quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Capa do meu livro novo, "Ciclo do amante substituível" (RJ: 7Letras, 2012)



Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012)
de Ricardo Domeneck

72 textos
192 páginas
texto mais antigo: maio de 2006
texto mais recente: outubro de 2011

foto da capa: do fotógrafo alemão
Heinz Peter Knes
meu sábio irmão espiritual mais velho

retrato do autor no miolo do livro:
da fotógrafa brasileira
Adelaide Ivánova
companheira neste vale do rímel borrado

Informações sobre os lançamentos
em São Paulo e Rio de Janeiro
(ainda este mês) em breve.


O autor manda informar
que esvaziou a gaveta.

(não,
o livro não inclui
Cigarros na cama)


Retrato do autor à mesa de trabalho.
por Adelaide Ivánova. Berlim, 2011.


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Poema de Ezequiel Zaidenwerg (Buenos Aires, 1981), lido em vídeo pelo autor, e o arquivo de seu ótimo livro "La Lírica Está Muerta" (2011)

Ezequiel Zaidenwerg (Buenos Aires, 1981) - lendo no Festival de Poesia Latino-Americana de Berlim,
novembro de 2010. Foto do poeta alemão Timo Berger.


Descobri o trabalho do poeta argentino Ezequiel Zaidenwerg em novembro de 2010, quando ele foi um dos convidados do Festival de Poesia Latino-Americana de Berlim. Na ocasião, ele leu basicamente poemas de seu livro La lírica está muerta, ainda inédito naquele momento, e o longo poema que dá título a seu primeiro livro: Doxa (Bahía Blanca: Vox Senda, 2008). Este último texto me impressionou muito, assim como "Lo que el amor les hace a los poetas", que me divertiu imensamente e tornou-se um dos meus poemas favoritos escritos nos últimos X anos.

Alguns dias depois encontrei-me com Zaidenwerg e gravei um vídeo em que vocalizava justamente estes dois poemas, apresentando seu trabalho primeiramente em minha Hilda Magazine – com as traduções para o inglês da jovem poeta norte-americana Robin Myers (Nova Iorque, 1987). Apenas um ano mais tarde pude finalmente dedicar-me a traduzir estes dois poemas para o português, preparando uma postagem sobre o argentino para a Modo de Usar & Co. em novembro de 2011.

Numa coincidência feliz, Ezequiel Zaidenwerg chegou à Cidade do México, onde passaria dois meses, alguns dias antes que eu próprio fizesse minha passagem pela cidade por uma semana para dar minhas palestras no Centro Cultural Brasil-México. Fiz questão que ele participasse da leitura que Paula Abramo organizou para mim na Casa Refugio Citlaltépetl, para a qual convidamos ainda os poetas mexicanos Luis Felipe Fabre, Julián Herbert e Minerva Reynosa, outros poetas que respeito muito.

No meio tempo, o poeta argentino já havia publicado o excelente La lírica está muerta (Bahía Blanca: Vox Senda, 2011), firmando minha crença, com este livro e o poema "Doxa", de que Ezequiel Zaidenwerg é um dos poetas mais brilhantes de minha geração. Pretendo escrever um ensaio alentado sobre o livro e traduzir mais poemas, mas enquanto não o posso fazer, recomendo muitíssimo que vocês baixem este livro de Zaidenwerg disponibilizado na Rede, e assistam ao vídeo que gravei com ele na Cidade do México, no qual ele vocaliza um dos textos, intitulado "De la guerra civil". Gravar-nos ao espelho ainda me parece o cenário mais apropriado para um poema deste livro, tão inteligente em sua ironia. É uma alegria e sorte poder hoje contar Ezequiel Zaidenwerg entre meus interlocutores e amigos.



Ezequiel Zaidenwerg (Buenos Aires, 1981) vocaliza seu texto "De la guerra civil",
do livro LA LÍRICA ESTÁ MUERTA (Bahía Blanca: Vox Senda, 2011), em vídeo meu,
gravado na Cidade do México, a 17 de dezembro de 2011. Especial para a MODO DE USAR & CO.





