sábado, 15 de outubro de 2011

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Hoje à noite, em Berlim, performances da Planningtorock e do duo Creep, no já lendário clube Berghain


Já escrevi aqui várias vezes sobre a artista multimídia britânica Janine Rostron, mais conhecida como Planningtorock. Creio também já ter escrito sobre Lauren Flax e Lauren Dillard, o duo nova-iorquino Creep. Hoje à noite, eles tocam juntos no maior e mais lendário clube berlinense da atualidade, o Berghain, local onde sempre quis ver Planningtorock, por ter talvez o melhor sistema de som da cidade. Estou exultante. A música da Planningtorock salva meus neurônios do naufrágio toda vez que a vejo em ação. E Flax e Dillard estão entre as pessoas mais deliciosas que conheci este verão. Queria que todos vocês pudessem estar aqui hoje.



Planningtorock - "The breaks", do álbum W.


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Creep (featuring Romy Madley Croft, da banda The XX) - "Days"

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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Dois vídeos encontrados nos meus arquivos, de performances em nosso evento semanal, entre o satírico e o xamânico: Angie Reed & TV Buddhas

Hoje é quarta-feira, segunda semana de pausa do nosso evento semanal aqui no Berlimbo. Mais tarde, encontro-me com os donos do clube onde desde 2005 organizamos as performances, concertos, instalações e DJ sets seguidos de celebração festeira, para discutirmos a reabertura no novo local.

Nos últimos dias, subi fotos antigas acumuladas para a página oficial, e, fuçando em meus arquivos, encontrei alguns vídeos de performances já digitalizados mas que eu ainda não havia editado e disponibilizado na Rede. Ontem editei dois deles: da performance da americana Angie Reed, em 2006, e a do duo israelense TV Buddhas, em 2009. Foi uma combinação engraçada, pois não poderia imaginar artistas mais diferentes em seus temperamentos.




Angie Reed é uma multiinstrumentista e poeta-vocalista satírica. O vídeo mostra sua performance para sua canção mais conhecida, chamada "Hustle A Hustler", que é, creio, do álbum XYZ Frequency (2005). Angie Reed nasceu em 1976, e vive em Berlim há muitos anos, onde começou a carreira como baixista e segunda vocalista da banda Stereo Total. Em 2003, lançou seu primeiro álbum solo, o conceitual Angie Reed Presents the Best of Barbara Brockhaus (2003), produzido por Patrick Catani. Sua performance em nosso evento, que eu adoro dizer ser our own private Cabaret Voltaire, deu-se em 2006, creio que em novembro. Sua performance me faz pensar na poesia cantada dos trovadores do trobar leu, de poetas satíricos da Idade Média como os Goliardos, coisa que me atinge por vezes na performance de poetas vocais contemporâneos, como quando me apresentei com o catalão Albert Pla em um festival de poesia de Madri. Vê-lo sobre o palco, rodeado pelo público, cantando suas canções, interrompendo-as para vociferar imprecações contra o governo e a igreja, fez-me sentir-me no coração da idolatrada salve salve tradição poética medieval. Senti o mesmo nas duas vezes em que tive a sorte maravilhosa de assistir a performances do grupo Tiger Lillies, por exemplo, com o fenomenal poeta-vocalista satírico Martyn Jacques à frente.

Abaixo, o trobar leu de Angie Reed.



Angie Reed vocaliza sua "Hustle A Hustler" em nosso evento semanal, em novembro de 2006.



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O segundo vídeo é do duo TV Buddhas, de Israel. Creiam-me, eu não uso o adjetivo "xamânico" com frequência, sou leitor apaixonado de Eliade e acho que esta tradição é abusada por muitos charlatães, especialmente no Brasil. Nem acho que este vídeo vá ser capaz de dar a ver o que estas duas criaturas fizeram no meio da nossa pista de dança por cerca de 45 minutos. Eu fiquei impressionadíssimo. Entre os artistas trabalhando com música hoje no mundo, nos últimos tempos tive esta experiência apenas com os criadores de persona, como Fever Ray e Planningtorock. Mas, nesta noite em questão, capturada mal mas registrada no vídeo abaixo, eu realmente senti nestes dois seres humanos o poder do xamânico. Com vocês, um excerto de uma experiência verdadeira, a performance dos TV Buddhas no nosso evento, em 2009.




TV Buddhas em nosso evento semanal, em setembro de 2009.




