domingo, 31 de julho de 2011

Comentários a um poema recente e a resposta a uma crítica malcriada e anônima




Na terça-feira passada, 26 de julho de 2011, publiquei neste espaço um poema recente, intitulado "O solteiro mais cobiçado do mundo", que parte da história de Cesárion, filho de César e de Cleópatra. Nos dias que se seguiram, recebi alguns comentários e conversei sobre o poema com algumas pessoas que respeito.

O poeta paulista Érico Nogueira me escreveu, por exemplo, comentando as inconsistências em minha grafia para os nomes das personagens históricas, aportuguesando uns e não outros. Após conversar com ele sobre algumas possibilidades, decidi que era realmente melhor usar a grafia em português para todos os nomes, e acatei algumas de suas sugestões, como mudar Caesarion para Cesárion, e, o que me agradou particularmente, sua sugestão de usar para Thea Filopator, o "sobrenome" de Cleópatra, a versão Diva Filopátor. Agradeço a ele, aqui, por suas sugestões.

Em outra mensagem, o poeta gaúcho Marcus Fabiano apontou para a possível inconsistência em usar, na linha "César ou meteco", referências a uma personagem histórica latina e a um conceito político da pólis grega. Após pensar a respeito, percebi que ele tinha razão, e que realmente havia espaço para esta interpretação, gerando mesmo uma mistura questionável, especialmente com a linha seguinte – "rei ou plebeu" – que cria uma equiparação historicamente mais plausível. Decidi mudar a primeira linha para "cidadão ou meteco". Agradeço a Marcus Fabiano por apontar esta inconsistência em aberto.

Marcus Fabiano também me perguntou se o poema dialogava ou partia de Kaváfis. Disse a ele que, ao escrevê-lo, eu tinha mais em mente a maneira como o poeta polonês Zbigniew Herbert e o alemão Heiner Müller usavam personagens e material histórico clássico, muitas vezes já trabalhados por outros. É claro que isso é forte em Konstantinos Kaváfis, mas no caso do grego trata-se de sua própria História, o que o leva a um tratamento do material razoavelmente diferente, pois ele pode assumir de forma mais plácida que seus leitores sabem do que ele está falando.

Esta semana, como acontece com certa frequência, recebi um comentário anônimo aqui no blogue. Na maioria dos casos, trata-se apenas de alguém incomodado ou irritado com minha existência e o oxigênio que a pessoa crê que eu desperdiço, tentando me ofender com comentários homofóbicos ou de outras categorias, comentários que eu regiamente ignoro. O último comentário, no entanto, comentava o poema e fazia uma crítica negativa a ele, e, apesar de seu tom malcriado e deselegante, aliado à falta de hombridade de assiná-lo, eu achei que valia a pena responder aqui, em uma postagem, pois a discussão pode ser interessante.

Primeiramente, confesso que jamais vou entender a prática de deixar comentários anônimos em blogues ou páginas alheias. Não entendo alguém que se interesse tanto pelo meu trabalho a ponto de ler meu blogue e ainda por cima fazer críticas, mas sem identificar-se. Em minha opinião, a assinatura é uma questão de hombridade, como disse acima (sim, estou assumindo que o comentarista seja do sexo masculino. Posso estar errado, mas me parece atitude típica de macho-alfa). Além do mais, como em geral trata-se obviamente de outro poeta, seria muito educativo para mim, por exemplo, ler o trabalho da pessoa para saber que parâmetros implícitos segue.

Não importa. Vamos ao comentário. Eis a opinião malcriada de meu leitor anônimo sobre o poema "O solteiro mais cobiçado do mundo":


"Kaváfis reciclado em poema prolixo e cabotino. Teus `reflexos´ históricos são intragáveis. Teu corpo não urge que volte a versar?"


Vejamos, por partes.


§ - Kaváfis


O poeta de Alexandria tratou de Cesárion em dois poemas, "Reis alexandrinos" e "Caesarion" (fáceis de encontrar na Rede), este diretamente dedicado ao jovem rei.

Neste último, após narrar sua leitura de epigramas compostos durante a Dinastia Ptolomaica, Kaváfis relata sua descoberta de uma pequena menção a Cesárion, que o leva a sua usual prática do louvor dos mancebos, sua própria reciclagem do tema do erômenos, sua imaginação do corpo e presença do jovem rei de 17 anos, como ele fez em tantos poemas maravilhosos sobre suas lembranças e encontros furtivos com jovens de Alexandria, mas apontando, neste caso, a uma discussão sobre a sede de poder que leva a assassinatos. Ele encerra com uma frase que Plutarco teria atribuído ao filósofo estóico Arius Didymus (creio que Ário Dídimo em português), supostamente dita a Otaviano para convencê-lo da necessidade do assassinato de Cesárion: "Não é bom haver Césares demais". Por sua vez, a linha seria um jogo de palavras com um verso de Homero.

É um lindo poema, sugiro a sua leitura neste link, em tradução para o inglês. No outro poema, intitulado "Reis alexandrinos", Kaváfis retorna a Cesárion, discutindo o vazio das pompas reais, tomando a passagem em que os filhos de Cleópatra são coroados em Alexandria. Os poemas são puro Kaváfis, sem minhas catulizações gender-sarcastic e chistes fisiológicos. Recomendo muito sua leitura.


§ - Reciclado.


