terça-feira, 8 de novembro de 2011

Minha primeira jornada no Europália

La poésie brésilienne aujourd´hui (Liège: le Cormier, 2011)


Pretendia escrever sobre cada uma das noites em que estive e me apresentei aqui na Bélgica, mas foi tudo um verdadeiro turbilhão. Tampouco poderei agora escrever largamente sobre esta minha primeira passagem pelo Europália, em que fiz três apresentações: duas de minhas performances vídeo-textuais em Antuérpia, e uma leitura dos meus poemas em Bruxelas (onde estou neste momento), ao lado de Paula Glenadel e do tradutor para o francês, Patrick Quillier, como lançamento da antologia La poésie brésilienne aujourd´dui (Liège: Le Cormier, 2011). Os tradutores para o holandês, Bart Vonck e Harrie Lemmens, estavam também presentes, mas infelizmente a antologia em holandês, a mais longa, trazendo 25 poetas brasileiros, ficará pronta apenas em uma semana. A antologia francófona traz 15 poetas, todos traduzidos por Patrick Quillier, que é nada mais nada menos que o tradutor francês de Fernando Pessoa e Herberto Helder, entre outros portugueses. Os poetas incluídos são, em ordem alfabética:


Ricardo Aleixo
Francisco Alvim
Arnaldo Antunes
Carlito Azevedo
Paulo Henriques Britto
Augusto de Campos
Ricardo Domeneck
Marília Garcia
Paula Glenadel
Júlio Castañon Guimarães
Lu Menezes
Nuno Ramos
Cláudia Roquette-Pinto
Alice Ruiz
Zuca Sardan
Marcos Siscar


A edição é muito elegante, à moda antiga, páginas unidas à espera de uma faca.

Em Antuérpia, cheguei na quinta-feira, junto com Lourenço Mutarelli vindo de São Paulo, e foi um prazer enorme conhecê-lo. Outros encontros especiais ocorreram ali: pude conhecer meu grande herói Tom Zé, que se apresentou na noite de sexta-feira; conheci o maravilhoso cavalheiro que é Zuca Sardan, com quem me correspondia há muito tempo mas, apesar de morarmos ambos na Alemanha, ainda não havíamos tido a chance de nos conhecer pessoalmente; tive conversas ótimas com Paula Glenadel; tive ainda o prazer de conhecer o antropólogo, cientista político e escritor Luiz Eduardo Soares, autor de Elite da Tropa (2006), que daria origem ao filme – com o qual confesso ter muitos problemas –, mas sua intervenção no debate durante o Europalia me pareceu uma das falas mais lúcidas que ouvi da boca de um brasileiro há muito, muito tempo.

Na sexta-feira, apesar de uns probleminhas técnicos, fiz uma apresentação para uma sala cheia de gente jovem e receptiva, mostrando as peças "This is the voice/Esta é a voz", "Mula", "Eustachian Tube in Staccato" e terminando com "Six songs of causality". No sábado, com os problemas técnicos resolvidos, fiz minha segunda apresentação para uma sala lotada, desta vez trocando a peça "This is the voice" por minha colagem-apropriação de Góngora, as "Entrañas de las Soledades".

Uma vez em Bruxelas, pude rever minha eterna crush e queda abismática, Jey (que menciono no meu poema "O acordeonista da Catedral de Bruxelas", que aliás está se provando meu hit nesta viagem e na antologia), com quem passei horas lindas e que revigoraram minha alma em frangalhos.

Ontem aconteceu a leitura na livraria Passa Porta, com uma moderadora boa e uma conversa ótima com os tradutores. Depois, ocorreu a homenagem a Augusto de Campos em uma das lindas salas do Hôtel de Ville de Bruxelas, em que Augusto e seu filho Cid Campos apresentaram o concerto "Poesia É Risco", com participações especiais de Antonio Cicero, Arnaldo Antunes e Adriana Calcanhotto. Fiquei particularmente emocionado com a performance de Augusto e Adriana da canção "Canso do'ill mot son plan e prim", em provençal e português, com a melodia original do próprio Arnaut Daniel. Vocês sabem como me sinto em relação à poesia medieval.

Conheci ainda pela primeira vez a crítica e curadora da parte literária do Europália, Flora Süssekind. Somente seu trabalho de recuperação do grande poeta que foi Sapateiro Silva já bastaria para colocá-la entre os críticos que têm o meu respeito hoje no Brasil, mas ela é ainda uma das poucas a articular com inteligência a crítica formal a uma meditação sobre a historicidade do fazer poético, seja ele o dos poetas mortos ou o dos vivos.

Volto hoje a Berlim. Retorno à Bélgica no final do mês, para minha segunda jornada no Europália.

O turbilhão segue.

A propósito: estarei no Brasil entre o fim de dezembro e o fim de janeiro. Quero rever a família, os amigos e espero poder fazer muitas leituras e performances.

