As garrafas de bebida alcoólica que costumavam ser bebidas a dois andam agora tão cheias que lenta tornou-se a maré baixa deste mar etílico como insistem em permanecer numa única e mesma metade da cama os vincos dos lençóis que mistério é este que somente as minhas meias sujas agora espalhem-se pelo quarto onde foram parar aquelas botas pretas que andavam sempre do lado de fora da porta não sei não sei minhas narinas andam tão confusas que minha casa cheire tão-somente a mim mesmo nestes dias começo a me esquecer do formato dos seus calcanhares certamente não me esqueci ainda de como é a cicatriz causada pela apendicite que chegou quase a matá-lo na adolescência tão próxima de sua crista ilíaca sortuda cicatriz dela não me esqueço ninguém mais derruba café no meu carpete mas as manchas não me deixam esquecer sua clumsiness se você não abandonar esta ideia absurda de brincar de esconde-esconde comigo nesta minha idade avançada acabarei comprando um gato ou um chachorro ou um periquito e chamando-o de Sexta-Feira ou Moço quando meus lábios começam a rachar porque esqueci de novo de beber água eu então sussurro na secura nossa / amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita do poema "Amar" de Carlos Drummond de Andrade – e aguento assim mais um dia.
Amar Carlos Drummond de Andrade
Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? amar o que o mar traz à praia, o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração expectante, e amar o inóspito, o áspero, um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
O sol insiste e ergue-se, a manhã insiste e retorna, os olhos insistem em sua gangorra, o corpo insiste e acorda-o, o alívio e o martírio dependem de mudanças quase imperceptíveis nas circunstâncias dos dias, abro as cortinas e sussurro: "let light // as air / be relief", do poema "This world", de Robert Creeley.
This World Robert Creeley
If night’s the harder, closer time, days come. The morning opens with light
at the window. Then, as now, sun climbs in blue sky. At noon
on the beach I could watch these glittering waves forever,
follow their sound deep into mind and echoes – let light
as air be relief. The wind pulls at face
and hands, grows cold. What can one think – the beach
is myriad stone. Clouds pass, grey undersides, white clusters
of air, all air. Water moves at the edges, blue, green,
Alguns talvez digam que é exagero, ora, como assim um poema salvar a vida de alguém? Mas não se trata de glamourização de poeta, nem conversa pseudo-xamânica sobre mágica arcaica ou qualquer falcatrua soteriológica. Em minha vida, é a mistura de fato e ato. Nesta série, quero repostar – já discuti vários deles aqui – poemas que lateral e literalmente salvaram minha cota de oxigênio e seguem mantendo minha sanidade em um nível aceitável de equilíbrio diante de certas catástrofes. Quando descobrimos um poema com este poder, ele praticamente entra em nosso sistema de defesa e passa a ser parte dos nossos anticorpos contra os demônios ensandecidos, contra os inimigos da lucidez, contra o vírus do suicídio. Hoje, no parque minúsculo e favorito aqui no meu bairro berlinense, sentado na grama, com o vento meio gelado embaraçando os cabelos que já começam a ficar brancos, eu fechei os olhos e sussurrei de novo, várias vezes, como fizera em outros momentos de necessidade:
"Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida. Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou."
São versos do poema "Autotomia", da polonesa Wislawa Szymborska. Não se trata de um de seus mais famosos, algo que nunca entendi. Tenho antologias de poemas dela em alemão e inglês que não trazem este poema específico. E, no entanto, eu já não sei se seria capaz de viver sem ele na memória. Nada que as beatas da materialidade possam entender, já que não compreendem como hedonismo e ascese se confundem em nossa miséria extrema.
Autotomia Wislawa Szymborska
Diante do perigo, a holotúria se divide em duas: deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo, salvando-se com a outra metade.
Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação, em resgate e promessa, no que foi e no que será.
No centro do seu corpo irrompe um precipício de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.
Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida. Aqui o desespero, ali a coragem.
Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro. Se há justiça, ei-la aqui.
Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida. Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.
Nós também sabemos nos dividir, é verdade. Mas apenas em corpo e sussurros partidos. Em corpo e poesia.
Aqui a garganta, do outro lado, o riso, leve, logo abafado.
Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais, três pequenas palavras que são as três plumas de um voo.
O abismo não nos divide. O abismo nos cerca.
(tradução coletiva, publicada na revista Inimigo Rumor número 10)
§
Soube através de Carlito Azevedo que a Companhia das Letras está lançando a primeira antologia de Wislawa Szymborska no Brasil, uma notícia que é simplesmente radiante.
Em novembro de 2008, Marília Garcia e eu preparamos uma postagem sobre a poeta polonesa, ganhadora do Nobel em 1996 (quando a descobri), para a Modo de Usar & Co., da qual vocês podem ler o artigo introdutório abaixo.
WISLAWA SZYMBORSKA
Wislawa Szymborska nasceu em 1923, na cidade de Kórnik, na Polônia. Quando ainda criança, sua família mudou-se para Cracóvia, um dos mais ativos centros culturais da Polônia, e a poeta cresceria e permaneceria toda a sua vida nesta cidade. Sua vida literária e artística inicia-se durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto segue com sua educação nos anos subterrâneos da resistência cultural polonesa contra a ocupação nazista. Com o fim da guerra, passa a estudar sociologia, além de língua e literatura polonesas, na Universidade de Cracóvia.
Seu primeiro livro é proibido pela censura do regime comunista por não estar de acordo com os regulamentos da literatura socialista. Tenta conformar-se às regras para conseguir publicar, rejeitando mais tarde, a partir da década de 50, a ideologia político-estética socialista. Nega seus dois primeiros livros e “reinicia” sua obra com o volume Wołanie do Yeti (Chamando Yeti), de 1957. Em 1962, chama a atenção da comunidade poética polonesa com o pequeno volume Sól (Sal). Desde então, seu trabalho espraia-se por pouco mais de 10 volumes de poemas, o último tendo sido publicado em 2005, com o título Dwukropek, “Dois pontos”, como no sinal de pontuação (nota: desde então, a poeta publicou em 2009 o volume Tutaj, "Aqui"). Wislawa Szymborska era uma discreta poeta polonesa até tornar-se mundialmente conhecida em 1996, ao vencer o Prêmio Nobel de Literatura.
Para contextualizarmos o trabalho de Wislawa Szymborska em seu momento histórico-poético, teríamos que compreender que este surge em um período confuso e de classificação ainda polêmica quando, no pós-guerra, muitos poetas modernistas ainda estavam vivos e produzindo suas maiores obras, e uma nova geração começava a formar-se, alguns buscando ser ainda "altos modernistas", outros seguindo tendências menos conhecidas dos movimentos de vanguarda e retaguarda do início do século XX. Wislawa Szymborska é contemporânea de poetas como João Cabral de Melo Neto, Paul Celan, Frank O´Hara, Robert Creeley e Ingeborg Bachmann, que retomam o trabalho literário dos primeiros modernistas. Ao mesmo tempo, é contemporânea de poetas experimentais como Henri Chopin e Bob Cobbing, mostrando a pluralidade poética do pós-guerra como algo muito mais complexo do que nossa tentativa de abarcá-la sob a sombrinha do conceito de "pós-modernismo".
Talvez seja uma das últimas representantes de algumas das tendências do que geralmente chamamos, no singular, de Alto Modernismo. Com um humor muitas vezes auto-depreciativo, a ironia é uma de suas ferramentas favoritas. Há um texto interessante de W.H. Auden em que ele discute traduções do trabalho de Konstantínos Kaváfis para o inglês, comentando o módulo de pensamento do poeta grego que, segundo Auden, permitia reconhecermos um poema de Kaváfis em qualquer língua, não por um estilo específico do que nós hoje chamaríamos de materialidade sígnica de sua linguagem poética, mas por certo tom e forma de pensamento que tornavam seus poemas únicos e ao mesmo tempo compreensíveis em outras culturas e línguas. Sem conhecer polonês, torna-se impossível julgar a materialidade sígnica da poesia de Wislawa Szymborska. Pergunto-me, porém, se poderíamos falar de seu trabalho em termos parecidos aos de Auden sobre Kaváfis. Tendo lido traduções para poemas da polonesa em português, inglês, espanhol e alemão, e reconhecendo sempre este "módulo de pensamento", este "tom" inconfundível, poderia dizer que Szymborska é um belíssimo exemplo do "verso livre" que depende de um talento poético invulgar em seus mais sutis artifícios.