Caso o comentarista veja a abordagem de temas clássicos já tratados como um problema, sinto muito por seus hábitos de leitura. O próprio Kaváfis foi mestre na reciclagem de temas. Escreveu sobre personagens e assuntos que já haviam sido tratados por outros poetas. Parece-me razoavelmente ridículo acreditar que nenhum poeta mais possa escrever sobre Cesárion, ou, por sua vez, sobre outras personagens, como Antínoo, Eleanor de Aquitânia e Ana Bolena (para citar algumas personagens que me fascinam e sobre as quais tenho escrito), ou qualquer outro, porque já se escreveu sobre eles. Quantos poemas foram escritos sobre Cleópatra e César, ou sobre Calígula e Cláudio, por exemplo? Isso, eu creio, não inutiliza poemas como os de Zbigniew Herbert, que reciclou vários temas clássicos para poder driblar a censura do regime comunista de seu país, ou as maravilhosas "reciclagens" de Heiner Müller para temas clássicos. O deles é o que gosto de chamar de "uso saudável e funcional da erudição".

Sinceramente, não sinto sequer a necessidade de acrescentar uma nota ao poema, informando que o tema já foi tratado por Kaváfis. Fica para os interessados em intertextualidade. Meu tratamento é obviamente diferente, e, como apontou um amigo, talvez muito mais próximo de Catulo que de Kaváfis. Pessoalmente, continuo achando que o poema deve MUITO MUITO MUITO mais a Zbigniew Herbert e Heiner Müller (aqui o agradecimento e louvor póstumo a estes meus dois mestres), em níveis mais profundos que o da "temática". Não sei se meu caro leitor anônimo conhece estes poetas, pouco traduzidos para o português.


§ - Prolixo.


Há um problema crítico sério no Brasil, que eu creio ter relação com este incômodo de meu caro leitor malcriado e anônimo. Trata-se da maneira como se confunde o "discursivo" com o "prolixo". É um equívoco sem tamanho, em minha opinião, tomar a discursividade como valor negativo em si, e a antidiscursividade como valor positivo. Nada há na História da Literatura que sustente esta visão. Agora, é bem certo que não posso assumir que nosso comentarista sofra deste defeito crítico. Talvez ele saiba bem a diferença entre o discursivo e o prolixo e veja versos e palavras realmente desnecessárias em meu poema. Talvez ele não esteja entre os que creem que seja um defeito ser capaz ainda de versejar em sentenças completas. Espero que ele não esteja entre os que acreditam que jogar algumas palavras desconexas sobre a página garanta a concisão. Me parecem problemas que ocorrem com quem leva muito ao pé da letra a velha história de que "importa mais o que o poeta deixa de dizer do que aquilo que ele realmente diz". É que eu gosto muito de escrever, sabe?

Deixo a meus leitores, anônimos ou não, julgar se meu poema, conscientemente discursivo, acaba sendo prolixo.

Eu tinha um efeito bastante específico em mente, e procedi de acordo, além do mais, com meu interesse por textos mais tesos que necessariamente concisos.

Vale a pena retornar, por exemplo, ao poema de Kaváfis. O grego o intitula com o nome de Cesárion, deixando claro desde o começo a quem se refere. Ora, Kaváfis era conterrâneo de Cesárion. Escreveu seu poema em grego e em Alexandria, onde ocorre a história. Ele pode simplesmente assumir que seus leitores saibam exatamente de quem e do que ele está falando.

Ao começar a ler meu poema, propositalmente intitulado com ares de revista de fofoca contemporânea (tento imaginar Kaváfis intitulando um poema "O solteiro mais cobiçado do mundo" e sou obrigado a sorrir um pouco), o leitor não sabe se o texto tratará de alguém como Cesárion ou, digamos como exemplo, o jovem modelo Francisco Lachowski, que tem a cara e o corpo que eu gosto de imaginar em Cesárion quando penso nele, ainda que meu poema não tenha tratado Cesárion como erômenos imaginário. Ok, talvez um pouquinho, mas é porque, como disse, sempre o imagino com a cara e o corpo de Francisco Lachowski.

Escrevendo em português e em 2011, a mim interessava compor o poema de tal maneira que ele "instrumentalizasse" qualquer leitor a entendê-lo, já durante a leitura, sem a necessidade da busca exterior de informação. Ninguém precisa saber quem foi Cesárion para ler o poema. Ao contrário, depois de ler o poema, passa a saber quem foi caso não soubesse. A alguns isso parecerá demasiado didático, algo também visto como problemático, mas faz parte do jogo.



§ - Cabotino.


O que talvez tenha parecido cabotino ao meu leitor anônimo e deselegante é que eu retorne a tal tema com implicações quiçá muito menos nobres e universais que as do mestre Kaváfis, pois aponto para nossa atual idolatria de celebridades que também assumem características divinizáveis, começando pelo uso do meu título, "O solteiro mais cobiçado do mundo", que poderia facilmente ser o título de um artigo de revista de fofoca qualquer. Acabo misturando a isso ainda minha discussão de certas questões políticas de gênero, como meu tratamento algo obsessivo e sarcástico da cultura do macho-alfa e seus delírios desejosos de épicos. Talvez meu uso do tema seja mesmo cabotino para algumas sensibilidades, talvez justamente por ter escondido, por contrabando, estas discussões políticas contemporâneas em um tema "nobre". Não sei se nosso ranzinza anônimo chama o poema de cabotino por ver nele uma piada de mau gosto ou exibição arrogante de conhecimento. Eu certamente entendo muito mais de cigarros, café e da anatomia masculina que da História Clássica, talvez devesse ter realmente voltado a Kaváfis e sua nostalgia do erômenos (algo que já fiz várias vezes), mas não será isso que limitará meus temas.