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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Hoje à noite, nosso evento semanal SHADE reabre em novo clube, com dois concertos


Uma verdadeira maratona começa hoje, sobre a qual só poderei escrever com calma em um par de dias. Parto amanhã para minhas primeiras apresentações no Festival Europália, em Antuérpia e Bruxelas, mas antes disso reinauguro com meus companheiros de coletivo nosso evento semanal SHADE, no clube Flamingo. Concertos da brasileira (que cresceu na Alemanha) Dillon e da banda Go Chic, de Taiwan, que acaba de ser produzida por Peaches. Mais: DJ set do meu amigo Marius Funk e também meu. Escrevo com calma da Bélgica. Abaixo, um vídeo com a brasileira/alemã Dillon:




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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

"Pequeno estudo sobre os ciúmes" (2007), o poema mais conciso de minha *tosse*

Abaixo, o poema mais conciso que este vosso verborrágico contemporâneo já cometeu, tão apropriado, além de demonstrar que até mesmo eu tenho parcos, ainda que raros, momentos de lucidez.


Ricardo Domeneck, "Pequeno estudo sobre os ciúmes" (2007)

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domingo, 30 de outubro de 2011

Das canções favoritas: "Dear Darkness", de PJ Harvey

Capa do álbum White Chalk (2007)


"Dear Darkness" é uma das canções mais belas e tristes de um dos álbuns mais belos e tristes de Polly Jean Harvey (Dorset, sul da Inglaterra, 1969), intitulado White Chalk (2007). Eu sou admirador declarado da escrita e música da trobairitz inglesa. Conheço poucos capazes de tamanha agressividade em sua tristeza. Ela foi certamente uma influência sobre mim. Mas, se em canções da década de 90 como "Rid of me" ou "Rub till it bleeds", ela esposava uma melancolia raivosa sem muitos paralelos em sua concisão pontiaguda, em várias entrevistas após o lançamento de White Chalk (penso nas implicações de depuração e míngua deste título), PJ Harvey comentou alguns dos infernos pessoais que levaram à escrita de canções como esta "Dear Darkness" ou "The Devil". A simplicidade aqui não é mero estilo, não é o deserto estiloso dos epígonos de Cabral. É o deserto vivido e legítimo do próprio Cabral, como também penso na incisão (mais que concisão) dos textos de Emily Dickinson ou Lorine Niedecker, se pensarmos na língua inglesa, ou em Orides Fontela dentro da poesia brasileira. O texto me pega já em seu título, que se transforma nos primeiros versos: há algo de vulnerabilidade extrema nas palavras "dear darkness", sem mencionar os versos finais, que me parecem uma coisa de tirar o fôlego: "Dear darkness / Now it's your time to look after us / 'Cause we kept you clothed / We kept you in business / When everyone else was having good luck // So now it's your time / Time to pay / To pay me and the one I love / With the worldly goods you've stashed away / With all the things you / Took from us". Pelo menos, tiram o meu. Cito esta canção em um poema do meu próximo livro. Foi inevitável roubar de Polly Jean.






Dear Darkness
Polly Jean Harvey

Dear darkness
Dear darkness
Won't you cover, cover
Me again?


Dear darkness
Dear
I've been your friend
For many years

Won't you do this for me?
Dearest darkness
And cover me from the sun

And the words tightening
The words are tightening
Around my throat

And
And


Around the throat
Of the one I love

Tightening

Dear darkness
Dear darkness
Now it's your time
To look after us

'Cause we kept you clothed
We kept you in business
When everyone else was having good luck

So now it's your time
Time to pay
To pay me and the one I love
With the worldly goods you've stashed away
With all the things you
Took from us


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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Jovens poetas europeus: Nora Gomringer


Conheci Nora Gomringer em dezembro de 2007, quando nos apresentamos juntos no festival Berlín-Barcelona: Transferència Poètica, na capital catalã, organizado pelo Instituto Goethe e Projectes Poétics Sense Títol, dirigido por Eduard Escoffet. Éramos 4 poetas berlinenses, com Monika Rinck e Ann Cotten além de Nora e moi. No ano seguinte, dividimos palco uma vez mais no Festival Yuxtaposiciones, na Casa Encendida, em Madri. Nora é uma das melhores poetas vocais que já tive o prazer de ver/ouvir, e seus textos sustentam-se na página, o que explica a força de suas performances. Publicou cinco livros de poemas até o momento: Gedichte (2000), Silbentrennung (2002), Sag doch mal was zur Nacht (2006), Klimaforschung (2008) e Nachrichten aus der Luft (2010). Preparei a postagem abaixo para a Modo de Usar & Co. em 2009. Estava pensando em seu poema "Du baust einen Tisch / Você constrói uma mesa", e quis compartilhá-lo uma vez mais.



Nora Gomringer
Ricardo Domeneck, especial para a Modo de Usar & Co., a 11 de setembro de 2009

Nora Gomringer nasceu em Neunkirchen, no estado alemão do Sarre (Saarland), em 1980. Cresceu entre a Alemanha, a Suíça e os Estados Unidos, devido às viagens e residências de seu pai, o poeta suíço-boliviano Eugen Gomringer. Estudou Literatura Anglo-americana, Germanística e História da Arte. Estreou em livro no ano 2000, com o volume Gedichte, ao qual se seguiram Silbentrennung (2002), Sag doch mal was zur Nacht (2006) e Klimaforschung (2008), coletâneas de textos e poemas, sempre acompanhados de álbuns sonoros com a oralização de sua maior parte. Está entre os poetas alemães mais ativos no terreno de pesquisa da poesia oral e sua relação com a poesia escrita. Entre os muitos prêmios recebidos por seu trabalho oral e literário, destacaríamos o Prêmio de Poesia Nikolaus Lenau, concedido a Nora Gomringer em 2008. A poeta vive hoje na pequena cidade alemã de Bamberg.


