terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sobre a poesia de João Apolinário

João Apolinário foi um poeta português, nascido a 18 de janeiro de 1924 em Sintra. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra e Lisboa e trabalhou também como jornalista, indo com 21 anos para Paris como correspondente da Agência Logos, permanecendo na França durante a Segunda Guerra. Estreou em livro como poeta com o volume Morse de Sangue (1955), composto na prisão por sua resistência antifascista ao regime de António Salazar. Em 1963, exilou-se no Brasil, vivendo e trabalhando em São Paulo, onde escreveu para o jornal Última Hora e fundou, com outros jornalistas, a APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte. Publicou ainda os livros Primavera de Estrelas, Apátridas, AmorfazerAmor, Poemas Cívicos e Eco Humus Homem Lógico, entre outros. Retornou a Portugal em 1975, após a Revolução dos Cravos. João Apolinário morreu a 22 de outubro de 1988, na pequena vila portuguesa de Marvão.

Sua posição na poesia lusófona do pós-guerra é curiosa. Talvez esteja entre os mais desconhecidos poetas da língua, e, ao mesmo tempo, alguns de seus poemas estão entre os mais famosos das últimas décadas, graças ao trabalho musical de seu filho, o cantor e compositor João Ricardo, que musicou vários dos poemas do pai, primeiro com o grupo Secos e Molhados (1973 - 1974) e depois em sua carreira solo. Seria interessante partir de seu trabalho para discutir as diferenças entre as mentalidades críticas que regem a tradição da poesia oral e da poesia escrita. Na tradição oral, o poema pertence tanto a quem o escreve como a quem o vocaliza, a partir da tradição do jongleur provençal ou do imbongi africano, tradição dos intérpretes, aquela que Paul Zumthor discute em sua Introdução à Poesia Oral (1983), livro fundamental para quem queira discutir as relações entre poesia escrita e oral.

Um dos poemas de João Apolinário musicados por João Ricardo demonstra o talento poético do português e está entre meus favoritos. Formado por dois quartetos, o poema "Primavera nos dentes" oscila entre o trobar leu e a sofisticação da wit de um poeta metafísico inglês do século XVII.

Primavera nos dentes
João Apolinário

Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera


Se os versos iniciais beiram o vaticínio, são seguidos por imagens poderosas, como os magistrais "E no centro da própria engrenagem / Inventa a contra-mola que resiste", expondo toda uma possibilidade de resistência est-É-tica em meio ao sistema capitalista, sem mencionar a força expressionista dos versos "E envolto em tempestade decepado / Entre os dentes segura a primavera." Apoderados pela vocalidade de Ney Matogrosso em uma das canções mais fortes do grupo, este poema atinge toda a sua poeticidade:



O poema sustenta-se em sua própria materialidade sígnica, em minha opinião, mas assume poderes novos ao habitar a sua vocalidade implícita. Um texto como "Primavera nos dentes" conecta João Apolinário à tradição dos Poetas Goliardos, ou de germânicos como Heinrich Heine (1197 - 1856) e Hans Arp (1886 - 1966), sem falar nas maravilhosas colaborações de Bertolt Brecht e Kurt Weill.

Em outros poemas, João Apolinário esposa uma poética minimalista que o aproxima de forma surpreendente de seu contemporâneo quase exato Robert Creeley (1926 - 2005), levando em conta que o americano viveu duas décadas mais. Mesmo a imagética dos dois aproxima-se, com a palavra flor e o número zero, por exemplo, palavras favoritas de Creeley, tornando-se metáforas analíticas para a poesia e outras dores também em Apolinário. É o que sentimos nos poemas abaixo, extraídos de Eco Humus Homem Lógico. Em outros poemas, sentimos uma relação subterrânea entre João Apolinário e Paulo Leminski, talvez marcada pela influência da música popular e da oralidade na obra de ambos.

Tentamos com esta postagem contribuir para que a poesia ainda não musicada de João Apolinário receba no Brasil a atenção que merece, para o nosso próprio bem.


--- Ricardo Domeneck


§

POEMAS DE JOÃO APOLINÁRIO


da escrita


Da poesia
faço
uma raiz
que gera
a haste
oculta
da palavra
em flor

____


Abro as portas
desta melancolia
fechada no poema
por nascer
e sinto essa magia
suprema

de o escrever


§


os zeros relativos


Reduzo
o espaço
ao limite
do zero

nasce
o mundo

___


Não se pede à alma
que anteceda o corpo
se o nada só existe
depois de ser
concreto

____

Só das coisas reais
tenho o sentido
da transcendência

Não sei do homem mais
do que a essência
de ter vivido

____


Uma única
pétala
gera
um universo
de formas

em órbita

____

Tomo o ar
que respiro
e dou vida
aos deuses

invento a sombra

____


Do mar
faço a planície
para as estrelas
fecundarem a noite

os dinossauros
cantam

____


E da vida
faço este delírio
de batráquios
em fuga

roendo horizontes

____

Só na morte
ponho o zero
à esquerda
do zero

outro zero
começa

____

Depois
do ouro
velho
queremos
o vermelho


§


ecologia lírica


A incógnita
acontece
na cor
que nasce
e reverdece
na flor

até ao limite
de olhá-la
como ela
é

____

O que é que cicia
o mistério (a essência)
desta atmosfera
de sol do meio dia
cuja transparência
parece que gera
o que a terra cria