§ - "Teus `reflexos´ históricos são intragáveis."


Gostei deste toque, "reflexos" em vez de "reflexões", muito esperto e divertido o seu sarcasmo. Quem sabe, se meu trabalho não o incomodasse tanto, nós até pudéssemos tomar um uísque um dia, discutindo vivamente nossas visões provavelmente opostas sobre poesia?

Mas, ora, meu querido leitor anônimo, tudo o que posso sugerir, se você considera meus "reflexos" históricos intragáveis, é que você não leia meu trabalho. Este é meu blogue pessoal e eu não sou leitura obrigatória.



§ - "Teu corpo não urge que volte a versar?"


Esta é, na verdade, a única pergunta que você fez, já que você veio ao meio espaço pessoal para pontificar sobre sua opinião acerca do meu poema. Respondo-a:

Não.

Meu corpo não sente a menor urgência de "voltar" (significa que versei no passado?) a versar. Sabe Deus o que você quer dizer com isso, já que eu não sei quem você é e muito provavelmente ignoro o seu trabalho se o conheço.

Nunca houve como nas duas últimas décadas um divórcio tão gigantesco entre os poetas e prosadores brasileiros. É realmente algo inédito, já escrevi sobre isso, mencionando-o por exemplo em um ensaio a sair pela Fundação Casa de Rui Barbosa, cheio de meus "reflexos" históricos intragáveis.

Já deve ter ficado claro que eu não estou interessado em uma visão da poesia como gênero puro. Estou interessado em textos, cobrindo ou não a página de margem a margem, desde que sejam tesos. Não considero antidiscursividade um valor positivo em si, apenas no contexto do texto e dos efeitos que busca, dos parâmetros que segue. Kaváfis, mestre mestre mestre, é discursivo. Muito tênue a linha entre prosa e poesia em poetas como o alexandrino, ou como o polonês Zbigniew Herbert, ou como o alemão Heiner Müller.

Por fim, quero deixar muito claro que estou completamente aberto a críticas e sugestões, como as que Érico Nogueira e Marcus Fabiano fizeram. Nem acho que meu poema seja perfeito ou divino maravilhoso. Acho que é um poeminhazinho bastante decente e apresentável.

Aqui está sua resposta pública, ainda que você não a tenha feito de maneira aberta. Você, ao que me parece, está entre os críticos da poesia contemporânea hoje mais interessados nas reputações poéticas contemporâneas que veramente na poesia contemporânea. Ler crítica de poesia contemporânea hoje no Brasil é como ler apreciações de carreiras, não de obras. Tenho me esforçado para não cair nesta armadilha, e, caso você acompanhe meus "reflexos" históricos intragáveis também na Modo de Usar & Co., a próxima postagem será sobre o trabalho recente do jovem e seu, meu, nosso contemporâneo Ismar Tirelli Neto.

Espero que a resposta o satisfaça. Volte sempre, se o seu gag reflex o permitir. Talvez tenhamos outras coisas em comum, mesmo que, diferentemente de você, não me falte hombridade.


do seu histórico-reflexivo intragável,

Ricardo Domeneck.


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Traduções para alguns poemas de Erich Fried

POEMAS DE ERICH FRIED
Traduções minhas, tomando algumas liberdades,
preparadas para a Modo de Usar & Co.


Ela

Ela devora seus filhos
ela bebe o sangue de seus mortos
ela prega aos surdos
ela desconhece valores superiores

Ela perde o caminho
ela cambaleia de traição em traição
de erro em erro
ela dorme nas derrotas

Que ela é desnecessária
toda criança aprende na escola
que o povo não a deseja
finalmente percebeu o povo

Que ela não pode vencer
foi provado por a + b
Os que o provaram
não dormem muito bem

Os que nela creem
cansam-se às vezes com as dúvidas
alguns que a odeiam
sabem que ela está a caminho


:

Sie

Sie frisst ihre Kinder
sie trinkt das Blut ihrer Toten
sie predigt den Tauben
sie kennt keine höheren Werte

Sie vergisst ihren Weg
sie wankt von Verrat zu Verrat
von Fehler zu Fehler
sie schläft in den Niederlagen

Dass sie unnötig ist
lernt jedes Kind in der Schule
dass das Volk sie nicht will
hat das Volk sich endlich gemerkt

Dass sie nicht siegen kann
ist zehnmal genau bewiesen
die es bewiesen haben
schlafen nicht gut

Die an sie glauben
sind manchmal müde von Zweifeln
einige die sie hassen
wissen sie kommt.


§


Pederastia como arma

Ao garoto que conhecera no cinema
confessou André Gide
na cama ou pela manhã
depois de uma longa noite de sexo:

Você pode dizer aos seus amigos
que você dormiu com um homem famoso
com um escritor
Meu nome é François Mauriac


:


Päderastie als Waffe

Den Knaben die er im Kino getroffen hatte,
gestand André Gide
im Bett, oder am Morgen
nach einer durchliebten Nacht:

Du kannst deinen Freunden sagen,
du hast mit einem berühmten Mann geschlafen,
mit einem Schriftsteller.
Mein Name ist François Mauriac.