Apresentamos nesta postagem dois textos de Nora Gomringer, tentando exemplificar suas pesquisas poético-oral e poético-literária. No vídeo abaixo, o texto oral "Du baust einen Tisch", oralizado em Barcelona em dezembro de 2007, durante o festival Transferència Poética: Berlín-Barcelona, organizado pelo Instituto Goethe da cidade, com a participação ainda das poetas Monika Rinck, Ann Cotten e deste que vos escreve. O acompanhamento musical é do grupo barcelonês Bradien.



POEMAS DE NORA GOMRINGER


(Nora Gomringer, "Du baust einen Tisch", com o grupo Bradien, Barcelona, dezembro de 2007)

:

Você constrói uma mesa
tradução de Ricardo Domeneck

Mesa sob a qual você então estica os pés
Mesa para a qual você carrega tábuas num cruzamento
Você constrói para ela
E para si uma mesa
Uma mesa para dois sob a qual
Quatro pés possam esticar-se
Uma mesa à qual você se senta com ela
Eu o vi carregar tábuas num cruzamento
Tábuas para uma mesa
Que você constrói com ela
Para os seus pés e seu esticar-se
Mesa para quatro cotovelos
Quatro pés
Quatro antebraços
Duas panelas
Uma mesa para vocês dois
Para a qual você arrasta tábuas num cruzamento
No qual estou com meu carro
Você constrói uma mesa
Mesa para ela e mesa para você
Uma merda de mesa para vocês dois
Sob a qual vocês esticam seus pés
Um diante do outro
Diante de si
Mesa sob e sobre a qual tudo é dito
Uma mesa assim uma mesa para dois
Para a qual tábuas são arrastadas num cruzamento
Diante de mim
Você constrói uma mesa
Uma mesa sob a qual eu pisaria nos dedos de todos
Uma mesa à qual já não sou assunto
Uma mesa assim você constrói para ela
Contanto que sob esta ela estique os pés
Que ela coma
O que você põe à mesa
Que você constrói
Da qual você carrega as tábuas
Diante de mim
No farol
Você passou com tábuas para uma mesa
Quisera
Que você a construísse para...

:

Du baust einen Tisch
Nora-Eugenie Gomringer

Tisch unter den du dann Füße streckst
Tisch für den du Bretter über die Kreuzung trägst
Du baust für sie
Und dich einen Tisch
Einen Tisch für zwei unter den sich
Vier Füße strecken können
Einen Tisch an dem du sitzt mit ihr
Ich habe dich Bretter über eine Kreuzung tragen sehen
Bretter für einen Tisch
Den du baust mit ihr
Für ihre Füße zum Darunterstrecken
Tisch für vier Ellbogen
Vier Füße
Vier Unterarme
Zwei Töpfe
Einen Tisch für euch zwei
Für den schleppst du Bretter über eine Kreuzung
An der ich stehe mit meinem Auto
Einen Tisch baust du
Tisch für sie und Tisch für dich
Einen Scheißtisch für euch zwei
Unter den ihr eure Füße streckt
Entgegenstreckt
Euch entgegenstreckt
Tisch unter und an dem alles gesagt ist
So einen Tisch einen Tisch für zwei
Für den Bretter über eine Kreuzung geschleppt werden
An mir vorbei
Baust du einen Tisch
Unter dem ich jedem auf die Zehen trete
Einen Tisch an dem ich kein Gespräch mehr bin
So einen Tisch baust du für sie
So lange sie ihre Füße unter ihn streckt
Isst sie,
was du auf den Tisch bringst
den du baust
dessen Bretter du schleppst
an mir vorbei
im Scheinwerfer
gingst du vorbei mit Brettern für einen Tisch
ich wünschte
du bautest einen für...


§

Cama
tradução de Ricardo Domeneck

Uma banquisa
Que vaga pelo mundo
Até haver barulho
E surgir a luz
A derreter os corpos
De focas em humanos

Que reentram em circulação
A rota aquosa
Nas veias alargadas dos dias

Aqui descansam os peixes
Logo abaixo da superfície
Espalham-se, quando a luz desce
Apresentam-se dois à caça
E juntos acampam

:

Bett
Nora Gomringer

Eine Eisscholle
Die in der Welt treibt
Bis es Licht wird
Und Lärm gibt
Der die Robbenleiber
Zu Menschen schmelzt

Die wieder eingehen in den Kreislauf
Die wässrige Bahn
In den geweiteten Adern der Tage

Hier ruhen die Fische
Knapp unter der Oberfläche
Streuen sich, wenn das Licht sinkt
Zur Jagd finden sich zwei ein
Die gemeinsam lagern


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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Hoje à noite, 27/10, Planningtorock apresenta-se no encontro COMA - Conexões Exploratórias em Música e Performance Híbrida, em Belo Horizonte


Planningtorock


Eu já deixei claro inúmeras vezes aqui o quanto sou apaixonado pelo trabalho desta mulher. Dentre os artistas vivendo em Berlim, é certamente uma das que mais me fascinam e me deixam contente por compartilhar o mesmo oxigênio.

