segunda-feira, 11 de julho de 2011

Traduzido por Aníbal Cristobo e uma conversa com ele sobre poesia

Aníbal Cristobo


Ao longo da última semana, o poeta argentino Aníbal Cristobo apresentou traduções de seis poemas meus em seu blogue, Kriller 71, parte de sua série de postagens semanais de traduções, nas quais já traduziu ao longo de uma semana inteira poemas de brasileiros como Marília Garcia, Carlito Azevedo e Arnaldo Antunes; portugueses como Manuel António Pina; norte-americanos como Kenneth Koch e Mary Jo Bang; ou catalães como Gabriel Ferrater, etc.

Aníbal, como vocês devem saber, nasceu em Buenos Aires, em 1971. Viveu alguns anos no Rio de Janeiro, onde publicou seu primeiro livro Teste da Iguana (1997), ao qual se seguiram Jet-lag (2002) e Krill (2002), reunidos no volume Miniaturas Kinéticas (2005) da coleção de poesia contemporânea Ás de Colete, da Cosac Naify, a mesma pela qual saíram meus dois últimos livros, a cadela sem Logos (2007) e Sons: Arranjo: Garganta (2009). Aníbal vive hoje em Barcelona.



Aníbal Cristobo lê três de seus poemas


Vocês podem ler todas estas traduções feitas por Aníbal seguindo o link abaixo:



Ele também conduziu uma pequena entrevista comigo, traduzida e apresentada ontem. Reproduzo-a abaixo com minhas respostas em português.


Conversa entre Aníbal Cristobo e Ricardo Domeneck, julho de 2011.


AC: Cómo empezaste a escribir poesía?

RD: Respondendo de forma bem prática, foi quando abri os manuais escolares de literatura que encontrei na minha casa (minha mãe é professora) e li os primeiros poemas, misturando tudo, o "Pré-história" de Murilo Mendes e o "Pneumotórax" do Bandeira, aquele soco sarcástico do "Acrobata da dor" de Cruz e Sousa e as "Ideias íntimas" do Augusto dos Anjos com os poemas satíricos do Gregório de Matos. Durante muito tempo o único acesso que tinha à poesia era o de manuais escolares. Eu morava numa cidade pequena, não sabia que era possível comprar livros só de poemas, então eu caçava manuais escolares, lembro-me de como ficava feliz quando eles iam além do Pré-Modernismo ou mesmo do primeiro Modernismo e traziam poemas de Drummond, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles... alguns tinham exemplos da Poesia Concreta e das outras vanguardas brasileiras da década de 50, ou mesmo letras de canções de Caetano Veloso e Chico Buarque. Quando eu encontrava manuais mais completos assim eu ficava em estado de alegria absoluta, especialmente se traziam poemas que eu não conhecia. Antes disso tudo, creio que minha primeira exposição à poesia e à ideia do que era um poeta foi com Vinícius de Moraes e os seus sonetos famosos.

É uma coisa muito louca, mas eu tenho uma memória muito antiga também, criança ainda (eu tinha dez anos), do anúncio do Plantão do Jornal da Globo sobre a morte de Carlos Drummond de Andrade em 1987. É estranho, mas eu me lembro claramente de estar assistindo algo na TV e a programação sendo interrompida para anunciar a morte dele. Eu me lembrava do anúncio da morte de sua filha uma semana antes e me lembro de como aquilo me marcou, minha mãe correndo da cozinha para ouvir a notícia (como ela sempre fazia quando vinha aquela vinheta do Plantão do Jornal da Globo) e dizendo algo como: "Coitado, morreu de tristeza". É uma memória que sempre me acompanhou, não sei o porquê. Eu tinha dez anos, nem sei se já entendia o que era um poeta. Mas o fato dele morrer alguns dias depois da filha, com minha mãe dizendo que ele morrera de tristeza, aquilo ficou na minha cabeça. A situação acabou aparecendo num poema do meu primeiro livro mais tarde.

O primeiro livro de poesia que eu comprei, juntando dinheiro, foi o Eu do Augusto dos Anjos. Lembro de mais tarde ter comprado o Farewell (1996) do Drummond quando saiu, e os volumes com os heterônimos do Pessoa. Comecei a escrever sob o impacto destas descobertas, ainda adolescente, e escrevia pequenos contos também.

AC: Viendo tus poemas nuevos, tengo la sensación de que hay en ellos una mayor narratividad, o una narratividad menos fragmentada que en los libros anteriores. Aún cuando los textos siguen estando permeados por ese espíritu babélico, esa posibilidad de que diversas lenguas, citas y registros puedan irrumpir en ellos, tengo la sensación de que hay una ordenación del caos, desde lo íntimo hacia lo universal, que aparece atravesada por la ironía y la auto-ironía. Te parece que hay algo de cierto en esto?


RD: É sempre tão difícil falar sobre o próprio trabalho sem cair em certas armadilhas, pecados que já cometi demais, mas vamos tentar: houve sim uma mudança, especialmente para quem lê os poemas do meu último livro publicado, Sons: Arranjo: Garganta, e os poemas mais recentes que venho publicando no meu blogue. Correndo o risco de ser auto-explicativo (ou algo pior), eu tentaria falar sobre a mudança da seguinte maneira: especialmente nos poemas do último livro, eu estava muito obcecado com a tentativa de seguir o que eu chamo às vezes de "poética das implicações". Eu não queria que os poemas dissessem algo, meu interesse estava justamente em dar um curto-circuito neste dizer, criando textos que tivessem significado a partir das implicações da maneira como foram compostos. Eu cheguei a trabalhar com tautologias, um fenômeno da linguagem que me fascina, o que para muitos deve parecer uma loucura. Houve quem mencionasse como era impossível citar versos do livro, pois sozinhos eles realmente não faziam o menor sentido. Eu queria mesmo isso, que apenas o conjunto dos versos justapostos funcionasse. Eu acho também que nos meus dois últimos livros, que formam uma especie de álbum duplo pois foram escritos de forma paralela ainda que publicados com 2 anos de intervalo, meu impulso crítico misturava-se completamente à poesia. Talvez por isso eles pareçam frios a algumas pessoas. Às vezes eu acho que, ao passar a escrever crítica propriamente dita na Modo de Usar & Co., eu tenha talvez me libertado da sensação de necessidade de fazer isso nos poemas.

Nos poemas mais recentes, que estou reunindo para o meu próximo livro, minhas vontades mudaram. Eu venho pensando muito em um paradigma ensinado por Pound, quando ele sugere como parâmetro:

"...nada – nada que você não possa, em alguma circunstância, sob a tensão de alguma emoção, realmente dizer."

O que me levou a uma poesia, como você disse, com maior narratividade, talvez, ou menos fragmentada. Mas para dizer de forma bem clara e íntima, eu tenho me perguntado muito: por que eu comecei a escrever poesia? Não foi porque eu li poemas que me emocionaram? Eu acho que apenas voltei a estes poetas. Eu não quero mais correr o risco de escrever poesia apenas para poetas. Eu não quero viver no mito da poesia "inútil". Eu tenho pensado nas funções milenares que os poetas sempre tiveram em suas comunidades. Eu queria muito poder exercê-las, sem qualquer concessão ou facilitação. Pound também falou sobre o bom poema, aquele que entusiasma o especialista e emociona o leitor comum. Hoje em dia, isso me parece um desafio magnífico e eu acredito firmemente que a poesia só poderá voltar a ter seu papel central na cultura se aceitarmos este desafio.


