quarta-feira, 9 de maio de 2012

Lendo "X + Y: uma ode" na Casa Refugio Citlaltépetl, na Cidade do México, em dezembro de 2011

Abaixo, vídeo com minha leitura do poema "X + Y: uma ode" na Casa Refugio Citlaltépetl, na Cidade do México, em dezembro de 2011. A leitura foi organizada por Paula Abramo e o Centro Cultural Brasil-México. Na mesa, três dos meus poetas mexicanos favoritos: Luis Felipe Fabre, Julián Herbert e Minerva Reynosa, assim como o argentino Ezequiel Zaidenwerg, e Paula Abramo moderando. Foi uma noite linda, alguns dos melhores poetas com quem já tive a honra de ler. O video foi-me enviado pelo poeta mexicano Alejandro Albarrán, um dos melhores poetas da nova geração latino-americana. Agradeço a todos com muita saudade e todo o meu respeito.


 



X + Y: uma ode

An refert, ubi et in qua arrigas?
Suetônio

Houvesse nascido
mulher, já teria dado
à luz sete
filhos de nove
homens distintos.
Agora, vivo entretido
com as teorias
a explicarem meu gosto
por odores específicos,
certa distribuição de pelos
nas pernas alheias,
os cabelos na nuca
e no peito
sem seios, ainda que aprecie
certas glândulas mamárias
de moços e rapazes
com aquela dose
saudabilíssima
aos meus olhos de hipertrofia.
Medito sobre as conjecturas
de terapeutas,
os relatos de uma Persona
partida, Édipo subnutrido,
sem modelo
na infância de um lendário
Laio
exemplar, lançando-me
a uma suposta
busca entre amantes
por mim mesmo.
Tentei, sem o menor
sucesso,
por dias induzir-me à ereção
diante do espelho.
Concluí não ser tão
eréctil meu ego.
Ouvi com atenção
a fórmula
sobre pai ausente e mãe
dominante a gerar rainhas
de paus, espadas e copas
lassas e loucas,
mas, apesar do meu histórico
de progenitora histérica
e procriador estóico,
meus irmãos
tão afeitos e afoitos
diante dos clitórides
embromam a estatística.
Li todas as reportagens
sobre a possível queerness
na boutique do código
genético, esta quermesse
das afinidades seduzidas,
e ri com o amigo
que certa vez, em chiste,
nomeou-me dispositivo
biológico
de uma Natureza em estresse,
medicando o hipercrescimento
populacional. Não mentirei dizendo
que não temo e tremo
com o perigo do inferno.
Cheguei, contudo, à conclusão
de que minha passagem
só de ida
ao Hades
não se dá
apenas pela inclinação
algo obcecada
de minha genitália
pelo caráter heterogêneo
dos vossos gametas.
Houvesse
nascido fêmea,
já teria dado à luz onze
filhotes de treze
machos diferentes,
e, de puta,
assegura
o Vaticano (e mesmo Hollywood),
não se conhece ascensão,
tão-somente queda.
Portanto, poeta, pederasta e puta,
sigo com meus olhos pela rua
cada portador
desta combinação gloriosa
de cromossomas
X e Y,
chamem-se Chris ou Absalom,
com suas espaçadas proporções
entre os buracos
do crânio, a linha que se forma
entre orelhas e ombros,
as asas de suas omoplatas
e a coifa dos rotadores,
as simetrias volubilíssimas
entre as extremidades
excitantes e excitáveis
como nariz, pênis e dedos,
o número de pelos
entre o umbigo
e ninho púbico,
o formato dos dentes
e seu espelhamento
em diâmetro
nos pés e suas unhas.
Se andam como comem,
se bocejam como riem,
se bebem como tossem,
se fodem como dançam.
A absoluta falta de mistério
em alguns deles, incapazes
da dissimulação famosa
de certas personagens
literárias femininas
do século XIX.
Neles, é oblíqua
somente a ocasional
ereção inconveniente.
Constrangem-me
estas confissões,
mas cederia certos direitos políticos
por algumas dessas cristas ilíacas
já presenciadas em praias, ao sol,
e abriria mão de uma ida às urnas
este inverno por esta ou outra nuca.
E veja só como o planeta
insiste na demonstração empírica
dessa abundância de músculos
e seus reflexos
cremastéricos:
neste exato momento,
enquanto escrevo este textículo,
entra no café, em pleno Berlimbo,
um desses exemplares de garoto
canhestro e canhoto,
o boné cobrindo meio rosto,
prototipagem de barba
e bigode, calças
que me catapultam a fantasias
com skateboards como props,
sobrancelhas feito caterpillars
sitiando os olhos com promessas
de delícias e desfaçatez épicas.
Seu tênis é bege;
ao tirar o suéter, vê-se
a sua escala de Tanner.
Sua Calvin Klein.
Bege fico eu, adivinhando que pele
cobre seus joelhos, seus calcanhares.
Sonho o sexo biônico e homérico,
algo entre Aquiles e Pátroclo,
interpretados em nosso mundo
por Brad Pitt e Garrett Hedlund,
potros xucros como búfalos
ou bárbaros.
E este mundo está cheiíssimo
dessas distrações quase sádicas
para meu masoquismo
voluntarioso e em vício,
que impedem que componha
a minha Divina Commedia,
meu Paradise Lost.
Perdoe, Sr. Cânone,
esta minha tosca e parca
contribuição lírica à safra
de seus contemporâneos,
mas não me catalogue
entre as farsas, sátiras.
Pois não é, consinto, culpa
das massificações capitalistas
esta minha attention span
pouco renascentista,
mas desta explosão de cântaros
plenos de testosterona púbere
a ir e vir nos espaços públicos.
Quando passam, petiscos,
finger food em arrogância
cocky e garbosa, murmuro
na cavidade oca
da boca:
"Deviam ser proibidos
seus exageros de lindos".
Meu fim será nestes botecos
do Berlimbo,
entupindo-me de café preto
e esperando suas ocasiões
para escrever poemas
que vos celebrem, atores
principais deste longo pornô
em que me vi concebido, gerado
e expelido, coadjuvante
contente e dublado.
Agradeço-vos a oportunidade
de fazer do advérbio sim
uma interjeição obscena.
Aos outros, juro que não se trata
de encômio, louvor ou gabo.
Quisesse eu fazer apologia,
talvez dissesse
haver mais elegância
em "Sê meu erômenos
e eu serei teu erastes"
do que, ao cangote,
"Mim Tarzan, você Jane".
Não busco novos adeptos
que me façam concorrência.
Boys will be boys,
há quem diga, e, ora,
não vou dizer que espero
de todo moço
que seja Mozart
ou Beuys.
Haverá os momentos de caça
e rendição felizes, as poucas
vezes de sorte
em que seremos camareiros
de algum moço pasolínico,
com quem se poderá, enfim,
fazer o cama-supra, meia-nove
e então discutir no pós-coito
outros conceitos hifenizados
ao som de Cocteau Twins,
listar as guitarras de 1969,
nosso horror a Riefenstahl,
a obsessão por Fassbinder,
e oxalá sentir em meio a tal
loa uma nova ereção
cavucar
as malhas entre as dobras
do edredão
enquanto lemos poemas de Catulo,
Kaváfis.
Quando chegarem os bárbaros,
me encontrarão na cama;
que venham porém armados,
pois hei de estar acompanhado,
e em riste as nossas lanças.