Hoje à noite começa em Belo Horizonte o encontro COMA - Conexões Exploratórias em Música e Performance Híbrida, que contará com apresentações da incrível, sim, esta Janine Rostron, mais conhecida como Planningtorock. Além dela, meus queridíssimos heróis, o duo Tetine, e outros artistas brasileiros trabalhando na fronteira entre gêneros: textualidade, música, vídeo. Mais informações na página do festival. Se você estiver em Belo Horizonte, não perca esta oportunidade. Planningtorock apresenta-se às 21:00, esta noite.



Página do festival:


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JANINE ROSTRON, mais conhecida como PLANNINGTOROCK



Planningtorock - "Doorway", do álbum W (DFA Records, 2011)

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Planningtorock - "The breaks", do álbum W (DFA Records, 2011)

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Planningtorock apresentando-se ao vivo em Berlim em 2009.

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Descobrindo Mary Margaret O´Hara

Estava na casa de um amigo aqui em Berlim ontem, entupindo-nos de café preto exageradamente forte e bolando cigarros com tabaco barato, enquanto ele me mostrava o novo álbum de sua banda, que deverá ser lançado no ano que vem. Em uma das faixas, quem canta com ele como vocalista convidada é a canadense Mary Margaret O´Hara (Toronto, 1951). Eu não a conhecia. Meu amigo, que também é canadense, então me disse que ela é uma verdadeira lenda do rock e folk no Canadá, com o que jornalistas gostam de chamar de cult status, tendo lançado um único álbum, intitulado Miss America (1988). Bandas como This Mortal Coil e Cowboy Junkies já gravaram suas canções. O que mais me impressionou é que ela canta com Morrissey em "November Spawned a Monster", o que me fez sentir como um fã muito relapso. Mal podia crer que aquela criatura havia passado despercebida por mim todo este tempo, após ouvir tanta música canadense nos últimos anos. Desde que voltei para casa com o álbum, ele roda na vitrola digital sem parar. Sinto que me sobrevem uma nova obsessão. Para quem não a conhece e para os que já a apreciam, Mary Margaret O´Hara:




Mary Margaret O´Hara, "When you know why you´re happy", ao vivo,
do álbum Miss America (1988)


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Mary Margaret O´Hara, "Body´s in trouble", vídeo oficial,
do álbum Miss America (1988)


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Mary Margaret O´Hara, em cena do filme The Events Leading Up to My Death (1991),
com sua canção "Year in song" ao fundo.

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Mary Margaret O´Hara, "Something I dreamed last night",
do filme Youkali Hotel (2004)


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Mary Margaret O´Hara no famoso programa Q.

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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

"Praticando o `dérive´: trajeto Charlottenburg – Mitte, Berlim, 5 de outubro de 2011": poema inédito e pequena nota a quem possa interessar



Este é provavelmente o último poema inédito que publicarei por aqui neste ano de 2011. Os vários inéditos que me restam, quero guardar para meu próximo livro, que pretendo lançar no primeiro semestre de 2012. Livro que venho preparando há bastante tempo, intitulado Ciclo do Amante Substituível, título cafona como só eu, com textos escritos entre 2006 e este nosso ano catastrófico de 2011. Do que se trata? Ah, senhor e senhora, anotem aí, é puro melodrama disfarçado de ironia. Self-deprecation é o que nos salva do ridículo completo. Será um livro exclusivamente de minha lírica amorosa. O livro estava praticamente pronto, mas certos acontecimentos dos últimos meses e o fluxo de poemas que geraram em mim acabaram transformando a coletânea. Meu projeto inicial era simples: esvaziar a gaveta. Mas o livro ficaria gigantesco (devo ter mais de 80 poemas, e vocês sabem que não sou exatamente o mais minimalista dos poetas brasileiros contemporâneos), o que me levou a cortar muitos textos, além de toda uma seção, e decidir publicar apenas o calhamaço principal: minha lírica amorosa e desamorosa dos últimos anos. Ainda não me decidi se incluirei nele o pequeno livro Cigarros na cama (Rio de Janeiro: Berinjela, 2011). Creio que não.

De qualquer maneira, acho apropriado encerrar a publicação de inéditos deste ano com este poema, abaixo. Não sei até que ponto isto é claro ou relevante, mas o que mais me interessa no formato do blogue, e o que às vezes tento empreender aqui, é justamente usar seu formato diarístico para, ao mesmo tempo, investigar, pesquisar, caçoar, homenagear, praticar, satirizar, emular certa noção de poesia lírica que o Romantismo nos legou. Para isso, o formato do blogue é perfeito. Mesmo porque o que me interessa nos últimos tempos é o limite do circunstancial, parte de minha obsessão pela função do contexto no trabalho com a linguagem, e minha militância pela historicidade do trabalho poético. Ah, escrever versos de circunstância é minha única ambição, senhor, senhora!

