sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Jovens poetas europeus: Antoine Wauters


Antoine Wauters

No ano passado, a editora de Francisco dos Santos, a Lumme Editor, lançou o volume De pé sobre a língua / Debout sur la langue (São Paulo: Lumme Editor, 2011), com a tradução integral de Juliana Bratfisch para o volume de poemas de meu amigo belga, o poeta Antoine Wauters (Lieja, 1981), para o qual escrevi uma pequena introdução. Trata-se do volume pelo qual Wauters recebeu o prestigioso prêmio da Academia Real de Língua e de Literatura Francesas da Bélgica. Conheci Antoine através de outro poeta e amigo belga, Damien Spleeters (Bruxelas, 1986), e após nos correspondermos por um tempo, trocando informações e trabalhos, conheci-o pessoalmente em Lieja, Bélgica, quando participei ali da Bienal Internacional de Poesia, realizada desde a década de 50 na Universidade de Lieja. Gosto muito de Antoine e tenho muito respeito por seu trabalho. Preparei uma postagem para a Modo de Usar & Co. com alguns trechos (escolhidos por Antoine para sua leitura em vídeo) do volume traduzido, assim como a tradução inédita de Juliana Bratfisch para um trecho de Césarine de nuit, um romance em versos que está prestes a ser lançado na França, talvez meu trabalho favorito dentre os volumes de poemas de Antoine. A postagem tem dois vídeos: um preparado em Beirute, Líbano, quando Wauters leu na cidade; e outro preparado pelo próprio poeta, filmado por sua irmã Lorraine Wauters, especialmente para a Hilda Magazine e a Modo de Usar & Co.. Informações sobre o lançamento oficial para o volume de Antoine Wauters em SP, ao fim desta postagem. Este volume lançado pela Lumme Editor é o primeiro de uma coleção de poetas estrangeiros jovens que estou organizando para a editora. Se você está traduzindo um bom poeta contemporâneo estrangeiro (de preferência jovem) para o português, entre em contato comigo.


POEMAS DE ANTOINE WAUTERS


Antoine Wauters lê excertos de seu livro Césarine de nuit, em Beirute, Líbano. (Nota: este vídeo traz uma versão mais antiga do poema, e não corresponde exatamente aos excertos e à tradução abaixo. Pela beleza do vídeo e da leitura de meu caríssimo Antoine Wauters, mostro-o aqui).


Césarine de noite (excertos)

E ela invade os corredores, os
quartos vazios, o grande refeitório quase
tão vazio exceto pela mesa posta, vestida
de linho ou tricô, e no alto das
coxas um pequeno shorts curto do tamanho
de um lenço, uma sainha com cem dobras. Todo mundo
dormiu, ela diz, ou todo mundo morreu,
e agora seu olhar vai de um pedaço de muro
à trinca da porta, da trinca da porta à
janela do ateliê, ao quadriculado de estrelas onde
fica.

Césarine das bacias, das máquinas, dos
trabalhos de costura em que ela se liberta
em rumores. Pois é assim. Fazem-na
pregar cada dia pequenas meninas e
meninos de algodão, bem leves pompons com
zíper e velcros. À noite passam
comerciais, essas crianças de laicra bem costuradas
e ligadas em magros sacos plásticos que
jogamos em seguida na água. Na cidade. Nas
grandes cidades aqui e ali.
Não é dito onde.

Prendemo-na aos anéis, ao metal de aço.
Suas mãos, dedos, fixados no alfinete feito
para isso, a um ponto menos alto que
a janela e sua trinca. Temos o cordão, a
corrente e cartuchos de batom nos
quais lavamos dentes, gritos e raiva.
Vamos pra ela com calços, nossas pequenas
vigas delicadas e vontade de consolá-la.
Ouví-la. Vê-la sorrir.

Desangulamo-na com a noite que cai, com
a lua que vem tomá-la e levá-la pra
cidade, nas galerias onde vejam: gentilmente
caminhando com cores vivas, com
frascos, dez vidros de perfume de laranja e
leite, com urina de urso negro talvez,
por que não, com anéis, cinturões
cobreados ou couro branco que captam o olho.
Mas nenhum lábio branco, nenhum sorriso de
cerva ou de jovem feliz assim caminhava.

Braceletes, colares de pérola com areia
das ilhas longínquas que é preciso imaginar terríveis,
sujas, bem menos práticas que nossa bela
grande cidade com seu rio de alumínio e
seus restos dourados, ornando Césarine. Docemente,
a cobrimos de matérias do tempo. E qual
alegria de a fazer usar, espartilhar, revestir com
o mais antigo e mais novo tecido: linho, cetim e
claro elasteno, que torna leves suas
lingeries e suas camisas de verão.

Docemente, pois é assim, sempre, nela
encucamos o necessário, a ordem que é preciso
à ordem e em seu corpo e seu espírito, e
como se mover, como estar e
se comportar nesse vasto mundo.
Depois vem a noite. Depois, a noite
que ela quer ainda longamente, potentemente
sentir nela como um lugar salvo ou
inviolado, oferecemos um bafo de ar, um esquina
no parque onde respirar.

(tradução de Juliana Bratfisch)


:

Césarine de nuit
Antoine Wauters

Et elle s’engouffre dans les couloirs, dans les
chambres vides, dans le grand réfectoire à peu
près aussi vide sauf le couvert dressé, vêtue
d’un linge ou d’un tricot, et sur le haut des
cuisses un petit short court de la taille
d’un mouchoir, une jupette aux cents plis.
Tout le
monde dort, dit-elle, ou tout le monde est mort,
et maintenant son regard va d’un pan de mur
au verrou de la porte, du verrou de la porte à la
fenêtre de l’atelier, au carrelage étoilé où elle
gît.

Césarine des bassins, des machines, des
travaux de couture dont elle s’acquitte tout en
bruissements. Car c’est ainsi. On lui fait
accoucher chaque jour de petites filles et petits
garçons de coton, de bien légères pelotes à
tirettes et velcros. Le soir on lui réclame ses
marchandises, ces enfants de lycra bien serrés
et liés dans de minces sacs plastique qu’on
expédie ensuite par l’eau. À la ville. Aux
grandes villes d’ici et là-bas.
On ne vous dit pas où.

On l’attache aux anneaux, au métal d’aciérie.
Ses mains, dans le dos, fixées au crochet prévu
à cet effet, à un point à peine moins élevé que
la fenêtre et son verrou. On a le cordeau, la
chaînette, et des cartouches de rouge à lèvres
dont on lui lave les dents, les cris et la colère.
On vient à elle avec des lattes, nos petites
verges délicates et l’envie de la consoler.
L’entendre. La voir sourire.

