terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Artigo de Daniel Falkemback sobre meu livro "Sons: Arranjo: Garganta" (SP/RJ: Cosac Naify/7Letras, 2009)

O texto é exageradamente generoso em algumas de suas asserções, e especialmente a menção/comparação mallarmaica causará reações físicas em vários leitores, reações que irão do erguer-se de uma das sobrancelhas ao curvar-se côncavo dos cantos da boca para o sul do corpo, provavelmente em esgar, mas a discussão, por exemplo, sobre o que ele chamou de "`crise´da poesia brasileira" e ainda sobre o contexto/função das formas é algo que me interessa muito, e eu, em minha posição, posso apenas agradecer a atenção de Daniel Falkemback (Curitiba, 1989), que não conheço, por dispor-se a atravessar um livro que tantos, mesmo entre meus amigos, consideram difícil, irritante e chato.





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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Anúncio feliz: este ano serei publicado na Alemanha

Esta tarde tive a alegria de poder encontrar e conhecer pessoalmente meu futuro e primevo editor alemão, Johannes CS Frank, editor da revista Belletristik, diretor do festival Zeitkunst e fundador de sua própria editora, a Verlagshaus J. Frank | Berlin, que ainda este ano publicará minha primeira coletânea de poemas aqui na Alemanha. A tradutora será minha companheira Odile Kennel, com quem venho trabalhando há alguns anos já.

Havia recebido a notícia em dezembro do ano passado, mas estava no Brasil e achei por bem esperar até um encontro oficial na editora para anunciar esta notícia maravilhosa. Estou muito feliz, alegria aqui compartilhada.

J. Frank deu-me carta branca em relação ao livro, quantas páginas e assim por diante. Ainda não me decidi ao certo se optarei por uma antologia ou por um dos meus livros na íntegra.


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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Quarta-feira com direito à companhia de Akia.

Hoje, passei o dia resolvendo algumas coisas, entre elas a prazerosa tarefa de renovar minha carteira para poderar retirar livros na Staatsbibliothek, aquela onde os anjos de Wenders passam algumas horas da tarde. Voltei para casa com um volume de textos selecionados do místico alemão Jacob Boehme (1575 — 1624) e ainda The sound of poetry / the poetry of sound (2009), da Marjorie Perloff e do Craig Dworkin. Como ser membro da Stadtsbibliothek dá automaticamente direito a retirar livros no Instituto Ibero-Americano de Berlim (Iberoamerikanisches Institut Berlin), que funciona no mesmo prédio, aproveitei para também voltar para casa com um volume de artigos do grande e lúcido Joaquim Nabuco ( 1849 — 1910) e uma edição do Diário Completo de Lúcio Cardoso (1912 — 1968), este ser meio assustador e da raça dos que não se encaixam muito bem na mentalidade oficialesca brasileira, em suma: os que amo.

Andei pela cidade, parei em cafés, terminei de ler At the Same Time: Essays & Speeches (2007), presente do meu mamútico amigo Jonas Lieder, o livro que reúne os últimos textos de Susan Sontag (1933 - 2004), uma autora que sempre me causa ao mesmo tempo admiração e certa gastura. Mas não é hora e lugar de discutir sua visão apaixonada da função da literatura.

Escrevi um pouco, algumas linhas para uma nova canção com meu parceiro. O título: "Don´t feed the poet".

Mas hoje é quarta-feira e daqui a pouco sigo para o clube, onde hoje temos dois DJs convidados e ainda a presença de Uli Buder, mais conhecido como Akia, meu amigo e parceiro em algumas composições. Um dos seres mais quietos e calmos que já conheci. Alguém diria: "um típico alemão do norte". O vídeo abaixo é o que fez para uma de suas últimas e melhores composições, chamada "Papier". Vou tomar banho e preparar-me para passar a noite a seu lado na cabine do DJ, conversando e ouvindo música da melhor qualidade.


Vídeo e música de Uli Buder, mais conhecido como Akia: "Papier" (2011)


AKIA (Uli Buder)




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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Furando o bloqueio numa manhã de Valentine´s Day

Dessarte, ao sétimo dia, enquanto Deus dormia o sono dos justos, a Natureza, esta cavala-cã, deu-nos o amor e o instinto de sobrevivência, feito um Jano ou quiçá Mogwai-Gremlin, exigindo equilíbrio, não contradição, para que não pura e simplesmente corrêssemos à chegada do leão ou urso, abandonando nossa geringonça amorível predileta à devoração do mundo, mas ao mesmo tempo soubéssemos o instante da fuga quando esta estivesse já entre as garras e presas do predador-mor, sabendo talvez que um dia dominaríamos o ambiente fazendo-o mais seguro, e então nos legaríamos ainda o direito unilateral à separação - como pré-requisito à próxima alegria momentânea para um e morte no tempo mas não no espaço, para o outro, e impossibilitada de doar-nos o dom completo da regeneração, deu-nos a memória física dos membros fantasmas para compensar as amputações.