Berlim, 25 de outubro de 2010

Publicado em Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012).


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terça-feira, 8 de maio de 2012

Gossip. Inícios, reinícios.

Há seis anos, em julho de 2006, tive uma das noites mais espetaculares em minha vida como DJ: fui convidado a tocar no Berghain, o clube mais importante de Berlim, como abertura para a noite do concerto da banda Gossip. Hoje à noite, a banda volta a tocar no mesmo clube, e os envolvidos naquela linda noite de 2006 decidiram que era hora de um revival, chamando-me para mais uma vez abrir para a banda em Berlim. Hoje, às 20:00, inicio meu set, uma hora antes da banda subir ao palco. Abrirei com Diamanda Galás e Mary Margaret O´Hara, seguindo em seguida um caminho por entre minhas artistas favoritas (sim, pretendo tocar quase exclusivamente a música de mulheres), como Kate Bush, Cocteau Twins, Planningtorock, Grimes, Creep, Anika, Nite Jewel, THEESatisfaction e outras. Mais tarde, festejamos juntos numa aftershow party, num outro clube, onde pretendo começar um novo projeto. Noite de relembranças e novos inícios. Que os amigos que passarem por aqui torçam por mim. Ando necessitado de inícios. Chega de fins.


    



Gossip, com a canção "Heavy Cross". 


§ 

 Abaixo, o cartaz da festa depois do concerto. 
Para quem não sabe, meu nome de guerra como DJ é Kate Boss.


domingo, 6 de maio de 2012

Samuel Beckett - "Krapp's Last Tape" (com o ator Patrick Magee)



Krapp´s Last Tape é uma peça de um ato, escrita em inglês por Samuel Beckett (especialmente para o ator Patrick Magee), em 1958. Foi publicada pela primeira vez no verão do mesmo ano pela revista Evergreen Review, e mais tarde em Londres no volume Krapp’s Last Tape and Embers (1959) e, em Nova Iorque, no volume Krapp’s Last Tape and Other Dramatic Pieces (1960). É um dos meus favoritos dentre os textos de Beckett, autor que exerceu uma influência forte sobre minha textualidade, talvez mais marcadamente em a cadela sem Logos (SP / RJ: Cosac Naify / 7Letras, 2007), em especial com seus textos tardios, borrando qualquer fronteira entre o narrativo, o poético e o dramático. A interpretação de Magee é brilhante.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

A poesia perante o genocídio: três poemas de Heimrad Bäcker

Esta tarde, o poeta André Vallias postou numa das redes sociais um artigo da revista Jacket2, que discute a poesia do austríaco Heimrad Bäcker (1925 - 2003). O pequeno artigo chama-se "Poetic representations of the Holocaust". Trouxe-me à mente as "traduções / anotações" que fiz de três poemas visuais/textuais de Heimrad Bäcker em 2008, para a Modo de Usar & Co., que reproduzo abaixo. Como estamos vivendo a situação atual em que o Governo de Dilma Rousseff mostra-se disposto a colocar-se às portas de cometer genocídio no Brasil, que será a consequência do ecocídio causado pela construção inconstitucional da hidrelétrica em Belo Monte, quis trazer a questão a este espaço, no mesmo espírito de "I have nothing to say / so I let others say it / and that´s poetry / as I need it". É assustador ver o Governo da ex-guerrilheira assumir caráter desenvolvimentista irresponsável, como o da Ditadura Militar. Não se pode esquecer, neste caso específico, que Belo Monte foi idealizada pela Ditadura. Se a alguém parecer exagero o uso da palavra "genocídio" neste contexto, reproduzo aqui as palavras do poeta Pádua Fernandes:

"A Convenção da ONU para a prevenção e a repressão do crime de genocídio foi celebrada em 1948 e o Brasil dela participa desde 1952. A lei federal nº 2889, que tipifica o crime, é de 1956: 


Art. 1º 
Quem, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal: 
a) matar membros do grupo; 
b) causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo; 
c) submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial; 
d) adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo; 
e) efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo; 


Não consigo entender porque ela jaz quase inaplicada enquanto a matança de índios permanece firme no Brasil, sob ou sobre este governo que vê o meio-ambiente como ameaça à sustentabilidade." - Pádua Fernandes, in O Palco e o Mundo, 19 de abril de 2012.

A postagem abaixo, com os poemas de Heimrad Bäcker, poderia levar-nos a várias questões: a possibilidade de representação do horror em linguagem poética, assim como a capacidade horripilante que o humano possui de racionalizar o horror. Não estou dedilhando oxímoros. O impensável teve papel fundamental no sucesso do plano de extermínio nazista, já que a grande maioria das vítimas entregou-se nas mãos dos algozes, mesmo quando ouviam as assustadoras histórias ("boatos") das matanças, pois era-lhes simplesmente impensável que outros seres humanos fossem capazes do que o foram, tão eficiente e energicamente, os nazistas e seus colaboradores internacionais (na França - pesquise "Vélodrome d´Hiver / 1942" -, na Áustria, na Hungria, etc ). Hannah Arendt já escreveu sobre isso de forma tocante e inteligente. É difícil não pensar aqui na última proposição de Wittgenstein no Tractatus (para o austríaco, não há diferença entre o impensável e o indizível): "Sobre o que não se pode falar, deve-se calar" (Wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen). Abaixo, vemos como Heimrad Bäcker lidou com o dilema.


Heimrad Bäcker (1925 - 2003) 
por Ricardo Domeneck 
para a Modo de Usar & Co. 
11 de maio de 2008


Heimrad Bäcker nasceu em Viena, Áustria. Estudou filosofia, sociologia e filologia germânica. Mudou-se mais tarde para Linz, onde passou a lecionar. Iniciou um trabalho de pesquisa histórica nos arquivos nazistas austríacos na década de 50. Começa a publicar seus textos na década seguinte e, entre 1968 e 1992, foi editor da revista neue texte, mais tarde transformada em editora, dedicada à literatura experimental. O poeta morreu em Linz, em 2003.

A Modo de Usar & Co. apresenta 3 poemas visuais de Heimrad Bäcker, da década de 80, criados em sua pesquisa histórica sobre o extermínio de judeus pelos nazistas. Sua escolha é pelo silêncio pessoal de respeito e a apresentação de documentos que gritam por si mesmos. Os três poemas são chamados de "epitáfios".