On la dessangle avec le soir qui tombe, avec la
lune qui vient la prendre et on l’emmène en
ville, dans les galeries où la voici : gentiment
promenée avec des couleurs vives, des
flasques, dix flacons de parfum à l’orange et
au lait, à l’urine d’ours noir peut-être,
pourquoi pas, avec des boucles, des ceinturons
cuivrés ou en skaï blanc qui captent l’œil.
Mais aucune lèvre blanche, aucun sourire de
biche ou de jeune fille heureuse ainsi promenée.

De bracelets, de colliers de perles avec le sable
d’îles lointaines qu’il faut imaginer terribles,
sales, bien moins pratiques que notre belle
grande ville avec son fleuve d’aluminium et
ses rebuts dorés, on orne Césarine. Doucement,
on la couvre des matières du temps. Et quelle
joie de lui faire porter, la corseter, la revêtir du
plus ancien au plus nouveau tissu : lin, satin et
bien sûr élasthanne, qui rend légers ses sous-
vêtements et souples ses chemises d’été.

Doucement, car c’est ainsi, toujours, on lui
inculque le nécessaire, l’ordre qu’il faut à
l’ordre et à son corps et son esprit, et
comment se bien mouvoir elle, comment se
bien tenir et comporter dans ce vaste monde.
Après quoi est la nuit. Après quoi, à la nuit
qu’elle veut encore longuement, puissamment
ressentir en elle comme un lieu sauf ou
inviolé, on lui offre un brin d’air, un coin de
parc où respirer.



§




Antoine Wauters lê fragmentos do seu livro Debout sur la langue, em Lieja, Bélgica.
Especial para a Modo de Usar & Co. e a Hilda Magazine.


Poemas do volume De pé sobre a língua / Debout sur la langue
(São Paulo: Lumme Editor, 2011). Traduções de Juliana Bratfisch.

(nota: infelizmente, não é possível reproduzir aqui os "blocos de texto" com os quais Wauters geralmente diagrama seus poemas. Respeitamos as quebras de linha no livro original.)

Tudo parte dum jato de sangue, um
apelo rubro ao corpo. De um precisar
passar, ser passado, atravessado sem
demora. Um precisar escutar mais
que falar. Tudo parte de um grito
raio vindo de baixo, balbucio ou diabo,
denso às entranhas.

Tout part d’un coup de sang, d’un
appel rouge au corps. D’un besoin
de passer, d’être passé, traversé sur-le-
champ. D’un besoin d’entendre plus
que de parler. Tout part d’un cri
éclair venu d’en bas, babil ou diable,
dense aux entrailles.

§

Tudo parte duma batida surda,
regular como um sopro de noite,
primitiva como a terra. Dum canto
precedente a linguagem e sobre o qual
pousam, repousam restos: nossas
línguas cem vezes demolidas.

Tout part d’un battement sourd,
régulier comme un souffle de nuit,
primitif comme la terre. D’un chant
précédent le langage et sur lequel
pose, repose tout l’éboulis : nos
langues cent fois moulues.


§

Falar é uma passagem, um
passar, um ato de descompressão
entre a orelha da terra e a orelha do
baixo ventre, um pó procurando
filtrar, infiltrar o vivo, a fenda azul
do escafandro, corpo ou língua,
nossa noite.

Parler n’est qu’un passage, un
passer, un sas de décompression
entre l’oreille de terre et l’oreille de
bas-ventre, une boue cherchant à
filtrer, infiltrer le vivant, l’ajour bleu
du scaphandre, corps ou langue,
notre nuit.


§

Pés no chão, cabeça entre as mãos no
solo, firmando um mundo cravado cujo
denso e redondo apelo, denso e redondo
canto, eu me aterro. O corpo é
uma orelha, um rochedo martelando.
Nos fala e nos fende, nos
desfaz e nos mina. Falado, fendido,
é também rompido, desfeito de um
apelo. Escuta.

Pieds à plat, tête en mains dans le
sol, foulant un monde enfoui dont
dense et rond l’appel, dense et rond
le chanté, je me terre. Le corps est
une oreille, un rocher martelant. Il
nous parle et nous fend, nous
déchire et nous mine. Parlé, fendu,
il est aussi rompu, déchiré d’un
appel. Il entend.


§

A língua como uma cena onde
desperta uma voz. Louca. Selvagem.
Que é a voz primeira, palavra,
antes a fala, muda ou batendo
longa. Um ruído. Há ruído. Algum
infinitamente mais belo que nossas
musicas sem elos.

La langue comme une scène où
déboule une voix. Folle. Sauvage.
Qui est la voix première, parole
d’avant le mot, muette ou battant
longue. Un bruit. Du bruit. Un
infiniment plus beau que nos
musiques sans os.



§

Isso que eu digo vem tanto da terra
quanto do mar. Do ventre da terra e
do mar do ventre. Dia e noite
sem repouso, palavras são postas sobre
a têmpora, azul, frágil, da crosta
terrestre. Assim que digo escrevo,
talvez só seja preciso escutar
que me inclino, estico a mão, coleto
rochas e rochedos sonoros.

Ce que je dis vient de la terre autant
que de la mer. Du ventre de terre et
de la mer du ventre. Jour et nuit
sans repos, les mots sont posés sur
la tempe, bleue, fragile, de la croûte
terrestre. Lorsque je dis j'écris, peut-
être ne faut-il rien entendre d'autre
que je me penche, tends la main, ramasse
rocs et rochers sonores.


§


O corpo é mergulhado na greda
que, bem no fundo, é fogo,
água corrente rubra, soberana. É
nessa aliança emergida ao
ventre, que juntas, mão na
mão, fundam o espaço e o tempo.
Aqui o corpo volta ser a orelha do
mundo e, batendo surdo o sangue, dá
luz às vozes.

Le corps est plongé dans la glaise
qui, tout au fond, est du feu, de
l'eau filant rouge, souverraine. C'est
là, dans cette alliance montée au
ventre, qu'ensemble, main dans la
main, fondent l'espace et le temps.
Là que le corps redevient l'oreille du
monde et, battant sourd le sang, en
accouche les voix.


§


A língua, sigo em todos os sentidos,
pressiono de minhas peles até
parti-la limpa, absorvê-la em seu centro.
Depois me endireito, de pé, pés
aterrados firmemente, como uma
orelha fixa no buraco do fundo, uma
palma aberta sobre o mundo
interior que me precede e mesmo,
me preexiste.

