Ontem ocorreu a décima edição berlinense do Boiler Room. Meus amigos Anika e Obi Blanche fizeram uma discotecagem genial de abertura, antes de A Guy Called Gerald, Sandwell District, Session Victim e Silent Servant tomarem as mesas.
Estava lá com alguns amigos antigos e novos. Depois de um par de horas na sessão de discotecagens e concertos, saí com duas destas amigas recentes. Fomos a um boteco e começamos a nos entupir de vinho tinto. Conversamos muito sobre as hesitações e a impulsividade no momento da criação. Elas, reclamando de suas hesitações. Eu, de minha impulsividade. Uma delas, a poeta e artista visual irlandesa Doireann O. Malley, disse que gostaria que eu lesse um texto de Yve Lomax e me emprestou o quarto número da revista The Happy Hypocrite: A rather large weapon, editada por Maria Fusco. O texto de Lomax, baseando-se em Foucault e Agamben, intitula-se "To become an author (Necessity)" e é realmente interessante, tocando nos pontos de nossa conversa sobre hesitações, impulsividade. Mas, dentro da revista, foi de uma conversa entre os escritores Daniel Kane e Mark von Schlegell que retirei a citação abaixo, que gostaria de compartilhar com vocês. Quem fala é o norte-americano von Schlegell:
"I notice in the poetry world a new debate about the meaning of `hybrid´ poetry: the arguments seem to involve a kind of poetry which works different styles into it. I mean, the idea that a poem can contain competing `styles´ within itself and is therefore something new and exciting reveals not so much that there´s something new going on in poetry but that the poetry `scene´ is so closed-off from the other arts that it actually believes a mash-up of obscure 20th century poetic styles is a cause for hosannas. It´s not an accident that Richard Serra, Marcel Broodthaers, Dan Graham all started out as poets. This was around 1965. Contemporary art is way beyond poetry in its use of the hybrid, involving itself directly as it does with actually different genera of cultural production like architecture, music, even poetry. But that said, and to get back to your earlier point about why I portray `art´ and `poetry´ in a less than stellar light within my work, I would add that most of the art world is similarly provincial when perceived from the poetry sphere. The art world claims practically every day to have discovered self-publishing, critical theory and the chap book. Lyricism is courted without poetics. I wouldn´t be surprised if people in that world read Walt Whitman soon."
.
.
.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Só um pequeno aviso
Aos amigos que desejam acompanhar a série de artigos sobre a seleção de autores da FLIP 2012, quis avisar que a Deutsche Welle se interessou por aquele que tratará do número baixíssimo de mulheres no festival, e o pediu com exclusividade para sua publicação. Estou entrando em contato com o curador deste ano, e os de algumas outras edições, para que tenham a chance de comentar a situação. O artigo sairá na Deutsche Welle em um par de semanas.
.
.
.
.
.
.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
"Cigarros na cama" (2011), disponibilizado para download. Apoio ao livrosdehumanas.org
Soube através das redes sociais sobre a situação do Livros de Humanas, que disponibilizava livros raros e caros para estudantes que obviamente não podem pagar os preços absurdos de livrarias e estantes virtuais. O site foi fechado por decisão judicial. Voltarei ao assunto. Por ora, informo que me uni aos escritores Veronica Stigger, Eduardo Sterzi, Angélica Freitas, Idelber Avelar, Marília Garcia, Ismar Tirelli Neto, André Vallias e Victor Heringer, que disponibilizaram livros para download gratuito em solidariedade e apoio aos curadores do Livros de Humanas, disponibilizando ontem meu Cigarros na cama (2011). Na semana que vem, pretendo disponibilizar Carta aos anfíbios (2005).
quinta-feira, 24 de maio de 2012
FLIP 2012 homenageia grande poeta. Como anda sua relação com a poesia?
Carlos Drummond de Andrade, na página da FLIP 2012.
A edição de 2012 da Festa Literária Internacional de Paraty homenageia um dos grandes poetas brasileiros do século XX, Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987). Por ocasião, os cento e dez anos de seu nascimento. É certamente uma alegria ver, uma vez mais, um poeta no centro das homenagens daquele que se tornou o mais conhecido festival literário do país. É a quarta vez, num festival que chega este ano a sua décima edição: Vinícius de Moraes (1913 - 1980) foi o homenageado em 2003 – a primeira; Manuel Bandeira (1886 - 1968), em 2009; o escritor múltiplo (poeta, prosador, ensaísta e dramaturgo) Oswald de Andrade (1890 - 1954), em 2011; e agora, o itabirano. Se levarmos em consideração que, entre os outros seis homenageados – João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Jorge Amado, Nelson Rodrigues, Machado de Assis e Gilberto Freyre –, o último foi um grande sociólogo e pensador, temos uma curadoria razoavelmente equilibrada na importância dada à prosa e à poesia brasileiras - ao menos às já canonizadas. Estou ciente de que Machado e Rosa também escreveram poesia, mas ninguém há de insinuar que foi, sequer de longe, por suas produções poéticas que eles foram homenageados ou são hoje reverenciados. Quanto à decisão de homenagear apenas autores mortos, se ela denuncia a velha necrofilia crítica brasileira, isto já seria outra discussão, à qual não pretendo dedicar este artigo.
Ora, ninguém aqui é ingênuo; todos já estamos cansados de artigos nos quais a organização da FLIP recebe, justamente ou não, as contumazes acusações de ser mera vitrine comercial das grandes editoras do País. Ao mesmo tempo, ninguém realmente espera que as tendas da Festa se encham e seus copos de champagne se esvaziem, apinhando a programação com poetas. A festa dedica-se, obvia e compreensivelmente, aos produtores de prosa do País e do mundo - pois isto vende. Para tal, precisa ainda de suas celebridades. Desde que tenham qualidade literária, não há motivos para nos enfezarmos demais com os curadores. Imagino que o curador da edição deste ano, o jornalista Miguel Conde, esteja orgulhoso de poder trazer à festa brasileira o francês J.M.G. Le Clézio, galardoado com o Nobel em 2008; o inglês Ian Mcwean; o americano Jonathan Franzen, estrela da cena literária norte-americana e mundial; o espanhol Enrique Vila-Matas; e, por que não?, mesmo o sírio Adonis, um dos mais famosos poetas contemporâneos, candidato sério ao Nobel há vários anos.