Ontem, 10 de maio de 2008, completaram-se 75 anos da noite em que livros foram queimados numa grande fogueira em Berlim, na Bebelplatz, na frente da Universidade Humboldt. O tom da "comemoração" e memorial do evento aqui na Alemanha tomou, em alguns aspectos e em meio ao vozerio de boas intenções, o sussurro do eufemismo e da banalização espetacular, encabeçados pela epígrafe repetida inúmeras vezes neste contexto: a declaração do poeta judeu Heinrich Heine (1797 - 1856), que foi impedido em seu tempo de exercer a profissão que escolhera por ser judeu e morreu no exílio, banido por seu ativismo político, de que "wo man Bücher verbrennt, verbrennt man auch am Ende Menschen", ou seja, "onde se queimam livros, acabarão por queimar por fim também pessoas." Os poemas de Heimrad Bäcker trazem de forma clara à consciência política e poética esta causalidade expressa na frase de Heine, que se fez verdadeiramente histórica na Alemanha nazista. Outra data se faz importante neste contexto, que apresenta os trabalhos de um poeta austríaco: em 2008 completam-se os 60 anos da anexação da Áustria pelo Terceiro Reich de Hitler, anexação que foi celebrada pela grande parte dos austríacos da época, prontos para colaborar com o projeto nazista. Após a guerra, o período 1938 - 1945 foi relegado ao eufemismo dos chamados "anos alemães". Esta hipocrisia seria fortemente combatida por poetas e escritores austríacos do pós-guerra, como Thomas Bernhard, Ingeborg Bachmann, H.C. Artmann e Heimrad Bäcker.


epitáfio (1) – 1989

documentos da história dos judeus de frankfurt (1933-1945), capítulos I 1 – XIV 15.

Nota do tradutor: A expressão "nach dem osten nach dem osten" ao final deste primeiro poema pode ser traduzida como "para o leste para o leste".





epitáfio (2) – 1989

texto rotativo com abreviações dos nomes dos campos de concentração alemães de dachau, sachsenhausen, buchenwald, mauthausen, etc. (usadas para comunicação interna)





epitáfio (3) – 1986

plano ferroviário nr. 587 da direção geral da ostbahn (ferrovia do leste), do dia 15 de setembro de 1942: “trem especial para migrantes”


Notas: Sedziszow, Szydlowiec e Kosienice são cidades do interior da Polônia. O campo de extermínio de Treblinka é o mais conhecido dos quatro campos de extermínio da chamada “Operação Reinhard”, nome dado pelos nazistas para o programa de extermínio dos judeus poloneses. Treblinka foi o destino da grande maioria dos judeus do Gueto de Varsóvia. Entre julho de 1942 e setembro de 1943, cerca de 750.000 judeus foram assassinados no campo. Em agosto de 1943, cerca de 1.500 prisioneiros judeus iniciaram uma revolta. Tomando armas de pequeno porte e querosene, conseguiram incendiar a maior parte dos prédios do campo. Alguns soldados nazistas foram mortos na revolta, mas ao fim apenas algumas dezenas dos prisioneiros sobreviveram. O extermínio estava muito próximo de ser completado, mas após a revolta o campo de Treblinka tornou-se inoperável. O campo foi oficialmente fechado em novembro de 1943, após o fuzilamento do último grupo de prisioneiros (cerca de 40 meninas). O diretor do campo de extermínio de Treblinka, o austríaco Franz Stangl, fugiu para o Brasil, onde viveu por quase duas décadas usando seu nome verdadeiro e até mesmo registrado oficialmente no Consulado da Áustria em São Paulo, onde viveu. Só seria extraditado em 1967 e condenado pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e crianças, assassinatos sobre os quais comentou de forma leviana: “Eu apenas fiz meu trabalho.”





9228 de sedziszow para treblinka

9229 trem vazio

9230 de szydlowiec para treblinka

9231 trem vazio

9232 de szydlowiec para treblinka

9233 trem vazio

9234 de kosienice para treblinka

9235 trem vazio



tradução e notas de Ricardo Domeneck

terça-feira, 1 de maio de 2012

Traduzindo Hans Magnus Enzensberger (I): "A merda"

A merda

Sempre ouço falar dela
como se de tudo tivesse culpa.
Vejam, que macia e modesta
ela se posiciona sob nós!
Por que então maculamos
seu bom nome
e o emprestamos
ao Presidente dos EUA,
aos policiais, à guerra,
e ao capitalismo?

Como é transitória
e quão duradouro
aquilo a que doamos seu nome!
Ela, a transigente,
deixa-se levar na ponta da língua
quando falamos do explorador!
Ela, que nós esprememos,
tem agora ainda que exprimir
nossa ira?

Ela não nos aliviou?
De constituição macia
e inerentemente dócil,
de todas as obras dos homens
é provável que seja a mais pacífica.
O que ela fez contra nós?

(tradução de Ricardo Domeneck)

:


Die Scheisse
Hans Magnus Enzensberger

Immerzu höre ich von ihr reden
als wäre sie an allem schuld.
Seht nur, wie sanft und bescheiden
sie unter uns Platz nimmt!
Warum besudeln wir denn
ihren guten Namen
und leihen ihn
dem Präsidenten der USA,
den Bullen, dem Krieg
und dem Kapitalismus? 

Wie vergänglich sie ist,
und das was wir nach ihr nennen
wie dauerhaft!
Sie, die Nachgiebige,
führen wir auf der Zunge
und meinen die Ausbeuter.
Sie, die wir ausgedrückt haben,
soll nun auch noch ausdrücken
unsere Wut? 

Hat sie uns nicht erleichtert?
Von weicher Beschaffenheit
und eigentümlich gewaltlos
ist sie von allen Werken des Menschen
vermutlich das friedlichste.
Was hat sie uns nur getan?

segunda-feira, 30 de abril de 2012

I have nothing to say / so I let others say it / and that is poetry / as I need it

I have nothing to say / so I let others say it / and that is poetry / as I need it


 


The Dead Flag Blues 
Efrim Menuck / Godspeed You! Black Emperor 

The car is on fire, and there's no driver at the wheel
And the sewers are all muddied with a thousand lonely suicides
And a dark wind blows 

The government is corrupt
And we're on so many drugs
With the radio on and the curtains drawn 

We're trapped in the belly of this horrible machine
And the machine is bleeding to death 

The sun has fallen down
And the billboards are all leering
And the flags are all dead at the top of their poles 

It went like this: 

The buildings tumbled in on themselves
Mothers clutching babies 
Picked through the rubble
And pulled out their hair 

The skyline was beautiful on fire
All twisted metal stretching upwards
Everything washed in a thin orange haze 