Ricardo Domeneck, manhã de Valentine´s Day no espaço cultural que habito no Hemisfério Norte, 14 de fevereiro de 2012.


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Antídotos matinais, o primeiro cigarro e xícara de café, as pernas bambeiam, a cabeça fica leve, é como experimentar o primeiro amor por três segundos toda manhã.


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it may not always be so;and i say
that if your lips,which i have loved,should touch
another's,and your dear strong fingers clutch
his heart,as mine in time not far away;
if on another's face your sweet hair lay
in such a silence as i know,or such
great writhing words as,uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be,i say if this should be--
you of my heart,send me a little word;
that i may go unto him,and take his hands,
saying,Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face,and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands.


e.e. cummings


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Não quero mais cantar feito Orfeu,
mas como se as Bacantes volvessem
seu generoso ventríloquo, no exato
momento em que o esquartejam.


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Eu já sabia que meu usual bloqueio pós-publicação terminaria hoje. Mas quanta tolice. Eu preferiria estar dançando.


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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

"He´s my mirror", canção linda e inédita de Matt Sims (Mount Sims)

Matt Sims a.k.a. Mount Sims


Matt Sims, mais conhecido por seu projeto Mount Sims, é um músico e vocalista norte-americano, nascido em Los Angeles. Ele vive e trabalha em Berlim desde 2006, quando nos conhecemos e ele tocou pela primeira vez em meu evento quarta-feirístico. Eu sou um dos cadáveres na capa de seu último disco como Mount Sims, em que o fotógrafo Pablo Zuleta Zahr reencenou a famosa foto do suicídio/assassinato coletivo perpetrado por Jim Jones no Peoples Temple.


O último trabalho mais conhecido de Matt Sims é a ópera que escreveu com Planningtorock e The Knife, chamada Darwin. Este fim de semana, ele disponibilizou na Rede um álbum que ele gravou no ano passado mas acabara não lançando oficialmente. Além de uma linda versão para a canção "You forgot to say", da Nico, e outras faixas muito potentes, apaixonei-me por esta canção, chamada "He´s my mirror", e quis compartilhar com vocês.



He's my mirror by CEl


Escute o álbum todo abaixo:


CEl


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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Black Cracker: poemas, canções


Meu caríssimo Black Cracker acaba de lançar por uma editora nova-iorquina seu primeiro livro, intitulado 40oz elephant, com poemas e desenhos feitos nos últimos 10 anos, 10 anos em meio aos quais o poeta vocal já foi duas vezes National Poetry Slam Champion, produziu canções para os duos CocoRosie e Creep, além de Bunny Rabbit, com quem viajou e colaborou extensivamente.




No mês que vem, nós dois faremos uma leitura-performance juntos aqui no Berlimbo, com outros dois poetas mais conhecidos como músicos, uma convidada dele e outra minha. Darei mais detalhes em breve.

Além de lançar seu livro de poemas para a página, no dia 1° de abril sairá seu primeiro álbum solo, com seus incríveis poemas vocais. Conheço o álbum já há algum tempo, e estou muito feliz que ele finalmente começará a circular, pelo selo Hinterhaus Records.





Aqui, você pode ouvir uma prévia do álbum. E você pode comprar o livro de Black Cracker aqui.


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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Duas palavras, que são um nome, que pertence a uma pessoa, que é minha principal interlocutora: Marília Garcia



Tenho hoje um diálogo muito forte e frutífero com vários poetas contemporâneos, debates que são importantíssimos para meu trabalho como poeta e crítico, com companheiros específicos e pontuais espalhados por vários países e línguas, no Brasil, na Alemanha, Catalunha, Argentina, México. São debates com regularidade e intensidade variadas, sobre questões que são pontos nevrálgicos, se me permitem, a unir e separar meu trabalho do destes poetas. Uma relação de grande respeito guiando os questionamentos de nossas discordâncias e concordâncias, como minhas conversas sobre forma e historicidade com autores como Érico Nogueira, Dirceu Villa e, nos últimos tempos, Ezequiel Zaidenwerg.

