sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Aérea esperança!

Cabo das Tormentas ou Cabo da Boa Esperança?

Então, o amigo disse-lhe em tom de quem só conhece conjunções adversativas: "Não comece a nutrir esperanças!", e ele olhou bem o focinho do amigo, seguindo de norte a sul e leste a oeste o rosto, e sentiu algo que oscilava entre a pena e a compaixão, respondendo em pergunta, bravo: "Que direito você tem de dizer isso a outra pessoa?", e o amigo não entendeu seu desconcerto, pois há muito pertencia aos que confundem a "nutrição de esperanças" com a "manufatura de ilusões", sem perceber que a esperança, como a fé, é o que Søren Kierkegaard chamou de salto no escuro, consciente de que talvez não haja rede de segurança ao fundo, ou a esperança, ele queria dizer, quiçá seja o que ele mesmo chamou um dia de um "sim de olhos fechados", lucidez de encarar o impossível, como os versos de Marianne Moore, naquele que é e foi e sempre seria um poema-cerne de seu código de conduta, "hope not being hope / until all ground for hope has / vanished", mas há também os versos do português João Apolinário, "O que me cansa / é o diabo da esperança", mas ele então saiu de casa, caminhou certeiro para um encontro que parecia ter a finalidade de todas as chances da felicidade, pensando no poema de Manuel Bandeira, aquele sábio dentuço que estava ciente de que a esperança não é qualquer facilitador, pelo contrário, ela pesa e pensa, e seus passos eram firmes e ele cantarolava o "Rondó do capitão" com o coração pesado de esperança.


Rondó do capitão
Manuel Bandeira

Bão balalão,
Senhor capitão.
Tirai este peso
Do meu coração.
Não é de tristeza,
Não é de aflição:
É só de esperança,
Senhor capitão!
A leve esperança,
A aérea esperança...
Aérea, pois não!
Peso mais pesado
Não existe não.
Ah, livrai-me dele,
Senhor capitão!


§





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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Com Góngora no Apocalipse: peça criada para as comemorações dos 450 de seu nascimento, em Córdova



Em janeiro deste ano, recebi um convite interessantíssimo e que me descabelou um pouco: criar uma peça vídeo-textual, na linha do meu trabalho, a partir das Soledades (1613) de Luis de Góngora, e estreá-la em Córdova, num evento chamado Soledades 2.0, dentro do tradicionalíssimo festival cordovês Poetas del Mundo en Córdoba, que este ano celebraria os 450 anos de nascimento do autor.

Aceitei o que se provou um grande desafio. Enviaram-me uma edição da coleção Catedra que restabelecia o texto e grafia do tempo de Góngora. Trabalhei na peça por mais de um mês, tentando algo que estivesse completamente baseado no trabalho de Góngora e ao mesmo tempo fosse uma peça pessoal minha, sem a ambição de verter de qualquer forma o trabalho do senhor barroco a tempos modernos ou criar apenas algo ilustrativo. Era um momento em que sentia meu trabalho talvez mais próximo de Lope de Vega que tanto de Góngora como do mestre Quevedo, mas foi uma experiência marcante. Mostro aqui o trabalho com a gravação em vídeo de minha apresentação em Córdova.

Apenas algumas palavras sobre o método e princípio usado na criação da peça: as Soledades me atingiram nesta leitura como extremamente apocalípticas. É claro que isso se deu porque todo o meu trabalho tem se dirigido, est-E-ticamente, para uma denúncia das distopias contemporâneas. Eu mesmo ando todo apocalíptico. Como escrevi no meu "Educação dos cívicos sentidos", estou buscando escrever uma poesia pré-distópica, parte do meu questionamento da falácia do pós-utópico. Para criar um clima ainda mais pós-apocalíptico, enquanto trabalhava na peça ocorreu o maremoto no Japão. O estado mental em que trabalhei nesta peça está patente no resultado.

Esta peça, que chamei de "Entrañas de las Soledades", foi composta com o princípio de colagem e apropriação. O texto é todo ele formado com palavras retiradas das Soledades. Alguns perceberão certas inconsistências ortográficas, mas é pelo fato de ter usado uma edição que mantém a grafia barroca de certas palavras. Ainda por cima, tomei certas liberdades. É um poema castelhano o que creio ter composto, mas tem suas peculiaridades. Misturei a esta est-É-tica, num texto todo sacado de uma matriz barroca, certos elementos da poesia expressionista germânica, em especial dos meus dois favoritos: Jakob van Hoddis (1887 – 1942, assassinado num campo de concentração) e Georg Heym (1887 – 1912). 

O vídeo, por sua vez, é todo composto pela apropriação e colagem de vídeos encontrados na Rede. A peça sonora foi composta por meu amigo Uli Buder. A edição do material em vídeo foi feita com meu amigo Daniel Reuter. Nada disso teria sido possível sem a assistência de Adelaide Ivánova na pesquisa do material visual.

O evento contou ainda com performances da madrilenha Miriam Reyes (n. 1974) e do chileno Eugenio Tisselli (n. 1972), e com uma exposição que trazia peças de poetas trabalhando com mídia alternativa, incluindo peças dos brasileiros Augusto de Campos e André Vallias.

Agradeço a António Jesus Luna, curador do evento, pelo convite.


