quinta-feira, 21 de junho de 2012

Lula e Maluf: um acerto de mãos





Um acerto de mãos

Aos poucos, tanto pulso
que dita como reivindica
confundem-se no fundo
sem vilões e sem puros
da História: arte narrativa.

Cerradas, mãos se agitam
no ar. Depende da boca,
porém, o que significam
a lobos e ovelhas passivas
em conluio na mesma toca.

Ora Lula e Maluf dão
-se os punhos, um novo
pacto (o eterno retorno)
de apoio e não-agressão.
Tudo em nome do polvo,

os interesses do polvo
são supremos. Limites?
Mas o que são limites?
Limites são coisas
para os lemingues.


Rocirda Demencock, com os movimentos peristálticos na contramão, 21 de junho de 2012.

.
.
.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

"Belo Monte, anúncio de uma guerra", filme na íntegra.



Belo Monte, anúncio de uma guerra (2012), financiado pelo público. Direção de André D´Elia.
Implora-se que se o espalhe, ou não se volte mais a este espaço.



 

.
.
.

domingo, 17 de junho de 2012

Dirceu Villa escreve sobre o Festival de Poesia de Berlim 2012

 
Eu (de costas) com Dirceu Villa, do lado de fora da Akademie der Künste,
Berlim, após as apresentações no Poesiefestival (foto de Timo Berger).




.

sábado, 16 de junho de 2012

Notícias de Belo Monte + Eduardo Viveiros de Castro fala sua contrafala

Belo Monte, Rio Xingu, 15 de junho de 2012 –
Trezentas pessoas entre povos indígenas, agricultores, pescadores, ativistas
e moradores afetados pela construção da Hidrelétrica de Belo Monte ocuparam
essa manhã uma das ensecadeiras de Belo Monte – pequena barragem próxima
da Vila de Santo Antônio. Abriram um canal com picaretas, pás, enxadas, deixando
o Rio Xingu correr livre novamente. Moradores do Xingu fizeram uma faixa
humana com as palavras “Pare Belo Monte”. No início da Rio +20, enviam
uma mensagem da imensa devastação social e ambiental que este projeto
está causando a região, alertando que hidrelétrica não é energia limpa.
A mensagem dos povos é “Energia que não respeita a lei, a população local,
violenta direitos indígenas, destrói comunidades e o meio ambiente não pode ser limpa”.
Eles querem a paralização da construção de Belo Monte!
Foto: Atossa Soltani/ Amazon Watch / Spectral Q

§





.
.
.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Minhas memórias mais antigas de Yeats

 Portrait of Yeats as a young lad

Eu ainda me lembro claramente da primeira vez que ouvi o nome de Yeats. Eu era criança, e estava assistindo ao filme de Francis Ford Coppola, Peggy Sue Got Married (1986), legendado. Devia ser 1988, quando meu pai comprou nosso primeiro aparelho de vídeo-cassete. Pois é, o famoso Peggy Sue - Seu passado a espera. Para os leitores mais jovens: trata-se daquele em que a personagem de Kathleen Turner passa mal na reunião de 25 anos de sua turma de colegial, desmaia e desperta no passado, de novo em sua vida aos 17 anos de idade, mas com sua memória do "futuro" intacta.

De volta ao colegial, aquela fauna e flora típicas dos filmes adolescentes americanos: o nerd/geek que apanha de todo mundo, a cheerleader que todos querem imitar ou foder, o macho-alfa gostosão e cool (que mais tarde vira o loser barrigudo), etc, etc, etc. Mas havia no filme também a personagem do poeta adolescente/intelectual pubertário (se fosse menina, seria interpretada por Winona Ryder -:: nota mental: algum dia preciso escrever sobre o impacto que o filme Heathers teve em mim), interpretado no filme por Kevin J. O´Connor, que se vestia todo de preto, como se fosse um existencialista exilado de Paris ou um beatnik, é claro que antes dos beats virarem hippies cantando Odara Odara em roda com margaridas no cabelo - aquele horror todo.

Lembro-me da cena em que o professor está discutindo The Old Man and The Sea, de Hemingway, dando uma explicação toda elaborada e literata para o livro, quando a personagem-poeta de Kevin J. O´Connor (no filme ele se chamava Michael Fitzsimmons) argumenta que o livro é uma metáfora para o declínio dos níveis de testosterona em Hemingway (that overrated slob), ou algo nestes termos. Apaixonei-me na hora.

Sim, Michael Fitzsimmons foi uma de minhas primeiras crushes por personagens cinematográficas. Eu já sabia que queria ser escritor, e me apaixonava por qualquer personagem que escrevesse. Pois bem, Peggy Sue, que era a head-cheerleader e namorava o macho-alfa gostosão (estranhamente interpretado por Nicholas Cage) começa um caso às escondidas com Michael Fitzsimmons. Céus, os calafrios que percorreram minha espinha e genitália quando (sutilmente, pois se trata de um filme de adolescentes) insinua-se que Peggy Sue perde a virgindade com Fitzsimmons, que, longo antes de beijá-la, recita, do poema "When you are old":


How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;


Eu, que até então (tinha por volta dos 10 anos) havia tido contato apenas com poetas românticos brasileiros e Vinícius de Moraes, tive um choque. Rebobinava  a fita (pede-se que os leitores mais jovens procurem no dicionário o significado do verbo "rebobinar") e ouvia de novo, sem entender, lendo a tradução, e deixando o beijo acontecer e o calafrio correr. Era a década de 80, não havia Google e eu morava em Bebedouro. Como saber mais sobre Yeats? Como ler mais? Por anos, esta estrofe foi tudo o que soube do poeta.