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domingo, 9 de outubro de 2011

"O cartógrafo confuso" ou "Notas às margens do Tejo", poema inédito, escrito em Lisboa



O cartógrafo confuso
ou Notas às margens do Tejo

a luz a luz de lisboa
após uma década de chiaroscuro
em berlim me cega me atordoa
depois de suar por ruas
de sujeira e descalabro
que fazem sentir-me em casa
posto-me feito um mastro
cambaleante
diante do estuário do tejo
no miradouro do cais das colunas
com esta folha de papel sulfite
apoiada sobre um livro de ruy belo
fumando um dos meus gauloises
cantarolo “cais” diante das águas
querendo enfim borrar a fronteira
entre a escrita e a vida
o esganiçar da minha voz
assustando as gaivotas
as garças as pombas
mas os peixes seguem próximos
logo abaixo do espelho das águas
dentro de seu líquido espaço
acústico
e não sei se estou longe da cama
que me foi emprestada
pois os portugueses apesar
de haverem viajado o mundo
têm parâmetros esquisitíssimos
de distância
e digo eis que cheguei até aqui
mas ninguém entenderia o que
com aqui quero dizer
se o futuro é uma folha em branco
certamente está amassada
e cheia de vincos
o nome o rosto de um moço
que se invisibilizou
fazem com que os limites
da cidade de lisboa
se estendam até a alemanha
não compreendo que cartógrafos
ignorem tal força centrípeta
em seus mapas
que imperialistas e conquistadores
não tenham jamais adotado tal estratégia
para aumentar seus impérios
ora perder e então viajar



Ricardo Domeneck. Lisboa, 24 de setembro de 2011, no miradouro do Cais das Colunas.


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sábado, 8 de outubro de 2011

James Blake regrava "A case of you", uma das canções mais bonitas de Joni Mitchell, para seu novo EP, intitulado "Enough Thunder"


Com certeza trata-se de seu respeito pela tradição dos songwriters, à qual ele próprio parece querer pertencer, além de ser de uma esperteza brilhante. Após regravar "The limit to your love", de Feist, para seu album de estreia, James Blake agora regrava "A case of you", de Joni Mitchell, para seu novo EP, intitulado Enough Thunder (outubro de 2011). Imagino se ele tenta trazer alguma familiaridade para sua música, que talvez ainda seja para muitos ouvidos estranha. Ele certamente quer ser ouvido além das fronteiras do movimento que o catapultou, o do dubstep britânico. Não se pode virar estrela com aquela estranheza bonita. Justiça seja feita: sua regravação de "Limit to your love" mostra-o fiel tanto à canção como a suas origens. No caso de "A case of you", ele parece ter se curvado muito mais a Mitchell, é uma versão mais convencional e fiel, digamos, que "Limit to your love".

Por enquanto, minha canção favorita no EP é a deslumbrante (realmente deslumbrante) "Not long now", mas fiquei muito tocado por sua regravação de "A case of you", que mostro abaixo, na original de Mitchell e na versão de Blake, seguidas do texto. Que texto. Eu amo aquela primeira estrofe: "Just before our love got lost you said / 'I am as constant as a northern star' / And I said, 'Constantly in the darkness / Where´s that at? / If you want me I´ll be in the bar'".





Joni Mitchell - "A case of you", do álbum Blue (1971)



James Blake - "A case of you", de Joni Mitchell - versão gravada para o EP Enough Thunder (2011)


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A Case of You
Joni Mitchell

Just before our love got lost you said
“I am as constant as a northern star”
And I said “Constantly in the darkness
Where’s that at?
If you want me I’ll be in the bar”

On the back of a cartoon coaster
In the blue TV screen light
I drew a map of Canada
Oh Canada
With your face sketched on it twice
Oh you’re in my blood like holy wine
You taste so bitter and so sweet

Oh I could drink a case of you darling
Still I’d be on my feet
oh I would still be on my feet

Oh I am a lonely painter
I live in a box of paints
I’m frightened by the devil
And I’m drawn to those ones that ain’t afraid

I remember that time you told me you said
“Love is touching souls”
Surely you touched mine
‘Cause part of you pours out of me
In these lines from time to time
Oh, you’re in my blood like holy wine
You taste so bitter and so sweet

Oh I could drink a case of you darling
And I would still be on my feet
I would still be on my feet

I met a woman
She had a mouth like yours
She knew your life
She knew your devils and your deeds
And she said
“Go to him, stay with him if you can
But be prepared to bleed”

Oh but you are in my blood
You’re my holy wine
You’re so bitter, bitter and so sweet

Oh, I could drink a case of you darling
Still I’d be on my feet
I would still be on my feet


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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sobre Tomas Tranströmer e minha pequena nota na "Folha de S. Paulo" de hoje

Na segunda-feira, em correspondência com o artista brasileiro Laércio Redondo, radicado em Estocolmo há muitos anos, falávamos sobre o trabalho de dois poetas do país: Gunnar Ekelöf (1907 - 1968) e Tomas Tranströmer (n. 1931). Mal sabíamos que dois dias depois o segundo estaria nos jornais do mundo todo.