Mesmo assim, não me parece absurdo observar de perto a seleção de autores feita pela curadoria, justamente na edição de um evento que tem como homenageado o grande poeta Carlos Drummond de Andrade. Afinal de contas, ainda que também tenha escrito prosa, ninguém há de insinuar que foi por suas crônicas que o mineiro tornou-se o gigante literário que nós hoje reverenciamos.
Foi com isso em mente que visitei esta noite a página oficial da FLIP 2012. Dos 40 escritores listados, pude contar 10 poetas – se tomarmos os nomes do chileno Alejandro Zambra e da escocesa Jackie Kay, que também escrevem poesia, ainda que pareçam estar claramente entre os convidados por seu trabalho em prosa. Voltamos uma vez mais ao problema: até que ponto o aspecto comercial deveria condicionar a seleção de um festival que se quer literário?
Se é papel de um festival como a FLIP reverter ou intervir num problema que tem, como base, complexas questões socioeconômicas, seria uma discussão larguíssima. É claro que tudo nos levaria, por exemplo, a uma discussão sobre os problemas educacionais brasileiros - isentando talvez a festa. No entanto, na discussão toda entraria certamente um debate sobre o financiamento do festival, quanto dinheiro público ali jorra e, portanto, quais suas responsabilidades socioculturais. Não tenho acesso a estas informações. Na página do festival, encontramos os logos da Lei de Incentivo à Cultura; do BNDES; da Secretaria de Cultura do Governo do Rio de Janeiro; e ainda da Petrobras.
Talvez seja utópico, idealista, ou apenas pouco realista esperar que a edição de 2012 da Festa Literária Internacional de Paraty, que homenageia o poeta Carlos Drummond de Andrade, tenha uma seleção mais equilibrada entre poetas e prosadores. Será realmente pouco convidar 10 poetas entre 40 escritores?
Confesso haver outras questões que me incomodam mais na seleção, ou me levam a questionamentos que complicam ainda mais a discussão. Uma delas: dos 7 poetas brasileiros convidados (ou quase todos os poetas, se excetuarmos Adonis, Zambra e Kay), apenas 1 tem menos de 50 anos. Apenas 3, menos de 60. A festa dá, em geral, espaço a escritores jovens. Conheço vários poetas de minha geração que já participaram de eventos anteriores. Este ano, entre os 30 "prosadores", pelo menos 7 são razoavelmente jovens, com menos de 40 anos.
A foto de Drummond usada na página da festa para a homenagem é, naturalmente, do Drummond que se tornou canônico em nossas mentes: o ancião, certamente já passados seus 80 anos. Trata-se de um fenônemo cultural, forte no Brasil. Mesmo que muitos dos mais famosos poemas – dos mais famosos poetas – tenham sido, com frequência, escritos quando estavam na casa dos 20 ou 30 anos, espera-se ainda do poeta algo como uma manifestação de sabedoria, talvez remanescente dos tempos em que os poetas da comunidade eram realmente os anciãos, que carregavam na mente e boca a história oral da tribo.
Mas pensemos no caso específico de Drummond: diz a História literária brasileira que o poeta tornou-se já bastante conhecido na cena poética nacional com a publicação do poema "No meio do caminho" na Revista de Antropofagia, em 1928. O poeta tinha 26 anos. Quando publicou seu primeiro livro, Alguma poesia (1930), tinha 28. O livro contém clássicos como "Poema de sete faces", "Quadrilha" e o próprio "No meio do caminho". Até completar 40 anos, publicaria os livros Brejo das almas (1934, com 32 anos), Sentimento do mundo (1940) e José (1942), com alguns de seus poemas mais famosos. Por muito tempo, parte do establishment literário nacional sequer considerava poesia o que o mineiro fazia. Se pensarmos na conferência de Mario de Andrade em 1942 como marco do triunfo institucional do Modernismo de 22 no establishment, tornando centrais no debate seus autores, seria correto pensar que apenas a partir daí o poeta Drummond teria sido considerado digno de participar de um festival de porte nacional e internacional no País?
Estou ciente de que tal meditação coloca grande pressão sobre os poetas jovens brasileiros, os que não foram jamais convidados para participar da FLIP, ou até mesmo sobre os mais velhos que foram convidados em anos anteriores ou neste. Para alguns, isso é querer compará-los a Drummond. Ou seja: dentre os poetas em atividade hoje no País, na casa dos 20 ou 30 anos, haveria algum que teria a importância que Drummond teve aos 20/30 anos? Não seria aconselhável se apressar na resposta. Pois temos que nos lembrar que o próprio Drummond teve por muito tempo sua obra considerada nos termos, tão frequentes ainda hoje, da famosa "mas isso não é poesia". Em todos os tempos, sempre houve cinquentões bradando que os mais jovens são péssimos poetas, apesar da História quase invariavelmente prová-los equivocados.
Mas, então, em que momento muda-se de opinião sobre a obra de um poeta? Gertrude Stein, em sua famosa conferência Composition as explanation, escreveu que "No one is ahead of his time, it is only that the particular variety of creating his time is the one that his contemporaries who also are creating their own time refuse to accept. And they refuse to accept it for a very simple reason and that is that they do not have to accept it for any reason". Ela continua:
"For a very long time everybody refuses and then almost without a pause almost everybody accepts. In the history of the refused in the arts and literature the rapidity of the change is always startling. Now the only difficulty with the volte-face concerning the arts is this. When the acceptance comes, by that acceptance the thing created becomes a classic. It is a natural phenomena a rather extraordinary natural phenomena that a thing accepted becomes a classic. And what is the characteristic quality of a classic. The characteristic quality of a classic is that it is beautiful. Now of course it is perfectly true that a more or less first rate work of art is beautiful but the trouble is that when that first rate work of art becomes a classic because it is accepted the only thing that is important from then on to the majority of the acceptors the enormous majority, the most intelligent majority of the acceptors is that it is so wonderfully beautiful. Of course it is wonderfully beautiful, only when it is still a thing irritating annoying stimulating then all quality of beauty is denied to it."