____


Todos os mitos
imortais
cabem
subitamente
nos alicerces
originais
da semente

____


A pétala sabe
o destino oculto
de todas as coisas
onde o sol começa

____


Criar primeiro o ovo
para a raiz
do pássaro que voa
aquém da casca

Mudar depois as asas
da natureza
sem deixar de ser ave
e ser flor
gerar o movimento
assim eterno
da origem de ser

o que já é

____


O orvalho
respira
a solidão
da noite
na boca
da manhã

____


Um sopro
de luz
abre
no espaço
uma fenda
clara
para o dia
que nasce


§


os infinitos íntimos


Não me cinjas
a voz
não me limites

não me queiras
assim
antecipado

Eu não existo
onde me pensas

Eu estou aqui
agora
é tudo

____

Esta causa
Que me retoma
Em cada dia

Age na esperança
Em que respira
Esta necessidade
De estar vivo

____

No círculo
em que se fecha
o que em mim
respira
há um suicídio
de memórias
que não cabem
no que em mim
existe

____


Já fui longe demais
matando-me nas pedras
que atiro contra mim
sentindo o que não sei


____

Há por aí alguém
que queira vir comigo
atrás do que seremos
quando tivermos sido?

____


O que resta de nós
Dorme a noite invisível
Que ainda nos sobra

____

O que me cansa
é o diabo da esperança
____


O que ficará de mim
nos restos digitais
do tempo
quando chegar
o fim
de que me ausento


§


"É preciso avisar..."


É preciso avisar toda a gente
dar notícia informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir



É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha




É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta



É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores
É preciso imperioso e urgente
mais flores mais flores mais flores


§

"A pressa de chegar..."


A pressa de chegar
correr correr
sem poder esperar
Chegar para morrer




A pressa de chegar
O desvario obtuso
O medo de parar
gasto pelo uso
de estar



A pressa de chegar
A pressa a louca pressa
de poder encontrar
aquilo que me esqueça
de levar



A pressa de chegar
correr correr
sem poder esperar
Chegar para morrer

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domingo, 28 de agosto de 2011

Três versões do mesmo feitiço


A canção "I put a spell on you" foi escrita por Screamin´ Jay Hawkins e gravada pela primeira vez em 1956. É uma das minhas canções favoritas de todos os tempos, com pelo duas versões maravilhosas que talvez até mesmo superem a original de Hawkins: a de Nina Simone e a de Diamanda Galás. Na verdade, a primeira vez que a escutei foi na versão de Nina Simone, que é de 1965. Depois conheci a versão assustadora de Diamanda Galás, com aquela potência que lhe é já conhecida. Foi só mais tarde que percebi que a tristeza estranhíssima da canção já estava com seu criador, o fenomenal Screamin´ Jay Hawkins. É uma das canções de amor mais fortes que conheço. É daquela fúria melancólica de quem não está disposto a desistir fácil, algo que eu sempre amei em performers como Nina Simone, Maysa, a Violeta Parra de "Maldigo del alto cielo", Diamanda Galás, PJ Harvey e Cat Power, entre outros. Esta postagem, no fundo, nada mais é que um lembrete, um terno alerta, uma ameaça carinhosa.



"I put a spell on you", Screamin´ Jay Hawkins.


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"I put a spell on you", Nina Simone.

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"I put a spell on you", Diamanda Galás.

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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Verões berlinternacionais



O verão em Berlim não é apenas o período em que recarregamos as baterias de vitaminas para suportar o inverno horroroso, cinza e escuro destas bandas nortistas. A cidade se enche de figuras interessantíssimas, oriundas de outras metrópoles como Nova Iorque, Paris e São Paulo. Sim, há as hordas de turistas, algo novo para Berlim, que sempre esteve fora do mapa dos roteiros turísticos até pouco tempo atrás. Todo mundo reclama da turistaiada, mas há entre eles os seres excepcionais que aportam por estas bandas. Berlim está passando por um momento histórico que tem paralelos com a Berlim dos anos 20, a Berlim da República de Weimar. Vou voltar a isso outra hora. Esta ideia voltou a minha mente após assistir a Midnight In Paris, do Woody Allen, com todo aquele louvor da Paris dos anos 20 (fetiche do qual nunca compartilhei, se vivesse nos anos 20 teria feito como Auden e Isherwood e certamente vindo para Berlim). Eu sempre acabo lucrando com a vinda destas pessoas e o programa do nosso evento semanal às quartas-feiras se internacionaliza mais que em outras estações. Nas últimas semanas, passaram pelo nosso clube algumas criaturas muito legais. Falei aqui sobre alguns. Na semana passada, discotecou na festa o duo nova-iorquino Creep.







Hoje à noite discoteca o duo Light Asylum, também nova-iorquino. Nas próximas semanas passarão pelo nosso palco ainda Lorenz Rhode (Düsseldorf/Paris), Black Cracker (Nova Iorque), e outros.