Entrañas de las Soledades

ou, em seu título completo,

Entrañas de las soledades del último sobreviviente sobre la Tierra, sin nombre, escrito con fragmentos de un libro encontrado en las ruinas de la biblioteca de Córdoba y datado en julio del 2013





Entrañas de las Soledades
Ricardo Domeneck 

§ - Entraña primera

Era el año en que un vulcán, robador
del sol de Europa, borró el cielo.
Más tarde, sorbido y vomitado,
el oceano cubrió orillas, árboles
y aldeas en cenizas y carbunclo
como un can diligente, un Sísifo.
En la cuesta, la seca, contra ella
el viento, armas y perros. Mismo
las plantas abortaron. En los
campos, inundación. Último
sueño interrumpido del Occidente
fatigado, sobre la tierra estanque
la grana nace en ondas y en ondas
muere. El oceano divide metales,
abre sepulcros. Presagios
astronómicos, reinos al fin, fuego
en Egipto, Grecia en ruinas
de erudicción y pompa, hormigas
a esconder el camino, el cielo,
el polvo. Apócrifa, la política sigue.
Abriles, mayos, cual la arena
ardiente de Libia,
la luz que el día cedió al campo
estéril de ceniza, la que anocheció
aldea el fuego preside. Para la sed,
hay que beber el propio sudor.
Vence la noche y triunfa el silencio,
reina el gusano sordo, Noruega
seca como con dos soles, en Etiopía
restan dos estómagos. Diluvio.
Que vuestras cabras, vuestras vacas
se desaten, alimenten áspides,
vuestros descendientes.
Fin del Fénix del tiempo humano
y de las necesidades de opulencias.
Esfinge que se muere. El viento hereda
ahora Egipto, el Coliseo, Ícaro
hecho a su ruina, el polvo
cojea el pensamiento, en humo
se resuelven las aves.



§ - Entraña segunda


El mar era un arroyo sediento,
mucha sal su ruina.
Muros desmantelándose. Nudos
los bosques. La aurora:
muchas lágrimas y poca agua.
Deseo de hueso, contagio
de pescados nadando en sangre
y sangre, el propio clima una prisión
solicitando sepultar el sol
donde muere el día.
Que muera. Homicidio, mundo,
el oceano haga túmulo
para mis huesos ya que nada
yace en el mar sin besar la arena.
El cielo moderando la miseria,
pluvia de hierro, mordía huesos.
Fin de la comida, la más
seca de las gallinas domésticas.
Vomitando saliva, ronca todo.
Que el hueco exceda Cartago
o el fulminante fin de la República,
Roma de cabras. Nieve el agua.
Por comida, mármol. Ruinas
acusando la aurora, pesadumbre
de campo, sediento se bebe
espuma. Azotar los ojos, la lengua,
la muerte, fuga al horror. Huesos
de amantes a desatarse, cenizas
en los vientos. Llega el tiempo
del gusano, del monstruo
en el césped. Ya no vuelve
Proserpina. El último graznido.
Injuria de la luz, horror del viento.




(escrito com palavras - e em alguns casos versos - extraídas das Soledades de Góngora. Peça estreada em Córdova, na noite de 31 de março de 2011)

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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Com um livro de Simone Weil a tiracolo no sol e na chuva



Nesta tarde volto a você, grato e assustado com seus textos cheios daquela forma de claridade que me lembra as palavras de Orides Fontela, "a lucidez alucina", com uma calma estranha no corpo, enquanto bolsas de valores beiram o colapso, protestos em Londres e Santiago explodem em violência, ando aqui com meus próprios pés pelas ruas desta cidade que não se decide entre verão e inverno, mas os investidores da bolsa de valores do meu tórax não acreditam em crash algum, as palavras de Juliana de Norwich rodopiam na minha cabeçoila, "...all shall be well, and all shall be well, and all manner of thing shall be well", misturando-se com aquelas tuas outras palavras, grevista da fome, aquela tua crença de que "toda separação é um vínculo", e as holotúrias no poema de Szymborska continuam se dividindo para se salvarem, e as holotúrias no mar continuam também dividindo-se, o sol bate bem forte na minha cara pouco antes da chuva e sussurro ao mundo que ainda estou apaixonado e fecho os olhos e digo um sim alto, constrangendo os transeuntes.


"Um homem cuja mente sinta estar prisioneira preferirá ocultar o fato de si mesmo. Mas se ele odeia a falsidade, ele não o fará; e nesse caso, terá de sofrer muito. Ele baterá sua cabeça contra a parede até desmaiar. Ele voltará lá novamente e olhará com terror para a parede, até que um dia recomece a bater sua cabeça contra ela; e mais uma vez ele vai desmaiar. E assim por diante, sem fim e sem esperança. Um dia ele vai acordar do outro lado da parede." - Simone Weil (1909 - 1943)





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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Cummings fala sobre Pound e sobre os seres humanos verazes



Estive lendo nos últimos dias uma das coisas mais vívidas despertas jubilosas que já li: as despalestras de e.e. cummings na Universidade de Harvard, em 1952 e 1953, mais tarde reunidas no volume i: six nonlectures (Cambridge: Harvard University Press, 1953).

Há uma passagem, na quarta nonlecture, em que Cummings inclui um excerto de artigo dedicado à figura e trabalho de Ezra Pound. Mostro aqui uma tentativa de tradução, e recomendo muito a leitura do trabalho todo, especialmente para os que amam Edward Estlin Cummings, ou, como o conhecemos, o maiúsculo e.e. cummings.


§ - da nonlecture 4


"Re: Ezra Pound - acontece que a poesia é uma arte; e acontece que artistas são seres humanos.

Um artista não vive em alguma abstração geográfica, sobreposta a uma parte desta linda terra pela desimaginação de inanimais e dedicada à proposição de que o massacre é uma virtude social porque o homicídio é um vício individual. Nem vive o artista em algum
soi-disant mundo,nem vive ele em algum tal de universo, nem vive em um número x de "mundos" ou em qualquer número x de "universos". Quanto a algumas fantasias pífias como "passado" e "presente" e "futuro" da abraspas humanidade fechaspas, elas podem ser grandes bastante para um par de bilhões de subidiotas supermecanizados mas elas são pequenas demais para um ser humano.

O país estritamente ilimitado de todo artista é ele mesmo.

Um artista que falseie este país comete suicídio; e mesmo um bom advogado não pode matar os mortos. Mas um ser humano veraz consigo mesmo – quem quer que seja este si-mesmo – é imortal; e todos as bombas atômicas de todos os antiartistas no espaçotempo jamais civilizarão a imortalidade."