De la guerra civil
Ezequiel Zaidenwerg

La lírica está muerta. Finalmente.
Ha llegado el momento que esperábamos todos.
Ya podemos decirlo sin ambages:
es el fin de una era. El magno orden de los siglos
se vuelve a barajar en fundación renovada.
Nace un niño de hierro para la poesía,
y con su advenimiento, tras dimitir la vieja estirpe de oro,
se alzará en su lugar una progenie
férrea: de todos modos, ya va siendo hora
de que empecemos a cantar
cosas más importantes.
.....................................................Nace un niño de hierro
para la poesía, y una única incógnita ensombrece el horizonte:
¿conocerá a sus padres sonriendo con dulzura?
¿Les soltará una carcajada amarga?
¿Los verá con desprecio? ¿Con sospecha? Acaso,
lo que es peor: ¿les pagará la vida y su sostén
con una mueca apática?
............................................La lírica
está muerta. Así es, aunque su muerte
– mal que les pese a aquellos
que hoy se la adjudican – fue sin ceremonia: como cae un árbol,
tronco sin nombre en la mitad del bosque
por donde nadie pasa,
así cayó. La técnica también estuvo ausente:
ni siquiera las tablas precarias de la cruz,
los clavos enmohecidos, la corona trenzada con agujas,
el paño avinagrado que alguna vez urdiera
con módica pericia mano de hombre,
tuvieron parte en el asunto,
que ocurrió sin testigos, sin castigo ejemplar,
sin demasiada premeditación
ni marca.
...................Está muerta. Así es.
Y un acerbo destino arrastra a los poetas
y el crimen de la muerte fraternal,
desde el momento en que se derramó en la tierra,
como una maldición para sus descendientes,
su sangre:
................ fue en un descampado; el golpe
la sorprendió de espaldas.

.................................................Está muerta.
............................La lírica está muerta.

........No murió como Cristo, la mataron
como a Abel.



in La lírica está muerta (Bahía Blanca: Vox Senda, 2011)


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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Um pequeno poema de Juan Carlos Bautista (Chiapas, 1964)

Juan Carlos Bautista, Bestial (Ciudad de México: El Tucán de Virginia, 2003)


................................................................No hablemos de Amor, queridas.
................................................................El Amor es una convalescencia demasiado efímera.
................................................................Hablemos de Sexo, ese horror inacabable.


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domingo, 1 de janeiro de 2012

Feliz ano novo, feliz poesia nova: vídeos e poemas de Victor Heringer na "Modo de Usar & Co."

Victor Heringer (Rio de Janeiro, 1988)

Os primeiros a me falarem sobre Victor Heringer foram Marília Garcia e Dimitri Rebello. Algum tempo depois, o próprio jovem poeta cortesmente enviou-me seu livro Automatógrafo (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011) para terras berlimbosas e viemos a publicar seu inédito "Alérgico ma non troppo" no terceiro número impresso da Modo de Usar & Co.. Quando pude finalmente dedicar uma leitura mais atenta ao livro, encontrei nele um poeta de imaginação, inteligência e o tipo de humor que me atrai, com poemas que pareciam engajar-me, como nos poetas contemporâneos brasileiros que mais me alegram, naquilo que Pound chamava de "conversation between intelligent men" - um ato de generosidade de tais poetas. No Rio de Janeiro no mês passado, tive o prazer de conhecer o poeta, que é além de tudo um cavalheiro, e Marília Garcia e eu preparamos um vídeo para a Modo de Usar & Co. em que ele vocaliza alguns de seus textos. Este vídeo e outros do próprio Heringer, assim como vários poemas, podem ser vistos/lidos/escutados na franquia eletrônica de nossa revista, encimados por um texto de apresentação meu em que, como era de se esperar, o leio a partir das minhas obsessões talvez, mas tentando apenas, com minhas parcas capacidades, simplesmente apontar para o que me alegra em seu trabalho. Perdoem minha miopia (a velha ideologia da percepção de que já falei) e leiam apenas a poesia de Victor Heringer. Quanto às sereias da catástrofe que dizem que não há bons poetas no Brasil, ora, segurem-se em suas cadeiras de balanço do cânone com unhas e dentaduras.




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sábado, 31 de dezembro de 2011

Adeus, 2011

Nas últimas semanas, conforme se aproximava o fim deste ano, costumava brincar com amigos dizendo que quando 2011 desse seu último suspiro, eu dançaria um samba violento sobre a tumba dele. Agora que o ano está praticamente acabado, percebo que seria ingratidão minha. Foi um ano importantíssimo em minha vida. Fiz e produzi muito, conheci pessoas maravilhosas que certamente marcarão a minha vida ainda além do que já marcaram. Eu ia fazer uma lista de highlights do ano, mas, sentindo cada página de Simone Weil lida pesando nos ombros, digo highglight de quê? Os punti luminosi da existência brilham por si mesmos.

Eu agradeço a todos que estiveram do meu lado este ano, que fizeram parte deste capítulo de nossas aventuras, que permitiram que eu fizesse parte das suas. Este foi também o ano em que perdi O Moço amado idolatrado salve salve que mais amei nesta coisa de vida, e, como não posso dizer isso a ele, digo então a vocês, ao mundo e a cada grão de oxigênio no globo: Moço, tu ainda és o príncipe das belugas. Onde e com quem quer que você esteja, desejo com cada fibra do meu ser que você esteja feliz. Parafraseando o poema de Angélica Freitas, só pense em mim hoje, que sou seu passado, se isso lhe der prazer.