I said, "Kiss me, you're beautiful -
These are truly the last days" 

You grabbed my hand 
And we fell into it
Like a daydream 
Or a fever 

We woke up one morning and fell a little further down
For sure it's the valley of death 

I open up my wallet
And it's full of blood

§


"To Elsie" or "The pure products of America / go crazy"
William Carlos Williams
from Spring and all (1923)

The pure products of America
go crazy--
mountain folk from Kentucky

or the ribbed north end of
Jersey
with its isolate lakes and

valleys, its deaf-mutes, thieves
old names
and promiscuity between

devil-may-care men who have taken
to railroading
out of sheer lust of adventure--

and young slatterns, bathed
in filth
from Monday to Saturday

to be tricked out that night
with gauds
from imaginations which have no

peasant traditions to give them
character
but flutter and flaunt

sheer rags succumbing without
emotion
save numbed terror

under some hedge of choke-cherry
or viburnum--
which they cannot express--

Unless it be that marriage
perhaps
with a dash of Indian blood

will throw up a girl so desolate
so hemmed round
with disease or murder

that she'll be rescued by an
agent--
reared by the state and

sent out at fifteen to work in
some hard-pressed
house in the suburbs--

some doctor's family, some Elsie
voluptuous water
expressing with broken

brain the truth about us--
her great
ungainly hips and flopping breasts

addressed to cheap
jewelry
and rich young men with fine eyes

as if the earth under our feet
were
an excrement of some sky

and we degraded prisoners
destined
to hunger until we eat filth

while the imagination strains
after deer
going by fields of goldenrod in

the stifling heat of September
somehow
it seems to destroy us

It is only in isolate flecks that
something
is given off

No one
to witness
and adjust, no one to drive the car

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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Hanne Lippard e a cor ... bege





Hanne Lippard é uma poeta trabalhando com o que poderia ser chamado de verbivocovisual, mas não como ele é compreendido no Brasil, pois em suas peças o vocal faz-se realmente presente e não apenas implícito, e o visual busca possibilidades para além da mera teatralização do signo. É poeta do que eu chamaria de "textualidade". Nasceu na Inglaterra, mas cresceu na Noruega. Vive em Berlim há alguns anos. Abaixo você pode assistir a uma de minhas peças favoritas da poeta, intitulada "Beige".

 


Você pode ver/ouvir outras peças da poeta, nascida em 1986, na página recentemente dedicada a seu trabalho em minha Hilda Magazine.






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quarta-feira, 25 de abril de 2012

"Um personagem de carne e osso", artigo de Schneider Carpeggiani sobre meu "Ciclo do amante substituível", publicado na revista Continente.



DOMENECKUm personagem de carne e osso

Livro de poeta brasileiro radicado na Alemanha incita questionamentos sobre fronteiras entre gêneros. Podemos ler poemas como romances? 

 por Schneider Carpeggiani, publicado no número de março de 2012 da revista Continente.


Ricardo Piglia nos fala sobre a existência de uma fotografia em que se vê Jorge Luis Borges tentando decifrar as letras de um livro que segura grudado ao rosto. Lê as páginas abertas à sua frente como se estivesse diante da tábua de revelação do mundo, ou mesmo já prenunciando que aquelas letras seriam as últimas que enxergaria. Borges foi o “leitor-modelo” do século 20, alguém que deixou como ensinamento maior a perspectiva de que a ficção não depende de quem a constrói, mas de quem a lê. É possível ler tudo como ficção. É também possível ler tudo como verdade. O leitor é um investigador que cria suas suposições e trilhas a despeito da sociedade, das convenções e do criador original da obra. Leitura é declaração de independência. Ao publicar um livro com o título Ciclo do amante substituível (frisando a precisão “do” amante e não “de” um amante), o poeta brasileiro, radicado em Berlim, Ricardo Domeneck, deixa uma trilha de biografemas para que o leitor siga e, talvez, perca-se. Há ainda a dedicatória “a Jannis Birsner”, que nos leva a farejar outras conexões possíveis. Seria Jannis o tal amante substituível ou o arquétipo perfeito de todos os amantes que já substituímos e/ou substituiremos algum dia? Ou o escritor estaria propondo um exercício de exibicionismo público, despindo, como um stripper, suas frustrações para uma plateia de leitores? Os questionamentos prosseguem: É possível ler um livro de poemas como um romance? Ou com os pressupostos esperados de uma autobiografia sensacionalista, menosprezando assim a intrincada matemática exigida por um verso? Borges, certamente, abençoaria essas possibilidades e transformaria a dedicatória para Jannis em algo tão palpável e concreto quanto o mundo de Tlön, que o escritor argentino jurou ter encontrado num verbete da Enciclopédia Britânica.

O poeta (como Domeneck gosta de ser chamado) dá início ao seu livro justamente com um texto em prosa (o único em toda a obra), no qual lista perdas e danos, como se necessitasse de um prólogo (ou seja: uma desculpa, um álibi) que sustentasse as palavras a seguir e ampliasse nossa curiosidade em torno de um Jannis feito de carne, osso e abandono: “Seja para sair pela porta da frente ou receber pelo correio o convite para retirar-me, carrego as próprias pernas com os dentes, cão com o rabo entre as costelas fazendo ligações a cobrar, tanto para o serviço de atendimento ao perdedor como para o que me derrota, o derrocado. Minhas mandíbulas desacostumaram-se das mordidas, culpa dos meses em que ladrei apenas com legendas”. Pelo restante do livro, o poeta declara que toda Medeia pouca é bobagem e se confessa uma Medeia-Maysa. Parece saber – e nos avisar – que toda desilusão amorosa se equilibra entre a tragédia grega e uma música popular. Como estamos falando de uma obra que tematiza ciclos, há um ponto que antecede a irrevogável substituição do amante. O instante zero de fascínio amoroso. Jannis recebe a precisa dedicatória do poema "Texto em que o poeta celebra o amante de vinte e cinco anos", que enaltece o êxtase e desconhece o amargor de um samba-canção:

“Houve / guerras mais duradouras / que você. / Parabenizo-o pelo sucesso/ hoje/ de sobreviver à expectativa/ de vida/ de uma girafa ou morcego,/ vaca/ velha ou jiboia-constritora,/ coruja./ Pinguins, ao redor do mundo, e porcos,/ com você concebidos, morrem./ Saturno,/ desde que se fechou seu óvulo,/ não/ circundou o Sol uma vez única”.