Há poetas com quem sinto a sorte comunal de possuir pura e estrutural afinidade est-É-tica, como é o caso de minha admiração por Angélica Freitas. É uma corrente subterrânea que carrega meus pés e talvez nos leve, quem sabe, à mesma cachoeira.

Mas, com exceção talvez do catalão Eduard Escoffet e por razões distintas, mal encontro palavras para descrever a comunhão única de preocupações, perguntas e obsessões que sinto ao dialogar com Marília Garcia. Grande parte de um debate, tornando-o às vezes tão difícil, perde-se e perde tanto na necessidade de explicarmo-nos antes de podermos realmente dialogar, e é justamente esta perda de tempo no explicar-se que raramente sinto em meu diálogo com esta poeta, por compartilharmos tantas referências, que não deixam ao mesmo tempo de ser adversativas e complementares. Minha leitura crítica tão marcada por germânicos e anglófonos, ligada ao seu conhecimento do debate francófono, por exemplo. Foi meditando sobre seu trabalho que se clarificou em minha mente a busca pelo que venho chamando de uma lírica analítica, que já intuíra, no Brasil, em Marcos Siscar na década de 90 e poderia elaborar melhor para mim mesmo ao pensar sobre o trabalho de Juliana Krapp, cuja pequena obra, declarada pela própria autora como já encerrada, parece ter sido aquela que, no Brasil, mais claramente assumiu certos questionamentos que eu declararia encontrarmos apenas em poetas como Lyn Hejinian, Rosmarie Waldrop ou Rae Armantrout, dentro do meu limitado campo de visão, audição e pensamento.

Questionamentos, no entanto, aos quais acredito que Marília Garcia também uniria sua consciência do debate tão culturalmente específico sobre o lirismo que foi empreendido na França, por poetas tão diversos quanto Emmanuel Hocquard e Nathalie Quintane, talvez já germinado no trabalho de Gertrude Stein, que Marília Garcia vem traduzindo belamente para o português, e eu incorporava por implicações através de minha leitura obsessiva de Ludwig Wittgenstein.

Com Marília Garcia, a paixão quase obsessiva por esta Gertrude Stein, nosso interesse por uma textualidade que tantos dizem "não ser poesia", aquela que amamos nos trabalhos talvez inclassificáveis da própria norte-americana, ou ainda de John Cage, David Antin, Emmanuel Hocquard, como em certos textos de Barthes e artistas visuais que se embrenham na floresta de signos da textualidade, como o interesse de Marília por Guillermo Kuitca e Alfredo Prior, o meu por Gary Hill e Martha Rosler, e o nosso amor comum por Mira Schendel.

Ter tido a honra de lançar no Rio de Janeiro meu Ciclo do amante substituível (7Letras, 2012) ao lado de seu engano geográfico (7Letras, 2012) não é apenas a alegria de compatilhar um momento bonito com uma companheira. É como uma figura (em seu sentido teológico) pessoalíssima, dos caminhos que sinto partilhar e palmilhar com esta poeta, embrenhando-nos por uma poesia lírica desbragadamente nua, protegida do frio crítico de um país tão apaixonado pelo antilirismo apenas pelo aquecimento único dos pelos de seu próprio corpo.

A apresentação de Marília Garcia no evento que organizamos, ao lado de Marta Mestre no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, foi uma das experiências mais fortes que já tive com um poeta de carne e osso, vocalizando seu texto. Houve leituras que me entusiasmaram ou divertiram muitíssimo, mas nenhuma que tenha me emocionado tanto, este ato tão fora de moda como é o emocionar-se. Graças ao jovem poeta carioca Ícaro Lira, há um registro em vídeo da apresentação, com um excerto da intervenção de Marília sobre a peça que fez em colaboração com o músico Rodolfo Caesar, e sua própria intervenção sobre seu poema "é uma lovestory e é sobre um acidente".

Antes do vídeo, uma última asserção apaixonada: se eu morrer um segundo depois da postagem deste artigo, que o mundo saiba que Marília Garcia é a única com autoridade total e irrestrita para decidir o destino do que eu, com riso contido, chamaria de meu espólio. Hoje, basicamente, um amontoado de cartas ridículas de amor e um ou outro artigo.



Leitura dos poemas "Aquário" e "é uma lovestory e é sobre um acidente"
no evento Textualidade: modos de usar, organizado pela Modo de usar & co.
em parceria com o MAM, através da Marta Mestre, que teve lugar no próprio museu.
Quanto ao primeiro poema, trata-se da parte final da intervenção
na peça musical "Aquário", de Rodolfo Caesar.
Vídeo filmado e editado por Ícaro Lira.