Foi o ano em que pude partir de vez para o trovadorismo, com a ajuda do meu amigo Tobias Bittmann, e fundamos nossa banda Elephant The Diplomat, que ocupará meu tempo em 2012 e me fará feliz, como já o faz em nossas 10 canções já compostas. E é pelas canções-salva-vidas que deixo vocês com uma seleção das canções que salvaram minha sanidade este ano. Até 2012. Que nos seja leve.



Planningtorock - "The One"

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Creep - "Days" featuring Romy Madley-Croft

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Feist - The circle married the line

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Atlas Sound - "Te amo"

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Black Cracker - "Bury Me (Skull and bone)"

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Anika - "I got to sleep"

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Dimitri BR - "O tamanho do caminho"


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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

"Cantiga de ninar para amante surdo", poema multilíngue com vocalização em vídeo, gravado por Paula Abramo na Cidade do México

Foto feita por meu amigo, o (excelente) poeta mexicano Alejandro Albarrán,
Cidade do México, dezembro de 2011.


"Cantiga de ninar para amante surdo / Lullaby for a deaf lover / Canción de cuna para amante sordo", texto multilíngue (usando palavras do português, castelhano, inglês, francês, alemão, italiano, catalão, crioulo cabo-verdiano, sefardí, inventado e latim), já que na última década não me apaixonei por uma única criatura que fosse civilizada suficiente para falar português.

Gravado por Paula Abramo na Cidade do México a 18 de dezembro de 2011.




Texto do poema abaixo. Publicado originalmente no Diário de Poesía de Buenos Aires, em 2008, no dossiê de poesia brasileira contemporânea organizado por Cristian De Nápoli.


Cantiga de ninar para amante surdo
Ricardo Domeneck

Eres the plague meiner fauna,
my allerdearest passerculus
infenso al questionnaire
dos meus needs, do quê

tens angst, nha kretxeu,
if otros páxarus planam
alrededor d´your caixola
toracique like girassóis

or schmetterlinge y
hay keine delicatessen
full d´engrunes
nel malheur di toalha

da vuestra távola que
balança wie manzanas
dil otonio u soçobram
sin solaciolum al soluço

meu y el plenu século est
aranearum a memorandar
le gravity ou statistics
entre epiderm y shampoo,

bicho-da-seda of my own
cheveux, my holzpferdchen
di carroussel, sussurro-te
questo lullaby, quirinsiozo

nonchalant y taube
sorda of mi olvido:
ecco ichyojeu
sobjective,

mon callboy, j´am deine
mullah, et con one sonrisa
sur la fresse cargo tu planetoid,
heavy hecho plumas y paese,

mio xodó, tal qual un atlas
avec avlas y árvulis y
everything di solombra
sur riachos, mein benzinho

gauche de pampers da vita,
basia mille, deinde centum
y tremblo trotzdem dibaxu
der sonne, hasta que deslizes

under los lençóis di camomila
sur tua llit, oh! l´alba assovia,
de morsus a ictus glutona-se
teu focinho avec mis tatters,

ronron meu,
si hay rincão
more londji
von mim,

mendigo-te:
do not go,
ay paura da
departure,

baby bobo


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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Dois ensaios de Elaine Cintra, da UFU: "O acaso na lírica de Ricardo Domeneck" e "A ´experiência irrespirável`: memória e esquecimento em RD"

a cadela sem Logos (São Paulo/Rio de Janeiro: Cosac Naify/7Letras, 2007)


Como diz meu amigo, o poeta e romancista baiano João Filho, "elogio da própria boca é anátema". Tenho pudores em postar estes textos aqui, mas o faço especialmente por se centrarem em aspectos do meu trabalho que me são muito caros, a partir de um livro meu que foi julgado "irritante" e "frio" até por amigos.

Elaine Cristina Cintra é professora da Universidade Federal de Uberlândia, e tem conduzido um trabalho de pesquisa sobre o meu trabalho com muito respeito e generosidade. Tudo o que posso fazer é agradecer, agradecer e agradecer por gastar seu tempo precioso discutindo minhas obsessões.

São dois ensaios: "O acaso na lírica de Ricardo Domeneck: forças do alheio, figurações do não alheio", para a revista Cadernos de Semiótica Aplicada, volume 9 (2011); e "A ´experiência irrespirável`: memória e esquecimento em Ricardo Domeneck", para a revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, No 37 (2011). A quem possa porventura interessar-se, basta clicar nos links abaixo e baixar os arquivos em pdf.



terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Vídeo com Luis Felipe Fabre, lendo seus "Villancicos del Santo Niño de las Quemaduras", do livro La Sodomía en la Nueva España (2010)


Luis Felipe Fabre (Ciudad de México, 1974) vocaliza seus "Villancicos del Santo Niño de las Quemaduras",
do livro LA SODOMÍA EN LA NUEVA ESPAÑA (Madrid: Pre-Textos, 2010).
Gravado por Ricardo Domeneck, especial para a MODO DE USAR & CO.