Fast-forward: 1997. Dez anos depois. Foi o ano em que me mudei para São Paulo, onde faria cursinho no bairro da Liberdade para ingressar na Faculdade de Filosofia da USP. No ínterim, já havia morado nos Estados Unidos, onde terminara o colegial e eu próprio bancara o poeta adolescente/intelectual pubertário, lendo Thoreau (por causa de outra crush cinematográfica de adolescente - a personagem de Robert Sean Leonard em Dead Poets Society), Whitman (com aquela sensação de perigo por seus homoerotic under/overtones), Poe, Dickinson, Frost. Nada de Yeats. Havia me esquecido de Yeats.

Mas naquele primeiro ano em São Paulo, 1997, comecei a percorrer os sebos, aumentar minha pequena biblioteca. Lembro-me de comprar a Obra Completa, bilíngue, de Federico García Lorca; a obra reunida, em dois volumes, de João Cabral de Melo Neto; descobrir Hilda Hilst em Estar Sendo, Ter Sido, com aquele poema final pelo qual sou obcecado, "A Mula de Deus"; e, aos 20 anos, encontrar a antologia preparada, traduzida e prefaciada por Paulo Vizioli, lançada pela Companhia das Letras em 1994: W.B. Yeats, Poemas. Aqui, outra memória vívida envolvendo Yeats: sentado na calçada de uma rua de São Paulo, esperando os portões da escola onde faria a prova da segunda fase da FUVEST se abrirem, e, enquanto todos os outros liam suas apostilas do cursinho, eu lia Poemas, de Yeats.

Mais tarde, no ápice do meu fervor experimental e vanguardista, com os preconceitos comuns de tal fervor, I become estranged from Old Bill Yeats. Hoje, porém, mais velho e equilibrado, sentindo a liberdade para amar os mais românticos e mais antilíricos dos poetas que amo, chego a Bebedouro, onde estou agora na casa dos meus pais, e encontro na estante esta mesma antologia, comprada há 15 anos, os Poemas de Yeats, e é o que tenho lido e relido nestes últimos dias.

Posto aqui, assim, em homenagem ao velho irlandês, alguns dos meus poemas favoritos, a quem estiver aí fora, de plantão, getting old ou no fervor lindo e divino dos poetas adolescentes. Aproveitem, esta febre que vocês sentem é uma coisa maravilhosa. Acho que Yeats nunca deixou de senti-la.



When You Are Old
W. B. Yeats

WHEN you are old and gray and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face among a crowd of stars.


 §


No Second Troy
W. B. Yeats

WHY should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great.
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done, being what she is?
Was there another Troy for her to burn?



§


The Fascination of What’s Difficult
W. B. Yeats

The fascination of what's difficult
Has dried the sap out of my veins, and rent  
Spontaneous joy and natural content
Out of my heart. There's something ails our colt  
That must, as if it had not holy blood  
Nor on Olympus leaped from cloud to cloud,  
Shiver under the lash, strain, sweat and jolt
As though it dragged road metal. My curse on plays  
That have to be set up in fifty ways,
On the day's war with every knave and dolt,  
Theatre business, management of men.  
I swear before the dawn comes round again  
I'll find the stable and pull out the bolt.



§


Sailing to Byzantium
W. B. Yeats

THAT is no country for old men. The young
In one another's arms, birds in the trees
- Those dying generations - at their song,
The salmon-falls, the mackerel-crowded seas,
Fish, flesh, or fowl, commend all summer long
Whatever is begotten, born, and dies.
Caught in that sensual music all neglect
Monuments of unageing intellect.

An aged man is but a paltry thing,
A tattered coat upon a stick, unless
Soul clap its hands and sing, and louder sing
For every tatter in its mortal dress,
Nor is there singing school but studying
Monuments of its own magnificence;
And therefore I have sailed the seas and come
To the holy city of Byzantium.

O sages standing in God's holy fire
As in the gold mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre,
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.

Once out of nature I shall never take
My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.


§

Leda and the Swan
W. B. Yeats

A sudden blow: the great wings beating still
Above the staggering girl, her thighs caressed
By the dark webs, her nape caught in his bill,
He holds her helpless breast upon his breast.

How can those terrified vague fingers push
The feathered glory from her loosening thighs?
And how can body, laid in that white rush,
But feel the strange heart beating where it lies?

A shudder in the loins engenders there
The broken wall, the burning roof and tower
And Agamemnon dead.
                    Being so caught up,
So mastered by the brute blood of the air,
Did she put on his knowledge with his power
Before the indifferent beak could let her drop?

