quinta-feira, 28 de junho de 2012

De volta a Berlim, já ocupadíssimo com as afinidades eletivas


Cheguei ontem à noite de volta ao Berlimbo, após uma maratona por aeroportos brasileiros e europeus. Deixei a casa de meus pais às 7:30 da segunda-feira. Entrei em minha casa berlinense às 21:00 da quarta. Moído.

Mas fui recebido por lábios e pernas e braços amorosos (imaginem toda uma anatomia amorível, no entanto a lista seria longa e proibida para menores de 18 anos). A passagem pelo Brasil foi excelente, pena não ter podido ver os amigos em São Paulo e Rio como tinha pretendido.

Agora de volta, lanço-me no turbilhão das afinidades eletivas. Os amigos mantiveram-se ocupadíssimos. Alguns highlights do que ocorre nos próximos dias, e a chance de rever amigos:

Hoje à noite, quinta-feira, Planningtorock lança oficialmente seu vídeo para a faixa "Black Thumber" na galeria Dittrich & Schlechtriem. Pode-se ter uma ideia do vídeo neste arquivo abaixo, filmado por um fã em uma outra galeria.




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Mais tarde, Anika toca com Obi Blanche no clube Prince Charles. Eles vêm colaborando nos últimos meses, e já fizeram um excelente set no projeto Boiler Room (quero escrever sobre isso, tocando numa velha ideia minha sobre as conexões entre o trabalho do DJ e certas práticas poéticas), além de ter feito juntos uma ótima versão para "Fitter Happier" do Radiohead, abaixo com vídeo da querida poeta e videasta colega Doireann O´Malley.


Anika & Obi Blanche - "Fitter Happier", Radiohead cover 
for the OK Computer Tribute on Musikexpress

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Amanhã, sexta-feira, o poeta americano Shane Anderson, residente em Berlim, lança seu livro de estreia no espaço O´Tannenbaum. Publiquei um poema excelente dele na Hilda Magazine, deem uma olhada. O livro está sendo lançado pela (ótima) editora berlinense Broken Dimanche Press, com posfácio de Daniela Seel e trabalhos visuais destacáveis de Eilis McDonald. Você pode encomendar o livro através da página da BDP, com envio postal gratuito.




Shane Anderson, Études des Gottnarrenmaschinen (Berlin: Broken Dimanche Press, 2012)


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E, por fim, meu caríssimo Marius Funk lançou ontem na Rede um mix que preparou a convite de um projeto artístico envolvendo a Facção do Exército Vermelho, o grupo alemão que causou traumas e transformações profundas no país entre a década de 60 e 80, e do qual fez parte um de meus fantasmas pessoais, a escritora Ulrike Meinhof. Outra coisa que me lembra da ideia sobre as conexões entre o DJ e o poeta contemporâneo.




Ainda dentro das afinidades eletivas berlinenses, mas ocorrendo em Nova Iorque, amanhã é também o lançamento do livro de Black Cracker, 40oz Elephant.


Black Cracker, 40oz Elephant (New York: Bowery Books, 2012)



Abaixo, você pode ler o blurb que escrevi para o livro, a pedido do poeta americano. Em setembro, lemos juntos no México.





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domingo, 24 de junho de 2012