Perdoem-me a longuíssima citação, especialmente quando ela mais complica que aclara a discussão. Pois, aqui, seríamos obrigados a discutir nossa noção contemporânea de classicismo e modernidade, e quando esta última começa; questionar noções de linearidade histórica e evolução nas artes; entrar no ninho de vespas que é o debate sobre diacronia e sincronia; alguns se refeririam a Baudelaire, enquanto outros questionariam se este é mesmo o início de nossa modernidade, e não Rimbaud, ou Mallarmé, ou, a partir do interessantíssimo debate ao qual as traduções de Heine feitas por André Vallias poderiam ter-nos levado, mas não o fizeram por nossa preguiça, se foi o alemão; alguém, justamente, lembraria da querelle des anciens et des modernes, entre os literatos franceses do século XVII; ou será que Catulo já não teria sido moderno em alguma acepção do termo (teríamos então que voltar à raiz da palavra); ou, ainda, se não terá sido Calímaco, ao dizer que o modelo homérico ja não fazia sentido em seu tempo - século III antes da Era Comum – quem não instaurou a primeira querelle em suas disputas com Apolônio de Rodes. A questão é mais que complexa, talvez insolúvel.
Eu vou ensaiar uma minúscula contribuição à discussão, sobre o momento em que a aceitação de um autor torna-se clara e começa a estabelecer-se:
A geração que escolhe desperdiçar seus poetas, certamente os desperdiçaria até o fim, não houvesse um fator decisivo: os leitores mais jovens, aqueles que nascem em um mundo no qual tais obras são já fatos. São estes leitores que se sentem mais livres dos entrincheiramentos críticos engessados, aqueles decidindo a recepção de uma obra. Duvido que muitos dos leitores que viram "No meio do caminho" como uma perversão do que deveria ser a poesia (ou seja, aquilo que aprenderam a ver como poesia), tenham realmente mudado de opinião antes de morrerem. Foram muito provavelmente alguns poucos críticos e leitores da idade de Drummond, apoiados mais tarde por aqueles que nasceram após a criação de sua obra, que aos poucos impuseram sua percepção sobre tais poemas.
Assim como, para persarmos num exemplo recente, foram leitores mais jovens que começaram a transformar a recepção crítica das obras de autores como Hilda Hilst e Roberto Piva. Como são poetas e leitores mais jovens os que buscam hoje chamar a atenção para a qualidade da poesia de Leonardo Fróes.
Dessarte, eu perguntaria: se você está entre aqueles que consideram todos os poetas jovens brasileiros péssimos autores, e que o que fazem não é poesia, você tem certeza que as gerações nascendo hoje, ou em 10 anos, ou em 20 anos, não ridicularizarão nossa época por desperdiçar os poetas produzindo agora, na casa dos 20 e 30 anos? Podemos estar realmente certos de que nossa época será lembrada por sua prosa, não por sua poesia?
Talvez tenhamos nos afastado bastante da discussão inicial, sobre a seleção dos autores da FLIP 2012. Mas não demasiado. Pois o próprio curador desta edição, na página dedicada à homenagem a Drummond, comenta: "Embora hoje seja considerado um clássico, por muito tempo Drummond recebeu críticas duras de pessoas para as quais o que ele escrevia não merecia nem mesmo ser chamado de poesia."
Seria realmente muito, esperar que o curador de um festival do porte da FLIP se mostrasse consciente de autores que estejam talvez hoje, neste exato momento, questionando o dilema entre o moderno e o eterno, propondo desafios ao "que ainda hoje diversas pessoas consideram definidoras do que é uma boa poesia"?
Por fim, estas são questões est-É-ticas interessantes, que têm implicações políticas talvez distantes, mas não por isso menos importantes. Não é obrigação dos curadores responder por completo a uma questão que se forma a partir de problemas socioculturais e, portanto, inescapavelmente econômicos nos nossos dias. Ou será?
Mas diante de outras questões políticas muito mais sérias ao contemplar a seleção de autores deste ano, tudo isto chega a parecer, a mim mesmo, picuinha. Quantos poetas e quantos prosadores estão entre os autores da FLIP 2012? Não é exatamente uma aberração.
Aberração verdadeira e gritante é a façanha dos curadores ao terem, entre os 40 autores, conseguido convidar apenas 5 mulheres. É a esta questão que pretendo dedicar o próximo artigo, seguindo depois para uma avaliação da porcentagem de autores vindos de fora dos âmbitos culturais europeu e norte-americano.
.
.
.
domingo, 20 de maio de 2012
Traduzindo Hans Magnus Enzensberger (II): "Ela, aos trinta e três"
Ela, aos trinta e três
Ela imaginara tudo bem diferente.
Ainda este Volkswagen enferrujado.
Certa vez, quase casou-se com um padeiro.
Antes, costumava ler Hesse, depois, Handke.
Agora ela prefere resolver charadas na cama.
De homens, não tolera abusos.
Por anos foi trotskista, mas à sua maneira.
Jamais tocou num cupom de racionamento.
Quando pensa no Camboja, passa mal.
Seu último namorado, o acadêmico, gostava de apanhar.
Vestidos de batique esverdeados, largos demais para ela.
Parasitas nas plantas à janela.
Na verdade, queria pintar, ou emigrar.
Sua tese, Luta de classes em Ulm, 1500
a 1512, e suas marcas no cancioneiro:
bolsas, começos, e uma maleta cheia de notas.
De vez em quando, a avó manda-lhe dinheiro.
Danças acanhadas no banheiro, caretas,
horas de hidratante ao espelho.
Ela diz: pelo menos não morrerei de fome.
Quando chora, fica com cara de dezenove.
Hans Magnus Enzensberger, tradução de Ricardo Domeneck.
Nota 1, do título:
É possível, em alemão, ter substantivos derivados de numerais, para indicar a idade de alguém: die Dreiunddreißigjährige poderia ser traduzido como "a mulher de trinta e três anos", longo e explicativo demais. Optei por "ela, aos trinta e três", já que Enzensberger insiste em deixar claro o gênero da personagem no título.