§


Limite do desespero


Eu tenho tanto amor por você
que já nem sei mais
se tenho por você tanto amor
ou se tenho mesmo é medo

se tenho mesmo é medo de ver
o que sem você
sobraria de minha vida
ainda em vida

Para que ainda me lavar
para que desejar a saúde
para que ter curiosidades
para que escrever

para que ainda querer ajudar
para que da corrente de mentiras
e horrores ainda irradiar a verdade
sem você

Talvez sim porque você existe
e outros seres ainda
como você haverá
e isso tudo também sem mim


:


Grenze der Verzweiflung

Ich habe Dich so lieb
daß ich nicht mehr weiß
ob ich Dich so lieb habe
oder ob ich mich fürchte

ob ich mich fürchte zu sehen
was ohne Dich
von meinem Leben
noch am Leben bliebe

Wozu mich noch waschen
wozu noch gesund werden wollen
wozu noch neugierig sein
wozu noch schreiben

wozu noch helfen wollen
wozu aus den Strähnen von Lügen
und Greueln noch Wahrheit ausstrählen
ohne Dich

Vielleicht doch weil es Dich gibt
und weil es noch Menschen
wie Du geben wird
und das auch ohne mich


§


Naturalização

Mãos brancas
cabelos ruivos
olhos azuis

Pedras brancas
sangue ruivo
lábios azuis

Ossos brancos
areia ruiva
céu azul

:

Einbürgerung

Weisse Hände
rotes Haar
blaue Augen

Weisse Steine
rotes Blut
blaue Lippen

Weisse Knochen
roter Sand
blauer Himmel



§


Canta-se

Canta-se
de medo
contra o medo.

Canta-se
de fome
contra a fome.

Canta-se
do tempo
contra o tempo.

Canta-se
do pó
contra o pó.

Canta-se
sobre os nomes
a fazer dos nomes o inominável.


:


Einer singt

Einer singt
aus Angst
gegen Angst


Einer singt
aus Not
gegen Not

Einer singt
aus der Zeit
gegen die Zeit

Einer singt
aus dem Staub
gegen die Staub

Einer singt
von den Namen
die Namen namenlos machen



Nota: A palavra alemã Not seria o equivalente a necessidade ou emergência, mas usei fome para manter a concisão.



§


Conflitos entre únicos herdeiros

Meu Marx arrancará as barbas
do teu Marx

Meu Engels quebrará os dentes
do teu Engels

Meu Lênin partirá os ossos
do teu Lênin

Nosso Stálin fuzilará a nuca
do vosso Stálin

Nosso Trótski rachará o crânio
do vosso Trótski

Nosso Mao afogará no Iansequião
vosso Mao

para que ele saia do caminho
da vitória


:


Konflikte zwischen Alleinerben

Mein Marx wird deinem Marx
den Bart ausreißen

Mein Engels wird deinem Engels
die Zähne einschlagen

Mein Lenin wird deinem Lenin
alle Knochen zerbrechen

Unser Stalin wird eurem Stalin
den Genickschuss geben

Unser Trotzki wird eurem Trotzki
den Schädel spalten

Unser Mao wird euren Mao
im Jangtse ertränken

damit er dem Sieg
nicht mehr im Wege steht



§

As mentiras de pernas curtas

As
pernas
das
grandes
mentiras
não
são
sempre
tão
curtas

Mais
curtas
são
mesmo
as
vidas
dos
que
nelas
creram


:


Die Lüge von den kurzen Beinen

Die
Beine
der
grösseren
Lügen
sind
gar
nicht
immer
so
kurz

Kürzer
ist
oft
das
Leben
derer
die
an
sie
glaubten



§


Falta de humor

Os moleques
jogam
de brincadeira
pedras
nos sapos

Os sapos
morrem
de verdade

:

Humorlos

Die Jungen
werfen
zum Spass
mit Steinen
nach Fröschen

Die Frösche
sterben
im Ernst


§


O que é

É louco
diz a razão
É o que é
diz o amor

É desastroso
diz o cálculo
É só dor
diz o medo
É desesperado
diz a inteligência
É o que é
diz o amor

É ridículo
diz o orgulho
É inconsequente
diz o cuidado
É impossível
diz a experiência
É o que é
diz o amor

:


O poema, lido pelo autor.


Was es ist

Es ist Unsinn
sagt die Vernunft
Es ist was es ist
sagt die Liebe

Es ist Unglück
sagt die Berechnung
Es ist nichts als Schmerz
sagt die Angst
Es ist aussichtslos
sagt die Einsicht
Es ist was es ist
sagt die Liebe

Es ist lächerlich
sagt der Stolz
Es ist leichtsinnig
sagt die Vorsicht
Es ist unmöglich
sagt die Erfahrung
Es ist was es ist
sagt die Liebe



Nota: Tomei a liberdade na escolha de usar adjetivos em vez de substantivos, porque me parece muito mais próximo do que falaríamos em português. Quis também buscar soluções diferentes das de tradutores anteriores. Escolhi "desastroso" para "Unglück", pois a palavra traz, em um dicionário, o significado de "infelicidade", mas, na linguagem coloquial alemã,"Unglück" é muito usado no sentido de "Unfall" e "Katastrophe", como em acidentes de automóvel.


§




Erich Fried foi um poeta austríaco, nascido em Viena a 6 de maio de 1921. É um dos mais respeitados tradutores de Shakespeare para a língua alemã, conhecido por sua poesia política e sem dúvida o poeta lírico mais popular da língua no pós-guerra.