A função social do poeta




A função social do poeta

         
                                           a Daniel Saldaña París


A Perse e Parra, o poeta
funciona tal qual mala 
conciencia de la época.
Pergunto, se os traduzo:
consciência má? Pesada?
Peso na ou da cuja dita?
Para uns, trata-se do id
dos ânus do tempo, R.G.
da lama entre as linhas
de mapas. Quiçá raio-X
genérico dos portadores
dos XX & XY de um país.
Outros estão mui certos
de que esta sua fatura
aumenta deveras o PIB,
ou que sua voz é o GPS
dos perdidos en la noche
oscura. Quando juntos,
dão-se ares de BNDES.
Entre os egos, talvez
seja o poeta o super-
ego do seu momento,
como uma tia chata
que ao invés de dizer
em alto e bom tom:
"coma logo as ervilhas",
recorre a vários métodos
obscuros de persuasão,
"esta ervilha é um mundo",
"esverdeadas dar-te-ão
eterna vida", "este legume
é como o planeta coberto
de gramíneas", "das vagens
às várzeas da tua louça",
"estas trezentas soldadas
são espartanas, faz agora
do teu prato as Termópilas",
"ervilha minha senil que
te comeste, tão logo desta
janta descontente", "pelo
menos um fruto em teu
ventre, solteirona". Ainda
por cima nos tantaliza
com suas tautologias:
"a ervilha é verdinha", etc.
É óbvio que os bar-roucos
prefeririam: "Ervilha-Fénix
das aias do escarra-velhos
do Himalaia, iactantia est".
Pois se alguns há séculos
insistem em lembrar-nos 
que o céu é azul, pássaros
voam e as flores se abrem
no mês de ____ (escolha,
leitor, o seu hemisfério). 
Tia chata, recorra à sátira,
pois os subnutridos não
são moucos só ao riso:
"Não querias comer Elvira?
No interregno, às ervilhas!"
Esqueçamos os legumes.
Os mortos-vivos só dão
ouvidos a energúmenos.
Por mim, possuísse
algum alto-falante
potente ou bastante,
esgoelaria: "devorem
logo toda essa merda
no prato, nos poupem
o trabalho", mas ao fim
sei que ninguém
comeria, anyway.
É como passar a vida
a buscar novas formas
para olha o aviãozinho.
Ai, de Sísifo,
já me basta
o phallus.
Dirão que um poeta,
ao dizer isso, pratica
a auto-sabotagem.
Ora encerremos,
dessarte, com algo
ambíguo e suficiente
para as meditações
em nossos próximos
Minutos de Sabedoria:
"Poeta: geringonça
entregue a ciclos
circadianos sem
qualquer zeitgeber."
Cansa-me a beleza.



Rocirda Demencock, a rolar no chão rindo da cara de Ricardo Domeneck,
Bebedouro - São Paulo, 24 de junho de 2012.


§

Nota escrita a 15 de julho de 2012:


Este poema surgiu ao ler uma citação do poeta chileno Nicanor Parra na página (Tumblr) do poeta mexicano Daniel Saldaña París, a quem dediquei este poema. A citação era: en un mundo desprovisto de racionalidad / la poesía no puede ser otra cosa / que la mala conciencia de la época / lo demás es literatura grecolatina”, de um poema escrito em 1992. Ao publicar aqui este poema, as primeiras linhas eram: "Parra escreveu: o poeta / funciona tal qual mala / conciencia de la época", em referência direta ao chileno. Naquele dia, o poeta gaúcho Marcus Fabiano Gonçalves chamou-me a atenção para o fato de que o poeta francês Saint-John Perse dissera coisa muito parecida em seu discurso em Estocolmo, ao aceitar o Prêmio Nobel em 1961: Face à l'énergie nucléaire, la lampe d'argile du poète suffira-t-elle à son propos? Oui, si d'argile se souvient l'homme. Et c'est assez, pour le poète, d'être la mauvaise conscience de son temps.” Decidi incorporar Perse ao poema, passando a iniciar o texto com o aliterativo "A Perse e Parra, o poeta", mantendo no entanto a citação em castelhano do latinoamericano, por ser mais imediatamente compreensível a um leitor lusófono, e porque me interessa o jogo com mala, falso cognato em português e espanhol.

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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Miguel Martins: novo livro.



Neste sábado, 23 de junho de 2012, é lançado em Lisboa o novo livro de Miguel Martins (n. 1969), intitulado fôlego sem folga (Lisboa: Língua Morta, 2012), com capa de Inês Dias. São apenas 150 exemplares. O lançamento começa por volta das 18:30, na galeria Câmara Lenta (Rua da Quintinha, 31), com apresentação de António Caeiro (Universidade Nova).

