam adiam o poema.


§


Epílogo

Fui
hóspede desta mansão
na encruzilhada
dos meus sentidos.

O verso apenas é,
transversal e findo,
o poleiro evocativo
da ave do meu canto.

Essa ave em que o Outono
se perfila
e, cada vez mais exígua
no rumo e nas vigílias
do seu bando,
de súbito, espirala
até sumir-se
num país imaginário.




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sábado, 21 de maio de 2011

Uma noite de música, uma mulher no palco e as canções que nos salvam

Capa do segundo álbum da Planningtorock, intitulado simplesmente W,
que será lançado pelo selo nova-iorquino DFA, de James Murphy,
no dia 24 de maio de 2011.

Ontem fui ao show da Planningtorock no clube Astra aqui de Berlim. Tratava-se de um concerto de "aquecimento" para o maior festival da Alemanha, o Melt! Festival. Meses antes do Festival, a organização começa a trazer já algumas das bandas para apresentações em Berlim. Na noite de ontem, três concertos: da jovenzinha banda Sizarr, da maravilhosa Planningtorock (codinome da artista multimídia britânica Janine Rostron) e da banda Animal Collective.

Cheguei muito cedo, meia hora antes das portas abrirem às 20:00. Eu estava sozinho, eu e Luis Cernuda (1902 - 1963), de quem estou lendo um antologia que trouxe da Espanha. Logo apareceram vários conhecidos, como sói acontecer nestes lugares. O primeiro show, da banda Sizarr, só começou às 21:30. A banda, que surgiu no cenário no ano passado, está començando a chamar a atenção, e parece estar em todos os maiores festivais do país este verão. São meninos talentosos. Ainda não consegui me decidir sobre o que penso da voz do vocalista. Uma coisa é certa, ele é muito bonito. Vocês decidem o que pensar dos meninos:



Sizarr - "Boarding Time"


Mas eu estava ali para ver Janine Rostron, eu estava ali para ser salvo, por uma hora ao menos, por Planningtorock. Estive em show dela há pouco tempo (com ele), mas era uma apresentação para a TV, ao lado do Atari Teenage Riot, e foi tudo meio esquisito. Ali, no Clube Astra, ela faria uma apresentação de uma hora, todo o novo álbum. Quando a canção do seu segundo single começou a tocar, "The breaks", eu fui ao fundo do poço e voltei até a superfície, e cantei, e gritei:

"Ah! We break too easily / We put on the breaks / We break too easily":




Planningtorock - "The breaks", do álbum W (DFA Records, 2011)



Mas a canção que está me salvando e matando no momento é "The one":


"You are meaning a lot to me / And I don´t want to hide it"




Planningtorock - "The one", do álbum W (DFA Records, 2011). Este vídeo usa imagens do grande Kenneth Anger.


Alguns amigos ficarão bravos ao ler isso, mas eu nem fiquei para o concerto do Animal Collective. Nada bateria o que eu senti naquela 1 hora com a voz e a música da Planningtorock. Como diz a canção "Doorway", a que abre o álbum, "I know my feelings / Under my deep skin". Eu simplesmente peguei o bonde e voltei para a minha cama vazia.


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terça-feira, 17 de maio de 2011

Eu, quê?




Eu, que nunca soube gerenciar perdas,
..........para a insatisfação geral
..........das sociedades anônimas
..........e outras limitadas empresas;
eu, que preferiria em verdade
..........fingir dores que deveras
..........não sinto;
eu, que me convencera da abolição
..........dos advérbios de tempo
..........por simples obsolescência
..........e a nossa falta de uso;
eu, que lamento ser só mitológico
..........o rio Lete;
eu, que memorizei as falas
..........em Hiroshima Mon Amour;
eu, que heroicizo as anônimas
..........como a mulher de Ló,
..........nunca Pierre, mas a que grita
.........."Pierre dis-moi la vérité"
..........no "Rue de Seine" de Prévert;
eu, que posso ir de Medeia a Dido
..........entre o café-da-manhã e o almoço;
eu, que banco o zen-budista
..........por alguns segundos, poucos,
..........e logo em seguida cantarolo
.........."Ne me quitte pas"
..........com esgares de Maysa,
..........as mãos amarrotando
..........a própria camisa;
eu, que já aprendera que ninguém
..........pertence a ninguém
..........mas mantinha certa esperança
..........nas várias interpretações
..........possíveis deste duplo negativo;
eu, que não encontro consolo
..........no fato de que outros
..........sobreviveram catástrofes maiores,
..........que cidades reergueram-se
..........após incêndios, bombas, maremotos,
..........que nós mesmos vivemos numa cidade
..........que já foi coleção de crateras;
eu, que fiquei dias em jejum
..........ritual, um para cada ano da relação
..........e então numa fome larga e repentina
..........devorei um sanduíche teu antigo,
..........chorando sobre o chouriço;
eu, que conheço do passado a subnutrição
..........advinda de uma dieta
..........de migalhas e farelos
..........e mesmo assim hesito
..........se de novo a aceitaria;
eu, que respondi hoje "Orfeu, Hades",
..........ao perguntarem no aeroporto
..........por nome e destino;
eu, que repeti teu nome no avião
..........sobrevoando Berlim, cão banguela,
.........aos uivos a dez mil metros do chão;
.......................eu, moço,
...volto agora a esta fisioterapia
...para os músculos em atrofia
...das primeiras pessoas
...do singular dos meus verbos,
...e não vejo distinções
...entre as equações
..."Espero, logo existo"
...ou "Existo, logo espero"