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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Apresentando um amigo: Ellison Glenn, mais conhecido como Black Cracker

Ellison Glenn, mais conhecido como Black Cracker


Conheci Ellison Glenn em 2007. À época, ele estava produzindo o duo CocoRosie e colaborando com a nova-iorquina Bunny Rabbit. Foi com esta última que ele se apresentou naquele ano em nosso evento semanal às quartas-feiras. No ano passado, trabalhando já solo, ele apresentou-se uma vez mais em nosso evento. Poeta premiado em festivais de slam poetry e excelente produtor musical, ele está passando o verão em Berlim e pudemos nos conhecer um pouco melhor. Estamos pensando em uma colaboração, mas enquanto ela não vem, deixo vocês com os vídeos de seus poemas vocais "Bury Me (Skull and Bone)" e "Nat Turner (Loose)", de seu álbum solo que está para sair.



Black Cracker - "Bury Me (Skull and Bone)", do álbum Tears of a Clown


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Black Cracker - "Nat Turner (Loose)"

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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Aérea esperança!

Cabo das Tormentas ou Cabo da Boa Esperança?

Então, o amigo disse-lhe em tom de quem só conhece conjunções adversativas: "Não comece a nutrir esperanças!", e ele olhou bem o focinho do amigo, seguindo de norte a sul e leste a oeste o rosto, e sentiu algo que oscilava entre a pena e a compaixão, respondendo em pergunta, bravo: "Que direito você tem de dizer isso a outra pessoa?", e o amigo não entendeu seu desconcerto, pois há muito pertencia aos que confundem a "nutrição de esperanças" com a "manufatura de ilusões", sem perceber que a esperança, como a fé, é o que Søren Kierkegaard chamou de salto no escuro, consciente de que talvez não haja rede de segurança ao fundo, ou a esperança, ele queria dizer, quiçá seja o que ele mesmo chamou um dia de um "sim de olhos fechados", lucidez de encarar o impossível, como os versos de Marianne Moore, naquele que é e foi e sempre seria um poema-cerne de seu código de conduta, "hope not being hope / until all ground for hope has / vanished", mas há também os versos do português João Apolinário, "O que me cansa / é o diabo da esperança", mas ele então saiu de casa, caminhou certeiro para um encontro que parecia ter a finalidade de todas as chances da felicidade, pensando no poema de Manuel Bandeira, aquele sábio dentuço que estava ciente de que a esperança não é qualquer facilitador, pelo contrário, ela pesa e pensa, e seus passos eram firmes e ele cantarolava o "Rondó do capitão" com o coração pesado de esperança.


Rondó do capitão
Manuel Bandeira

Bão balalão,
Senhor capitão.
Tirai este peso
Do meu coração.
Não é de tristeza,
Não é de aflição:
É só de esperança,
Senhor capitão!
A leve esperança,
A aérea esperança...
Aérea, pois não!
Peso mais pesado
Não existe não.
Ah, livrai-me dele,
Senhor capitão!


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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Com Góngora no Apocalipse: peça criada para as comemorações dos 450 de seu nascimento, em Córdova



Em janeiro deste ano, recebi um convite interessantíssimo e que me descabelou um pouco: criar uma peça vídeo-textual, na linha do meu trabalho, a partir das Soledades (1613) de Luis de Góngora, e estreá-la em Córdova, num evento chamado Soledades 2.0, dentro do tradicionalíssimo festival cordovês Poetas del Mundo en Córdoba, que este ano celebraria os 450 anos de nascimento do autor.

Aceitei o que se provou um grande desafio. Enviaram-me uma edição da coleção Catedra que restabelecia o texto e grafia do tempo de Góngora. Trabalhei na peça por mais de um mês, tentando algo que estivesse completamente baseado no trabalho de Góngora e ao mesmo tempo fosse uma peça pessoal minha, sem a ambição de verter de qualquer forma o trabalho do senhor barroco a tempos modernos ou criar apenas algo ilustrativo. Era um momento em que sentia meu trabalho talvez mais próximo de Lope de Vega que tanto de Góngora como do mestre Quevedo, mas foi uma experiência marcante. Mostro aqui o trabalho com a gravação em vídeo de minha apresentação em Córdova.

Apenas algumas palavras sobre o método e princípio usado na criação da peça: as Soledades me atingiram nesta leitura como extremamente apocalípticas. É claro que isso se deu porque todo o meu trabalho tem se dirigido, est-E-ticamente, para uma denúncia das distopias contemporâneas. Eu mesmo ando todo apocalíptico. Como escrevi no meu "Educação dos cívicos sentidos", estou buscando escrever uma poesia pré-distópica, parte do meu questionamento da falácia do pós-utópico. Para criar um clima ainda mais pós-apocalíptico, enquanto trabalhava na peça ocorreu o maremoto no Japão. O estado mental em que trabalhei nesta peça está patente no resultado.