Ekelöf é praticamente uma instituição, sua obra é incontornável, muitíssimo influente. Eu o considero um dos poetas mais elegantes (e melancólicos) que já li. Todos os meus amigos suecos o leem, alguns são admiradores declarados. Já a posição de Tomas Tranströmer talvez seja mais complicada. Obviamente, é mais jovem (em comparação com Ekelöf), e, sendo um poeta contemporâneo, vivo, cai na rede das disputas pelas parcas vagas no cânone, na teia das comparações quase sempre injustas. Não sou sueco, não conheço os debates poéticos do país. Estive uma única vez em seu solo, e, ainda por cima, na cidade de Malmö, ligada por uma ponte a Copenhague, na Dinamarca. Tranströmer é, no entanto, o poeta contemporâneo sueco mais traduzido, publicado e conhecido fora do país. Está entre os poetas europeus mais famosos no continente, ao lado de autores como seu conterrâneo Lars Gustafsson, Paul Muldoon (da Irlanda do Norte), Yves Bonnefoy (França), Tomaž Šalamun (da Eslovênia), ou os recentemente falecidos Inger Christensen (Dinamarca) e Edwin Morgan (Escócia), sem mencionar os laureados Seamus Heaney (Irlanda) e Wislawa Szymborska (Polônia). Em minha opinião, a Alemanha não tem, hoje, um poeta que assuma este tipo de "estrelato". Aquela que é chamada por alguns de "Grande Dama da Poesia Germânica", minha adorada Friederike Mayröcker (Áustria), é praticamente desconhecida fora do ambiente germânico ou mesmo dentro dele. E, se pensarmos bem, mesmo estes autores não têm a influência, como public intellectuals, digamos, que T.S. Eliot teve no passado, ou Joseph Brodsky teve até a década de 80. A que Octavio Paz e Czesław Miłosz tiveram até suas mortes.

Ora, como brasileiros, sabemos que ser amplamente traduzido não é, em si, status que indique a importância do poeta em seu próprio país. Um dos poetas brasileiros vivos que mais encontro em tradução aqui na Europa é Ledo Ivo, e sabemos da insignificância de seu trabalho dentro do debate poético contemporâneo brasileiro.

Mas Tomas Tranströmer não é Ledo Ivo algum, eu ousaria dizer. Seu trabalho é de uma clareza bastante elegante, de uma simplicidade lírica que me alegra muito, até o ponto em que posso julgá-lo, conhecendo-o a partir de publicações em alemão e inglês. Soube através de alguns artigos lidos desde sua premiação com o Nobel ontem que sua religiosidade encontra resistência na Suécia, e que seu trabalho já foi acusado de "alienado", por "furtar-se à discussão das grandes questões". Sinceramente, eu nunca entendo bem o que querem dizer com "grandes questões". Se o envelhecimento, a morte e a desolação amorosa não são grandes questões, não sei bem o que seriam. Pergunto-me se poemas como "Citoyens", com seu relato de um sonho em que Danton e Robespierre comparecem, ou "Sobre a História", em que comparecem Goethe, Gide e Dreyfus, abordam este conflito.

Descobri o trabalho de Tranströmer há alguns anos, quando percorria os sebos de Berlim à procura das edições de poesia de uma casa editorial extinta, da antiga Berlim Oriental, que se chamava Verlag Volk und Welt (Editora Povo e Mundo), que publicava muitas antologias, de poetas muito diferentes entre si (tanto estética como politicamente), como Dylan Thomas, William Carlos Williams, Vladimir Maiakóvski, Ai Qing, Odysséas Elýtis, entre outros. Nesta coleção encontrei minha primeira antologia de poemas de Tomas Tranströmer, traduzidos para o alemão por poetas da Alemanha Oriental, como Richard Pietrass.