La langue, je la cours en tous sens,
la pétris de mes peaux jusqu’à la
briser net, l’avaler en son centre.
Puis je m’y tiens droit, debout, pieds
terrés fermement, comme une
oreille vissée au trou du fond, une
paume ouverte sur un monde
intérieur qui me précède et même,
me préexiste.



§

Passo um verbo. Passo uma ação mas
não um lugar, espaço litúrgico. Escrever.
Desviar em direção a um templo, um
santuário onde em paz com o céu, a
terra, se afagam quem sou eu e quem
não sou mais. Onde o corpo se recompõe,
livre, nu, animal e jogador, ventre
membrana aos sons.

Pas un verbe. Pas une action mais
un lieu, un espace liturgique. Écrire.
Dériver vers un temple, un
sanctuaire où en paix avec le ciel, la
terre, se frôlent qui je suis et qui je
ne suis plus. Où le corps se rejoint,
libre, nu, animal et joueur, ventre
membrane à sons.



§

Aqui onde creio dizer, não digo nada
ainda. E aqui onde creio falar, são
as palavras que me falam,
me desventram e muito doces, muito
docemente me sopram, como se
dissessem de alguém que nos
toma alguma coisa. Soprado, esvaziado,
de medula e sal, outras vozes me
passam, dançam em roda, me
afagam.

Là où je crois dire, je ne dis rien
encore. Et là où je crois parler, ce
sont les mots qui me parlent,
m’éventrent et très doux, très
doucement me soufflent, au sens où
l’on dit de quelqu’un qu’il nous
prend quelque chose. Soufflé, vidé
de moelle et sel, d’autres voix me
passent, dansent en rond, me
faufilent.



§


De pé sobre a língua e subir.
Subir uma fera de espuma,
acariciá-la com fibras, baquetas e
caprichos, o todo tenso, arqueado três
vezes para romper a amarra, coleira
ligando a todos, às palavras muito
banais. Ocas e sem sopro.
Exangues.

Debout sur la langue et monter.
Monter une bête d’écume, la
caresser de fibres, de mailloches et
tocades, le tout tendu, cambré trois
fois pour rompre l’attache, la laisse
liant à tous, aux paroles très
bouchées. Creuses et sans souffle.
Exsangues.



§

Pequena introdução ao trabalho de Antoine Wauters
por Ricardo Domeneck


Antoine Wauters nasceu em 1981, em Lieja (Bélgica), uma das cidades mais importantes da Valônia (Liège em francês, Luik em holandês, Lüttich em alemão e Lîdje em valão, quatro das línguas faladas no território). O poeta teve uma estreia tripla em 2008, lançando ao longo do ano os pequenos volumes Os (Lieja: Tétras-lyre, 2008), La Bouche en quatre (Bruxelas: Le Coudrier, 2008) e Debout sur la langue (Bruxelas: Maelström, 2008). Foi por este último, traduzido na íntegra por Juliana Bratfisch e lançado em edição bilíngue no Brasil no ano passado pela editora de Francisco dos Santos - De pé sobre a língua / Debout sur la langue (São Paulo: Lumme Editor, 2011) – , que Antoine Wauters recebeu o prêmio da Academia Real de Língua e de Literatura Francesas da Bélgica, marcando-o como um dos nomes a seguir na jovem poesia francófona. Desde então, seu trabalho foi publicado na França em antologias como La nouvelle poésie française de Belgique (Châtelineau: Le Taillis-pré, 2010) e Trois poètes belges (Dijon: Editions du Murmure, 2010), onde também foi lançado seu quarto livro, Ali si on veut (Cheyne Editeur, 2010). Em fevereiro de 2012, a mesma Cheyne Editeur lançará seu livro Césarine de nuit, enquanto o poeta segue trabalhando em seus romances Celle qui dort e
Nos mères,.

Antoine Wauters cresceu na campagne, numa pequena vila valona das Ardenas. Em 1999, iniciou seus estudos de filosofia em Bruxelas, nos quais declarou ter descoberto e recebido a influência duradoura e transformadora de Nietzsche, Foucault, Kierkegaard, Lévinas, e de autores como o austríaco Thomas Bernhard. Especializou-se e escreveu sua tese no campo da Bioética, estudando e discutindo os perigos do movimento tecnófilo conhecido como “Trans-humanismo”, dos Estados Unidos. Entre 2004 e 2005, trabalhou como ativista em campanhas médicas contra a epidemia da AIDS em Burquina Fasso e ensinou literatura e teologia em um colégio de Bruxelas, antes de retornar à sua cidade natal em 2006, onde segue hoje ensinando literatura e teologia. Em 2007, conheceu o importante poeta belga Jacques Izoard (1936 - 2008), também natural de Lieja, que se tornaria um mestre e incentivador, encorajando Antoine Wauters à publicação tripla do ano seguinte que já mencionamos. O poeta já se apresentou em festivais de poesia francófona da Bélgica, França, Suíça e Luxemburgo, e é também dramaturgo e romancista. Atualmente, colabora como roteirista com o jovem cineasta Antoine Cuypers.

Na Bélgica, seu trabalho já foi comparado ao de outros autores nascidos em Lieja, como o do próprio Jacques Izoard por sua pesquisa acentuadamente sintática, ou o de Eugène Savitzkaya (n. 1955) por sua escrita marcada pela obsessão com as relações entre som e sentido. A um leitor brasileiro, creio que o texto meditativo de Wauters neste pequeno volume, que faz seu percalço entre a linguagem como abstração e a língua como concreção, tendo o corpo humano por filtro, poderá lembrar certas páginas de Clarice Lispector em um texto como Um sopro de vida: pulsações (1978). Entre os poetas brasileiros contemporâneos, poder-se-ia traçar algumas semelhanças entre sua poética e o que já chamei de lírica analítica em poetas como o paulista Marcos Siscar (n. 1964) e a carioca Marília Garcia (n. 1979). Não são comparações visando qualquer efetivação de uma uniformização ou hierarquia, mas uma tentativa de compreender as relações subterrâneas entre poesias de línguas distintas através, talvez, de mestres comuns. Leitores familiarizados com certa escrita francófona da década de 70 e 80, como a de Emmanuel Hocquard ou Christophe Tarkos, poderão pensar talvez em túneis subterrâneos conectando as poesias contemporâneas da Bélgica e do Brasil.