(tradução de Ricardo Domeneck, excerto da nonlecture de número 4)


§


Outro trecho da mesma despalestra:


§ - da nonlecture 4


"Pessoas simples,pessoas que não existem,preferem coisas que não existem,coisas simples. `Bom´ e `mau´ são coisas simples. Você me bombardeia = `mau´. Eu bombardeio você = `bom´. Pessoas simples(que, a propósito, mandam neste tal de mundo)sabem disso(eles sabem tudo)enquanto que pessoas complexas – pessoas que têm sentimentos – são muito, muito ignorantes e verdadeiramente nada sabem.

Nada, para pessoas simples cultas, é mais perigoso que a ignorância. Por quê?

Porque sentir é estar vivo.

...

Por pura sorte para você e para mim,o sol nada civilizado misteriosamente brilha tanto sobre os `bons´ como sobre os `maus´. Ele é um artista.

A arte é um mistério."




§ - da nonlecture 2

--- sobre a oposição entre ser e fazer ---


"Eu estou perfeitamente consciente de que, onde quer que nossa tal de civilização tenha escorregado e caído, há todo tido de prêmio e punição nenhuma a quem quer não-ser. Mas se a poesia é seu objetivo, você tem que esquecer tudo sobre punições e tudo sobre prêmios e tudo sobre autoestilizadas obrigações e deveres e responsabilidades etc ad infinitum e lembrar-se de uma só coisa: que é você - ninguém mais - quem determina e decide seu destino. Ninguém mais pode estar vivo por você; nem você pode estar vivo por outra pessoa. Joãos podem ser Josés e Josés podem ser Joãos, mas nenhum deles jamais poderá ser você. Aí está a responsabilidade do artista; e a mais terrível responsabilidade sobre a terra. Se você acha que aguenta, aguente e seja. Se não, anime-se e vá cuidar da vida dos outros; e faça (ou desfaça) até cair."


§ - ainda da nonlecture 2

(proferida em 1952, parece escrita para tempos de redes sociais no século XXI)


"Vocês não têm a menor ou mais vaga concepção do que é serestar aqui, e agora, e a sós, e ensimesmos. Por que (vocês perguntam) alguém deveria querer estar aqui, quando (com o simples apertar dum botão) qualquer um pode estar em cinquenta lugares ao mesmo tempo? Por que alguém deveria querer ser agora, quando qualquer um pode ir quandando por toda a criação num girar de manivela? O que poderia induzir alguém a desejar sozinhez, quando bilhões de soi-disant dólares são misericordiamente desperdiçados por um bom e grande governo para evitar que qualquer onde quer que jamais esteja um instante qualquer só? Quanto a ser você mesmo - por que diabos ser você mesmo; quando em vez de ser você mesmo você pode ser centenas, ou milhares, ou centenas de milhares de outras pessoas? A simples ideia de ser-se a si mesmo em uma época de eus intercambiáveis deve parecer supremamente ridícula.

Muito que bem: mas, no que diz respeito a mim mesmo, poesia e qualquer outra arte foram e são e sempre serão estritamente e claramente uma questão de individualidade."


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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Postagem celebratória para Alaíde Costa


Não há muito o que dizer. Apenas o espanto de que o Brasil não tenha tratado esta mulher como a rainha que ela é.

Sua interpretação para "Me deixa em paz", de Monsueto e Airton Amorim, uma das minhas all-time-favorites, é simplesmente linda demais.





Alaíde Costa canta "Me deixa em paz", com Milton Nascimento


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Alaíde Costa canta "Ilusão à toa", com Johnny Alf


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Alaíde Costa canta "Insensatez" (incompleto)


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Alaíde Costa canta "Entrada do sertão"


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Gravação de Alaíde Costa para "Catavento"


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Gravação de Alaíde Costa para "Igrejinha"



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Gravação de Alaíde Costa para "Judiarias"

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domingo, 31 de julho de 2011

Comentários a um poema recente e a resposta a uma crítica malcriada e anônima




Na terça-feira passada, 26 de julho de 2011, publiquei neste espaço um poema recente, intitulado "O solteiro mais cobiçado do mundo", que parte da história de Cesárion, filho de César e de Cleópatra. Nos dias que se seguiram, recebi alguns comentários e conversei sobre o poema com algumas pessoas que respeito.

O poeta paulista Érico Nogueira me escreveu, por exemplo, comentando as inconsistências em minha grafia para os nomes das personagens históricas, aportuguesando uns e não outros. Após conversar com ele sobre algumas possibilidades, decidi que era realmente melhor usar a grafia em português para todos os nomes, e acatei algumas de suas sugestões, como mudar Caesarion para Cesárion, e, o que me agradou particularmente, sua sugestão de usar para Thea Filopator, o "sobrenome" de Cleópatra, a versão Diva Filopátor. Agradeço a ele, aqui, por suas sugestões.

Em outra mensagem, o poeta gaúcho Marcus Fabiano apontou para a possível inconsistência em usar, na linha "César ou meteco", referências a uma personagem histórica latina e a um conceito político da pólis grega. Após pensar a respeito, percebi que ele tinha razão, e que realmente havia espaço para esta interpretação, gerando mesmo uma mistura questionável, especialmente com a linha seguinte – "rei ou plebeu" – que cria uma equiparação historicamente mais plausível. Decidi mudar a primeira linha para "cidadão ou meteco". Agradeço a Marcus Fabiano por apontar esta inconsistência em aberto.

Marcus Fabiano também me perguntou se o poema dialogava ou partia de Kaváfis. Disse a ele que, ao escrevê-lo, eu tinha mais em mente a maneira como o poeta polonês Zbigniew Herbert e o alemão Heiner Müller usavam personagens e material histórico clássico, muitas vezes já trabalhados por outros. É claro que isso é forte em Konstantinos Kaváfis, mas no caso do grego trata-se de sua própria História, o que o leva a um tratamento do material razoavelmente diferente, pois ele pode assumir de forma mais plácida que seus leitores sabem do que ele está falando.