.
.
.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Da "Janela do caos", de Murilo Mendes

O pequeno ensaio abaixo foi originalmente publicado na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co., em novembro de 2011. Há tempos queria reproduzir estas linhas de pensamento sobre O Mestre aqui. Aos que não o haviam visto e a quem mais possa interessar.


Da "Janela do caos", de Murilo Mendes




O mestre Murilo Mendes (1901 - 1975 e então a eternidade)


Publicado originalmente em Poesia Liberdade (1947), lançado na França já em 1949 em um volume com seis litografias de Francis Picabia e traduzido para o italiano por ninguém menos que Giuseppe Ungaretti, "Janela do caos" é um dos poemas imprescindíveis da poesia brasileira e em língua portuguesa, ainda que tenha encontrado acolhida parca no cânone, na bibliografia crítica e nas listagens dos gigantes, cujas vagas são em geral ocupadas por outros textos muito merecedores do espaço, como "A Máquina do Mundo" de Drummond, "Uma Faca Só Lâmina" de Cabral, ou, em casos raros, o "Cântico dos Cânticos para Flauta e Violão" de Oswald de Andrade, talvez o poema que mais se lhe assemelhe em escopo, escolhas e contexto histórico. É claro que críticos muito bons se ocuparam dele e de seu autor, como Murilo Marcondes de Moura no excelente Murilo Mendes: a poesia como totalidade (São Paulo: Edusp, 1995). Vale também lembrar, entre outros, o livro de Júlio Castañon Guimarães, Territórios/Conjunções: poesia e prosa críticas de Murilo Mendes (Rio de Janeiro: Imago, 1993). Mas a importância deste texto pediria muito mais festança crítica e tentativas de emulação pupilar.

Em termos de fanopeia, talvez nenhum poeta brasileiro se compare a Murilo Mendes, maestria reconhecida por João Cabral de Melo Neto, que declarou haver aprendido com o mestre de Juiz de Fora a sempre dar precedência à imagem sobre a ideia (cito de memória). Em língua portuguesa, encontramos tamanha ousadia metafórica em poucos poetas, como Fernando Pessoa e Herberto Helder. Mas, a meu ver, tal uso da fanopeia como instância da hierofania ocorre em poucos poetas espalhados pela modernidade ocidental. O tipo de beleza que sinto em versos como "O céu cai das pombas. / Ecos de uma banda de música / Voam da casa dos expostos" ou aquela quinta parte, em que o mestre Murilo Mendes diz-nos que "Nenhum som de flauta, / Nem mesmo um templo grego / Sobre colina azul / Decidiria o gesto recuperador. / Fome, litoral sem coros, / Duro parto da morte. / A terra abre-se em sangue, / Abandona o branco Abel / Oculto de Deus", faz-me pensar na potência imagética de certos versos do Pessoa do "coração como balde despejado" ou, ousaria dizer, em momentos em que a fanopeia também manifesta-se como instância de hierofania no Gerard Manley Hopkins de "The Wreck of the Deutschland", como "I am soft sift / In an hourglass—at the wall / Fast, but mined with a motion, a drift, / And it crowds and it combs to the fall; / I steady as a water in a well, to a poise, to a pane", mesmo que eu esteja ciente que Hopkins talvez seja um dos mestres insuperados (também Pessoa, em menor medida) da arte de conjugar, em equilíbrio quase sempre perfeito, fanopeia, melopeia e logopeia, quando Murilo Mendes foi em geral mestre supremo daquela primeira.


Sintaticamente, não consigo pensar em uso melhor e mais necessário do hipérbato que naquela última parte, a décima primeira, em que este assume caráter praticamente isomórfico, para usar abusadamente uma expressão cara a Augusto de Campos, que desempenha (como uma performance) a ideia-sensação de ascensão transcendente, ao deixar para o último verso aquele "Subindo vão", ao mesmo tempo que, de maneira gráfica, digamos, cria uma espécie de embate entre ascensão e queda ao fazer dele o ulterior e último dos versos. Há aqui uma relação interessante a ser pensada sobre os efeitos vocais e auditivos do poema quando é falado/ouvido e seus efeitos visuais quando é lido. Não seria impossível também pensar no verso final, a partir da quebra-de-linha, como uma espécie de sínquise a fazer de "vão" não um verbo, mas adjetivo, sem concordância direta com as linhas anteriores, doando certa desesperança ao poema não conhecêssemos a fé de seu autor.


Talvez mais condizente com o pensamento de Murilo Mendes seria a sugestão do poeta gaúcho Marcus Fabiano, em correspondência particular sobre esta possibilidade, a de ler "vão" nem como verbo nem como adjetivo, mas como substantivo, criando a imagem de ascensão por aquele "vão azul" que nos pareceria vazio apenas porque nós, segundo um verso do poema, "só vemos o céu pelo avesso". Pois, quase no extremo oposto de um poeta como Wallace Stevens, que escreveu que "Poetry / Exceeding music must take the place / Of empty heaven and its hymns, / Ourselves in poetry must take their place", Murilo Mendes não cria vazio o céu nem imaginaria que nós pudéssemos substituir o sagrado com a poesia, especialmente não colocando esta acima da música, já que M.M. era melomaníaco notório.