Uma das primeiras questões que o trabalho de Antoine Wauters poderá levantar é a de gênero. Em geral, identificamos primeiro a textualidade de cada autor dentro de um gênero específico e então passamos a julgá-la a partir das suas convenções. Em blocos de signos, seus fragmentos poderiam ser identificados tanto como prosa quanto como poesia. A questão interessa apenas na medida em que influencia a recepção do trabalho. Linguagem que se volta sobre si mesma, com a chamada função poética de Jakobson presente, o texto de Antoine Wauters funciona na fronteira entre transparência e não-transparência do signo. Aqui, falaríamos não tanto de sua materialidade quanto de sua opacidade. A algumas pessoas no Brasil, com a influente pesquisa iniciada pelo Grupo Noigandres na década de 50 com foco na materialidade do signo, sua concretude, a escrita de Antoine Wauters poderá parecer, em certos aspectos, abstrata. O que me parece interessante observar é justamente o delicado e quase precário equilíbro entre abstração e concretude que seu trabalho gera. Língua torna-se tanto o sistema de signos que forma nossa linguagem como o órgão carnal que usamos para movimentá-la. Ao verbivocovisual, muitos poetas contemporâneos unem uma preocupação com o uso da palavra na língua como parte integrante do seu significado, tal qual preconizou Wittgenstein em uma das proposições das Investigações filosóficas (1953). Assim, o poeta joga com semântica, sintaxe e contexto, o que poderia ligar Antoine Wauters, no âmbito brasileiro, talvez à pesquisa experimental de outros poetas da década de 50, como Ferreira Gullar e Mário Chamie. Sua escrita opera um borrar de certas dualidades, chamando nossa atenção para o debate sobre o objetivismo celebrado por certa poesia contemporânea, unido a aquilo que a crítica norte-americana Marjorie Perloff chamou de uma poética da indeterminação. Sua escrita é uma meditação com o corpo, através da língua (sistema de comunicação comum a uma comunidade linguística) e da língua (órgão móvel da cavidade bucal), em nome da língua e da língua.


NOTA DO AUTOR: O texto acima foi publicado, com pequenas alterações, como introdução ao volume De pé sobre a língua / Debout sur la langue (São Paulo: Lumme Editor, 2011). Em trabalhos mais recentes, Antoine Wauters tem borrado a fronteira entre gêneros estanques, praticando uma textualidade com forte presença da narratividade, como podemos ver no excerto de seu próximo livro, Césarine de nuit, no início desta postagem: "Et elle s’engouffre dans les couloirs, dans les / chambres vides, dans le grand réfectoire à peu / près aussi vide sauf le couvert dressé, vêtue / d’un linge ou d’un tricot, et sur le haut des / cuisses un petit short court de la taille / d’un mouchoir, une jupette aux cents plis. Tout le monde dort, dit-elle, ou tout le monde est mort (...)"


§



LANÇAMENTO

Lumme Editor e Club Noir, com apoio da Modo de Usar & Co., convidam para o lançamento de De pé sobre a língua / Debout sur la langue (São Paulo: Lumme Editor, 2011), do poeta belga Antoine Wauters (Lieja, 1981), com tradução de Juliana Bratfisch, e para uma noite de leituras em que poetas contemporâneos brasileiros leem suas traduções para textos de poetas contemporâneos estrangeiros.

Juliana Bratfisch lê Antoine Wauters (Bélgica).

Ricardo Domeneck lê Ezequiel Zaidenwerg (Argentina), Robin Myers (Estados Unidos) e Monika Rinck (Alemanha).

Dirceu Villa lê Anne Carson (Canadá) e Mairéad Byrne (Irlanda).

Fabiano Calixto lê Heriberto Yépez (México).

Mario Sagayama lê Christophe Tarkos (França).

No dia 17 de janeiro de 2012, terça-feira, a partir das 22:00.

Club Noir
Rua Augusta, 331
Consolação
São Paulo SP





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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Lançamento em Belo Horizonte: novo livro de Eduardo Jorge e terceiro número da "Modo de Usar & Co." - hoje à noite, 11 de janeiro de 2012


Ocorre hoje em Belo Horizonte o lançamento de PÁ, PUM. (Belo Horizonte: Tipografia do Zé, 2012), de Eduardo Jorge & Lucila Vilela, mais um livro da Coleção Elixir, dirigida pelo poeta belorizontino Ricardo Aleixo em colaboração com o designer gráfico Flávio Vignoli, da Tipografia do Zé.

A Coleção Elixir já lançou trabalhos de nomes como Gláucia Machado, Guilherme Mansur e Paulo Bruscky, sempre pequenas tiragens artesanais de livros inéditos de poetas contemporâneos. No lançamento de PÁ, PUM. será apresentada a performance homônima, a cargo dos autores e de Ricardo Aleixo.

O lançamento é hoje, 11 de janeiro de 2012, em Belo Horizonte na Avenida Augusto de Lima, 233 - Loja 64.

Por generosidade de Eduardo Jorge e Ricardo Aleixo, ocorrerá no evento também um pequeno lançamento belorizontino do terceiro número impresso da Modo de Usar & Co., que traz, como já divulgamos, textos dos seguintes poetas:

Angélica Freitas
Cecília Pavón
Charles Pennequin
Charles Reznikoff
Christian Prigent
Dirceu Villa
Emmanuel Hocquard
Érica Zíngano
Érico Nogueira
Fabiana Faleiros
Fabiano Calixto
Fabrício Corsaletti
Gertrude Stein
Helmut Heissenbüttel
Inês Cardoso
John Ashbery
Júlia Hansen
Kenneth Koch
Leandro Rafael Perez
Leonardo Gandolfi
Liv Nicolsky
Marcelo Sahea
Marco Catalão
Marília Garcia
Mario Sagayama
Nathalie Quintane
Paula Glenadel
Renan Nuernberger
Reuben da Cunha Rocha
Ricardo Domeneck
Roberto Bolaño
Rodolfo Caesar
Rodrigo Álvarez
Rodrigo Damasceno
Rosmarie Waldrop
Rui Camargo
Tiago Pinheiro
Vicente Huidobro
Victor Heringer
Violeta Parra
Walter Gam



Avisamos que são pouquíssimos exemplares. Chegue cedo e garanta seu exemplar, da Modo 3 e do livro de Eduardo Jorge e Lucila Vilela.

abraço,

Os editores.


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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Blawan!