Esta semana, como acontece com certa frequência, recebi um comentário anônimo aqui no blogue. Na maioria dos casos, trata-se apenas de alguém incomodado ou irritado com minha existência e o oxigênio que a pessoa crê que eu desperdiço, tentando me ofender com comentários homofóbicos ou de outras categorias, comentários que eu regiamente ignoro. O último comentário, no entanto, comentava o poema e fazia uma crítica negativa a ele, e, apesar de seu tom malcriado e deselegante, aliado à falta de hombridade de assiná-lo, eu achei que valia a pena responder aqui, em uma postagem, pois a discussão pode ser interessante.

Primeiramente, confesso que jamais vou entender a prática de deixar comentários anônimos em blogues ou páginas alheias. Não entendo alguém que se interesse tanto pelo meu trabalho a ponto de ler meu blogue e ainda por cima fazer críticas, mas sem identificar-se. Em minha opinião, a assinatura é uma questão de hombridade, como disse acima (sim, estou assumindo que o comentarista seja do sexo masculino. Posso estar errado, mas me parece atitude típica de macho-alfa). Além do mais, como em geral trata-se obviamente de outro poeta, seria muito educativo para mim, por exemplo, ler o trabalho da pessoa para saber que parâmetros implícitos segue.

Não importa. Vamos ao comentário. Eis a opinião malcriada de meu leitor anônimo sobre o poema "O solteiro mais cobiçado do mundo":


"Kaváfis reciclado em poema prolixo e cabotino. Teus `reflexos´ históricos são intragáveis. Teu corpo não urge que volte a versar?"


Vejamos, por partes.


§ - Kaváfis


O poeta de Alexandria tratou de Cesárion em dois poemas, "Reis alexandrinos" e "Caesarion" (fáceis de encontrar na Rede), este diretamente dedicado ao jovem rei.

Neste último, após narrar sua leitura de epigramas compostos durante a Dinastia Ptolomaica, Kaváfis relata sua descoberta de uma pequena menção a Cesárion, que o leva a sua usual prática do louvor dos mancebos, sua própria reciclagem do tema do erômenos, sua imaginação do corpo e presença do jovem rei de 17 anos, como ele fez em tantos poemas maravilhosos sobre suas lembranças e encontros furtivos com jovens de Alexandria, mas apontando, neste caso, a uma discussão sobre a sede de poder que leva a assassinatos. Ele encerra com uma frase que Plutarco teria atribuído ao filósofo estóico Arius Didymus (creio que Ário Dídimo em português), supostamente dita a Otaviano para convencê-lo da necessidade do assassinato de Cesárion: "Não é bom haver Césares demais". Por sua vez, a linha seria um jogo de palavras com um verso de Homero.

É um lindo poema, sugiro a sua leitura neste link, em tradução para o inglês. No outro poema, intitulado "Reis alexandrinos", Kaváfis retorna a Cesárion, discutindo o vazio das pompas reais, tomando a passagem em que os filhos de Cleópatra são coroados em Alexandria. Os poemas são puro Kaváfis, sem minhas catulizações gender-sarcastic e chistes fisiológicos. Recomendo muito sua leitura.


§ - Reciclado.


Caso o comentarista veja a abordagem de temas clássicos já tratados como um problema, sinto muito por seus hábitos de leitura. O próprio Kaváfis foi mestre na reciclagem de temas. Escreveu sobre personagens e assuntos que já haviam sido tratados por outros poetas. Parece-me razoavelmente ridículo acreditar que nenhum poeta mais possa escrever sobre Cesárion, ou, por sua vez, sobre outras personagens, como Antínoo, Eleanor de Aquitânia e Ana Bolena (para citar algumas personagens que me fascinam e sobre as quais tenho escrito), ou qualquer outro, porque já se escreveu sobre eles. Quantos poemas foram escritos sobre Cleópatra e César, ou sobre Calígula e Cláudio, por exemplo? Isso, eu creio, não inutiliza poemas como os de Zbigniew Herbert, que reciclou vários temas clássicos para poder driblar a censura do regime comunista de seu país, ou as maravilhosas "reciclagens" de Heiner Müller para temas clássicos. O deles é o que gosto de chamar de "uso saudável e funcional da erudição".

Sinceramente, não sinto sequer a necessidade de acrescentar uma nota ao poema, informando que o tema já foi tratado por Kaváfis. Fica para os interessados em intertextualidade. Meu tratamento é obviamente diferente, e, como apontou um amigo, talvez muito mais próximo de Catulo que de Kaváfis. Pessoalmente, continuo achando que o poema deve MUITO MUITO MUITO mais a Zbigniew Herbert e Heiner Müller (aqui o agradecimento e louvor póstumo a estes meus dois mestres), em níveis mais profundos que o da "temática". Não sei se meu caro leitor anônimo conhece estes poetas, pouco traduzidos para o português.


§ - Prolixo.


Há um problema crítico sério no Brasil, que eu creio ter relação com este incômodo de meu caro leitor malcriado e anônimo. Trata-se da maneira como se confunde o "discursivo" com o "prolixo". É um equívoco sem tamanho, em minha opinião, tomar a discursividade como valor negativo em si, e a antidiscursividade como valor positivo. Nada há na História da Literatura que sustente esta visão. Agora, é bem certo que não posso assumir que nosso comentarista sofra deste defeito crítico. Talvez ele saiba bem a diferença entre o discursivo e o prolixo e veja versos e palavras realmente desnecessárias em meu poema. Talvez ele não esteja entre os que creem que seja um defeito ser capaz ainda de versejar em sentenças completas. Espero que ele não esteja entre os que acreditam que jogar algumas palavras desconexas sobre a página garanta a concisão. Me parecem problemas que ocorrem com quem leva muito ao pé da letra a velha história de que "importa mais o que o poeta deixa de dizer do que aquilo que ele realmente diz". É que eu gosto muito de escrever, sabe?

Deixo a meus leitores, anônimos ou não, julgar se meu poema, conscientemente discursivo, acaba sendo prolixo.

Eu tinha um efeito bastante específico em mente, e procedi de acordo, além do mais, com meu interesse por textos mais tesos que necessariamente concisos.