O villancico, conhecido em português como vilancete, é uma composição poética geralmente musicada, comum na Península Ibérica nos séculos XV e XVI, praticada por poetas-compositores como Juan del Encina (1468 - 1529) e transplantada com muito talento no século XVII para a América Espanhola, por exemplo, por Sóror Juana Inês de la Cruz (1651 – 1695). Trata-se de poesia lírica irmanada a formas como a canção de amigo galego-portuguesa, a jarcha/moaxaja moçárabe e aos textos dos romanceiros ibéricos em geral.

Villancico
Juan del Encina

Floreció tanto mi mal,
sin medida,
que hizo secar mi vida.

Floreció mi desventura
y secósse mi esperança;
floreció mi gran tristura
con mucha desconfïança;
hizo mi bien tal mudança,
sin medida,
que hizo secar mi vida.

Hase mi vida secado,
con sobra de pensamiento;
ha florecido el cuydado,
las passiones y el tormento;
fue tanto mi perdimiento,
sin medida,
que hizo secar mi vida.

Fin

Secósse todo mi bien,
con el mal que floreció;
no sé cúyo soy ni quién,
quel plazer me despidió;
tanto mi pena creció,
sin medida,
que hizo secar mi vida.



Mais tarde, como se dá na Obra de Sóror Juana, a forma poética passou a ser composta exclusivamente com temas religiosos, como a assunção da Virgem e o nascimento de Cristo, e passou a ser empregada nas festividades católicas. Os vilancetes eram cantados por um solista e um coro.

Por exemplo, compostos para as celebrações do Natal de 1689 e cantados na Catedral de la Puebla de los Ángeles, os Villancicos de Navidad de Sóror Juana Inês de la Cruz iniciam-se:


Villancico de Navidad (1689)
Sóror Juana Inês de la Cruz

Primero Nocturno

Villancico I

Por celebrar del Infante
el temporal Nacimiento,
los cuatro elementos vienen:
Agua, Tierra, y Aire y Fuego.
Con razón, pues se compone
la humanidad de su Cuerpo
de Agua, Fuego, Tierra y Aire,
limpia, puro, frágil, fresco.
En el Infante mejoran
sus calidades y centros,
pues les dan mejor esfera
Ojos, Pecho, Carne, Aliento.
A tanto favor rendidos,
en amorosos obsequios
buscan, sirven, quieren, aman,
prestos, finos, puros, tiernos.



Sóror Juana atingiu grande sofisticação filosófica e poética em seus vilancetes. Seus Villancicos de la Asunción (1676) têm composições em castelhano, latim e tocotín, uma língua que mesclava o castelhano e o náhuatl, sem mencionar o Vilancete VII do "Tercero Nocturno" deste mesmo texto de 1676, em que se equipara com maestria à elegância da wit de seus contemporâneos europeus, como os metafísicos ingleses mais jovens Andrew Marvell (1621 – 1678) e Henry Vaughan (1622–1695).

Lançado no ano passado, La Sodomía en la Nueva España (Madrid: Pre-Textos, 2010), de Luis Felipe Fabre (Cidade do México, 1974), é um belíssimo trabalho de reconstituição poético-histórica do período de perseguição a homossexuais na Nova Espanha que culminou nos anos de 1657 e 1658, levando à execução (queimados na fogueira) de muitos homens na Cidade do México, como no caso de Juan de la Vega, conhecido como la Cotita. Baseando-se textualmente em documentos da época, Luis Felipe Fabre faz uma reconstituição e resgate ao dar voz aos acusados, mas, retomando a linguagem alegórica barroca do período, dá também voz à Santa Doutrina contra o "pecado nefando", ao Silêncio e ao Fogo que os consomem e retoma formas históricas como o villancico, o que traz mais de uma implicação est-É-tica ao livro, ao usar uma forma praticada com esmero por uma poeta religiosa como Sóror Juana, ela própria acusada e atacada sob suspeita de lesbianismo, ela que se aproxima de Safo de Lesbos ao cantar versos tão belos quanto estes para uma mulher chamada Filis:

Ser mujer, ni estar ausente,
no es de amarte impedimento;
pues sabes tú que las almas
distancia ignoran y sexo
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Penso no que escreve Walter Benjamin sobre o "historiógrafo perfeitamente convencido que diante do inimigo, e no caso deste vencer, nem sequer os mortos estarão em segurança. E este inimigo não tem cessado de vencer".

Em seus "Villancicos del Santo Niño de las Quemaduras", Luis Felipe Fabre retoma o episódio em que um dos acusados e queimados na fogueira em 1658 teve como prova e evidência contra si o fato de haverem encontrado em sua casa uma estátua do Menino Jesus queimada. Segundo a história, ele a teria queimado em um momento de fúria por não lhe ter sido permitido estar com seu amante.

