Ricardo Domeneck e Marília Garcia, editores-coruja da Modo de Usar & Co., na Maison de la Poésie, Namur, Bélgica. Foto de Arnaud de Schaetzen.
A manhã de sexta-feira começou com rojões, mas não era exatamente para celebrar a presença de quatro poetas brasileiros na cidade. Era a vez dos habitantes da capital oficial da Europa protestarem contra os planos de austeridade do Governo Belga, por conta e consequência das catástrofes de especuladores norte-americanos que explodiram em 2008. Francisco Alvim, Lu Menezes, Marília Garcia e eu, após o café-da-manhã no hotel, saímos para as ruas para acompanhar e observar os slogans e reivindicações da população bruxelense.
Os protestos estão explodindo por toda a Europa, da Espanha à Grécia, da Inglaterra à França. Na Alemanha, que tenta equilibrar os pratos bambos da União Europeia, as coisas parecem calmas, ainda que a população comece a se perguntar se o país pode mesmo dar ordem à confusão deste novelo embaraçadíssimo. É muito esclarecedor observar o que ocorre nos países vizinhos. O Brasil e a Alemanha parecem ter-se saído com arranhões mas sãos da crise iniciada em 2008, ou será ilusão? Meus amigos e eu temos sentido na carne o aumento abusivo dos aluguéis em Berlim, do preço da comida. Berlim já não é a cidade que era quando cheguei.
Mais tarde, Marília e eu seguimos para livrarias, queríamos pesquisar poesia belga para futuras traduções e artigos na Modo de Usar & Co.. Eu queria também tentar encontrar mais livros de Gerard Reve (ver postagem anterior). Encontramos algumas coisas interessantes, mas fomos aconselhados a tentar a Librarie Quartiers Latins, onde há tudo o que se busca de prosa e poesia belgas. Como era justamente a livraria onde faríamos a leitura de Bruxelas, deixamos o resto da pesquisa para o dia seguinte.
Almoçando, Marília e eu tivemos uma ideia muito legal para um volume de ensaios, para o qual pretendemos convidar alguns poetas em breve. Mais informações assim que a coisa se concretizar.
Estamos filmando as leituras no Europalia para prepararmos um vídeo para a Modo de Usar & Co.. Como eu havia escrito em Bruxelas uma cantiga de escárnio intitulada "Quadrilha irritada", paródia do poema de Carlos Drummond de Andrade, Marília quis que gravássemos a porrada maysada e lupiciníaca a quente. O resultado é o vídeo abaixo:
Ricardo Domeneck - "Quadrilha irritada", cantiga de escárnio e poema satírico-paródico, gravado em Bruxelas, Bélgica, a 2 de dezembro de 2011. Vídeo de Marília Garcia.
Mais tarde, seguimos para Namur, onde lemos novamente os quatro juntos na Maison de la Poésie, numa noite que foi realmente muito legal. O vídeo das leituras seguirá em breve.
A leitura que faríamos em Antuérpia na quinta-feira acabou sendo cancelada por alguns problemas da organização. Uma pena. No entanto, como um amigo meu alemão que vive em Amsterdã comprara já passagem de trem para vir a Antuérpia ver-me, decidi seguir de Bruxelas a Antuérpia mesmo assim e passar a tarde com ele. Meu querido Emanuel John, que deixou a Alemanha há mais de um ano para seguir seus estudos de filosofia na capital holandesa. Emanuel, que é filho de um teólogo alemão, é um oásis de diálogo para mim, com quem posso conversar sobre Simone Weil, Sören Kierkegaard, Miguel de Unamuno, sobre o misticismo em Ludwig Wittgenstein, sem que suas sobrancelhas ergam-se, como na maioria dos meus outros amigos alemães, em susto agnóstico horrorizado. Caía uma garoa fina em Antuérpia, caminhamos pelas ruas, conversando, parando em cafés, trocando leituras.
Foi nesta tarde que ele me falou de um escritor holandês que ele andava lendo após descobri-lo em Amsterdã, e me disse que acreditava que eu gostaria muito do senhor Gerard Reve (1923 - 2006), romancista e poeta. Tudo o que ele me disse sobre o escritor realmente me interessou muito. Ele tinha consigo uma cópia do livro Nader tot U (1966), algo como "Mais perto de ti", um romance epistolar que termina com uma série de poemas intitulada "Geestelijke Liederen", ou seja, canções espirituais.
Com meu alemão, que me permite arranhar a superfície do holandês, e a leitura do próprio Emanuel, sentamo-nos ao fim da tarde em um dos mil cafés que visitamos e nos lançamos a tentar traduzir algumas das "Geestelijke Liederen/Canções espirituais". Vocês verão de cara por que me apaixonei desde já pelo senhor Gerard Reve. Além disso, tudo o que pesquisei na Rede nestes dias aponta para um autor de misticismo e religiosidade extremamente carnais, que me lembram minha mestra Hilda Hilst, aquela que também misturava todos os gêneros literários no mesmo livro, assim como parecem ligá-lo ao grande Georges Bataille. Já estou procurando traduções para o alemão ou inglês para poder descobrir o universo deste que (sinto desde já) provavelmente entrará para o meu rol de obsessões, lá onde já estão Murilo Mendes, Hilda Hilst, Ludwig Wittgenstein, e outros. Abaixo, minhas traduções para algumas das "Canções espirituais" de Gerard Reve, com a assistência de Emanuel John e correções de Arnaud de Schaetzen.