Jamie Roberts - mais conhecido como Blawan


Uma única palavra para vocês, e tal palavra é um moniker:

BLAWAN






domingo, 8 de janeiro de 2012

A tarefa agridoce de traduzir um poema que nos lembra o que queremos esquecer: "Conflations", de Robin Myers

Meu primeiro contato com Robin Myers deu-se em 2010, quando publiquei na Hilda Magazine suas traduções para o inglês de "Doxa" e "Lo que el amor les hace a los poetas", de Ezequiel Zaidenwerg. Mal sabia que a jovem poeta norte-americana estava vivendo há alguns meses na Cidade do México, e tive o prazer de conhecê-la por ocasião de minha passagem pela cidade, onde reencontrei o próprio Zaidenwerg. Creio que foi na minha terceira noite na capital mexicana que me vi, em casa de Paula Abramo, cercado de um grupo de excelentes poetas, quando começamos espontaneamente a ler nossos poemas em uma noite regada a mescal, com os próprios donos da casa – Paula Abramo e Óscar de Pablo –, além de Zaidenwerg, Luis Felipe Fabre, Daniel Saldaña París, Alejandro Albarrán e Hernán Bravo Varela. E a própria Robin Myers, que leu nesta noite seu poema "Conflations". Alguns dias depois, pude registrar uma leitura sua deste poema em um vídeo.

Passei os últimos dias traduzindo o poema para o português, tarefa que me resultou agridoce, mas bonita. Talvez algo como, usando palavras de Robin, uma momentary grace. Abaixo, vocês podem ler minha postagem a respeito, a partir de hoje na Modo de Usar & Co.



Robin Myers



Robin Myers é uma poeta norte-americana, nascida em Nova Iorque em 1987. Seus poemas, traduzidos para o castelhano, têm sido publicados em revistas como Letras Libres (México), Laberinto (suplemento cultural do jornal mexicano El Milenio), Metropolis (México) e Ventizca (Argentina). Robin Myers vive na Cidade do México, onde trabalha como tradutora. Também foi ali que gravei o vídeo abaixo, no qual vocaliza seu poema inédito "Conflations", especialmente para a Modo de Usar & Co.

Robin Myers faz a meu ver/ouvir um uso eficiente da anáfora, como vocês poderão notar no vídeo e no texto do poema a seguir, com um trabalho sutil mas preciso com aspectos sonoro-textuais como a aliteração e a enumeração, o que doa a seus textos grande força expressiva – especialmente quando vocalizados pela autora, com uma espécie de delicadeza firme. Não se trata, porém, da chamada "enumeração caótica" de certos modernistas, mas de um pensamento lírico associativo que parece lançar mão, neste poema, de uma gradação ofegante para os pequenos desastres de uma separação. Seu uso da rima parece querer chamar nossa atenção para esta gradação, com certo sarcasmo pungente, em algumas passagens, como ao associar por som as palavras "dust/trust". É texto que preza pela tesura, sem perder de vista a concreção da linguagem, claramente privilegiando no entanto o metonímico sobre o metafórico.

Tudo isso leva um tradutor sempre a difíceis escolhas. Neste caso específico do jogo entre "dust/trust", optei por "pó" e "dó", em detrimento das tríssilabas "poeira" e "certeza", tentando salvar o ritmo de emergência que dá tanta força a este poema lírico. Quanto ao tom invocativo do poema, após traduzir grande parte do texto na segunda pessoa do singular, percebi que em certas passagens isso doava ao texto em português um tom que um americano chamaria de contrived, ou o que nós chamaríamos talvez de forçado, ausente no original. Optei por recorrer ao uso brasileiro da terceira pessoa do singular, o que talvez impeça, por sua vez, a fruição da tradução por um leitor português, mas salva para um leitor brasileiro o caráter de intimidade desnuda que dá tanta beleza e proximidade ao texto. A expressão "I find myself", tão central em um poema de deslocamentos como este, é usada por Robin Myers com acepções que pediriam traduções distintas a cada caso, mas o que levaria à perda de seu uso da anáfora. Decidi, escolha passível de equívoco como em toda tradução, usar "descubro-me", que parecia ser a mais próxima do uso geral que a poeta faz da expressão.

Robin Myers está ligada a organizações não-governamentais trabalhando na Palestina, e o poema tanto parece invocar um homem como uma terra. Certas referências têm poder simbólico, ecoando em nossa memória certa poesia mística, com o aparecimento de palavras como "bread/pão", "pomegranades/romãs", "almonds/amêndoas", mas são extremamemente concretas e doam ao canto um local. Se este poema parece distanciar Robin Myers de poetas americanos celebrados no Brasil, como Creeley e os poetas ligados à revista L=A=N=G=U=A=G=E (com sua desconfiança do lírico), o poema é de um lirismo cristalino que percorre tradições e línguas na modernidade e no pós-guerra, de James Merrill a Mahmoud Darwish. Para um leitor brasileiro, talvez se possa sentir no texto uma sensibilidade parecida à de um poema como "Cântico dos cânticos para flauta e violão" (1945), de Oswald de Andrade.

Um desafio veio ao fim do poema, com o verso "The shudder of your coming", de conotação fortemente sexual pelo uso americano do verbo "to come", usado como nós brasileiros usamos o "gozar". No entanto, o texto é muito sutil em sua celebração lírica, mesmo que enlutada pela perda, de um outro que tanto pode ser um ser humano como um país ou região, uma das muitas conflations do título, os mal-entendidos de toda relação, amorosa e linguística. Em discussão com a poeta, que me sugeriu buscar a conotação através de "breathing" em vez de "coming", cheguei à solução "O tremor do seu ofego", tentando ainda manter a assonância entre "shudder" e "coming". O próprio ato da tradução torna-se, talvez, uma conflation a mais no texto em português.

Meu uso do hipérbato nos versos finais, estranho em português por nosso hábito de usar adjetivos após substantivos, ao contrário do inglês, foi uma tentativa de manter o poder de sugestão de clímax e redenção que Myers transmite ao terminar seu poema com a palavra grace. Talvez seja meu desejo pessoal de que tudo no mundo termine em graça.

Esta conflation, que denota tanto fusão como confusão, inicia-se já em minha primeira decisão, a de usar a palavra "Conflação" para o título ainda que a palavra talvez leve a outras acepções.

Por fim, incentivo que os leitores da Modo de Usar & Co. dediquem sua atenção, primeiramente, à própria Robin Myers e suas Conflations. Traduzi-lo foi uma experiência agridoce, por todas as minhas próprias conflações e separações passadas, que o poema me trouxe à memória. Mas foi uma experiência bonita.