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Luis Felipe Fabre, acompañado por Daniel Saldaña París y Paula Abramo,
lee fragmentos de su libro La sodomía en la Nueva España (Pre-Textos, 2010),
durante su participación en el festival Poesía en Voz Alta.
Ciudad de México. 23 de septiembre de 2010.


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La Sodomía en la Nueva España está entre os melhores livros de poesia contemporânea que li nos últimos tempos, e parece estar ligado a uma retomada da poesia lírica de forma extremamente consciente de sua historicidade, o que por vezes nos recorda o trabalho lírico dos Objetivistas Norte-Americanos dos anos 1930, trabalho de grande beleza e inteligência que também sinto nos livros El baile de las condiciones (Ciudad de México: Práctica Mortal, 2011), do mexicano Óscar de Pablo; e ainda no excelente La lírica está muerta (Bahía Blanca: Vox Senda, 2011), do argentino Ezequiel Zaidenwerg. Em sua retomada de uma forma lírica que tem suas origens na poesia medieval, o contexto atual da poesia latino-americana em que este trabalho de Luis Felipe Fabre se insere fez-me pensar também no último livro da brasileira Jussara Salazar, que acaba de ser lançado: Carpideiras (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011), guardadas as devidas distâncias contextuais entre a retomada barroca dos villancicos de Fabre e a retomada das cantorias, coros e retábulos de Salazar. Unidos ao que venho chamando de lírica analítica nos trabalhos de poetas brasileiros como os cariocas Juliana Krapp, Marília Garcia e agora Victor Heringer, assim como a exuberância pluriformal dos últimos poemas de Dirceu Villa, parece cada vez mais claro que os que sambaram sobre o esquife vazio da Poesia Lírica certamente não a viram gargalhando à janela do velório, ainda que seja o caso, segundo a visão de Ezequiel Zaidenwerg, de "que la lírica es más bien un zombie que está muerto ab origine y que, por más que intenten matarlo, siempre vuelve a aterrorizarnos".


Luis Felipe Fabre, La sodomía en la Nueva España (Madrid: Pre-Textos, 2010)

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domingo, 25 de dezembro de 2011

Postagem natalina, com poemas, canções e súplica por meio de sinédoques

Michelangelo da Caravaggio, La cena in Emmaus, 1601-02. Dimensões: 195 x 139 cm).
Atualmente na Galeria Nacional de Londres.

Crescendo num ambiente dos mais religiosos, quisera eu poder dizer que acompanho a poética do meu mestre Murilo Mendes, ou a de seus companheiros Jorge de Lima e Henriqueta Lisboa. Minha relação com esta religiosidade é, no entanto, muito mais conflituosa e atormentada, aparentando-se e encontrando maior guarida no trabalho de Pier Paolo Pasolini e Hilda Hilst. Mas esta manhã acordei pensando num dos poemas de Murilo Mendes que mais amo, chamado "Emaús", incluído no livro Mundo Enigma (1942), escrito durante os meses em que o poeta mineiro passou no Sanatório de Correia, em Minas Gerais, tratando-se da tuberculose. É um dos meus livros favoritos na obra de M.M., contendo outros poemas belíssimos como "Tobias e o anjo", "A noite em 1942" e "Poema barroco". O título faz referência à cidade de Emaús, a cerca de 10 quilômetros de Jerusalém, onde o Evangelho de Lucas (24, 13-35) afirma ter aparecido Jesus após a ressurreição diante de dois de seus discípulos, que não o reconheceram até o momento em que, tendo-o convidado a cear consigo, Jesus parte o pão à sua maneira inconfundível e desaparece quando os olhos dos discípulos abrem-se e eles o reconhecem. O evento tem grande importância para o pensamento místico de Murilo Mendes, que intitularia seu belo livro de aforismos O Discípulo de Emaús (1944).Parece-me ser em Mundo Enigma que se inaugura a secura-pobreza na poética de Murilo Mendes, durante a Segunda Guerra e quase uma década após sua conversão ao cristianismo, como se costuma relatar, na experiência traumática que lhe foi a morte de seu amigo Ismael Nery em 1934. O coroamento desta secura, distinta em sua est-É-tica daquela que se tornou famosa na obra de João Cabral de Melo Neto, viria no poema "Janela do caos", escrito também naqueles anos. Abaixo, o belo "Emaús":

Emaús

Sempre és o hóspede – nunca és o rei.
Muito mais derrotado que vitorioso.
Quando chegas e bates ao meu coração
Eu não te reconheço – há luz demais –
Debruço-me sobre as gravuras do caminho.
Quando te afastas - acompanhado pelo peixe azul –
Quando as formas se movem como num aquário,
Então eu levanto enternecido a lanterna
E logo começo a desejar que voltes,
Fascinado pela tua obscuridade.


