terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ay, México.



Estou em São Paulo, depois de uma semana maravilhosa na Cidade do México ao lado de alguns de seus melhores poetas, e agora posso dizer com alegria e orgulho que são meus amigos. Nenhum texto de blogue poderia fazer justiça à generosidade e respeito com que me trataram, e as horas de intercâmbio poético, de noites regadas a tequila e mescal em que líamos, em bares ou apartamentos, poemas uns para os outros, os nossos e os de nossos mestres mortos. Voltei do México com muitos livros na mala, volumes da poesia completa ou quase completa de mestres como Xavier Villaurrutia, Salvador Novo, Gilberto Owen, Sóror Juana Inés de la Cruz, assim como livros de poetas contemporâneos como Juan Carlos Bautista e David Huerta.

A leitura na sexta-feira na Casa Refugio Citlaltépetl, com Luis Felipe Fabre, Julián Herbert, Minerva Reynosa, Ezequiel Zaidenwerg e eu, foi uma das melhores leituras da minha vida. Eu estava radiante por estar ali com 4 poetas que respeito tanto. Eu li meus poemas "Vida longa à poesia pura", "O acordeonista da Catedral de Bruxelas", "X + Y: uma ode", "Texto em que o poeta surpreende-se com a morte de Maria Schneider que parece formar uma sinédoque da qual não discerne a fronteira entre parte e todo" e "Entre o fogo e a derme". Meus companheiros leram as traduções para o castelhano, feitas por Cristian De Nápoli, Aníbal Cristobo e Paula Abramo.

Dois livros de poetas da minha geração deixaram-me com a visão clara de um momento privilegiado na poesia mexicana contemporânea: La sodomía en la Nueva España (Madrid: Pre-Textos, 2010), de Luis Felipe Fabre (Cidade do México, 1974); e El baile de las condiciones (Ciudad de México: Práctica Mortal, 2011), de Óscar de Pablo (Cidade do México, 1979). Livros de poetas que sabem que dia é hoje, de técnica precisa, cantores sobjetivos. Traduzirei poemas dos livros nas próximas semanas. Se unimos a eles ainda La lírica está muerta (Bahía Blanca: Vox Senda, 2011), de Ezequiel Zaidenwerg (Buenos Aires, 1981), temos três belos livros da poesia hispano-americana publicados no último ano.

Gravei muitos vídeos de leituras para divulgar o trabalho destes poetas no Brasil e além. Fora os três já citados, poemas que me alegraram e impressionaram na voz de seus autores, como os de Daniel Saldaña París; de Alejandro Albarrán; da americana Robin Myers, residente no México; de Paula Abramo. E mais. E outros. Percebi como sinto falta de ter por perto poetas com quem possa realmente conviver. Na Alemanha, meus amigos mais próximos são quase todos artistas visuais ou músicos. Não têm textos como parte integrante do oxigênio. Houve momentos em que tinha certeza ser aquela a alegria dos Beats ou dadaístas quando estavam juntos.

É muita coisa, tanta experiência que não poderei digerir assim tão rapidamente. Destes poetas, poderia dizer o que escreveu Drummond:

"Estes poetas são meus.
(…)
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei."


Deixo vocês com o vídeo que fiz de Alejandro Albarrán (Cidade do México, 1985), lendo seu poema "Acumulación". Muitos outros vídeos virão, estou editando vários neste momento. Abraço grande a meus novos amigos e companheiros mexicanos.



Alejandro Albarrán vocaliza seu poema "Acumulación", Cidade do México, dezembro de 2011.
Gravado por Ricardo Domeneck para a revista Modo de Usar & Co.


Texto:

A C U M U L A C I Ó N
Alejandro Albarrán

*

Acumulación, me estoy hinchando. Encontrando
el mimetismo en los ahogados. En mi cuerpo
tumefacto. Soy tu contenedor, soy tu putita. Me
estoy llenando. Me estoy saciando, colmándome
de mí, me estoy tocando en las aristas con aristas,
en mis esquinas me estoy tocando con esquinas.
Gerundio, soy hinchazón, soy yo exagerado,
exacerbado. Necesito una salida. Un punto de
fuga o me desbordo, desbordado, soy,
acumulación. Soy garrafa. Un accidente paulatino.
Un desatino o tina que se llena hasta sus bordes.
Una salida o me reviento. Una calle, un
escampado, para salirme de mí, desbordado sí, en
el paisaje. Acumulación, me estoy hundiendo,
como un Nautilus, me vengo abajo.

*

Esto es: necesito no ser yo. Confundirme. Ser tú,
por ejemplo. Ser tu sueño húmedo. Tu pesadilla.
Tu amor especial. Tu hombre de acción. Tu
postergación, tu crucifixión: tu crucifijo. La
mancha de sangre en tu toalla sanitaria. Tu santa
virgen, tu Eclesiastés, tu miedo al cambio, tu
cambio, en monedas de baja denominación, soy tu
elección, tu trueque. Tu lucha contra ti, soy tú
porque te ves en mí. En mi imagen. Tenme miedo
soy el diablo, tu Cristo de terciopelo, soy, soy tu
miedo, tu miedo a ti.


*

Soy la emperatriz de los escarabajos, en tu pubis
soy el anca de un caballo, en tu cabello soy dolor
de estómago, soy tu síntoma de mal, soy el mal, el
pervertido de voces, a veces, de muchas voces que
me anulan, soy eso: la anulación, mi anulación, la
vindicación de mí en nada.

*

Vuélvete confeti o fruta furibunda, vuélvete que
me estoy quitando el sexo. Por ti. Lo estoy
dejando en el buró como una estaca, un crucifijo.
Date vuelta: una lámpara que brilla (y ahora
brilla), una aliteración en nuestro entorno. Una
aliteración: canción que nadie canta porque
espanta.

*

Mi caballo sin ojos me dijo: "canta en mis
entrañas", "enséñame el paisaje". Aprendizaje. Mi
caballo me dijo: "ven a correr conmigo en mis
entrañas", me lo dijo esta mañana, desde mi
estómago, me lo dijo desde el vértigo, desde mi
trote caldo, en mi vientre me lo dijo, en mi
emoción, mi caballo sin ojos, mi potro hambriento
de camino. Soy camino, trayecto inconcluso es mi
oración. Ahora le canto, lo llevo al monte, a que
relinche.





quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Minha palestra de três dias sobre a poesia brasileira no Centro Cultural Brasil-México: lista dos poetas e poemas que li e comentei

Lendo o "Inferno de Wall Street" no Centro Cultural Brasil-México

Entre os dias 13 e 15 de dezembro, conduzi três falas sobre a poesia brasileira no Centro Cultural Brasil-México a convite da diretora do Centro, a poeta e tradutora Paula Abramo, e da Embaixada do Brasil. A ideia era falar sobre poesia contemporânea, mas em conversa com Paula, ao perceber como poetas importantes brasileiros do porte de Sousândrade e Augusto dos Anjos são desconhecidos no México, decidi que seria interessante começar pela própria Modernidade Poética Brasileira, aquela que começa com a geração genial de escritores das duas últimas décadas do século XIX, a que deu ao mundo Machado de Assis, Joaquim de Sousândrade, Raul Pompeia, Cruz e Sousa, alcançando, já no século XX (mas seus contemporâneos), Euclides da Cunha, Lima Barreto, Pedro Kilkerry, Augusto dos Anjos. São escritores que foram contemporâneos, criando nossa Modernidade poética juntos, ainda que a historiografia literária brasileira insista, em sua preguiça demente, em separá-los por escolinhas literariazinhas, fazendo daqueles textos geniais ilustraçõezinhas de estilinhos europeus. Discuti a relação entre esta Modernidade e o Modernismo do Grupo de 22, mas não tenho espaço para elaborar a ideia aqui, por ora.