Jannis reaparece, ainda que desta vez não evocado diretamente, como a inspiração capaz de resgatar o poeta de uma existência pregressa de desilusões, fazendo-nos entrever que nem sempre a crença num “ciclo do amante substituível” foi uma realidade irrevogável. Houve, sim, um momento de suspensão, um “antes” da máscara de Medeia-Maysa ser uma fantasia pouco carnavalesca colada à face: “nunca mais comensal de farelos e migalhas/ de machos-alfa ou godfathers,/ e doravante/ não mais sofresse a dependência/ dos movimentos voluntários/ alheios/ para exercitar no amante meus cinco sentidos,/ ou acabar, como sempre dantes, forçado,/ com minha própria mão febril/ sobre minha própria testa,/ a constatar e provar a mim mesmo a minha febre,/ pois relegaria a você, moço,/ a regulação da nossa temperatura”. Jannis é o amante, mas não o único objeto de desejo, a trafegar diante de um escritor carente por epifanias (como costumam ser os escritores) e por musos ocasionais. O poema "O acordeonista da Catedral de Bruxelas" se ergue num crescendo de erotismo, na visão ideal que parece ser o desejo de todo flâneur:

“De Bruxelas eu/ esperava tudo, talvez (…)/ mas não/ este acordeonista/ loiro de 20 anos/ diante da Catedral,/ sim, a de Bruxelas,/ acordeonista loiro e imberbe,/ alto e imundo,/ a quem doei 2 euros/ num excitativo segundo de tato/ entre sua mão e meus dedos fechados/ abrindo-se em bojo sobre sua palma/ após fazer com a visão/ o rodízio contemplativo e luxurioso”.

 O acordeonista permanece anônimo até o fim do poema, como anônimas costumam ser essas fantasias/visões, a despeito da frustração do poeta em travar alguma possível maior intimidade: “e passarei a chamar de Loïc/ ou quem sabe Guillaume/ pelo resto dos meus dias/ após falhar em criar os colhões/ de pedir seu nome”. O acordeonista, um desconhecido, assim como de certa forma acaba sendo Jannis, esse alvo de uma dedicatória, que acabamos conhecendo tanto e tão pouco ao final do livro. É compreensível. Afinal, Ciclo do amante substituível é uma obra de ficção, embora sua narrativa pareça devedora de pessoas e fatos reais, negando qualquer mera coincidência. E é justamente nessa fricção entre memória e imaginação que uma obra literária faz sentido e nos proporciona a liberdade borgiana de interpretá-la à nossa vontade. Somos nós que escolhemos o ponto exato onde parar no ciclo dos amantes; é nossa a escolha de substituir ou não a figura de Jannis, ainda que estejamos diante de uma roda-viva.

Escritor de obsessivo cuidado com a escolha da palavra exata (para além de biografemas e conjecturas que venham a atropelar o leitor), Domeneck fez da sua “teoria” sobre um possível (e não o possível, para não sermos tão deterministas quanto o poeta) ciclo do amante substituível uma obra de pura sedução estética.


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domingo, 22 de abril de 2012

"22 de abril de 2012"




22 de abril de 2012

quinhentos e doze
como se os quinhões
de terra chegaram
com as caravelas

quinhentos e doze
mas não tão brasis
daquilo que queima
e sim de hemorragia

quinhentos e doze
de invasão genocídio
escravidão misoginia
com governo central

quinhentos e doze
ensinando ao mundo
não pisar no mais fraco
sem rebolar sobre ele

quinhentos e doze
adicionando pitadas
de sex appeal molejo
à brutalidade violência

quinhentos e doze
nos quais iludimo-nos
que umas canções
nos absolvem, redimem


Ricardo Domeneck, 22 de abril de 2012.

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terça-feira, 17 de abril de 2012

Pensando sobre o trabalho de Adrienne Rich, seu contexto e suas implicações


Ao ler a poesia de Adrienne Rich pela primeira vez, no fim do século passado, ela não captou muito do meu interesse. À época eu estava preocupado e interessado demais em outros aspectos do fazer poético, pesquisando a instância experimental e particularmente antidiscursiva dos poetas norte-americanos, extremamente diversos entre si, ligados à Black Mountain College, como Charles Olson, Robert Creeley, John Cage ou Robert Duncan; os poetas da Escola de Nova Iorque, especialmente Frank O´Hara e John Ashbery, com sua poética pós-dadaísta; e, numa geração posterior, a pesquisa de autoras associadas à revista
L=A=N=G=U=A=G=E, especialmente Lyn Hejinian, Rosmarie Waldrop e Susan Howe.

Voltei a ler o trabalho de Adrienne Rich por volta de 2006, ano em que dediquei muito do meu tempo à leitura de crítica, ao ler o livro Self and Sensibility in Contemporary American Poetry (1984), do crítico norte-americano Charles Altieri, no qual faz uma discussão longa e elaborada sobre os papeis socioculturais que a poesia lírica pode ainda assumir em nossa era. Nele, o crítico discute três poetas de forma mais detida: Robert Creeley, num capítulo intitulado "Robert Creeley´s poetics of conjecture: the pains and pleasures of staging a self at war with its own lyric desires"; John Ashbery, no capítulo "John Ashbery: discursive rhetoric within a poetics of thinking"; e nossa poeta em questão, no capítulo "Self-reflection as action: the recent work of Adrienne Rich". Charles Altieri aponta ali John Ashbery e Adrienne Rich como aqueles que melhor cumpriram algumas das funções ainda possíveis para o poeta como voz comunitária no pós-guerra norte-americano. O livro, polêmico em suas asserções, afirmaria que a poesia de Robert Creeley seria falha neste aspecto. Como escrevi em minha pequena nota sobre Rich para a Modo de Usar & Co., não me subscrevo às opiniões do crítico, mas recomendo o livro como discussão bastante interessante e inteligente sobre os dilemas que poetas líricos enfrentam nos dias de hoje. Naquele momento, o que me interessava era a maneira como Ashbery, munido de uma poética muitas vezes tão antidiscursiva, podia assumir tais funções aos olhos do crítico.

Foi apenas mais recentemente, pesquisando sobre poetas que lidaram em sua poesia com a conturbada relação GENDER/GENRE, que retornei a Adrienne Rich. Vejamos um dos seus poemas mais famosos, o que dá título a seu primeiro livro importante, Diving into the wreck (1973):

Diving into the Wreck
Adrienne Rich

First having read the book of myths,
and loaded the camera,
and checked the edge of the knife-blade,
I put on
the body-armor of black rubber
the absurd flippers
the grave and awkward mask.
I am having to do this
not like Cousteau with his
assiduous team
aboard the sun-flooded schooner
but here alone.

There is a ladder.
The ladder is always there
hanging innocently
close to the side of the schooner.
We know what it is for,
we who have used it.
Otherwise
it is a piece of maritime floss
some sundry equipment.

I go down.
Rung after rung and still
the oxygen immerses me
the blue light
the clear atoms
of our human air.
I go down.
My flippers cripple me,
I crawl like an insect down the ladder
and there is no one
to tell me when the ocean
will begin.