Vale a pena retornar, por exemplo, ao poema de Kaváfis. O grego o intitula com o nome de Cesárion, deixando claro desde o começo a quem se refere. Ora, Kaváfis era conterrâneo de Cesárion. Escreveu seu poema em grego e em Alexandria, onde ocorre a história. Ele pode simplesmente assumir que seus leitores saibam exatamente de quem e do que ele está falando.

Ao começar a ler meu poema, propositalmente intitulado com ares de revista de fofoca contemporânea (tento imaginar Kaváfis intitulando um poema "O solteiro mais cobiçado do mundo" e sou obrigado a sorrir um pouco), o leitor não sabe se o texto tratará de alguém como Cesárion ou, digamos como exemplo, o jovem modelo Francisco Lachowski, que tem a cara e o corpo que eu gosto de imaginar em Cesárion quando penso nele, ainda que meu poema não tenha tratado Cesárion como erômenos imaginário. Ok, talvez um pouquinho, mas é porque, como disse, sempre o imagino com a cara e o corpo de Francisco Lachowski.

Escrevendo em português e em 2011, a mim interessava compor o poema de tal maneira que ele "instrumentalizasse" qualquer leitor a entendê-lo, já durante a leitura, sem a necessidade da busca exterior de informação. Ninguém precisa saber quem foi Cesárion para ler o poema. Ao contrário, depois de ler o poema, passa a saber quem foi caso não soubesse. A alguns isso parecerá demasiado didático, algo também visto como problemático, mas faz parte do jogo.



§ - Cabotino.


O que talvez tenha parecido cabotino ao meu leitor anônimo e deselegante é que eu retorne a tal tema com implicações quiçá muito menos nobres e universais que as do mestre Kaváfis, pois aponto para nossa atual idolatria de celebridades que também assumem características divinizáveis, começando pelo uso do meu título, "O solteiro mais cobiçado do mundo", que poderia facilmente ser o título de um artigo de revista de fofoca qualquer. Acabo misturando a isso ainda minha discussão de certas questões políticas de gênero, como meu tratamento algo obsessivo e sarcástico da cultura do macho-alfa e seus delírios desejosos de épicos. Talvez meu uso do tema seja mesmo cabotino para algumas sensibilidades, talvez justamente por ter escondido, por contrabando, estas discussões políticas contemporâneas em um tema "nobre". Não sei se nosso ranzinza anônimo chama o poema de cabotino por ver nele uma piada de mau gosto ou exibição arrogante de conhecimento. Eu certamente entendo muito mais de cigarros, café e da anatomia masculina que da História Clássica, talvez devesse ter realmente voltado a Kaváfis e sua nostalgia do erômenos (algo que já fiz várias vezes), mas não será isso que limitará meus temas.


§ - "Teus `reflexos´ históricos são intragáveis."


Gostei deste toque, "reflexos" em vez de "reflexões", muito esperto e divertido o seu sarcasmo. Quem sabe, se meu trabalho não o incomodasse tanto, nós até pudéssemos tomar um uísque um dia, discutindo vivamente nossas visões provavelmente opostas sobre poesia?

Mas, ora, meu querido leitor anônimo, tudo o que posso sugerir, se você considera meus "reflexos" históricos intragáveis, é que você não leia meu trabalho. Este é meu blogue pessoal e eu não sou leitura obrigatória.



§ - "Teu corpo não urge que volte a versar?"


Esta é, na verdade, a única pergunta que você fez, já que você veio ao meio espaço pessoal para pontificar sobre sua opinião acerca do meu poema. Respondo-a:

Não.

Meu corpo não sente a menor urgência de "voltar" (significa que versei no passado?) a versar. Sabe Deus o que você quer dizer com isso, já que eu não sei quem você é e muito provavelmente ignoro o seu trabalho se o conheço.

Nunca houve como nas duas últimas décadas um divórcio tão gigantesco entre os poetas e prosadores brasileiros. É realmente algo inédito, já escrevi sobre isso, mencionando-o por exemplo em um ensaio a sair pela Fundação Casa de Rui Barbosa, cheio de meus "reflexos" históricos intragáveis.

Já deve ter ficado claro que eu não estou interessado em uma visão da poesia como gênero puro. Estou interessado em textos, cobrindo ou não a página de margem a margem, desde que sejam tesos. Não considero antidiscursividade um valor positivo em si, apenas no contexto do texto e dos efeitos que busca, dos parâmetros que segue. Kaváfis, mestre mestre mestre, é discursivo. Muito tênue a linha entre prosa e poesia em poetas como o alexandrino, ou como o polonês Zbigniew Herbert, ou como o alemão Heiner Müller.

Por fim, quero deixar muito claro que estou completamente aberto a críticas e sugestões, como as que Érico Nogueira e Marcus Fabiano fizeram. Nem acho que meu poema seja perfeito ou divino maravilhoso. Acho que é um poeminhazinho bastante decente e apresentável.

Aqui está sua resposta pública, ainda que você não a tenha feito de maneira aberta. Você, ao que me parece, está entre os críticos da poesia contemporânea hoje mais interessados nas reputações poéticas contemporâneas que veramente na poesia contemporânea. Ler crítica de poesia contemporânea hoje no Brasil é como ler apreciações de carreiras, não de obras. Tenho me esforçado para não cair nesta armadilha, e, caso você acompanhe meus "reflexos" históricos intragáveis também na Modo de Usar & Co., a próxima postagem será sobre o trabalho recente do jovem e seu, meu, nosso contemporâneo Ismar Tirelli Neto.

Espero que a resposta o satisfaça. Volte sempre, se o seu gag reflex o permitir. Talvez tenhamos outras coisas em comum, mesmo que, diferentemente de você, não me falte hombridade.


do seu histórico-reflexivo intragável,

Ricardo Domeneck.


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Traduções para alguns poemas de Erich Fried

POEMAS DE ERICH FRIED
Traduções minhas, tomando algumas liberdades,
preparadas para a Modo de Usar & Co.