Ricardo Domeneck, especial para a Modo de Usar & Co., 3 de novembro de 2008
Que me importam o império as vilas as efígies nas moedas se o teu cheiro ocupa ainda cada canto angular da arquitetura mas teu pescoço teus pés teu tórax já não os habitam e as águas do Nilo não permitem que este teu cheiro agora se evada se exale e me excite ou exalte uns dizem suspeitar que eu ordenei tua morte outros que tua influência se tornara indesejável nunca houve lugar para Eros entre as intrigas de corte eu já não me lembro tua morte talvez a tenha ordenado quiçá tenha sido castigado por meus inimigos os mais cruéis sugerem que o ato fora uma fuga tua dos meus cafunés das minhas mãos geriátricas não sei não sei tua lembrança ocupa o espaço de todo o resto que eu poderia agora memorizar ordens execuções missões diplomáticas a fundação de cidades já não me alegra se tu já não serás um dos cidadãos as revoltas de bárbaros tão-só me entediam se tu não me acompanhas nas campanhas divinizar-te é consequência lógica doravante estarás no panteão entre aqueles que agora por um motivo a mais invejo se teu exercício de natação sem volta foi mesmo sacrifício ou autoimolação eu me pergunto que deus te merecia mais do que eu dizem as boas bocas pelas ruas de Roma que eu chorei por ti como uma mulher como se eles pudessem distinguir o gênero das águas salinizadas Pancrates de Alexandria comparara uma flor-de-lótus a ti e não o contrário e com isso ganhou meus favores tu eras o parâmetro de todos os sistemas da simetria Antínoo ainda que eu mandasse a Bitínia ser varrida vasculhada jamais outro com teu pescoço teus pés teu tórax tu eras o príncipe das belugas Antínoo tu foste meu antinão
Ricardo Domeneck, Berlim - agosto de 2011.
. . .
Antínoo (112 - 130) foi o favorito do imperador romano Adriano. Natural da Bitínia (norte da Ásia Menor, hoje na Turquia), é provável que Adriano o tenha conhecido durante uma visita à Bitínia e que o tenha levado consigo. Antínoo era membro do círculo mais próximo do imperador, que era 34 anos mais velho que o rapaz. Em outubro do ano 130, durante uma visita ao Egito, Antínoo morreu afogado no Nilo, mas as circunstâncias em que o evento ocorreu são pouco claras. O imperador mais tarde ordenou a divinização do jovem.
Abaixo, você pode ler o pequeno artigo de Alice Sant´Anna n´O Globo de hoje, sobre Marília Garcia, o festival Europália – que homenageia o Brasil este ano, trazendo à Bélgica artistas visuais, músicos, cinema e escritores do País –, e chamando a atenção para o lançamento do próximo número impresso da Modo de Usar & Co.
Marília Garcia e eu, coeditores da Modo, estaremos presentes na Bélgica entre os autores brasileiros em novembro e dezembro. O festival prepara duas antologias com os poetas e prosadores convidados para o Festival, bilíngues, uma em francês e outra em holandês. Os outros poetas convidados são Augusto de Campos, Zuca Sardan, Francisco Alvim, Alice Ruiz, Lu Menezes, Ricardo Aleixo, Carlito Azevedo, Arnaldo Antunes e Paula Glenadel. Marília e eu somos os mais jovens dentre os poetas. Os prosadores convidados são João Almino, Beatriz Bracher, Bernando Carvalho, Daniel Galera, Milton Hatoum, Paulo Lins, Lourenço Mutarelli, Nuno Ramos, Silviano Santiago, Veronica Stigger e João Ubaldo Ribeiro. O autor brasileiro homenageado, com exposições, traduções e outras publicações, será Clarice Lispector.
