domingo, 26 de fevereiro de 2012

Alguns poemas brasileiros: "Bestiário", de Jussara Salazar

Seguindo com minha pequena série de postagens de poemas dos autores convidados por mim para o Festival de Poesia de Berlim deste ano, compartilho com vocês um dos poemas de Jussara Salazar que estará incluído na antologia binacional a ser lançada após a Oficina de Tradução. A propósito, o parceiro alemão de Jussara Salazar já foi definido, será Christian Lehnert, nascido em 1969 na cidade de Dresden, então Alemanha Oriental, e formado em teologia pela Universidade de Jerusalém. Lehnert estreou em 1997 com o livro Der gefesselte Sänger, e tem seus livros publicados pela Suhrkamp, seis coletâneas, sendo o mais recente Aufkommender Atem (2011).

Como vocês devem saber, Jussara Salazar nasceu em 1959, no agreste de Pernambuco, e é autora de Inscritos da casa de Alice (1999), Baobá - Poemas de Leticia Volpi (2002), Natália (2004), Coraurissonoros (Buenos Aires, 2008) e o mais recente (e belo) Carpideiras (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011).


Bestiário
Jussara Salazar

a minha guerra será a tua guerra
não a guerra dos homens
mas a dos pássaros desgarrados

o nosso bestiário será esse
o do contrário nunca jamais
e a minha casa será a tua guerra

o nosso bestiário será esse
o do contrário e dos urubus diários
e a minha carne será a tua guerra

o nosso bestiário será esse
o dos monstros submersos que eunoé lembrará
quando a minha cruz for a tua guerra

então o nosso bestiário será esse
canto perdido sem prumo retalhado
sem dor sem beleza nem terra

e então a minha guerra será a tua guerra



Para quem conhece meu trabalho, creio que não será difícil perceber o porquê do meu apreciar. Tenho grande apreço pela escrita que adota o permutacional, especialmente quando aplicada a um texto tão marcadamente lírico. Em língua portuguesa, tal processo encontrou sua expressão magistral, por exemplo, em um livro como A Máquina Lírica, de Herberto Helder, livro e poeta sobre o qual pretendo escrever aqui em breve. Aqui, no "Bestiário" de Jussara Salazar, nada há de gratuito no uso do permutacional entregue à mimese de uma relação, já que nossa própria vida amorosa parece adotar por vezes estratégias de permutação. Algo como Frank O´Hara exclamando "Each time my heart is broken it makes me feel more adventurous (and how the same names keep recurring on that interminable list!)", em seu poema "Meditations in an emergency" - nunca deixo de admirar a escolha daquele "in" no lugar do gramaticalmente usual "on".

O último livro de Jussara Salazar, intitulado Carpideiras, retoma a tradição ibérica de uma poesia elegíaco-religiosa, remontando à poesia medieval e à milenar tradição oral. Se esta se afasta do religiosamente agônico em Hilda Hilst, talvez aproxime-a da delicadeza lírica firme de Henriqueta Lisboa. Uma carpideira, como se sabe, é uma profissional feminina contratada para prantear um morto. Seria interessante pensar se o livro de J. Salazar exerce tal função em relação à mesma tradição à qual se liga.


TYRANA CANTADA À SACRA PRECLARÍSSIMA SANTA JOANA PRINCESA EM SEU LEITO DE MORTE.
Jussara Salazar

1 Ela disse ao coração do cantor
não cante/aos corvos
ela disse ao mar profundo
jazem/as brumas da ira
ela disse não cante /apenas diga
ao silêncio/que plante
aquela flor/
e rasgando a sombra/cuja mão
ela /esguia como um longo cravo
segurava/disse ao tempo/
não espantes/o sol com a tua dor



Termino esta pequena postagem com outro poema de Jussara Salazar que aprecio em sua labiríntica sonoridade entremalhando a sintaxe.