O poema abaixo, provavelmente tão falho quanto todos os meus outros, encena um pouco disso tudo. Eu sou hoje, neste momento de minha existência, um poeta lírico. Os antilíricos que sejam felizes, desejo-lhes todo o sucesso do mundo! Mas como escreveu Herberto Helder: "Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar." Tanto que, faz já dois meses, comecei a dar por encerrada (pelo menos por ora) minha investigação da noção de poesia lírica herdada dos Românticos e voltei-me de vez para o Medievo: agora, ao lado de dois músicos, escrevo canções. E escrever isso aqui, agora, faz-me pensar que parece apenas consequência natural que vem desenovelando-se desde que entrei com roupa e tudo numa banheira para filmar aquele vídeo para a TV Cultura, em 2006, chamado "Garganta com texto". Nos próximos meses, quero passar meus dias bebendo café, fumando cigarros e escrevendo cantigas de amigo e cantigas de escárnio. Meu mestre agora é Martim Codax.




Praticando o dérive: trajeto Charlottenburg – Mitte, Berlim, 5 de outubro de 2011

Com os pés, digo sim
a este 5 de outubro,
como se eu tivesse outra
alternativa. E tenho. Não
sei, talvez fora o início
da caminhada, ter saído
de um local de burocratas,
minha vontade burguesa
de instituir minha diferença,
rodear-me de uma cerca
de luxo intelectualizado. E
com apenas 3 euros e 75
centavos no bolso, o dérive,
por exemplo, significa
a economia
que me permitirá amanhã
o almoço.
É 2011 e ainda sou poeta
pobre, moço. Mas, dessarte,
posso escrever este poema,
este, que ora vai já a 1/5,
imagino,
de sua duração, esta chance
de seguir fazendo
de mim l'indivu du spectacle.
Quiçá tenha sido o fato
de que estar tão longe,
no oeste
da cidade, sempre me faça
sentir de viagem.
Queria desviar-me,
esquadrinhar o desatino,
perder o leme,
não tanto estar à deriva
quanto escalavrar proa e popa,
esperar um vento
qualquer que fizesse das paredes
do meu estômago
vazio o bojo de lona
entesado das velas
duma embarcação, não bêbada,
mas em abstinência, abstinência.
Fico assim quando contigo
no pensamento, rijo,
hirto.
Não sei se chego
com estes passos
a uma nova experiência
da cidade que é também
tua. Na psicogeografia
dos situacionistas,
que eu diligentemente
busco assim praticar, influía
meu peito de bicho
em estase amoroso,
tornando-me um georadar
qualquer no campo minado
de uma terra que tão-só
uma nova ciência,
oxalá uma espécie
de erogeologia,
poderia agora mapear.
De qualquer forma,
é impossível a linha reta
nesta tua terra
e cidade cortada
por canais e ruínas.
De tão quotidianas,
minhas descobertas
não entreteriam os viciados
em epifanias. De que lhes adianta,
ou mesmo a ti, por exemplo,
saber que a cafta
no pão, que seria a única
refeição do meu dia, custa
ali 20 centavos menos? Que a
Savignyplatz continua
cheia de berlinenses e turistas
ricos? Mas fumei durante o trajeto
seis de meus Gauloises.
Queria bastar-me, suar dentro
das minhas próprias roupas,
dizer: cheirem, este é o meu cheiro,
produzido por meu corpo
em troca mercantil com o oxigênio
compartilhado com árvores,
ratos, cigarros. E contigo.
Na livraria do Instituto
Helmut Newton, o livro
com o trabalho fotográfico
de Linda MacCartney
mostrava mortos outrora vivos.
Pensei no milagre da radiofonia
na gravação das vozes,
poder escutar hoje
os mortos dos desastres
dos natais passados,
enquanto compunha este texto
em uma de nossas línguas
ocidentais, que são tão-só
fonografia.
Queria telefonar para ti, moço,
dizer: “Consider Jeff Buckley,
who was once handsome,
pale, sexy, gorgeous and tall
as you
”, mas tu
não entenderias a citação
ou estas minhas metonímias
em frangalhos que nada mais
querem dizer que “soon
is too late
”.
Cantarolei então “Cais”,
como se eu fosse Elis;
“Single”, tal qual Thorn;
“Maldigo del alto cielo”,
pensando em Violeta Parra
e seu acessório
balístico para têmporas;
qualquer coisa
feito Feist, ou,
como o caolho tristonho,
“I might be wrong”.
E eu quem sabe esteja.
Queria mesmo, nesta terra
famosa por suas Guerras,
dizer: tu e quantos Bismarcks,
quantos milhões de exércitos,
criatura, crês necessários
para me desatinar e abismar?
E, sabes?, o anjo
sobre a Coluna da Vitória
parece-me cada dia menor,
de proporções cada vez mais
humanizadas. Toda separação
é perfectível em nossa relação,
como um espetáculo de sociabilidade,
na união e divisão das desaparições
graduais da tua pele, tua
desorganização do meu território.
O Portão de Brandenburgo
está mais uma vez aberto,
suas colunas retas como cambitos,
e eu queria era ver tropas
passando por elas, como eu um dia
debaixo de tuas pernas.
E é assim, como sujeito e como
representação, ao chegar
a minha casa alugada,
o aluguel atrasado,
sozinho, a catinga
no quarto de cigarros e cinzas,
sem quem me componha cantigas
de amigo ou de escárnio,
que eu elaboro esta estratégia
genial, machucar as gengivas
de propósito com a escova,
para caminhar pelas ruas
sentindo-me beijado de língua
pelos próximos dias a fio,
em deriva,
derivado de tua míngua.