Soube que Tomas Tranströmer recebera o Prêmio Nobel de Literatura de 2011 de uma maneira curiosa. Ao chegar ao meu apartamento, após passar o dia cuidando de certas burocracias alemãs (kafkianas) necessárias, encontrei, antes de ler qualquer notícia, uma mensagem da Folha de S. Paulo, pedindo-me um comentário crítico (com espaço minguado) sobre o novo ganhador do Nobel, o poeta sueco Tomas Tranströmer, para a "Ilustrada" desta manhã. Tomada de surpresa, imagino que a redação estava em polvorosa para conseguir publicar algo de concreto sobre um poeta sem volumes traduzidos no Brasil. Eu mesmo, tomado de surpresa, tentei esboçar em algumas linhas o que pensava sobre Tomas Tranströmer e seu prêmio. Minha nota, editada, apareceu esta manhã, creio, no jornal. Deixo vocês com a nota, aqui expandida. Passarei os próximos dias lendo Tranströmer (estou carregando uma antologia alemã de seus poemas desde a tarde de ontem) e talvez volte a alguns dos pontos. Trata-se de uma pequena nota, cheia de impressões. Minha comparação, por exemplo, entre Tranströmer e Montale é extremamente subjetiva, e tem apenas a ver com a maneira como os dois poetas pareceram distanciar-se de uma noção de poesia pura a caminho de uma escrita mais marcada pelo quotidiano. Não é uma comparação hierárquica.


Tomas Tranströmer, com justiça
especial para a Folha de S. Paulo (versão ampliada)

É comum que a premiação de um poeta com o Nobel gere surpresa e a corrida por informações sobre o autor, tão frequentemente desconhecido, a não ser que se trate de pesos-pesados como T.S. Eliot, em 48, Czeslaw Milosz, em 80, ou Joseph Brodsky, em 87. O último poeta a ter seu trabalho reconhecido pelo prêmio foi a polonesa Wislawa Szymborska, em 1996, àquela altura também razoavelmente desconhecida fora da Europa. No ano anterior, a premiação do poeta irlandês Seamus Heaney causara alvoroço e surpresa parecidos. A década de 90 viu uma única premiação de um poeta parecer, digamos, óbvia, quando o santa-lucense Derek Walcott o recebera em 1992, ou Octavio Paz em 1990, tecnicamente ainda anos 80. Nenhum poeta foi premiado na última década. Talvez pudéssemos refletir sobre a recepção da poesia na cultura contemporânea a partir desta falta de equilíbrio, quando na verdade há ainda poetas muito influentes sem este reconhecimento, como o sírio Adonis ou o norte-americano John Ashbery, certamente mais famosos e influentes em âmbito global, pelo menos antes do Prêmio, que os novelistas Hertha Müller ou John M. Coetzee. No ano passado, quando o Prêmio concedido a Mario Vargas Llosa foi anunciado, eu estava participando da Bienal de Poesia organizada pela Universidade de Lieja, na Bélgica. Todos os participantes se mostraram decepcionados que o Prêmio não houvesse sido dado a Tomas Tranströmer, algo que tomavam por quase certo, e o sueco acabou recebendo o Prêmio da Bienal daquele ano, também concedido a outros poetas pouco ou muito antes do Nobel, como Giuseppe Ungaretti ou Saint-John Perse.

Tomas Tranströmer é hoje o poeta sueco mais traduzido no mundo, ainda que completamente desconhecido no Brasil, onde, com a exceção de publicações esparsas em revistas, o poeta ainda não teve volume publicado, pelo menos nada pude encontrar que estivesse em catálogo. Na Europa, é considerado um dos mais importantes poetas vivos do continente, e sua posição no cânone poético sueco do pós-guerra talvez só possa ser comparada à de Gunnar Ekelöf (1907 – 1968), pelo menos para olhos estrangeiros que contemplam a poesia do país do lado de fora de suas fronteiras.

Em poemas do início de sua carreira, como “Tempestade”, “Solitárias casas suecas” ou “Aquele que acordou com o canto sobre os telhados”, Tranströmer esposava uma poética de ritmos regulares, imagética clara e objetiva, o que talvez o ligue a poetas como o espanhol Jorge Guillén, ao francês Paul Valéry. Aos poucos, sua obra enriqueceu-se de ritmos, passando a adotar versos longos, em poemas de fôlego, como no belo “Mares do norte”, em que versos de ritmo quase sálmico unem-se à técnica da enumeração e a quase-prosa que Allen Ginsberg tornaria famosa e popular em um poema como “Uivo”.