Nota 2, do verso "Insetos nas plantas à janela":
Blattläuse são insetos específicos, conhecidos em português como afídios, pulgões ou piolhos-das-plantas, e Zimmerlinde é uma planta do gênero Sparmannia, da família das Malvaceae. Não consegui encontrar nome popular em português. Para evitar um verso como "Afídios na Sparmannia" ou mesmo "Pulgões na Sparmannia" (como a planta é chamada nas páginas de botânica que visitei), optei pela generalização questionável de "Insetos nas plantas à janela". Sugestões são bem-vindas.
Abaixo, outra opção, dentro do que eu costumava chamar de transcontextualização, apesar de, hoje em dia, ter desenvolvido pavor alérgico ao prefixo trans para tais abstrações. Uma contextualização, digamos.
Ela, aos trinta e três
Ela havia imaginado tudo bem diferente.
Ainda com este Fusca enferrujado.
Uma vez, quase casou-se com um padeiro.
Antes, costumava ler Clarice, depois, Cabral.
Agora ela prefere resolver charadas na cama.
Dos homens, não tolera abusos.
Por anos foi petista, mas à sua maneira.
Nunca recortou cupons de desconto em jornais.
Quando pensa no Afeganistão, passa mal.
Seu último namorado, o intelectual, gostava de apanhar.
Vestidos de batique esverdeados, largos demais para ela.
Pulgões nas folhas da samambaia.
Na verdade, queria pintar, ou emigrar.
Sua tese, Conflitos religiosos no Nordeste, 1889
a 1930, e suas marcas na música popular:
bolsas, começos, e uma gaveta cheia de notas.
De vez em quando, sua vó manda-lhe dinheiro.
Danças acanhadas no banheiro, caretinhas,
horas de hidratante ao espelho.
Ela diz: pelo menos não morrerei de fome.
Quando chora, fica com cara de dezenove.
Hans Magnus Enzensberger, contextualização de Ricardo Domeneck.
§ - Nota, do verso "Antes, costumava ler Clarice, depois, Cabral":
O desafio é conseguir encontrar equivalentes com o maior número de implicações comuns possíveis. Creio que o par "Hesse/Handke" (fiz questão de manter o jogo inicial das consoantes iguais) encontra algumas implicações/insinuações comuns em "Clarice/Cabral", mesmo que não a da diferença geracional. Após considerar a possibilidade "Graciliano/Gullar", que salvaria no entanto apenas o jogo visual-sonoro das consoantes iniciais e as diferenças geracionais, optei pelo jogo usado acima.
§ - Nota 2, do verso "Nunca recortou cupons de desconto em jornais"
No verso "Jamais tocou num cupom de racionamento", o alemão refere-se à luta por sobrevivência na Alemanha no período imediato ao fim da Segunda Guerra, quando muito dependia dos cupons de racionamento para conseguir comida. Recomendo os filmes Germania anno zero (1948), de Roberto Rossellini, e Die Ehe der Maria Braun (1978), de Rainer Werner Fassbinder, para visualizar algo do período. Como minha ideia de contextualização refere-se não só à geografia cultural mas ao momento histórico, verti o verso como "Nunca recortou cupons de desconto em jornais".
§ Nota 3 - Trotskista/Petista
Verter "Trotzkistin" por "petista" é escolha pessoal e, dessarte, questionável, como aliás praticamente tudo o que escrevo aqui, diga-se de passagem. Não pensem, porém, que eu esteja equivalendo politicamente as duas "filiações".
O original em alemão de Hans Magnus Enzensberger, o maior poeta público da Alemanha, em minha opinião, ainda em vida:
Die Dreiunddreißigjährige
Hans Magnus Enzensberger
Sie hat sich das alles ganz anders vorgestellt.
Immer diese verrosteten Volkswagen.
Einmal hätte sie fast einen Bäcker geheiratet.
Erst hat sie Hesse gelesen, dann Handke.
Jetzt löst sie öfter Silbenrätsel im Bett.
Von Männern läßt sie sich nichts gefallen.
Jahrelang war sie Trotzkistin, aber auf ihre Art.
Sie hat nie eine Brotmarke in der Hand gehabt.
Wenn sie an Kambodscha denkt, wird ihr ganz schlecht.
Ihr letzter Freund, der Professor, wollte immer verhaut werden.
Grünliche Batik-Kleider, die ihr zu weit sind.
Blattläuse auf der Zimmerlinde.
Eigentlich wollte sie malen, oder auswandern.
Ihre Dissertation, Klassenkämpfe in Ulm, 1500
bis 1512, und ihre Spuren im Volkslied:
Stipendien, Anfänge und ein Koffer voller Notizen.
Manchmal schickt ihr die Großmutter Geld.
Zaghafte Tänze im Badezimmer, kleine Grimassen,
stundenlang Gurkenmilch vor dem Spiegel.
Sie sagt: Ich werde schon nicht verhungern.
Wenn sie weint, sieht sie aus wie neunzehn.
in Die Furie des Verschwindens (Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1986).

.
.
.
Ela imaginara tudo bem diferente.
Ainda este Volkswagen enferrujado.
Certa vez, quase casou-se com um padeiro.
Antes, costumava ler Hesse, depois, Handke.
Agora ela prefere resolver charadas na cama.
De homens, não tolera abusos.
Por anos foi trotskista, mas à sua maneira.
Jamais tocou num cupom de racionamento.
Quando pensa no Camboja, passa mal.
Seu último namorado, o acadêmico, gostava de apanhar.
Vestidos de batique esverdeados, largos demais para ela.
Parasitas nas plantas à janela.
Na verdade, queria pintar, ou emigrar.
Sua tese, Luta de classes em Ulm, 1500
a 1512, e suas marcas no cancioneiro:
bolsas, começos, e uma maleta cheia de notas.
De vez em quando, a avó manda-lhe dinheiro.
Danças acanhadas no banheiro, caretas,
horas de hidratante ao espelho.
Ela diz: pelo menos não morrerei de fome.
Quando chora, fica com cara de dezenove.
Hans Magnus Enzensberger, tradução de Ricardo Domeneck.
Nota 1, do título:
É possível, em alemão, ter substantivos derivados de numerais, para indicar a idade de alguém: die Dreiunddreißigjährige poderia ser traduzido como "a mulher de trinta e três anos", longo e explicativo demais. Optei por "ela, aos trinta e três", já que Enzensberger insiste em deixar claro o gênero da personagem no título.