Ricardo Domeneck


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domingo, 23 de outubro de 2011

Leslie Feist, curandeira.




Há dois songwriters/cantautores anglófonos dos quais sigo as carreiras, acompanho cada lançamento com a expectativa de quem espera o bote salva-vidas no meio do oceano, e as ondas crescendo. Um deles é o norte-americano Sufjan Stevens, sobre o qual já escrevi aqui. A outra é a canadense Leslie Feist, mais conhecida apenas como Feist. Ontem tive a oportunidade iluminada de vê-la/ouvi-la ao vivo pela primeira vez aqui em Berlim. Foi uma noite maravilhosa, há muito não via tanto carisma emanar de uma mesma pessoa sobre o palco, com aquela voz que, de alguma maneira misteriosa, consegue conjugar fragilidade e potência.

Eu tenho meus misticismos pessoais e malucos. Por exemplo, Björk, de alguma maneira, sempre lança álbum novo quando estou passando por uma turbulência, e, ora, o que me impede de acreditar que ela os lança para me salvar? Mas este ano o misticismo do meu umbigo é outro: o último álbum de Feist, The Reminder, foi lançado em 2007, o ano de início de algo importantíssimo em minha vida, e canções como "My Moon My Man", "1234" e "I feel it all" foram como hinos da minha alegria nos últimos anos. Agora, quatro anos depois, quando a alegria específica e com carteira de identidade que começara em 2007 acabou-se, Feist lança este Metals, com algumas canções que estão certamente ajudando a me cicatrizar. Se "I feel it all" foi meu hino de alegria com um certo moço, agora eu tenho esta lindíssima "The circle married the line" para cantarolar minha tristeza, tristeza que está se acalmando e começando a deixar a paz da compreensão em seu lugar. Quando os primeiros acordes desta canção começaram ontem à noite, baixei muito a cabeça, ergui muito a cabeça, pestanejei, ergui os olhos até o teto, fechei-os, cantei. Obrigado por ajudar, Feist. Espero um dia poder apertar sua mão e dizer um obrigado.




Feist canta sua canção "The circle married the line", do álbum Metals (2011).


The circle married the line
Leslie Feist

I know it'll need to go from good to worse
Living in the past begins the ending first
All I want is a horizon line
Get some clarity following signs
I'll keep on the path that leads up to the clearing
Keep some distance while the words comes in so near and
Then I'll head out to horizon lines
Get some clarity ocean-side

Realize what you know that you know by now that...
First light was, last light was alright when
The circle married the line
First light was, last light was alright when
The circle married the line

Even from away he is near me
Making me unendingly teary
Makes me remember the things that I forgot
It's as much what it is as what it is not
In a room sleeping so peacefully
Fall away from him to be less than lee
All we need is a horizon line
Get some clarity following signs

Realize what you know that you know by now that
Realize what you know that you know by now that...

First light was, last light was alright when
The circle married the line


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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Algumas perguntas, ainda sobre a edição da revista "Cuardernos Hispanoamericanos" dedicada à Literatura Brasileira

Desde que recebi e li o número 735 da revista Cuardernos Hispanoamericanos dedicado à Literatura Brasileira, e principalmente após escrever o último artigo aqui neste espaço, no qual o comento, algumas perguntas têm-me incomodado, martelado minha cabeçoila já amassada. Uma delas diz respeito a uma asserção que eu mesmo fiz: a de que, por estar incluído na seleção, sentia-me impedido de comentá-la criticamente.

Isso ficou me incomodando. Ora, ninguém quer cair na cabotinagem do elogio, nem na ingratidão da invectiva, mas certamente estes são os extremos da crítica que precisamos todos evitar, para que a crítica seja efetiva, honesta e possa funcionar. Em geral, o que ocorre é a falência da crítica, e por mais que este conceito de falência esteja tão em voga, hoje em dia considero como única verdadeira falência da crítica o silêncio.

Uma das coisas que passei os últimos dias perguntando-me é: estar incluído impede-me ou obriga-me a um comentário crítico? Talvez nenhum dos dois, mas a resposta então seria a atitude mais comum: o silêncio, ao qual geralmente me recuso, como vocês já devem ter percebido. Minha bocarra gigante.

Se no artigo anterior simplesmente comentei o número da revista em alguns de seus aspectos, gostaria de expor agora algumas perguntas no espírito do diálogo, elaborando alguns pontos do meu artigo e, em outros, até mesmo corrigindo-os. Como o próprio Jorge Henrique Bastos citou em uma mensagem, após escrever-lhe expondo algumas discordâncias, a crítica deveria ser como o que Pound chamou de "conversation between intelligent men", sem os usuais ataques de nervos e egos que tão frequentemente vemos no Brasil.