First the air is blue and then
it is bluer and then green and then
black I am blacking out and yet
my mask is powerful
it pumps my blood with power
the sea is another story
the sea is not a question of power
I have to learn alone
to turn my body without force
in the deep element.

And now: it is easy to forget
what I came for
among so many who have always
lived here
swaying their crenellated fans
between the reefs
and besides
you breathe differently down here.

I came to explore the wreck.
The words are purposes.
The words are maps.
I came to see the damage that was done
and the treasures that prevail.
I stroke the beam of my lamp
slowly along the flank
of something more permanent
than fish or weed

the thing I came for:
the wreck and not the story of the wreck
the thing itself and not the myth
the drowned face always staring
toward the sun
the evidence of damage
worn by salt and away into this threadbare beauty
the ribs of the disaster
curving their assertion
among the tentative haunters.

This is the place.
And I am here, the mermaid whose dark hair
streams black, the merman in his armored body.
We circle silently
about the wreck
we dive into the hold.
I am she: I am he

whose drowned face sleeps with open eyes
whose breasts still bear the stress
whose silver, copper, vermeil cargo lies
obscurely inside barrels
half-wedged and left to rot
we are the half-destroyed instruments
that once held to a course
the water-eaten log
the fouled compass

We are, I am, you are
by cowardice or courage
the one who find our way
back to this scene
carrying a knife, a camera
a book of myths
in which
our names do not appear.



A estratégia aqui, numa linguagem imagético-discursiva e extremamente direta, ainda que se entregue a certas circunvoluções metafóricas, é claramente formada por escolhas bastante distintas das de poetas que começaram a escrever à mesma época, como Lyn Hejinian e Rosmarie Waldrop. Vejamos dois textos destas últimas, especificamente de
My Life (Hejinian) e Lawn of excluded middle (Waldrop):


The windows were open and the morning air was, by the smell of lilac and some darker flowering shrub, filled with the brown and chirping trills of birds. As they are if you could have nothing but quiet and shouting. Arts, also, are links. I picture an idea at the moment I come to it, our collision. Once for a time, anyone might have been luck's child. Even rain didn't spoil the barbecue, in the backyard behind a polished traffic, through a landscape, along a shore. Freedom then, liberation later. She came to babysit for us in those troubled years directly from the riots, and she said that she dreamed of the day when she would gun down everyone in the financial district. That single telephone is only one hair on the brontosaurus. The coffee drinkers answered ecstatically. If your dog stays out of the room, you get the fleas. In the lull, activity drops. I'm seldom in my dreams without my children. My daughter told me that at some time in school she had learned to think of a poet as a person seated on an iceberg and melting through it. It is a poetry of certainty. In the distance, down the street, the practicing soprano belts the breeze. As for we who "love to be astonished," money makes money, luck makes luck. Moves forward, drives on. Class background not landscape--still here and there in 1969 I could feel the scope of collectivity. It was the present time for a little while, and not so new as we thought then, the present always after war. Ever since it has been hard for me to share my time. yellow of that sad room was again the yellow of naps, where she waited, restless, faithless, for more days. They say that the alternative for the bourgeoisie was gullibility. Call it water and dogs. Reason looks for two, then arranges it from there. But can one imagine a madman in love. Goodbye; enough that was good. There was a pause, a rose, something on paper. I may balk but I won't recede. Because desire is always embarrassing. At the beach, with a fresh flush. The child looks out. The berries are kept in the brambles, on wires on reserve for the birds. At a distance, the sun is small. There was no proper Christmas after he died. That triumphant blizzard had brought the city to its knees. I am a stranger to the little girl I was, and more--more strange. But many facts about a life should be left out, they are easily replaced. One sits in a cloven space. Patterns promote an outward likeness, between little white silences. The big trees catch all the moisture from what seems like a dry night. Reflections don't make shade, but shadows are, and do. In order to understand the nature of the collision, one must know something of the nature of the motions involved--that is, a history. He looked at me and smiled and did not look away, and thus a friendship became erotic. Luck was rid of its clover.

My Life, Lyn Hejinian.

§


It’s a tall order that expects pain to crystallize into beauty. And we must close our eyes to conceive of heaven. The inside of the lid is fertile in images unprovoked by experience, or perhaps its pressure on the eyeball equals prayer in the same way that inference is a transition toward assertion, even observing rites of dawn against a dark and empty background. I have read that female prisoners to be hanged must wear rubber pants and a dress sewn shut around the knees because uterus and ovaries spill with the shock down the shaft.

Lawn of excluded middle, Rosmarie Waldrop.


Estou ciente de que os dois livros de Hejinian e Waldrop são posteriores (1984 e 1993, respectivamente) ao de Rich, mas as diferenças aqui vistas marcam o trabalho das poetas. A indeterminação, para usar expressão de uma crítica como Marjorie Perloff que já ironizou a poética imagético-discursiva de outras poetas como Adrienne Rich, é o que comanda a atenção composicional de Hejinian e Waldrop, buscando uma intervenção política mais na maneira como uma mulher usa a língua que naquilo que é dito ou na ironia contra a imagética geralmente usada para definir a sensibilidade feminina, esta última estratégia a que Adrienne Rich prefere. No trabalho de uma poeta como Bernadette Mayer, que já discuti algumas vezes aqui, talvez encontremos um ponto de equilíbro entre estas estratégias, como no grande poema "Eve of Easter", que Mayer lê no vídeo abaixo a 26 de abril de 1978:



No entanto, imagino que para uma poeta-ativista como Adrienne Rich, tais estratégias parecessem demasiado oblíquas. Basta lermos seu discurso ao aceitar o National Book Award de 1974, justamente pelo livro Diving into the wreck, escrito a seis mãos com Alice Walker e Audre Lorde, esta última ainda mais direta na batalha (peço aos homens brancos heterossexuais que pensem duas vezes antes de enviar mensagens ou comentários protestando - já que são sempre homens brancos heterossexuais que protestam nestes momentos):





Audre Lorde (1934 – 1992) , que também assinou o discurso/manifesto acima, teve um papel muito importante neste debate durante a segunda metade do século XX, denunciando o que a seu ver seria uma espécie de miopia racial dentro do discurso feminista, acusando feministas brancas de ignorarem diferenças entre as experiências de mulheres de grupos étnicos e sexuais distintos.





O poema de Adrienne Rich habilmente escolhido e traduzido por Ismar Tirelli Neto (leia-o ao final desta postagem), que publicamos esta semana na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co., talvez seja um exemplo perfeito para demonstrar a qualidade do trabalho de Adrienne Rich a partir de suas escolhas de intervenção. Sua linguagem faz-me pensar no belo poema precursor de Mina Loy, "The Effectual Marriage or the Insipid Narrative of Gina and Miovanni":


The Effectual Marriage or the Insipid Narrative of Gina and Miovanni (excertos)
Mina Loy

(...)