Nota 2, do verso "Insetos nas plantas à janela":
Blattläuse são insetos específicos, conhecidos em português como afídios, pulgões ou piolhos-das-plantas, e Zimmerlinde é uma planta do gênero Sparmannia, da família das Malvaceae. Não consegui encontrar nome popular em português. Para evitar um verso como "Afídios na Sparmannia" ou mesmo "Pulgões na Sparmannia" (como a planta é chamada nas páginas de botânica que visitei), optei pela generalização questionável de "Insetos nas plantas à janela". Sugestões são bem-vindas.
Abaixo, outra opção, dentro do que eu costumava chamar de transcontextualização, apesar de, hoje em dia, ter desenvolvido pavor alérgico ao prefixo trans para tais abstrações. Uma contextualização, digamos.
Ela, aos trinta e três
Ela havia imaginado tudo bem diferente.
Ainda com este Fusca enferrujado.
Uma vez, quase casou-se com um padeiro.
Antes, costumava ler Clarice, depois, Cabral.
Agora ela prefere resolver charadas na cama.
Dos homens, não tolera abusos.
Por anos foi petista, mas à sua maneira.
Nunca recortou cupons de desconto em jornais.
Quando pensa no Afeganistão, passa mal.
Seu último namorado, o intelectual, gostava de apanhar.
Vestidos de batique esverdeados, largos demais para ela.
Pulgões nas folhas da samambaia.
Na verdade, queria pintar, ou emigrar.
Sua tese, Conflitos religiosos no Nordeste, 1889
a 1930, e suas marcas na música popular:
bolsas, começos, e uma gaveta cheia de notas.
De vez em quando, sua vó manda-lhe dinheiro.
Danças acanhadas no banheiro, caretinhas,
horas de hidratante ao espelho.
Ela diz: pelo menos não morrerei de fome.
Quando chora, fica com cara de dezenove.
Hans Magnus Enzensberger, contextualização de Ricardo Domeneck.
§ - Nota, do verso "Antes, costumava ler Clarice, depois, Cabral":
O desafio é conseguir encontrar equivalentes com o maior número de implicações comuns possíveis. Creio que o par "Hesse/Handke" (fiz questão de manter o jogo inicial das consoantes iguais) encontra algumas implicações/insinuações comuns em "Clarice/Cabral", mesmo que não a da diferença geracional. Após considerar a possibilidade "Graciliano/Gullar", que salvaria no entanto apenas o jogo visual-sonoro das consoantes iniciais e as diferenças geracionais, optei pelo jogo usado acima.
§ - Nota 2, do verso "Nunca recortou cupons de desconto em jornais"
No verso "Jamais tocou num cupom de racionamento", o alemão refere-se à luta por sobrevivência na Alemanha no período imediato ao fim da Segunda Guerra, quando muito dependia dos cupons de racionamento para conseguir comida. Recomendo os filmes Germania anno zero (1948), de Roberto Rossellini, e Die Ehe der Maria Braun (1978), de Rainer Werner Fassbinder, para visualizar algo do período. Como minha ideia de contextualização refere-se não só à geografia cultural mas ao momento histórico, verti o verso como "Nunca recortou cupons de desconto em jornais".
§ Nota 3 - Trotskista/Petista
Verter "Trotzkistin" por "petista" é escolha pessoal e, dessarte, questionável, como aliás praticamente tudo o que escrevo aqui, diga-se de passagem. Não pensem, porém, que eu esteja equivalendo politicamente as duas "filiações".
O original em alemão de Hans Magnus Enzensberger, o maior poeta público da Alemanha, em minha opinião, ainda em vida:
Die Dreiunddreißigjährige
Hans Magnus Enzensberger
Sie hat sich das alles ganz anders vorgestellt.
Immer diese verrosteten Volkswagen.
Einmal hätte sie fast einen Bäcker geheiratet.
Erst hat sie Hesse gelesen, dann Handke.
Jetzt löst sie öfter Silbenrätsel im Bett.
Von Männern läßt sie sich nichts gefallen.
Jahrelang war sie Trotzkistin, aber auf ihre Art.
Sie hat nie eine Brotmarke in der Hand gehabt.
Wenn sie an Kambodscha denkt, wird ihr ganz schlecht.
Ihr letzter Freund, der Professor, wollte immer verhaut werden.
Grünliche Batik-Kleider, die ihr zu weit sind.
Blattläuse auf der Zimmerlinde.
Eigentlich wollte sie malen, oder auswandern.
Ihre Dissertation, Klassenkämpfe in Ulm, 1500
bis 1512, und ihre Spuren im Volkslied:
Stipendien, Anfänge und ein Koffer voller Notizen.
Manchmal schickt ihr die Großmutter Geld.
Zaghafte Tänze im Badezimmer, kleine Grimassen,
stundenlang Gurkenmilch vor dem Spiegel.
Sie sagt: Ich werde schon nicht verhungern.
Wenn sie weint, sieht sie aus wie neunzehn.
in Die Furie des Verschwindens (Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1986).

.
.
.
sábado, 19 de maio de 2012
"21-87", de Arthur Lipsett
Arthur Lipsett, "21-87" (1963)
§
Arthur Lipsett nasceu em 1936, na cidade de Montreal, Canadá. Começou a trabalhar muito jovem no National Film Board of Canada, no departamento de animação. Sua obra inicial era dedicada à poesia sonora, trabalhando com a colagem de fragmentos para criar peças auditivas. Pouco depois, passa a usar a mesma técnica com imagens e a unir estas colagens visuais às suas colagens sonoras. O primeiro resultado foi o poema visual Very Nice, Very Nice (1962), uma peça visual-sonora de 7 minutos que o tornaria conhecido na América do Norte ao ser indicada ao Oscar como "Best Short Subject, Live Action Subjects". Seu próximo poema visual-sonoro foi o lendário 21-87, fazendo de Lipsett um dos artistas mais interessantes de uma década populosa destes. Este filme teria uma grande influência sobre diretores posteriores como Stanley Kubrick a George Lucas. O último se inspiraria em 21-87 para criar certos elementos de seu épico sci-fi Star Wars. Lucas declarou que sua ideia para "A Força" (The Force) vem deste poema-filme de Arthur Lipsett, retirado de um dos trechos sonoros em que uma das vozes diz que "people in the communication with other living things become aware of some sort of... Force... something behind this apparent mask which we see in front of us". Arthur Lipsett cometeu suicídio em 1986, pouco antes de completar 50 anos de idade.