Estas possíveis leituras do último verso de "Janela do caos", de certa forma (trata-se aqui de sensação minha), talvez evoquem a sensibilidade e imagética mística anterior de poetas como Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens, poetas que parecem presidir ou ao menos prenunciar a poesia mística brasileira moderna, a de Murilo Mendes e de seus excelentes companheiros Jorge de Lima, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes (da primeira fase) e Henriqueta Lisboa. Entre os poetas do pós-guerra, poderíamos mencionar Hilda Hilst e Leonardo Fróes, todos estes, ao mesmo tempo, poetas muito distintos entre si.

Outro aspecto que seria importante discutir neste poema é a relação entre linguagem metafórica e linguagem metonímica em sua textualidade, pois Murilo Mendes mescla-as de forma inteligentíssima, apontando para advertências do próprio Jakobson sobre o perigo de estabelecermos fronteiras demarcadas demais entre as duas, assim como este poema é uma lição incontornável sobre o equívoco de certos poetas e críticos contemporâneos, que insistem em crer que a função poética da linguagem cancela as outras funções, como a referencial, quando nada disso pode ser comprovado nos grandes poemas de todos os tempos. A linguagem poética parece operar e funcionar, em seu material, forma, função e contexto, em "Janela do caos" e em tanta grande poesia, na fronteira entre transparência e não-transparência do signo, como insisto com frequência.

Nestes nossos tempos de equívoco crítico desastrado que busca equivaler como se sinônimos, de forma confusa e desengonçada, conceitos como "pós-utópico", "trans-histórico" e "sincrônico", Murilo Mendes retorna como mestre supremo e indispensável. Pois é importante dizer que o "surreal" em Murilo Mendes talvez se manifeste com força real de escrita automática apenas em um livro como As Metamorfoses (1944), como Murilo Marcondes de Moura já argumentou, já que M.M. parece ter usado o surrealismo apenas para educar-se em sua futura maestria do que já foi chamado de "metáfora dissonante" e para a própria conjunção entre linguagem metafórica e metonímica que parece operar em um poema como "Janela do caos". Há pouquíssimo de "automático" na escrita do mestre mineiro. Um poema como "Janela do caos" apresenta-se consciente em cada filigrana de sua textualidade, atento à conjugação do temporal, secular e histórico como campos de ação do sagrado, daí o caráter hierofânico de sua fanopeia. Pois se ele está ligado, sim, a esta que foi uma das vanguardas mais utópicas do século XX, o surrealismo de Breton, Picabia e Éluard, entre outros, a poesia de Murilo Mendes, que foi chamado de "conciliador de contrários" por Manuel Bandeira, sempre demonstrou a consciência de que a defesa do utópico (que se manifesta em M.M. no bojo de sua crença inabalável na parúsia) precisa estar unida a um ataque ao distópico, pois ele sabia bem que a humanidade balança-se, em pêndulo, entre distopia e sua antesala.

Num momento em que liberdades civis estão claramente ameaçadas tanto em São Paulo como em São Petersburgo; com sangue jorrando no Egito e outros países árabes; prisioneiros políticos em prisões como Guantânamo e Guanajay; partidos de extrema direita vencendo eleições em países europeus e expulsão de estrangeiros de países como a França; sem mencionar as matanças por questões étnicas que nunca cessam, eu, pessoalmente, retorno uma vez mais a mestres como o Murilo Mendes de "Janela do caos" e o Oswald de Andrade de "Cântico dos cânticos para flauta e violão", estes brasileiros que sabiam que a poesia lírica sai e soa alienada tão-só dos e para os que têm panfletos inúteis ou cartões de crédito nas cavidades onde deveriam residir seus miocárdios e cérebros.


--- Ricardo Domeneck


§


O POEMA DO MESTRE MURILO MENDES


Janela do caos


1


Tudo se passa
Em Egitos de corredores aéreos
Em galerias sem lâmpadas
À espera de que Alguém
Desfira o violoncelo
- Ou teu coração?
Azul de guerra.


2


Telefonam embrulhos,
Telefonam lamentos,
Inúteis encontros,
Bocejos e remorsos.
Ah! Quem telefonaria o consolo
O puro orvalho
E a carruagem de cristal.


3


Tu não carregaste pianos
Nem carregaste pedras
Mas na tua alma subsiste
- Ninguém se recorda
E as praias antecedentes ouviram -
O canto dos carregadores de pianos,
O canto dos carregadores de pedras.



4


O céu cai das pombas.
Ecos de uma banda de música
Voam da casa dos expostos.
Não serás antepassado
Porque não tiveste filhos:
Sempre serás futuro para os poetas.
Ao longe o mar reduzido
Balindo inocente.


5


Harmonia do terror
Quando a alma destrói o perdão
E o ciclo das flores se fecha
No particular e no geral:
Nenhum som de flauta,
Nem mesmo um templo grego
Sobre colina azul
Decidiria o gesto recuperador.
Fome, litoral sem coros,
Duro parto da morte.
A terra abre-se em sangue,
Abandona o branco Abel
Oculto de Deus.