Robin Myers vocaliza seu poema "Conflations", na Cidade do México, a 17 de dezembro de 2011.
Filmado por Ricardo Domeneck para a Modo de Usar & Co.

Conflações / Conflations


A casa é sempre uma nova casa,
e a língua raramente é a minha.
Mesmo quando decido falar,
estou despreparada.

:

The house is always a new house,
and the language is rarely my own.
Even when I choose to speak,
I am unready.


*


Seus frutos,
suas pedras,
as pedras de seus frutos,
suas florestas arruinadas,
as florestas de sua ruína –
sua desolação,
seus cavalos raquíticos,
sua ventania,
suas persianas,
suas raízes em conserva,
seus morangos improváveis,
seu magro pão esticado --
suas juntas em sangue,
suas fontes em seca,
suas modestas montanhas,
seus pneus abandonados,
os resquícios de sua paciência,
o tráfego de sua mágoa.

:

Your fruits,
your stones,
the stones of your fruit,
your ruined forests,
the forests of your ruin --
your desolation,
your spindly horses,
your wind,
your windows,
your pickled roots,
your improbable strawberries,
your bread stretched thin --
your bloody knuckles,
your empty fountains,
your modest mountains,
your abandoned tires,
the remnants of your patience,
the traffic of your grief --


*

Descubro-me com saúde.
Descubro-me a caminho.
Descubro-me impaciente.
Descubro-me numa cidade continuamente arrasada até o chão,
descubro-me no banheiro subterrâneo de um shopping
[ com paredes de vidro.
Descubro-me incapaz de tolerar até mesmo a ideia de esquecer
como você cobriu com suas mãos meu rosto,
como com toda a pele de suas mãos você toca
toda a pele do meu rosto, como ar.
Descubro-me sem uma língua aqui.

Descubro-me amargurada pela assimetria da calçada entre
o que fazemos e o que não fazemos.
E onde.
E como tropeçamos até lá.

E onde está você?

Em qual dos incontáveis absurdos de intimidade,
querendo com isso dizer geografia,
memória, aeroportos e ar,
está você?

:

I find myself in good health.
I find myself en route.
I find myself impatient.
I find myself in a city continually razed to the ground.
I find myself in the basement bathroom of a glass-paneled
[ shopping mall.
I find myself unable to tolerate even the idea of forgetting
how you put your hands all over my face,
how with all the skin of your hands you touch
all the skin of my face, like air.
I find myself without a language here.

I find myself galled by the unevenness of the sidewalk between
what we do and do not do.
And where.
And how we stumble there.

And where are you?
In which of the countless absurdities of intimacy,
by which I mean geography,
memory, airports, and air,
are you?


*

As colinas desnudas
arqueiam-se, expiram aonde
vão as estradas –

o céu invoca-as
próximas, mas recusa
sua entrada.

As estradas são estreitas,
sobras tensas, arranhadas
como por prego na pele,

como se dissessem, depois
você ainda se lembrará
de tudo o que lhe causei
.

:

The stripped hills
arch, exhale into where
the roads are going --

the sky wills them
closer, but will refuse
to let them in.

The roads are thin,
tense remainders, scratched
as by a nail on skin,

as if to say,
later
you will still remember
what I have done to you.

*

Quem é você que lambe o sal de seus dedos na casa dos vizinhos?
Quem é você que dorme em meio aos tiroteios?
Quem é você que se recusa a traduzir o que soletra em minhas costas?
Quem é você que chora enquanto xinga o policial?
Quem é você que permite que eu deixe a mesa com o arroz ainda
quente na panela de permeio?

:

Who are you that licks the salt from your fingers
[ in the neighbor’s house?
Who are you that sleeps through the gunshots?
Who are you that refuses to translate what you spell on my back?
Who are you that weeps while swearing at the policeman?
Who are you that lets me leave the table with the rice still burning
in the pan between us?


*

Suas vassouras,
seus alvejantes,
seus telhados teimosos,
seus gatos guinchantes,
os desvios selvagens de sua delicadeza,
seu generoso desprezo –
seus cachecóis,
seu suor,
o contornar poeirento sem fim de seu remorso –
suas tempestades de areia por seus anseios,
seus fogos cansados,
seus canos metálicos,
seus figos inchados,
seus olhos vermelhos,
sua insistência em ser o primeiro a partir,
ou o último a ficar –
seus lixões,
suas crostas de massa,
seu riso,
sua fé num cigarro sem filtro –
seus velórios à meia-noite,
seus caminhões raivosos,
sua raiva,
seu hálito enquanto dorme,
seus dentes no meu pescoço,
suas máscaras,
sua luxúria –

:

Your brooms,
your bleach,
your stubborn roofs,
your squalling cats,
the wild swerve of your gentleness,
your generous contempt --
your scarves,
your sweat,
the endless, dusty detours of your regret --
your sandstorms of longing,
your weary fires,
your metal pipes,
your swollen figs,
your reddened eyes,
your insistence on being the first to go,
or the last to stay --
your garbage pits,
your pastry shells,
your laughter,
your faith’s unfiltered cigarette --
your midnight funerals,
your raging trucks,
your rage,
your breath when you sleep,
your teeth on my neck,
your masks,
your lust --


*

Descobrimo-nos fazendo amor, de repente, tendo estado a ponto de fazer outra coisa, como ir à lavanderia. Logo descubro-me cambaleando à beira de um precipício, altíssimo, tremendo já pelo que será chegar ao fundo – descobrindo-me já quase despedaçada ao impacto, o susto já susto, a dor já dor, a alegria já alegria – e, tremendo na ponta dos dedos do meu fôlego, descubro-me chorando, meu rosto próximo a seu rosto, seu rosto de repente semelhante ao meu tão-somente em perplexidade, implorando-lhe, quase exigindo, “Como posso juntar-me a você?”

We find ourselves making love, suddenly, having just been on the verge of doing something else, like going to the laundromat. Soon I find myself teetering on the edge of some precipice, at a great height, already shivering from what it will be like to arrive at the bottom -- finding myself almost already shattered on impact, the shock already shock, the pain already pain, the joy already joy -- and, trembling on the tiptoes of my breath, I find myself weeping, my face close to your face, your face suddenly resembling mine in bafflement only, begging you, almost demanding, “How do I join you?”