§ - Como a revista afirma dedicar o número à Literatura Brasileira hoje, ainda que eu esteja ciente de que os nomes intocáveis de Graciliano Ramos, Clarice Lispector ou Vinícius de Moraes não são, infelizmente, óbvios para um leitor espanhol, talvez houvesse sido mais condizente com o propósito do número reservar tal espaço, seja o da mera menção ou da discussão, para autores vivos, produzindo realmente hoje.

§ - Afirmei em meu último artigo que a revista parecia bem-informada. A verdade é que, tratando-se por exemplo da prosa contemporânea brasileira, eu próprio não me sinto bem informado, pois não a acompanho ou visito de forma assídua. Imagino que os nomes de João Almino, Adriana Lisboa e Frances de Pontes Peebles sejam exemplos da prosa brasileira recente que merecem estar na revista. Infelizmente, não conheço seus trabalhos, não posso afirmá-lo ou negá-lo. Portanto, não se trata de criticar exclusões, mas de sugerir que um número futuro venha a tratar de autores como Veronica Stigger, Joca Reiners Terron, João Filho, Bernardo Carvalho, Sérgio Medeiros ou Nuno Ramos, dentre os que conheço um pouco melhor. São autores muito diferentes entre si, com a característica comum de estarem produzido trabalho sério, discordemos ou não de suas escolhas ou quanto ao resultado que alcançam.

§ - Certamente a existência de traduções de livros dos autores na Espanha torna-se um fator compreensivelmente considerado por um editor, mas continua me parecendo um problema crítico muitíssimo sério no número, que um autor tão não-influente (para usar um eufemismo educado) quanto Lêdo Ivo, por ser amplamente traduzido na Espanha tenha tomado o lugar de direito de poetas muito superiores a ele, como Augusto de Campos e Leonardo Fróes. Superiores como técnicos da linguagem, além de muito mais influentes e relevantes para o debate poético contemporâneo. Imagino que algumas pessoas incluiriam ainda Manoel de Barros nesta lista.

§ Não posso criticar a inclusão de Nélida Piñon por não conhecer seu trabalho. Sei que seu romance A República dos Sonhos (1984) é respeitado por certos setores da intelligentsia nacional. Lamento apenas que Márcia Denser, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca e Sérgio Sant´Anna não tenham encontrado acolhida na revista, não como substitutos, mas ao menos como companheiros, autores certamente mais influentes entre os prosadores mais jovens. Poderíamos mencionar ainda Raduan Nassar, mesmo que ele já não produza hoje. De qualquer forma, o lamento quer, na verdade, servir como sugestão para publicações futuras da revista.

§ Entende-se que a revista quisesse concentrar-se em autores vivos, mas a morte prematura e recente de autores como Haroldo de Campos e Hilda Hilst não impede que eles estejam extremamente vivos e muito mais presentes no debate contemporâneo que autores como Lêdo Ivo, por exemplo.

§ A parte mais difícil de comentar é justamente aquela em que estou incluído, intitulada "Antología de la poesía actual brasileña", com organização e introdução de Jorge Henrique Bastos e traduções de Vicente Araguas.

O trabalho de qualquer antologista me parece sempre árduo, cheio de armadilhas incontornáveis e de recepção quase invariavelmente ingrata. A literatura e a poesia contemporâneas de um país são sempre campos minados com e por debates est-É-ticos em andamento e nunca realmente resolvidos, releituras e reformulações críticas, teias comportando-se como correntes, raios e margens ansiando pelo centro e núcleo. Não é à toa que a maior parte da crítica escolhe o caminho do retrospectivo e não do prospectivo, para usar as hábeis expressões de Dirceu Villa. É muito mais fácil olhar para o passado, escrever sobre o que já está estabelecido como bom e relevante. É um trabalho crítico necessário e importantíssimo para a saúde de uma literatura, que pode envolver muita criatividade e inteligência para os que não querem simplesmente inchar a bibliografia crítica sobre os autores, mas realmente debater aspectos muitas vezes despercebidos por outros críticos, contemporâneos ou não. No melhor dos casos, tal crítica consegue ser retrospectiva e prospectiva ao mesmo tempo. Basta pensarmos nas leituras de Walter Benjamin ou, no Brasil, as de Haroldo de Campos e Augusto de Campos dedicadas a Joaquim de Sousândrade e Oswald de Andrade; a que Flora Süssekind dedicou a Sapateiro Silva; ou os trabalhos editorial e crítico de James Amado e João Adolfo Hansen com a obra de Gregório de Matos. É claro que não vamos mencionar aqui os nomes dos preguiçosos que simplesmente acreditam poder ganhar o prêmio ao apostarem no cavalo vencedor depois que este já cruzou a linha de chegada, ou os que meramente regurgitam o que já foi dito por bons autores sobre bons autores, em paráfrases engenhosas e esbanjando embasamento acadêmico universitário, com longas listas de bibliografia especializada dando ar de autoridade a suas defesas do engessado, estes agentes do status quo, bandeirantes de quintal.