POEMAS DE GERARD REVE
das Geestelijke Liederen / Canções espirituais, incluídas ao final do romance Nader tot U (1966)
Canção da bebida
Agora é a hora de deixar de beber. Parar de uma vez, é preciso. Foi com certeza o bastante. Consola-me então, ó Espírito, nesta noite de 20 para 21 de julho de 1965, em desespero profundo, e cercado de trevas.
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Drinklied
Nu moet ik van de drank af. Het moet maar eens uit zjin. Het is wel genoeg geweest. Troost mij toch, o Geest, in de nacht van 20 op 21 juli 1965, in diepe ontzetting, en omringd door Duisternis.
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Poema para o Doutor Trimbos
"Vinho barato, masturbação e cinema," escreve Céline. O vinho acabou, não há cinemas aqui. A existência torna-se tão monocórdica.
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Gedicht voor Dokter Trimbos
"Goedkope wijn, masturbatie, bioscoop," schrijft Céline. De wijn is op, en bioscopen zijn hier niet. Het bestaan wordt wel eenzijdig.
§
Confissão
Antes que eu siga para a noite que brilha eterna sem luz, quero falar uma vez mais, e dizer isto: Que eu nada mais busquei além de Ti, de Ti, de Ti só.
(Nota: "U" é formal, e pode indicar que Reve esteja referindo-se a Deus, apontou-me alguém muito prestativo, sugerindo a opção "... além / do Senhor, do Senhor, do Senhor só." Minha ideia era de que não estava absolutamente claro sobre quem Reve ali falava. Talvez a maiúscula para "Ti" aproxime-se mais desta possibilidade, mantendo a ambiguidade. Manterei o "Ti", por ora, mas com maiúscula.
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Bekentenis
Voordat ik in de Nacht ga die voor eeuwig lichtloos gloeit, wil ik nog eenmaal spreken, en dit zeggen: Dat ik nooit anders heb gezocht dan U, dan U, dan U alleen.
§
Paraíso
Eu era um urso muito grande que era muito amável. Deus era um burro que me tinha em alta conta. E todo mundo era muito contente.
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Paradijs
Ik was een heel erg grote beer die toch heel lief was. God was een Ezel en hield veel van mij. En iedereen was erg gelukkig.
§
Para o Anjo
Se me guiaste até o fundo do poço, Volta, peço-te, e fica com O Moço.
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Aan de Engel
Als gij mij tot het eind toe hebt geleid, Keer dan terug, en blijf bij Teigetje.
(Nota do tradutor: "Teigetje" era a forma com que Gerard Reve se referia a seu namorado, o estilista holandês Willem Bruno van Albada. Tomei minha liberdade transcontextualizadora de traduzir "Teigetje" por "O Moço").
Ontem ocorreu a primeira leitura como parte do lançamento da antologia bilíngue holandês/português Vijfentwintig keer Brazilië / Vinte e cinco no Brasil, org. Flora Süssekind, trad. Harrie Lemmens & Bart Vonck (Gent: Poëziecentrum, 2011), um dos marcos poéticos do festival Europalia. Como escrevi, os poetas brasileiros presentes são Francisco Alvim, Lu Menezes, Marília Garcia e eu, 4 dentre os 25 poetas contemporâneos brasileiros incluídos na antologia, que abre com Augusto de Campos (São Paulo, 1931) e fecha com Marília Garcia (Rio de Janeiro, 1979). Escreverei sobre a antologia, mencionando os outros poetas, em alguns dias.
A leitura foi no Poëziecentrum, um espaço dedicado à poesia na cidade de Gante (Gent/Ghent), com uma excelente biblioteca que conta com praticamente tudo o que é e foi publicado em poesia em holandês, seja esta a língua original ou a de tradução dos poemas. Trata-se do lindo prédio que vocês podem ver na pequena foto que abre a postagem, uma instituição totalmente voltada para a divulgação e publicação de poesia em flamengo, dirigida pela entusiasta generosíssima que é Sieglinde Vanhaezebrouck, a quem deixo aqui meus agradecimentos sinceros pela linda, linda noite que ela organizou. A sala de leitura era no último andar, com cerca de duas dezenas de belgas flamengos interessados, respeitosos, muito generosos, vários deles falando português por paixão pela língua, outros apenas interessados em poesia, seja ela de onde for. Entre as leituras, o violonista Daniel Miranda tocou clássicos de Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Dilermando Reis e Tom Jobim. Foi uma noite muito bonita. Deixo vocês com um poema de cada um dos meus companheiros de leituras, Francisco Alvim, Lu Menezes e Marília Garcia, dentre os incluídos na antologia, assim como posto uma vez mais meu "O acordeonista da Catedral de Bruxelas", que Flora Süssekind decidiu incluir na antologia, deixando-me muito contente de o ler em plena Bélgica, após tê-lo escrito aqui. Encerro com a linda composição de Dilermando Reis que Daniel Miranda tocou ontem à noite. Está sendo um prazer passar estes dias com minha companheira Marília Garcia, conhecer e privar da companhia de Francisco Alvim, rever Lu Menezes após um brevíssimo encontro no Rio de Janeiro em 2009, poder conversar com eles com paz e respeito tamanhos.