Água celeste
ou jogos da amarelinha
Jussara Salazar

antes tarde
que nunca
entulho
antes música
e estilhaço
no ardor
aquático
deste ácido entre
a orla
sempre um cáustico
iça
funde o corpo
um tímpano
ao pólen
quem beira o lago
e o astro
rapta
o concêntrico eco
e antes refaz-se
do que nunca
hálito
enquanto ara
um palavreado
e apalpa
a teia
o átimo
ante
o acústico
caleidoscópio


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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Alguns poemas brasileiros: "Vinte anos depois", de Horácio Costa

Nos últimos dois meses, por conta de minha passagem pelo México e pelo Brasil, tive um contato muito forte com a poesia contemporânea mexicana e brasileira, além conhecer poetas contemporâneos de outras línguas residentes nestes dois países, descobrindo vários autores que me deixaram feliz e entusiasmado com o que está acontecendo na poesia neste momento. Ao mesmo tempo, minha curadoria para a Oficina de Tradução do Festival de Poesia de Berlim, dedicada este ano à poesia brasileira, levou-me a ler e reler vários poetas brasileiros das últimas décadas para chegar à minha seleção.

Já postei e escrevi aqui sobre alguns poetas que conheci nos últimos meses, como foi o caso do mexicano Alejandro Albarrán (Cidade do México, 1985), a norte-americana Robin Myers (Nova Iorque, 1987) e ainda o argentino Ezequiel Zaidenwerg (Buenos Aires, 1981) após nosso reencontro no México. Também escrevi a respeito ou simplesmente postei poemas dos cariocas Victor Heringer (Rio de Janeiro, 1988), Luca Argel (Rio de Janeiro, 1988) e Alice Sant´Anna (Rio de Janeiro, 1988) após nossas leituras conjuntas no Rio de Janeiro. Voltarei a alguns destes poetas em breve, assim como a outros que conheci no México ou revi em São Paulo.

Mas hoje gostaria de começar uma série de postagens bastante simples, tão-somente com poemas dos autores brasileiros que convidei para minha curadoria da noite de traduções no Festival de Poesia de Berlim. Abaixo, um dos poemas de Horácio Costa que mais aprecio, poeta que estará em Berlim em junho. Trata-se de "Vinte anos depois", assim intitulado na antologia Fracta (São Paulo: Editora Perspectiva, 2004), com seleção de Haroldo de Campos. Já li o poema na Rede com o título "Aniversários". Sigo aqui o da antologia. O poema foi originalmente publicado no livro Quadragésimo, primeiramente no México em 1996 e mais tarde no Brasil, pela Ateliê Editorial, em 1999. Informo aqui também que o parceiro alemão de Horácio Costa na Oficina de Tradução será o celebrado poeta Gerhard Falkner (n. 1951), que tem 14 coletâneas de poemas publicadas, entre elas so beginnen am körper die tage (1981), der atem unter der erde (1984), X-te Person Einzahl (1996) e Hölderlin Reparatur (2008), pelo qual recebeu o importante prêmio de poesia Peter-Huchel-Preis (Prêmio Peter Huchel).


Vinte anos depois
Horácio Costa

Vinte Anos Depois é um romance de Alexandre Dumas
duas décadas não são nada
é a média de vida do homem primitivo ....do escravo romano
é a idade de um cão muito muito velho
é a média de glória de um artista maior
o tempo sem celulite de uma cortesã
o lapso de procriação depois do casamento
quatro ou cinco mandatos políticos....o auge de um Império
vinte anos levou a Constantino reformar Bizâncio
vinte anos fizeram a fortuna de Frick Morgan e Du Pont
vinte anos entre a apresentação no Templo e a crucificação
vinte anos é a matéria dos memorialistas
vinte anos e o povo se cansa da Revolução
vinte anos depois Odette está casada e Mareei morto
a roda o computador pessoal a moda das perucas brancas se
.......popularizam em não mais de vinte anos
Quéfren e Miquerinos construíram suas pirâmides em vinte
.......curtos anos
vinte anos depois o cadáver está frio olvidadíssimo
vinte anos de exercício e o êxtase desce ao asceta
nada nada são duas décadas vinte vezes nada
a ponte nova entre aqui e ali está congestionada hoje
a então chamada ponte do futuro já não serve mais
agora quando estás nela também estás aqui
tinhas o cabelo solto tinhas a rédea solta
soltas tinhas as palavras
há vinte anos
entre aqui e ali


§


Gosto bastante da maneira como Horácio Costa incorpora a História na tessitura do poema, prática que poderia talvez ligar o texto, sem qualquer intenção minha de insinuar hereditariedades ou hierarquias (minha mente funciona por teias), a poetas tão distintos quanto Konstantínos Kaváfis e Zbigniew Herbert. Fiz questão que este poema estivesse incluído na antologia que a oficina gerará, com 6 poetas brasileiros e 6 poetas alemães. Imagino que será interessante ler este poema em alemão, o que me faz pensar em um possível diálogo com textos de poetas como Bertolt Brecht, Heiner Müller ou o contemporâneo Hans Magnus Enzensberger.