Esta peça, que chamei de "Entrañas de las Soledades", foi composta com o princípio de colagem e apropriação. O texto é todo ele formado com palavras retiradas das Soledades. Alguns perceberão certas inconsistências ortográficas, mas é pelo fato de ter usado uma edição que mantém a grafia barroca de certas palavras. Ainda por cima, tomei certas liberdades. É um poema castelhano o que creio ter composto, mas tem suas peculiaridades. Misturei a esta est-É-tica, num texto todo sacado de uma matriz barroca, certos elementos da poesia expressionista germânica, em especial dos meus dois favoritos: Jakob van Hoddis (1887 – 1942, assassinado num campo de concentração) e Georg Heym (1887 – 1912). 

O vídeo, por sua vez, é todo composto pela apropriação e colagem de vídeos encontrados na Rede. A peça sonora foi composta por meu amigo Uli Buder. A edição do material em vídeo foi feita com meu amigo Daniel Reuter. Nada disso teria sido possível sem a assistência de Adelaide Ivánova na pesquisa do material visual.

O evento contou ainda com performances da madrilenha Miriam Reyes (n. 1974) e do chileno Eugenio Tisselli (n. 1972), e com uma exposição que trazia peças de poetas trabalhando com mídia alternativa, incluindo peças dos brasileiros Augusto de Campos e André Vallias.

Agradeço a António Jesus Luna, curador do evento, pelo convite.


Entrañas de las Soledades

ou, em seu título completo,

Entrañas de las soledades del último sobreviviente sobre la Tierra, sin nombre, escrito con fragmentos de un libro encontrado en las ruinas de la biblioteca de Córdoba y datado en julio del 2013





Entrañas de las Soledades
Ricardo Domeneck 

§ - Entraña primera

Era el año en que un vulcán, robador
del sol de Europa, borró el cielo.
Más tarde, sorbido y vomitado,
el oceano cubrió orillas, árboles
y aldeas en cenizas y carbunclo
como un can diligente, un Sísifo.
En la cuesta, la seca, contra ella
el viento, armas y perros. Mismo
las plantas abortaron. En los
campos, inundación. Último
sueño interrumpido del Occidente
fatigado, sobre la tierra estanque
la grana nace en ondas y en ondas
muere. El oceano divide metales,
abre sepulcros. Presagios
astronómicos, reinos al fin, fuego
en Egipto, Grecia en ruinas
de erudicción y pompa, hormigas
a esconder el camino, el cielo,
el polvo. Apócrifa, la política sigue.
Abriles, mayos, cual la arena
ardiente de Libia,
la luz que el día cedió al campo
estéril de ceniza, la que anocheció
aldea el fuego preside. Para la sed,
hay que beber el propio sudor.
Vence la noche y triunfa el silencio,
reina el gusano sordo, Noruega
seca como con dos soles, en Etiopía
restan dos estómagos. Diluvio.
Que vuestras cabras, vuestras vacas
se desaten, alimenten áspides,
vuestros descendientes.
Fin del Fénix del tiempo humano
y de las necesidades de opulencias.
Esfinge que se muere. El viento hereda
ahora Egipto, el Coliseo, Ícaro
hecho a su ruina, el polvo
cojea el pensamiento, en humo
se resuelven las aves.



§ - Entraña segunda


El mar era un arroyo sediento,
mucha sal su ruina.
Muros desmantelándose. Nudos
los bosques. La aurora:
muchas lágrimas y poca agua.
Deseo de hueso, contagio
de pescados nadando en sangre
y sangre, el propio clima una prisión
solicitando sepultar el sol
donde muere el día.
Que muera. Homicidio, mundo,
el oceano haga túmulo
para mis huesos ya que nada
yace en el mar sin besar la arena.
El cielo moderando la miseria,
pluvia de hierro, mordía huesos.
Fin de la comida, la más
seca de las gallinas domésticas.
Vomitando saliva, ronca todo.
Que el hueco exceda Cartago
o el fulminante fin de la República,
Roma de cabras. Nieve el agua.
Por comida, mármol. Ruinas
acusando la aurora, pesadumbre
de campo, sediento se bebe
espuma. Azotar los ojos, la lengua,
la muerte, fuga al horror. Huesos
de amantes a desatarse, cenizas
en los vientos. Llega el tiempo
del gusano, del monstruo
en el césped. Ya no vuelve
Proserpina. El último graznido.
Injuria de la luz, horror del viento.




(escrito com palavras - e em alguns casos versos - extraídas das Soledades de Góngora. Peça estreada em Córdova, na noite de 31 de março de 2011)

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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Com um livro de Simone Weil a tiracolo no sol e na chuva



Nesta tarde volto a você, grato e assustado com seus textos cheios daquela forma de claridade que me lembra as palavras de Orides Fontela, "a lucidez alucina", com uma calma estranha no corpo, enquanto bolsas de valores beiram o colapso, protestos em Londres e Santiago explodem em violência, ando aqui com meus próprios pés pelas ruas desta cidade que não se decide entre verão e inverno, mas os investidores da bolsa de valores do meu tórax não acreditam em crash algum, as palavras de Juliana de Norwich rodopiam na minha cabeçoila, "...all shall be well, and all shall be well, and all manner of thing shall be well", misturando-se com aquelas tuas outras palavras, grevista da fome, aquela tua crença de que "toda separação é um vínculo", e as holotúrias no poema de Szymborska continuam se dividindo para se salvarem, e as holotúrias no mar continuam também dividindo-se, o sol bate bem forte na minha cara pouco antes da chuva e sussurro ao mundo que ainda estou apaixonado e fecho os olhos e digo um sim alto, constrangendo os transeuntes.