6


A infância vem da eternidade.
Depois só a morte magnífica
- Destruição da mordaça:
E talvez já a tivesses entrevisto
Quando brincavas com o pião
Ou quando desmontaste o besouro.
Entre duas eternidades
Balançam-se espantosas
Fome de amor e a música:
Rude doçura,
Última passagem livre.
Só vemos o céu pelo avesso.


7


Cai das sombras das pirâmides
Este desejo de obscuridade.
Enigma, inocência bárbara,
Pássaros galopando elementos
Do fundo céu
Irrompem nuvens eqüestres.
Onde estão os braços comunicantes
E os pára-quedistas da justiça?
Vultos encouraçados presidem
À sabotagem das harpas.


8


Que esperam todos?
O vento dos crimes noturnos
Destrói augustas colheitas,
Águas ásperas bravias
Fertilizam os cemitérios.
As mães despejam do ventre
Os fantasmas de outra guerra.
Nenhum sinal de aliança
Sobre a mesa aniquilada.
Ondas de púrpura,
Levantai-vos do homem.


9


Penacho da alma,
Antiga tradição futura:
?Se a alma não tem penacho
Resiste ao Destruidor?


10


A velocidade se opõe
À nudez essencial.
Para merecer o rompimento dos selos
É preciso trabalhar a coroa de espinhos.
Senão te abandonam por aí,
Sozinho, com os cadáveres de teus livros.



11


Pêndulo que marcas o compasso
Do desengano e solidão,
Cede o lugar aos tubos do órgão soberano
Que ultrapassa o tempo:
Pulsação da humanidade
Que desde a origem até o fim
Procura entre tédios e lágrimas.
Pela carne miserável,
Entre colares de sangue,
Entre incertezas e abismos,
Entre fadiga e prazer,
A bem-aventurança.
Além dos mares, além dos ares,
Desde as origens até o fim,
Além das lutas, embaladores,
Coros serenos de vozes mistas,
De funda esperança e branca harmonia
Subindo vão.



Murilo Mendes, Poesia Completa e Prosa, Nova Aguilar, 1994.


.
.
.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Homenagem de Marcus Fabiano Gonçalves aos portugueses Fernando Pessoa, Antônio Vieira e Santo Antônio de Lisboa, seguida de outros poemas do gaúcho

No ano passado, preparei uma postagem com poemas então inéditos de Marcus Fabiano Gonçalves para a Modo de Usar & Co., além de dois poemas de seu primeiro livro, O Resmundo das Calavras (2005). Hoje, em que completariam (e completam) anos (de morte e de vida, respectivamente) os grandes portugueses Fernando Martins de Bulhões ou Santo António de Lisboa (Lisboa, 15 de Agosto de 1195 - Pádua, 13 de Junho de 1231) e Fernando Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), o poeta gaúcho divulgou um poema inédito em homenagem a eles, intitulado "CARTA À POETA QUE EXAMINA SEUS MEDOS OU GLOSA SOB OS AUSPÍCIOS DA LÍNGUA DE SANTO ANTÔNIO DE LISBOA (TAMBÉM DITO DE PÁDUA) QUE OPEROU MILAGRES QUANDO FOI PREGAR AOS PEIXES E TOMAR SOPA ENVENENADA". O poema é introduzido por um pequeno texto do autor gaúcho. Encerro a postagem com os poemas publicados na Modo de Usar & Co. em maio de 2011.



SANTO ANTÔNIO, PADRE VIEIRA E FERNANDO PESSOA
por Marcus Fabiano Gonçalves

Na idade média, os pobres que deviam a agiotas eram encarcerados e tinham suas esposas forçadas a se prostituírem para o resgate de suas dívidas. Centenas de famílias de plebeus foram assim aniquiladas. Era a crueldade do “capitalismo” da época. No século XIII, um português brilhante, grande jurista e exímio orador, teve uma ideia: organizar frentes de trabalho de monges para a compra da libertação desses homens e o alívio do sofrimento de suas mulheres. Com a força dos braços e com sermões implacáveis ele moveu uma campanha contra a infâmia da prisão civil por dívida e conquistou mudanças pioneiras nas legislações feudais. Tratava-se do nobre português Fernando de Bulhões, que receberia de Francisco de Assis o nome de Antônio. Por ter ficado conhecido como Santo Antônio de Pádua (lugar próximo de onde morreu, em 1232), muitos pensam que ele seja italiano. Mas não. Sua língua milagrosamente nunca apodreceu. E é uma genuína língua portuguesa, por isso ele também é chamado Santo Antônio de Lisboa (onde nasceu, em 1195). Em sua homenagem, seriam batizados com o seu nome dois dos maiores escritores de nossa Língua: o padre Antônio Vieira e o poeta Fernando Antônio Nogueira Pessoa, que aliás lhe rende dupla homenagem, tendo nascido exatamente no seu dia, 13 de junho. Eis aqui um trecho do filme SAN ANTONIO DI PÁDOVA, de Umberto Marino, no qual se pode conferir a fortíssima cena do "miracolo della menestra" (o milagre da sopa). E logo abaixo um poema meu, de caráter pseudoanagógico, rendendo homenagem a esse grande Antônio em um país que o tem na baixíssima conta de mero santo casamenteiro.