Como Dirceu Villa expôs em seu último artigo ("Retomando a conversa", in O Demônio Amarelo, terça-feira, 11 de outubro de 2011) – com a elegância que já lhe é conhecida, a única crise hoje no Brasil é a ausência de uma crítica forte e preparada que se disponha a ler a poesia e a literatura do presente sem antolhos, sem atitudes iracundas por vezes dignas de adolescentes (o que mais parece abundar hoje no Brasil é a ala do enfant terrible na casa dos 50 anos de idade - so embarrassing and unbecoming - , e há revistas que até se especializam neste nicho), tendo achaques feito sereias da catástrofe porque os autores de seu tempo não estão seguindo os caminhos que gostaria que seguissem, ou porque não estão emulando os seus mestres eleitos. Por vezes, tenho a impressão de que o problema de tais críticos é não entender muito bem a relação entre poesia e crítica, ou seja, confundem qual das duas é o cavalo e qual a carroça. Quero voltar ao artigo de Dirceu Villa em outro momento, pois ele discute o Nobel a Tranströmer e outras questões que me interessam, mas por ora retorno à nossa discussão, que não está, porém, distante da que ele empreendeu ali.

Pois eu discutia o trabalho do antologista. Se a palavra antologia, a partir do grego, nos leva à ideia do colhimento e arranjo de flores – daí a palavra florilégio em português; e se a palavra crítica, também a partir do grego, nos leva à ideia de separar, discernir, fica patente que uma antologia de poetas/poemas é, em primeiro lugar, um trabalho de crítica autoral, talvez antes mesmo de ser um livro de poemas, pois passa a estar condicionado por esta ação que se quer discernente, fazendo do antologista-crítico uma espécie de apanhador no campo, não de centeio, mas de joio e trigo. E aí começam os grandes problemas que nos vão levar com tanta frequência à discussão sobre a subjetividade inescapável e a objetividade possível no ato de antologiar.

Talvez tudo isso pudesse ser resolvido com o cuidado rigoroso na hora de intitular antologias. Ao intitular o recolho de poemas na revista "Antología de la poesía actual brasileña", Jorge Henrique Bastos talvez tenha aberto portas a discordâncias que não teriam lugar na discussão se os poetas/poemas ali apresentados não acabassem tendo que operar como representativos. Trata-se de um risco sempre presente em antologias de caráter nacional. Convida tanto aos rancores regionais como a pelejas est-É-ticas. O espaço reduzido, permitindo tão-só um poema de cada um dos 6 poetas (dois no caso de Damázio, sem mencionar os outros quatro autores e seus poemas mencionados no ensaio), acaba inevitavelmente sujeito à insuficiência. É algo a ser pensado, por exemplo, a decisão dos editores em optar pela publicação de poemas inéditos, quando talvez houvesse sido melhor a publicação do que cada autor tem de melhor em sua obra, já que são todos jovens e não têm livros editados na Espanha. Mas, com espaço para apenas um poema, seria difícil representar até mesmo o trabalho de cada poeta, quem dirá o de todo o Brasil. São problemas muitas vezes incontornáveis, mas que não precisam embargar o projeto.

Continuo acreditando que este número da revista Cuadernos Hispanoamericanos, dedicado a escritores brasileiros, deveria ser visto com alegria, mesmo com seus pontos questionáveis e de discordância possível. Imagino que alguém mais cínico dirá que acredito nisso apenas por ter meu trabalho mencionado. Ora, quanto a um leitor que pense desta maneira sobre mim, fico apenas pasmo que ele perca tempo lendo meu blogue. Exponho estas perguntas porque meu senso crítico e de honestidade realmente me levaram a ver o último artigo como insuficiente e falho.

Agradeço a Jorge Henrique Bastos, assim como a Benjamín Prado e Juan Malpartida, o respeito com que claramente conduziram seu trabalho. Exponho aqui estas perguntas no espírito das palavras de Pound que Bastos citou em nosso debate particular: como conversation between intelligent men – conversa que me dá prazer ter, com ele, os editores da revista e os leitores e leitoras deste espaço.

Nascido em 1964 em Belém do Pará, com passagens por São Paulo, Rio de Janeiro e Lisboa, onde organizou a antologia Poesia Brasileira do Século XX - dos modernistas à actualidade (Lisboa: Antígona, 2002), Jorge Henrique Bastos tem um trabalho jornalístico, editorial e crítico sérios, colaborador em revistas e jornais tais como Diário de Lisboa, Independente, LER, Colóquio-Letras e Camões, sendo responsável ainda, por exemplo, pela primeira edição portuguesa de Macunaíma - o herói sem nenhum caráter (Lisboa: Antígona, 1998) e pela primeira edição brasileira do poeta Herberto Helder, O CORPO O LUXO A OBRA (São Paulo: Iluminuras, 2000).

Quanto ao editor Benjamín Prado, meu respeito, junto com o dos outros três editores da Modo de Usar & Co., está já estampado tanto em nosso primeiro número impresso, com vários poemas do espanhol, quanto em nossa franquia eletrônica.

Abraço a todos os homens e mulheres inteligentes que passam por este espaço,

aqui despeço-me,

Ricardo Domeneck – passando frio em Berlim.


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