AC: Pero esa definición no dejaría de lado a muchos poetas que te gustan, que leés, traducís, divulgás? Quiero decir, no sería quizás oportuno analizar que es el "lector común"? Un lector de poesía, me parece, ya no es alguien muy "común" -al menos en términos estadísticos. No pensás que otro camino podría ser trazado también desde la educación, formando a las personas en la idea de que la poesía es una actividad más, una manifestación cultural igual a otras que sí son incluidas en la educación, como la música o el dibujo -desarrollando una percepción poética en las personas desde la infancia? Y, finalmente, esa identificación de la poesía con aquello que puede ser dicho, de algún modo, no haría que la poesía se alineara con los "discursos de las certezas", perdiendo buena parte de su capacidad de cuestionar nuestra percepción del lenguaje y de lo real?


RD: Talvez minha última resposta tenha dado a sensação de uma oposição, como se uma coisa excluísse a outra. Vou tentar elaborar um pouco melhor. De qualquer forma, isso é realmente uma perpepção muito pessoal, a partir do meu próprio trabalho. Sabe, eu penso sempre nos trovadores medievais como parâmetro. Havia entre eles, como se sabe, o trobar leu, o trobar ric e o trobar clus. Este equilíbrio, a coexistência entre estas práticas e parâmetros trazia saúde à tradição. Talvez o problema esteja na busca de uma definição unitária para a poesia, algo que sempre existiu no pensamento estético, mas alcançou uma certa obsessão a partir dos românticos. Os modernistas também tinham esta ambição de encontrar uma teoria ou parâmetro que unificasse toda e qualquer experiência poética. Isso teve consequências negativas, eu creio. Gosto muito, por exemplo, da discussão do crítico italiano Alfonso Berardinelli sobre o trabalho de Hugo Friedrich e a tentativa de estabelecer um parâmetro único de compreensão para a poesia moderna, que acabou por excluir tantos poetas que hoje são muito mais lidos que alguns dos chamados Altos Modernistas. Eu acredito que há uma certa tendência hoje em dia a valorizar apenas a poesia da tradição do trobar clus. Uma época em que todos queiram ser poetas do trobar clus não pode encontrar um público amplo. É claro que havia poetas que se especializavam em um ou outro, e isso ainda é completamente legítimo. Mas havia a variedade de práticas para as distintas funções e possibilidades da poesia. Há obviamente um problema de educação, como você expôs em sua pergunta, mas eu falo aqui mais sobre o que nós poetas podemos fazer. Há sempre que se ter em mente a que público se está dirigindo. Não adianta impor os sonetos religiosos de Gregório de Matos a adolescentes, quando seria muito mais eficaz apresentá-los à poesia satírica do mesmo autor. Trata-se de um exemplo de problema no ensino de poesia nas escolas. Não se trata de facilitar as coisas. Não estou pregando qualquer forma de concessão ou populismo. Eu acredito que hoje, diante da situação em que estamos, não adianta depender demais do que o Governo e seus Ministérios de Cultura e Educação estão fazendo se nós produzirmos tão-somente poesia que consegue interessar apenas a outros poetas e acadêmicos. Você tem razão: não existe um "leitor comum", mas durante todas as eras os poetas cumpriram diversas funções que foram sendo relegadas a outros artistas. Quando eu falo sobre o "dizer", trata-se da negação de que a poesia se resuma exclusivamente à função poética, o que permite que nós por vezes nos percamos demais em joguinhos sígnicos (e não com pouca frequência cínicos). Eu acredito que a função poética não oblitera a função referencial da linguagem ou qualquer outra das funções. A linguagem poética chama a atenção para sua própria estrutura como linguagem, mas nos grandes poetas isso não impede que seus textos ao mesmo tempo cumpram várias outras funções, como emocionar ou educar. Eu não entendo porque isso parece ter se tornado pecado para poetas. Eu entendo o perigo que você menciona, o dos "discursos das certezas", mas o poema que consegue ao mesmo tempo dizer e fazer não precisa se incluir em qualquer discurso das certezas, não precisa ser panfleto. Parece-me muito mais arrogante (e por vezes podendo beirar o charlatanismo) o clichê da poesia que quer dizer o "indizível", por exemplo. Neste aspecto talvez meu problema seja ter lido Wittgenstein demais, eu não consigo deixar de cheirar certo charlatanismo nesta ambição do "indizível", nem consigo crer que isso se enquadre de verdade a poetas que são tão frequentemente sequestrados e abusados para este discurso, seja Mallarmé ou Celan. Veja bem, eu mesmo tenho textos em que nego completamente a noção da poesia que "diz" qualquer coisa, especialmente no meu último livro, em que muitos textos frustram a vontade do leitor de criar o que se poderia chamar de "texto-fantasma", uma paráfrase do poema, que seria seu "significado" imanente ou transcendente. Agora, eu não posso esperar que todos se interessem por esta função analítica do poeta sobre a linguagem. Acabam sendo realmente poemas para especialistas talvez, ou para pessoas interessadas em linguística e história da literatura. E quanto aos leitores que, de forma completamente legítima, vão buscar na poesia consolo por um pé-na-bunda, pelo fim de um relacionamento, pela própria mortalidade e a dos que amam, os que querem simplesmente embebedar-se com palavras, emocionar-se? Se os poetas escritores não cumprem esta função milenar da poesia, os leitores vão buscar isso na poesia cantada, no cinema, em qualquer outra arte. O discurso da inutilidade da poesia é muito complicado, e tem trazido problemas apenas, em minha opinião. Quando eu falo sobre est-É-tica, não estou tentando estabelecer uma moral poética, mas trata-se apenas da crença na historicidade da poesia, de que o poeta pertence a seu tempo, cumpre uma função na sua cultura, na sua comunidade. Meu último livro se chama Sons: Arranjo: Garganta pelo meu interesse em forma, função e contexto. Eu queria apenas ser capaz de cumprir o maior número possível de funções que me foram legadas e herdei dos meus antepassados poetas. Sem uma definição unitária que dê conta de toda e qualquer manifestação poética. Aceitar os limites do dizível parece-me longe de qualquer discurso de certezas. Não sei se me fiz claro ou se compliquei ainda mais a questão.

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domingo, 10 de julho de 2011

Christian Marclay: para quem se interessa pelo trabalho sonoro, de colagem e de apropriação




Christian Marclay nasceu na Califórnia. É um compositor e artista visual trabalhando com as conexões entre barulho, som e música, usando também vídeo e apropriando-se de cenas do cinema. Foi pioneiro no uso de turntables como instrumentos.


Christian Marclay

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quarta-feira, 6 de julho de 2011

Na companhia de Woody Allen




Nas últimas semanas, eu devo ter visto e revisto uma grande parte da filmografia de Woody Allen, com especial predileção pelos filmes feitos entre o fim dos 70 e dos 80. Sempre curti, mas no momento está sendo uma diversão muito proveitosa. Revi os favoritos, como Annie Hall (1977), Manhattan (1979), o bergmaniano Interiors (1978), do qual sempre gostei, seu mais trágico; Hannah and her sisters (1986), maravilhoso; os menores, talvez, mas ainda assim fascinantes, como Another Woman (1988), com a incrível Gena Rowlands, ou September (1987). Mas ainda não havia visto este Stardust Memories (1980), com uma Charlotte Rampling muito jovem, Allen num momento Otto e Mezzo, realmente muito bom. Deixo aqui o vídeo compartilhado no Youtube, onde está dividido em sete partes, mas é possível vê-lo na íntegra. Vale muito.