§

“Esta é a língua, peixes, do vosso grande pregador, que também foi rêmora vossa, enquanto o ouvistes; e porque agora está muda (posto que ainda se conserva inteira) se veem e choram na terra tantos naufrágios.” --- Padre Vieira, Sermão de Santo Antônio aos Peixes

 §

CARTA À POETA QUE EXAMINA SEUS MEDOS OU GLOSA SOB OS AUSPÍCIOS DA LÍNGUA DE SANTO ANTÔNIO DE LISBOA (TAMBÉM DITO DE PÁDUA) QUE OPEROU MILAGRES QUANDO FOI PREGAR AOS PEIXES E TOMAR SOPA ENVENENADA
Marcus Fabiano Gonçalves

você já deveria saber que no meu bloco desfilam balões e bolcheviques, fuzis e margaridas. e só agora nota essas fitas alegóricas ao redor do andor? meu olho não é seco, é de terra. por isso quando uma água o molha não vem da íris nem é nada cristalina. é um barro, uma lama. mas erra muitíssimo quem a pense suja. não está sempre aí, ela surge. e quando vem, é uma argila. dessa mesma que é feito o homem e suas costelas, pois as barras dessas jaulas que no peito levam nossos tigres não detêm o sopro de um colibri. não é só da carne que lhe falo. é também da alma, da miraculosa língua de santo Antônio, até hoje conservada intacta. quem prega sacrifícios se santifica. mas será que vive ou se mantém cativo? também o santo vai à praia quando o povo lhe dá as costas. e então a sua palavra faz piscosas umas águas antes só de algas. porém nem sempre o remorso previne erros com cautelas. no “miracolo della menestra” a fé mudou o veneno em alimento quando Antônio disse ao agiota: por vossa alma eu tomo essa peçonha de cobra. aí convém aceitar a humana realidade e arriscar o ímpeto apesar da falha. a soberba doma a alma se a invocação de um santo indaga: tentando se é tentado? embora peque e morra, o santo é mais forte porque acredita. ele acode quando menos se imagina. a sua fé ama enquanto desafia. ela é a fome de um pão ainda sem seu trigo. a confiança que une a graça ao pedido. é pura promessa e espera porque conhece o lugar onde a semente guarda o tempo. sei e sabemos que é do humano tanto a raiva quanto o ciúme. e que por muito pouco pode a vida se tornar mais ácida, afinal toda carne apodrece e passa. mas enquanto aguarda a palavra é mágica. e ela fica, não finge que acredita. a luz é boa mesmo se às vezes o seu brilho é duro, sobretudo quando reúnam, junto à santa língua, diamante e dinamite. a fé transmuta quem dela se ilumine. a fé aclara muito quando se duvida. ela não entende, não explica, não decifra. só redime e nem sempre é macia. e se ela remove até montanhas, não lhe seria fácil demolir a esfinge? contudo a fé a trata como inexistisse. seu mistério não é charada nem enigma. não devora nem adivinha. só inspira. se é fácil? quem disse? no bem querer, o simples é ainda mais difícil.

(in Arame Falado, no prelo)






Marcus Fabiano Gonçalves nasceu em Santana do Livramento, na fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, em 1973. Cedo transferiu-se para Porto Alegre e é formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mestre e Doutor em Teoria e Filosofia do Direito, prepara doutoramento em antropologia na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris. Morou também em Florianópolis e Natal. Radicado na cidade do Rio de Janeiro, é atualmente professor da Universidade Federal Fluminense. Estreou em livro com O Resmundo das Calavras (2005), e sua segunda coletânea, intitulada Arame Falado, será lançada este ano.

O trabalho de Marcus Fabiano Gonçalves já havia aparecido neste espaço, mencionado com seu poema "Oração do favelado" no artigo "Das fatrasies medievais a DADA, do Sapateiro ao Rilke shake", que discute as possibilidades da poesia satírica e alguns exemplos deste trabalho em certos contemporâneos, ligando-os à tradição da poesia medieval que vai mais tarde desaguar na poesia do nonsense britânica e na dadaísta germânica, por exemplo. Poética que tem no Brasil dois excelentes representantes em Gregório de Matos e Sapateiro Silva.


POEMAS DE MARCUS FABIANO


Agulha e palheiro


quem ao palheiro se desse
munido apenas de um ímã
e dali tirasse a tal agulha
que ninguém garimpa

afeito ao tato da cegueira
quem nem a detectasse
por essa magnética patrulha
da improvável coisa miúda

mas sim a resgatasse cravada
feito uma seringa na nádega
como quem podendo a luz do mercúrio
garimpasse afinal sua pepita no escuro

e assim descobrisse pela agulha
o sentido de uma outra procura:
achar no ordinário do palheiro
a dádiva da palha, o aconchego.