Descobri sua escrita em Lisboa, ao estar coincidentemente na cidade quando o poeta lançou Lérias (Lisboa: Averno, 2011). Impressionado com o livro e com sua leitura no lançamento, preparei com o auxílio de Changuito, da Livraria Poesia Incompleta, uma postagem com poemas de Martins para a Modo de Usar & Co., extraídos de vários livros. Dentre os poetas em atividade nesta nossa língua, obviamente aqueles a que tive acesso, considero-o um dos melhores. Ou, para evitar ferir sensibilidades, um dos que mais respeito.

Publico abaixo um poema que Martins postou recentemente em seu blogue (que ora ameaça encerrar - O Único Deus Vivo), e termino a postagem com a reprodução dos textos que publicamos na Modo de Usar & Co. a 11 de outubro de 2011.



A vida tarda
enquanto esta demonstração democrática do Demo
se demora entre ademanes e esgares,
como se tudo não passasse de uma farsa
velha e medíocre,
levada à cena, em sessões contínuas,
desde que uma salamandra se fez gente,
gente escondida
com o rabo de fora.
Resta-nos correr no sentido inverso
aos ponteiros do relógio e procurar,
inglórios, o pântano primordial
e, nele, nossos recantos de calor estagnado,
passar a borracha da noite sobre o carvão do vento,
correndo o risco de tudo esborratar,
e ter esperança ou, pelo menos, fé
nas propriedades curativas das folhas brancas.
Imaginem comigo:
o branco mais profundo
sugando-nos para dentro de si
como o olho de um furacão,
olho terrível e encantador
de répteis.
Antes de mergulhar, permitam-me apenas
um cálice de licor de ervas amargas
e o clangor lânguido de um oboé tibetano.
E depois - só depois - o abismo imenso,
antediluviano,
da nossa morte inteira e sem mentiras,
sem conta-gotas a dosearem tudo,
até a beira-mar
e até o medo.



Miguel Martins




Miguel Martins é um poeta contemporâneo português, nascido em 1969. Viveu quase sempre em Lisboa, com a exceção de uma temporada em Maputo, Moçambique. O poeta é formado em arqueologia. Sua primeira publicação é de 1995, uma pequena plaquete intitulada Seis poemas para uma morte. A ela seguiram-se os volumes Cirrose (editado pela Fenda), Atol (Clube dos Poetas Vivos), o livro de ensaios Jazz e Literatura (Campo das Letras), O taberneiro (Poesia Incompleta), Proibida a entrada a animais (excepto cães-guia) (Língua Morta), e seu mais recente, lançado este ano e intitulado Lérias (Lisboa: Averno, 2011). Prepara uma tradução para o português do livro Call It Sleep (1934), do romancista e contista norte-americano Henry Roth (1906 – 1995), que será lançado com o título Uma espécie de sono. O poeta vive e trabalha em Lisboa.

§

POEMAS


Uma caixa de cimento fresco. Deita-o
lá dentro. Mete-te na mota, arranca, não
penses mais nisso. A sul, há mulheres
cujo futuro é um avião que não deixa
traços no céu. A norte, se preferires,
... há-as engarrafadas, em decilitragens
as mais diversas. Com os homens
é a mesma coisa, dois dedos de conversa
e uns quantos cubos de gelo. Meia
hora chega para ir repondo o stock
de episódios com que fingir que estamos
vivos. Isso deve bastar-te, excepto
se te achares mais do que os outros
e Deus te livre de uma coisa dessas.
É isso: aprende a metafísica das
t-shirts brancas, das curvas apertadas,
da velocidade calma. O resto é
conversa de poetas, filósofos, historia-
dores, que fumam mais do que vêem
e lêem mais do que assobiam ao sair
à rua. O resto é uma perda de tempo
e não eras tu o tal que tanto nos
maçava com a iminência da
morte, com a falência da Sociedade
por quotas, com a genealogia
dos suínos? Aproveita agora esta
oportunidade de não ser nada
contigo; juro-te que ninguém
te vai levar a mal; envia, apenas,
um postal de Tânger e um contacto,
para o caso de o Emanuel ou a
Angelina quererem ir de férias e
precisarem de um sítio onde ficar.
Não é pedir muito em troca da
tua liberdade. Vá! Uma caixa de
cimento fresco. Deita-o lá dentro.
Sabes do que estou a falar. Ver-
melho escuro. Isso. O coração.