Abaixo, dois outros poemas de Horácio Costa que aprecio.


Tire tudo da paisagem
Horácio Costa

a Milos Sovak, in memoriam

Tire tudo da paisagem,
o serpenteante rio de águas cristalinas,
a neve ocasional, os rebanhos
de branquíssimas ovelhas
que se escondem detrás
das bétulas e das coníferas,
tire as porteiras que dividem
os campos de aveia e de centeio,
tire as velhas casas de pedra
da paisagem,
tire os bulbos de narciso,
os bulbos de lírio, de íris,
os telhados, as chaminés, os pedregulhos,
pouco a pouco tire tudo da paisagem:
a irritante torre medieval,
a capela tardo-gótica,
os retábulos de têmpera sobre madeira,
as rimas, as baladas líricas,
a cozinha típica, os sapatos:
descalce a paisagem,
veja-a sem subterfúgios,
nua, reduzida, descalça.
Ainda assim, nota bem,
algo permanece
entre aquela paisagem
e a de agora:
o pio dos corvos,
o agouro dos corvos,
aquele martelar de gritos negros,
sobrevive, voa entre
a paisagem de ontem
e a que lês, queridíssimo
leitor. Não há como
tirar os corvos
deste poema.


§

Caixa de água azul
Horácio Costa

Entre a ramagem da árvore desconhecida,
Caducifólia, nem de Jessé ou genealógica,
Um volume azul sobre uma laje, caixa de água
De polietileno ou poliuretano.
Notação distante na paisagem urbana,
Obsedante recordação no agora-agora,
Calle Río Poo 108, Colonia Cuauhtémoc,
Suites Parioli, México, Capital.

O mar, não. O mar, não. O mar, não. O mar, não.
Um exagero de zéfiros, então: o expresso
Descia a serra em Simcas-Chambord tangerina,
Rumo à baía divisada entre montanhas:
Ao longe, o porto e as torres, guindastes e praias;
Ao pé a pantanosa terra, como espaguete, úmida.
O talento da oitava real quereríamos,
O seu sempre imarcessível horizonte.

Nele seguia a senhora duas vezes por ano,
Qual a ordem das vogais, dos ritos identitários,
às vilegiaturas; se lhe encolhera
o mundo à mínima possível transumância.
Para lá da paisagem, a sós uiva o engenho,
Aquilo que em linguagem transforma a língua.
A árvore que se agita em eterno lenho
Enraíza no presente o espectro que mingua.

Ia a senhora, olhos de pomba, um único anel
De coral; cruzou-se a morte entre ela e o poema.
O mar, não. Caixa de água azul entre prédios alheios.
Este o horizonte, marchetado em fragmentos,
Reduzido a um puzzle no qual o montador
A si se vê como uma das peças faltantes.
O agora não sabe o que diz: memoria vincitrix.
Desce uma vez mais o expresso a estrada de Santos.

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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Artigo de Daniel Falkemback sobre meu livro "Sons: Arranjo: Garganta" (SP/RJ: Cosac Naify/7Letras, 2009)

O texto é exageradamente generoso em algumas de suas asserções, e especialmente a menção/comparação mallarmaica causará reações físicas em vários leitores, reações que irão do erguer-se de uma das sobrancelhas ao curvar-se côncavo dos cantos da boca para o sul do corpo, provavelmente em esgar, mas a discussão, por exemplo, sobre o que ele chamou de "`crise´da poesia brasileira" e ainda sobre o contexto/função das formas é algo que me interessa muito, e eu, em minha posição, posso apenas agradecer a atenção de Daniel Falkemback (Curitiba, 1989), que não conheço, por dispor-se a atravessar um livro que tantos, mesmo entre meus amigos, consideram difícil, irritante e chato.





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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Anúncio feliz: este ano serei publicado na Alemanha

Esta tarde tive a alegria de poder encontrar e conhecer pessoalmente meu futuro e primevo editor alemão, Johannes CS Frank, editor da revista Belletristik, diretor do festival Zeitkunst e fundador de sua própria editora, a Verlagshaus J. Frank | Berlin, que ainda este ano publicará minha primeira coletânea de poemas aqui na Alemanha. A tradutora será minha companheira Odile Kennel, com quem venho trabalhando há alguns anos já.