Murilo Mendes, Mundo Enigma (1942)


Trata-se de um dos mais delicados poemas de amor místico da Poesia Brasileira. É esta humilitas, esta meekness ovina reconhecida por Murilo Mendes no Cristo que parece estar na base de sua busca est-É-tica, nestes anos, por uma simplicidade maior se comparada à exuberância mesmo sálmica de seus primeiros livros, distante também do satírico e paródico que marcara sua primeira produção. Há no entanto mesmo em Murilo Mendes um grande conflito, talvez o mesmo que tenha acometido todos os intelectuais, cristãos e judeus, que viveram o horror da Segunda Guerra. Basta pensarmos em poetas e intelectuais tão diversos quanto a Simone Weil dos Cahiers e ainda L'Enracinement, Prélude à une déclaration des devoirs envers l'être humain (1943, publicado em 1949), a H.D. de The Walls Do Not Fall (1944), o Paul Éluard de Les sept poèmes d'amour en guerre (1944), o Salvatore Quasimodo de Con il piede straniero sopra il cuore (1946) ou o próprio Murilo Mendes de Poesia Liberdade (1947). Em um texto menos conhecido, intitulado justamente "Natal 1961", Murilo Mendes apresenta-nos uma visão distópica da sociedade de consumo que já se formava, algo tão desmascarável em tempos de Natal como celebração do comércio.


Natal 1961
Murilo Mendes


Deslocados por uma operação burocrática — o recenseamento da te­rra - a Virgem
..............e o carpinteiro José aportam a Belém.
«Não há lugar para esta gente», grita o dono do hotel onde se reali­za um congresso
..............de solidariedade.
O casal dirige-se a uma estrebaria, recebido por um boi branco e um burro cansado
..............do trabalho.
Os soldados de Herodes distribuem alimentos radioativos a todos os meninos de menos
..............de dois anos.
Uma poderosa nuvem em forma de cogumelo abre o horizonte e súbito explode.
O Menino nasce morto.



Minha relação com esta religiosidade cristã, se não aparece de maneira temática em meu trabalho, tem sido uma constante crítico-formal, por exemplo, em minha obsessão pela relação entre metáfora e metonímia, e especialmente em meu uso da sinédoque (a parte pelo todo), como refúgio possível da poesia mística em famosos tempos dessacralizados. Há pouco tempo, assisti em vídeo a uma interessantíssima palestra de Caroline Bynum, intitulada "Contradiction, Paradox, Synecdoche: Parts and Whole in Medieval Devotion", proferida no ICI Berlin: Institute of Cultural Inquiry, em que discutia, de maneira elaborada e muito mais embasada que a minha, uma questão que vem ocupando meu pensamento desde os tempos em que escrevia o livro Carta aos anfíbios (2005), no qual esta obsessão se faz presentíssima. A palestra da impressionante Caroline Bynum é descrita desta maneira:

"All religions make some use of the material to represent or lead to something beyond. But not all religions emphasize materiality to the extent that Christianity does, impelled by the doctrines of creation ex nihilo and of the Incarnation. Hence a paradox: if the Christian God is understood to redeem, not merely to transcend, the material, then corruptible, partible matter must be capable of incorruption and eternal wholeness. In her lecture, Caroline Bynum will explore one consequence of this paradox: Christianity’s insistence on material fragmentation as a way of distributing the holy, while embedding this in the idea of synecdoche. Describing first the cult of holy matter and the way in which the anxieties about decay attendant upon it are reflected in theology and reliquaries, she will then look at five wound piety (which has often been understood as erotic or proto-feminist) as an example of the devotional sense of pars pro toto."

Você pode assistir à palestra de Bynum na página abaixo:



Caroline Bynum é professora no Instituto para Estudos Avançados da Universidade de Princeton, e ainda professora emérita na Universidade de Columbia em Nova Iorque. Sua pesquisa crítica move-se nos campos da teologia, religião e cultura da Idade Média. Seu livro Holy Feast and Holy Fast: The Religious Significance of Food to Medieval Women (1987) teve papel importante em trazer a discussão de GÊNERO para os estudos medievais, assim como seus livros Fragmentation and Redemption: Essays on Gender and the Human Body in Medieval Religion (1991) e The Resurrection of the Body in Western Christianity (1995) são paradigmáticos para a pesquisa sobre o História da Corporalidade.

Como disse, minha relação atormentada com a religiosidade ocidental acaba por encontrar guarida na leitura politizada que o mestre Pier Paolo Pasolini dela faz, seja em filmes como Il vangelo secondo Matteo (1964) ou nos poemas do livro L'Usignolo della Chiesa Cattolica (1954). Pasolini tem importância central para mim ainda e especialmente pela maneira como enfrentou o conflito entre religiosidade e sexualidade, como manifestações tanto políticas como místicas.


