sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sobre Tomas Tranströmer e minha pequena nota na "Folha de S. Paulo" de hoje

Na segunda-feira, em correspondência com o artista brasileiro Laércio Redondo, radicado em Estocolmo há muitos anos, falávamos sobre o trabalho de dois poetas do país: Gunnar Ekelöf (1907 - 1968) e Tomas Tranströmer (n. 1931). Mal sabíamos que dois dias depois o segundo estaria nos jornais do mundo todo.

Ekelöf é praticamente uma instituição, sua obra é incontornável, muitíssimo influente. Eu o considero um dos poetas mais elegantes (e melancólicos) que já li. Todos os meus amigos suecos o leem, alguns são admiradores declarados. Já a posição de Tomas Tranströmer talvez seja mais complicada. Obviamente, é mais jovem (em comparação com Ekelöf), e, sendo um poeta contemporâneo, vivo, cai na rede das disputas pelas parcas vagas no cânone, na teia das comparações quase sempre injustas. Não sou sueco, não conheço os debates poéticos do país. Estive uma única vez em seu solo, e, ainda por cima, na cidade de Malmö, ligada por uma ponte a Copenhague, na Dinamarca. Tranströmer é, no entanto, o poeta contemporâneo sueco mais traduzido, publicado e conhecido fora do país. Está entre os poetas europeus mais famosos no continente, ao lado de autores como seu conterrâneo Lars Gustafsson, Paul Muldoon (da Irlanda do Norte), Yves Bonnefoy (França), Tomaž Šalamun (da Eslovênia), ou os recentemente falecidos Inger Christensen (Dinamarca) e Edwin Morgan (Escócia), sem mencionar os laureados Seamus Heaney (Irlanda) e Wislawa Szymborska (Polônia). Em minha opinião, a Alemanha não tem, hoje, um poeta que assuma este tipo de "estrelato". Aquela que é chamada por alguns de "Grande Dama da Poesia Germânica", minha adorada Friederike Mayröcker (Áustria), é praticamente desconhecida fora do ambiente germânico ou mesmo dentro dele. E, se pensarmos bem, mesmo estes autores não têm a influência, como public intellectuals, digamos, que T.S. Eliot teve no passado, ou Joseph Brodsky teve até a década de 80. A que Octavio Paz e Czesław Miłosz tiveram até suas mortes.

Ora, como brasileiros, sabemos que ser amplamente traduzido não é, em si, status que indique a importância do poeta em seu próprio país. Um dos poetas brasileiros vivos que mais encontro em tradução aqui na Europa é Ledo Ivo, e sabemos da insignificância de seu trabalho dentro do debate poético contemporâneo brasileiro.

Mas Tomas Tranströmer não é Ledo Ivo algum, eu ousaria dizer. Seu trabalho é de uma clareza bastante elegante, de uma simplicidade lírica que me alegra muito, até o ponto em que posso julgá-lo, conhecendo-o a partir de publicações em alemão e inglês. Soube através de alguns artigos lidos desde sua premiação com o Nobel ontem que sua religiosidade encontra resistência na Suécia, e que seu trabalho já foi acusado de "alienado", por "furtar-se à discussão das grandes questões". Sinceramente, eu nunca entendo bem o que querem dizer com "grandes questões". Se o envelhecimento, a morte e a desolação amorosa não são grandes questões, não sei bem o que seriam. Pergunto-me se poemas como "Citoyens", com seu relato de um sonho em que Danton e Robespierre comparecem, ou "Sobre a História", em que comparecem Goethe, Gide e Dreyfus, abordam este conflito.