"Um homem cuja mente sinta estar prisioneira preferirá ocultar o fato de si mesmo. Mas se ele odeia a falsidade, ele não o fará; e nesse caso, terá de sofrer muito. Ele baterá sua cabeça contra a parede até desmaiar. Ele voltará lá novamente e olhará com terror para a parede, até que um dia recomece a bater sua cabeça contra ela; e mais uma vez ele vai desmaiar. E assim por diante, sem fim e sem esperança. Um dia ele vai acordar do outro lado da parede." - Simone Weil (1909 - 1943)





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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Cummings fala sobre Pound e sobre os seres humanos verazes



Estive lendo nos últimos dias uma das coisas mais vívidas despertas jubilosas que já li: as despalestras de e.e. cummings na Universidade de Harvard, em 1952 e 1953, mais tarde reunidas no volume i: six nonlectures (Cambridge: Harvard University Press, 1953).

Há uma passagem, na quarta nonlecture, em que Cummings inclui um excerto de artigo dedicado à figura e trabalho de Ezra Pound. Mostro aqui uma tentativa de tradução, e recomendo muito a leitura do trabalho todo, especialmente para os que amam Edward Estlin Cummings, ou, como o conhecemos, o maiúsculo e.e. cummings.


§ - da nonlecture 4


"Re: Ezra Pound - acontece que a poesia é uma arte; e acontece que artistas são seres humanos.

Um artista não vive em alguma abstração geográfica, sobreposta a uma parte desta linda terra pela desimaginação de inanimais e dedicada à proposição de que o massacre é uma virtude social porque o homicídio é um vício individual. Nem vive o artista em algum
soi-disant mundo,nem vive ele em algum tal de universo, nem vive em um número x de "mundos" ou em qualquer número x de "universos". Quanto a algumas fantasias pífias como "passado" e "presente" e "futuro" da abraspas humanidade fechaspas, elas podem ser grandes bastante para um par de bilhões de subidiotas supermecanizados mas elas são pequenas demais para um ser humano.

O país estritamente ilimitado de todo artista é ele mesmo.

Um artista que falseie este país comete suicídio; e mesmo um bom advogado não pode matar os mortos. Mas um ser humano veraz consigo mesmo – quem quer que seja este si-mesmo – é imortal; e todos as bombas atômicas de todos os antiartistas no espaçotempo jamais civilizarão a imortalidade."



(tradução de Ricardo Domeneck, excerto da nonlecture de número 4)


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Outro trecho da mesma despalestra:


§ - da nonlecture 4


"Pessoas simples,pessoas que não existem,preferem coisas que não existem,coisas simples. `Bom´ e `mau´ são coisas simples. Você me bombardeia = `mau´. Eu bombardeio você = `bom´. Pessoas simples(que, a propósito, mandam neste tal de mundo)sabem disso(eles sabem tudo)enquanto que pessoas complexas – pessoas que têm sentimentos – são muito, muito ignorantes e verdadeiramente nada sabem.

Nada, para pessoas simples cultas, é mais perigoso que a ignorância. Por quê?

Porque sentir é estar vivo.

...

Por pura sorte para você e para mim,o sol nada civilizado misteriosamente brilha tanto sobre os `bons´ como sobre os `maus´. Ele é um artista.

A arte é um mistério."




§ - da nonlecture 2

--- sobre a oposição entre ser e fazer ---


"Eu estou perfeitamente consciente de que, onde quer que nossa tal de civilização tenha escorregado e caído, há todo tido de prêmio e punição nenhuma a quem quer não-ser. Mas se a poesia é seu objetivo, você tem que esquecer tudo sobre punições e tudo sobre prêmios e tudo sobre autoestilizadas obrigações e deveres e responsabilidades etc ad infinitum e lembrar-se de uma só coisa: que é você - ninguém mais - quem determina e decide seu destino. Ninguém mais pode estar vivo por você; nem você pode estar vivo por outra pessoa. Joãos podem ser Josés e Josés podem ser Joãos, mas nenhum deles jamais poderá ser você. Aí está a responsabilidade do artista; e a mais terrível responsabilidade sobre a terra. Se você acha que aguenta, aguente e seja. Se não, anime-se e vá cuidar da vida dos outros; e faça (ou desfaça) até cair."


§ - ainda da nonlecture 2

(proferida em 1952, parece escrita para tempos de redes sociais no século XXI)


"Vocês não têm a menor ou mais vaga concepção do que é serestar aqui, e agora, e a sós, e ensimesmos. Por que (vocês perguntam) alguém deveria querer estar aqui, quando (com o simples apertar dum botão) qualquer um pode estar em cinquenta lugares ao mesmo tempo? Por que alguém deveria querer ser agora, quando qualquer um pode ir quandando por toda a criação num girar de manivela? O que poderia induzir alguém a desejar sozinhez, quando bilhões de soi-disant dólares são misericordiamente desperdiçados por um bom e grande governo para evitar que qualquer onde quer que jamais esteja um instante qualquer só? Quanto a ser você mesmo - por que diabos ser você mesmo; quando em vez de ser você mesmo você pode ser centenas, ou milhares, ou centenas de milhares de outras pessoas? A simples ideia de ser-se a si mesmo em uma época de eus intercambiáveis deve parecer supremamente ridícula.