In the evening they looked out of their two windows
Miovanni out of his library window
Gina from the kitchen window
From among his pots and pans
Where he so kindly kept her
Where she so wisely busied herself
Pots and Pans she cooked in them
All sorts of sialagogues
Some say that happy women are immaterial

So here we might dispense with her
Gina being a female
But she was more than that
Being an incipience a correlative
an instigation of the reaction of man
From the palpable to the transcendent
Mollescent irritant of his fantasy
Gina had her use Being useful
contentedly conscious
She flowered in Empyrean
From which no well-mated woman ever returns

(...)

While Miovanni thought alone in the dark
Gina supposed that peeping she might see
A round light shining where his mind was
She never opened the door
Fearing that this might blind her
Or even
That she should see Nothing at all
So while he thought
She hung out of the window
Watching for falling stars
And when a star fell
She wished that still
Miovanni would love her tomorrow
And as Miovanni
Never gave any heed to the matter
He did
(...)

Os trabalhos de poetas como Mina Loy e Muriel Rukeyser têm sido aos poucos reivindicados como precursores de tantas destas intervenções, por críticas como Marjorie Perloff (que escreveu longamente sobre Loy) e por poetas como Rachel Blau DuPlessis ou a própria Adrienne Rich, que viria a escrever sobre a última: "Rukeyser was one of the great integrators, seeing the fragmentary world of modernity not as irretrievably broken, but in need of societal and emotional repair." Talvez como o de outros poetas da década de 30 norte-americana, geração tão politizada e ativista quanto a brasileira, britânica e alemã da mesma década, o trabalho de Rukeyser, como o de Rexroth e Patchen, por exemplo, parecem sofrer do mesmo silêncio que por anos caiu sobre George Oppen e Louis Zukofsky, até que os poetas do pós-guerra os reivindicaram como mestres.

Satirizando um dos clichês sobre mulheres, numa intervenção sutil na política dos gêneros como a que Clarice Lispector também faria, Muriel Rukeyser escreveu seu "St. Roach", ou "Sta. Barata":

St. Roach
Muriel Rukeyser

For that I never knew you, I only learned to dread you,
for that I never touched you, they told me you are filth,
they showed me by every action to despise your kind;
for that I saw my people making war on you,
I could not tell you apart, one from another,
for that in childhood I lived in places clear of you,
for that all the people I knew met you by
crushing you, stamping you to death, they poured boiling
water on you, they flushed you down,
for that I could not tell one from another
only that you were dark, fast on your feet, and slender.
Not like me.
For that I did not know your poems
And that I do not know any of your sayings
And that I cannot speak or read your language
And that I do not sing your songs
And that I do not teach our children
to eat your food
or know your poems
or sing your songs
But that we say you are filthing our food
But that we know you not at all.

Yesterday I looked at one of you for the first time.
You were lighter that the others in color, that was
neither good nor bad.
I was really looking for the first time.
You seemed troubled and witty.

Today I touched one of you for the first time.
You were startled, you ran, you fled away
Fast as a dancer, light, strange, and lovely to the touch.
I reach, I touch, I begin to know you.


Adrienne Rich publicaria ainda os livros Twenty-one Love Poems (1976), The Dream of a Common Language (1978), A Wild Patience Has Taken Me this Far (1982), Sources (1983), Your Native Land, Your Life (1986), Time’s Power (1989), An Atlas of the Difficult World (1991), Dark Fields of the Republic (1995), Midnight Salvage (1999), Fox (2001), The School Among the Ruins (2004), Telephone Ringing in the Labyrinth (2007) e o último Tonight No Poetry Will Serve (2010). Adrienne Rich morreu a 27 de março de 2012, aos 82 anos, em Santa Cruz, Califórnia.

Encerro esta postagem com o EXCELENTE poema traduzido por Ismar Tirelli Neto e dois vídeos com a autora.







§

§

POEMA DE ADRIENNE RICH

Instantâneos de Uma Nora

1.

Você, uma vez a bela de Shreveport,
cabelos tingidos de hena, a pele como pêssego,
ainda manda fazer vestidos como os que se usavam então,
e toca um prelúdio de Chopin
chamado por Cortot: “Deliciosas reminiscências
flutuam como perfume pela memória”.

Sua mente agora, mofando como bolo de casamento,
pesada de experiências inúteis, pródiga
em suspeitas, rumores, fantasias,
desmoronando sob o fio
do mero fato. Na primavera da vida.

Inquieta, o olhar faiscante, sua filha
limpa as colheres de chá, cresce para outro lado.

2.

Dando com a cafeteira na pia
ela escuta o reproche dos anjos, e fita
o céu desgrenhado para além de jardins impecáveis.
Não faz mais de uma semana desde que disseram: Não tenha paciência.

Da próxima foi: Seja insaciável.
E depois: Salve-se. Aos demais, não poderá salvar.
Por vezes tem deixado a água da torneira lhe escaldar o braço,
um fósforo queimar-lhe a unha do dedão,

ou posto a mão sobre a chaleira
bem na lã do vapor. São provavelmente anjos
posto que já nada a magoa, excetuando
a areia de cada manhã indo de encontro aos olhos.

3.

Uma mulher pensante dorme com monstros.
O bico que a agarra, ela se torna. E a Natureza,
este ainda cômodo, destampado baú
cheio de tempora e mores
enche-se de tudo: …………… as flores de laranjeira cobertas de orvalho,
os contraceptivos, os terríveis seios
de Boadiceia sob orquídeas e cabeças chatas de raposa.

Duas belas mulheres, trancadas em discussão,
ambas orgulhosas, argutas, sutis, ouço que gritam
por sobre a maiólica e os cacos de vidro
como Fúrias encurraladas para longe de suas presas:
A discussão ad feminam, todos os velhos punhais
que enferrujaram em minhas costas, o seu adentro
ma semblable, ma soeur!

IV.

Conhecendo-se bem demais uma na outra
seus dons sem puro desfrute, mas espinhos
a agulha afiada contra uma ponta de escárnio…
Lendo enquanto espera
aquecer o ferro,
escrevendo, Minha vida – encostada pelos cantos
naquela despensa em Amherst enquanto as geleias fervem e escumam,
ou, com maior frequência,
de olhos fitos e embicada e obstinada como uma ave,
tirando poeira a todo o triquetraque da vida cotidiana.

5.

Dulce ridens, dulce loquens
ela depila as pernas até brilharem
como petrificadas presas de mamute.

6.

Quando canta Corina a seu alaúde
não são dela nem letra nem música;
somente os longos cabelos descaindo-se
sobre a bochecha, somente a canção
da seda contra os joelhos,
e mesmo estes
ajustam-se nos reflexos de um olho.