QUATRO POEMAS, QUATRO POETAS incluídos na antologia Vijfentwintig keer Brazilië / Vinte e cinco no Brasil, org. Flora Süssekind, trad. Harrie Lemmens & Bart Vonck (Gent: Poëziecentrum, 2011)
Escolho Francisco Alvim
Parado
Na plataforma superior
Entre as pernas no chão as compras no plástico
Longe do verso perto da prosa Sem ânimo algum para as sortidas sempre - enquanto duram - venturosas da paixão
Longe tão longe do humor da ironia das polimorfas vozes sibilinas transtornadas no ouvido da língua
Ali onde o chão é chão as pernas, pernas a coisa, coisa e a palavra, nenhuma Onde apenas se refrata a ideia de um pensamento exaurido de movimento
Entre dois trajetos dois portos (duas lagunas duas doenças)
Sublimes virtudes do acaso por que não me tomais por dentro e me protegeis do frio de fora da incessante, intolerável, fugo do enredo? da escolha?
§
onde o céu descasca Lu Menezes
No interior da pizzaria pintada de azul com nuvens um ponto onde descola a tinta, onde o céu descasca denuncia o sórdido teto anterior
descor de burro quando surge
E é só o que delicia certo solitário comensal – esse ponto no qual extramolduras o apetite de um Magritte por superfícies genuína companhia lhe faz
– Genuína companhia... num simulacro de céu, tal ninharia? Yes!, no mínimo mais que a fatia no prato, o pedaço de teto nu e cru – amostra menor do limbo, do franco, fiel, frio limbo – duraria, oh sim, duraria
§
Le pays n´est pas la carte, Marília Garcia
I
pensa bem mas se tivesse as ruas quadradas teria ido a outro café, teria dito tudo de outro modo e visto de cima a cidade em vez de se perder toda vez na saída do metro, não é desagradável estar aqui, é apenas demasiado real diz com cílios erguidos procurando um mapa
II
não é o avião em rasante sobre a água e nem o corpo na janela semi-aberta vendo o desenho dos carros embaixo — não comenta nada porque prefere armar planos em silêncio (estaria sonhando com colinas?)
III
de lá manda longas cartas descrevendo o país, os terremotos e a forma da cidade. pode me dizer que nunca se espanta mas não percebe que caminha perguntando: é de plástico a cabine? é sua voz na gravação? é um navio no horizonte? pode ser apenas uma margem de erro mas não pensa nisso com frequência
(pode ser apenas a janela aberta que carrega os papéis)
§
O acordeonista da Catedral de Bruxelas Ricardo Domeneck
De Bruxelas eu esperava tudo, talvez a reprise do que ali já vivera, uma noite ao lado de Jey Crisfar, chuva e cansaço, conversas com taxistas e árabes, mas não este acordeonista loiro de 20 anos diante da Catedral, sim, a de Bruxelas, acordeonista loiro e imberbe, alto e imundo, a quem doei 2 euros num excitativo segundo de tato entre sua mão e meus dedos fechados abrindo-se em bojo sobre sua palma, após fazer com a visão o rodízio contemplativo e luxurioso, alternando o foco dos olhos entre a catedral imberbe e loira e o acordeonista alto e imundo, a quem ensaiei, por 20 minutos que mais pareceram seus 20 anos, perguntar seu nome, quiçá filmá-lo com a câmera que deixara no Berlimbo, ou imaginá-lo fotografado em série por Adelaide Ivánova, Heinz Peter Knes ou qualquer fotógrafo íntimo que me cedesse os direitos autorais desta imagem loira, imunda, para que eu de alguma forma possuísse este acordeonista imberbe e alto em seus 20 anos, a quem então batizo em minhas glândulas e passarei a chamar de Loïc ou quem sabe Guillaume pelo resto dos meus dias após falhar em criar os colhões de pedir seu nome, e é assim, sr. Loïc ou Guillaume aos 20 anos imundo e acordeonista, que a você eu dedico diante da alta e imberbe Catedral de Bruxelas, estes 2 euros e uma ereção.
§ § §
Dilermando Reis - "Se ela perguntar", composição que foi tocada por Daniel Miranda no Poëziecentrum ontem à noite.