Muito que bem: mas, no que diz respeito a mim mesmo, poesia e qualquer outra arte foram e são e sempre serão estritamente e claramente uma questão de individualidade."


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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Postagem celebratória para Alaíde Costa


Não há muito o que dizer. Apenas o espanto de que o Brasil não tenha tratado esta mulher como a rainha que ela é.

Sua interpretação para "Me deixa em paz", de Monsueto e Airton Amorim, uma das minhas all-time-favorites, é simplesmente linda demais.





Alaíde Costa canta "Me deixa em paz", com Milton Nascimento


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Alaíde Costa canta "Ilusão à toa", com Johnny Alf


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Alaíde Costa canta "Insensatez" (incompleto)


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Alaíde Costa canta "Entrada do sertão"


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Gravação de Alaíde Costa para "Catavento"


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Gravação de Alaíde Costa para "Igrejinha"



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Gravação de Alaíde Costa para "Judiarias"

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domingo, 31 de julho de 2011

Comentários a um poema recente e a resposta a uma crítica malcriada e anônima




Na terça-feira passada, 26 de julho de 2011, publiquei neste espaço um poema recente, intitulado "O solteiro mais cobiçado do mundo", que parte da história de Cesárion, filho de César e de Cleópatra. Nos dias que se seguiram, recebi alguns comentários e conversei sobre o poema com algumas pessoas que respeito.

O poeta paulista Érico Nogueira me escreveu, por exemplo, comentando as inconsistências em minha grafia para os nomes das personagens históricas, aportuguesando uns e não outros. Após conversar com ele sobre algumas possibilidades, decidi que era realmente melhor usar a grafia em português para todos os nomes, e acatei algumas de suas sugestões, como mudar Caesarion para Cesárion, e, o que me agradou particularmente, sua sugestão de usar para Thea Filopator, o "sobrenome" de Cleópatra, a versão Diva Filopátor. Agradeço a ele, aqui, por suas sugestões.

Em outra mensagem, o poeta gaúcho Marcus Fabiano apontou para a possível inconsistência em usar, na linha "César ou meteco", referências a uma personagem histórica latina e a um conceito político da pólis grega. Após pensar a respeito, percebi que ele tinha razão, e que realmente havia espaço para esta interpretação, gerando mesmo uma mistura questionável, especialmente com a linha seguinte – "rei ou plebeu" – que cria uma equiparação historicamente mais plausível. Decidi mudar a primeira linha para "cidadão ou meteco". Agradeço a Marcus Fabiano por apontar esta inconsistência em aberto.

Marcus Fabiano também me perguntou se o poema dialogava ou partia de Kaváfis. Disse a ele que, ao escrevê-lo, eu tinha mais em mente a maneira como o poeta polonês Zbigniew Herbert e o alemão Heiner Müller usavam personagens e material histórico clássico, muitas vezes já trabalhados por outros. É claro que isso é forte em Konstantinos Kaváfis, mas no caso do grego trata-se de sua própria História, o que o leva a um tratamento do material razoavelmente diferente, pois ele pode assumir de forma mais plácida que seus leitores sabem do que ele está falando.

Esta semana, como acontece com certa frequência, recebi um comentário anônimo aqui no blogue. Na maioria dos casos, trata-se apenas de alguém incomodado ou irritado com minha existência e o oxigênio que a pessoa crê que eu desperdiço, tentando me ofender com comentários homofóbicos ou de outras categorias, comentários que eu regiamente ignoro. O último comentário, no entanto, comentava o poema e fazia uma crítica negativa a ele, e, apesar de seu tom malcriado e deselegante, aliado à falta de hombridade de assiná-lo, eu achei que valia a pena responder aqui, em uma postagem, pois a discussão pode ser interessante.

Primeiramente, confesso que jamais vou entender a prática de deixar comentários anônimos em blogues ou páginas alheias. Não entendo alguém que se interesse tanto pelo meu trabalho a ponto de ler meu blogue e ainda por cima fazer críticas, mas sem identificar-se. Em minha opinião, a assinatura é uma questão de hombridade, como disse acima (sim, estou assumindo que o comentarista seja do sexo masculino. Posso estar errado, mas me parece atitude típica de macho-alfa). Além do mais, como em geral trata-se obviamente de outro poeta, seria muito educativo para mim, por exemplo, ler o trabalho da pessoa para saber que parâmetros implícitos segue.

Não importa. Vamos ao comentário. Eis a opinião malcriada de meu leitor anônimo sobre o poema "O solteiro mais cobiçado do mundo":


"Kaváfis reciclado em poema prolixo e cabotino. Teus `reflexos´ históricos são intragáveis. Teu corpo não urge que volte a versar?"


Vejamos, por partes.