Tranströmer a empregaria ainda em poemas como “Schubertiana”, ou recorreria à prosa propriamente dita em textos como “Funchal” e “Respostas breves”. Ele, no entanto, não parece querer tomar partido entre oposições como objetividade e subjetividade, tradição e vanguarda. Tais oposições parecem encontrar guarida natural em sua obra, com delicadeza e elegância. Mesmo em seus livros posteriores retorna à tradição da poesia nórdica, mas com uma simplicidade que parece ser fruto de uma sabedoria arduamente conquistada.

O desenvolvimento de sua poesia por vezes me lembra a de Eugenio Montale, outro premiado com o Nobel. Com 80 anos, nascido em Estocolmo em 1931 (o que o torna contemporâneo de poetas brasileiros como Ferreira Gullar e Augusto de Campos), o poeta luta há tempos com sérios problemas de saúde. Este prêmio talvez venha agora como a coroação de uma obra que, desde seu primeiro volume em 1954, balança-se em equilíbrio elegante entre a tradição europeia de uma poesia metrificada e pura, e as contribuições das vanguardas que levaram a poesia ocidental a novos territórios rítmicos e temáticos.

O que podemos esperar é que o poeta receba agora maior acolhida no mercado editorial brasileiro.


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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Poemas que continuam salvando minha vida: "Tu estás aqui", de Ruy Belo

Ruy Belo


Sei bem que a esta altura, ou talvez devesse dizer a esta fundura do campeonato entre poços, eu deveria deter minha boca ao perceber outro louvor a escapar-se dela, deveria estar ocupado na prática de imprecações, fazendo as maldições de Violeta Parra em "Maldigo del alto cielo" parecerem muxoxos, pois é realmente difícil esquecer quando nossa mente faz tudo para obliterar com tampões de palavras as obturações da Oblivion, e ele, ora, não está mais aqui, e mesmo assim eu digo: "Tu estás aqui", como se eu vivesse no poema de Ruy Belo, o sortudo.



Tu estás aqui
Ruy Belo

Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-las para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui


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domingo, 2 de outubro de 2011

"O poeta lírico na Sala de Justiça"


.........................................O poeta lírico na Sala de Justiça

.........................................eu e eu sempre
.........................................sonharemos ser
.........................................super
.........................................heróis, talvez
.........................................que se tocassem
.........................................com anéis
.........................................(se não
.........................................de casamento)
.........................................mas dissessem
.........................................por exemplo
........................................."super-siameses,
.........................................ativar!", a ejetar
.........................................relâmpagos
.........................................mutatis mutandis
.........................................enquanto eu
.........................................asseveraria
........................................."forma de Macaca
.........................................fuscata
!"
.........................................(por ter róseos
.........................................e desprotegidos
........................................ os glúteos)
.........................................e eu
.........................................acrescentaria
........................................."forma de um
.........................................pé de gelo!"
.........................................e dessarte
.........................................eu e eu
.........................................pelos séculos
.........................................dos séculos
.........................................nos bastaríamos


Ricardo Domeneck, setembro de 2011, iniciado num avião entre Lisboa e Berlim, terminado em minha cama entre cigarros e risadas do ridículo de si mesmo.


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Para os muito jovens, o "contexto histórico":



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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

"Poema-carta para Patrícia Lino", dois vídeos de leitura no Porto e uma pequena sessão de fotos em que banco a Bette Davis

Poema-carta para Patrícia Lino

Os vídeos
estão ótimos, tão
bem feitos
pelas mãos
do teu respeito,
este, que não
sei se mereço.
Vejo-me
magricelo,
tristonho
e horroroso,
insegurança
de eterno
adolescente
subnutrido,
que só ia
à praia
de camisa.
O vento
é apropriado
sempre
para um poeta
descabelado
a miúdo,
verborrágico
e frequente.
É que bicho
apaixonado
é estapafúrdio,
vê-se em foto
ou vídeo
e tudo
que se pergunta
é se o amado
o achará bonito.
Coço
o bócio
eu próprio,
agora
sem quem
o molhe
com fluidos
alheios.
Não se preocupe
com a resolução
do Youtube,
é assim, prefiro-me
vivo, mesmo
com pouquíssimos
pixels.
Agradeço
esta desculpa
de não sentir-me
feito apêndice
inflamado,
todas as ilusões
de nossa relevância.
Guardo o sonho
de ser feliz
um dia
no Porto.


Berlim, manhã do dia 30 de setembro de 2011

§

Dois vídeos de leitura no Porto, filmados por Patrícia Lino, embaixadora da poesia brasileira na cidade.