Ela

Ela devora seus filhos
ela bebe o sangue de seus mortos
ela prega aos surdos
ela desconhece valores superiores

Ela perde o caminho
ela cambaleia de traição em traição
de erro em erro
ela dorme nas derrotas

Que ela é desnecessária
toda criança aprende na escola
que o povo não a deseja
finalmente percebeu o povo

Que ela não pode vencer
foi provado por a + b
Os que o provaram
não dormem muito bem

Os que nela creem
cansam-se às vezes com as dúvidas
alguns que a odeiam
sabem que ela está a caminho


:

Sie

Sie frisst ihre Kinder
sie trinkt das Blut ihrer Toten
sie predigt den Tauben
sie kennt keine höheren Werte

Sie vergisst ihren Weg
sie wankt von Verrat zu Verrat
von Fehler zu Fehler
sie schläft in den Niederlagen

Dass sie unnötig ist
lernt jedes Kind in der Schule
dass das Volk sie nicht will
hat das Volk sich endlich gemerkt

Dass sie nicht siegen kann
ist zehnmal genau bewiesen
die es bewiesen haben
schlafen nicht gut

Die an sie glauben
sind manchmal müde von Zweifeln
einige die sie hassen
wissen sie kommt.


§


Pederastia como arma

Ao garoto que conhecera no cinema
confessou André Gide
na cama ou pela manhã
depois de uma longa noite de sexo:

Você pode dizer aos seus amigos
que você dormiu com um homem famoso
com um escritor
Meu nome é François Mauriac


:


Päderastie als Waffe

Den Knaben die er im Kino getroffen hatte,
gestand André Gide
im Bett, oder am Morgen
nach einer durchliebten Nacht:

Du kannst deinen Freunden sagen,
du hast mit einem berühmten Mann geschlafen,
mit einem Schriftsteller.
Mein Name ist François Mauriac.


§


Limite do desespero


Eu tenho tanto amor por você
que já nem sei mais
se tenho por você tanto amor
ou se tenho mesmo é medo

se tenho mesmo é medo de ver
o que sem você
sobraria de minha vida
ainda em vida

Para que ainda me lavar
para que desejar a saúde
para que ter curiosidades
para que escrever

para que ainda querer ajudar
para que da corrente de mentiras
e horrores ainda irradiar a verdade
sem você

Talvez sim porque você existe
e outros seres ainda
como você haverá
e isso tudo também sem mim


:


Grenze der Verzweiflung

Ich habe Dich so lieb
daß ich nicht mehr weiß
ob ich Dich so lieb habe
oder ob ich mich fürchte

ob ich mich fürchte zu sehen
was ohne Dich
von meinem Leben
noch am Leben bliebe

Wozu mich noch waschen
wozu noch gesund werden wollen
wozu noch neugierig sein
wozu noch schreiben

wozu noch helfen wollen
wozu aus den Strähnen von Lügen
und Greueln noch Wahrheit ausstrählen
ohne Dich

Vielleicht doch weil es Dich gibt
und weil es noch Menschen
wie Du geben wird
und das auch ohne mich


§


Naturalização

Mãos brancas
cabelos ruivos
olhos azuis

Pedras brancas
sangue ruivo
lábios azuis

Ossos brancos
areia ruiva
céu azul

:

Einbürgerung

Weisse Hände
rotes Haar
blaue Augen

Weisse Steine
rotes Blut
blaue Lippen

Weisse Knochen
roter Sand
blauer Himmel



§


Canta-se

Canta-se
de medo
contra o medo.

Canta-se
de fome
contra a fome.

Canta-se
do tempo
contra o tempo.

Canta-se
do pó
contra o pó.

Canta-se
sobre os nomes
a fazer dos nomes o inominável.


:


Einer singt

Einer singt
aus Angst
gegen Angst


Einer singt
aus Not
gegen Not

Einer singt
aus der Zeit
gegen die Zeit

Einer singt
aus dem Staub
gegen die Staub

Einer singt
von den Namen
die Namen namenlos machen



Nota: A palavra alemã Not seria o equivalente a necessidade ou emergência, mas usei fome para manter a concisão.



§


Conflitos entre únicos herdeiros

Meu Marx arrancará as barbas
do teu Marx

Meu Engels quebrará os dentes
do teu Engels

Meu Lênin partirá os ossos
do teu Lênin

Nosso Stálin fuzilará a nuca
do vosso Stálin

Nosso Trótski rachará o crânio
do vosso Trótski

Nosso Mao afogará no Iansequião
vosso Mao

para que ele saia do caminho
da vitória


:


Konflikte zwischen Alleinerben

Mein Marx wird deinem Marx
den Bart ausreißen

Mein Engels wird deinem Engels
die Zähne einschlagen

Mein Lenin wird deinem Lenin
alle Knochen zerbrechen

Unser Stalin wird eurem Stalin
den Genickschuss geben

Unser Trotzki wird eurem Trotzki
den Schädel spalten

Unser Mao wird euren Mao
im Jangtse ertränken

damit er dem Sieg
nicht mehr im Wege steht



§

As mentiras de pernas curtas

As
pernas
das
grandes
mentiras
não
são
sempre
tão
curtas

Mais
curtas
são
mesmo
as
vidas
dos
que
nelas
creram


:


Die Lüge von den kurzen Beinen

Die
Beine
der
grösseren
Lügen
sind
gar
nicht
immer
so
kurz

Kürzer
ist
oft
das
Leben
derer
die
an
sie
glaubten



§


Falta de humor

Os moleques
jogam
de brincadeira
pedras
nos sapos

Os sapos
morrem
de verdade

:

Humorlos

Die Jungen
werfen
zum Spass
mit Steinen
nach Fröschen

Die Frösche
sterben
im Ernst


§


O que é

É louco
diz a razão
É o que é
diz o amor

É desastroso
diz o cálculo
É só dor
diz o medo
É desesperado
diz a inteligência
É o que é
diz o amor

É ridículo
diz o orgulho
É inconsequente
diz o cuidado
É impossível
diz a experiência
É o que é
diz o amor

:


O poema, lido pelo autor.