Cristo alla pace
del Tuo supplizio
nuda rugiada
era il Tuo sangue.
Sereno poeta,
fratello ferito,
Tu ci vedevi
coi nostri corpi
splendidi in nidi
di eternità!
Poi siamo morti.
E a che ci avrebbero
brillato i pugni
e i neri chiodi,
se il Tuo perdono
non ci guardava
da un giorno eterno
di compassione?


Pier Paolo Pasolini, L'Usignolo della Chiesa Cattolica (1954).

Recentemente, descobri o trabalho do holandês Gerard Reve, como escrevi aqui, que se mostra um parente espiritual incrivelmente próximo de Pier Paolo Pasolini e Hilda Hilst.

Canção da bebida

Agora é a hora de deixar de beber.
Parar de uma vez, é preciso.
Foi com certeza o bastante.
Consola-me então, ó Espírito,
nesta noite de 20 para 21 de julho de 1965,
em desespero profundo, e cercado de trevas.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:


Drinklied
Gerard Reve


Nu moet ik van de drank af.
Het moet maar eens uit zjin.
Het is wel genoeg geweest.
Troost mij toch, o Geest,
in de nacht van 20 op 21 juli 1965,
in diepe ontzetting, en omringd door Duisternis.



Contra a "Proposição da Aposta" de Blaise Pascal, minha religiosidade sempre direcionou-se muitíssimo mais à "Proposição do Salto no Escuro" de Søren Kierkegaard e ao cristianismo atormentado de Miguel de Unamuno, como descrito no belíssimo e perturbador Del Sentimiento Trágico de la Vida (1933), tal qual se vê já em sua página de abertura, aqui em tradução de Eduardo Brandão (vê-se que Unamuno escrevia antes da intervenção de mulheres como Caroline Bynum, mas saltemos por ora sobre a invisibilidade do gênero para Unamuno e percebamos que estamos todos contidos neste "homem de carne e osso" que ele celebra):

"Homo sum; nihil humani a me alienum puto, disse o cômico latino. Eu diria melhor: Nullum hominem a me alienum puto. Sou homem; a nenhum outro homem considero estranho. Porque o adjetivo humanus me é tão suspeito quanto o substantivo abstrato humanitas, humanidade. Nem o humano, nem a humanidade, nem o adjetivo simples, nem o adjetivo substantivado, mas sim o substantivo concreto: o homem. O homem de carne e osso, aquele que nasce, sofre e morre – sobretudo morre –, que come, bebe, joga, dorme, pensa e ama, o homem que se vê e a quem se ouve, o irmão, o verdadeiro irmão." --- Miguel de Unamuno, Do Sentimento Trágico da Vida, tradução de Eduardo Brandão (São Paulo: Martins Fontes, 1996).


Este tormento encontro em outros mestres pessoais, como a austríaca Christine Lavant, de quem traduzi um único poema, mas gostaria em breve de poder oferecer mais.

Eu quero partir com os loucos o pão,
migalhas diárias do desespero grande,
também o sino em meio ao peito,
ali onde o pombo aninha-se
e tem seu refúgio minúsculo
no ermo sobre as águas.
Residi por anos como pedra
no chão das coisas.
Eu ouvi, porém, o sino
sussurrar teu segredo
nos peixes com asas.
Hei-de aprender a voar e nadar,
deixar o pedregoso sob as pedras,
aconchegar em madrepérola
a melancolia, elevar aflição, ira.
Minhas asas são mais velhas
que tua paciência, minhas asas
vão à frente da coragem
que tomou sobre os ombros o louco.
Eu quero partir com os loucos o pão,
ali no ermo assustador do pombo,
onde o sino triparte o maior desespero
ao som tríplice do teu nome.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:



Ich will das Brot mit den Irren teilen, / täglich ein Stück von dem grossen Entsetzen, / auch die Glocke im Herzen, / dort, wo die Taube nistet / und ihre winzige Zuflucht hat / in der Wildnis über den Wassern. / Lange habe ich als Stein gehaust / am Grunde der Dinge. / Aber ich habe die Glocke gehört / leise von deinem Geheimnis reden / in den fliegenden Fischen. / Ich werde fliegen und schwimmen lernen / und das Steinerne unter den Steinen lassen, / die Schwermut betten in Perlmutter, / doch den Zorn und das Elend erheben. / Meine Flügel sind älter als deine Geduld, meine Flügel flogen dem Mut voraus, / der das Irren auf sich nahm. / Ich will das Brot mit den Irren teilen / dort in der furchtbaren Wildnis der Taube, / wo die Glocke das grosse Entsetzen drittelt / zum dreifachen Laut deines Namens. - Christine Lavant, Gedichte (Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1998).