O trabalho de Lipsett pode ser visto como uma ponte/elo entre o trabalho visual-poético-sonoro dos Lettristes parisienses (Isidore Isou, Marc O e Gil J. Wolman, entre outros) e as colagens visuais e sonoras dos filmes de Guy Debord (durante seu período "situacionista") e Jean-Luc Godard. Lipsett pode ser incluído entre os artistas e poetas que retomam certas estratégias das vanguardas do início do século XX, tenham eles religado o pós-guerra a DADA, como Isidore Isou com os outros Lettristes, Frank O´Hara com os nova-iorquinos, H.C. Artmann com os vienenses, John Cage, etc.; ou ao futurismo/construtivismo, como Augusto de Campos com os outros paulistanos ou Ian Hamilton Finlay com seus companheiros britânicos.(Nota 1: Originalmente publicado na Modo de Usar & Co., a 20 de novembro de 2008)
(Nota 2: Também menciono o trabalho de Lipsett em meu artigo "Colagem, apropriação, redirecionamento".)
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Brás Cubas & Malone
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Machado de Assis.
§
"... for he was no more than human, than the son and grandson and greatgrandson of humans. But between him and those grave and sober men, first bearded, then moustached, there was this difference, that his semen had never done any harm to anyone."
Malone Dies (1951), Samuel Beckett.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
When Saints Go Machine
Há pouco mais de uma semana, o quarteto dinamarquês When Saints Go Machine apresentou-se em Berlim. Foi uma noite muito bonita e tenho ouvido muito algumas de suas canções desde então, em especial esta "Parix", que mostro abaixo. Tive a sorte de ir ao concerto com uma amiga para quem eles haviam feito um remix, e pude conhecê-los no camarim. Além de tudo, rapazes muito educados. O poeta lírico da banda, o vocalista Nicholas Manuel Vonsild, me concedeu outra daquelas experiências em que pude vislumbrar um futuro possível para a poesia no novo milênio. Trobar leu, me deixa leve também.
Parix
Nicholas Manuel Vonsild
Bad dreams ricochet ricochet
Walking talking endlessly
Dancing dancing on my tongue
Paris scream avalanche avalanche
Talking talking in my sleep
Dancing dancing on my tongue (x2)
Where the road meets wild
And concrete meets the river
Young and wild shake and shiver
And your eyes talk to the blind
Where the wind made the house go tired
Fall to the ground from the voice you speak in
Bored when you’re not sleeping
Tired and awake
Bad dreams ricochet ricochet
Walking talking endlessly
Dancing dancing on my tongue
Paris scream avalanche avalanche
Talking talking in my sleep
Dancing dancing on my tongue
Cold where skin meets fire
Where letters burn your lips
Where reason seems careless
And the desperate lead the fight
And when she tells me she’s in love with me
In a room above light
You could pick me from a field of lies
Where the road meets wild
And concrete meets the river
Young and wild shake and shiver
And your eyes talk to the blind
Where the wind made the house go tired
Fall to the ground from the voice you speak in
Bored when you’re not sleeping
Tired and awake
Bad dreams ricochet ricochet
Walking talking endlessly
Dancing dancing on my tongue
Paris scream avalanche avalanche
Talking talking in my sleep
Dancing dancing on my tongue
.
.
.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Lendo "X + Y: uma ode" na Casa Refugio Citlaltépetl, na Cidade do México, em dezembro de 2011
Abaixo, vídeo com minha leitura do poema "X + Y: uma ode" na Casa Refugio Citlaltépetl, na Cidade do México, em dezembro de 2011. A leitura foi organizada por Paula Abramo e o Centro Cultural Brasil-México. Na mesa, três dos meus poetas mexicanos favoritos: Luis Felipe Fabre, Julián Herbert e Minerva Reynosa, assim como o argentino Ezequiel Zaidenwerg, e Paula Abramo moderando. Foi uma noite linda, alguns dos melhores poetas com quem já tive a honra de ler. O video foi-me enviado pelo poeta mexicano Alejandro Albarrán, um dos melhores poetas da nova geração latino-americana. Agradeço a todos com muita saudade e todo o meu respeito.
X
+ Y: uma ode
An
refert, ubi et in qua arrigas?
Suetônio
Houvesse
nascido
mulher,
já teria dado
à
luz sete
filhos
de nove
homens
distintos.
Agora,
vivo entretido
com
as teorias
a
explicarem meu gosto
por
odores específicos,
certa
distribuição de pelos
nas
pernas alheias,
os
cabelos na nuca
e
no peito
sem
seios, ainda que aprecie
certas
glândulas mamárias
de
moços e rapazes
com
aquela dose
saudabilíssima
aos
meus olhos de hipertrofia.
Medito
sobre as conjecturas
de
terapeutas,
os
relatos de uma Persona
partida,
Édipo subnutrido,
sem
modelo
na
infância de um lendário
Laio
exemplar,
lançando-me
a
uma suposta
busca
entre amantes
por
mim mesmo.
Tentei,
sem o menor
sucesso,
por
dias induzir-me à ereção
diante
do espelho.
Concluí
não ser tão
eréctil
meu ego.
Ouvi
com atenção
a
fórmula
sobre
pai ausente e mãe
dominante
a gerar rainhas
de
paus, espadas e copas
lassas
e loucas,
mas,
apesar do meu histórico
de
progenitora histérica
e
procriador estóico,
meus
irmãos
tão
afeitos e afoitos
diante
dos clitórides
embromam
a estatística.
Li
todas as reportagens
sobre
a possível queerness
na
boutique
do código
genético,
esta quermesse
das
afinidades seduzidas,
e
ri com o amigo
que
certa vez, em chiste,
nomeou-me
dispositivo
biológico
de
uma Natureza em estresse,
medicando
o hipercrescimento
populacional.
Não mentirei dizendo
que
não temo e tremo
com
o perigo do inferno.