Descobri o trabalho de Tranströmer há alguns anos, quando percorria os sebos de Berlim à procura das edições de poesia de uma casa editorial extinta, da antiga Berlim Oriental, que se chamava Verlag Volk und Welt (Editora Povo e Mundo), que publicava muitas antologias, de poetas muito diferentes entre si (tanto estética como politicamente), como Dylan Thomas, William Carlos Williams, Vladimir Maiakóvski, Ai Qing, Odysséas Elýtis, entre outros. Nesta coleção encontrei minha primeira antologia de poemas de Tomas Tranströmer, traduzidos para o alemão por poetas da Alemanha Oriental, como Richard Pietrass.

Soube que Tomas Tranströmer recebera o Prêmio Nobel de Literatura de 2011 de uma maneira curiosa. Ao chegar ao meu apartamento, após passar o dia cuidando de certas burocracias alemãs (kafkianas) necessárias, encontrei, antes de ler qualquer notícia, uma mensagem da Folha de S. Paulo, pedindo-me um comentário crítico (com espaço minguado) sobre o novo ganhador do Nobel, o poeta sueco Tomas Tranströmer, para a "Ilustrada" desta manhã. Tomada de surpresa, imagino que a redação estava em polvorosa para conseguir publicar algo de concreto sobre um poeta sem volumes traduzidos no Brasil. Eu mesmo, tomado de surpresa, tentei esboçar em algumas linhas o que pensava sobre Tomas Tranströmer e seu prêmio. Minha nota, editada, apareceu esta manhã, creio, no jornal. Deixo vocês com a nota, aqui expandida. Passarei os próximos dias lendo Tranströmer (estou carregando uma antologia alemã de seus poemas desde a tarde de ontem) e talvez volte a alguns dos pontos. Trata-se de uma pequena nota, cheia de impressões. Minha comparação, por exemplo, entre Tranströmer e Montale é extremamente subjetiva, e tem apenas a ver com a maneira como os dois poetas pareceram distanciar-se de uma noção de poesia pura a caminho de uma escrita mais marcada pelo quotidiano. Não é uma comparação hierárquica.


Tomas Tranströmer, com justiça
especial para a Folha de S. Paulo (versão ampliada)

É comum que a premiação de um poeta com o Nobel gere surpresa e a corrida por informações sobre o autor, tão frequentemente desconhecido, a não ser que se trate de pesos-pesados como T.S. Eliot, em 48, Czeslaw Milosz, em 80, ou Joseph Brodsky, em 87. O último poeta a ter seu trabalho reconhecido pelo prêmio foi a polonesa Wislawa Szymborska, em 1996, àquela altura também razoavelmente desconhecida fora da Europa. No ano anterior, a premiação do poeta irlandês Seamus Heaney causara alvoroço e surpresa parecidos. A década de 90 viu uma única premiação de um poeta parecer, digamos, óbvia, quando o santa-lucense Derek Walcott o recebera em 1992, ou Octavio Paz em 1990, tecnicamente ainda anos 80. Nenhum poeta foi premiado na última década. Talvez pudéssemos refletir sobre a recepção da poesia na cultura contemporânea a partir desta falta de equilíbrio, quando na verdade há ainda poetas muito influentes sem este reconhecimento, como o sírio Adonis ou o norte-americano John Ashbery, certamente mais famosos e influentes em âmbito global, pelo menos antes do Prêmio, que os novelistas Hertha Müller ou John M. Coetzee. No ano passado, quando o Prêmio concedido a Mario Vargas Llosa foi anunciado, eu estava participando da Bienal de Poesia organizada pela Universidade de Lieja, na Bélgica. Todos os participantes se mostraram decepcionados que o Prêmio não houvesse sido dado a Tomas Tranströmer, algo que tomavam por quase certo, e o sueco acabou recebendo o Prêmio da Bienal daquele ano, também concedido a outros poetas pouco ou muito antes do Nobel, como Giuseppe Ungaretti ou Saint-John Perse.