É provavelmente um erro postar esta lista aqui, pois conheço bem a fobia dos brasileiros por listas deste tipo. Não haverá apenas um, provavelmente, daqueles que não estão realmente interessados em crítica e poesia, mas tão-só no tal de Cânone, que se ofenderá. Mas eu não tenho tempo a perder com a neurose alheia, basta-me a minha, e como sei que há muito mais leitores interessados e inteligentes neste espaço que os usuais anônimos iracundos, posto aqui a lista, na esperança sincera de uma conversa adulta com quem quer que a deseje, se a desejar.

NÃO É PROPOSTA DE CÂNONE. Não estou sugerindo qualquer evolução, qualquer teia de heranças. A organização cronológica é mera conveniência aqui. Nas palestras, com exceção do primeiro dia em que fui de Sousândrade a João Cabral, saltei entre décadas e poéticas. Entre os contemporâneos, os vivos, estes são alguns dos poetas que me interessam. Quisera apresentar ainda mais poetas, mas o espaço era reduzido, e só pudemos, em muitos casos, ler um único poema.

NOTA IMPORTANTE: ainda que Paula Abramo tenha traduzido vários poemas especialmente para estas palestras, a seleção dos textos de cada poeta teve que se restringir na maioria dos casos a traduções disponíveis. Houve poemas que eu gostaria muito de ter apresentado e comentado, como "A Última Elegia", de Vinícius e Moraes - talvez seu melhor poema, ou "Cismas do destino", aquela coisa incrível de Augusto dos Anjos. Não foi, infelizmente, possível traduzir os textos, tão complexos, a tempo. O trabalho seguirá. Paula Abramo e eu pretendemos iniciar uma página com estes textos, que traga traduções inéditas e apresentações críticas de cada poeta, uma espécie de ponte entre Brasil e México. O primeiro nome que dei à palestra foi "Poesia Brasileira entre a Segunda e a Terceira Guerras Mundiais", pois pretendia falar sobre o pós-guerra e discutir um pouco minhas ideias sobre a historicidade poética, sobre a ideia de um poema pré-distópico, questionando os equívocos atuais de certas poéticas que se querem "trans-históricas". Como tudo começou por fim com Sousândrade, devo chamar a "antologia" agora:

(Última nota: seria uma demonstração de generosidade se escolhessem alegrar-se com as inclusões antes de se irarem demasiado pelas exclusões. Há alguns poetas que respeito que ficaram de fora. Entrarão, porém, na página eletrônica que Paula Abramo e eu prepararemos.)


POESIA BRASILEIRA
ENTRE A GUERRA DO PARAGUAI
E A TERCEIRA GUERRA MUNDIAL



Sousândrade

"O inferno de Wall Street"

§

Cruz e Sousa

"Litania dos pobres"

§

Augusto dos Anjos

"Monólogo de uma sombra"
"Soneto a meu filho morto"

§

Manuel Bandeira

"Poética"
"O cacto"
"Vou-me embora pra Pasárgada"

§

Oswald de Andrade

"Cântico dos cânticos para flauta e violão"
"Manifesto Antropofágico"

§

Carlos Drummond de Andrade

"Poema de sete faces"
"Elegia 1938"
"A Máquina do Mundo"

§

Murilo Mendes

"Janela do caos"

§

Henriqueta Lisboa

"O ser absurdo"
"O mito"

§

Vinícius de Moraes

"Soneto da separação"
"Poética"
"A brusca poesia da mulher amada"

§

Cecília Meireles

"Mar absoluto"
"Reinvenção"

§

Jorge de Lima

"A ave"
"Invenção de Orfeu" (excerto)

§

João Cabral de Melo Neto

"Psicologia da composição"
"Uma faca só lâmina"

§

Haroldo de Campos

"Galáxias - e começo aqui" (na voz do próprio autor)
"Galáxias - circuladô de fulô" (na composição musical de Caetano Veloso)
"o â mago do ô mega"
"nascemorre"

§

Décio Pignatari

"hembra hambre hombre"
"beba coca cola" (com composição sonora de Gilberto Mendes e em vídeo)

§

Augusto de Campos

"pulsar" (com a composição sonora de Caetano Veloso)
"cidade city cité" (na voz do próprio Augusto de Campos)

§

Paulo Leminski

"um dia a gente ia ser homero"
"eu queria tanto"
"Desencontrários"

§

Leonardo Fróes

"Metafísica e biscoito"

§

Sebastião Uchoa Leite

"Biografia de uma ideia"

§

Roberto Piva

"A piedade"
"Praça da república dos meus sonhos"
"Piazza 10"

§

Orides Fontela

"Múmia"
"Clima"

§

Wally Salomão

"Retrato de um senhor"

§

Ana Cristina Cesar

"Arpejos"
"21 de fevereiro"
"Nada, esta espuma"

§

Zuca Sardan

"Tropicália"

§

Francisco Alvim

"Muito obrigado"
"Descartável"
"Argumento"

§

Paulo Henriques Britto

"Dez Sonetóides mancos III"

§

Lu Menezes

"Molduras"

§

Josely Vianna Baptista

"vivos em meu corpo (sílex in"

§

Carlito Azevedo

"Vaca negra sobre fundo rosa"

§

Jussara Salazar

"Splendor Fulgores"

§

Ricardo Aleixo

"Paupéria revisitada"
"o real irreal" (composição sonora e em vídeo)

§

Marcos Siscar

"Tome seu café e saia"
"Dor"
"O poeta decide ser Borges"

§

Hilda Machado

"Miscasting"

§

Marília Garcia

"Le pays n´est pas la carte"
"Svetlana"

§

Fabiano Calixto

"E-mail para Carlito Azevedo"

§

Izabela Leal

"Fuga em dó maior"

§

Dirceu Villa

"O cutelo"

§

Pádua Fernandes

"Prelúdio imóvel e desenvolvimentos"