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segunda-feira, 16 de maio de 2011

(Em Barcelona) Hoje à noite a voz de Diamanda Galás curará feridas


Esta é uma nota-relâmpago. Estou em Barcelona. Vi uma apresentação de Lee Ranaldo. Hoje, verei uma leitura do Gary Snyder às 19:00. Mas o que mais espero é pela apresentação de Diamanda Galás às 21:30. Sua voz há-de curar todas as feridas, pelo menos enquanto durarem as canções.










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sábado, 14 de maio de 2011

Pequena nota sevilhana


Faz um calor do cão em Sevilha. Ontem, às 20:00, abriu-se a porta da sala onde ocorria minha performance, e eu, suando em bicas, acompanhei com os olhos a entrada de alguns bravos e corajosos interessados na salinha do Instituto da Cultura e das Artes de Sevilha, que funciona dentro do Monastério de São Clemente, prédio que, pasmei, ainda funciona como monastério. Metade dele é um espaço de exposições, na outra metade vivem as monjas. Apresentei as seguintes peças:

1- "Esta es la voz" (meu querido Aníbal Cristobo traduziu para mim o texto "This is the voice" para minhas apresentações na Espanha.)

2- "Mula", minha colaboração com o Tetine, com vídeo do querido Eugen Braeunig, peça que gosto muito de performar.

3- "Eustachian Tube in Staccato", uma peça que me custa muito apresentar, é difícil vocalizá-la, mas o curador havia pedido especificamente por ela.

4- "Six songs of causality", meu hit.

5- Encerrei com a peça que criei para Córdoba, baseada nas Soledades de Góngora, "Entrañas de las Soledades".


Está sendo difícil aproveitar a viagem, dois dias antes de vir à Espanha minha vida pessoal em Berlim virou de ponta-cabeça. Estou andando pelas ruas de Sevilha, como diria Drummond, com uma perda no bolso que me faz caminhar de banda. Tento fazer a estreiteza das ruas, como a celebrou João Cabral de Melo Neto, servir de abraço.


Só em Sevilha o corpo está
com todos os sentidos em riste,
sentidos que nem se sabia,
antes de andá-la, que existissem;

sentidos que fundam num só:
viver num só o que nos vive,
que nos dá a mulher de Sevilha
e a cidade ou concha em que vive.


(João Cabral de Melo Neto)



Deixo Sevilha em um par de horas e voo para Barcelona, onde vou encontrar amigos queridos como Eduard Escoffet e Aníbal Cristobo, ver as performances de Lee Ranaldo no domingo e de Diamanda Galás na segunda-feira como parte do festival de poesia barcelonês, o "Poesía Barcelona 2011".


Deixo vocês com vídeos de duas apresentações minhas do passado, a primeira com as "Six songs of causality", gravação de minha apresentação solo no Espaço de Arte Contemporândea de Castelló, no distrito de Valência em 2009; a outra de minha apresentação no Festival Yuxtaposiciones de Madri, na Casa Encendida, em 2008, na qual oralizo a peça "This is the voice".




Performance das "Six songs of causality" no Espai d´Art Contemporani de Castelló, Valência, julho de 2009.


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Performance da peça "This is the voice", na Casa Encendida, Madri, parte do Festival Yuxtaposiciones em 2008.


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