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terça-feira, 5 de julho de 2011

Uma canção dos irmãos lindíssimos Angus & Julia Stone

Angus & Julia Stone


Um amigo que conheci recentemente me deu de presente uma compilação de canções, com vários artistas que eu não conhecia. Gosto muito de presentes assim, sem mencionar que é uma maneira muito legal de conhecer um pouco mais alguém novo em nossa vida. Uma das canções chama-se "Heart Full of Wine", da dupla de irmãos australianos Angus & Julia Stone. Muito bonita a canção, sem mencionar o fato de que os dois músicos são verdadeiras visões de beleza física. Quis compartilhar.



"Heart Full of Wine", do EP de mesmo nome, lançado em 2007.

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domingo, 3 de julho de 2011

Algumas cicatrizes, a ascese violenta e "A Mula de Deus", de Hilda Hilst

"34 com cicatrizes", de José Leonilson (1957 - 1993)


Na última postagem, citei Hilda Hilst com os versos: "Essa sou eu / Poeta e mula", de um dos poemas mais febris da década de 90, texto que foi publicado pela primeira vez no final de seu romance Estar Tendo. Ter Sido (1997). Eu havia acabado de chegar a São Paulo, tinha 19 anos. Deparei-me com uma resenha sobre o romance, na qual o jornalista reproduzia os versos: "Palha / Trapos / Uma só vez o musgo das fontes / O indizível casqueando o nada // Essa sou eu. // Poeta e mula". Em meio àquela cabralice exagerada, pedregulhosa e ressecuda da poesia da década de 90, eu, que estava já começando a sofrer de anemia emocional por conta de tanto antilirismo, me sobressaltei muito e pensei: "Evoé, um oásis!" Nos próximos dois anos, li tudo o que a mulher escreveu e passei a seguir seus passos, dizendo: com Murilo Mendes e Hilda Hilst, mestres, até o fim da carreira dos meus dias como poeta. Ô mestre de Juiz de Fora, ô mestra de Jaú! Comecei a passar os livros dela para meus amigos, criamos um pequeno culto em torno da mulher. Nós queríamos um matriarcado, Clarice Lispector de um lado, Hilda Hilst do outro. Um dia decidimos que iríamos a Campinas, encontrar a Casa do Sol e conhecê-la. Creio que já contei esta história aqui, mas se você está nesta página é porque você é meu amigo, mesmo que desconhecido, e como meu amigo você deve saber que eu sou meio compulsivo, obsessivo e repetitivo (perdoe). Protelamos por várias semanas. Quando estávamos preparados para a viagem, vem a notícia pela imprensa: Hilda Hilst morta, a 4 de fevereiro de 2004. Naquela tarde, desci a Avenida Brigadeiro Luís Antônio (em São Paulo) a pé, a caminho do Parque do Ibirapuera. Na cabeça, ia compondo o seguinte poema, que mais tarde se tornaria a primeira das "Seis canções óbvias", publicadas no meu livro de estreia, Carta aos anfíbios (2005):


das Seis canções óbvias

1.

Sair da cama, disse,
.....foi simplesmente
.....uma idéia incrível
.....e deliberada
De invernos frutíferos
.....construíram-se
.....muitos infernos na
.....primavera
A cama é um inferno pessoal
.....e intransferível
E a pele vestida à noite
.....desprega-se para acompanhar
.....outra calçada pela manhã
A transferência de corpo pratico-a
.....com diligência
É tudo tão simples, dizem
Hilda Hilst havia medo da morte
.....e morreu
.....assim como o MASP
.....é ao mesmo tempo
.....museu e mirante
Ergue-se o deliberado sobre
.....simples patas


(Carta aos anfíbios, Rio de Janeiro: Editora Bem-Te-Vi, 2005)


Houve duas mortes de poetas brasileiros que me deixaram realmente de luto: a de Orides Fontela, em 1998, e a de Hilda Hilst, em 2004. Muitas outras me entristeceram muitíssimo, como a de João Cabral, a de Wally Salomão, a de Haroldo de Campos. Mas as mortes de Orides Fontela e Hilda Hilst foram como perdas pessoais, difíceis de explicar, pois eu jamais as conheci, infelizmente.

Deixo vocês abaixo com o poema completo de Hilda Hilst, "Mula de Deus". Desconheço poesia desta natureza mística na poesia principal brasileira, em geral dominada pelos machos agnósticos. Tal misticismo carnoso. É como a cena final da porca em A Obscena Senhora D (1982). Economia de meios será melhor como ato de ascese? Há o momento para o seco e para a pedra, e também o momento para o úmido, para o que incha? Tal força, que é ao mesmo tempo anti-inflamatória e inflamatória, eu creio encontrar em Clarice Lispector e Hilda Hilst, em Lúcio Cardoso e Arthur Bispo do Rosário. Em Murilo Mendes e Jorge de Lima. Na ascese violenta de José Leonilson, como no trabalho que usei para ilustrar esta postagem. A violência da ascese, da secura verdadeira, aquela que João Cabral de Melo Neto deu a conhecer em "Uma Faca Só Lâmina" (1955) e eu por vezes tenho a impressão que poucos seguiram, talvez por preferirem ver a secura como técnica para um estilo, quando ela era tão, tão est-É-tica (perdoe, mais uma vez, minhas obsessões). A ascese de uma pobreza, como a que Carlos Drummond de Andrade nomeava "Nudez". Mesmo os machos agnósticos sabiam que o melhor é "na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita." Orides Fontela a escrever:


...........A um passo
...........do pássaro
...........res
...........piro



Acabei de postar este texto com uma ilustração de José Leonilson e então percebo como é apropriado: "34 com cicatrizes". Amanhã completo 34 anos. Hoje é meu último dia na idade da crucificação. E este blogue só existe, às vezes eu penso, porque eu vivo, usando as palavras de Hilda Hilst, na busca de "ornejos de outras mulas (para) se juntarem aos meus." E então, quem sabe, "Escoiceando os ares, espumando de gozo / Assustando mercado e mercadores", cada um de nós possa dizer: "Alegrou-se de mim o coração".



Mula de Deus
Hilda Hilst

I

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.

Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.

II

Há nojosos olhares sobre mim.
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.

Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.

Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.

III

Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?

Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?

E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores

Alegrou-se de mim o coração.

IV

Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).

Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.

Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos

Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.

V

Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.

Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula

Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.

VI

Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.

Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...

Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.

VII

Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.

Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.

VIII

Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada

Essa sou eu.

Poeta e mula

(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura
).



(Hilda Hilst, Estar sendo. Ter sido. São Paulo: Nankin, 1997)


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quarta-feira, 29 de junho de 2011

"Pequeno estudo sobre a duração amorosa"

Mapa do País de Tendre (Carte du Pays de Tendre), século XVII,
atribuído a François Chauveau

Este é o último poema sonoro que fiz, em algum momento da semana passada. Chama-se "Pequeno estudo sobre a duração amorosa", em inglês o chamei de "Short study on love´s lifespan". Pedirei primeiro que vocês o ouçam, caso se interessem. Abaixo, incluo uma nota a respeito. Recomendo sua audição com fones de ouvido.


Ricardo Domeneck - "Pequeno estudo sobre a duração amorosa" by Modo de Usar & Co.