Embarco dentro de poucas horas para a Bélgica, onde faço minhas últimas leituras dentro do Festival Europalia. Estarei acompanhado em cada uma das quatro leituras por Francisco Alvim, Lu Menezes e Marília Garcia. As cidades em que lemos são Gante (Gent/Ghent), Antuérpia, Namur e Bruxelas. Tentarei escrever um pouco sobre as leituras por lá.
Hey, I can be the answer I’m ready to dance when they vamp up And when they hit that dip get your camera You can see when that bitch sets the pamper And get in that young sister beacon The bitch who wants to compete and I can freakin fit that pump with the peep in And you know what your bitch become when her weaved in I just wanna sip that punch with your peeps and Sit in that lunch if your treating Kick it with your bitch who come from... You knows where to get mine from in the season Unless you wanna lick my plum in the evening And flick that tongue, tongue d-deep in I guess that cunt getting eaten I guess that cunt getting eaten I guess that cunt getting eaten I guess that cunt getting eaten I guess that cunt getting eaten
I was in the 212 on the uptown Hey nigga nigger, you know what's up or don’t you? Wonder who made ya I’ma rude bitch nigga nigger, what are you made up of I’ma eat your food up, boo I could bust your 8, I’ma do one too Fuck it When you do make bucks I’ma look right, nigga nigger, I bet you do want to fuck Fuck 'em like you do want to come ...you discovered I'm a 212 Cock-a-licking in the water... Caught the warm goo and you do right too son Nigga Nigger, you’re a cooler dude Plus your bitch might lick it Wonder who let you come 212, what do you...son Fuck are you in to, huh? Niggas Niggers better do run run You could get shot homie if you do want to Put your guns up Tell your crew don't front I'm a hoodlum nigga nigger You know you were too once Bitch about to blew up to I’m the one today I’m the new shit too Yeah I’m Rapunzel Who are you bitch, new lunch? I’ma ruin you cunt! Find More lyrics at www.sweetslyrics.com I’ma ruin you cunt! I’ma ruin you cunt! I’ma ruin you cunt!
Ayo, ayo I heard you’re riding with the same tall, tall tale Tell him I made some, made some Saying you’re grinding but you ain’t going nowhere, nowhere! Why procrastinate girl? You gotta lie, but you just waste all yourself They'll forget your name soon, name soon And want nobody be the same as yourself, yeah
What you gonna do when I ain't up there W-when I premier Bitch the end of their lives are there This ship ain’t mine, mine! What you gonna do when I ain't up there W-when I premier Bitch the end of their lives are there This ship ain’t mine, mine!
Bitch I’m in the 212 With the fifth cock nigga nigger Its the 212 Fuck your gun, dude! When your goons sprayed up Bet his bitch won't get him Betcha you won't do much See, even if you do want to bust Your bitch ... and touch your crew up to pop You’re playing with your butter like you do want to cock the gun too Where did you eat too, hun? And fuck him with your cutie-cue ... What’s your dick like homie? What are you into? What’s the run dude? Where do you wake up? Tell your bitch, "Keep hating" I'm a new one too, huh See I remember you when you were the young new face But you do like to slumber don't you Now you blew up too hun I’ma ruin you cunt! I’ma ruin you cunt! I’ma ruin you cunt!
What you gonna do when I ain't up there W-when I premier Bitch the end of their lives are there This ship ain’t mine, mine! What you gonna do when I ain't up there W-when I premier Bitch the end of their lives are there This ship ain’t mine, mine!
Guilherme Gontijo Flores, um dos editores da página escamandro, conduziu uma pequena entrevista comigo por ocasião do lançamento do meu livrinho Cigarros na cama (Rio de Janeiro: Berinjela, 2011), acompanhada do que chamei de antologia mínima, com poemas dos meus cinco livros: Carta aos anfíbios (2005), a cadela sem Logos (2007), Sons: Arranjo: Garganta (2009), Cigarros na cama (2011) e Ciclo do amante substituível (no prelo). Completam a postagem cinco dos meus vídeos. A quem possa interessar:
Hans Carl Artmann, mais conhecido como H.C. Artmann, está entre os poetas germânicos do pós-guerra que eu mais amo. Bastante conhecido no âmbito de língua alemã, creio que tenha sido pouco traduzido, talvez por sua linguagem tão específica, muito marcada pelo dialeto vienense, escrita vocalizável, sua poesia parece por vezes conseguir a façanha de operar uma espécie de experimentalismo coloquial. Os dois poemas abaixo estão entre meus favoritos. Traduzi-os há alguns anos, a partir da minha ideia de transcontextualização, já que muito da poeticidade do texto vem de um jogo muito sutil de linguagem, bastante marcado pelo contexto histórico e cultural do poeta. Tentei recriar alguns dos jogos linguísticos em português, mas num português muito pessoal, o do interior de São Paulo onde cresci. Espero que vocês tenham algum prazer com minhas traduções/contextualizações e que elas os ajudem a descobrir um pouco sobre este poeta vienense fenomenal, H.C. Artmann.