§

Eduardo Jorge

"Diante de uma paisagem pensou: Kierkegaard"

§

Laura Erber

"Geografia de Salinas"

§

Marcelo Sahea

"Clonazepan"
"Menos é mais"

§

Angélica Freitas

"dentadura perfeita"
"ai que bom seria ter um bigodinho"
"família vende tudo"
"love me"
"às vezes nos reveses"

§

Ana Guadalupe

"pé esquerdo"

§

Érico Nogueira

"Deu branco"

§

Juliana Krapp

"Limite"
"Permanência"

§

Érica Zíngano

"Os conservadores deveriam fazer alguma coisa de útil"

§

Ismar Tirelli Neto

"Preocupações épicas"

§

Victor Heringer

"Meridiano 43"


(NOTA: por um descuido na hora de fotocopiar a apostila, ainda que estivesse na lista com vários poemas Hilda Hilst acabou ficando de fora, algo pelo qual não hei-de me perdoar. Mas Paula Abramo e eu temos o projeto de preparar uma pequena antologia, onde ela certamente terá destaque. Outra ausência séria é a de Pedro Kilkerry, pela qual peço aqui, publicamente, perdão.)

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Cidade do México. Na companhia de alguns de seus melhores poetas.

Daniel Saldaña París, Luis Felipe Fabre e eu, divertindo-nos durante a leitura de nossos poemas
na casa de Paula Abramo e Óscar de Pablo - Cidade do México, 12 de dezembro de 2011

Deixei o Rio de Janeiro na madrugada de domingo, chegando à Cidade do México à tarde, após uma escala na Cidade do Panamá e apenas um dia depois de um terremoto de 6.7 na escala Richter aqui na capital mexicana. Fui recebido por Paula Abramo, poeta mexicana e brasileira (que escreve em castelhano) que é diretora do Centro Cultural Brasil-México da Embaixada do Brasil, e seu marido, o poeta mexicano Óscar de Pablo. Após descansar um pouco no hotel, encontrei-me com eles e com o poeta argentino Ezequiel Zaidenwerg, que está passando um temporada no México e vive, como Abramo e De Pablo, a poucas quadras do meu hotel. Estamos no bairro dos escritores e poetas, a chamada Colónia Roma. Depois do jantar, na casa de Paula e Óscar, reunimo-nos ainda com o maravilhoso Luis Felipe Fabre, um dos melhores poetas latino-americanos da atualidade, e que tanto tem a ver com minha passagem pelo México por ter sido quem recomendou e apresentou meu trabalho a Paula Abramo. Hernán Bravo Varela completou a noite de poetas na noite de domingo.

O que acontece quando poetas se juntam? O óbvio: discussões sobre quem presta e quem não presta na poesia contemporânea, elogios rasgados a um só para ouvir o companheiro do lado discordar veementemente, sacagens rápidas de livros das estantes para leituras-relâmpago querendo provar por que tal poeta é maravilhoso/horrível, etc. Foi uma noite muito divertida.

Em Berlim, convivo basicamente com músicos, DJs e artistas visuais. Tenho amigos na cena literária berlinense, mas aqueles com quem convivo mais a miúdo não lidam com textualidade de forma explícita. A noite de sábado no Rio de Janeiro, ao lado de Marília Garcia, Dimitri Rebello, Ismar Tirelli Neto e Victor Heringer; seguida desta noite de domingo na Cidade do México, ao lado de Paula Abramo, Óscar de Pablo, Luis Felipe Fabre, Ezequiel Zaidenwerg e Hernán Bravo Varela, mostraram-me como sinto falta desta convivência.

Mas o melhor veio na segunda-feira à noite. Reunimo-nos todos uma vez mais na casa de Paula Abramo e Óscar de Pablo, mas com mais poetas ainda:

Paula Abramo (México/Brasil)
Óscar de Pablo (México)
Luis Felipe Fabre (México)
Ezequiel Zaidenwerg (Argentina)
Robin Myers (Estados Unidos)
Daniel Saldaña París (México)
Hernán Bravo Varela (México)
Alejandro Albarrán (México)

e a fotógrafa Valentina Siniego (México/Argentina).

Depois de alguns tiros de mescal, nos pusemos a ler nossos próprios poemas uns para os outros. Foi uma experiência ótima. Primeiro round: cada um leu dois poemas. Eu li, em castelhano, os poemas “X + Y: uma ode” e “Texto em que o poeta surpreende-se com a morte de Maria Schneider que parece formar uma sinédoque da qual não discerne a fronteira entre parte e todo”. No segundo round, cada um leu mais um poema. Li neste round meu “Autorretrato para agência de acasalamento”.

Na sexta-feira, faço uma leitura na Casa Refugio Citlaltépetl ao lado de quatro dos melhores poetas latino-americanos da atualidade, em minha opinião: os mexicanos Luis Felipe Fabre, Minerva Reynosa e Julián Herbert, e o argentino Ezequiel Zaidenwerg, com este vosso Ricardo Domeneck representando o Brasil. É uma das mesas mais potentes das quais já tive a honra de participar.





Luis Felipe Fabre, poeta e crítico que respeito imensamente e já traduzi para a Modo de Usar & Co., presenteou-me com seu último livro, o petardo que é La Sodomía en la Nueva España (Madrid: Pre-Textos, 2010).


Luis Felipe Fabre lê poemas e conversa com sua usual
wit.


§


Leitura na Cidade do México, do livro La sodomía en la Nueva España, com seu autor Luis Felipe Fabre,
acompanhado por Paula Abramo e Daniel Saldaña París.

§

POEMA DE LUIS FELIPE FABRE

Sutra da vaca

Uma vaca:
branca e negra. Ruminando pastagem: verde.
E acima o céu

e no céu
uma nuvem cor de nuvem e detrás da nuvem

outra vez o céu: azul celeste: a cor
do divino Vishnu presenteando uma flor-de-lótus.

Azul: a pele do divino Vishnu.
Celeste: a ação de presentear uma flor-de-lótus.

Outra flor-de-lótus: branco
deixando de ser branco: branca
nuvem dissipada: meditação.

E a vaca
ruminando flores-de-lótus a sagradíssima:
ioga, desioga, reioga.

(tradução de Ricardo Domeneck)

§

Sutra de la vaca
Luis Felipe Fabre

Una vaca:
blanca y negra. Rumiando pasto: verde.
Y encima el cielo

y en el cielo
una nube color de nube y tras la nube

otra vez el cielo: azul celeste: el color
del divino Vishnú obsequiando un loto.

Azul: la piel de divino Vishnú.
CelesteL la acción de obsequiar un loto.

Otro loto: blanco
dejando de ser blanco: blanca
nube disipada: meditación.

Y la vaca
rumiando lotos la muy sagrada:
yoga, desyoga, reyoga.