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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Adelaide Ivánova, minha companheira no vale do rímel borrado, em retrato do fotógrafo alemão Jakob Ganslmeier.


Adelaide Ivánova por Jakob Ganslmeier (2012).

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Os dois fotógrafos

Jakob Ganslmeier

&

Adelaide Ivánova

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E nestes dias de frio insuportável no Berlimbo, um poema apropriado da última:

tulipas
Adelaide Ivánova

meu parapeito
não tem flores,
meu apartamento
não tem geladeira,
ponho os saquinhos
de mussarela do lado
de fora da janela
para não estragarem
e assim prescindo
de tulipas.


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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Colaboração com Ezequiel Zaidenwerg: vídeo meu para seu poema "Murió el terror de las escandinavas", especial para a revista mexicana "Chilango"

Ezequiel Zaidenwerg por Valentina Siniego


A revista eletrônica mexicana Chilango convidou o poeta argentino Ezequiel Zaidenwerg (Buenos Aires, 1981), meu caríssimo amigo, a participar do projeto "Poeminuto", unindo textos vocalizados a vídeos preparados para tal. Zaidenwerg perguntou-me se eu faria algo com sua vocalização para um texto recente, bastante irônico e mordaz, intitulado "Murió el terror de las escandinavas". Aceitei o convite-desafio, trazendo minha própria ironia para a peça. Talvez o resultado seja um verdadeiro quebra-cabeças em questões de política de gênero. Parti de uma colagem com material existente e em domínio público.

Fiquei feliz com esta colaboração e quis compartilhá-la com vocês, vocês todos que, assim espero, já leram La Lírica Está Muerta (Bahía Blanca: Vox Senda, 2011), do nosso caro Zaidenwerg. Se ainda não tiveram a chance, baixem o livro, que foi disponilizado pelo autor na Rede. Foi uma das leituras de poesia que mais me deram prazer no ano passado. Abaixo, "Murió el terror de las escandinavas":


Ezequiel Zaidenwerg - "Murió el terror de las escandinavas" - texto y voz.
Video de Ricardo Domeneck. Ciudad de México / São Paulo / Rio de Janeiro. 2012.


Murió el terror de las escandinavas
Ezequiel Zaidenwerg

Murió el terror de las escandinavas,
ése que echaba espuma por la boca
no bien veía una melena rubia
vagamente foránea. Sus amigos
lo imaginan ahora entre los fiordos
del cielo, persiguiendo a las valkirias
a un Valhalla nudista junto al sol,
con su falo de cera, inofensivo.
Poco a poco se fue descascarando,
igual que una cebolla hecha de carne,
y quedó expuesta, capa a capa, toda
la geología de su desviación
(el púgil fracturado, el libertino
púdico, el cocainómano amateur),
hasta que al fin la imagen de su crimen,
como un puño de odio palpitante,
se hizo visible al estallar la cáscara
que lo cubría: un fauno enloquecido
que, apretando del cuello a una doncella,
la flagelaba con su verga bífida
y abría surcos de copiosa sangre
de cocodrilo sobre el cuerpo trémulo;
luego se lo llenaba de gargajos
y de insultos y, armado con un fórceps
al rojo vivo, abría sus caderas
para implantarle en la matriz profunda
algún objeto no identificado
de látex, con higiene y precisión.
Después, para humillarla, le decía:
“La princesa está triste, ¿qué tendrá
la princesa?”, al oído con ternura
fingida, y explotaba de repente
en una carcajada demencial;
y, a fin de hacer completo el aquelarre,
traía a algún secuaz para vejarla.

Ya no existe el terror de las noruegas,
nativas o becadas; lo borraron
ráfagas bienhechoras de silencio,
que, deshaciendo aquella ruina humana,
muscular y moral, trajeron paz
definitiva. Ahora, como antes,
mancebos y muchachas pueden creer
que es posible un amor, en este mundo
cruel, puro como el agua del deshielo;
otra vez pueden respirar las madres
aliviadas (ya nadie grita: “¡Viene
el lobo!”) y pueden regresar los chicos
a jugar a las plazas, sin temer
la presencia furtiva en los arbustos:
murió el terror de las escandinavas.


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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Descanse em paz, querida Wislawa

Há poetas que tiveram papéis tão importantes na minha vida mental, que suas mortes, mesmo jamais os tendo conhecido, me deixam de luto verdadeiro, tristeza gigante. Foi assim quando Hilda Hilst morreu, em 2004, ou Robert Creeley, em 2005. Há dois dias, sucumbiu a um câncer no pulmão (ela, famosa chain smoker) a poeta polonesa Wislawa Szymborska (1923 - 2012), em sua Cracóvia de eleição. Como homenagem a esta mulher que me ajudou literalmente a manter a sanidade em alguns momentos, reproduzo aqui duas postagens que dediquei ao trabalho de Szymborska, entre tantas outras nais quais ela compareceu como personagem importante. Obrigado por tudo, mulher fantástica e generosa.


