sexta-feira, 30 de setembro de 2011

"Poema-carta para Patrícia Lino", dois vídeos de leitura no Porto e uma pequena sessão de fotos em que banco a Bette Davis

Poema-carta para Patrícia Lino

Os vídeos
estão ótimos, tão
bem feitos
pelas mãos
do teu respeito,
este, que não
sei se mereço.
Vejo-me
magricelo,
tristonho
e horroroso,
insegurança
de eterno
adolescente
subnutrido,
que só ia
à praia
de camisa.
O vento
é apropriado
sempre
para um poeta
descabelado
a miúdo,
verborrágico
e frequente.
É que bicho
apaixonado
é estapafúrdio,
vê-se em foto
ou vídeo
e tudo
que se pergunta
é se o amado
o achará bonito.
Coço
o bócio
eu próprio,
agora
sem quem
o molhe
com fluidos
alheios.
Não se preocupe
com a resolução
do Youtube,
é assim, prefiro-me
vivo, mesmo
com pouquíssimos
pixels.
Agradeço
esta desculpa
de não sentir-me
feito apêndice
inflamado,
todas as ilusões
de nossa relevância.
Guardo o sonho
de ser feliz
um dia
no Porto.


Berlim, manhã do dia 30 de setembro de 2011

§

Dois vídeos de leitura no Porto, filmados por Patrícia Lino, embaixadora da poesia brasileira na cidade.



"Texto em que o poeta celebra o amante de 25 anos", lido no Porto, 26 de setembro de 2011, filmado por Patrícia Lino.

Texto em que o poeta celebra
o amante de vinte e cinco anos



Houve
guerras mais duradouras
que você.
Parabenizo-o pelo sucesso
hoje
de sobreviver a expectativa
de vida
de uma girafa ou morcego,
vaca
velha ou jiboia-constritora,
coruja.
Penguins, ao redor do mundo,
e porcos
com você concebidos, morrem.
Saturno,
desde que se fechou seu óvulo,
não
circundou o Sol uma vez única.
Stalker
que me guia pelas mil veredas
à Zona,
engatinha ainda outro inverno,
escondo
minha cara no seu peito glabro.
Fosse
possível, assinaria um contrato
com Lem
ou com os irmãos Strugatsky,
roteiristas
de nossos dias, noites futuras;
por trilha
sonora, Diamanda Galás muge
e bale,
crocita e ronrona, forniquemos.
Celebro
a mente sob os seus cabelos,
ereto,
anexado ao seu corpo, o pênis.
Algures,
um porco, seu contemporâneo,
chega
ao cimo de seu existir rotundo,
pergunto,
exausto em suor, se amantes,
de cílios
afinal unidos, contam ovelhas
antes
do sono, eufóricas e prenhas.




"Carta a Antínoo", lido no Porto, 26 de setembro de 2011, filmado por Patrícia Lino.


Carta a Antínoo

Que me importam o império as vilas
as efígies nas moedas se o teu cheiro
ocupa ainda cada canto angular
da arquitetura
mas teu pescoço teus pés teu tórax
já não os habitam
e as águas do Nilo não permitem
que este teu cheiro
agora se evada se exale e me excite ou exalte
uns dizem suspeitar que eu ordenei tua morte
outros que tua influência se tornara indesejável
nunca houve lugar para Eros
entre as intrigas de corte
eu já não me lembro tua morte talvez
a tenha ordenado quiçá tenha sido
castigado por meus inimigos
os mais cruéis sugerem que o ato
fora uma fuga tua dos meus cafunés
das minhas mãos geriátricas
não sei não sei tua lembrança
ocupa o espaço de todo o resto
que eu poderia agora memorizar
ordens execuções missões diplomáticas
a fundação de cidades já não me alegra
se tu já não serás um dos cidadãos
as revoltas de bárbaros tão-só
me entediam
se tu não me acompanhas nas campanhas
divinizar-te é consequência lógica
doravante estarás no panteão
entre aqueles que agora
por um motivo a mais invejo
se teu exercício de natação sem volta
foi mesmo sacrifício ou autoimolação
eu me pergunto que deus te merecia
mais do que eu
dizem as boas bocas pelas ruas de Roma
que eu chorei por ti como uma mulher
como se eles pudessem distinguir o gênero
das águas salinizadas
Pancrates de Alexandria comparara
uma flor-de-lótus a ti e não o contrário
e com isso ganhou meus favores
tu eras o parâmetro
de todos os sistemas da simetria
Antínoo ainda que eu mandasse a Bitínia
ser varrida vasculhada
jamais outro com teu pescoço
teus pés teu tórax
tu eras o príncipe das belugas
Antínoo tu foste meu antinão