H.C. Artmann nasceu em Viena, em 1921. A partir de 1947, seus textos começam a ser divulgados pelo rádio e na revista Neue Wege, além de fazer várias leituras no lendário Art Club. Em 1952, une-se aos poetas Gerhard Rühm, Konrad Bayer, Friedrich Achleitner e Oswald Wiener, todos mais jovens que ele, com quem forma o que ficou conhecido como Wiener Gruppe (Grupo de Viena). Seu trabalho com a oralidade e o dialeto vienense teria grande influência sobre os seus companheiros. Em 1958, ano em que se distancia das performances e intervenções do Grupo de Viena, Artmann publica a coletânea de poemas dialetais med ana schwoazzn dintn, que viria a se tornar um dos livros de poemas mais populares da Áustria. Poeta e prosador, H.C. Artmann traduziria ainda François Villon para o "vienense" no volume Baladn. Nas décadas que se seguem, estabelece-se como um dos poetas centrais na Áustria do pós-guerra. Teve um papel importante na revalorização da obra dos poetas germânicos de vanguarda do entre-guerras, como Hans Arp, Hugo Ball, Raoul Hausmann e Richard Huelsenbeck. Publicou, entre outros, os livros verbarium (1966), Die Anfangsbuchstaben der Flagge (1969), Das im Walde verlorene Totem (1972) e Aus meiner Botanisiertrommel (1975). O poeta recebeu o Georg-Büchner-Preis em 1997. H.C. Artmann morreu em Viena no ano 2000.
Dois poemas de H.C. Artmann publicados no número impresso de estreia da Modo de Usar & Co.
querida idolatrada orquídeanil prima ballerina de chemnitz a missiones poughkeepsie u.r.s.s. recommandé à senhora eu envio esta carta de amor para que possa encaixá-la em seu lac de cygne como um pássaro sibilante a mais a migrar na pejada concha do céu junino da ômegabóboda no recém-restaurado átrio da sinfônica do estado aleluia eu sou em verdade um sem-vergonha um sacropândego um heitor vira-copos a patinar campinas por ousar dirigir esta carta a seu pas de deux mas eu nada exijo não eu tão-só peço-lhe que aceite as pérolas que lanço a seus corpos todos os seus sonhos misericordiosa sra.! saúdo-a! sua bença! minha filiforminha escrita à pena minha carta em claro minha extraordinária orig. pat. insígniaficante como nada mais peço-lhe que a aceite como um homem de princípios um rolls royce 59 uma ferrari 60 polidactilocomotiva a engatinhar para las vegas tou-tou tou-tou tou-tou uma banheira sob-medida no maksoud em são paulo um swing em pub & cócegas em núcleos ricos de novela em alphaville em estilo casa-grande-e-bengala do eng. arq. e urbanista komudyabusxamavaoblableblufu- lanim e caso tudo isso não lhe chegue aos pés pois seja ainda uma diva radiante em sua próxima performance a 23 deste 19h30 em ponto horário de brasília merda merda merda e uma ovação entre 69 cortinas e chuva de rosas champagne deus sobre os montes! o que deveria nem tudo e que por certo nem tudo será minha epistolazinha minha clara-neve minha belíssima minha fofa minha tu tu minha toda toda papoulacreponizada via aérea par avion luftpost u.a.m. no trajeto entre aa & bee
(tradução de Ricardo Domeneck)
§
liebe verehrte orchideengrüne primaballerina aus windsor am kamp massachusetts udssr recommandé ich sende ihnen diesen liebesbrief dass sie ihn in ihren lac de cygne einbauen können als eine anmutig zischende schwalbe mehr am perlgrauen septemberhimmel am ultimobaldachin der neurenovierten staatsopernpassage allelujah ich bin ein schamloser in wahrheit ein höllsakra ein johann sebastian orth am örthersee auf rollschuhen weil ich es wage diesen brief an ihren pas de deux zu richten aber ich befehle ihnen nichts ja ich bitte sie nur meine ezzes hinzunehmen als das was sie sein wollen alles was sie lieben gnädiges frl! prost du! servus! mein federgeschriebener schlankerl mein weisser brief mein ausserordentlich orig. pat. petschaftberühmter als nichts andres bitt ich sie ihn hinzunehmen als einen mann mit grundsätzen einen mg 59 einen jaguar 60 eine elfenixbeinerne locomotive 230 ph nach las vegas toi toi toi ein schlüsselfertiges badezimmer im berliner hilton ein ballet rose auf groschenstöckeln und eine filmwohnung in döbling im dehmelschokoladetortenstil von dipl. arch. und stadtbaumeister woswasdardeiföwiarahastdeadschu- schdea und wenn das alles noch nicht genug sein soll dann sei er noch ein strahlendes leitstarlet über ihrem nächsten auftritt am 23. ds. um punkt 19 uhr 30 mitteleuropäischer zeit spuck spuck spuck und ein applaus mit 69 vorhängen und regnenden tee- rosen dazu gott über den berg! was soll les nicht alles und was wrid es nicht alles sein mein briefchen mein crèmeweisses mein hübsches mein zartes mein du du mein durch & durch veilchencrêpegefüttertes luftpost par avion via aerea u.a.m. auf der strecke zwichen aa und bee