Was es ist

Es ist Unsinn
sagt die Vernunft
Es ist was es ist
sagt die Liebe

Es ist Unglück
sagt die Berechnung
Es ist nichts als Schmerz
sagt die Angst
Es ist aussichtslos
sagt die Einsicht
Es ist was es ist
sagt die Liebe

Es ist lächerlich
sagt der Stolz
Es ist leichtsinnig
sagt die Vorsicht
Es ist unmöglich
sagt die Erfahrung
Es ist was es ist
sagt die Liebe



Nota: Tomei a liberdade na escolha de usar adjetivos em vez de substantivos, porque me parece muito mais próximo do que falaríamos em português. Quis também buscar soluções diferentes das de tradutores anteriores. Escolhi "desastroso" para "Unglück", pois a palavra traz, em um dicionário, o significado de "infelicidade", mas, na linguagem coloquial alemã,"Unglück" é muito usado no sentido de "Unfall" e "Katastrophe", como em acidentes de automóvel.


§




Erich Fried foi um poeta austríaco, nascido em Viena a 6 de maio de 1921. É um dos mais respeitados tradutores de Shakespeare para a língua alemã, conhecido por sua poesia política e sem dúvida o poeta lírico mais popular da língua no pós-guerra.

Cresceu na capital austríaca, no seio de sua família judia. Em 1938, após a anexação da Áustria pelo Terceiro Reich, seu pai morre depois de um "interrogatório" na sede da Gestapo. O poeta decide emigrar, passando pela Bélgica e estabelecendo-se em Londres, onde viveria vários anos. Durante a Guerra, funda na capital inglesa um grupo de auxílio à emigração de judeus da Áustria, conseguindo, entre tantos outros, salvar a vida de sua mãe. Com 23 anos, em 1944, publica seu primeiro livro, com poemas de resistência ao regime fascista, intitulado Deutschland, ao qual se seguiria outro, dedicado desta vez aos crimes de seu país, intitulado Österreich (1945). Em 1962, retornou a Viena, e no ano seguinte torna-se membro do influente Grupo 47, que viria a marcar o início da carreira de alguns dos mais importantes poetas e romancistas germânicos do pós-guerra com seu prêmio, concedido a Günter Eich, Heinrich Böll, Ilse Aichinger, Ingeborg Bachmann, Adriaan Morriën, Martin Walser, Günter Grass, Johannes Bobrowski, Peter Bichsel e Jürgen Becker.

Em 1977, Erich Fried torna-se professor da Universidade de Giessen, mas logo vê-se envolto em tumulto e críticas por suas declarações sobre a conjuntura política alemã, sendo até mesmo processado após um artigo em que chamava a morte do anarquista Georg von Rauch (1947 - 1971), em um confronto com a polícia em Berlim, de assassinato.

Após anos de escrita política, Erich Fried publica a coletânea de poesia amorosa Liebesgedichte (1979), que se tornaria a mais popular coletânea de poemas do pós-guerra. Mesmo em casas alemãs onde nenhum outro livro de poesia pode ser encontrado nas estantes, é possível encontrar com frequência dois livros: o Buch der Lieder, de Heinrich Heine, e Liebesgedichte, de Erich Fried. A este, se seguiria outro livro de poesía lírica amorosa, chamado Es ist was es ist (1983), com poemas que seriam musicados e se tornariam também bastante conhecidos. Erich Fried morreu em Baden-Baden, a 22 de novembro de 1988, em decorrência de um câncer.

Para um leitor brasileiro, a poesia de Erich Fried soará familiar e poderá ligar-se à de modernistas como Manuel Bandeira (1886 - 1968) e Oswald de Andrade (1890 - 1954). No entanto, com a exceção de certos poemas esparsos de Gottfried Benn (1886 - 1956), especialmente em Morgue (1912), poemas escritos por Bertolt Brecht (1898 - 1956) no seu exílio em Los Angeles durante a Guerra, assim como nos dadaístas (que permaneceram marginais ao cânone) Hans Arp (1886 - 1966) e Kurt Schwitters (1887 - 1948), apenas no Pós-Guerra o uso do coloquial e de certo realismo prosaico se tornariam mais praticados na língua alemã, com poetas como Günter Eich (1907 - 1972), Ernst Jandl (1925 - 2000) ou H.C. Artmann (1921 - 2000). Outros poemas lembrarão a poética esparsa da poesia concreta e neoconcreta.

Traduzi alguns destes poemas há muito tempo, por prazer. Esta postagem não tem a ambição de introduzir um poeta que traga novas técnicas à poesia brasileira contemporânea, mas a de apresentar a um público brasileiro um dos poetas mais amados da língua alemã, com textos cheios de humor e de uma sensibilidade lírica extremamente delicada. Um poeta que esteve fincado em seu tempo e, mais de duas décadas depois de sua morte, ainda é cantado... literalmente cantado. Que ambição maior pode ter um poeta?



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sábado, 30 de julho de 2011

Uma das performances mais sinceras da qual a História da Humanidade possui um registro.

Alguém diga às sereias da catástrofe, por favor, que enquanto uma pessoa específica couber e de repente não mais couber nos braços de outra pessoa que quer apenas a especificidade daquele corpo daquele cheiro, haverá poesia lírica. Dedicada a todos os que não têm medo de, como dizem os americanos em tom de sarro, wear their hearts on their sleeves. É mesmo uma sensação de incredulidade, querida Nina, what a shame to have to write a song like that!

"I do not believe the conditions that produce a situation that demanded a song like that!"
- Nina Simone.