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Nota: o poema foi composto através da apropriação e distorção de dois materiais sonoros já existentes. Um deles, eu creio, será imediatamente reconhecido: trata-se da vinheta catastrófica do Plantão do Jornal da Globo. O segundo material, ao que parece, eu distorci tanto que se tornou para vários amigos irreconhecível, mas trata-se da canção "I will always love you", da Whitney Houston. O resto do material vocal é minha oralização de um verso (partido) meu em português e inglês: "Houve / guerras mais duradouras / que você" e "Wars / have lasted longer / than you", do poema "Texto em que o poeta celebra o amante de vinte e cinco anos".

Bem, quem acompanha meu trabalho sabe que eu adoro abusar da tênue linha que separa a ironia do mais puro e descarado melodrama. Eu sou uma critura meio douglassirkada. Fazer o quê? Como Hilda Hilst terminou um dos poemas que mais amo na vida, "esta sou eu / poeta e mula".

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domingo, 26 de junho de 2011

Amigos em revistas: Marília Garcia e outros poetas brasileiros em uma antologia da revista francesa "Action Poétique"

Capa do número da Action Poétique com a antologia de poesia brasileira contemporânea



Action Poétique é uma das mais antigas revistas de poesia em atividade na França, fundada em 1950 em Marselha. Seu editor-chefe é o poeta Henri Deluy (n. 1931). O último número traz uma pequena antologia de poesia brasileira contemporânea, Poètes du Brésil aujourd´hui, e inclui poemas de Marília Garcia, Ricardo Aleixo, Márcio-André, Fabrício Carpinejar, Marcelo Ariel, Simone Brantes, Paula Glenadel, Karinna Gulias, Nora Fortunato e Eduardo Sterzi. Alguns deles são verdadeiramente poetas que respeito.


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Marília Garcia



Como celebração, deixo vocês com dois dos meus poemas favoritos de Marília Garcia, que está entre os vários poetas que respeito na lista acima, mas também por ser uma poeta com quem tenho muitas afinidades est-É-ticas. O trabalho dela sempre me pareceu um representante corajoso na poesia contemporânea, tão obcecada por precisões, daquilo que Marjorie Perloff chamou de "poética da indeterminação". Sempre tive esta afinidade com seu trabalho, este seu questionamento da objetividade fictícia dos dogmas crítico-poéticos brasileiros das últimas décadas, através desta exposição e desnudamento do que eu chamaria de uma realidade editável.

Nós compartilhamos várias escolhas críticas. Amigos muito sérios e inteligentemente preocupados com parâmetros infalíveis de qualidade literária talvez dissessem que nós dois somos apenas indulgentes com os mesmos autores. Talvez. Será um equívoco o prazer que encontramos em livros como Un Test de Solitude (2001), de Emmanuel Hocquard? Nosso interesse por poetas como Charles Pennequin, Nathalie Quintane e Pierre Alferi? Esta insistência que compartilhamos em encontrar implicações poéticas em tautologias e listagens absurdamente cotidianas? Por nos emocionarmos com o que há de impreciso na observação da experiência?

Nós captamos parcialmente. O poeta é a antena seletiva e ligeiramente distraída da raça. A nós só é dado ver em parte. Conhecemos apenas fragmentos das pessoas, como nos poemas de Marília, em que somos expostos a vislumbres de biografias alheias, vivas, talvez fictícias, editáveis. Nossa vida é editada pela memória, pela atenção.

Foi durante uma das edições do Festival de Cinema de Berlim que espalharam pela cidade um cartaz, trazendo uma frase de um cineasta (já não me lembro do nome), que dizia que a diferença entre o cinema e a vida é que a vida não se pode editar. Era algo assim, cito de memória. Eu entendo o que ele quer dizer, mas sempre me pareceu ligeiramente falsa esta proposição, pois nós editamos sim a vida, pela nossa atenção deficitária que dá tanta importância a uma única pessoa em meio à multidão, pelo foco do nosso desejo, pelas prioridades das nossas expectativas.

O trabalho de Marília Garcia me emociona pois, para mim (trata-se de visão muito subjetiva e pessoal), demonstra esta aceitação da impossibilidade da ambição de abarcar a existência e sua experiência de maneira, digamos, imperialista ou totalitária. Trata-se de uma poesia que aceita o contextual, o limitado, a visão parcial. Sabe que atrás de nossos corpos, logo à nuca, há ainda paisagem, paisagem não vista.

Neste aspecto, o título do primeiro poema é muito apropriado: trata-se da tradução francesa do título de um poema de Jack Spicer (1925 - 1965), "The territory is not the map". Eu sorrio muito com as implicações deste título. Sim, Marília e eu, ouso dizer, compartilhamos deste desejo por uma poética de implicações. Daí talvez nossa indulgência, diriam os que são mais prudentes que a gente, nossa indulgência inocente com tautologias. Jack Spicer entendia bem disso.

Eu viria a dialogar com este poema de Marília (que eu lera em manuscrito) e com o de Spicer em um dos fragmentos do poema-livro "Dedicatória dos joelhos", incluído em minha segunda coletânea, a cadela sem Logos, lançada juntamente com o livro de Angélica Freitas e o de Marília (na coleção Ás de Colete da Cosac Naify), 20 poemas para o seu walkman (2007). Trata-se do seguinte fragmento:


o real é a
decoração do momento
& a cidade não é o
mapa mas o mapa
está correto
pois entre os sujeitos
que o
parto consagra estão
apenas os sujeitos com
corpo
do centro da fertilidade
da mãe do acaso
o ensinamento necessário
da devastação completa
da decepção do
salto no escuro na
crença dos
braços abertos do
chão do colo
a diferença básica
entre
abraão medéia
o Logos já não
me procura
mais meu
filho


(fragmento de "Dedicatória do joelhos", fragmento que dediquei a Marília Garcia,
incluído em a cadela sem Logos, São Paulo: Cosac Naify, 2007)


Estas preocupações, que acredito compartilhar com ela, talvez levem nosso trabalho a parecer demasiado oblíquo para algumas pessoas. É que enquanto muitos se preocupam prudente e exclusivamente com a concretude do signo, em muitos textos sinto-me compartilhar com Marília Garcia justamente o interesse pela opacidade da linguagem. Nós somos mesmo muito imprudentes.



Marília Garcia lê os poemas "plano b" e "39°34´13.26´´N 2°20´49.50´´E (diz em catalão)"

O segundo poema dela que mostro aqui chama-se "Classificação da secura" e é também um de meus favoritos. Não consigo deixar de ler em parte deste poema uma sátira à precisão objetivizante dos cabralinos e seus desertos e pedras e sequidões.

Eu continuo vendo como uma espécie de sabedoria – que me comove, a de poetas que parecem aceitar, de forma tão cândida, que "Vivianne est Vivianne", como escreveu Hocquard em um poema de amor. Que "o nível do mar / é um engano" e que "a voz esconde o que realmente quer dizer", como escreveu Marília Garcia.

E ela talvez mal saiba como me comove quando escreve no poema "plano b" (Deus meu, as implicações deste título!):

"saber se está triste há um ano / ou há 24 horas // (de volta, passa a colecionar / objetos. a vingança começa num / aquário / é como furar a realidade com a / realidade, dizia, ficar no quarto medindo o / nível do mar para descobrir / onde pôr os peixes)".


Marília, eu estou em espírito neste exato momento em Santa Teresa, sussurrando em seu ouvido: "Vivianne est Vivianne".