Tomas Tranströmer é hoje o poeta sueco mais traduzido no mundo, ainda que completamente desconhecido no Brasil, onde, com a exceção de publicações esparsas em revistas, o poeta ainda não teve volume publicado, pelo menos nada pude encontrar que estivesse em catálogo. Na Europa, é considerado um dos mais importantes poetas vivos do continente, e sua posição no cânone poético sueco do pós-guerra talvez só possa ser comparada à de Gunnar Ekelöf (1907 – 1968), pelo menos para olhos estrangeiros que contemplam a poesia do país do lado de fora de suas fronteiras.

Em poemas do início de sua carreira, como “Tempestade”, “Solitárias casas suecas” ou “Aquele que acordou com o canto sobre os telhados”, Tranströmer esposava uma poética de ritmos regulares, imagética clara e objetiva, o que talvez o ligue a poetas como o espanhol Jorge Guillén, ao francês Paul Valéry. Aos poucos, sua obra enriqueceu-se de ritmos, passando a adotar versos longos, em poemas de fôlego, como no belo “Mares do norte”, em que versos de ritmo quase sálmico unem-se à técnica da enumeração e a quase-prosa que Allen Ginsberg tornaria famosa e popular em um poema como “Uivo”.

Tranströmer a empregaria ainda em poemas como “Schubertiana”, ou recorreria à prosa propriamente dita em textos como “Funchal” e “Respostas breves”. Ele, no entanto, não parece querer tomar partido entre oposições como objetividade e subjetividade, tradição e vanguarda. Tais oposições parecem encontrar guarida natural em sua obra, com delicadeza e elegância. Mesmo em seus livros posteriores retorna à tradição da poesia nórdica, mas com uma simplicidade que parece ser fruto de uma sabedoria arduamente conquistada.

O desenvolvimento de sua poesia por vezes me lembra a de Eugenio Montale, outro premiado com o Nobel. Com 80 anos, nascido em Estocolmo em 1931 (o que o torna contemporâneo de poetas brasileiros como Ferreira Gullar e Augusto de Campos), o poeta luta há tempos com sérios problemas de saúde. Este prêmio talvez venha agora como a coroação de uma obra que, desde seu primeiro volume em 1954, balança-se em equilíbrio elegante entre a tradição europeia de uma poesia metrificada e pura, e as contribuições das vanguardas que levaram a poesia ocidental a novos territórios rítmicos e temáticos.

O que podemos esperar é que o poeta receba agora maior acolhida no mercado editorial brasileiro.


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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Poemas que continuam salvando minha vida: "Tu estás aqui", de Ruy Belo

Ruy Belo


Sei bem que a esta altura, ou talvez devesse dizer a esta fundura do campeonato entre poços, eu deveria deter minha boca ao perceber outro louvor a escapar-se dela, deveria estar ocupado na prática de imprecações, fazendo as maldições de Violeta Parra em "Maldigo del alto cielo" parecerem muxoxos, pois é realmente difícil esquecer quando nossa mente faz tudo para obliterar com tampões de palavras as obturações da Oblivion, e ele, ora, não está mais aqui, e mesmo assim eu digo: "Tu estás aqui", como se eu vivesse no poema de Ruy Belo, o sortudo.



Tu estás aqui
Ruy Belo

Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-las para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui


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domingo, 2 de outubro de 2011

"O poeta lírico na Sala de Justiça"


.........................................O poeta lírico na Sala de Justiça

.........................................eu e eu sempre
.........................................sonharemos ser
.........................................super
.........................................heróis, talvez
.........................................que se tocassem
.........................................com anéis
.........................................(se não
.........................................de casamento)
.........................................mas dissessem
.........................................por exemplo
........................................."super-siameses,
.........................................ativar!", a ejetar
.........................................relâmpagos
.........................................mutatis mutandis
.........................................enquanto eu
.........................................asseveraria
........................................."forma de Macaca
.........................................fuscata
!"
.........................................(por ter róseos
.........................................e desprotegidos
........................................ os glúteos)
.........................................e eu
.........................................acrescentaria
........................................."forma de um
.........................................pé de gelo!"
.........................................e dessarte
.........................................eu e eu
.........................................pelos séculos
.........................................dos séculos
.........................................nos bastaríamos


Ricardo Domeneck, setembro de 2011, iniciado num avião entre Lisboa e Berlim, terminado em minha cama entre cigarros e risadas do ridículo de si mesmo.