§

Ezequiel Zaidenwerg também presenteou-me com seu último livro, chamado La lírica está muerta (Bahía Blanca: Vox Senda, 2011). Estes dois livros mostram como há pluralidade de qualidade verdadeira hoje na América Espanhola. Fabre e Zaidenwerg são poetas muitíssimo diferentes, mas eu gosto bastante do trabalho de ambos. Pretendo traduzi-los mais em 2012. Deixo vocês com o vídeo que fiz com Zaidenwerg em Berlim em 2010. Tentarei fazer vídeos com os outros poetas que tenho conhecido aqui.



Ezequiel Zaidenwerg lê os poemas "Doxa" e "Lo que el amor les hace a los poetas",
em Berlim, novembro de 2010. Filmado por Ricardo Domeneck


§

POEMA DE EZEQUIEL ZAIDENWERG

O que o amor causa nos poetas

não é trágico: é atroz. Uma ruína
fúnebre cai sobre os poetas que o amor captura,
sem que orientação ou identidade poética
interessem. O amor leva ao desastre completo
da uniformidade os poetas gays,
os poetas panssexuais e bissextos,
as poetas e poetisas feministas, fementidas ou honestas;
os obcecados pelo gênero e
os degenerados em geral e os polimorfos perversos:
e até os fetichistas dos pés
de verso cedem sob as plantas do amor,
que não distingue ideologia,
programa ou poética. Aos vates da torre de marfim,
lança-os do penthouse ebúrneo para o térreo. Aos apóstolos
do Zeitgeist, que proclamam sem inibição que a lírica está morta,
permite que insistam em seu equívoco
e em suas bachareladas prolixas. Produz uma hemorragia palatal
nos que arqueiam parcos aforismos oblíquos,
como nos herméticos de latão, nos que engarrafam
seus versos para o vazio, nos falsários do silêncio,
e nos que forjam haikais lusófonos
à moda itálica. Nos puristas da voz corta em seco
os lamúrios doces, e quebra as falanges
dos maníacos do ritmo, estraga
o metrônomo íntimo que carregam junto ao coração
para marcar a batida de seus versos. Domestica o sensorial
nos videntes e malditos e demais
rebeldes e insurretos sem razão
ou causa poética, cura o desregramento racional
de todos os sentidos. Desaloja de sua noite escura
os que pedem luz para o poema
nas cavernas do sentido, e os devolve sem escala
para o tresnoitar da carne literal. O que o amor
causa nos poetas, com paciência e mansidão,
enquanto as borboletas lentamente ulceram seus estômagos
e pouco a pouco o pâncreas deixa de funcionar,
é bastante inconveniente. Aos que buscam com afinco
e precisão cirúrgica a palavra justa, arruína
seus pulsos, e em vez de doar vida, aniquilam-na em sua ânsia.
E nos que perseguem com ardor e devoção
um absoluto no poema, como um graal
todo de luz, tesa, diáfana e febril,
nubla suas certezas e mesmo o desejo
de saciar sua ansiedade. O que o amor
causa nos poetas, desavisadamente,
enquanto costuram e cantam e se empanturram de perdizes, é agudo, terminal
e fulminante. É um torrencial avassalador
de prosa, que esporeia e multiplica, em progressão exponencial,
os estúpidos e toscos da poesia:
os que cortam sem motivo seus versos diminutos;
os jóqueis compulsivos que os encavalam;
os designers tipográficos do verso;
os que partem a sintaxe sem saber torcê-la;
os que fazem escavações no
éter em busca de inauditos neologismos inaudíveis;
os modernos sem pretexto; os que creem descobrir
a pólvora em seus versos balbuciantes;
os contestatários automáticos e os poetas-pornô;
os que semeiam grandes nomes pela densa
fronde de seus poemas, como Joãozinho e Maria jogavam
migalhas; os que erguem em sua voz
ausente as caretas de uma infância lobotomizada;
os poetas bonitos e felizes, teimosos;
as tribos urbanas e os groupies da poesia adolescente;
os poetas pop e os rock stars do verso; os videopoetas e performers;
os ovni-poetas, alados ou rastejantes, identificados;
os objetivistas sem objeto
nem vista; os que exigem que o poema
vista-se de mendigo; os poetas filósofos;
e os cultores convictos
da “prosa poética”. O amor,
que movimenta o sol e os demais poetas,
leva-os até o derradeiro paroxismo: transforma-os
em terra, em fumaça, em sombra, em pó, etcétera:
em pó enamorado. E se acontece
ainda que dentre eles
amem-se amorosos os poetas pares,
felizes em seu amor solar sem escansão,
como se fossem na verdade, um para o outro,
um buraco negro de opiniões nebulosas,
palmadinhas tácitas nas costas e comentários de passagem,
anões, esfriando-se, absorvem-se mutuamente
e desaparecem.


(tradução de Ricardo Domeneck)


:


Lo que el amor les hace a los poetas
Ezequiel Zaidenwerg

no es trágico: es atroz. Les sobreviene / una luctuosa ruina a los poetas que el amor captura, / sin importar su orientación o identidad / poética. El amor lleva al total desastre / de la uniformidad a los poetas gay, / a los poetas pansexuales y bisiestos, / y a las poetas y poetrices feministas, fementidas o veraces; / a los obsesionados con el género / y a los degenerados por igual, y a los perversos polimorfos: / y hasta los fetichistas de los pies / del verso capitulan a las plantas del amor, / que no distingue ideología, / programa ni poética. A los vates de la torre de marfil / los precipita del penthouse ebúrneo directo a planta baja. A los apóstoles / del Zeitgeist, que proclaman sin empacho que la lírica está muerta, / les permite insistir en el error / y en sus prolijas parrafadas. Les produce una hemorragia palatal / a los que comban parcos aforismos diagonales, / a los herméticos de lata, a los que envasan / sus versos al vacío, a los falsarios del silencio, / y a los que fraguan haikus castellanos / al itálico modo. A los puristas de la voz les corta en seco / su dulce lamentar, y a los maniáticos del ritmo / les quiebra las falanges, y estropea / el íntimo metrónomo que llevan junto al corazón / para marcar el paso de sus versos. Les compone el sensorio / a los videntes y malditos y demás / rebeldes e insurrectos sin razón ni causa / poética, y les cura el desarreglo razonado / de todos los sentidos. Desaloja de su noche oscura / a los que piden luz para el poema / en las cavernas del sentido, y los devuelve sin escalas / a la trasnoche de la carne literal. Lo que el amor / les hace a los poetas, con paciencia y mansedumbre, / mientras las mariposas lentamente les ulceran el estómago / y el páncreas poco a poco deja de funcionar, / es harto inconveniente. A los que buscan con ahínco / y precisión de cirujano la palabra justa les arruina / el pulso, y en lugar de dar la vida, la aniquilan en su afán. / Y a los que con ardor y devoción persiguen / un absoluto en el poema, como un grial / todo de luz, tirante, diáfana y febril, / les nubla las certezas, y el deseo mismo / de saciar su ansiedad. Lo que el amor / les hace a los poetas, inadvertidamente, / mientras cosen y cantan y se atoran de perdices, es agudo, terminal / y fulminante. Es un torrente arrollador / de prosa, que espolea y multiplica, en progresión exponencial, / a los zopencos y palurdos de la poesía: / a los que cortan sin razón sus versos diminutos; / a los jinetes compulsivos; / a los diseñadores tipográficos del verso; / a los que quiebran la sintaxis sin saber / torcerla; a los que escarban en el / éter a la busca de inauditos neologismos inaudibles; / a los modernos sin pretexto; a los que creen descubrir / la pólvora en sus versos balbucientes; / a los contestatarios automáticos y a los porno-poetas; / a los que sueltan grandes nombres por la densa / fronda de sus poemas, como Hansel y Gretel arrojaban / migas; a los que impostan en su voz / vacante los mohines de una infancia lobotomizada; / a los poetas bellos y felices, caprichosos; / a las tribus urbanas y los groupies de la poesía pubescente; / a los poetas pop y los rockstars del verso; a los videopoetas y performers; / a los ovni-poetas, voladores o rastreros, identificados; / a los objetivistas sin objeto / ni vista; a los que exigen que el poema / se vista de mendigo; a los filósofos poetas; / y a los cultores convencidos / de la “prosa poética”. El amor, / que mueve el sol y a los demás poetas, / los lleva hasta el postrero paroxismo: los convierte / en tierra, en humo, en sombra, en polvo, etcétera: / en polvo enamorado. / Y si resulta todavía que entre ellos / se aman amorosos los poetas pares, / felices en su amor solar sin escansión, / como si fueran en verdad el uno para el otro / un agujero negro de opiniones nebulosas, / tácitas palmaditas en la espalda y comentarios al pasar, / enanos, enfriándose, se absorben entre sí / y desaparecen.