"Texto em que o poeta celebra o amante de 25 anos", lido no Porto, 26 de setembro de 2011, filmado por Patrícia Lino.

Texto em que o poeta celebra
o amante de vinte e cinco anos



Houve
guerras mais duradouras
que você.
Parabenizo-o pelo sucesso
hoje
de sobreviver a expectativa
de vida
de uma girafa ou morcego,
vaca
velha ou jiboia-constritora,
coruja.
Penguins, ao redor do mundo,
e porcos
com você concebidos, morrem.
Saturno,
desde que se fechou seu óvulo,
não
circundou o Sol uma vez única.
Stalker
que me guia pelas mil veredas
à Zona,
engatinha ainda outro inverno,
escondo
minha cara no seu peito glabro.
Fosse
possível, assinaria um contrato
com Lem
ou com os irmãos Strugatsky,
roteiristas
de nossos dias, noites futuras;
por trilha
sonora, Diamanda Galás muge
e bale,
crocita e ronrona, forniquemos.
Celebro
a mente sob os seus cabelos,
ereto,
anexado ao seu corpo, o pênis.
Algures,
um porco, seu contemporâneo,
chega
ao cimo de seu existir rotundo,
pergunto,
exausto em suor, se amantes,
de cílios
afinal unidos, contam ovelhas
antes
do sono, eufóricas e prenhas.




"Carta a Antínoo", lido no Porto, 26 de setembro de 2011, filmado por Patrícia Lino.


Carta a Antínoo

Que me importam o império as vilas
as efígies nas moedas se o teu cheiro
ocupa ainda cada canto angular
da arquitetura
mas teu pescoço teus pés teu tórax
já não os habitam
e as águas do Nilo não permitem
que este teu cheiro
agora se evada se exale e me excite ou exalte
uns dizem suspeitar que eu ordenei tua morte
outros que tua influência se tornara indesejável
nunca houve lugar para Eros
entre as intrigas de corte
eu já não me lembro tua morte talvez
a tenha ordenado quiçá tenha sido
castigado por meus inimigos
os mais cruéis sugerem que o ato
fora uma fuga tua dos meus cafunés
das minhas mãos geriátricas
não sei não sei tua lembrança
ocupa o espaço de todo o resto
que eu poderia agora memorizar
ordens execuções missões diplomáticas
a fundação de cidades já não me alegra
se tu já não serás um dos cidadãos
as revoltas de bárbaros tão-só
me entediam
se tu não me acompanhas nas campanhas
divinizar-te é consequência lógica
doravante estarás no panteão
entre aqueles que agora
por um motivo a mais invejo
se teu exercício de natação sem volta
foi mesmo sacrifício ou autoimolação
eu me pergunto que deus te merecia
mais do que eu
dizem as boas bocas pelas ruas de Roma
que eu chorei por ti como uma mulher
como se eles pudessem distinguir o gênero
das águas salinizadas
Pancrates de Alexandria comparara
uma flor-de-lótus a ti e não o contrário
e com isso ganhou meus favores
tu eras o parâmetro
de todos os sistemas da simetria
Antínoo ainda que eu mandasse a Bitínia
ser varrida vasculhada
jamais outro com teu pescoço
teus pés teu tórax
tu eras o príncipe das belugas
Antínoo tu foste meu antinão

§


Pequena sessão de fotos em que banco a Bette Davis
(retratos feitos por Patrícia Lino)





quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Das canções favoritas: "Hello, Goodbye", dos Beatles



Esta foi a canção que ouvi obsessivamente ontem durante o dia. É uma das minhas favoritas, não apenas dentre as dos Beatles, como de qualquer tempo ou banda. Sei que eles talvez tenham composições e letras muito mais sofisticadas, mas a mim esta canção parece uma coisa muito linda, diz tanto com tão parcos recursos, é triste demais e tão cheia de alegria ao mesmo tempo, daquela esperança do "bola para a frente, meu velho".

Foi lançada como single em 1967, escrita por Paul McCartney.






Hello, Goodbye
Paul McCartney

You say yes, I say no
You say stop and I say go, go, go
Oh, no
You say goodbye and I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello

I say high, you say low
You say why, and I say I don't know
Oh, no
You say goodbye and I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello

Why, why, why, why, why, why
Do you say good bye
Goodbye, bye, bye, bye, bye

Oh, no
You say goodbye and I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello
Hello, hello
I don't know why you say goodbye
I say hello
hello, hello
I don't know why you say goodbye I say hello
Hello

Hela, heba helloa
Hela, heba helloa

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