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Para os muito jovens, o "contexto histórico":



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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

"Poema-carta para Patrícia Lino", dois vídeos de leitura no Porto e uma pequena sessão de fotos em que banco a Bette Davis

Poema-carta para Patrícia Lino

Os vídeos
estão ótimos, tão
bem feitos
pelas mãos
do teu respeito,
este, que não
sei se mereço.
Vejo-me
magricelo,
tristonho
e horroroso,
insegurança
de eterno
adolescente
subnutrido,
que só ia
à praia
de camisa.
O vento
é apropriado
sempre
para um poeta
descabelado
a miúdo,
verborrágico
e frequente.
É que bicho
apaixonado
é estapafúrdio,
vê-se em foto
ou vídeo
e tudo
que se pergunta
é se o amado
o achará bonito.
Coço
o bócio
eu próprio,
agora
sem quem
o molhe
com fluidos
alheios.
Não se preocupe
com a resolução
do Youtube,
é assim, prefiro-me
vivo, mesmo
com pouquíssimos
pixels.
Agradeço
esta desculpa
de não sentir-me
feito apêndice
inflamado,
todas as ilusões
de nossa relevância.
Guardo o sonho
de ser feliz
um dia
no Porto.


Berlim, manhã do dia 30 de setembro de 2011

§

Dois vídeos de leitura no Porto, filmados por Patrícia Lino, embaixadora da poesia brasileira na cidade.



"Texto em que o poeta celebra o amante de 25 anos", lido no Porto, 26 de setembro de 2011, filmado por Patrícia Lino.

Texto em que o poeta celebra
o amante de vinte e cinco anos



Houve
guerras mais duradouras
que você.
Parabenizo-o pelo sucesso
hoje
de sobreviver a expectativa
de vida
de uma girafa ou morcego,
vaca
velha ou jiboia-constritora,
coruja.
Penguins, ao redor do mundo,
e porcos
com você concebidos, morrem.
Saturno,
desde que se fechou seu óvulo,
não
circundou o Sol uma vez única.
Stalker
que me guia pelas mil veredas
à Zona,
engatinha ainda outro inverno,
escondo
minha cara no seu peito glabro.
Fosse
possível, assinaria um contrato
com Lem
ou com os irmãos Strugatsky,
roteiristas
de nossos dias, noites futuras;
por trilha
sonora, Diamanda Galás muge
e bale,
crocita e ronrona, forniquemos.
Celebro
a mente sob os seus cabelos,
ereto,
anexado ao seu corpo, o pênis.
Algures,
um porco, seu contemporâneo,
chega
ao cimo de seu existir rotundo,
pergunto,
exausto em suor, se amantes,
de cílios
afinal unidos, contam ovelhas
antes
do sono, eufóricas e prenhas.




"Carta a Antínoo", lido no Porto, 26 de setembro de 2011, filmado por Patrícia Lino.