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As holotúrias dos poetas
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009



Em 2001, que geralmente chamo, com os lábios sobrevoando xícaras de café e copos de vinho tinto, de "um dos piores anos da minha vida", sofrendo como um camelo por uma daquelas hemostasias vagarosas de uma sangria desatada, quando ainda não sabia que (sim) se sobrevive a certa amputação de ilusões, houve alguns poemas que me acompanharam nas calçadas de São Paulo, como tubos de oxigênio ligados a um lugar-nenhum, cartografado sob um sol imaginário qualquer, provendo luz, ainda que artificial.

De poemas que nos mantêm vivos, a gente nunca esquece.

Há aquele início tenebroso do poema de Robert Creeley, que eu ainda repito em momentos de sufoco: "If night´s the darker / closer time, / days come", para culminar na luminosidade do trecho:

"let light
as air
be relief.
"

E, se a garganta se engarrafava e os lábios rachavam, era sempre possível recorrer àquele

"...e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
"

de Carlos Drummond de Andrade. Havia a lição de Bishop: "Lose something everyday. Accept the fluster...", nos ensinando a fingir, a fingir.

"Faz de conta, minha filha. Faz de conta." - JGR.

Um dos poemas que mais forneceram oxigênio à minha cabeça naquele ano foi "Autotomia", de Wislawa Szymborska, que eu lera no número 10 da revista Inimigo Rumor, e que me serviu algumas vezes de kit-sobrevivência para terminar o dia.

Autotomia

Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.

(tradução coletiva, publicado em Inimigo Rumor 10)

Poemas podem ter as causas, os efeitos mais diversos. Não é todo dia que se quer passar uma temporada no Inferno; ou em Duíno; ou mesmo em Pasárgada, ou no País das Maravilhas. De um lado o sertão, de outro o mar. Seja Lear (1812 - 1888) no absurdo em riso, ou Lear (1603 - 1606) no absurdo de todas as perdas, a cada instante seu malheur, seu bonheur. O do poema na gargalhada e o poema do franzir de todos os cenhos.

"Tempo de atirar pedras,
e tempo de ajuntá-las;
tempo de abraçar,
e tempo de se separar."


Recentemente, lendo a antologia Revolution of the Word: A New Gathering of American Avant Garde Poetry 1914 - 1945, editada por Jerome Rothenberg, li um poema de Kenneth Rexroth em que ele também recorre à holotúria (ou pepino-do-mar), usando quase o mesmo fraseado de Szymborska, levando-me a perguntar se seria uma colagem ou fragmento de que Szymborska e Rexroth se apropriaram a partir de alguma enciclopédia. O poema de Rexroth chama-se "Fundamental disagreement with two contemporaries", um texto longo de cerca de 6 páginas e várias partes, no qual se encontra o seguinte fragmento em prosa e entre aspas:

"The sea cucumber when in danger of being eaten, eviscerates itself, shooting out its soft internal organs as a sop to the enemy while the body wall escapes and is able to regenerate a new set of viscera."

Pensando no texto de Szymborska, li outras páginas sobre estas holotúrias que já se enroscaram em minha mente, encontrando textos parecidos:

"When threatened, some sea cucumbers discharge sticky threads to ensnare their enemies. Others can mutilate their own bodies as a defense mechanism. They violently contract their muscles and jettison some of their internal organs out of their anus. The missing body parts are quickly regenerated.

ou

"A remarkable feature of these animals is the catch collagen that forms their body wall. This can be loosened and tightened at will and if the animal wants to squeeze through a small gap it can essentially liquefy its body and pout into the space. To keep itself safe in these crevices and cracks the sea cucumber hooks up all its collagen fibres to make its body firm again.[3]

Some species of coral-reef sea cucumbers within the order Aspidochirotida can defend themselves by expelling their sticky cuvierian tubules (enlargements of the respiratory tree that float freely in the coelom) to entangle potential predators. When startled, these cucumbers may expel some of them through a tear in the wall of the cloaca in an autotomic process known as evisceration."


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Mutilar-se como sistema de defesa contra ilustríssimo predador. Expelir certos órgãos supérfluos em dissimulação, baile de máscaras de uma sexta-feira em filmes de medo, medo. Plano de fuga: ejetar-me as vísceras. Que holothuroidea formidável.