Cheguei,
contudo, à conclusão
de
que minha passagem
só
de ida
ao
Hades
não
se dá
apenas
pela inclinação
algo
obcecada
de
minha genitália
pelo
caráter heterogêneo
dos
vossos gametas.
Houvesse
nascido
fêmea,
já
teria dado à luz onze
filhotes
de treze
machos
diferentes,
e,
de puta,
assegura
o
Vaticano (e mesmo Hollywood),
não
se conhece ascensão,
tão-somente
queda.
Portanto,
poeta, pederasta e puta,
sigo
com meus olhos pela rua
cada
portador
desta
combinação gloriosa
de
cromossomas
X
e Y,
chamem-se
Chris ou Absalom,
com
suas espaçadas proporções
entre
os buracos
do
crânio, a linha que se forma
entre
orelhas e ombros,
as
asas de suas omoplatas
e
a coifa dos rotadores,
as
simetrias volubilíssimas
entre
as extremidades
excitantes
e excitáveis
como
nariz, pênis e dedos,
o
número de pelos
entre
o umbigo
e
ninho púbico,
o
formato dos dentes
e
seu espelhamento
em
diâmetro
nos
pés e suas unhas.
Se
andam como comem,
se
bocejam como riem,
se
bebem como tossem,
se
fodem como dançam.
A
absoluta falta de mistério
em
alguns deles, incapazes
da
dissimulação famosa
de
certas personagens
literárias
femininas
do
século XIX.
Neles,
é oblíqua
somente
a ocasional
ereção
inconveniente.
Constrangem-me
estas
confissões,
mas
cederia certos direitos políticos
por
algumas dessas cristas ilíacas
já
presenciadas em praias, ao sol,
e
abriria mão de uma ida às urnas
este
inverno por esta ou outra nuca.
E
veja só como o planeta
insiste
na demonstração empírica
dessa
abundância de músculos
e
seus reflexos
cremastéricos:
neste
exato momento,
enquanto
escrevo este textículo,
entra
no café, em pleno Berlimbo,
um
desses exemplares de garoto
canhestro
e canhoto,
o
boné cobrindo meio rosto,
prototipagem
de barba
e
bigode, calças
que
me catapultam a fantasias
com
skateboards
como props,
sobrancelhas
feito caterpillars
sitiando
os olhos com promessas
de
delícias e desfaçatez épicas.
Seu tênis é bege;
ao
tirar o suéter, vê-se
a
sua escala de Tanner.
Sua
Calvin Klein.
Bege
fico eu, adivinhando que pele
cobre
seus joelhos, seus calcanhares.
Sonho
o sexo biônico e homérico,
algo
entre Aquiles e Pátroclo,
interpretados
em nosso mundo
por
Brad Pitt e Garrett Hedlund,
potros
xucros como búfalos
ou
bárbaros.
E
este mundo está cheiíssimo
dessas
distrações quase sádicas
para
meu masoquismo
voluntarioso
e em vício,
que
impedem que componha
a
minha Divina
Commedia,
meu
Paradise
Lost.
Perdoe,
Sr. Cânone,
esta
minha tosca e parca
contribuição
lírica à safra
de
seus contemporâneos,
mas
não me catalogue
entre
as farsas, sátiras.
Pois
não é, consinto, culpa
das
massificações capitalistas
esta
minha attention
span
pouco
renascentista,
mas
desta explosão de cântaros
plenos
de testosterona púbere
a
ir e vir nos espaços públicos.
Quando
passam, petiscos,
finger
food
em arrogância
cocky
e garbosa, murmuro
na
cavidade oca
da
boca:
"Deviam
ser proibidos
seus
exageros de lindos".
Meu
fim será nestes botecos
do
Berlimbo,
entupindo-me
de café preto
e
esperando suas ocasiões
para
escrever poemas
que
vos celebrem, atores
principais
deste longo pornô
em
que me vi concebido, gerado
e
expelido, coadjuvante
contente
e dublado.
Agradeço-vos
a oportunidade
de
fazer do advérbio sim
uma
interjeição obscena.
Aos
outros, juro que não se trata
de
encômio, louvor ou gabo.
Quisesse
eu fazer apologia,
talvez
dissesse
haver
mais elegância
em
"Sê meu erômenos
e
eu serei teu erastes"
do
que, ao cangote,
"Mim
Tarzan, você Jane".
Não
busco novos adeptos
que
me façam concorrência.
Boys
will be boys,
há
quem diga, e, ora,
não
vou dizer que espero
de
todo moço
que
seja Mozart
ou
Beuys.
Haverá
os momentos de caça
e
rendição felizes, as poucas
vezes
de sorte
em
que seremos camareiros
de
algum moço pasolínico,
com
quem se poderá, enfim,
fazer
o cama-supra, meia-nove
e
então discutir no pós-coito
outros
conceitos hifenizados
ao
som de Cocteau Twins,
listar
as guitarras de 1969,
nosso
horror a Riefenstahl,
a
obsessão por Fassbinder,
e
oxalá sentir em meio a tal
loa
uma nova ereção
cavucar
as
malhas entre as dobras
do
edredão
enquanto
lemos poemas de Catulo,
Kaváfis.
Quando
chegarem os bárbaros,
me
encontrarão na cama;
que
venham porém armados,
pois
hei de estar acompanhado,
e
em riste as nossas lanças.
Berlim,
25 de outubro de 2010
Publicado em Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012).
.
.
.
Marcadores:
ciclo do amante substituível,
leitura,
vídeo,
vídeos
terça-feira, 8 de maio de 2012
Gossip. Inícios, reinícios.
Há seis anos, em julho de 2006, tive uma das noites mais espetaculares em minha vida como DJ: fui convidado a tocar no Berghain, o clube mais importante de Berlim, como abertura para a noite do concerto da banda Gossip. Hoje à noite, a banda volta a tocar no mesmo clube, e os envolvidos naquela linda noite de 2006 decidiram que era hora de um revival, chamando-me para mais uma vez abrir para a banda em Berlim. Hoje, às 20:00, inicio meu set, uma hora antes da banda subir ao palco. Abrirei com Diamanda Galás e Mary Margaret O´Hara, seguindo em seguida um caminho por entre minhas artistas favoritas (sim, pretendo tocar quase exclusivamente a música de mulheres), como Kate Bush, Cocteau Twins, Planningtorock, Grimes, Creep, Anika, Nite Jewel, THEESatisfaction e outras. Mais tarde, festejamos juntos numa aftershow party, num outro clube, onde pretendo começar um novo projeto. Noite de relembranças e novos inícios. Que os amigos que passarem por aqui torçam por mim. Ando necessitado de inícios. Chega de fins.