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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Último dia em Berlim, seguido de 32 horas no Rio de Janeiro, featuring Rebello, Garcia, Chomski, Tirelli, Heringer e Freitas (in absentia)

Marília Garcia e Ricardo Domeneck num momento: "Assim deveriam ser encontros de poetas" - Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 2011

Escrevo já do México, mas quero falar um pouco sobre as felicíssimas 32 horas que passei no Rio de Janeiro. Está sendo uma verdadeira maratona. Acho que não durmo uma noite completa há uma semana. Meu corpo está começando a pifar.

O último dia em Berlim foi um dos mais estressantes e intensos que já vivi, mas ao fim do dia senti como se estivesse finalmente na areia após nadar e nadar muito no alto-mar das borrascas. Mal pude me despedir de amigos, e serão dois meses longe.

Mas cheguei ao Rio de Janeiro na sexta-feira à noite com um sorriso enorme no rosto. Mal podia crer que teria apenas 32 horas ali, naquela cidade cheia de amigos tão queridos. Esta postagem é uma celebração dos reencontros e novos encontros que desfrutei nestas poucas horas.

Como foi bom ser acolhido por meu amigo Dimitri Rebello, poder conversar como se fizesse dois minutos que não nos víamos, e não dois anos! Há amizades que distância nenhuma pode esfriar. Estar ali em seu apartamento, conversando e ouvindo-o cantar foi muito revigorante para o meu miocárdio em frangalhos.

No sábado, nos encontramos com Marília Garcia (com quem estive em Bruxelas e Berlim na mesma semana) e fomos à Livraria Berinjela para que eu pudesse rever meu caríssimo Daniel Chomski, o diretor da livraria e aquele que tem sido nosso companheiro e aliado na edição das revistas impressas. Sempre tão generoso (além de possuir wit verdadeira), ganhei dele um exemplar da Poesia Reunida de Osvaldo Lamborghini (livro que queria há tempos!) e uma edição peruana linda com poemas de Francisco Alvim e Zuca Sardan traduzidos para o castelhano, estes cavalheiros tão encantadores que tive a honra de finalmente conhecer pessoalmente na Bélgica.

Em Santa Teresa, com uma câmera na mão e um poema na garganta, Dimitri filmou a leitura que Marília e eu fizemos do poema "O livro rosa do coração dos trouxas", de nossa queridíssima Angélica Freitas. Era como ter nossa amiga pelotense tão amada ali conosco.



Marília Garcia e Ricardo Domeneck leem "O livro rosa do coração dos trouxas", de Angélica Freitas,
no Rio de Janeiro. Gravado por Dimitri Rebello, 10 de dezembro de 2011.


Mais tarde, uniram-se a nós duas criaturas de quem começo a gostar muito e a quem eu, pessoalmente, considero dois dos poetas mais interessantes surgidos nestes últimos poucos anos: Ismar Tirelli Neto, a quem já conhecera no Rio em 2009, quando lancei meu Sons: Arranjo: Garganta, mas com quem não tivera ainda a chance de conversar e conviver; e Victor Heringer, que encontrei pessoalmente pela primeira vez, ainda que já conhecesse seu livro de estreia, Automatógrafo (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011), que ele tão gentilmente me havia enviado a Berlim. Vocês ouvirão mais sobre Heringer em breve, aqui neste espaço e no da Modo.

Para celebrar estes reencontros e encontros, deixo vocês com o vídeo para "Mercado negro", canção do grande Dimitri BR que ele me dedicou e que é uma de minhas canções favoritas; o vídeo das leituras de Ismar Tirelli Neto que preparamos para a Modo de Usar & Co.; e um poema de Victor Heringer do qual gosto muito. Em poucos dias, escrevo sobre os encontros maravilhosos que estou tendo aqui na Cidade do México. Beijos e abraços apertados a Marília, Dimitri, Chomski, Ismar e Victor, assim como a todos os generosos que frequentam este espaço.



Dimitri Rebello, ou Dimitri BR - "Mercado Negro"

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Ismar Tirelli Neto - "Preocupações épicas" e outros poemas, vídeo de Marília Garcia

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Posições desconfortáveis
Victor Heringer


cotovelo no asfalto em cotovelo cotovela.
a fila espera. estou na fila. espero também.
a fila dá a volta num quarteirão inteiro
que suspeito não ser um quadrado perfeito.
não sei o que espero. não sei se a fila sabe.
espero. não pergunto. seria ridículo, agora,
depois de tantas horas com a mesma cara
bovina. sei fazer cara bovina. muito bem.
trouxe coisas para me ocupar: um jornal;
um lápis para escrever o Tratado para a
desinvenção da penicilina, opus magnum
romantiquinha; cinco dores (uma moral).
esqueci algumas outras coisas. me ocupo
com as que ficaram longe: o mínimo
necessário (por exemplo) para aterrissar
um aeroplano num rio que parece o mar.