Carta a Antínoo

Que me importam o império as vilas
as efígies nas moedas se o teu cheiro
ocupa ainda cada canto angular
da arquitetura
mas teu pescoço teus pés teu tórax
já não os habitam
e as águas do Nilo não permitem
que este teu cheiro
agora se evada se exale e me excite ou exalte
uns dizem suspeitar que eu ordenei tua morte
outros que tua influência se tornara indesejável
nunca houve lugar para Eros
entre as intrigas de corte
eu já não me lembro tua morte talvez
a tenha ordenado quiçá tenha sido
castigado por meus inimigos
os mais cruéis sugerem que o ato
fora uma fuga tua dos meus cafunés
das minhas mãos geriátricas
não sei não sei tua lembrança
ocupa o espaço de todo o resto
que eu poderia agora memorizar
ordens execuções missões diplomáticas
a fundação de cidades já não me alegra
se tu já não serás um dos cidadãos
as revoltas de bárbaros tão-só
me entediam
se tu não me acompanhas nas campanhas
divinizar-te é consequência lógica
doravante estarás no panteão
entre aqueles que agora
por um motivo a mais invejo
se teu exercício de natação sem volta
foi mesmo sacrifício ou autoimolação
eu me pergunto que deus te merecia
mais do que eu
dizem as boas bocas pelas ruas de Roma
que eu chorei por ti como uma mulher
como se eles pudessem distinguir o gênero
das águas salinizadas
Pancrates de Alexandria comparara
uma flor-de-lótus a ti e não o contrário
e com isso ganhou meus favores
tu eras o parâmetro
de todos os sistemas da simetria
Antínoo ainda que eu mandasse a Bitínia
ser varrida vasculhada
jamais outro com teu pescoço
teus pés teu tórax
tu eras o príncipe das belugas
Antínoo tu foste meu antinão

§


Pequena sessão de fotos em que banco a Bette Davis
(retratos feitos por Patrícia Lino)





quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Das canções favoritas: "Hello, Goodbye", dos Beatles



Esta foi a canção que ouvi obsessivamente ontem durante o dia. É uma das minhas favoritas, não apenas dentre as dos Beatles, como de qualquer tempo ou banda. Sei que eles talvez tenham composições e letras muito mais sofisticadas, mas a mim esta canção parece uma coisa muito linda, diz tanto com tão parcos recursos, é triste demais e tão cheia de alegria ao mesmo tempo, daquela esperança do "bola para a frente, meu velho".

Foi lançada como single em 1967, escrita por Paul McCartney.






Hello, Goodbye
Paul McCartney

You say yes, I say no
You say stop and I say go, go, go
Oh, no
You say goodbye and I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello

I say high, you say low
You say why, and I say I don't know
Oh, no
You say goodbye and I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello

Why, why, why, why, why, why
Do you say good bye
Goodbye, bye, bye, bye, bye

Oh, no
You say goodbye and I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello
hello, hello
I don't know why you say goodbye I say hello
Hello

Hela, heba helloa
Hela, heba helloa

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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Fincomeço: neste dia, hoje, quarta-feira, 28 de setembro de 2011, saúdo um a mais, um a menos



Este ano de 2011 tem sido um ano de fins abruptos, começos involuntários, os quais tenho recebido entre o susto e o siso. Hoje, após seis anos e meio organizando os eventos, festas, intervenções e performances semanais neste bairro de Prenzlauer Berg, em pleno Berlimbo, primeiro sob o nome de Berlin Hilton, depois como SHADE inc, celebramos pela última vez no clube que nos abrigou desde 2005, após abandonarmos o primeiro por ter se tornado pequeno demais e a relação com os donos demasiado difícil. No clube Neue Berliner Initiative, conhecido como NBI, pudemos enfim fazer do evento o que queríamos: uma ponte entre cenas e guetos, um local onde os mais improváveis indivíduos se encontrassem. Seria impossível relatar aqui tudo o que aconteceu por ali. Tive a chance de organizar performances de heróis meus ou simplesmente beber com eles quando passavam pela festa. Ali organizamos, muitas vezes pela primeira vez em Berlim, performances e concertos de artistas como Planningtorock, Stereo Total, Bunny Rabbit, Mystery Jets, AIDS-3D, Barbara Panther, Tetine, Hellvar, Ben Butler & Mousepad, Exercise One, Herpes, Glen Meadmore feat. Vaginal Davis, Heatsick, Khan, Kevin Blechdom, Angie Reed, Deize Tigrona, Thieves Like Us, Wolfgang Müller (Die Tödliche Doris), entre outros; tocaram ainda, como DJs, artistas como Peaches, Ellen Allien, Apparat, Modeselektor, Fischerspooner, Telepathé, CocoRosie, oOoOO, Change/Thomas Muller, Heartthrob, Gebrüder Teichmann, T.Raumschmiere, etc. Não vou citar as pessoas inacreditáveis que passaram pela festa para beber ou assistir a uma performance, pois seria passar dos limites aceitáveis do name dropping.