§


DOIS POEMAS DE MARÍLIA GARCIA
extraídos do livro 20 poemas para o seu walkman (SP: Cosac Naify, 2007)



Le pays n´est pas la carte,


pensa bem mas
se tivesse as ruas quadradas
teria ido a outro café, teria dito tudo de
outro modo e visto de
cima a cidade em vez de se
perder toda vez
na saída do metro, não é desagradável
estar aqui, é apenas
demasiado real
diz com cílios erguidos
procurando um mapa


II


não é o avião em rasante sobre
a água e nem o corpo
na janela semi-aberta
vendo o desenho
dos carros embaixo — não comenta nada
porque prefere armar planos
em silêncio
(estaria sonhando
com colinas?)


III


de lá manda longas
cartas descrevendo o país,
os terremotos e a forma da cidade.
pode me dizer que nunca se
espanta mas não percebe que
caminha perguntando:
é de plástico a cabine? é sua voz
na gravação? é um navio no
horizonte? pode ser apenas
uma margem de erro mas
não pensa nisso
com frequência
(pode ser apenas a janela
aberta que carrega os papéis)


§


Classificação da secura
Marília Garcia

I


agora já é quase amanhã mas queria
dizer apenas que é muito
tarde: acrescentar quatro horas ao relógio
indica que já é depois. lá é sempre
depois. parecia um nome
italiano com aquele som ecoando e a
resposta em outra língua mostrava
a cor das linhas no mapa, "é lilás", para
não dizer algo preciso
para não terminar: com ela
saio cedo todos os dias. fico de
vez em quando escondido
no porto. tomarei
o transmediterrâneo e comerei
calçots,
até chegar o instante antes
do instante, momento em que vê o relógio
e diz: não. já conhece todos os erros
do sistema e a retina derretendo
sempre que levanta
para sair dali.
(precisão é o retângulo do degrau
inferior.)


II


alguém que não consegue se mover
e uma semana de vozes cortadas, deve
se acostumar aos movimentos em câmera
lenta, à descida pela escada em
espiral:
recorta os sons de cada
quarto e apaga as perguntas que
mais detesta responder. como aquela
noite no ônibus, ruídos do rádio e
pedaços de frases atiradas,
sempre girando as horas.
ver a paisagem
sem ela e precisar o tamanho da ausência
com poucos dados — sabe que as baleares ficam
do outro lado do mar, que custa chegar
anos depois e dizer. ergue os olhos para
fixar o que tem ali e não perder
de vista a secura.





.
.
.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Discotecando poesia sonora - minha intervenção no projeto Dichtraum/Denkraum

Autorretrato perante o Mural das Celebrações (e às vezes Lamentações), 22 de junho de 2011.


Ontem, terça-feira, fiz minha segunda e última apresentação no Festival de Poesia de Berlim. Tomei parte do projeto "Dichtraum/Denkraum", no qual o festival apoderou-se de um espaço na estação de metrô do Portão de Brandemburgo e convidou 22 poetas residentes em Berlim para intervenções no local. O que quiséssemos fazer para interagir com os viajantes subterrâneos.

Eu preparei um programa de poesia sonora e li alguns poemas favoritos. Foi como uma discotecagem de poesia. Foi meio louco, mas divertido. Deixo vocês com minha setlist. A ordem foi mais ou menos esta. O que pude encontrar na Rede está aí. Subi várias coisas que não estavam disponíveis. Não tive tempo e energia para subir tudo, peço perdão. Deu um trabalho que me esgotou e hoje à noite (é quarta-feira), tenho que discotecar no nosso evento semanal. Espero que vocês curtam.


Minha setlist de poesia sonora para uma intervenção
na estação de metrô do Portão de Brandemburgo,
projeto do Festival de Poesia de Berlim.


"Schlimmer Traum", Thomas Brasch - leitura minha.

"Ode auf N", Ernst Jandl - arquivo sonoro.

Ernst Jandl - "Ode auf N" by Modo de Usar & Co.

§

"Wie es früher war", Michael Lentz - vídeo de uma performance em Barcelona.



§

"Die Seeräuber-Jenny", Kurt Weill & Bertolt Brecht - arquivo sonoro de uma gravação da Ópera dos Três Vinténs. Abaixo, a versão de Lotte Lenya, na versão cinematográfica de Pabst.




§

"Testament", Otto Muehl - arquivo sonoro.



§

"Faltung 2", Elke Schipper - arquivo sonoro.

Elke Schipper - "Faltung 2" by Modo de Usar & Co.

§

"ich und mein körper", Konrad Bayer - leitura minha.

"Wasbla ichbla willbla", Armand & Bruno sobre poema de Dieter Roth, arquivo sonoro.

Armand & Bruno - "Wasbla ichbla willbla" by Modo de Usar & Co.


§

"Maybe manifesto", Jörg Piringer - vídeo de uma performance em Barcelona.



§

"Karawane", Jerome Rothenberg sobre poema fonético de Hugo Ball, arquivo sonoro.

"Schwarze Puppen", Klaus Kinski - arquivo sonoro.



§

"Residue", Amanda Stewart - arquivo sonoro.

"Bouche d´eau/En nombre d´impossibilités particulières", Alexandre St-Onge - arquivo sonoro.

"Lo ferm voler qu'el cor m'intra", Arnaut Daniel - arquivo sonoro de uma interpretação musical da primeira sextina.



§

"What About Performance, Herr Wittgenstein?", David Moss - arquivo sonoro.

David Moss - "What About Performance, Herr Wittgenstein" by Modo de Usar & Co.

§

"Tellurgie", Arthur Petronio - arquivo sonoro.

"I Want to Tell You About Myself", Kathy Acker - arquivo sonoro.

Kathy Acker - "I Want to Tell You About Myself" by Modo de Usar & Co.

§

"Mirares veteres, Vacerra", Marco Valério Marcial - leitura minha da tradução alemã de Niklas Holzberg.

Trata-se do epigrama que eu traduzi para o português como:

Admiras velhotes, Vacerra, só
fazes elogios a poetas mortos.
Peço desculpas, Vacerra, não
hei-de morrer para te agradar.

Tradução livre do epigrama: "Miraris veteres, Vacerra, solos / Nec laudas nisi mortuos poetas. / Ignoscas petimus, Vacerra: tanti / Non est, ut placeam tibi, perire."

§

"Laughter notebook", Brandon Labelle- arquivo sonoro.

"Le mort", Charles Pennequin - arquivo sonoro.



o morto
Charles Pennequin em tradução de Marília Garcia.


por quanto tempo mais eu vou ficar aqui no jardim me fingindo de morto / por quanto tempo mais eu vou ficar me fingindo de morto aqui no sótão ou então no quarto / eu já não sei se estou no sótão ou no quarto / eu vejo daqui o respiradouro ou então é a janela eu já não sei se eu vejo bem pode ser que eu esteja vendo bem até demais / se eu continuar assim eu verei ainda melhor e então poderei dizer se vou continuar a me fingir de morto / será que eu devo continuar por muito tempo a me fingir de morto pelo menos até que eles cheguem / e se eu continuo como morto assim será que eles virão aqui me ver virão ver se eu estou morto de verdade / talvez eles venham aqui me ver e me desejar um feliz aniversário / é seu aniversário você tem dez anos daqui a pouco vai fazer quinze anos que você tem 10 anos / agora você precisa parar de fingir que está morto você vai sair do quarto / e vai passear e vai brincar e vai para perto do canal /e vai cair no canal / e vai brincar com seu amigo / seu amigo vai achar que você foi embora e esqueceu a bicicleta e ele vai trazer sua bicicleta de volta e você estará no canal / você estará mergulhado ali dentro querendo pegar os peixes e você não vai sair do canal / você queria pegar os peixes e acabou caindo no canal e seu amiguinho voltará / ele vai dizer que não te encontrou / e eles vão dizer que você deve estar fingindo de morto em algum lugar

§

"Evasion, or How to perform a tongue evasion in public", Christof Migone - arquivo sonoro.