§


Pequena sessão de fotos em que banco a Bette Davis
(retratos feitos por Patrícia Lino)





quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Das canções favoritas: "Hello, Goodbye", dos Beatles



Esta foi a canção que ouvi obsessivamente ontem durante o dia. É uma das minhas favoritas, não apenas dentre as dos Beatles, como de qualquer tempo ou banda. Sei que eles talvez tenham composições e letras muito mais sofisticadas, mas a mim esta canção parece uma coisa muito linda, diz tanto com tão parcos recursos, é triste demais e tão cheia de alegria ao mesmo tempo, daquela esperança do "bola para a frente, meu velho".

Foi lançada como single em 1967, escrita por Paul McCartney.






Hello, Goodbye
Paul McCartney

You say yes, I say no
You say stop and I say go, go, go
Oh, no
You say goodbye and I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello

I say high, you say low
You say why, and I say I don't know
Oh, no
You say goodbye and I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello

Why, why, why, why, why, why
Do you say good bye
Goodbye, bye, bye, bye, bye

Oh, no
You say goodbye and I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello
hello, hello
I don't know why you say goodbye I say hello
Hello

Hela, heba helloa
Hela, heba helloa

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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Fincomeço: neste dia, hoje, quarta-feira, 28 de setembro de 2011, saúdo um a mais, um a menos



Este ano de 2011 tem sido um ano de fins abruptos, começos involuntários, os quais tenho recebido entre o susto e o siso. Hoje, após seis anos e meio organizando os eventos, festas, intervenções e performances semanais neste bairro de Prenzlauer Berg, em pleno Berlimbo, primeiro sob o nome de Berlin Hilton, depois como SHADE inc, celebramos pela última vez no clube que nos abrigou desde 2005, após abandonarmos o primeiro por ter se tornado pequeno demais e a relação com os donos demasiado difícil. No clube Neue Berliner Initiative, conhecido como NBI, pudemos enfim fazer do evento o que queríamos: uma ponte entre cenas e guetos, um local onde os mais improváveis indivíduos se encontrassem. Seria impossível relatar aqui tudo o que aconteceu por ali. Tive a chance de organizar performances de heróis meus ou simplesmente beber com eles quando passavam pela festa. Ali organizamos, muitas vezes pela primeira vez em Berlim, performances e concertos de artistas como Planningtorock, Stereo Total, Bunny Rabbit, Mystery Jets, AIDS-3D, Barbara Panther, Tetine, Hellvar, Ben Butler & Mousepad, Exercise One, Herpes, Glen Meadmore feat. Vaginal Davis, Heatsick, Khan, Kevin Blechdom, Angie Reed, Deize Tigrona, Thieves Like Us, Wolfgang Müller (Die Tödliche Doris), entre outros; tocaram ainda, como DJs, artistas como Peaches, Ellen Allien, Apparat, Modeselektor, Fischerspooner, Telepathé, CocoRosie, oOoOO, Change/Thomas Muller, Heartthrob, Gebrüder Teichmann, T.Raumschmiere, etc. Não vou citar as pessoas inacreditáveis que passaram pela festa para beber ou assistir a uma performance, pois seria passar dos limites aceitáveis do name dropping.

Hoje, acaba uma era da vida noturna berlinense. Não sou eu a dizer, mas as muitas pessoas que têm reagido à notícia desta última festa. O clube fecha esta semana por ter se tornado impossível manter-se neste bairro (gentrification, dears, gentrification...) e nós talvez quiçá oxalá sigamos em frente, mas em outro local, outro bairro, com outro projeto.