Hoje, acaba uma era da vida noturna berlinense. Não sou eu a dizer, mas as muitas pessoas que têm reagido à notícia desta última festa. O clube fecha esta semana por ter se tornado impossível manter-se neste bairro (gentrification, dears, gentrification...) e nós talvez quiçá oxalá sigamos em frente, mas em outro local, outro bairro, com outro projeto.

Nosso convidado especial desta noite é o nova-iorquino Black Cracker, produtor do duo CocoRosie, Bunny Rabbit, e incrível artista solo. Já falei sobre ele aqui.





O futuro? Não nos esqueçamos da tautologia sábia de Scarlett O´Hara:

"Tomorrow is another day"

Abaixo, uma pequena seleção de vídeos de performances na Berlin Hilton/SHADE inc, reunidos nestes últimos seis anos. Da grande maioria não há qualquer registro, estávamos geralmente ocupados demais sendo felizes para pegar numa câmera. Mas por sorte há estes, feitos por amigos, às vezes por mim. Ajudam minha memória já excitada.

RIP Berlin Hilton/SHADE inc (2005 - 2011)



Kevin Blechdom (2006)

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Mystery Jets (2009)

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Jailhouse Fuck (2009)

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Wolfgang Müller - Die Tödliche Doris (2009)

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Ellen Allien discotecando em 2010.

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Herpes (2009)

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Apparat + Akia discotecando em 2010.

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Lesley Flanigan (2010)

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Akia (2009)

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Thomas Muller a.k.a. Change discotecando em 2010.

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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Retorno de Portugal com os primeiros sintomas de uma nova obsessão: Maria Gabriela Llansol

Voltei hoje a Berlim, depois de uma passagem muito boa por Portugal, minha primeira vez, com leituras/performances em Lisboa e Porto. Muitos livros na mala. Há muito o que contar, muitas ideias, leituras e encontros, mas, por ora, comento apenas estar passando pelos primeiros sintomas do que certamente se tornará uma nova obsessão - pela escritora portuguesa MARIA GABRIELA LLANSOL (1935 - 2008).

Já havia lido referências a ela aqui e acolá, mas foi uma conversa em Lisboa com a poeta cearense Érica Zíngano que me fez percorrer os alfarrabistas (sebos) do Porto até encontrar um livro da autora, que morreu há poucos anos. Encontrei o estranho e maravilhoso Um Falcão no Punho (1985), que comecei a ler na mesma noite e está me absorvendo por completo. A última vez que me lembro de ter sentido isso foi quando descobri Hilda Hilst, há mais de uma década.

Este livro, que se constrói e descontrói a forma do diário, lançando-se nas águas das expectativas de gênero (GENRE/GENDER), é ficção e construção de realidade, não sei ainda o que dizer, estou absorto e acabei de entrar no universo de Maria Gabriela Llansol.

Deixo vocês com uma página do livro:


Herbais, 26 de julho de 1981

Relativamente a nós, o meu corpo foge, e parece que, só, desço um rio, e faço um exame atento do seu leito. Este não foi, no entanto, o princípio fidedigno dos meus pensamentos, hoje. O que me ocorreu é que o meu corpo foge de mim e que, um ou outro, deslizam sem protecção, para o interior de uma obra; ninguém pode deter-se de permeio deveria também ter dito que sou submetida à prova de uma cosmogonia, e que leio, com paixão, textos do mundo medieval. Em concomitância, convirjo para Spinoza.