§§§
sob uma araucária kircheriana eis que sansão o da juba em madeixas e dalilás a violetíssima
restauram sua paixão semi-afogada em estuquoceano fosfóreas crepitam as gramíneas no matagal em redor
e canários portam nos bicos campanuláceos a aproveitar a ocasião para exibir emblemas
mesmo davi o da estrela e golias o arquiquelôneo trazem hoje equilibradas oferendas de pazes
como cacetetes de látex estilingues de origami figas generosas e revólveres de amianto
(meu caro amigo isto significa cuidado caso gozem disparos mas nem fazem caso
sao de amianto as coisas..) o rabino de rzeszów e pato donald a sophisticated jew
ombreiam seus empoeirados fogos de armistício e disparam a galopes holofotes e fumações de anéis anis
marlboro gauloises philip morris de 2 – 5 reais o maço engatilhados após o rosiclérigo matinar teletúbico
uma ou duas hosanas pela tierra del fuego da rep. chile que tal relíquia de quarta-feira assegure um cantinho
exclusivo nos anais de sutilíssimos eventos sob uma araucária kircheriana musgolpeiam-se na horizontal
sansão e dalilás em uma orgisséia feito peixes a morrer pela boca de sede ao pote deitam-se dualmente
com a única diferença que dalilás a violetíssima ao fim não há de esgoelar em asfixia ao engolir
toma oh gentle reader de flip-e-ramas dentalha teu espanto pois nosso tempo humanizou-se após uma era de fábulas
(tradução de Ricardo Domeneck)
§
unter eine araucaria kircheriana haben samson mit dem löwenhaar und dalilah die sehr violette
ihre fast im mörtelozean ertrunkene liebe restauriert hellauf knistern die gräser der wildnisse rundum
und lerchen tragen glockenblumen in ihren schnäbeln um sich aus diesem anlass mit emblemen zu zeigen
selbst david mit dem stern und goliath erzbeschuppt bringen heute ausgewogen versöhnliche geschenke
wie keulen aus gummi schleudern aus papierschlangen hirschlederne amulette und pistolen aus asbest
(mein lieber freund da heisst es aufpassen wenn die einmal losgehen aber sie tun s nicht
sind aus asbest die dinger..) der rabbi von rzeszów und donald duck a sophisticated jew
haben ihre langvergrabenen böllerrifles geschultert und schiessen im vorbereiten ein salut blauer rauchringe
ritmeester partagas willem de tweede zwichen ös 10-18 per stück nach den mattrosa geladenen peynetkuppeln der morgenluft
ein bis zwei hosannah für das feuerland der freien republik chile dass diesen grossen mittwoch auf einem vorreservierten plätzchen
in den annalen für subtilere ereignisse verzeichnen wird unter einer araucaria kircheriana liegen mooszerstörend
der samson und die dalilah in einer marathoncopulation wie hühnchen und hähnchen am nussberg liegen sie da die zwei
nur mit dem unterschied dass dalilah die sehr violette schliesslich doch nicht ersticken wird an dem geschluckten
toma oh gentle reader aus read im innkreis zerbeiss deine furcht denn unsere zeit ist humaner geworden nach einer ära der fabeln
em verdade em verdade vos digo, se o que quereis é ter minha atenção com limiar deficitário e debater comigozinho esta nobre prática chamada de (com direito a sighs e ais) la poésie, aconselha-se que eviteis começar a conversa chamando-me de bucha laica, vAdIO ou outras machices testosteronizadas brasileirosas. Tampouco será produtivo se, logo após o evocativo vocativo, vós fizerdes referências clichéticas ou hackneyed redneck jokes sobre o uso que faço, protegido por alguns Tratados, de minhas mucosas. Ora, as mucosas são minhas e faço delas o que bem me dá na telha ou bem me come nas Tulherias.
Tal prática tediosa de vossa senhoria terá como efeito tão-somente que eu passe doravante a regiamente ignorar-vos, como uma verdadeira e suprema Queen Bitch, a não ser que adicioneis aos formulários de vossos insultos também vossas fotografias, e que, dependendo de vossa beleza provar uma possível utilidade vossa para o entretenimento de minhas glândulas, eu possa porventura aventurosamente imaginar outros usos para vossa existência em minha vida. Pois, como escreveu Rocirda Demencock, minha amiga, secretária, personal trainer e médium:
Gônada gônada vasta gônada, se dissessem que "Ricardo é tola", seria uma silepse, não seria uma ilusão. Gônada gônada vasta gônada, mais vasto é o meu tesão.
Rocirda Demencock, in O Júbilo da Jugular nas Mucosas Jocosas (no prelo, sempre no prelo).