Pequenos pedaçoilos de moi-même em tupperwares ao honorável monsenhor predador, a tapar o ar que desperdiço do seu ambiente.

Meu Jack the ripper, com os cascos sobre o meu crânio, permaneça sempiterno no andar de cima da cadeia alimentar, enquanto a sustento com meus ombros e outras partes de minha anatomia renovável.

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Poemas que continuam salvando minha vida: "Autotomia", de Wislawa Szymborska
segunda-feira, 12 de setembro de 2011


Alguns talvez digam que é exagero, ora, como assim um poema salvar a vida de alguém? Mas não se trata de glamourização de poeta, nem conversa pseudo-xamânica sobre mágica arcaica ou qualquer falcatrua soteriológica. Em minha vida, é a mistura de fato e ato. Nesta série, quero repostar – já discuti vários deles aqui – poemas que lateral e literalmente salvaram minha cota de oxigênio e seguem mantendo minha sanidade em um nível aceitável de equilíbrio diante de certas catástrofes. Quando descobrimos um poema com este poder, ele praticamente entra em nosso sistema de defesa e passa a ser parte dos nossos anticorpos contra os demônios ensandecidos, contra os inimigos da lucidez, contra o vírus do suicídio. Hoje, no parque minúsculo e favorito aqui no meu bairro berlinense, sentado na grama, com o vento meio gelado embaraçando os cabelos que já começam a ficar brancos, eu fechei os olhos e sussurrei de novo, várias vezes, como fizera em outros momentos de necessidade:


"Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou."


São versos do poema "Autotomia", da polonesa Wislawa Szymborska. Não se trata de um de seus mais famosos, algo que nunca entendi. Tenho antologias de poemas dela em alemão e inglês que não trazem este poema específico. E, no entanto, eu já não sei se seria capaz de viver sem ele na memória. Nada que as beatas da materialidade possam entender, já que não compreendem como hedonismo e ascese se confundem em nossa miséria extrema.



Autotomia
Wislawa Szymborska

Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o
Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um voo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.



(tradução coletiva, publicada na revista Inimigo Rumor número 10)


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Soube através de Carlito Azevedo que a Companhia das Letras está lançando a primeira antologia de Wislawa Szymborska no Brasil, uma notícia que é simplesmente radiante.




Em novembro de 2008, Marília Garcia e eu preparamos uma postagem sobre a poeta polonesa, ganhadora do Nobel em 1996 (quando a descobri), para a Modo de Usar & Co., da qual vocês podem ler o artigo introdutório abaixo.



WISLAWA SZYMBORSKA

Wislawa Szymborska nasceu em 1923, na cidade de Kórnik, na Polônia. Quando ainda criança, sua família mudou-se para Cracóvia, um dos mais ativos centros culturais da Polônia, e a poeta cresceria e permaneceria toda a sua vida nesta cidade. Sua vida literária e artística inicia-se durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto segue com sua educação nos anos subterrâneos da resistência cultural polonesa contra a ocupação nazista. Com o fim da guerra, passa a estudar sociologia, além de língua e literatura polonesas, na Universidade de Cracóvia.

Seu primeiro livro é proibido pela censura do regime comunista por não estar de acordo com os regulamentos da literatura socialista. Tenta conformar-se às regras para conseguir publicar, rejeitando mais tarde, a partir da década de 50, a ideologia político-estética socialista. Nega seus dois primeiros livros e “reinicia” sua obra com o volume Wołanie do Yeti (Chamando Yeti), de 1957. Em 1962, chama a atenção da comunidade poética polonesa com o pequeno volume Sól (Sal). Desde então, seu trabalho espraia-se por pouco mais de 10 volumes de poemas, o último tendo sido publicado em 2005, com o título Dwukropek, “Dois pontos”, como no sinal de pontuação (nota: desde então, a poeta publicou em 2009 o volume Tutaj, "Aqui"). Wislawa Szymborska era uma discreta poeta polonesa até tornar-se mundialmente conhecida em 1996, ao vencer o Prêmio Nobel de Literatura.