Idade Média:
Quando ler um texto era comentá-lo..., a ideia de que um texto é para bom uso, faz-me evocar o meu próprio corpo, e a sensualidade do entendimento. Abelardo dava o seguinte conselho: "aprende durante muito tempo, ensina tarde, e somente o que julgares valer a pena. Quanto a escrever, não te apresses".

Estarei no momento em que me desvio para aprofundar a confusão de uma experiência, do prazer carnal? Não me dou conta de que, como a lectio, sou um ser livre, solto na dependência, e na obscuridade.



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Página de Um Falcão no Punho (1985), de Maria Gabriela Llansol (1935 - 2008). E o obsessão enraíza-se e lança aos altos seus galhos.


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domingo, 25 de setembro de 2011

Uma poeta portuense para celebrar minha chegada ao Porto

Porto

O trem avança por entre vinhas, até que percebo os trilhos correndo ao longo de uma praia, o sol começa a se por, e sei, sem jamais ter estado aqui antes, que estou chegando à cidade do Porto, com aquela explosão de luz e ar aberto, que experiência revigorante. Então, caminhar ao longo do Douro, olhar para a Ribeira e perceber que o Porto certamente é uma das cidades mais lindas do planeta deixou-me num estado de muita calma. Não sei explicar. Vocês já estiveram em cidades onde a única descrição da sensação que lhes causam é o pensamento estranho de "eu poderia ser feliz aqui"? Tive isso em poucas cidades.

Amanhã faço uma leitura na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Agradeço aqui mais uma vez publicamente a Patrícia Lino por sua hospitalidade (e de sua família simplesmente adorável) e pelo respeito com que vem tratando meu trabalho aqui no Porto.

Para celebrar esta passagem pela cidade, três pequenos poemas secos e lúcidos de Sophia de Mello Breyner Andresen, nascida aqui.


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen


Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento



§


Cada dia é mais evidente que partimos
Sophia de Mello Breyner Andresen


Cada dia é mais evidente que partimos
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudades nem terror que baste.


§


Os troncos das árvores
Sophia de Mello Breyner Andresen


Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga.



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sábado, 24 de setembro de 2011

Especial lisboeta para a série d´Os poemas que continuam salvando minha vida: "De profundis amamus", de Mário Cesariny

O mestre Mário Cesariny (1923 - 2006)


Em Lisboa pela primeira vez, caminhando da Alfama à Graça, desta ao Chiado, a Baixa e o Bairro Alto, a luz intensa desta cidade atordoando meus olhos acostumados há anos com o chiaroscuro frequente do Berlimbo, no peito um só nome e na cabeça, para aliviar o engarrafamento nos alvéolos, um poema do mestre Cesariny.


De profundis amamus
Mário Cesariny

Ontem às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
é há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso



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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Vida longa à poesia pura

Vida longa à poesia pura

Escuta aqui, nós, poetas aguados,
caminhamos hoje
por entre plantas de nomes
mui bem catalogados,
mas os quais desconhecemos,
e assim confundimos muito
bem-me-queres e amores-dos-homens,
chamamos de taráxaco a calêndula,
e colhemos com frequência
a amargosa por malmequer.
Eu, por mim, preferiria
saber distinguir entre a hortelã
e a cidreira, esta e a camomila,
para salvar-me de ressacas quiçá
vindo de buracos e valas malsãs,
onde meninos esguios, longilíneos
feito enguias, seguram os limões
nada luminosos
de uma ex-caipirinha ou tequila.
Eis aqui minha ação
de graças,
poetas laureados, queridos
antepassados cosmopolitas
do último século,
vossa pureza de linguagem
salvou-nos
desses incômodos detalhes,
chegamos enfim ao universal,
e sabiá, busardo ou melro,
cantamos agora
apenas o pássaro
abstrato no galho
de uma árvore
que não sabemos nomear.


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