É uma tragédia, porém, que vossa gigantesca maioria seja tão unattractive. Mas o insulto, queridíssimos machos-alfa sem os quais minha vida glandular e epitelial seria talvez mais entediante, é uma arte. Sugiro que pratiqueis, à frente do espelho, alguns witty chistes.
Há lições, no entanto.
§ - Vós podeis, como eu, assistir ao filme All About Eve 147 vezes, memorizando todas as falas de Margo Channing e Addison DeWitt. Mas é necessário então ser capaz de citá-las em situações variadas, encontrar o momento de encaixá-las, transformando-as e misturando-as, até que aprendais a fazer vossas próprias.
§ - Vós podeis ainda assistir 289 vezes ao filme Who´s Afraid of Virginia Woolf, memorizando as falas de Martha E George, aplicando-lhes então a mesma variação permutacional recomendada às falas de Channing e DeWitt.
§ - Vós podeis tornar-vos leitores assíduos de Fran Lebowitz.
§ - Ou vós podeis (e isso é muito difícil e requer baixar o nível de testosterona ou vós partireis para a pancadaria antes que a wit pouse em vosso crânio) tornar-vos mestres do reading e shade, expressões das bibas nova-iorquinas da década de 80, como pode ser aprendido no documentário Paris Is Burning (1990), do qual extraio um fragmento no qual a lendária Dorian Corey explica as práticas:
Perdoai-me se exagero em minha irritabilidade a beirar a de um ativista, mas o problema é que vos considero responsáveis por cada guerra ou ato de violência acontecendo neste exato momento no globo e na Globo. A culpa talvez não seja vossa, mas de vossas glândulas a expelir enlouquecidas uma hipérbole de testosterona por vossos poros porcos.
Os mais inteligentes saberão, é necessária a asserção, que "macho-alfa" NÃO é sinônimo de "homem branco heterossexual", ainda que este quadradinho do censo talvez constitua grande parte do sem-senso Clube do Bolinha-Alfa. Há machos-alfa de todas as raças, religiões, etnias, ideologias e, ora, mesmo de todos os gêneros e sexualidades, há até mulheres e bambis que são machos-alfa.
E é aqui, em meio a este artigo, que sinto um alvoroço em minha cachola, e me pergunto: será novamente o Incrível Embate entre Super Ego e seu arquiinimigo Ego?
É então que uma voz ressoa no quarto e declama com voz de poetastro:
___ Domeneck e Demencock, aqui quem fala é a sua Consciência!
___ Hã, nunca fomos apresentados, você tem cartas de recomendação?
___ Sim, de professores que o expulsaram de suas aulas, Sr. Pasolini e sra. Arendt, por exemplo, que me enviam com um recado e alerta.
___ Ôpa, o que tio Pier e tia Hannah têm a me dizer?
___ Oh, Domeneck e Demencock: que mesmo vocês por vezes se comportam como machos-alfa!
O quê?! Até eu, Brutas?!
Ah, terrível contradição nossa, cheios de traves nos olhos e querendo tirar dos olhos de nossos irmãos o cisco!
No entanto, devo aqui dizer, quanto a prováveis respostas contestosas a este textículo, alerto-vos que, a não ser que estejam à altura abismática de minha bitchice, comentário nenhum será selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado, se quiser voar, se quiser voaaar!
Será macho-alfa de minha parte?
Parto agora, para poder rir sozinho, sozinho, tão sozinho e com um gosto amargo na boca, entre minhas quatro paredes brancas.
Ativistas pelos Direitos Humanos são presos por protestarem contra o projeto de lei do partido de Medvedev e Putin
Amanhã, quarta-feira - 23 de novembro de 2011, líderes políticos em São Petersburgo votarão uma lei que poderá tornar ilegal escrever um livro, publicar um artigo ou falar em público sobre ser gay, lésbica ou transgênero. O partido do governo, liderado pelo Presidente Dmitri Medvedev e pelo Primeiro Ministro Vladmir Putin poderá, por meio de uma simples assinatura, silenciar e tornar milhões de pessoas invisíveis.
Defensores dos direitos humanos em toda a Rússia estão fazendo tudo o que podem para parar esse projeto de lei, muitos arriscando a sua liberdade ao organizar eventos na rua e protestos, mas temem que isso não seja o suficiente.
Ajude a deter esta ofensa séria contra os direitos humanos na Rússia, nação que é signatária de vários Tratados em defesa destes mesmos direitos, e cujo Governo atual precisa ser lembrado que seus cidadãos homossexuais estão protegidos sob estes mesmos Tratados.
Permitir que um cidadão ou grupo de cidadãos seja silenciado, sobre algo de natureza tão pessoal, é permitir que todos sejam silenciados, tanto sobre questões de vida privada como em questões políticas coletivas. Sei que mesmo no Brasil mulheres e homossexuais ainda não são protegidos no parágrafo da Constituição que proíbe a discriminação por questões como raça, ideologia ou religião (Brasil, país campeão na violência de gênero e sexualidade), mas hoje e amanhã podemos ajudar cidadãos russos a defenderem seus direitos.