"Falling", Delia Derbyshire - arquivo sonoro.



§

"Blabbermouth", Erik Belgum - arquivo sonoro.

Erik Belgum - "Blabbermouth" by Modo de Usar & Co.

§

"Brothers and sisters, let´s sing a Hymn", Fabienne Audéoud - arquivo sonoro.

Fabienne Audéoud - "Brothers and sisters, let s sing a Hymn" by Modo de Usar & Co.

§

"Ursonate (Zweiter Teil)", Kurt Schwitters - arquivo sonoro.



§

"If I told him: a complete portrait of Picasso", Gertrude Stein - arquivo sonoro.




Se eu lhe contasse: um retrato acabado de Picasso
Gertrude Stein em tradução de Augusto de Campos

Se eu lhe contasse ele gostaria. Ele gostaria se eu lhe contasse.
Ele gostaria se Napoleão se Napoleão gostasse gostaria ele gostaria.
Se Napoleão se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse ele gostaria ele gostaria se eu lhe contasse.
Já.
Não já.
E já.
Já.
Exatamente como como reis.
Tão totalmente tanto.
Exatidão como reis.
Para te suplicar tanto quanto.
Exatamente ou como reis.
Fechaduras fecham e abrem e assim rainhas. Fechaduras fecham e fechaduras e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim e assim fechaduras e assim fechaduras fecham e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim. E assim fechaduras fecham e assim e assado.
Exata semelhança e exata semelhança e exata semelhança como exata como uma semelhança, exatamente como assemelhar-se, exatamente assemelhar-se, exatamente em semelhança exatamente uma semelhança, exatamente a semelhança. Pois é assim a ação. Porque.
Repita prontamente afinal, repita prontamente afinal, repita prontamente afinal.
Pulse forte e ouça, repita prontamente afinal.
Juízo o juiz.
Como uma semelhança a ele.
Quem vem primeiro. Napoleão primeiro.
Quem vem também vindo vindo também, quem vem lá, quem vier virá, quem toma lá dá cá, cá e como lá tal qual tal ou tal qual.
Agora para dar data para dar data. Agora e agora e data e a data.
Quem veio primeiro Napoleão de primeiro. Quem veio primeiro. Napoleão primeiro. Quem veio primeiro, Napoleão primeiro.
Presentemente.
Exatamente eles vão bem.
Primeiro exatamente.
Exatamente eles vão bem também.
Primeiro exatamente.
E primeiro exatamente.
Exatamente eles vão bem.
E primeiro exatamente e exatamente.
E eles vão bem.
E primeiro exatamente e primeiro exatamente e eles vão bem.
O primeiro exatamente.
E eles vão bem.
O primeiro exatamente.
De primeiro exatamente.
Primeiro como exatamente.
De primeiro como exatamente.
Presentemente.
Como presentemente.
Como como presentemente.
Se se se se e se e se e e se e se e se e e como e como se e como se e se. Se é e como se é, e como se é e se é, se é e como se e se e como se é e se e se e e se e se.
Cachos roubam anéis cachos fiam, fiéis.
Como presentemente.
Como exatidão.
Como trens.
Tomo trens.
Tomo trens.
Como trens.
Como trens.
Presentemente.
Proporções.
Presentemente.
Como proporções como presentemente.
Pais e pois.
Era rei ou rês.
Pois e vez.
Uma vez uma vez uma vez era uma vez o que era uma vez uma vez uma vez era uma vez vez uma vez.
Vez e em vez.
E assim se fez.
Um.
Eu aterro.
Dois.
Aterro.
Três.
A terra.
Três.
A terra.
Três.
A terra.
Dois.
Aterro.
Um.
Eu aterro.
Dois.
Eu te erro.
Como um tão.
Eles não vão.
Uma nota.
Eles não notam.
Uma bota.
Eles não anotam.
Eles dotam.
Eles não dão.
Eles como denotam.
Milagres dão-se.
Dão-se bem.
Dão-se muito bem.
Um bem.
Tão bem.
Como ou como presentemente.
Vou recitar o que a história ensina. A história ensina.


§


"Rilke shake", Angélica Freitas - leitura minha da tradução alemã de Odile Kennel.

"Resumé", Dorothy Parker - leitura minha. Trata-se do famoso:

Résumé
Dorothy Parker

Razors pain you;
Rivers are damp;
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren't lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.


§

"Espaces et gestes", Henri Chopin - arquivo sonoro.

Henri Chopin - "Espaces et gestes" by Modo de Usar & Co.

§

"Rivièra", Paul de Vree - arquivo sonoro.

"Bitch", Patti Smith - arquivo sonoro.

Patti Smith - "Bitch" by Modo de Usar & Co.

§

"Voice of America (excerto)", Ferdinand Kriwet, arquivo sonoro.

"Audience and transformation", Achim Wollscheid - arquivo sonoro.

"Kleiner Stapel aus Christinas Küche", George Nussbaumer - arquivo sonoro.

"Passionement", Ghérasim Luca - arquivo sonoro.



§

"Anglet", Hans Unstern - arquivo sonoro.



§

"Sashimi", Angélica Freitas - leitura minha da tradução alemã de Odile Kennel.

"Kré nachtmerrie", Jaap Blonk - arquivo sonoro.

Jaap Blonk - "Kré nachtmerrie" by Modo de Usar & Co.

§

"Russian Roulette", Tetine - arquivo sonoro.

Tetine - "Russian Roulette" by Modo de Usar & Co.


§

"Sun in my mouth", Björk sobre poema de e.e. cummings - arquivo sonoro.




Poema de e.e. cummings no qual Björk baseou a canção:


i will wade out / till my thighs are steeped in burning flowers / I will take the sun in my mouth / and leap into the ripe air / Alive / with closed eyes / to dash against darkness / in the sleeping curves of my body / Shall enter fingers of smooth mastery / with chasteness of sea-girls / Will i complete the mystery / of my flesh / I will rise / After a thousand years / lipping / flowers / And set my teeth in the silver of the moon


§

"Cidade City Cité", Augusto De Campos - arquivo sonoro.



§

"Not What the Siren Sang but What the Frag Ment", bpNichol - arquivo sonoro.

"I Am That I Am", Brion Gysin - arquivo sonoro.

Brion Gysin - "I Am That I Am" by Modo de Usar & Co.


§

"Lifting Belly" (fragmento), Gertrude Stein - leitura minha.

"Having a coke with you", Frank O´Hara - leitura minha.

"Beba Coca Cola", Décio Pignatari - arquivo sonoro da composição de Gilberto Mendes.

Décio Pignatari / Gilberto Mendes - "Beba Coca-Cola" by Modo de Usar & Co.