§


Diário de bordo


um tanto de arroz
acautela a avareza da miséria:
uma cara mansa e rubicunda
de olhos trêfegos
mergulhados na tigela

o sorriso cínico ainda mercadeja
a dúvida dos céticos no bosque dos afetos
e um aleijão mendiga a piedade da repulsa
ostentando o seu falso caroço de corcunda

contudo, recorda-te:
anos 1800 – Gibraltar represa o Mediterrâneo
e a China dorme o ópio dos britânicos

anos 1900 – Celan pula da ponte da vida
sem perguntar ao carpina
o quanto verga sem quebrar
a severina compleição judia

anos 2000 – a árvore da vida desfolha
e em seu diário de bordo Noé anota:
afogado noutro dilúvio compulsório
ainda exerço os ofícios da memória.


§


Shukran


a Mahmoud Darwish


no armazém das migalhas
ser o chefe dos almoxarifes:
mesmo nos grandes negócios
jamais pechinchar seu bakshish
só pelo prazer de dizer shukran
aos deuses que falam ídiche.


§


A máquina do fundo


a pesca escassa, o rio poluído, a quotação da dracma
um heraclítico engenho rege o mundo das máquinas

na margem, a draga do imponderável rio sem fundo
sem opor o puro ao sujo, aceitando o fluxo de tudo

a lama negra das imagens infiltra o oco dos crânios
no entulho da palavra gaga, a jaula do orangotango

reúne uns cacos de naufrágio, enjambra umas tábuas
vê se salva as aves da linguagem nessa arca de sucata

une o conteúdo à sua forma mais perfeita e intransitiva
e embora toda solda, cuida de mantê-la móvel e flexível

coa a lama toda dessa draga e separa bem tua saliva
retém a gota e o grão no sorriso amarelo das espigas

observa o dedo lerdo catando seu milho na datilografia
de grão em grão germina um corvo no ventre da galinha

chocando a ave faz esfinge de quem ignora o enigma
mas na verdade ela bem sabe que no fundo nada finda.



::: poemas inéditos de Marcus Fabiano, incluídos em seu livro Arame Falado (no prelo) :::


§


Oração do favelado


pai nosso
que nos deixa ao léu
santificada seja a nossa fome
venha a nós o vosso treino
e seja feita a vossa vontade
aqui na guerra
como entre os réus

o pão nosso de cada dia
roubai hoje
e perdoai a nossa imprensa
assim como perdoamos
as migalhas que nos têm oferecido,
não nos deixeis cair na transação
mas livrai-nos do sistema penal,
amém.


§


Panifico e construo


sou em regra cortês
mas jamais peço licença sinhô
ou permiso señor

pulo a cerca corto o arame
arrombo a porteira cavo túnel
construo pontes improviso canoas
adivinho o segredo do cofre
salto contorno roubo a chave das algemas
me refugio em incertos algures
apago os rastros do meu paradeiro
disfarço-me em padeiro e pedreiro
panifico e construo
e meus pães eu distribuo
como quem oferece pedras
em uma ceia de banguelas

vim vi e vivi:
não vigiem minha viagem

vim vi e viciei:
não vasculhem minha bagagem

vim vi e vibrei:
não vomitem por minha beberagem




:::: poemas extraídos do livro O Resmundo das Calavras (Porto Alegre: WS Editor, 2005) ::::

.
.
.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Dia dos namorados



Sei que é uma invenção comercial. Eu mesmo nunca tive um que se rendesse ao utilitarismo capitalista do dia, negavam-no, conscientes, politizados. Eu morria de orgulho de cada um deles, e de frustração por não poder usar a oportunidade para derramar-me em carinhos ridículos. Agora sem um, felicito os felizardos que os têm, politizados ou não. E para eles, posto aqui 5 poemas da minha liricosa amorírica, de cada um dos meus cinco livros. Dedico esta postagem a Michael, que anda acenando no horizonte com uma mão aberta e a alegria oferta na outra, talvez efêmera – como sói ser, mas tão efusiva – como também só sabe ser.

Cinco poemas de cinco livros


De madrugada, de manhã

04:48 am

acordar no meio da noite
com a cabeça do outro
sobre o peito,
travesseiro,

maré e barco;

permanecer desperto, à deriva
o resto da noite, dormentes
e doloridos os membros,
a circulação cindida,

sem desejo de resgate –

e sussurrar-lhe ao ouvido:
unsere knochenknospen
– nossos brotos d’ossos –
schnurren und schnorren,
– ronronam e imploram,

como em qualquer hino,
meu querido.

09:56 am

eu
desconheço
quanto

deserto custa
uma epístola
aos coríntios;

se a cegueira
no caminho
precede sempre

(e vale)
a cidade,
Damasco;

se na garganta
um novo cântico
dos cânticos aguarda

ou se quatorze anos
de fôlego preso
hidratariam sonetos;

eu falo baixo
porque deixá-lo

dormir meia-hora
a mais é a forma

de acariciá-lo
logo de manhã,

ele, envolto em lã,
que ignora o abalo

sísmico
em mim:

um bocejo
seu.