Por favor, clique no link abaixo e assine a petição, uma chamada global para os líderes mundiais, para apelarmos aos oficiais do Governo Russo que rejeitem uma lei tão antidemocrática e discriminatória.:
NOVO CAPÍTULO NO PLANO DE DESTRUIR A UNIVERSIDADE PÚBLICA
por Dirceu Villa O Demônio Amarelo, 20 de novembro de 2011
"Ah, tá vendo, tinha que ser: tudo baderneiro, maconheiro, filhinho de papai".
O governo pensa: "dessa vez vai"
O velho plano de acabar com a universidade pública em São Paulo, que não conta apenas com os anos recentes de democracia mas acha suas raízes no golpe militar de 1964, está a pleno vapor.
Mas é pior, naturalmente: é o triunfo de um tipo de mentalidade regressivo, péssimo sinal.
O melhor dos mundos possíveis: o homem biônico
OU talvez se trate, por outro lado, de uma ótima notícia: significaria que o governo resolveu o problema da segurança pública e não tem nada melhor para fazer com 400 policiais militares, helicóptero & demais aparatos repressivos do que mandá-los dar distração na Universidade de São Paulo ao respeitável público dos telejornais.
E talvez haja uma saudade (sempre ouço gente saudosa daqueles tempos) da figura tutelar do ditador, que indicaria o governador, que então ostentaria o poderoso adjetivo "biônico", com a sugestão dos poderes extra-humanos do Homem de 6 Milhões de Dólares.
Imprensa livre, com sonetos & receitas
O curioso é que brigava-se por liberdade de imprensa nem faz muito tempo; a idéia é a de que a liberdade de imprensa faria com que alguma verdade circulasse.
Durante a ditadura, as verdades inconvenientes eram substituídas por receitas de bolo ou sonetos de Camões; hoje, a imprensa é chamada "livre", porque o governo sabe que não precisa de censura: os donos do poder são também os donos da notícia, e a imprensa é meramente instrumental desse mesmo poder.
Poderiam ao menos nos dar umas boas receitas de bolo ou uns sonetos quinhentistas.
Conhecimento que não serve
Mais curioso ainda é que governo & imprensa podem contar com a opinião pública, como aconteceu em 1964 também. Há uma desconfiança de qqer espécie de conhecimento, mas, sobretudo, desconfiança de um conhecimento que não serve.
Não por ser imprestável, mas porque não é servil.
"Os livros não nos dizem nada"
Quanto à desconfiança contra o conhecimento, basta assistir ao filme que Truffaut fez a partir do livro de Ray Bradbury, Fahrenheit 451 (1966). Naquele futuro, obviamente distante ou impossível, se reprime o pensamento e as liberdades e as pessoas não lêem nem vivem, mas passam seu tempo como zumbis hipnotizados por programas estúpidos em telas enormes de TV na sala.
Na ficção os bombeiros não apagam incêndios, mas incineram os livros que os baderneiros e subversivos insistem em ler e guardar. A cena na qual esses bombeiros invadem a casa de uma senhora que escondia um gigantesca biblioteca nos dá, no discurso feito pelo capitão, o motivo do rancor contra o conhecimento.
Ele afirma: "Os livros não têm nada a dizer"; os romances são histórias sobre pessoas que jamais existiram, que tornam os leitores infelizes com as próprias vidas; a filosofia não dá uma resposta definitiva, e latim, por que alguém estuda latim, não é uma língua morta?
Todos têm de ser iguais, isto é, igualmente ignorantes de tudo, numa satisfação policiada, de ordem imposta, e sedativos de TV e remédios.
A especialidade brasileira continua
Durante a leitura em homenagem a Roberto Piva, dias atrás, tive de mencionar o fato de que vivemos uma época de conservadorismo patológico. A vitória desse governo, que há mais de 20 anos vem destruindo a Universidade de São Paulo, é apenas a parte mais aparente da escravização mental em curso.
A mim foi espantoso saber (não por qualquer veículo de imprensa, que covardemente não se menciona o assunto) que alunos eram revistados saindo da biblioteca.
Coisa do tipo, desse tipo de indignidade, era de quando o país estava sob uma ditadura. Estratégias nazi-fascistas de controle em pleno curso sob a nossa, ah-ham, "democracia".
Mas é muito sintomático que esse coup de grâce, esse golpe do governo, seja feito como é a especialidade brasileira: com uma invasão militar.
Mais espertos ainda: a coisa é proposta agora dentro da legalidade.
E você que achava que eles não aprendiam, é ou não é?
Contra a lavagem mental em curso
Contra a lavagem mental da imprensa sugiro, àqueles que querem saber o que de fato se passa, a aula pública que o professor de literatura brasileira da USP, João Adolfo Hansen, deu há alguns dias diante da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
A aula começa nos 2:30 min. do primeiro link do youtube, e segue pelos restantes.