*
A casa é sempre uma nova casa,
e as cortinas ainda por pendurar,
e eu durmo, honesta, obscura, acordando
muito e sem intuição da minha distância
até o oceano ou o desastre na rodovia,
até a base militar ou os pomares,
até algures mais limpo ou devastado
ou mais embebido de buganvílias
ou com entulhe de nuvens que aqui.
Devagar, relembro tudo: paredes, cantos,
o amontoado de sapatos, o quadro canhestro,
a âncora dos meus lábios, a cratera plácida
deixada por meu crânio quando me aprumo.
Sempre fico onde estou.

:

The house is always a new house,
and the curtains remain unhung,
and I sleep honestly, murkily, waking often
and without any intuition of my distance
from the ocean or the car crash on the freeway,
from the army base or the orchards,
from anywhere cleaner or more devastated
or more drenched with bugambilia
or more clogged with clouds than here.
Slowly, it all returns to me: walls, corners,
the huddle of shoes, a clumsy painting,
the anchor of my hips, the placid crater left
by my skull when I sit upright.
I always stay where I am.


*

Tudo o que se fala é de um mundo partido,
mas não será perigosamente inteiriço,
a ruptura mal mantida à distância?:

os rapazes contorcendo-se e enrodilhados pelos
degraus do ônibus ondeante,
as prateleiras cheias, os aviões prenhes,
a pavimentação apenas uma maneira de engrossar a pele
da coisa, a coisa,
o brinco um mero adorno da barreira,
o grafitti apenas um comentário sobre a pedra,
o menisco do leite tentando apenas
imitar a panela enquanto esta se aquece ao fogão.

Onde está o fim?
O que será preciso para que se amoleçam as superfícies?
Para que as quinas fraturem-se?
Você será para mim algum auxílio?

Nós bebemos dos lábios da garrafa,
derramamos espuma sobre um filme dispensável na mesa,
viramo-nos contra o vime da cadeira,
nossos joelhos encostados enquanto os ossos esperam
em suas mornas bainhas de brim.

Os limões,
cortados à linha de seus ventres
e colocados numa pequena fruteira,
são a única violação adequada do dia.

:

All the talk is the talk of the broken world,
but is it not perilously whole,
the rupture barely held at bay?:

the young men contorted and curled around
the rungs of the heaving bus,
the laden shelves, the pregnant planes,
the pavement only a way to thicken the skin
of the thing, the
thing,
the earring a mere adornment of the barrier,
the graffiti simply a remark about the stone,
the meniscus of the milk trying only
to imitate the pan as it gets hotter on the stove.

Where is the end?
What will it take for the surfaces to soften?
For the edges to fracture?
Will you be of any help to me?

We drink from the lip of the bottle,
spill foam in a negligible film across the table,
shift against the wicker of the chairs,
touch knees as our bones wait
in their warm denim sheaths.

The lemons,
sliced across their bellies
and arranged in a little bowl,
are the only proper violation of the day.


*

Suas mãos no meu rosto,
toda a pele de suas mãos em toda a pele do meu rosto, como ar.
Seus carros enferrujados,
seus sonhos aos gritos,
seus uniformes,
seu lixo em chamas,
seus doces de amêndoa,
seu pó.
Sua dó.
Seus joelhos pálidos
e seus pés com calos.
Suas facas,
suas veias,
suas barricadas.
Sua menta,
seu chá,
sua maconha com as janelas todas fechadas,
seus olhos cerrados,
seus cães envenenados,
suas romãs e suas joias
amassadas até o sumo.
O tremor do seu ofego
como outra espécie de perda subordinada,
outra espécie
de uma indivisa,
implacável e
momentânea graça.

:


Your hands on my face,
all the skin of your hands on all the skin of my face, like air.
Your rusted cars,
your shouted dreams,
your uniforms,
your burning trash,
your almond sweets,
your dust.
Your trust.
Your paling knees
and calloused feet.
Your knives,
your veins,
your barricades.
Your mint,
your tea,
your weed with all the windows shut,
your shuttered eyes,
your poisoned dogs,
your pomegranates and their jewels
pulped into juice.
The shudder of your coming
like another kind of loss subsumed,
another kind
of unshared,
unsparing,
momentary grace.



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sábado, 7 de janeiro de 2012

Paródia tolinha (para os que concordam com a definição de Oswald de Andrade, por paronomásia, para a palavra "amor")


Lobotomia

Histeria, bruxismo, cefaleia e priapismo noturno.
A novela inteira do que poderia ter sido. Ou não.
Sniff, sniff, sniff.

Mandaram chamar o psicanalista reichiano.
_ Estique os braços trinta e três vezes.
_ Sniff, sniff, sniff.
_ Perspire.

O senhor sofre de transtorno obsessivo-compulsivo e da síndrome de Clérambault.
_ Então, doutor, não é possível tentar uma lobotomia?
_ Não, a única coisa a fazer é assistir a um filme do Almodóvar.




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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Capa do meu livro novo, "Ciclo do amante substituível" (RJ: 7Letras, 2012)



Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012)
de Ricardo Domeneck

72 textos
192 páginas
texto mais antigo: maio de 2006
texto mais recente: outubro de 2011

foto da capa: do fotógrafo alemão
Heinz Peter Knes
meu sábio irmão espiritual mais velho

retrato do autor no miolo do livro:
da fotógrafa brasileira
Adelaide Ivánova
companheira neste vale do rímel borrado

Informações sobre os lançamentos
em São Paulo e Rio de Janeiro
(ainda este mês) em breve.


O autor manda informar
que esvaziou a gaveta.

(não,
o livro não inclui
Cigarros na cama)


Retrato do autor à mesa de trabalho.
por Adelaide Ivánova. Berlim, 2011.


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Poema de Ezequiel Zaidenwerg (Buenos Aires, 1981), lido em vídeo pelo autor, e o arquivo de seu ótimo livro "La Lírica Está Muerta" (2011)

Ezequiel Zaidenwerg (Buenos Aires, 1981) - lendo no Festival de Poesia Latino-Americana de Berlim,
novembro de 2010. Foto do poeta alemão Timo Berger.


Descobri o trabalho do poeta argentino Ezequiel Zaidenwerg em novembro de 2010, quando ele foi um dos convidados do Festival de Poesia Latino-Americana de Berlim. Na ocasião, ele leu basicamente poemas de seu livro La lírica está muerta, ainda inédito naquele momento, e o longo poema que dá título a seu primeiro livro: Doxa (Bahía Blanca: Vox Senda, 2008). Este último texto me impressionou muito, assim como "Lo que el amor les hace a los poetas", que me divertiu imensamente e tornou-se um dos meus poemas favoritos escritos nos últimos X anos.