Nosso convidado especial desta noite é o nova-iorquino Black Cracker, produtor do duo CocoRosie, Bunny Rabbit, e incrível artista solo. Já falei sobre ele aqui.





O futuro? Não nos esqueçamos da tautologia sábia de Scarlett O´Hara:

"Tomorrow is another day"

Abaixo, uma pequena seleção de vídeos de performances na Berlin Hilton/SHADE inc, reunidos nestes últimos seis anos. Da grande maioria não há qualquer registro, estávamos geralmente ocupados demais sendo felizes para pegar numa câmera. Mas por sorte há estes, feitos por amigos, às vezes por mim. Ajudam minha memória já excitada.

RIP Berlin Hilton/SHADE inc (2005 - 2011)



Kevin Blechdom (2006)

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Mystery Jets (2009)

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Jailhouse Fuck (2009)

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Wolfgang Müller - Die Tödliche Doris (2009)

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Ellen Allien discotecando em 2010.

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Herpes (2009)

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Apparat + Akia discotecando em 2010.

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Lesley Flanigan (2010)

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Akia (2009)

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Thomas Muller a.k.a. Change discotecando em 2010.

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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Retorno de Portugal com os primeiros sintomas de uma nova obsessão: Maria Gabriela Llansol

Voltei hoje a Berlim, depois de uma passagem muito boa por Portugal, minha primeira vez, com leituras/performances em Lisboa e Porto. Muitos livros na mala. Há muito o que contar, muitas ideias, leituras e encontros, mas, por ora, comento apenas estar passando pelos primeiros sintomas do que certamente se tornará uma nova obsessão - pela escritora portuguesa MARIA GABRIELA LLANSOL (1935 - 2008).

Já havia lido referências a ela aqui e acolá, mas foi uma conversa em Lisboa com a poeta cearense Érica Zíngano que me fez percorrer os alfarrabistas (sebos) do Porto até encontrar um livro da autora, que morreu há poucos anos. Encontrei o estranho e maravilhoso Um Falcão no Punho (1985), que comecei a ler na mesma noite e está me absorvendo por completo. A última vez que me lembro de ter sentido isso foi quando descobri Hilda Hilst, há mais de uma década.

Este livro, que se constrói e descontrói a forma do diário, lançando-se nas águas das expectativas de gênero (GENRE/GENDER), é ficção e construção de realidade, não sei ainda o que dizer, estou absorto e acabei de entrar no universo de Maria Gabriela Llansol.

Deixo vocês com uma página do livro:


Herbais, 26 de julho de 1981

Relativamente a nós, o meu corpo foge, e parece que, só, desço um rio, e faço um exame atento do seu leito. Este não foi, no entanto, o princípio fidedigno dos meus pensamentos, hoje. O que me ocorreu é que o meu corpo foge de mim e que, um ou outro, deslizam sem protecção, para o interior de uma obra; ninguém pode deter-se de permeio deveria também ter dito que sou submetida à prova de uma cosmogonia, e que leio, com paixão, textos do mundo medieval. Em concomitância, convirjo para Spinoza.

Idade Média:
Quando ler um texto era comentá-lo..., a ideia de que um texto é para bom uso, faz-me evocar o meu próprio corpo, e a sensualidade do entendimento. Abelardo dava o seguinte conselho: "aprende durante muito tempo, ensina tarde, e somente o que julgares valer a pena. Quanto a escrever, não te apresses".

Estarei no momento em que me desvio para aprofundar a confusão de uma experiência, do prazer carnal? Não me dou conta de que, como a lectio, sou um ser livre, solto na dependência, e na obscuridade.



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Página de Um Falcão no Punho (1985), de Maria Gabriela Llansol (1935 - 2008). E o obsessão enraíza-se e lança aos altos seus galhos.


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domingo, 25 de setembro de 2011

Uma poeta portuense para celebrar minha chegada ao Porto

Porto

O trem avança por entre vinhas, até que percebo os trilhos correndo ao longo de uma praia, o sol começa a se por, e sei, sem jamais ter estado aqui antes, que estou chegando à cidade do Porto, com aquela explosão de luz e ar aberto, que experiência revigorante. Então, caminhar ao longo do Douro, olhar para a Ribeira e perceber que o Porto certamente é uma das cidades mais lindas do planeta deixou-me num estado de muita calma. Não sei explicar. Vocês já estiveram em cidades onde a única descrição da sensação que lhes causam é o pensamento estranho de "eu poderia ser feliz aqui"? Tive isso em poucas cidades.