A quem busca potência poético-mística, poucas obras comparam-se à poesia de Gerard Manley Hopkins e à crítica de Walter Benjamin.


Quatro poemas iniciais de "The Wreck of the Deutschland", publicado pela primeira vez em 1918, escrito em 1875:

1

THOU mastering me
God! giver of breath and bread;
World’s strand, sway of the sea;
Lord of living and dead;
Thou hast bound bones and veins in me, fastened me flesh,
And after it almost unmade, what with dread,
Thy doing: and dost thou touch me afresh?
Over again I feel thy finger and find thee.


2

I did say yes
O at lightning and lashed rod;
Thou heardst me truer than tongue confess
Thy terror, O Christ, O God;
Thou knowest the walls, altar and hour and night:
The swoon of a heart that the sweep and the hurl of thee trod
Hard down with a horror of height:
And the midriff astrain with leaning of, laced with fire of stress.


3

The frown of his face
Before me, the hurtle of hell
Behind, where, where was a, where was a place?
I whirled out wings that spell
And fled with a fling of the heart to the heart of the Host.
My heart, but you were dovewinged, I can tell,
Carrier-witted, I am bold to boast,
To flash from the flame to the flame then, tower from the grace to the grace.


4

I am soft sift
In an hourglass—at the wall
Fast, but mined with a motion, a drift,
And it crowds and it combs to the fall;
I steady as a water in a well, to a poise, to a pane,
But roped with, always, all the way down from the tall
Fells or flanks of the voel, a vein
Of the gospel proffer, a pressure, a principle, Christ’s gift.


Gerard Manley Hopkins, "The Wreck of the Deutschland" (1875, publicado 1918)

§


"Em toda era a luta tem que renovar-se para arrancar a tradição de um conformismo que tenta sobrepujá-la. O Messias vem não apenas como o Redentor, mas também como o Vencedor sobre o Anticristo. O dom de atiçar através do passado a chama da esperança pertence apenas ao historiógrafo perfeitamente convencido que diante do inimigo, e no caso deste vencer, nem sequer os mortos estarão em segurança. E este inimigo não tem cessado de vencer»." Walter Benjamin, Teses sobre a Filosofia da História, 1940.



Antes de encerrar com aquele que me parece o mais atormentado poema místico da poesia brasileira, "Mula de Deus", de Hilda Hilst, preparo vocês para o soco da poeta de Jaú com duas canções tão belas, a "Hallelujah" de Leonard Cohen na voz de Jeff Buckley, e "Oh Holy Night" de Josh T. Pearson, do álbum Last Of The Country Gentlemen (2011). Pearson é o ex-vocalista da banda Lift To Experience, que no primeiro ano deste século lançou seu único álbum, o fortemente místico-atormentado Texas-Jerusalem Crossroads (2001).



FELIZ NATAL A TODOS (E SALVE-SE QUEM PUDER).



§



§


Mula de Deus

I

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.

Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.

II

Há nojosos olhares sobre mim.
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.

Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.

Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.

III

Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?

Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?

E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores

Alegrou-se de mim o coração.

IV

Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).

Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.

Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos

Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.

V

Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.

Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula

Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.

VI

Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.

Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...

Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.

VII

Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.

Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.

VIII

Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada

Essa sou eu.

Poeta e mula

(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura).


(Hilda Hilst, Estar sendo. Ter sido. São Paulo: Nankin, 1997)



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sábado, 24 de dezembro de 2011

Poeminha circunstancial por ocasião natalina, com canção de fundo

ou como diria meu amigo, o poeta mexicano Luis Felipe Fabre,
"poemito con giro metafísico y un poco de chantaje emocional".


O poeta retorna ao lar materno para o Natal


O som ainda é de pressão na cozinha,
uma válvula rotatória soltando vapor
e o cheiro de feijão e alho, a xícara
de café com mais açúcar que o pó
do café moído, moído chego eu à cidade
natal e escondo-me no quarto de hóspedes
para fumar, refugiado ali dos hormônios
de atalaia ensandecidos da maternidade
que jamais compreenderiam o direito
inalienável do auto-entorpecimento,
"Que ano, meu Deus!", disseram as moscas
e começaram a nadar no café; mas com sol
incidindo no corpo dos nadadores dípteros
lembrei-me da ressurreição de Janeiro
e escolhi esquecer por ora o apocalipse.



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Estrada do Sol
Tom Jobim

É de manhã
Vem o sol
Mas os pingos da chuva
Que ontem caiu
Ainda estão a brilhar
Ainda estão da dançar
Ao vento alegre
Que me traz esta canção

Quero que você
Me dê a mão
Vamos sair por aí
Sem pensar
No que foi que sonhei
Que chorei, que sofri
Pois a nova manhã
Já me fez esquecer
Me dê a mão
Vamos sair pra ver o sol

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