Gossip, com a canção "Heavy Cross".
Gossip, com a canção "Heavy Cross".
§
Abaixo, o cartaz da festa depois do concerto.
Para quem não sabe, meu nome de guerra como DJ é Kate Boss.
Assinar:
Postagens (Atom)
Mais ou menos de mim
Projetos Paralelos
Leituras de companheiros
- Adelaide Ivánova
- Adriana Lisboa
- Alejandro Albarrán
- Alexandra Lucas Coelho
- Amalia Gieschen
- Amina Arraf (Gay Girl in Damascus)
- Ana Porrúa
- Analogue Magazine
- André Costa
- André Simões (traduções de poetas árabes)
- Angaangaq Angakkorsuaq
- Angélica Freitas
- Ann Cotten
- Anna Hjalmarsson
- Antoine Wauters
- António Gregório (Café Centralíssimo)
- Antônio Xerxenesky
- Aníbal Cristobo
- Arkitip Magazine
- Art In America Magazine
- Baga Defente
- Boris Crack
- Breno Rotatori
- Brian Kenny (blog)
- Brian Kenny (website)
- Bruno Brum
- Bruno de Abreu
- Caco Ishak
- Carlito Azevedo
- Carlos Andrea
- Cecilia Cavalieri
- Cory Arcangel
- Craig Brown (Common Dreams)
- Cristian De Nápoli
- Cultura e barbárie
- Cus de Judas (Nuno Monteiro)
- Damien Spleeters
- Daniel Saldaña París
- Daniel von Schubhausen
- Dennis Cooper
- Dimitri Rebello
- Dirceu Villa
- Djoh Wakabara
- Dorothee Lang
- Douglas Diegues
- Douglas Messerli
- Dummy Magazine
- Eduard Escoffet
- Erico Nogueira
- Eugen Braeunig
- Ezequiel Zaidenwerg
- Fabiano Calixto
- Felipe Gutierrez
- Florian Puehs
- Flávia Cera
- Franklin Alves Dassie
- Freunde von Freunden
- Gabriel Pardal
- Girl Friday
- Gláucia Machado
- Gorilla vs. Bear
- Guilherme Semionato
- Heinz Peter Knes
- Hilda Magazine
- Homopunk
- Hugo Albuquerque
- Hugo Milhanas Machado
- Héctor Hernández Montecinos
- Idelber Avelar
- Isabel Löfgren
- Ismar Tirelli Neto
- Jan Wanggaard
- Jana Rosa
- Janaina Tschäpe
- Janine Rostron aka Planningtorock
- Jay Bernard
- Jeremy Kost
- Jerome Rothenberg
- Jill Magi
- Joca Reiners Terron
- John Perreault
- Jonas Lieder
- Jonathan William Anderson
- Joseph Ashworth
- Joseph Massey
- José Geraldo (Paranax)
- João Filho
- Juliana Amato
- Juliana Bratfisch
- Juliana Krapp
- Julián Axat
- Jörg Piringer
- K. Silem Mohammad
- Katja Hentschel
- Kenneth Goldsmith
- Kátia Borges
- Leila Peacock
- Lenka Clayton
- Leo Gonçalves
- Leonardo Martinelli
- Lucía Bianco
- Luiz Coelho
- Lúcia Delorme
- Made in Brazil
- Maicknuclear de los Santos Angeles
- Mairéad Byrne
- Marcelo Krasilcic
- Marcelo Noah
- Marcelo Sahea
- Marcos Tamamati
- Marcus Fabiano Gonçalves
- Mariana Botelho
- Marius Funk
- Marjorie Perloff
- Marley Kate
- Marília Garcia
- Matt Coupe
- Miguel Angel Petrecca
- Monika Rinck
- Mário Sagayama
- Más Poesía Menos Policía
- N + 1 Magazine
- New Wave Vomit
- Niklas Goldbach
- Nikolai Szymanski
- Nora Fortunato
- Nora Gomringer
- Odile Kennel
- Ofir Feldman
- Oliver Krueger
- Ondas Literárias - Andréa Catrópa
- Pablo Gonçalo
- Pablo León de la Barra
- Paper Cities
- Patrícia Lino
- Paul Legault
- Paula Ilabaca
- Paulo Raviere
- Pitchfork Media
- Platform Magazine
- Priscila Lopes
- Priscila Manhães
- Pádua Fernandes
- Rafael Mantovani
- Raymond Federman
- Reuben da Cunha Rocha
- Ricardo Aleixo
- Ricardo Silveira
- Rodrigo Damasceno
- Rodrigo Pinheiro
- Ron Silliman
- Ronaldo Bressane
- Ronaldo Robson
- Roxana Crisólogo
- Rui Manuel Amaral
- Ryan Kwanten
- Sandra Santana
- Sandro Ornellas
- Sascha Ring aka Apparat
- Sergio Ernesto Rios
- Sil (Exausta)
- Slava Mogutin
- Steve Roggenbuck
- Sylvia Beirute
- Synthetic Aesthetics
- Tazio Zambi
- Tetine
- The L Magazine
- The New York Review of Books
- Thiago Cestari
- This Long Century
- Thurston Moore
- Timo Berger
- Tom Beckett
- Tom Sutpen (If Charlie Parker Was a Gunslinger, There'd Be a Whole Lot of Dead Copycats)
- Trabalhar Cansa - Blogue de Poesia
- Tracie Morris
- Tô gato?
- Uma Música Por Dia (Guilherme Semionato)
- Urbano Erbiste
- Victor Heringer
- Victor Oliveira Mateus
- Walter Gam
- We Live Young, by Nirrimi Hakanson
- Whisper
- Wir Caetano
- Wladimir Cazé
- Yang Shaobin
- Yanko González
- You Are An Object
- Zane Lowe