Amanhã faço uma leitura na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Agradeço aqui mais uma vez publicamente a Patrícia Lino por sua hospitalidade (e de sua família simplesmente adorável) e pelo respeito com que vem tratando meu trabalho aqui no Porto.

Para celebrar esta passagem pela cidade, três pequenos poemas secos e lúcidos de Sophia de Mello Breyner Andresen, nascida aqui.


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento



§


Cada dia é mais evidente que partimos
Sophia de Mello Breyner Andresen


Cada dia é mais evidente que partimos
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudades nem terror que baste.


§


Os troncos das árvores
Sophia de Mello Breyner Andresen


Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga.



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sábado, 24 de setembro de 2011

Especial lisboeta para a série d´Os poemas que continuam salvando minha vida: "De profundis amamus", de Mário Cesariny

O mestre Mário Cesariny (1923 - 2006)


Em Lisboa pela primeira vez, caminhando da Alfama à Graça, desta ao Chiado, a Baixa e o Bairro Alto, a luz intensa desta cidade atordoando meus olhos acostumados há anos com o chiaroscuro frequente do Berlimbo, no peito um só nome e na cabeça, para aliviar o engarrafamento nos alvéolos, um poema do mestre Cesariny.


De profundis amamus
Mário Cesariny

Ontem às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
é há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso



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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Vida longa à poesia pura

Vida longa à poesia pura

Escuta aqui, nós, poetas aguados,
caminhamos hoje
por entre plantas de nomes
mui bem catalogados,
mas os quais desconhecemos,
e assim confundimos muito
bem-me-queres e amores-dos-homens,
chamamos de taráxaco a calêndula,
e colhemos com frequência
a amargosa por malmequer.
Eu, por mim, preferiria
saber distinguir entre a hortelã
e a cidreira, esta e a camomila,
para salvar-me de ressacas quiçá
vindo de buracos e valas malsãs,
onde meninos esguios, longilíneos
feito enguias, seguram os limões
nada luminosos
de uma ex-caipirinha ou tequila.
Eis aqui minha ação
de graças,
poetas laureados, queridos
antepassados cosmopolitas
do último século,
vossa pureza de linguagem
salvou-nos
desses incômodos detalhes,
chegamos enfim ao universal,
e sabiá, busardo ou melro,
cantamos agora
apenas o pássaro
abstrato no galho
de uma árvore
que não sabemos nomear.


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terça-feira, 20 de setembro de 2011

A caminho de Portugal, para performances em Lisboa e Porto.

Nesta quinta-feira, embarco para Portugal pela primeiríssima vez. Amigos aqui em Berlim sempre se espantam quando digo que não conheço Portugal, mas é realmente um dos poucos países na Europa Ocidental em que não me apresentei, seja como poeta ou DJ, ou sequer tenha podido visitar. São justamente os países do extremo ocidental do continente: Portugal, Irlanda e Islândia. Nesta quinta, poderei finalmente conhecer Portugal, apresentando-me com minha performance vídeo-textual em Lisboa e na cidade do Porto.

Em Lisboa, participo de um evento dedicado à performance que ocorre com certa frequência, chamado Epipiderme, com curadoria de Nuno Oliveira. Esta edição do evento ocorre na própria quinta-feira, dia 22 de setembro, e terá performances do brasileiro Márcio-André (que sugeriu meu nome a Nuno Oliveira e a quem agradeço a generosidade) e do português Antonio Azenha.

Na cidade do Porto, farei uma leitura na segunda-feira, dia 26 de setembro, apresentando alguns dos meus vídeos na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, graças à generosidade e empenho de Patrícia Lino, a quem também agradeço aqui. Patrícia Lino preparou este pequeno vídeo para promover a tarde na FLUP:


RICARDO DOMENECK NA FLUP : 26 SETEMBRO 2011 from Patrícia Lino on Vimeo.