Havia recebido a notícia em dezembro do ano passado, mas estava no Brasil e achei por bem esperar até um encontro oficial na editora para anunciar esta notícia maravilhosa. Estou muito feliz, alegria aqui compartilhada.

J. Frank deu-me carta branca em relação ao livro, quantas páginas e assim por diante. Ainda não me decidi ao certo se optarei por uma antologia ou por um dos meus livros na íntegra.


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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Quarta-feira com direito à companhia de Akia.

Hoje, passei o dia resolvendo algumas coisas, entre elas a prazerosa tarefa de renovar minha carteira para poderar retirar livros na Staatsbibliothek, aquela onde os anjos de Wenders passam algumas horas da tarde. Voltei para casa com um volume de textos selecionados do místico alemão Jacob Boehme (1575 — 1624) e ainda The sound of poetry / the poetry of sound (2009), da Marjorie Perloff e do Craig Dworkin. Como ser membro da Stadtsbibliothek dá automaticamente direito a retirar livros no Instituto Ibero-Americano de Berlim (Iberoamerikanisches Institut Berlin), que funciona no mesmo prédio, aproveitei para também voltar para casa com um volume de artigos do grande e lúcido Joaquim Nabuco ( 1849 — 1910) e uma edição do Diário Completo de Lúcio Cardoso (1912 — 1968), este ser meio assustador e da raça dos que não se encaixam muito bem na mentalidade oficialesca brasileira, em suma: os que amo.

Andei pela cidade, parei em cafés, terminei de ler At the Same Time: Essays & Speeches (2007), presente do meu mamútico amigo Jonas Lieder, o livro que reúne os últimos textos de Susan Sontag (1933 - 2004), uma autora que sempre me causa ao mesmo tempo admiração e certa gastura. Mas não é hora e lugar de discutir sua visão apaixonada da função da literatura.

Escrevi um pouco, algumas linhas para uma nova canção com meu parceiro. O título: "Don´t feed the poet".

Mas hoje é quarta-feira e daqui a pouco sigo para o clube, onde hoje temos dois DJs convidados e ainda a presença de Uli Buder, mais conhecido como Akia, meu amigo e parceiro em algumas composições. Um dos seres mais quietos e calmos que já conheci. Alguém diria: "um típico alemão do norte". O vídeo abaixo é o que fez para uma de suas últimas e melhores composições, chamada "Papier". Vou tomar banho e preparar-me para passar a noite a seu lado na cabine do DJ, conversando e ouvindo música da melhor qualidade.


Vídeo e música de Uli Buder, mais conhecido como Akia: "Papier" (2011)


AKIA (Uli Buder)




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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Furando o bloqueio numa manhã de Valentine´s Day

Dessarte, ao sétimo dia, enquanto Deus dormia o sono dos justos, a Natureza, esta cavala-cã, deu-nos o amor e o instinto de sobrevivência, feito um Jano ou quiçá Mogwai-Gremlin, exigindo equilíbrio, não contradição, para que não pura e simplesmente corrêssemos à chegada do leão ou urso, abandonando nossa geringonça amorível predileta à devoração do mundo, mas ao mesmo tempo soubéssemos o instante da fuga quando esta estivesse já entre as garras e presas do predador-mor, sabendo talvez que um dia dominaríamos o ambiente fazendo-o mais seguro, e então nos legaríamos ainda o direito unilateral à separação - como pré-requisito à próxima alegria momentânea para um e morte no tempo mas não no espaço, para o outro, e impossibilitada de doar-nos o dom completo da regeneração, deu-nos a memória física dos membros fantasmas para compensar as amputações.

Ricardo Domeneck, manhã de Valentine´s Day no espaço cultural que habito no Hemisfério Norte, 14 de fevereiro de 2012.


*

Antídotos matinais, o primeiro cigarro e xícara de café, as pernas bambeiam, a cabeça fica leve, é como experimentar o primeiro amor por três segundos toda manhã.


*

it may not always be so;and i say
that if your lips,which i have loved,should touch
another's,and your dear strong fingers clutch
his heart,as mine in time not far away;
if on another's face your sweet hair lay
in such a silence as i know,or such
great writhing words as,uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be,i say if this should be--
you of my heart,send me a little word;
that i may go unto him,and take his hands,
saying,Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face,and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands.


e.e. cummings


*




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Não quero mais cantar feito Orfeu,
mas como se as Bacantes volvessem
seu generoso ventríloquo, no exato
momento em que o esquartejam.