Cresceu na capital austríaca, no seio de sua família judia. Em 1938, após a anexação da Áustria pelo Terceiro Reich, seu pai morre depois de um "interrogatório" na sede da Gestapo. O poeta decide emigrar, passando pela Bélgica e estabelecendo-se em Londres, onde viveria vários anos. Durante a Guerra, funda na capital inglesa um grupo de auxílio à emigração de judeus da Áustria, conseguindo, entre tantos outros, salvar a vida de sua mãe. Com 23 anos, em 1944, publica seu primeiro livro, com poemas de resistência ao regime fascista, intitulado Deutschland, ao qual se seguiria outro, dedicado desta vez aos crimes de seu país, intitulado Österreich (1945). Em 1962, retornou a Viena, e no ano seguinte torna-se membro do influente Grupo 47, que viria a marcar o início da carreira de alguns dos mais importantes poetas e romancistas germânicos do pós-guerra com seu prêmio, concedido a Günter Eich, Heinrich Böll, Ilse Aichinger, Ingeborg Bachmann, Adriaan Morriën, Martin Walser, Günter Grass, Johannes Bobrowski, Peter Bichsel e Jürgen Becker.

Em 1977, Erich Fried torna-se professor da Universidade de Giessen, mas logo vê-se envolto em tumulto e críticas por suas declarações sobre a conjuntura política alemã, sendo até mesmo processado após um artigo em que chamava a morte do anarquista Georg von Rauch (1947 - 1971), em um confronto com a polícia em Berlim, de assassinato.

Após anos de escrita política, Erich Fried publica a coletânea de poesia amorosa Liebesgedichte (1979), que se tornaria a mais popular coletânea de poemas do pós-guerra. Mesmo em casas alemãs onde nenhum outro livro de poesia pode ser encontrado nas estantes, é possível encontrar com frequência dois livros: o Buch der Lieder, de Heinrich Heine, e Liebesgedichte, de Erich Fried. A este, se seguiria outro livro de poesía lírica amorosa, chamado Es ist was es ist (1983), com poemas que seriam musicados e se tornariam também bastante conhecidos. Erich Fried morreu em Baden-Baden, a 22 de novembro de 1988, em decorrência de um câncer.

Para um leitor brasileiro, a poesia de Erich Fried soará familiar e poderá ligar-se à de modernistas como Manuel Bandeira (1886 - 1968) e Oswald de Andrade (1890 - 1954). No entanto, com a exceção de certos poemas esparsos de Gottfried Benn (1886 - 1956), especialmente em Morgue (1912), poemas escritos por Bertolt Brecht (1898 - 1956) no seu exílio em Los Angeles durante a Guerra, assim como nos dadaístas (que permaneceram marginais ao cânone) Hans Arp (1886 - 1966) e Kurt Schwitters (1887 - 1948), apenas no Pós-Guerra o uso do coloquial e de certo realismo prosaico se tornariam mais praticados na língua alemã, com poetas como Günter Eich (1907 - 1972), Ernst Jandl (1925 - 2000) ou H.C. Artmann (1921 - 2000). Outros poemas lembrarão a poética esparsa da poesia concreta e neoconcreta.

Traduzi alguns destes poemas há muito tempo, por prazer. Esta postagem não tem a ambição de introduzir um poeta que traga novas técnicas à poesia brasileira contemporânea, mas a de apresentar a um público brasileiro um dos poetas mais amados da língua alemã, com textos cheios de humor e de uma sensibilidade lírica extremamente delicada. Um poeta que esteve fincado em seu tempo e, mais de duas décadas depois de sua morte, ainda é cantado... literalmente cantado. Que ambição maior pode ter um poeta?



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sábado, 30 de julho de 2011

Uma das performances mais sinceras da qual a História da Humanidade possui um registro.

Alguém diga às sereias da catástrofe, por favor, que enquanto uma pessoa específica couber e de repente não mais couber nos braços de outra pessoa que quer apenas a especificidade daquele corpo daquele cheiro, haverá poesia lírica. Dedicada a todos os que não têm medo de, como dizem os americanos em tom de sarro, wear their hearts on their sleeves. É mesmo uma sensação de incredulidade, querida Nina, what a shame to have to write a song like that!

"I do not believe the conditions that produce a situation that demanded a song like that!"
- Nina Simone.



Nina Simone canta "Feelings", de Loulou Gasté/Morris Albert

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terça-feira, 26 de julho de 2011

"O solteiro mais cobiçado do mundo"





O solteiro mais cobiçado do mundo


Era um jovem com o mais promissor
dos futuros. Nascido em um império,
dele herdeiro. Cresceu entre duas
capitais do que chamamos de "alta
cultura", com esta naturalidade nossa
de quem salta cadáveres por pressa,
cidades-clímax, feitas de sonhos
de proporções magníficas, ou, talvez,
praticamente maníacas. Gerado
no útero da mulher, dizia-se,
mais linda do mundo, o pai,
alega-se no mesmo tom superlativo,
o todo-poderoso dentre os homens
sobre a Terra conhecida. Este menino
e logo rapaz, com futuro do qual
se esperava nada menos que o gigante
e o mamute, tão promitente, era filho
de deuses, nada menos que organismo
divinizável. Em suas veias
desaguavam o Tibre e o Nilo,
em suas glândulas se agitava
o Mediterrâneo. Quem
duvidaria que seus genes
eram estopa e estofo para Homeros,
Virgílios? O que poderia impedi-lo
de tornar-se maior que Alexandre,
o Grande? O que deteria o destino
ainda pubescente deste futuro
macho-alfa supremo do planeta?
Não se sabe se ele herdou os traços
afrodisíacos da mãe (que cria,
porém, ser encarnação de Ísis), se
herdou o jeito de Marte do pai (que
por sua vez cria encarnar Roma). Isso
tudo foi há muito tempo. Cesárion,
filho de Caio Júlio César
e Cleópatra Diva Filopátor,
tem 17 anos, é uma fonte
da qual jorram testosterona
e sonhos, em suas coxas
habita toda uma dinastia.
Mas Cesárion, dezessete
anos de idade, um dia (há não
tanto tempo) o feto mais
promissor do futuro,
será morto hoje
por ordens de Otaviano,
seu irmão adotivo,
o futuro Augusto.
Talvez fruto
e exemplo da velha batalha
entre ornamento e função,
limite fisiológico de tudo
o que é idealizado,
sabemos que coroa
alguma jamais
protegeu
qualquer pescoço
e cidadão ou meteco,
rei ou plebeu,
alguém entre vocês
ainda tem dúvidas
sobre quais as relações
entre promessa e futuro?