(publicado originalmente no jornal O Público, a 8 de outubro de 2011)

§

de O Taberneiro

Eu sou O TABERNEIRO-da-cintura-para-baixo e cara de cavalo relinchando aos pagodes, mijando nas traseiras de Notre Dame de Damn You, trombando uma defunta num sonho de luz branca. Vinde dizer-me agora que agora é que começa essa novíssima Volta a Portugal de que saireis vencedores-de-vozes-cristalinas-e-piscinas-nos-bolsos-resguardados...– do alto destas pirâmides, responde Napoleão, uma chuva de das Caldas vos contempla; e avoengos, trajando neve e medos, não hesitarão, sequer, no arremesso. E eis que entra um côro de gospel fumegante, ressaca bacanal já pronta para outra, e me embala menino-dos-ditos-saraivada-«tu sabes lá o que é que tás páí a dzer». «É verdade, não sei, eu sou O TABERNEIRO, li Stendhal, Sade, Camilo, Hugo e Zweig sentado numa pipa de mecha ainda acesa, pelo qu'é natural a pouca retenção; desculpem se me cago – almocei a correr e já bebi três litros de sobras clientelares.»

§

Ignis Fatuus

Vem a lume uma ideia luminosa
um chá de lúcia-lima fumegante
inalação de folhagem capitosa
num bule de feldspato crepitante

Disfarçada de paz fortificante
de miasma benigno, inspirativo
é a estultícia que naquele instante
rebrilha num fogacho transitivo

É o Futuro que pede, apreensivo
um cisma com as crenças abaladas
uma balada ao coração cativo
dos sismos e dos contos-de-fadas

que são suas madrastas desveladas
numa fumigação protelatória
da descoberta das portas encerradas
em chaleiras sem mago, sem memória

do aprisionamento nessa história
em que um afago acendia um fogo
que num segundo alcandorava à glória
uma vitória assegurada ao jogo

Mas na derrogatória a nosso rogo
restolha uma seara, seca a fonte
por se encontrar, apenas, muro e mogo
onde tanto aguardou o horizonte.

(O Taberneiro, Poesia Incompleta, 2010]

§

Seis poemas para uma morte

1

Que importa o que não temos
quando a vida leva tudo o que nos dá

e a morte restitui-nos ao silêncio.


2

Naquele dia choveu ao contrário
a chuva fina e o seu silvo subiam do chão

e eu caindo da janela
sem um raio de sol que me amparasse.


3

Na noite clara da tua morte Pai
parto de vez para a margem da brandura
Levo nos olhos esta luz de dor
feixes opacos medas de cansaço
(como as que carregavas)
seara que nasce no sonho condenada
quando na alma a chama esmoreceu
Chegou-me a mim: já nada perdura
Querias saber o que era aquele nada
contra o qual lutava – sou eu
vazio de ti. Poupámos o Futuro.


4

Nem umas palavras de despedida
nem “adeus”
Será que depois nos encontramos
na terra linda onde são as coisas que não são
sem medo do fim?
Já moras, Pai, com o teu Cristo
o Cristo que nos salvou a todos
por termos alguém como tu.
Nunca te disse bem quanto te amava
como te amo muito dentro de mim
na terra linda onde são as coisas que não são
com tanto medo de as perder.
Estar a fazer a barba, cair
e partir para o outro lado
sem dizer tudo o que é preciso.
Ou como tu ficar assim à espera
suspenso de nada
à porta de Deus como um pedinte
pedinte de Deus
que só nos pediste que fôssemos melhores
e talvez por isso nos dás ainda mais uns minutos
da tua eternidade.
Vai agora, parte por favor
vai viver com as estrelas e com a alma das flores.
Sei que todos os dias continuarás a madrugar
para colher os odores mais puros.
Já não são precisos sacrifícios
aí é tudo dado num natal perpétuo e permanente.
Até nós te nos vamos dar
como tu te nos deste, como te entregaste cada dia
de manhã à noite

a Mãe
a Paula
o Ricardo
e eu
(por outra ordem espero que não esta
que eu não aguento mais)
vamos voltar a tocar-te o cabelo
o cabelo mais lindo que conheço
e a beijar-te
(como é possível que beijos tão a medo
como os teus quisessem sempre dizer tanto?).