Empertigada, trêmula e insatisfeita, ante
uma porta destrancada, a jaula das jaulas,
diga-nos, sua ave, sua trágica máquina –
será isto fertilisante douleur? Esmagada
pelo amor, para ti a única reação natural,
estarás acirrada a ponto
de arrombar os segredos do cofre? a Natureza,
nora, mostrou-te enfim os livros de contabilidade
que seu próprio filho sempre ignorou?

7.

Ter neste incerto mundo alguma posição
inabalável é
da maior importância.
…………………………………….Assim escreveu
uma mulher, em parte boa e em parte audaz,
que lutou com o que não compreendia de todo.
Poucos homens a seu redor teriam feito mais,
portanto a rotularam puta, megera, engodo.

8.

Morreis todos aos quinze anos”, disse Diderot,
mudando-se metade em lenda, metade em convenção.
No entanto, olhos sonham equivocamente
por detrás de janelas fechadas, empastadas de vapor.
Deliciosamente, tudo o que poderíamos ter sido,
tudo o que fomos – fogo, lágrimas,
espírito, gosto, ambição martirizada –
agita-se como a lembrança do adultério recusado
o seio murcho e esvaziado de nossa “meia idade”.

9.

Não que se faça bem, mas
que se faça e ponto? Pois bem, pense
nas possibilidades! ou ignore-as para sempre.
Estes luxos da criança precoce,
a querida inválida do Tempo –
abdicaríamos, minhas caras, se nos fosse dado?
Nossa praga foi também nossa sinecura:
mero talento nos bastava –
brilho em rascunhos e fragmentos.

Não mais suspirem, minhas senhoras.
………………………………………………………..O tempo é macho
e em suas taças bebe ao belo.
Divertidas pelo galanteio, ouvimos
enquanto nos louvam as mediocridades,
indolência lida como abnegação,
desleixo lido como intuição refinada,
cada deslize perdoado, o único crime sendo
estampar uma sombra demasiado notável
ou sumariamente destruir o molde.

Para isso, a solitária,
o gás lacrimogênio, os estilhaços.
Poucas pleiteam este tipo de honra.

13.

……………………………………………………….Bom,
ela posterga sua chegada, que lhe deve parecer
tão pouco clemente quanto a própria história.
A mente cheia ao vento, vejo-a mergulhar
de seios e relanceando pelas correntezas,
tomando a luz sobre si,
pelo menos tão bela quanto qualquer menino
ou helicóptero,
…………………………………………..empertigada, chegando ainda,
suas finas hélices fazendo o ar recuar
mas sua carga
já nenhuma promessa:
entregue
palpável
nossa.

1958 – 1960

(tradução de Ismar Tirelli Neto)

§

Snapshots of a Daughter-in-Law

1.

You, once a belle in Shreveport,
with henna-colored hair, skin like a peachbud,
still have your dresses copied from that time,
and plays a Chopin prelude
called by Cortot: “Delicious recollections
float like perfume through the memory”.

Your mind now, moldering like wedding-cake,
heavy with useless experience, rich
with suspicion, rumor, fantasy,
crumbling to pieces under the knife-edge
of mere fact. In the prime of your life.

Nervy, glowering, your daughter
wipes the teaspoons, grows another way.

2.

Banging the coffee pot into the sink
she hears the angels chiding, and looks out
past the raked gardens to the sloppy sky.
Only a week since They said: Have no patience.

The next time it was: Be insatiable.
Then: Save yourself; others you cannot save.
Sometimes she’s let the tapstream scald her arm,
a match burn to her thumbnail,

or held her hand above the kettle’s snout
right in the wooly steam. They are probably angels,
since nothing hurts her anymore, except
each morning’s grit blowing into her eyes.
3.

A thinking woman sleeps with monsters.
The beak that grips her, she becomes. And Nature,
that sprung-lidded, still commodious
steamer-trunk of tempora and mores
gets stuffed with it all: ………………….. the mildewed orange-flowers
the female pills, the terrible breasts
of Boadicea beneath flat foxes’ heads and orchids.

Two handsome women, gripped in argument,
each proud, subtle, I hear scream
across the cut glass and majolica
like Furies cornered from their prey:
The argument ad feminam, all the old knives
that have rusted in my back, I drive in yours,
ma semblable, ma soeur!

4.

Knowing themselves too well in one another:
their gifts no pure fruition, but a thorn,
the prick filed sharp against a hint of scorn…
Reading while waiting
for the iron to heat,
writing, My life had stood – a Loaded Gun –
in that Amherst pantry while the jellies boil and scum,
or, more often,
iron-eyed and beaked and purposed as a bird,
dusting everything on the whatnot every day of life.
5.

Dulce ridens, dulce loquens
she shaves her legs until they gleam
like petrified mammoth-tusk.

6.

When to her lute Corinna sings
neither words nor music are her own;
only the long hair dipping
over her cheek, only the song
of silk against her knees
and these
adjusted in the reflection of an eye.

Poised, trembling and unsatisfied, before
an unlocked door, that cage of cages,
tell us, you bird, you tragical machine –
is this fertilisante douleur? Pinned down
by love, for you the only natural action,
are you edged more keen
to prise the secrets of the vault? has Nature shown
her household books to you, daughter-in-law,
that her son never saw?
7.

To have in this uncertain world some stay
which cannot be undermined, is
of the utmost consequence.
………………………………………………Thus wrote
a woman, partly brave and partly good,
who fought with what she partly understood.
Few men about her would or could do more,
hence she was labeled harpy, shrew and whore.

8.

You all die at fifteen”, said Diderot,
and turn part legend, part convention.
Still, eyes inaccurately dream
behind closed windows blankening with steam.
Deliciously, all that we might have been,
all that we were – fire, tears,
wit, taste, martyred ambition –
stirs like the memory of refused adultery
the drained and flagging bosom of our middle years.

9.

Not that it is done well, but
that it is done at all? Yes, think
of the odds! or shrug them off forever.
This luxury of the precocious child,
Time’s precious chronic invalid, –
would we, darlings, resign it if we could?
Our blight has been our sinecure:
mere talent was enough for us –
glitter in fragments and rough drafts.

Sigh no more, ladies.
………………………………Time is male
and in his cups drinks to the fair.
Bemused by gallantry, we hear
our mediocrities over-praised,
indolence read as abnegation,
slattern thought styled intuition,
every lapse forgiven, our crime
only to cast too bold a shadow
or smash the mold straight off.

For that, solitary confinement,
tear gas, attrition shelling.
Few applications for that honor.

10.

……………………………………………………………..Well,
she’s long about her coming, who must be
more merciless to herself than history.
Her mind full to the wind, I see her plunge
breasted and glancing through the currents,
taking the light upon her
at least as beautiful as any boy
or helicopter,
…………………………………………………poised, still coming,
her fine blades making the air wince
but her cargo
no promise then:
delivered
palpable
ours.

1958 – 1960

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