a fila anda. eu ando atrás. não sei do quê.
ouvi dizer que é bom, bonito, barato não sei.
ouvi dizer de esquina, assim, canto de boca,
assim um sussurro que cotovelou o quarteirão
que não é um quadrado perfeito porque aqui
é o Rio de Janeiro. aquele é aquele. olharam
para mim. meu nome deu a volta no cotovelo
dobrei meu rosto. tenho que esperar. espero.
não posso ir, agora, bovinamente, falam de mim:
aquele que nem chegou a amar aquela ali
no espaço daquele dia. o que faz logo aqui.

a fila anda. eu ando atrás. não sei do quê.


in Automatógrafo (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011)

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Vídeo com Marília Garcia e sua vocalização do texto "É uma lovestory e é sobre um acidente"

Marília Garcia (Rio de Janeiro, 1979)


Voo amanhã de manhã para o Rio de Janeiro, como disse, onde passo 30 e poucas horas antes de embarcar para a Cidade do México. Espero, nestas parcas horas, conseguir encontrar amigos como Dimitri Rebello e minha querida Marília Garcia, que esteve há poucos dias em Berlim após nossa passagem pela Bélgica. Aqui, gravamos o vídeo abaixo, com este lindo poema recente dela.



Marília Garcia vocaliza seu texto "é uma lovestory e é sobre um acidente", em Berlim, Alemanha,
a 6 de dezembro de 2011. Um vídeo de Ricardo Domeneck.


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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Nota sobre a última leitura na Bélgica, na Librarie Quartiers Latins em Bruxelas, seguida do primeiro anúncio sobre minha conferência no México

No último dia na Bélgica, participamos de uma conversa entrecortada por leituras de poemas na Librarie Quartiers Latins, em Bruxelas. Trata-se de uma livraria especializada em literatura belga de expressão francófona. Eles têm, no entanto, uma seleção ótima de poesia e prosa estrangeiras em tradução para o francês. Fomos cumprimentados logo na bancada de entrada por uma bela edição em francês dos poemas de Ana Cristina Cesar. Em conversa com Philippe Hunt, que fez a moderação de nossa mesa de leituras e debate com o público (incrível o número de belgas que apareceram nas leituras falando português fluente), e também com Thierry Leroy, o editor da antologia bilíngue português/francês lançada pela editora Le Cormier por ocasião do Europalia, Marília Garcia e eu encontramos graças às sugestões deles alguns livros de poetas belgas contemporâneos que logo aparecerão na Modo de Usar & Co..

O debate foi muito bom, e fiquei surpreso, por exemplo, com o quanto discutimos os efeitos da ditadura militar sobre o Brasil de hoje, a relação da poesia brasileira com o período e também com suas consequências, com um público belga interessadíssimo, e que parecia conhecer bem o que discutíamos.

Passei minha última noite em Bruxelas ao lado do meu queridíssimo J.C., numa reprise linda daquelas reprises que menciono em meu poema "O acordeonista da Catedral de Bruxelas". Algumas pessoas simplesmente são capazes de revigorar nossos poros.

Estou de volta a Berlim, fazendo os últimos preparativos para minha viagem ao México, onde darei uma conferência sobre poesia contemporânea brasileira no Centro Cultural Brasil-México, entre os dias 13 e 15 de dezembro. Encerro minha primeira passagem pelo país dos grandes poetas Xavier Villaurrutia (1903 - 1950) e Salvador Novo (1904 – 1974) com uma leitura no dia 16 de dezembro na Casa Refugio Citlaltépetl, onde serei recebido e terei a honra de ler com três dos poetas mexicanos contemporâneos que mais respeito: Julián Herbert, Luís Felipe Fabre e Minerva Reynosa. Por uma coincidência que me deixou muito feliz, o poeta argentino Ezequiel Zaidenwerg, que também respeito tanto, estará de passagem pela Cidade do México naquela semana e participará da leitura. Devo acrescentar que tudo isso está acontecendo graças ao entusiasmo de Paula Abramo, embaixadora da poesia brasileira no México.

Sendo assim, nesta sexta-feira voo para o Rio de Janeiro, fazendo uma passagem relâmpago de cerca de 32 horas antes de embarcar para a Cidade do México, onde fico então cerca de 10 dias, voltando depois ao Brasil para ver minha família, meus amigos amados e lançar meu novo livro de poemas, chamado Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, no prelo).

Estou cansadíssimo e entusiasmadíssimo.





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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Tarde com Marília Garcia pelas ruas de Bruxelas, gravação da minha cantiga de escárnio "Quadrilha irritada" e leitura na Maison de la Poésie, em Namur

Ricardo Domeneck e Marília Garcia, editores-coruja da Modo de Usar & Co.,
na Maison de la Poésie, Namur, Bélgica. Foto de Arnaud de Schaetzen.

A manhã de sexta-feira começou com rojões, mas não era exatamente para celebrar a presença de quatro poetas brasileiros na cidade. Era a vez dos habitantes da capital oficial da Europa protestarem contra os planos de austeridade do Governo Belga, por conta e consequência das catástrofes de especuladores norte-americanos que explodiram em 2008. Francisco Alvim, Lu Menezes, Marília Garcia e eu, após o café-da-manhã no hotel, saímos para as ruas para acompanhar e observar os slogans e reivindicações da população bruxelense.

Os protestos estão explodindo por toda a Europa, da Espanha à Grécia, da Inglaterra à França. Na Alemanha, que tenta equilibrar os pratos bambos da União Europeia, as coisas parecem calmas, ainda que a população comece a se perguntar se o país pode mesmo dar ordem à confusão deste novelo embaraçadíssimo. É muito esclarecedor observar o que ocorre nos países vizinhos. O Brasil e a Alemanha parecem ter-se saído com arranhões mas sãos da crise iniciada em 2008, ou será ilusão? Meus amigos e eu temos sentido na carne o aumento abusivo dos aluguéis em Berlim, do preço da comida. Berlim já não é a cidade que era quando cheguei.

Mais tarde, Marília e eu seguimos para livrarias, queríamos pesquisar poesia belga para futuras traduções e artigos na Modo de Usar & Co.. Eu queria também tentar encontrar mais livros de Gerard Reve (ver postagem anterior). Encontramos algumas coisas interessantes, mas fomos aconselhados a tentar a Librarie Quartiers Latins, onde há tudo o que se busca de prosa e poesia belgas. Como era justamente a livraria onde faríamos a leitura de Bruxelas, deixamos o resto da pesquisa para o dia seguinte.

Almoçando, Marília e eu tivemos uma ideia muito legal para um volume de ensaios, para o qual pretendemos convidar alguns poetas em breve. Mais informações assim que a coisa se concretizar.