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domingo, 24 de julho de 2011

A Bénédicte de Laura Erber e seu diálogo com Péret

Laura Erber

A poeta carioca Laura Erber (n. 1979) lançou há pouco um livro virtual pela Editora da Casa, intitulado Bénédicte vê o mar. A publicação virtual traz uma pequena apresentação da autora, e uma orelha assinada por Angélica Freitas. É a publicação mais recente da poeta, também artista plástica, desde seu lançamento duplo em 2008, quando a mesma Editora da Casa lançou Vazados & Molambos (Florianópolis: Editora da Casa, 2008), e também veio a lume no Brasil a edição bilíngue português/inglês de Os corpos e os dias (São Paulo: Editora de Cultura, 2008), originalmente lançado na Alemanha em 2006, com tradução de Timo Berger para o alemão. Escrevi sobre os dois livros aqui: http://ricardo-domeneck.blogspot.com/2009/03/dois-livros-de-laura-erber.html

Este Bénédicte vê o mar foi composto ao lado de vários desenhos de Laura Erber diretamente no iPad, formando um trabalho que conjuga o gráfico e o textual. O título é um jogo sonoro com o nome da poeta portuguesa de origem belga Bénédicte Houart, a quem o trabalho é dedicado. Não apenas os poemas como os próprios desenhos parecem dialogar com o trabalho tão simples e direto de Houart.

Esta Bénédicte de Erber se move dentro da consciência do que não parece ser biografável, mas é, no entanto, biodegradável, como ela escreve num dos poemas. Trata-se de uma poesia que aceita a pobreza dos nossos recursos, e poderá desagradar os que buscam o grandioso indizível. Esta personagem que vive no porão de uma marmoraria me fez, em alguns momentos, pensar em "Nevers", a personagem francesa do filme Hiroshima Mon Amour (1959), escrito por Marguerite Duras e dirigido por Alain Resnais, com sua passagem pelo porão da casa, nos dias em que ela foi "jovem e louca em Nevers, louca de amor". Não sei o que levou a Bénédicte de Erber ao porão, mas cedo ou tarde todos nós passamos por ele.

Convido vocês a lerem o que ela escreve dos fundos da marmoraria, visitando a página da Editora da Casa:




Além do livro Bénédicte vê o mar, queria mostrar a vocês a bela tradução que Erber fez de um poema de Benjamin Péret, postada já há alguns dias na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co.:


OS MORTOS E SUAS CRIANÇAS
Benjamin Péret, do livro Le Grand Jeu, 1928

Se eu fosse alguma coisa
não alguém
diria aos filhos de Édouard
providenciem
e se eles não providenciassem
eu iria para a floresta dos reis magos
sem galochas e sem ceroulas
como um eremita
e haveria certamente um grande animal
sem dentes
com plumas
e redondo como um vitelo
que viria uma noite devorar minhas orelhas
Então deus me diria
você é um santo entre os santos
pegue este automóvel
O automóvel seria sensacional
oito cilindros e dois motores
e no centro uma bananeira
que camuflaria Adão e Eva
fazendo

mas isso será objeto de outro poema

(tradução de Laura Erber)

§

O que não mostramos por lá, no entanto, e que tomo a liberdade de mostrar aqui, é o poema que Erber desentranhou do poema de Péret, intitulado "Velho oeste":



VELHO OESTE
Laura Erber

se eu fosse um outdoor
não alguém
diria aos netos de Édouard
esqueçam
e se eles não esquecessem
eu pegaria um avião para a Amazônia peruana
sem galochas e sem etnógrafos-linguistas
como um eremita
e haveria certamente
um bando de crianças
sem dentes
com plumas
revirando os cabelos
de suas mães
trôpegas
redondas
como um aniversário de morte
e viriam de noite
me pedir dinheiro
e remédios para o piriri
então deus adormeceria
sem dizer
“pegue este automóvel”
e o automóvel teria sido
híbrido e o couro escarlate
e de um lado e do outro da estrada
bananeiras camuflariam
o espetáculo surpreendente
da copulação dos zumbis



Encerro com uma entrevista da poeta e artista plástica, que passou uma temporada em Copenhague, onde pesquisou e escreveu sobre o trabalho do cineasta Carl Theodor Dreyer (1889 – 1968). Concedida ao Arquivo Dreyer, ela discute sua pesquisa:





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sexta-feira, 22 de julho de 2011

Uma canção de Ann Peebles e um poema de Angélica Freitas

Manhã de chuva em Berlim. Difícil não acordar com vontade de cantarolar a clássica de Ann Peebles, "I can´t stand the rain" (1973).