Quanto ao terceiro número da Modo de Usar & Co., o lançamento oficial está marcado: dia 17 de setembro de 2011, na Livraria Berinjela, no Rio de Janeiro. Na mesma ocasião, lançarei um pequeno livro de poemas, intitulado Cigarros na cama, diagramado por Marília Garcia e lançado em conjunto com a revista.
Este número impresso da Modo de Usar & Co. traz traduções para textos de Gertrude Stein, Roberto Bolaño (poesia e prosa), Charles Reznikoff, Vicente Huidobro, Helmut Heissenbüttel, Nathalie Quintane, Emmanuel Hocquard, Violeta Parra, entre outros; texto crítico de Rosmarie Waldrop (em tradução de Andrea Mateus); ensaios de Inês Cardoso e Reuben da Cunha Rocha; poemas de brasileiros como Dirceu Villa, Érico Nogueira, Rodrigo Damasceno, Érica Zíngano, Fabiana Faleiros, entre outros, assim como inéditos dos editores: Angélica Freitas, Fabiano Calixto, Marília Garcia e eu.
Começa amanhã em São Paulo (2 de setembro) e segue até domingo o encontro de poetas brasileiros e espanhóis 2011 Poetas por Km2, que ocorrerá este ano em São Paulo e Madri.
O evento paulistano ocorre no Centro Cultural São Paulo, e conta com a presença de espanhóis como Ajo, Eduard Escoffet, Peru Saizprez, Antonio Gómez, e os brasileiros Marcelo Sahea, Arnaldo Antunes, Márcio-André, dentre outros.
João Apolinário foi um poeta português, nascido a 18 de janeiro de 1924 em Sintra. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra e Lisboa e trabalhou também como jornalista, indo com 21 anos para Paris como correspondente da Agência Logos, permanecendo na França durante a Segunda Guerra. Estreou em livro como poeta com o volume Morse de Sangue (1955), composto na prisão por sua resistência antifascista ao regime de António Salazar. Em 1963, exilou-se no Brasil, vivendo e trabalhando em São Paulo, onde escreveu para o jornal Última Hora e fundou, com outros jornalistas, a APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte. Publicou ainda os livros Primavera de Estrelas, Apátridas, AmorfazerAmor, Poemas Cívicos e Eco Humus Homem Lógico, entre outros. Retornou a Portugal em 1975, após a Revolução dos Cravos. João Apolinário morreu a 22 de outubro de 1988, na pequena vila portuguesa de Marvão.
Sua posição na poesia lusófona do pós-guerra é curiosa. Talvez esteja entre os mais desconhecidos poetas da língua, e, ao mesmo tempo, alguns de seus poemas estão entre os mais famosos das últimas décadas, graças ao trabalho musical de seu filho, o cantor e compositor João Ricardo, que musicou vários dos poemas do pai, primeiro com o grupo Secos e Molhados (1973 - 1974) e depois em sua carreira solo. Seria interessante partir de seu trabalho para discutir as diferenças entre as mentalidades críticas que regem a tradição da poesia oral e da poesia escrita. Na tradição oral, o poema pertence tanto a quem o escreve como a quem o vocaliza, a partir da tradição do jongleur provençal ou do imbongi africano, tradição dos intérpretes, aquela que Paul Zumthor discute em sua Introdução à Poesia Oral (1983), livro fundamental para quem queira discutir as relações entre poesia escrita e oral.
Um dos poemas de João Apolinário musicados por João Ricardo demonstra o talento poético do português e está entre meus favoritos. Formado por dois quartetos, o poema "Primavera nos dentes" oscila entre o trobar leu e a sofisticação da wit de um poeta metafísico inglês do século XVII.