Nina Simone canta "Feelings", de Loulou Gasté/Morris Albert

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terça-feira, 26 de julho de 2011

"O solteiro mais cobiçado do mundo"





O solteiro mais cobiçado do mundo


Era um jovem com o mais promissor
dos futuros. Nascido em um império,
dele herdeiro. Cresceu entre duas
capitais do que chamamos de "alta
cultura", com esta naturalidade nossa
de quem salta cadáveres por pressa,
cidades-clímax, feitas de sonhos
de proporções magníficas, ou, talvez,
praticamente maníacas. Gerado
no útero da mulher, dizia-se,
mais linda do mundo, o pai,
alega-se no mesmo tom superlativo,
o todo-poderoso dentre os homens
sobre a Terra conhecida. Este menino
e logo rapaz, com futuro do qual
se esperava nada menos que o gigante
e o mamute, tão promitente, era filho
de deuses, nada menos que organismo
divinizável. Em suas veias
desaguavam o Tibre e o Nilo,
em suas glândulas se agitava
o Mediterrâneo. Quem
duvidaria que seus genes
eram estopa e estofo para Homeros,
Virgílios? O que poderia impedi-lo
de tornar-se maior que Alexandre,
o Grande? O que deteria o destino
ainda pubescente deste futuro
macho-alfa supremo do planeta?
Não se sabe se ele herdou os traços
afrodisíacos da mãe (que cria,
porém, ser encarnação de Ísis), se
herdou o jeito de Marte do pai (que
por sua vez cria encarnar Roma). Isso
tudo foi há muito tempo. Cesárion,
filho de Caio Júlio César
e Cleópatra Diva Filopátor,
tem 17 anos, é uma fonte
da qual jorram testosterona
e sonhos, em suas coxas
habita toda uma dinastia.
Mas Cesárion, dezessete
anos de idade, um dia (há não
tanto tempo) o feto mais
promissor do futuro,
será morto hoje
por ordens de Otaviano,
seu irmão adotivo,
o futuro Augusto.
Talvez fruto
e exemplo da velha batalha
entre ornamento e função,
limite fisiológico de tudo
o que é idealizado,
sabemos que coroa
alguma jamais
protegeu
qualquer pescoço
e cidadão ou meteco,
rei ou plebeu,
alguém entre vocês
ainda tem dúvidas
sobre quais as relações
entre promessa e futuro?



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domingo, 24 de julho de 2011

A Bénédicte de Laura Erber e seu diálogo com Péret

Laura Erber

A poeta carioca Laura Erber (n. 1979) lançou há pouco um livro virtual pela Editora da Casa, intitulado Bénédicte vê o mar. A publicação virtual traz uma pequena apresentação da autora, e uma orelha assinada por Angélica Freitas. É a publicação mais recente da poeta, também artista plástica, desde seu lançamento duplo em 2008, quando a mesma Editora da Casa lançou Vazados & Molambos (Florianópolis: Editora da Casa, 2008), e também veio a lume no Brasil a edição bilíngue português/inglês de Os corpos e os dias (São Paulo: Editora de Cultura, 2008), originalmente lançado na Alemanha em 2006, com tradução de Timo Berger para o alemão. Escrevi sobre os dois livros aqui: http://ricardo-domeneck.blogspot.com/2009/03/dois-livros-de-laura-erber.html

Este Bénédicte vê o mar foi composto ao lado de vários desenhos de Laura Erber diretamente no iPad, formando um trabalho que conjuga o gráfico e o textual. O título é um jogo sonoro com o nome da poeta portuguesa de origem belga Bénédicte Houart, a quem o trabalho é dedicado. Não apenas os poemas como os próprios desenhos parecem dialogar com o trabalho tão simples e direto de Houart.

Esta Bénédicte de Erber se move dentro da consciência do que não parece ser biografável, mas é, no entanto, biodegradável, como ela escreve num dos poemas. Trata-se de uma poesia que aceita a pobreza dos nossos recursos, e poderá desagradar os que buscam o grandioso indizível. Esta personagem que vive no porão de uma marmoraria me fez, em alguns momentos, pensar em "Nevers", a personagem francesa do filme Hiroshima Mon Amour (1959), escrito por Marguerite Duras e dirigido por Alain Resnais, com sua passagem pelo porão da casa, nos dias em que ela foi "jovem e louca em Nevers, louca de amor". Não sei o que levou a Bénédicte de Erber ao porão, mas cedo ou tarde todos nós passamos por ele.

Convido vocês a lerem o que ela escreve dos fundos da marmoraria, visitando a página da Editora da Casa:




Além do livro Bénédicte vê o mar, queria mostrar a vocês a bela tradução que Erber fez de um poema de Benjamin Péret, postada já há alguns dias na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co.:


OS MORTOS E SUAS CRIANÇAS
Benjamin Péret, do livro Le Grand Jeu, 1928

Se eu fosse alguma coisa
não alguém
diria aos filhos de Édouard
providenciem
e se eles não providenciassem
eu iria para a floresta dos reis magos
sem galochas e sem ceroulas
como um eremita
e haveria certamente um grande animal
sem dentes
com plumas
e redondo como um vitelo
que viria uma noite devorar minhas orelhas
Então deus me diria
você é um santo entre os santos
pegue este automóvel
O automóvel seria sensacional
oito cilindros e dois motores
e no centro uma bananeira
que camuflaria Adão e Eva
fazendo

mas isso será objeto de outro poema

(tradução de Laura Erber)

§

O que não mostramos por lá, no entanto, e que tomo a liberdade de mostrar aqui, é o poema que Erber desentranhou do poema de Péret, intitulado "Velho oeste":



VELHO OESTE
Laura Erber

se eu fosse um outdoor
não alguém
diria aos netos de Édouard
esqueçam
e se eles não esquecessem
eu pegaria um avião para a Amazônia peruana
sem galochas e sem etnógrafos-linguistas
como um eremita
e haveria certamente
um bando de crianças
sem dentes
com plumas
revirando os cabelos
de suas mães
trôpegas
redondas
como um aniversário de morte
e viriam de noite
me pedir dinheiro
e remédios para o piriri
então deus adormeceria
sem dizer
“pegue este automóvel”
e o automóvel teria sido
híbrido e o couro escarlate
e de um lado e do outro da estrada
bananeiras camuflariam
o espetáculo surpreendente
da copulação dos zumbis



Encerro com uma entrevista da poeta e artista plástica, que passou uma temporada em Copenhague, onde pesquisou e escreveu sobre o trabalho do cineasta Carl Theodor Dreyer (1889 – 1968). Concedida ao Arquivo Dreyer, ela discute sua pesquisa:





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