§ - Kaváfis


O poeta de Alexandria tratou de Cesárion em dois poemas, "Reis alexandrinos" e "Caesarion" (fáceis de encontrar na Rede), este diretamente dedicado ao jovem rei.

Neste último, após narrar sua leitura de epigramas compostos durante a Dinastia Ptolomaica, Kaváfis relata sua descoberta de uma pequena menção a Cesárion, que o leva a sua usual prática do louvor dos mancebos, sua própria reciclagem do tema do erômenos, sua imaginação do corpo e presença do jovem rei de 17 anos, como ele fez em tantos poemas maravilhosos sobre suas lembranças e encontros furtivos com jovens de Alexandria, mas apontando, neste caso, a uma discussão sobre a sede de poder que leva a assassinatos. Ele encerra com uma frase que Plutarco teria atribuído ao filósofo estóico Arius Didymus (creio que Ário Dídimo em português), supostamente dita a Otaviano para convencê-lo da necessidade do assassinato de Cesárion: "Não é bom haver Césares demais". Por sua vez, a linha seria um jogo de palavras com um verso de Homero.

É um lindo poema, sugiro a sua leitura neste link, em tradução para o inglês. No outro poema, intitulado "Reis alexandrinos", Kaváfis retorna a Cesárion, discutindo o vazio das pompas reais, tomando a passagem em que os filhos de Cleópatra são coroados em Alexandria. Os poemas são puro Kaváfis, sem minhas catulizações gender-sarcastic e chistes fisiológicos. Recomendo muito sua leitura.


§ - Reciclado.


Caso o comentarista veja a abordagem de temas clássicos já tratados como um problema, sinto muito por seus hábitos de leitura. O próprio Kaváfis foi mestre na reciclagem de temas. Escreveu sobre personagens e assuntos que já haviam sido tratados por outros poetas. Parece-me razoavelmente ridículo acreditar que nenhum poeta mais possa escrever sobre Cesárion, ou, por sua vez, sobre outras personagens, como Antínoo, Eleanor de Aquitânia e Ana Bolena (para citar algumas personagens que me fascinam e sobre as quais tenho escrito), ou qualquer outro, porque já se escreveu sobre eles. Quantos poemas foram escritos sobre Cleópatra e César, ou sobre Calígula e Cláudio, por exemplo? Isso, eu creio, não inutiliza poemas como os de Zbigniew Herbert, que reciclou vários temas clássicos para poder driblar a censura do regime comunista de seu país, ou as maravilhosas "reciclagens" de Heiner Müller para temas clássicos. O deles é o que gosto de chamar de "uso saudável e funcional da erudição".

Sinceramente, não sinto sequer a necessidade de acrescentar uma nota ao poema, informando que o tema já foi tratado por Kaváfis. Fica para os interessados em intertextualidade. Meu tratamento é obviamente diferente, e, como apontou um amigo, talvez muito mais próximo de Catulo que de Kaváfis. Pessoalmente, continuo achando que o poema deve MUITO MUITO MUITO mais a Zbigniew Herbert e Heiner Müller (aqui o agradecimento e louvor póstumo a estes meus dois mestres), em níveis mais profundos que o da "temática". Não sei se meu caro leitor anônimo conhece estes poetas, pouco traduzidos para o português.


§ - Prolixo.


Há um problema crítico sério no Brasil, que eu creio ter relação com este incômodo de meu caro leitor malcriado e anônimo. Trata-se da maneira como se confunde o "discursivo" com o "prolixo". É um equívoco sem tamanho, em minha opinião, tomar a discursividade como valor negativo em si, e a antidiscursividade como valor positivo. Nada há na História da Literatura que sustente esta visão. Agora, é bem certo que não posso assumir que nosso comentarista sofra deste defeito crítico. Talvez ele saiba bem a diferença entre o discursivo e o prolixo e veja versos e palavras realmente desnecessárias em meu poema. Talvez ele não esteja entre os que creem que seja um defeito ser capaz ainda de versejar em sentenças completas. Espero que ele não esteja entre os que acreditam que jogar algumas palavras desconexas sobre a página garanta a concisão. Me parecem problemas que ocorrem com quem leva muito ao pé da letra a velha história de que "importa mais o que o poeta deixa de dizer do que aquilo que ele realmente diz". É que eu gosto muito de escrever, sabe?

Deixo a meus leitores, anônimos ou não, julgar se meu poema, conscientemente discursivo, acaba sendo prolixo.

Eu tinha um efeito bastante específico em mente, e procedi de acordo, além do mais, com meu interesse por textos mais tesos que necessariamente concisos.

Vale a pena retornar, por exemplo, ao poema de Kaváfis. O grego o intitula com o nome de Cesárion, deixando claro desde o começo a quem se refere. Ora, Kaváfis era conterrâneo de Cesárion. Escreveu seu poema em grego e em Alexandria, onde ocorre a história. Ele pode simplesmente assumir que seus leitores saibam exatamente de quem e do que ele está falando.