Primavera nos dentes João Apolinário
Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera
Se os versos iniciais beiram o vaticínio, são seguidos por imagens poderosas, como os magistrais "E no centro da própria engrenagem / Inventa a contra-mola que resiste", expondo toda uma possibilidade de resistência est-É-tica em meio ao sistema capitalista, sem mencionar a força expressionista dos versos "E envolto em tempestade decepado / Entre os dentes segura a primavera." Apoderados pela vocalidade de Ney Matogrosso em uma das canções mais fortes do grupo, este poema atinge toda a sua poeticidade:
O poema sustenta-se em sua própria materialidade sígnica, em minha opinião, mas assume poderes novos ao habitar a sua vocalidade implícita. Um texto como "Primavera nos dentes" conecta João Apolinário à tradição dos Poetas Goliardos, ou de germânicos como Heinrich Heine (1197 - 1856) e Hans Arp (1886 - 1966), sem falar nas maravilhosas colaborações de Bertolt Brecht e Kurt Weill.
Em outros poemas, João Apolinário esposa uma poética minimalista que o aproxima de forma surpreendente de seu contemporâneo quase exato Robert Creeley (1926 - 2005), levando em conta que o americano viveu duas décadas mais. Mesmo a imagética dos dois aproxima-se, com a palavra flor e o número zero, por exemplo, palavras favoritas de Creeley, tornando-se metáforas analíticas para a poesia e outras dores também em Apolinário. É o que sentimos nos poemas abaixo, extraídos de Eco Humus Homem Lógico. Em outros poemas, sentimos uma relação subterrânea entre João Apolinário e Paulo Leminski, talvez marcada pela influência da música popular e da oralidade na obra de ambos.
Tentamos com esta postagem contribuir para que a poesia ainda não musicada de João Apolinário receba no Brasil a atenção que merece, para o nosso próprio bem.
--- Ricardo Domeneck
§
POEMAS DE JOÃO APOLINÁRIO
da escrita
Da poesia
faço
uma raiz
que gera
a haste
oculta
da palavra
em flor
____
Abro as portas
desta melancolia
fechada no poema
por nascer
e sinto essa magia
suprema
de o escrever
§
os zeros relativos
Reduzo
o espaço
ao limite
do zero
nasce
o mundo
___
Não se pede à alma
que anteceda o corpo
se o nada só existe
depois de ser
concreto
____
Só das coisas reais
tenho o sentido
da transcendência
Não sei do homem mais
do que a essência
de ter vivido
____
Uma única
pétala
gera
um universo
de formas
em órbita
____
Tomo o ar
que respiro
e dou vida
aos deuses
invento a sombra
____
Do mar
faço a planície
para as estrelas
fecundarem a noite
os dinossauros
cantam
____
E da vida
faço este delírio
de batráquios
em fuga
roendo horizontes
____
Só na morte
ponho o zero
à esquerda
do zero
outro zero
começa
____
Depois
do ouro
velho
queremos
o vermelho
§
ecologia lírica
A incógnita
acontece
na cor
que nasce
e reverdece
na flor
até ao limite
de olhá-la
como ela
é
____
O que é que cicia
o mistério (a essência)
desta atmosfera
de sol do meio dia
cuja transparência
parece que gera
o que a terra cria
____
Todos os mitos
imortais
cabem
subitamente
nos alicerces
originais
da semente
____
A pétala sabe
o destino oculto
de todas as coisas
onde o sol começa
____
Criar primeiro o ovo
para a raiz
do pássaro que voa
aquém da casca
Mudar depois as asas
da natureza
sem deixar de ser ave
e ser flor
gerar o movimento
assim eterno
da origem de ser
o que já é
____
O orvalho
respira
a solidão
da noite
na boca
da manhã
____
Um sopro
de luz
abre
no espaço
uma fenda
clara
para o dia
que nasce
§
os infinitos íntimos
Não me cinjas
a voz
não me limites
não me queiras
assim
antecipado
Eu não existo
onde me pensas
Eu estou aqui
agora
é tudo
____
Esta causa
Que me retoma
Em cada dia
Age na esperança
Em que respira
Esta necessidade
De estar vivo
____
No círculo
em que se fecha
o que em mim
respira
há um suicídio
de memórias
que não cabem
no que em mim
existe
____
Já fui longe demais
matando-me nas pedras
que atiro contra mim
sentindo o que não sei
____
Há por aí alguém
que queira vir comigo
atrás do que seremos
quando tivermos sido?