E olha que se eu aí chegar
a essa terra que não mereço
é mesmo só por ti
é para te ver e ficar espantado
como só nos espantamos com os anjos.
Adeus Pai
tem calma.
Eu pensarei em ti todos os dias.


5

Tinhas-nos a nós
como nos querias
não como nós somos

Partiste
olhando o ar
pensando o Vago
escutando o Ser
na boca o Fluido
a essência do Sangue
nós
em tudo isso nós
o imenso Amor

Em que pensaste, Pai, nessa semana
em que soubeste tudo isso
que dizias há tanto
e que os homens procuram?

O teu olhar tão calmo
as tuas mãos
só diziam Amor
e a respiração era a de que ele é feito:
com a Mãe
sabe Deus e o vosso Amor quando
connosco
dia a dia e a desoras
com tanta gente
que eu nem adivinho
na mudez superior de quem é grande

Toda a vida
só fizeste Amor

Perdeste a Palavra e o Movimento
usa o meu corpo se isso for possível
Nunca será a mesma coisa
mas vou portar-me bem
(a gente cá sabe o que isto quer dizer)

Há que roubar as flores ao abandono


6

Guardo o brilho baço dos teus olhos
de seres inteiro em cada coisa
o Ritual dos dias conhecidos
e a alegria desentranhada
do fundo da eternidade
que é a bruma de Deus.

Guardo a entrega funda de saber
que a revolta não tem princípio nem fim
e aquela altivez tão especial inapercebida
que pode haver na submissão
de estarmos à frente dos homens e do tempo
viver como quem morre cada dia

e estarmos mortos como quem está vivo.


Seis poemas para uma morte, Fábrica das Letras, 1995

§

Página 13 do livro Cirrose


Detesto toda a psicologia. Pelo menos tanto como o homem de trabalho e os escritores movidos a bons sentimentos, que o querem entreter ou melhorar ao módico preço dos direitos de autor. Para me sustentar tenho todas as loiras do mundo. E não são poucas. De ambos os sexos e qualquer côr de cabelo. É o que basta. A somar ao jogo. O jogo de sonhar acordado. Sou o chulo vigil dos pesadelos das mães. As nossas e as delas. A fera com mais inteligência que moral. Uma inteligência manipuladora. O abismo brilhante. Um falo que fosse vaso. Disputo corridas sem sair do lugar e, por isso, sou sempre o primeiro a alcançar a meta riscada no chão com o giz líquido do meu sémen. Os outros chegam estafados. Caem de borco. Matam a sede na fonte desse giz. E pagam o pecado. A minha religião indulgencia-me sempre. Sou o Papa Negro das Noites Brancas. O Papa Branco das Noites Negras. Sou cinzento. Como as balanças que aferem o peso para aferir o custo. Estou afinado. Não ranjo. Não sangro. Não choro. Não peço. Não morro. A não ser que me sobrevenha uma embolia ao baralho. Ao caralho. Por isso, conservo-me em álcool. Como os miúdos fazem às cobras. O formol é para os Deuses.