Tenho pensando num poema da minha querida Angélica Freitas nestes últimos dias, chamado "O livro rosa do coração dos trouxas", uma série de 12 textos que ela publicou no primeiro número impresso da Modo de Usar & Co.. Mais especificamente no primeiro poema da série, com sua visão sobre o fim de relacionamentos. Será possível tornar-se realmente amigo de um ex? Depois de compartilhar a vida de uma maneira tão intensa, passar a compartilhá-la de outra maneira? Talvez leve tempo. E como em quase tudo o que é difícil, the only way out is through. Querida Angélica, estou tentando seguir seu conselho de pensar no passado só se me der prazer. Mas é difícil, quando o passado é uma bolha de prazer encapsulado por um inchaço dolorido e doloroso.



Primeiro texto da série O livro rosa do coração dos trouxas
Angélica Freitas


eu quando corto relações
corto relações.
não tem essa de
briga de torcida
todos os
sábados.
é a extinção do estádio.
vejo as forças
que atuam; a tesoura,
o papel,
a vontade de cortar.
tudo é provocação?
então embrulha
tua taquicardia
num sorvete de amêndoas,
reza que derreta.
quando lembro do
corte revivo a
ferida.
melhor não.
o corte é definitivo,
a dor retorna em forma
de milão madri
ou liverpool
quando convocada.
ricardo
lembra do teu passado
só se te dá
prazer.
how elizabeth
bennet of you.
mas tirar
deleite da perda,
convencer fulana
de que minha fraqueza
não oblitera?,
exigir um rio de janeiro
com gatos e livros,
legítima esposa?,
fico sonhando com
a viagem a um país onde a
língua seja vértebra
sobre vértebra,
palavras com j
antes do l,
e cacos gregos
que me devolvam
ao aluguel da casa.


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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Mais uma noite na companhia de amigos-heróis


Organizar uma festa todas as quartas-feiras é uma trabalheira danada. Em geral, somos apenas um grupo de amigos que se encontra para tocar suas canções favoritas. Mas nestes mais de 6 anos, primeiro organizando a Berlin Hilton, agora SHADE inc, tive algumas noites de quarta-feira e madrugadas de quinta-feira realmente memoráveis. Algumas memórias se perderam depois de tantos rabos-de-galo, como costumávamos dizer na Vila Madalena no início do século em botecos, quando me encontrava com amigos como o então jovem poeta Érico Nogueira, os então jovens cineastas Pablo Gonçalo e Pablo Martins, os jovens atores, os futuros escritores e editores de moda, meus amigos infinitamente queridos dos tempos paulistanos, se espalhando pelos botecos de Pinheiros para as biritas depois das aulas na Universidade de São Paulo. Tempos lendários.

Aqui em Berlim agora, me espalho pelos botecos de Prenzlauer Berg e Kreuzberg, com os amigos e já não tão jovens videoartistas, não tão jovens curadores e escritores para os Schnaps nossos de cada dia. Com alguns deles, organizo a festa às quartas-feiras, por onde já passaram alguns heróis meus, hoje amigos. Vou evitar o name-dropping, quase sempre deselegante.

Mas é que hoje será outra noite especial no clube NBI (Neue Berliner Initiative), onde organizamos a festa há 6 anos. De passagem pela cidade, teremos um DJ set com Fischerspooner, com a presença de Casey Spooner e sua companheira Lauren Flax atrás da mesa dos DJs. Conheci Casey no ano passado, quando ele passou por Berlim e veio à nossa festinha de quarta-feira. Decidimos que faríamos algo quando ele voltasse, o que só aconteceu agora. Lauren Flax discotecou na festa no ano passado. Quando comecei a discotecar em Berlim por volta de 2003, ainda imperava o electroclash, que teve dois berços: Nova Iorque e Berlim. O duo Fischerspooner (Warren Fischer e Casey Spooner) havia acabado de lançar seu álbum intitulado simplesmente #1, após lançar singles de sucesso como a canção "Emerge", um dos hinos daquele momento. Suei muito com esta canção em clubes berlinenses como o lendário Black Girls Coalition.

No vídeo abaixo vemos a gravação do vídeo para "Emerge", com imagens de sessões de fotos com Casey Spooner e o fotógrafo Terry Richardson. Quando escreverem a história do início deste século maluco, imagino que será difícil não mencionar personalidades como a de Casey Spooner e Terry Richardson. Vale mencionar que eu tinha uma crush abismática no dançarino do grupo, o ator Jeremiah Clancy, que aparece no vídeo com olho roxo e o nariz sangrando. Há dez anos... uma época de excessos auto-indulgentes. Me diverti muito.





Toca ainda hoje à noite o querido Joel Gibb, vocalista e letrista (em outras palavras, o poeta lírico) da banda canadense The Hidden Cameras, que mora em Berlim. Já escrevi sobre ele aqui, e traduzi uma de suas letras. O vídeo abaixo é seu mais recente.





Encerra a noite meu amigo e DJ em ascensão na cena noturna berlinense, Marius Funk. Abaixo, seu mix mais recente.




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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Da série das Brigas Cinematográficas Favoritas: a de "Doubt" (2008)



As personagens de Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman em Doubt (2008),
dirigido por John Patrick Shanley.