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Eu já sabia que meu usual bloqueio pós-publicação terminaria hoje. Mas quanta tolice. Eu preferiria estar dançando.


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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

"He´s my mirror", canção linda e inédita de Matt Sims (Mount Sims)

Matt Sims a.k.a. Mount Sims


Matt Sims, mais conhecido por seu projeto Mount Sims, é um músico e vocalista norte-americano, nascido em Los Angeles. Ele vive e trabalha em Berlim desde 2006, quando nos conhecemos e ele tocou pela primeira vez em meu evento quarta-feirístico. Eu sou um dos cadáveres na capa de seu último disco como Mount Sims, em que o fotógrafo Pablo Zuleta Zahr reencenou a famosa foto do suicídio/assassinato coletivo perpetrado por Jim Jones no Peoples Temple.


O último trabalho mais conhecido de Matt Sims é a ópera que escreveu com Planningtorock e The Knife, chamada Darwin. Este fim de semana, ele disponibilizou na Rede um álbum que ele gravou no ano passado mas acabara não lançando oficialmente. Além de uma linda versão para a canção "You forgot to say", da Nico, e outras faixas muito potentes, apaixonei-me por esta canção, chamada "He´s my mirror", e quis compartilhar com vocês.



He's my mirror by CEl


Escute o álbum todo abaixo:


CEl


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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Black Cracker: poemas, canções


Meu caríssimo Black Cracker acaba de lançar por uma editora nova-iorquina seu primeiro livro, intitulado 40oz elephant, com poemas e desenhos feitos nos últimos 10 anos, 10 anos em meio aos quais o poeta vocal já foi duas vezes National Poetry Slam Champion, produziu canções para os duos CocoRosie e Creep, além de Bunny Rabbit, com quem viajou e colaborou extensivamente.




No mês que vem, nós dois faremos uma leitura-performance juntos aqui no Berlimbo, com outros dois poetas mais conhecidos como músicos, uma convidada dele e outra minha. Darei mais detalhes em breve.

Além de lançar seu livro de poemas para a página, no dia 1° de abril sairá seu primeiro álbum solo, com seus incríveis poemas vocais. Conheço o álbum já há algum tempo, e estou muito feliz que ele finalmente começará a circular, pelo selo Hinterhaus Records.





Aqui, você pode ouvir uma prévia do álbum. E você pode comprar o livro de Black Cracker aqui.


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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Duas palavras, que são um nome, que pertence a uma pessoa, que é minha principal interlocutora: Marília Garcia



Tenho hoje um diálogo muito forte e frutífero com vários poetas contemporâneos, debates que são importantíssimos para meu trabalho como poeta e crítico, com companheiros específicos e pontuais espalhados por vários países e línguas, no Brasil, na Alemanha, Catalunha, Argentina, México. São debates com regularidade e intensidade variadas, sobre questões que são pontos nevrálgicos, se me permitem, a unir e separar meu trabalho do destes poetas. Uma relação de grande respeito guiando os questionamentos de nossas discordâncias e concordâncias, como minhas conversas sobre forma e historicidade com autores como Érico Nogueira, Dirceu Villa e, nos últimos tempos, Ezequiel Zaidenwerg.

Há poetas com quem sinto a sorte comunal de possuir pura e estrutural afinidade est-É-tica, como é o caso de minha admiração por Angélica Freitas. É uma corrente subterrânea que carrega meus pés e talvez nos leve, quem sabe, à mesma cachoeira.