____
O que resta de nós
Dorme a noite invisível
Que ainda nos sobra
____
O que me cansa
é o diabo da esperança
____
O que ficará de mim
nos restos digitais
do tempo
quando chegar
o fim
de que me ausento
§
"É preciso avisar..."
É preciso avisar toda a gente
dar notícia informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir
–
É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha
–
É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta
–
É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores
É preciso imperioso e urgente
mais flores mais flores mais flores
§
"A pressa de chegar..."
A pressa de chegar
correr correr
sem poder esperar
Chegar para morrer
–
A pressa de chegar
O desvario obtuso
O medo de parar
gasto pelo uso
de estar
–
A pressa de chegar
A pressa a louca pressa
de poder encontrar
aquilo que me esqueça
de levar
–
A pressa de chegar
correr correr
sem poder esperar
Chegar para morrer
A canção "I put a spell on you" foi escrita por Screamin´ Jay Hawkins e gravada pela primeira vez em 1956. É uma das minhas canções favoritas de todos os tempos, com pelo duas versões maravilhosas que talvez até mesmo superem a original de Hawkins: a de Nina Simone e a de Diamanda Galás. Na verdade, a primeira vez que a escutei foi na versão de Nina Simone, que é de 1965. Depois conheci a versão assustadora de Diamanda Galás, com aquela potência que lhe é já conhecida. Foi só mais tarde que percebi que a tristeza estranhíssima da canção já estava com seu criador, o fenomenal Screamin´ Jay Hawkins. É uma das canções de amor mais fortes que conheço. É daquela fúria melancólica de quem não está disposto a desistir fácil, algo que eu sempre amei em performers como Nina Simone, Maysa, a Violeta Parra de "Maldigo del alto cielo", Diamanda Galás, PJ Harvey e Cat Power, entre outros. Esta postagem, no fundo, nada mais é que um lembrete, um terno alerta, uma ameaça carinhosa.
O verão em Berlim não é apenas o período em que recarregamos as baterias de vitaminas para suportar o inverno horroroso, cinza e escuro destas bandas nortistas. A cidade se enche de figuras interessantíssimas, oriundas de outras metrópoles como Nova Iorque, Paris e São Paulo. Sim, há as hordas de turistas, algo novo para Berlim, que sempre esteve fora do mapa dos roteiros turísticos até pouco tempo atrás. Todo mundo reclama da turistaiada, mas há entre eles os seres excepcionais que aportam por estas bandas. Berlim está passando por um momento histórico que tem paralelos com a Berlim dos anos 20, a Berlim da República de Weimar. Vou voltar a isso outra hora. Esta ideia voltou a minha mente após assistir a Midnight In Paris, do Woody Allen, com todo aquele louvor da Paris dos anos 20 (fetiche do qual nunca compartilhei, se vivesse nos anos 20 teria feito como Auden e Isherwood e certamente vindo para Berlim). Eu sempre acabo lucrando com a vinda destas pessoas e o programa do nosso evento semanal às quartas-feiras se internacionaliza mais que em outras estações. Nas últimas semanas, passaram pelo nosso clube algumas criaturas muito legais. Falei aqui sobre alguns. Na semana passada, discotecou na festa o duo nova-iorquino Creep.
Hoje à noite discoteca o duo Light Asylum, também nova-iorquino. Nas próximas semanas passarão pelo nosso palco ainda Lorenz Rhode (Düsseldorf/Paris), Black Cracker (Nova Iorque), e outros.