Alguns dias depois encontrei-me com Zaidenwerg e gravei um vídeo em que vocalizava justamente estes dois poemas, apresentando seu trabalho primeiramente em minha Hilda Magazine – com as traduções para o inglês da jovem poeta norte-americana Robin Myers (Nova Iorque, 1987). Apenas um ano mais tarde pude finalmente dedicar-me a traduzir estes dois poemas para o português, preparando uma postagem sobre o argentino para a Modo de Usar & Co. em novembro de 2011.

Numa coincidência feliz, Ezequiel Zaidenwerg chegou à Cidade do México, onde passaria dois meses, alguns dias antes que eu próprio fizesse minha passagem pela cidade por uma semana para dar minhas palestras no Centro Cultural Brasil-México. Fiz questão que ele participasse da leitura que Paula Abramo organizou para mim na Casa Refugio Citlaltépetl, para a qual convidamos ainda os poetas mexicanos Luis Felipe Fabre, Julián Herbert e Minerva Reynosa, outros poetas que respeito muito.

No meio tempo, o poeta argentino já havia publicado o excelente La lírica está muerta (Bahía Blanca: Vox Senda, 2011), firmando minha crença, com este livro e o poema "Doxa", de que Ezequiel Zaidenwerg é um dos poetas mais brilhantes de minha geração. Pretendo escrever um ensaio alentado sobre o livro e traduzir mais poemas, mas enquanto não o posso fazer, recomendo muitíssimo que vocês baixem este livro de Zaidenwerg disponibilizado na Rede, e assistam ao vídeo que gravei com ele na Cidade do México, no qual ele vocaliza um dos textos, intitulado "De la guerra civil". Gravar-nos ao espelho ainda me parece o cenário mais apropriado para um poema deste livro, tão inteligente em sua ironia. É uma alegria e sorte poder hoje contar Ezequiel Zaidenwerg entre meus interlocutores e amigos.



Ezequiel Zaidenwerg (Buenos Aires, 1981) vocaliza seu texto "De la guerra civil",
do livro LA LÍRICA ESTÁ MUERTA (Bahía Blanca: Vox Senda, 2011), em vídeo meu,
gravado na Cidade do México, a 17 de dezembro de 2011. Especial para a MODO DE USAR & CO.





De la guerra civil
Ezequiel Zaidenwerg

La lírica está muerta. Finalmente.
Ha llegado el momento que esperábamos todos.
Ya podemos decirlo sin ambages:
es el fin de una era. El magno orden de los siglos
se vuelve a barajar en fundación renovada.
Nace un niño de hierro para la poesía,
y con su advenimiento, tras dimitir la vieja estirpe de oro,
se alzará en su lugar una progenie
férrea: de todos modos, ya va siendo hora
de que empecemos a cantar
cosas más importantes.
.....................................................Nace un niño de hierro
para la poesía, y una única incógnita ensombrece el horizonte:
¿conocerá a sus padres sonriendo con dulzura?
¿Les soltará una carcajada amarga?
¿Los verá con desprecio? ¿Con sospecha? Acaso,
lo que es peor: ¿les pagará la vida y su sostén
con una mueca apática?
............................................La lírica
está muerta. Así es, aunque su muerte
– mal que les pese a aquellos
que hoy se la adjudican – fue sin ceremonia: como cae un árbol,
tronco sin nombre en la mitad del bosque
por donde nadie pasa,
así cayó. La técnica también estuvo ausente:
ni siquiera las tablas precarias de la cruz,
los clavos enmohecidos, la corona trenzada con agujas,
el paño avinagrado que alguna vez urdiera
con módica pericia mano de hombre,
tuvieron parte en el asunto,
que ocurrió sin testigos, sin castigo ejemplar,
sin demasiada premeditación
ni marca.
...................Está muerta. Así es.
Y un acerbo destino arrastra a los poetas
y el crimen de la muerte fraternal,
desde el momento en que se derramó en la tierra,
como una maldición para sus descendientes,
su sangre:
................ fue en un descampado; el golpe
la sorprendió de espaldas.

.................................................Está muerta.
............................La lírica está muerta.

........No murió como Cristo, la mataron
como a Abel.



in La lírica está muerta (Bahía Blanca: Vox Senda, 2011)


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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Um pequeno poema de Juan Carlos Bautista (Chiapas, 1964)

Juan Carlos Bautista, Bestial (Ciudad de México: El Tucán de Virginia, 2003)


................................................................No hablemos de Amor, queridas.
................................................................El Amor es una convalescencia demasiado efímera.
................................................................Hablemos de Sexo, ese horror inacabable.


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domingo, 1 de janeiro de 2012

Feliz ano novo, feliz poesia nova: vídeos e poemas de Victor Heringer na "Modo de Usar & Co."

Victor Heringer (Rio de Janeiro, 1988)

Os primeiros a me falarem sobre Victor Heringer foram Marília Garcia e Dimitri Rebello. Algum tempo depois, o próprio jovem poeta cortesmente enviou-me seu livro Automatógrafo (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011) para terras berlimbosas e viemos a publicar seu inédito "Alérgico ma non troppo" no terceiro número impresso da Modo de Usar & Co.. Quando pude finalmente dedicar uma leitura mais atenta ao livro, encontrei nele um poeta de imaginação, inteligência e o tipo de humor que me atrai, com poemas que pareciam engajar-me, como nos poetas contemporâneos brasileiros que mais me alegram, naquilo que Pound chamava de "conversation between intelligent men" - um ato de generosidade de tais poetas. No Rio de Janeiro no mês passado, tive o prazer de conhecer o poeta, que é além de tudo um cavalheiro, e Marília Garcia e eu preparamos um vídeo para a Modo de Usar & Co. em que ele vocaliza alguns de seus textos. Este vídeo e outros do próprio Heringer, assim como vários poemas, podem ser vistos/lidos/escutados na franquia eletrônica de nossa revista, encimados por um texto de apresentação meu em que, como era de se esperar, o leio a partir das minhas obsessões talvez, mas tentando apenas, com minhas parcas capacidades, simplesmente apontar para o que me alegra em seu trabalho. Perdoem minha miopia (a velha ideologia da percepção de que já falei) e leiam apenas a poesia de Victor Heringer. Quanto às sereias da catástrofe que dizem que não há bons poetas no Brasil, ora, segurem-se em suas cadeiras de balanço do cânone com unhas e dentaduras.




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