Mas, com exceção talvez do catalão Eduard Escoffet e por razões distintas, mal encontro palavras para descrever a comunhão única de preocupações, perguntas e obsessões que sinto ao dialogar com Marília Garcia. Grande parte de um debate, tornando-o às vezes tão difícil, perde-se e perde tanto na necessidade de explicarmo-nos antes de podermos realmente dialogar, e é justamente esta perda de tempo no explicar-se que raramente sinto em meu diálogo com esta poeta, por compartilharmos tantas referências, que não deixam ao mesmo tempo de ser adversativas e complementares. Minha leitura crítica tão marcada por germânicos e anglófonos, ligada ao seu conhecimento do debate francófono, por exemplo. Foi meditando sobre seu trabalho que se clarificou em minha mente a busca pelo que venho chamando de uma lírica analítica, que já intuíra, no Brasil, em Marcos Siscar na década de 90 e poderia elaborar melhor para mim mesmo ao pensar sobre o trabalho de Juliana Krapp, cuja pequena obra, declarada pela própria autora como já encerrada, parece ter sido aquela que, no Brasil, mais claramente assumiu certos questionamentos que eu declararia encontrarmos apenas em poetas como Lyn Hejinian, Rosmarie Waldrop ou Rae Armantrout, dentro do meu limitado campo de visão, audição e pensamento.

Questionamentos, no entanto, aos quais acredito que Marília Garcia também uniria sua consciência do debate tão culturalmente específico sobre o lirismo que foi empreendido na França, por poetas tão diversos quanto Emmanuel Hocquard e Nathalie Quintane, talvez já germinado no trabalho de Gertrude Stein, que Marília Garcia vem traduzindo belamente para o português, e eu incorporava por implicações através de minha leitura obsessiva de Ludwig Wittgenstein.

Com Marília Garcia, a paixão quase obsessiva por esta Gertrude Stein, nosso interesse por uma textualidade que tantos dizem "não ser poesia", aquela que amamos nos trabalhos talvez inclassificáveis da própria norte-americana, ou ainda de John Cage, David Antin, Emmanuel Hocquard, como em certos textos de Barthes e artistas visuais que se embrenham na floresta de signos da textualidade, como o interesse de Marília por Guillermo Kuitca e Alfredo Prior, o meu por Gary Hill e Martha Rosler, e o nosso amor comum por Mira Schendel.

Ter tido a honra de lançar no Rio de Janeiro meu Ciclo do amante substituível (7Letras, 2012) ao lado de seu engano geográfico (7Letras, 2012) não é apenas a alegria de compatilhar um momento bonito com uma companheira. É como uma figura (em seu sentido teológico) pessoalíssima, dos caminhos que sinto partilhar e palmilhar com esta poeta, embrenhando-nos por uma poesia lírica desbragadamente nua, protegida do frio crítico de um país tão apaixonado pelo antilirismo apenas pelo aquecimento único dos pelos de seu próprio corpo.

A apresentação de Marília Garcia no evento que organizamos, ao lado de Marta Mestre no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, foi uma das experiências mais fortes que já tive com um poeta de carne e osso, vocalizando seu texto. Houve leituras que me entusiasmaram ou divertiram muitíssimo, mas nenhuma que tenha me emocionado tanto, este ato tão fora de moda como é o emocionar-se. Graças ao jovem poeta carioca Ícaro Lira, há um registro em vídeo da apresentação, com um excerto da intervenção de Marília sobre a peça que fez em colaboração com o músico Rodolfo Caesar, e sua própria intervenção sobre seu poema "é uma lovestory e é sobre um acidente".

Antes do vídeo, uma última asserção apaixonada: se eu morrer um segundo depois da postagem deste artigo, que o mundo saiba que Marília Garcia é a única com autoridade total e irrestrita para decidir o destino do que eu, com riso contido, chamaria de meu espólio. Hoje, basicamente, um amontoado de cartas ridículas de amor e um ou outro artigo.



Leitura dos poemas "Aquário" e "é uma lovestory e é sobre um acidente"
no evento Textualidade: modos de usar, organizado pela Modo de usar & co.
em parceria com o MAM, através da Marta Mestre, que teve lugar no próprio museu.
Quanto ao primeiro poema, trata-se da parte final da intervenção
na peça musical "Aquário", de Rodolfo Caesar.
Vídeo filmado e editado por Ícaro Lira.

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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Adelaide Ivánova, minha companheira no vale do rímel borrado, em retrato do fotógrafo alemão Jakob Ganslmeier.


Adelaide Ivánova por Jakob Ganslmeier (2012).

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Os dois fotógrafos

Jakob Ganslmeier

&

Adelaide Ivánova

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E nestes dias de frio insuportável no Berlimbo, um poema apropriado da última:

tulipas
Adelaide Ivánova

meu parapeito
não tem flores,
meu apartamento
não tem geladeira,
ponho os saquinhos
de mussarela do lado
de fora da janela
para não estragarem
e assim prescindo
de tulipas.


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