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domingo, 18 de setembro de 2011

Os poemas que continuam salvando minha vida: "Cais", de Ronaldo Bastos - em várias vozes.

Ao chegar a meu apartamento depois de um encontro tão difícil, sabia que não podia escutar "Pedaço de mim" ou "Trocando em miúdos", de Chico Buarque; também sabia que nem podia chegar perto de "Feelings" na voz de Nina Simone; não podia sequer cantarolar "Rising" da Lhasa de Sela; muito menos cair na besteira de assoviar "Ne me quitte pas", imaginando-me uma Maysa em frangalhos; não, seria o abismo. Então pensei: "Cais", "Cais", "Cais", com aquele texto luminoso e cheio da coragem da lucidez viva, aquele pedregulho de simplicidade de Ronaldo Bastos; pensei imediatamente na interpretação maravilhosa de Elis Regina e ainda noutra de Nana Caymmi com o próprio Milton Nascimento, que musicou e tão justamente vocalizou o texto, sabia que era este poema que me mostraria o caminho daquela sensação que rima com "Cais".


Cais
Ronaldo Bastos

Para quem quer
Se soltar
Invento o cais
Invento mais
Que a solidão me dá
Invento lua nova
A clarear
Invento o amor
E sei a dor
De encontrar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim
O sonhador
Para quem quer
Me seguir
Eu quero mais
Tenho o caminho
Do que sempre quis
E um saveiro pronto
Pra partir
Invento o cais
E sei a vez
De me lançar




Elis Regina vocaliza o poema "Cais".


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Nana Caymmi vocaliza "Cais" com Milton Nascimento.


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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Lançamento do meu pequeno livro "Cigarros na cama" e do terceiro número impresso da "Modo de Usar & Co."



Neste sábado, lanço no Rio de Janeiro (in absentia) um pequeno livro novo, com 28 poemas interligados, intitulado Cigarros na cama. Acima, vocês podem ver a capa. A fotografia é do meu amigo Heinz Peter Knes e o projeto gráfico é de Marília Garcia, que cuida da diagramação e projeto gráfico da Modo de Usar & Co.. Abaixo, a capa do novo número impresso, nosso terceiro (na foto, a poeta norte-americana e tradutora de poetas brasileiros para o inglês Hilary Kaplan, feita por Alexandra Shaw):



O lançamento da Modo de Usar & Co. e do livro Cigarros na cama será na Livraria Berinjela, Av. Rio Branco, 185 / loja 10 subsolo, a partir das 10 da manhã deste sábado.


O terceiro número impresso da Modo de Usar & Co. traz:

textos inéditos de

Dirceu Villa, Inês Cardoso, Paula Glenadel, Renan Nuernberger, Rui Camargo, Victor Heringer, Walter Gam, Liv Nicolsky, Rodrigo Damasceno, Leonardo Gandolfi, Marco Catalão, Fabiana Faleiros, Érica Zíngano, Rodolfo Caesar, Mario Sagayama, Júlia de Carvalho Hansen, Érico Nogueira, Reuben da Cunha Rocha, Leandro Rafael Perez, Fabrício Corsaletti e Marcelo Sahea, além de inéditos dos editores Angélica Freitas, Fabiano Calixto, Marília Garcia e Ricardo Domeneck

e traduções para textos de

Gertrude Stein (por Inês Cardoso), Charles Pennequin (por Marcelo Jacques de Moraes), Kenneth Koch (por Marília Garcia e Wilson Reis), Violeta Parra (por mim), Vicente Huidobro (por Juliana Amato), Nathalie Quintane (por Paula Glenadel), Rodrigo Álvarez (por Marília Garcia), Helmut Heissenbüttel (por Marília Garcia e Wilson Reis), Roberto Bolaño (os poemas por Fabiano Calixto, o conto por Tiago Guilherme Pinheiro), Emmanuel Hocquard (Marília Garcia), Rosmarie Waldrop (por Andrea Mateus), Christian Prigent (por Marcelo Jacques de Moraes), Charles Reznikoff (por Marília Garcia), Cecília Pavón (por Marília Garcia) e John Ashbery (por Ismar Tirelli Neto).




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