Estamos filmando as leituras no Europalia para prepararmos um vídeo para a Modo de Usar & Co.. Como eu havia escrito em Bruxelas uma cantiga de escárnio intitulada "Quadrilha irritada", paródia do poema de Carlos Drummond de Andrade, Marília quis que gravássemos a porrada maysada e lupiciníaca a quente. O resultado é o vídeo abaixo:



Ricardo Domeneck - "Quadrilha irritada", cantiga de escárnio e poema satírico-paródico, gravado em Bruxelas, Bélgica, a 2 de dezembro de 2011. Vídeo de Marília Garcia.

Mais tarde, seguimos para Namur, onde lemos novamente os quatro juntos na Maison de la Poésie, numa noite que foi realmente muito legal. O vídeo das leituras seguirá em breve.

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sábado, 3 de dezembro de 2011

Pequena nota sobre uma tarde de quinta-feira em Antuérpia, com a minha descoberta do trabalho de Gerard Reve (1923 - 2006)

Gerard Reve (1923 - 2006)



A leitura que faríamos em Antuérpia na quinta-feira acabou sendo cancelada por alguns problemas da organização. Uma pena. No entanto, como um amigo meu alemão que vive em Amsterdã comprara já passagem de trem para vir a Antuérpia ver-me, decidi seguir de Bruxelas a Antuérpia mesmo assim e passar a tarde com ele. Meu querido Emanuel John, que deixou a Alemanha há mais de um ano para seguir seus estudos de filosofia na capital holandesa. Emanuel, que é filho de um teólogo alemão, é um oásis de diálogo para mim, com quem posso conversar sobre Simone Weil, Sören Kierkegaard, Miguel de Unamuno, sobre o misticismo em Ludwig Wittgenstein, sem que suas sobrancelhas ergam-se, como na maioria dos meus outros amigos alemães, em susto agnóstico horrorizado. Caía uma garoa fina em Antuérpia, caminhamos pelas ruas, conversando, parando em cafés, trocando leituras.

Foi nesta tarde que ele me falou de um escritor holandês que ele andava lendo após descobri-lo em Amsterdã, e me disse que acreditava que eu gostaria muito do senhor Gerard Reve (1923 - 2006), romancista e poeta. Tudo o que ele me disse sobre o escritor realmente me interessou muito. Ele tinha consigo uma cópia do livro Nader tot U (1966), algo como "Mais perto de ti", um romance epistolar que termina com uma série de poemas intitulada "Geestelijke Liederen", ou seja, canções espirituais.

Com meu alemão, que me permite arranhar a superfície do holandês, e a leitura do próprio Emanuel, sentamo-nos ao fim da tarde em um dos mil cafés que visitamos e nos lançamos a tentar traduzir algumas das "Geestelijke Liederen/Canções espirituais". Vocês verão de cara por que me apaixonei desde já pelo senhor Gerard Reve. Além disso, tudo o que pesquisei na Rede nestes dias aponta para um autor de misticismo e religiosidade extremamente carnais, que me lembram minha mestra Hilda Hilst, aquela que também misturava todos os gêneros literários no mesmo livro, assim como parecem ligá-lo ao grande Georges Bataille. Já estou procurando traduções para o alemão ou inglês para poder descobrir o universo deste que (sinto desde já) provavelmente entrará para o meu rol de obsessões, lá onde já estão Murilo Mendes, Hilda Hilst, Ludwig Wittgenstein, e outros. Abaixo, minhas traduções para algumas das "Canções espirituais" de Gerard Reve, com a assistência de Emanuel John e correções de Arnaud de Schaetzen.


POEMAS DE GERARD REVE

das Geestelijke Liederen / Canções espirituais,
incluídas ao final do romance Nader tot U (1966)


Canção da bebida

Agora é a hora de deixar de beber.
Parar de uma vez, é preciso.
Foi com certeza o bastante.
Consola-me então, ó Espírito,
nesta noite de 20 para 21 de julho de 1965,
em desespero profundo, e cercado de trevas.

:

Drinklied

Nu moet ik van de drank af.
Het moet maar eens uit zjin.
Het is wel genoeg geweest.
Troost mij toch, o Geest,
in de nacht van 20 op 21 juli 1965,
in diepe ontzetting, en omringd door Duisternis.



§

Poema para o Doutor Trimbos

"Vinho barato, masturbação e cinema,"
escreve Céline.
O vinho acabou, não há cinemas aqui.
A existência torna-se tão monocórdica.

:

Gedicht voor Dokter Trimbos

"Goedkope wijn, masturbatie, bioscoop,"
schrijft Céline.
De wijn is op, en bioscopen zijn hier niet.
Het bestaan wordt wel eenzijdig.

§

Confissão

Antes que eu siga para a noite que brilha eterna sem luz,
quero falar uma vez mais, e dizer isto:
Que eu nada mais busquei além
de Ti, de Ti, de Ti só.

(Nota: "U" é formal, e pode indicar que Reve esteja referindo-se a Deus, apontou-me alguém muito prestativo, sugerindo a opção "... além / do Senhor, do Senhor, do Senhor só." Minha ideia era de que não estava absolutamente claro sobre quem Reve ali falava. Talvez a maiúscula para "Ti" aproxime-se mais desta possibilidade, mantendo a ambiguidade. Manterei o "Ti", por ora, mas com maiúscula.

:

Bekentenis

Voordat ik in de Nacht ga die voor eeuwig lichtloos gloeit,
wil ik nog eenmaal spreken, en dit zeggen:
Dat ik nooit anders heb gezocht
dan U, dan U, dan U alleen.


§

Paraíso

Eu era um urso muito grande que era muito amável.
Deus era um burro que me tinha em alta conta.
E todo mundo era muito contente.

:

Paradijs

Ik was een heel erg grote beer die toch heel lief was.
God was een Ezel en hield veel van mij.
En iedereen was erg gelukkig.



§

Para o Anjo

Se me guiaste até o fundo do poço,
Volta, peço-te, e fica com O Moço.

:

Aan de Engel

Als gij mij tot het eind toe hebt geleid,
Keer dan terug, en blijf bij Teigetje.



(Nota do tradutor: "Teigetje" era a forma com que Gerard Reve se referia a seu namorado, o estilista holandês Willem Bruno van Albada. Tomei minha liberdade transcontextualizadora de traduzir "Teigetje" por "O Moço").



Cenas de um documentário sobre Gerard Reve

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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Pequena nota sobre Gante, seguida de poemas de Francisco Alvim, Lu Menezes e Marília Garcia

Ontem ocorreu a primeira leitura como parte do lançamento da antologia bilíngue holandês/português Vijfentwintig keer Brazilië / Vinte e cinco no Brasil, org. Flora Süssekind, trad. Harrie Lemmens & Bart Vonck (Gent: Poëziecentrum, 2011), um dos marcos poéticos do festival Europalia. Como escrevi, os poetas brasileiros presentes são Francisco Alvim, Lu Menezes, Marília Garcia e eu, 4 dentre os 25 poetas contemporâneos brasileiros incluídos na antologia, que abre com Augusto de Campos (São Paulo, 1931) e fecha com Marília Garcia (Rio de Janeiro, 1979). Escreverei sobre a antologia, mencionando os outros poetas, em alguns dias.