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segunda-feira, 20 de junho de 2011

Os poemas que li este sábado no Festival de Poesia de Berlim

Autorretrato como anfíbio (2006)


Começou na sexta-feira a edição 2011 do Festival de Poesia de Berlim. Escrevi uma pequena nota para a franquia eletrônica da Modo de Usar & Co., com poemas e vídeos de alguns dos principais convidados, como o francês Yves Bonnefoy, o americano Billy Collins, o cubano Silvio Rodríguez, o catalão Bartomeu Ferrando, entre outros. Nos próximos dias, prepararei postagens individuais sobre alguns deles. Acabei de postar exemplos de trabalhos da poeta vocal Iva Bittová (República Tcheca, 1958), com um trabalho que a aproxima de mulheres como Joan La Barbara, Meredith Monk e Diamanda Galás. Quando terminar o festival, escreverei aqui um pequeno artigo crítico a respeito, com o que houve de melhor.

Quis compartilhar agora, nesta postagem, os poemas que li neste sábado no Festival, durante o tradicional Poets´ Corner, que sempre ocorre no sábado posterior à abertura, e no qual poetas residentes em Berlim são convidados para ler em locais de seus próprios bairros. Eu li em um pequeno centro cultural na Prenzlauer Allee, em frente à pequena igreja chamada Immanuelkirche, com outros poetas vivendo em Pankow, região onde fica meu bairro, Prenzlauer Berg. Li ao lado de 7 poetas alemães: o querido Timo Berger, poeta, tradutor de poesia hispano-americana e brasileira (traduziu um livro de Laura Erber), além de organizador do Festival de Poesia Latino-americana de Berlim; o ótimo Hendrik Jackson (n. 1971), poeta e tradutor do russo; meu conhecido de vida noturna Björn Schäffer (n. 1981), o mais jovem dentre os poetas; uma poeta muito divertida e irônica chamada Anne Krüger (n. 1975), que eu não conhecia; e ainda Carsten Zimmermann (n. 1968), Ron Winkler, jovem poeta premiado alemão, nascido em 1973 e Lars-Arvid Brischke (n. 1972).

Eu li pela primeira vez na vida quase completamente em alemão, com a exceção de dois textos escritos originalmente em inglês. Todos os poemas haviam sido traduzidos por Odile Kennel. Foi uma experiência divertida, assim que controlei meus nervos. Li também um dos meus poemas favoritos de Frank O´Hara, "Having a coke with you". Deixo vocês com meu setlist, todos os poemas que li naquela tarde, nos originais em português, é claro. A ordem é a mesma da leitura.



POEMAS LIDOS NO FESTIVAL DE POESIA DE BERLIM
a 18 de junho de 2011.



Texto em que o poeta celebra
o amante de vinte e cinco anos



Houve
guerras mais duradouras
que você.
Parabenizo-o pelo sucesso
hoje
de sobreviver a expectativa
de vida
de uma girafa ou morcego,
vaca
velha ou jiboia-constritora,
coruja.
Penguins, ao redor do mundo,
e porcos
com você concebidos, morrem.
Saturno,
desde que se fechou seu óvulo,
não
circundou o Sol uma vez única.
Stalker
que me guia pelas mil veredas
à Zona,
engatinha ainda outro inverno,
escondo
minha cara no seu peito glabro.
Fosse
possível, assinaria um contrato
com Lem
ou com os irmãos Strugatsky,
roteiristas
de nossos dias, noites futuras;
por trilha
sonora, Diamanda Galás muge
e bale,
crocita e ronrona, forniquemos.
Celebro
a mente sob os seus cabelos,
ereto,
anexado ao seu corpo, o pênis.
Algures,
um porco, seu contemporâneo,
chega
ao cimo de seu existir rotundo,
pergunto,
exausto em suor, se amantes,
de cílios
afinal unidos, contam ovelhas
antes
do sono, eufóricas e prenhas.


(Inédito em livro, a ser incluído na minha próxima coletânea. Publicado originalmente
no segundo número impresso da Modo de Usar & Co.)


§


Poema

Enfim aurora-me na cachola,
Jonas das férias em baleias,
por que os deuses desaprovam
o incesto, esse advertisement
ou entertainment em família,
tal reciclagem ad aeternitatem
ou sexo homogêneo à margem
(e sua homenagem a soi-même)
como o cúmulo da economia.
Leis de veto a fellatio in toilets
e virilha em público, ilegíveis,
como Coca-Cola, cocaína & Cia.
ou outros substantivos ilegais
para nossa literatura ou lírica.
Teu Ricardo sabe que o peixe
morre pela fome, boca em pênis
de moçoilos é o anzol de sempre
e eis que pé no rabo eu vos nego.
Pedicabo ego vos et irrumabo.
Seguirei sendo nota de pontapé
no apêndice de vossos cérebros
ou até que me canse, escravo
paciente e devoto, das horas-
-extras de chicote e chacota
sobre vossas gretas garbosas.


(Inédito em livro, a ser incluído na minha próxima coletânea. Publicado originalmente
no segundo número impresso da Modo de Usar & Co.)


NOTA: Se você quer saber a origem (de onde o roubei, em outras palavras) e o significado
do verso "Pedicabo ego vos et irrumabo", clique
AQUI, querido.


§


Breviário de secreções

A um canto do quarto, meu corpo
...............operava sua fábrica
.......................de relações
Decisões não são auto-explicativas,
..................resistem ao questionário
..........do prazer
..................e são
.....obrigadas a ignorar
..................conseqüências de causas,
...........como movimento e encontro
As mãos em concha erguem-se
.........ao rosto ao mesmo tempo
.....que este dirige-se a elas
...............sem que se percam
no caminho

....................Respirando pela boca, sem
tempo a perder entre a
........oxigenação do próprio
...........cérebro e a
...............do ambiente
......em geral, ele
..falou alto e preciso:
o teso súbito que percorre
...............a linha da boca
.....do peixe à mão
do pescador, anzol:
...........isca, peixe

Mas esta imagem não
........encontra equivalência
..........em meu organismo e
.......volto a olhar
...........meus pés

................Sozinho e vazio
................como quem acaba
................de parir como quem
................acaba de ejacular
................vazio e sozinho

e só me acalmei
.........ao repetir duração duração
....................duração movimento

passe as cartas por baixo
da porta se as há

Infelizmente não poderei
ir a São Paulo por
enquanto mas com
certeza nos veremos
antes da sua
partida beijos

em vigas de partir
nas vias do por vir

O esvaziamento progressivo
...dos pulmões e recomeçar
em seguida

Não há transição mais
................sutil que a esquecida
.......à meia-noite

e entre epiderme
derme músculo
osso esperam
todos
uma gradação
dos espetáculos
do mundo

apague a luz cavaleiro digo cavalheiro

Breviário das secreções
................da manhã:

§.........salivação comum mesmo
em meio à
desidratação recente
§.........ejaculação de hábito
antes do desjejum
§.........sangramento normal
à pia do banheiro
colore-me a boca
sensação de frescor e medo


(publicado em meu livro de estreia,
Carta aos anfíbios
, Rio de Janeiro, Bem-Te-vi, 2005)



§


Sempre o exílio


a.

.........surpreso a quanta terra
.........não me pertence, que
.........engraçado descobrir (mais
.........uma vez) que trocar de país
.........não significa trocar de corpo
.........e a mudança
.........de língua
.........é acompanhada pela permanência
.........da produção da
.........mesma saliva.

b.