(Carta aos anfíbios, 2005)

§

em minha boca ele
alcança o meio-dia
mas a intermitência o
apreende como em
qualquer música
cúmplice do acaso a
pessoa começa a
afastar-se desde que
se aproxima a distância
existe entre pele e
pele cada imagem
dobrando a esquina
não configura
sua chegada
ele
só chega quando seu
corpo chega carregado
pelas próprias pernas
e jamais falha que
eu o reconheça
de imediato
como dono de
certos lábios voz
nome e um modo
de apresentar-se
ele
chega o mundo
assume uma nova
forma: a do
equilíbrio precário do
mundo

(a cadela sem Logos, 2007)

§

Autorretrato para agência de acasalamento

a-
pós
a noite
em claro com
Antonioni / Plath / Radiohead
você pergunta-me
pela vida humorosa?
(cf. O. de A.)
autodevastar-se
a única
art we master,
só nos entendendo
via subtração,
nossos encontros
fantásticos!, cavalheiros,
como anseio
por ele
que piora tudo;
horas
para arrumar-se
e no fim
estes trapos?
ornam,
combinam,
caem
tão bem;
aguardo o dia
em que tudo
o que disser-me
o ventríloquo
seja a citação
de alguém algures,
como desaparecer
completamente;
nosso amor durou
quinze hematomas
e a incubação
da escabiose,
minha herança!;
quando acordei,
cada coisa em seu
lugar onde
eu, eu, eu
deixara;
ah! amar é
inter-
ferir,
salvar
se de si

(Sons: Arranjo: Garganta, 2009)

§

de Cigarros na cama

Poema 28

Os amigos sugerem passatempos
e festas, acquaintance com anatomias
inéditas, corpos novos. Como? Quem
se compara aos seus côncavos
e convexos?
Por ora, moço,
você ainda defeca
ouro.

(Cigarros na cama, 2011)


§

Texto em que o poeta celebra
o amante de vinte e cinco anos

Houve
guerras mais duradouras
que você.
Parabenizo-o pelo sucesso
hoje
de sobreviver a expectativa
de vida
de uma girafa ou morcego,
vaca
velha ou jiboia-constritora,
coruja.
Penguins, ao redor do mundo,
e porcos,
com você concebidos, morrem.
Saturno,
desde que se fechou seu óvulo,
não
circundou o Sol uma vez única.
Stalker
que me guia pelas mil veredas
à Zona,
engatinha ainda outro inverno,
escondo
minha cara no seu peito glabro.
Fosse
possível, assinaria um contrato
com Lem
ou com os irmãos Strugatsky,
roteiristas
de nossos dias, noites futuras;
por trilha
sonora, Diamanda Galás muge
e bale,
crocita e ronrona, forniquemos.
Celebro
a mente sob os seus cabelos,
ereto,
anexado ao seu corpo, o pênis.
Algures,
um porco, seu contemporâneo,
chega
ao cimo de seu existir rotundo,
pergunto,
exausto em suor, se amantes,
de cílios
afinal unidos, contam ovelhas
antes
do sono, eufóricas e prenhas.

(Ciclo do amante substituível, 2012)

.
.
.


domingo, 10 de junho de 2012

S.O.S. México - Yo Soy 132!

Caros leitores deste espaço, peço a todos que apoiem o movimento estudantil mexicano, em luta contra a oligarquia fascista de seu país. Sejam também 132, espalhem o vídeo. Aqui o meu apoio a meus amigos no D.F. e espalhados pelo país .

 

.
.
.

sábado, 9 de junho de 2012

Entre os pernambucanos




Acabo de voltar ao hotel, após passar a tarde e a noite no festival. Às 19:00, houve uma conversa com Ernesto de Melo e Castro, e, às 20:00, começou a roda de leituras. Havia pouco tempo para cada poeta, e eu decidi ler dois poemas: "X + Y: uma ode" e "Carta a Antínoo". Estava à vontade e houve uma conexão legal com o público. Mas agora confesso estar exausto e vou despencar na cama. Amanhã, às 9:00, conduzo uma conversa sobre as inplicações políticas do trabalho poético, a partir da proposição de Wittgenstein, de que "ética e estética são uma só". Às 16:30, participo de um bate-papo com o jornalista Diogo Guedes e a poeta Cida Pedrosa.

Deixo vocês com três poemas favoritos de três pernambucanos:

Tarde no Recife
Joaquim Cardozo

Tarde no Recife.
Da ponte Maurício o céu e a cidade.
Fachada verde do Café Máxime.
Cais do Abacaxi. Gameleiras.
Da torre do Telégrafo Ótico
A voz colorida das bandeiras anuncia
Que vapores entraram no horizonte.

Tanta gente apressada, tanta mulher bonita.
A tagarelice dos bondes e dos automóveis.
Um carreto gritando — alerta!
Algazarra, Seis horas. Os sinos.

Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
Dos longos crepúsculos que assistiram à passagem dos fidalgos holandeses.
Que assistem agora ao mar, inerte das ruas tumultuosas,
Que assistirão mais tarde à passagem de aviões para as costas do Pacífico.
Recife romântico dos crepúsculos das pontes.
E da beleza católica do rio.

§

Belo Belo
Manuel Bandeira

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.


§

de O Cão Sem Plumas
João Cabral de Melo Neto


IV. Discurso do Capibaribe

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).


.
.
.

Arquivo do blog