Para contextualizarmos o trabalho de Wislawa Szymborska em seu momento histórico-poético, teríamos que compreender que este surge em um período confuso e de classificação ainda polêmica quando, no pós-guerra, muitos poetas modernistas ainda estavam vivos e produzindo suas maiores obras, e uma nova geração começava a formar-se, alguns buscando ser ainda "altos modernistas", outros seguindo tendências menos conhecidas dos movimentos de vanguarda e retaguarda do início do século XX. Wislawa Szymborska é contemporânea de poetas como João Cabral de Melo Neto, Paul Celan, Frank O´Hara, Robert Creeley e Ingeborg Bachmann, que retomam o trabalho literário dos primeiros modernistas. Ao mesmo tempo, é contemporânea de poetas experimentais como Henri Chopin e Bob Cobbing, mostrando a pluralidade poética do pós-guerra como algo muito mais complexo do que nossa tentativa de abarcá-la sob a sombrinha do conceito de "pós-modernismo".

Talvez seja uma das últimas representantes de algumas das tendências do que geralmente chamamos, no singular, de Alto Modernismo. Com um humor muitas vezes auto-depreciativo, a ironia é uma de suas ferramentas favoritas. Há um texto interessante de W.H. Auden em que ele discute traduções do trabalho de Konstantínos Kaváfis para o inglês, comentando o módulo de pensamento do poeta grego que, segundo Auden, permitia reconhecermos um poema de Kaváfis em qualquer língua, não por um estilo específico do que nós hoje chamaríamos de materialidade sígnica de sua linguagem poética, mas por certo tom e forma de pensamento que tornavam seus poemas únicos e ao mesmo tempo compreensíveis em outras culturas e línguas. Sem conhecer polonês, torna-se impossível julgar a materialidade sígnica da poesia de Wislawa Szymborska. Pergunto-me, porém, se poderíamos falar de seu trabalho em termos parecidos aos de Auden sobre Kaváfis. Tendo lido traduções para poemas da polonesa em português, inglês, espanhol e alemão, e reconhecendo sempre este "módulo de pensamento", este "tom" inconfundível, poderia dizer que Szymborska é um belíssimo exemplo do "verso livre" que depende de um talento poético invulgar em seus mais sutis artifícios.


Ricardo Domeneck, especial para a Modo de Usar & Co., 3 de novembro de 2008

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PEQUENA ANTOLOGIA DE POEMAS DE WISLAWA SZYMBORSKA


A mulher de Lot

Dizem que olhei para trás curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração – amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus –simplesmente tudo o que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou foi só quando um vento me bateu,
despenteou o meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma vez, outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.


(tradução de Regina Przybycien)

§

Gente na ponte

Estranho planeta e nele essa gente estranha.
Sujeita ao tempo, não o reconhece.
Tem seu jeito de expressar seu desagrado.
Faz pequenas pinturas assim como esta:

Nada especial à primeira vista.
Vê-se a água.
Vê-se uma das suas margens.
Vê-se uma canoa forçando seu curso contra a corrente.
Vê-se uma ponte sobre a água e vê-se gente na ponte.
Essa gente claramente apressa o passo,
porque de uma nuvem escura
começou a cair uma bruta chuva.

A questão é que ali nada mais acontece.
A nuvem não muda a cor nem a forma.
A chuva nem aumenta nem cessa.
A canoa navega sem se mover.
A gente na ponte corre
no mesmo lugar de ainda há pouco.

É difícil passar sem um comentário:
Esse não é de modo algum um quadro inocente.
Aqui o tempo foi suspenso.
Deixou-se de levar em conta suas leis.

Foi privado da influência no curso dos eventos.
Foi desrespeitado e insultado.

Por causa de um rebelde
um tal Hiroshige Utagawa
(um ser que por sinal,
como sói acontecer, faz muito que se foi),
o tempo tropeçou e caiu.

Talvez seja só uma simples brincadeira,
uma travessura na escala de um par de galáxias,
em todo caso porém
acrescentemos o seguinte:

Tem sido de bom-tom há gerações
ter a obra em alta conta,
deslumbrar-se e comover-se com ela.

Tem aqueles para quem nem isso basta.
Ouvem até o barulho da chuva,
sentem as gotas frias no pescoço e nas costas,
olham a ponte e as pessoas,
como se lá também se vissem,
na mesma corrida que nunca termina
na estrada sem fim, eternamente à frente
e acreditam, na sua desfaçatez,
que de fato é assim.

(tradução de Regina Przybycien)

§

Abaixo, poemas em tradução de Júlio Sousa Gomes

Amor à primeira vista

Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.

Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?

Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.

Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.

Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.

Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?

Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.

Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.

§§§

Estação

Foi com pontualidade
que não cheguei à cidade de N.

Uma carta por enviar
te avisara.

Conseguiste não chegar
à hora prevista.

O comboio parou na linha n. 3.
Saiu imensa gente.

Seguiu na multidão para a saída
a minha ausência.

Tomou apressadamente o meu lugar
um grupo de mulheres
em toda aquela pressa.