.........esta ilegalidade do meu corpo
.........desaloja-me a comida no
.........estômago
.........que permanece em ângulo
.........suspeito, a boca
.........arqueia-se, tesa –
.........e o barbante frouxo dos braços
.........a nenhum peito estreita-me,
.........esta pele estrangeira,
.........este cheiro novo.

c.

.........a certeza finalmente
.........de que a mão é incapaz
.........da linha reta,
.........os ouvidos mais atentos,
.........as pontas dos dedos
.........mais ativas, despertas,
.........os ombros caídos, menos
.........por cansaço que por pesos
.........acumulados ao longo
.........de outros sonos;
.........quando as noções
.........de segurança
.........e cidadania
.........desaparecem e resta-nos
.........a condição.


(publicado em meu livro de estreia,
Carta aos anfíbios
, Rio de Janeiro, Bem-Te-vi, 2005)


§


falar hoje exige
elidir a própria
voz as transações
inventivas entre
interno e externo
demandam
que a base venha
à tona e a
superfície seja
da profundidade da
história ímpeto
denotando o
centrífugo
o corpo público
que exibo como
palco fruto
da ansiedade
do remetente
o interno ao longo
da epiderme
como emily
dickinson terminando
uma carta de minúcias
com “forgive
me the personality“


(fragmento do poema-livro "Dedicatória dos joelhos", incluído em meu segundo livro,
a cadela sem Logos
, São Paulo, Cosac Naify, 2007)


§


inveja das cartas a que
basta dedilhar um
nome completo e sempre
conseguem a atenção
do destinatário e
enquanto ele e
ele abrem
a boca permitem
a visita ao estômago
alheio minha garganta
de mão dupla abre
a passagem mais
uma vez devo bastar
-me limito-me
a olhar sua
boca limítrofe o
álcool realmente não
auxilia a
confusão de
estômagos entre
interno e externo


(fragmento do poema-livro "Dedicatória dos joelhos", incluído em meu segundo livro,
a cadela sem Logos, São Paulo, Cosac Naify, 2007)



§


o que é uma língua
perdida se
encontra saliva
em estranhos como se
vai de são paulo a
berlim nomear esta
relevância morta
vício de memória horror
à memória horror do
esquecimento uma foto
é irrespirável a catedral
da cidade do méxico
afundando no antigo
lago bombeie bombeie
concreto até reter as
águas é preciso
cruzar o oceano
para ousar
falar de
água


(fragmento do poema-livro "Dedicatória dos joelhos", incluído em meu segundo livro,
a cadela sem Logos
, São Paulo, Cosac Naify, 2007)



§


what a shock
to acknowledge
even silence
could be
misunderstood
as no yes depend
on your questions
of hunting & running
undistinguished
or the way
we may name
the dissipation of heat
coldness spreading
& is it a matter
of syntax or coccyx
to measure reality
& probability & expectation
much in the way he said
decompose me
but I understood
don´t come close to me
& insisted chance
is not
simply a proclivity
gone askew
although all
persist on calling
my purple sweater
brown


(escrito originalmente em inglês, publicado na plaquete
When they spoke / I confused cortex / for context, mini-edição numerada e assinada,
lançada com uma edição da revista Pablo Internacional Magazine,
editada pelo curador mexicano Pablo León de la Barra, 2006, Londres)

§


I
wish
my tooth
ached in
your mouth
every year
this time
of the year
the equinox
of equidistant
separations &
equine pain
if you
insist on breathing
as rhythm
for speech
oh my longing
lungs relating
sphinx & asphyxia
as expectation plus
reality or fake
orgasms in the day
light


(escrito originalmente em inglês, publicado na plaquete
When they spoke / I confused cortex / for context
, mini-edição numerada e assinada,
lançada com uma edição da revista Pablo Internacional Magazine,
editada pelo curador mexicano Pablo León de la Barra, 2006, Londres)


§


Corpo

cor.po
subst m corpo ['korpu]. pl. corpos. De nem
um. Massa
e peso
(favor não confundir)
anexados a superfícies
de código binário
aka masculino e feminino.
1. a. Geografia do posicionar-se. Área com fronteiras definidas; porção de espaço a sonhar
com dicionários.
1. b. Locus de focus em terror, hocus pocus da lógica em orifícios úmidos.
1. c. Carcaça. "De volta à realidade!".
Diz-se
que o mesmo ar
não pode circundar
dois ao mesmo
tempo.
2. a. Padrão de aparência perigosa para a mecânica da pureza; a ilusão da higiene.
2. b. Não uma árvore.
Cores são encomendadas de acordo com o gosto.
Entrega segue regras de fabricação genética. Exemplares ruivos
anexados a um pênis
são uma iguaria.
3. a. Não confiável em impermeáveis. Temporário e de oscilações frequentes. "Quase lá."
3. b. Um grupo de erros e equívocos reputados como uma sanidade; uma Corporação S.A.
Mas a esfera
privada
é também um pesadelo.
4. a. Estabelecimento comercial. Para instruções, referir-se ao manual, ao oral.
Som
conhecido como voz
causa a aderência
à sua definição.
5. a. Geringonça que não sua em fotografias:
5. b. Anal tomia. A maior peça da fricção.
5. c. Maquinaria para a produção de líquidos.
5. d. Exclusivo para índices e apêndices.
5. e. Destinado a lubrificantes.
Se cortado ou perfurado, tende a tornar-se mais atento.
6. Massa do tangível e matéria de farrapos.
Dê-lhe água,
faça-o celeste.
7. a. Uma coletânea ou quantidade, como de material ou informação: a evidência
de sua inflação.
VOCÊ ESTÁ AQUI
em um mapa.
8. Mobília confortável que requer manutenção.


(publicado originalmente em inglês na plaquete Corps / Körper,
do fotógrafo alemão Heinz Peter Knes, Paris, Parasite Book, 2009)


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sexta-feira, 17 de junho de 2011

Vídeo novo da fotógrafa Adelaide Ivánova, seguido de um poema seu

Adelaide Ivánova, fotografada em Berlim por Breno Rotatori.


Este é o último vídeo de Adelaide Ivánova, fotógrafa e escritora recifense, minha amiga, no qual ela intercala imagens em vídeo e fotografias de suas duas paixões que rimam, o rapaz chamado Armin e a cidade chamada Berlin.



"Horses", vídeo e fotos de Adelaide Ivánova, criado originalmente para uma edição da revista brasileira Aurora,
número dedicado àquela coisa que a gente chama de "amor".



Que bonito ter paixões que rimam. Que triste estar distante delas. Que saudades de você, Ivi, querida. Eu estou aqui, é madrugada de sexta para sábado em Berlim, está chovendo, eu estou escutando canções do Dimitri Rebello, do Jeff Buckley e do Tom Krell, mais conhecido como How to Dress Well. Você já ouviu How to Dress Well, Ivi? São muito tristes as canções do How to Dress Well. Nós sabemos que é muito mais fácil estar bem vestido do que bem acompanhado, não é, Ivi? Se você estivesse aqui, eu não teria que estar bancando o tempo todo o cavalheiro contido, poderia lagartear-me com você ao sol ou na chuva e fazer o que fazemos melhor: almodovaricar.

Deixo meus leitores com um poema da Ivi, Adelaide Ivánova para vocês:


tulipas
Adelaide Ivánova


meu parapeito
não tem flores,
meu apartamento
não tem geladeira,
ponho os saquinhos
de mussarela do lado
de fora da janela
para não estragarem
e assim prescindo
de tulipas.




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