Ao começar a ler meu poema, propositalmente intitulado com ares de revista de fofoca contemporânea (tento imaginar Kaváfis intitulando um poema "O solteiro mais cobiçado do mundo" e sou obrigado a sorrir um pouco), o leitor não sabe se o texto tratará de alguém como Cesárion ou, digamos como exemplo, o jovem modelo Francisco Lachowski, que tem a cara e o corpo que eu gosto de imaginar em Cesárion quando penso nele, ainda que meu poema não tenha tratado Cesárion como erômenos imaginário. Ok, talvez um pouquinho, mas é porque, como disse, sempre o imagino com a cara e o corpo de Francisco Lachowski.

Escrevendo em português e em 2011, a mim interessava compor o poema de tal maneira que ele "instrumentalizasse" qualquer leitor a entendê-lo, já durante a leitura, sem a necessidade da busca exterior de informação. Ninguém precisa saber quem foi Cesárion para ler o poema. Ao contrário, depois de ler o poema, passa a saber quem foi caso não soubesse. A alguns isso parecerá demasiado didático, algo também visto como problemático, mas faz parte do jogo.



§ - Cabotino.


O que talvez tenha parecido cabotino ao meu leitor anônimo e deselegante é que eu retorne a tal tema com implicações quiçá muito menos nobres e universais que as do mestre Kaváfis, pois aponto para nossa atual idolatria de celebridades que também assumem características divinizáveis, começando pelo uso do meu título, "O solteiro mais cobiçado do mundo", que poderia facilmente ser o título de um artigo de revista de fofoca qualquer. Acabo misturando a isso ainda minha discussão de certas questões políticas de gênero, como meu tratamento algo obsessivo e sarcástico da cultura do macho-alfa e seus delírios desejosos de épicos. Talvez meu uso do tema seja mesmo cabotino para algumas sensibilidades, talvez justamente por ter escondido, por contrabando, estas discussões políticas contemporâneas em um tema "nobre". Não sei se nosso ranzinza anônimo chama o poema de cabotino por ver nele uma piada de mau gosto ou exibição arrogante de conhecimento. Eu certamente entendo muito mais de cigarros, café e da anatomia masculina que da História Clássica, talvez devesse ter realmente voltado a Kaváfis e sua nostalgia do erômenos (algo que já fiz várias vezes), mas não será isso que limitará meus temas.


§ - "Teus `reflexos´ históricos são intragáveis."


Gostei deste toque, "reflexos" em vez de "reflexões", muito esperto e divertido o seu sarcasmo. Quem sabe, se meu trabalho não o incomodasse tanto, nós até pudéssemos tomar um uísque um dia, discutindo vivamente nossas visões provavelmente opostas sobre poesia?

Mas, ora, meu querido leitor anônimo, tudo o que posso sugerir, se você considera meus "reflexos" históricos intragáveis, é que você não leia meu trabalho. Este é meu blogue pessoal e eu não sou leitura obrigatória.



§ - "Teu corpo não urge que volte a versar?"


Esta é, na verdade, a única pergunta que você fez, já que você veio ao meio espaço pessoal para pontificar sobre sua opinião acerca do meu poema. Respondo-a:

Não.

Meu corpo não sente a menor urgência de "voltar" (significa que versei no passado?) a versar. Sabe Deus o que você quer dizer com isso, já que eu não sei quem você é e muito provavelmente ignoro o seu trabalho se o conheço.

Nunca houve como nas duas últimas décadas um divórcio tão gigantesco entre os poetas e prosadores brasileiros. É realmente algo inédito, já escrevi sobre isso, mencionando-o por exemplo em um ensaio a sair pela Fundação Casa de Rui Barbosa, cheio de meus "reflexos" históricos intragáveis.

Já deve ter ficado claro que eu não estou interessado em uma visão da poesia como gênero puro. Estou interessado em textos, cobrindo ou não a página de margem a margem, desde que sejam tesos. Não considero antidiscursividade um valor positivo em si, apenas no contexto do texto e dos efeitos que busca, dos parâmetros que segue. Kaváfis, mestre mestre mestre, é discursivo. Muito tênue a linha entre prosa e poesia em poetas como o alexandrino, ou como o polonês Zbigniew Herbert, ou como o alemão Heiner Müller.

Por fim, quero deixar muito claro que estou completamente aberto a críticas e sugestões, como as que Érico Nogueira e Marcus Fabiano fizeram. Nem acho que meu poema seja perfeito ou divino maravilhoso. Acho que é um poeminhazinho bastante decente e apresentável.

Aqui está sua resposta pública, ainda que você não a tenha feito de maneira aberta. Você, ao que me parece, está entre os críticos da poesia contemporânea hoje mais interessados nas reputações poéticas contemporâneas que veramente na poesia contemporânea. Ler crítica de poesia contemporânea hoje no Brasil é como ler apreciações de carreiras, não de obras. Tenho me esforçado para não cair nesta armadilha, e, caso você acompanhe meus "reflexos" históricos intragáveis também na Modo de Usar & Co., a próxima postagem será sobre o trabalho recente do jovem e seu, meu, nosso contemporâneo Ismar Tirelli Neto.

Espero que a resposta o satisfaça. Volte sempre, se o seu gag reflex o permitir. Talvez tenhamos outras coisas em comum, mesmo que, diferentemente de você, não me falte hombridade.


do seu histórico-reflexivo intragável,

Ricardo Domeneck.


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