Correu para uma delas
alguém que desconheço,
mas que ela reconheceu
de imediato.

Trocaram então ambos
um beijo que não nosso
durante o qual levou sumiço
a mala que não minha.

A estação da cidade de N.
passou sem problemas o exame
de existência objetiva.

Permaneceu no seu lugar o todo,
moveram-se os detalhes
pelos carris previstos.

Chegou mesmo a efectuar-se
o combinado encontro.

Fora do alcance
da nossa presença.

No paraíso perdido
da verossimilhança.

Noutro lugar.
Noutro lugar.
Como elas vibram, estas palavritas.


§§§


Na torre de Babel

Que horas são? — Sim, estou feliz
e só me falta um guizo no pescoço
para enquanto tu dormes ele retinir sobre ti.
Não ouviste então a tempestade? O vento assolou as muralhas,
a torre urrou como um leão pelo portão
a ranger nas dobradiças.
— Como é que podes não te lembrar?
Eu trazia um vestido cinzento muito simples
de abotoar nos ombros. — E logo a seguir
o céu explodiu em mil clarões.
— Como é que eu podia entrar
se tu não estavas sozinho! — E vi de súbito
as cores de antes de haver olhar.
— É pena
que não possas perdoar-me. — Tens toda a razão,
foi um sonho de certeza.
— Por que é que mentes?
Por que me tratas pelo nome dela?
Amá-la ainda? — Sim! Queria muito
que ficasses comigo.
— Não estou triste,
eu devia ter adivinhado.
Ainda pensar nele? — Não estou a chorar!
E é tudo? — De ninguém como de ti.
Pelo menos és sincera. — Fica tranquilo,
vou-me embora da cidade. — Fica tranquilo,
eu vou-me embora daqui.
— Tens umas mãos tão bonitas.
É uma velha história. Foi duro
mas passou sem deixar mossas.
— Não tem de quê,
meu caro, não tem de quê. — Não sei
que horas são e nem quero saber.


§§§


Alguns gostam de poesia

Alguns —
quer dizer que nem todos.
Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.
Não contando as escolas onde se tem que,
e quanto a poetas,
dessas pessoas, em mil, haverá duas.

Gostam —
mas gosta-se também de sopa de espaguete,
dos galanteios e da cor azul,
do velho cachecol,
brindar à nossa gente,
fazer festas ao cão.

De poesia —
mas que é isso a poesia?
Muitas e vacilantes respostas
já foram dadas à questão.
Por mim não sei e insisto que não sei
e esta insistência é corrimão que me salva.

§§§

Gente na ponte

Estranho planeta e nele estranha gente.
Cedem ao tempo e não o querem reconhecer.
Têm maneiras de mostrar como se opõem.
Fazem desenhos como o que se segue:

Nada de especial à primeira vista.
Vê-se a água.
Vê-se uma de suas margens.
Uma canoa que com dificuldade avança na corrente.
Sobre a água uma ponte e gente nessa ponte.
Gente que nitidamente acelera o passo
porque de uma nuvem negra
a chuva desatou forte a fustigar.

O que há nisto de especial é que isto é tudo.
A nuvem não muda de forma nem de cor.
A chuva não cai mais forte nem se interrompe.
A canoa navega imobilizada.
Essa gente na ponte vai correndo
no exacto lugar de há um bocado.

É difícil deixar de comentar:
Não é de modo algum um desenho inocente.
Aqui o tempo foi suspenso.
Deixaram de contar com os seus direitos.
Privaram-no de influência sobre os acontecimentos.
Menosprezam-no e insultaram-no.

Por conta de um rebelde,
um tal de Hiroshige Utagawy
(ser este que de resto
já há muito e como devia ser se foi)
o tempo tropeçou e caiu.

Talvez se trate só de uma partida insignificante,
um cisco apenas à escala das galáxias,
pelo sim, contudo, e pelo não
acrescentemos o que segue:

Revela-se aqui ser de bom-tom
apreciar devidamente este desenho,
fascinar-se a gente com ele e comover-se há gerações.

Há aqueles para os quais nem isto basta.
Chegam até a ouvir a chuva murmurar,
sentem-lhe o frio nas costas e pescoços,
olham a gente e a ponte
como se também se vissem nela,
no mesmo correr para o que nunca é mais que isso,
uma estrada sem fim, a vencer pelos séculos,
e crêem na sua desfaçatez
que é isso na realidade o que acontece.



Traduções de Júlio Sousa Gomes, publicadas no livro Paisagem com Grão de Areia, Lisboa: Relógio d’água, 1996.

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