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sábado, 16 de julho de 2011

Leitura de poesia com músicos hoje à noite em Berlim

Hoje à noite farei uma leitura ao lado dos poetas Daniela Seel, Gerhard Falkner, Oya Erdogan, Gabriele Guenther e Christian Steyer, acompanhados dos músicos Els Vandeweyer, Andrea Sanz-Vela, Helen Gillet, Antonio Borghini, Matthias Schubert, Florian Bergmann, Matthias Bauer, Johannes Lauer, Sara Ercoli, Liz Albee, Lothar Fiedler, Antonis Anissegos, Almut Kühne e Georg Graewe, numa velha fábrica no bairro berlinense chamado Wedding, hoje transformada em espaço alternativo para ocupações e intervenções de artistas.

Farei duas leituras. Na primeira, improvisarei ao lado da musicista espanhola Andrea Sanz-Vela, que toca viola de arco. Na segunda, ao lado do videoartista grego Andreas Karaoulanis e do clarinetista alemão Florian Bergmann.

O projeto é uma iniciativa da cantora Almut Kuehne, que interpretará canções baseadas em textos da poeta alemã Anja Utler.

Estou também contente de participar ao lado da querida Daniela Seel, uma das forças motrizes da cena poética berlinense, editora da mais prestigiosa editora independente da cidade, a Kookbooks, e do senhor Gerhard Falkner, nascido em 1951 e um dos poetas mais respeitados de sua geração.

Vamos ver no que dá, acho que será a primeira vez que lerei com acompanhamento musical.





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terça-feira, 12 de julho de 2011

Compreensão é uma queda sem amortecimento no contexto próprio

Uma das fotos mais famosas de Nan Goldin,
do livro The Ballad of Sexual Dependency


Quantos poemas e canções, lidos e escutadas por anos, aqueles que pensamos compreender, entender, à luz de uma nova situação parecem entrar de forma tão natural sob a nossa pele, a ponto de acreditarmos que pela primeira vez os compreendemos de verdade? Como se nunca antes os houvéssemos lido, escutado.

Alguns poemas e canções têm voltado à minha mente com um frescor estranhíssimo nos últimos tempos, como se eu agora, com 34 anos, vários pés-na-bunda, inúmeras ascenções de alegria e quedas em alergia, estivesse um tiquinho mais apto a compreendê-los. Um tiquinho só mais apto.

Há épocas em que certas textos, certas fotografias, cenas de filmes, começam a nos seguir na rua, uma companhia estranha, obsessiva. Vou compartilhar com vocês três companhias obsessivas dos últimos tempos, que eu sinto estar começando a compreender melhor, não com qualquer noção de inteligência besta, apenas uma sensação de que eles estão começando a me pertencer de uma maneira que antes não era possível. A primeira é a foto de Nan Goldin que abre esta postagem, uma de suas mais famosas, do livro The Ballad of Sexual Dependency (1986). Outra companhia é um poema famoso do Drummond.


Consolo na Praia
Carlos Drummond de Andrade

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.



O poema foi publicado em A Rosa do Povo, de 1945. À data de sua publicação, Drummond tinha 43 anos. Há novos ou outros sentidos que só compreenderei quando me aproximar desta idade? Ou os amores perdidos até esta data dos meus 34 anos já começam a me mostrar que consolo é este? Há perdas e consolos pela frente. Quantos poemas e canções ainda têm as portas vedadas para minha compreensão porque eu preciso perder mais um ou dois amores, um ou dois amigos, reconhecer uma ou outra impossibilidade?

Que susto hoje ao escutar pela milésima vez uma canção favorita, a "Running up that hill" da (suprema) Kate Bush, e sentir um halo de compreensão maior se abrir sobre as palavras cantadas, como se eu a estivesse escutando pela primeira vez! Aquelas palavras memorizadas ao longo de tantos anos se entregando de maneira nova, aquele início:

It doesn't hurt me
Do you wanna feel how it feels?
Do you wanna know, know that it doesn't hurt me?
Do you wanna hear about the deal I'm making?
You
It's you and me
And if I only could
I'd make a deal with God
And I'd get him to swap our places
I´d be running up that road
Be running up that hill
Be running up that building
If I only could








Às vezes me parece muito triste aquela ideia de Wittgenstein, nossa prisão dentro do eu pelo fato "do mundo ser sempre o meu mundo". Mas Wittgenstein jamais a chamaria de prisão, isso é patetice minha, pois Wittgenstein não acreditava na possibilidade de estar do lado de fora - e a aceitava.

E nesta luz, entre Wittgenstein dizendo que "o mundo é sempre meu mundo", e Kate Bush dizendo "Come on, angel / Come on, darling / Let's exchange the experience", será que há muita diferença? Tenho amigos que vão ficar bravos mais uma vez por eu misturar um filósofo com uma cantora de música pop, mas eu sou mesmo caso perdido neste aspecto.

Não, nós jamais chegamos a convencer Deus a trocar nossos lugares. Em algum momento, talvez, alguém chegue com as próprias pernas a perda ou alegria parecida, e só então uma compreensão mútua?

E então dizemos ao Outro, usando vocativos como angel e darling, dizemos estas palavras patéticas:


You don't wanna hurt me
But see how deep the bullet lies



A bala, como sempre, está funda demais em nosso couro para que o outro veja ou sinta.

"O inferno são os outros"? Não. Eu acho que prefiro pensar que o paraíso sou eu quando estou com os outros... ou com um outro bem específico, com nome e endereço.

Fique aí no Paraíso, você.

Quem sabe eu possa visitá-lo.

Ou, como Frank O´Hara terminou aquele poema,

of light we can never have enough
but how would we find it
unless the darkness urged us on and into it
I am dark
except when now and then it all comes clear
and I can see myself
as others luckily sometimes see me
in a good light



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