A leitura foi no Poëziecentrum, um espaço dedicado à poesia na cidade de Gante (Gent/Ghent), com uma excelente biblioteca que conta com praticamente tudo o que é e foi publicado em poesia em holandês, seja esta a língua original ou a de tradução dos poemas. Trata-se do lindo prédio que vocês podem ver na pequena foto que abre a postagem, uma instituição totalmente voltada para a divulgação e publicação de poesia em flamengo, dirigida pela entusiasta generosíssima que é Sieglinde Vanhaezebrouck, a quem deixo aqui meus agradecimentos sinceros pela linda, linda noite que ela organizou. A sala de leitura era no último andar, com cerca de duas dezenas de belgas flamengos interessados, respeitosos, muito generosos, vários deles falando português por paixão pela língua, outros apenas interessados em poesia, seja ela de onde for. Entre as leituras, o violonista Daniel Miranda tocou clássicos de Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Dilermando Reis e Tom Jobim. Foi uma noite muito bonita. Deixo vocês com um poema de cada um dos meus companheiros de leituras, Francisco Alvim, Lu Menezes e Marília Garcia, dentre os incluídos na antologia, assim como posto uma vez mais meu "O acordeonista da Catedral de Bruxelas", que Flora Süssekind decidiu incluir na antologia, deixando-me muito contente de o ler em plena Bélgica, após tê-lo escrito aqui. Encerro com a linda composição de Dilermando Reis que Daniel Miranda tocou ontem à noite. Está sendo um prazer passar estes dias com minha companheira Marília Garcia, conhecer e privar da companhia de Francisco Alvim, rever Lu Menezes após um brevíssimo encontro no Rio de Janeiro em 2009, poder conversar com eles com paz e respeito tamanhos.


QUATRO POEMAS, QUATRO POETAS
incluídos na antologia Vijfentwintig keer Brazilië / Vinte e cinco no Brasil, org. Flora Süssekind, trad. Harrie Lemmens & Bart Vonck
(Gent: Poëziecentrum, 2011)


Escolho
Francisco Alvim

Parado

Na plataforma superior

Entre as pernas
no chão
as compras no plástico

Longe do verso perto da prosa
Sem ânimo algum
para as sortidas sempre -
enquanto duram -
venturosas da paixão

Longe tão longe
do humor da ironia
das polimorfas vozes
sibilinas
transtornadas no ouvido
da língua

Ali onde o chão é chão
as pernas, pernas
a coisa, coisa
e a palavra, nenhuma
Onde apenas se refrata
a ideia
de um pensamento exaurido
de movimento

Entre dois trajetos
dois portos
(duas lagunas
duas doenças)

Sublimes virtudes do acaso
por que não me tomais
por dentro
e me protegeis do frio de fora
da incessante, intolerável, fugo do enredo?
da escolha?


§


onde o céu descasca
Lu Menezes

No interior
da pizzaria pintada de azul com nuvens
um ponto
onde descola a tinta, onde o céu descasca
denuncia
o sórdido teto anterior

descor
de burro quando surge

E é só
o que delicia certo solitário comensal
– esse ponto no qual
extramolduras
o apetite de um Magritte por superfícies
genuína companhia lhe faz

Genuína companhia...
num simulacro de céu, tal ninharia?
Yes!, no mínimo mais
que a fatia no prato,
o pedaço de teto nu e cru
– amostra menor do limbo,
do franco, fiel, frio limbo –
duraria, oh sim, duraria


§


Le pays n´est pas la carte,
Marília Garcia

I

pensa bem mas
se tivesse as ruas quadradas
teria ido a outro café, teria dito tudo de
outro modo e visto de
cima a cidade em vez de se
perder toda vez
na saída do metro, não é desagradável
estar aqui, é apenas
demasiado real
diz com cílios erguidos
procurando um mapa



II


não é o avião em rasante sobre
a água e nem o corpo
na janela semi-aberta
vendo o desenho
dos carros embaixo — não comenta nada
porque prefere armar planos
em silêncio
(estaria sonhando
com colinas?)



III


de lá manda longas
cartas descrevendo o país,
os terremotos e a forma da cidade.
pode me dizer que nunca se
espanta mas não percebe que
caminha perguntando:
é de plástico a cabine? é sua voz
na gravação? é um navio no
horizonte? pode ser apenas
uma margem de erro mas
não pensa nisso
com frequência

(pode ser apenas a janela
aberta que carrega os papéis)


§


O acordeonista da Catedral de Bruxelas
Ricardo Domeneck

De Bruxelas eu
esperava tudo, talvez
a reprise
do que ali já vivera,
uma noite ao lado
de Jey Crisfar,
chuva e cansaço,
conversas com taxistas
e árabes, mas não
este acordeonista
loiro de 20 anos
diante da Catedral,
sim, a de Bruxelas,
acordeonista loiro e imberbe,
alto e imundo,
a quem doei 2 euros
num excitativo segundo de tato
entre sua mão e meus dedos fechados
abrindo-se em bojo sobre sua palma,
após fazer com a visão
o rodízio contemplativo e luxurioso,
alternando o foco dos olhos
entre a catedral imberbe e loira
e o acordeonista alto e imundo,
a quem ensaiei, por 20 minutos
que mais pareceram seus 20 anos,
perguntar seu nome, quiçá filmá-lo
com a câmera que deixara
no Berlimbo,
ou imaginá-lo fotografado em série
por Adelaide Ivánova,
Heinz Peter Knes
ou qualquer fotógrafo
íntimo que me cedesse
os direitos autorais
desta imagem loira,
imunda,
para que eu de alguma forma
possuísse
este acordeonista imberbe e alto
em seus 20 anos,
a quem então batizo
em minhas glândulas
e passarei a chamar de Loïc
ou quem sabe Guillaume
pelo resto dos meus dias
após falhar em criar os colhões
de pedir seu nome,
e é assim, sr. Loïc ou Guillaume
aos 20 anos imundo e acordeonista,
que a você eu dedico
diante da alta e imberbe
Catedral de Bruxelas,
estes 2 euros
e uma ereção.


§
§
§


Dilermando Reis - "Se ela perguntar", composição que foi tocada por Daniel Miranda no Poëziecentrum ontem à noite.

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terça-feira, 29 de novembro de 2011

A caminho da Bélgica para as últimas leituras no Europalia


Embarco dentro de poucas horas para a Bélgica, onde faço minhas últimas leituras dentro do Festival Europalia. Estarei acompanhado em cada uma das quatro leituras por Francisco Alvim, Lu Menezes e Marília Garcia. As cidades em que lemos são Gante (Gent/Ghent), Antuérpia, Namur e Bruxelas. Tentarei escrever um pouco sobre as leituras por lá.

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