§

de Proibida a entrada a animais (excepto cães-guia)

O Caso da Fruta

I

Não ser marinheiro. Não ser coisa alguma. E, ainda assim, zarpar deste lugar de fama sem proveito. Aportar às quatro estações, simultâneamente, num único cachimbo (milho de cerejeira). Comer mar, beber sal, respirar resina, cobrir a pele de lâminas de vinho. Renegar renegar. (O tempo). Ressarcir a cinta do silêncio. Derrimir a porca rouquidão. Arrancar às costas a tareia, às pernas o balastro, às mãos as mãos, à voz a recaída. Arrancar o pensamento ao fígado e o fígado ao pensamento. Lamber, ininterruptamente, uma mulata estéril de olhos mais verdes que a maior escuridão. Calar. Sobretudo isso. Calar-me. Escutar o canto sinusoidal, elíptico, dos cactos quando levantam voo para se tornarem homens. Nesses breves segundos, em que os cactos são vermelhos e aveludados, Deus assobia, dizem, velhos ragtimes e eu gosto de ragtimes. Pelo menos tanto quanto gosto de nêsperas, de salivas que não a minha, de bicos-de-lacre, do toque da cortiça. Eu gosto de gostar. E ando esquecido disso.

§

Não-raciocínio acerca da auto-estima

para o Levi Condinho

Uma semana da minha vida é um ano
da vossa, disse Lou Reed, cheio de si
e de razão. "Caro ouvinte, o caminho
é o mesmo e o disco meu - anda cá

tu" - digo, para completar a ideia.

Alma noise, dir-se-ia neste tempo
de muita coisa e nada. "Ama-me ou
deixa-me ou ama-me e deixa-me,
desassossegado. Trémulo. Vazio. Toc

ando uma guitarra autónoma, como
o vento que me varre, mesmo quando
me resguardo da noite, das aves, das aves
da noite, da calma, que é o peixe com mais

tripa". Esqueci-me do que queria
dizer: há nisto um lodo; um lodo
desgraçadamente impossível.


in Proibida a entrada a animais (excepto cães-guia)

§

Do tempo

Todo o tempo passado a trabalhar. Todo o tempo passado a falar com gente cheia de aspirações concretas. A esgravatar caminhos alternativos ao caminho que desde sempre soube e é o meu. Todo o tempo sóbrio, bêbedo, acordado, aqui. Fora da minha nuvem, Britânia imaginária. Todo o tempo perdido. Tanto. Roseiras por enxertar. Trutas à deriva. Bibliotecas de couro. Cavernames. Oboés doidos na charneca fria. Nunca os tocarei. O Tempo, indemne, não indemniza. Não se desdobra. Não se recupera. Resta-me ronronar e gemer. Ser gato. Exprimir o inefável com um orgulho estóico mas envelhecido. Tardio. O pêlo caindo. A pele demasiado larga para a carne. Peritonite infecciosa felina. O fim a instalar-se por toda a parte. O olhar triste. A espera. A inevitabilidade. Não conseguir saltar, e saltar. O sonho. A sublime humanidade dos bichos. A redenção. Privada. Como uma cicatriz que torna a pele única e intransmissível e, por isso mesmo, mais bonita.


in Lérias (Lisboa: Averno, 2011)


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quinta-feira, 21 de junho de 2012

Lula e Maluf: um acerto de mãos





Um acerto de mãos

Aos poucos, tanto pulso
que dita como reivindica
confundem-se no fundo
sem vilões e sem puros
da História: arte narrativa.

Cerradas, mãos se agitam
no ar. Depende da boca,
porém, o que significam
a lobos e ovelhas passivas
em conluio na mesma toca.

Ora Lula e Maluf dão
-se os punhos, um novo
pacto (o eterno retorno)
de apoio e não-agressão.
Tudo em nome do polvo,

os interesses do polvo
são supremos. Limites?
Mas o que são limites?
Limites são coisas
para os lemingues.


Rocirda Demencock, com os movimentos peristálticos na contramão, 21 de junho de 2012.

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segunda-feira, 18 de junho de 2012

"Belo Monte, anúncio de uma guerra", filme na íntegra.



Belo Monte, anúncio de uma guerra (2012), financiado pelo público. Direção de André D´Elia.
Implora-se que se o espalhe, ou não se volte mais a este espaço.



 

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domingo, 17 de junho de 2012

Dirceu Villa escreve sobre o Festival de Poesia de Berlim 2012

 
Eu (de costas) com Dirceu Villa, do lado de fora da Akademie der Künste,
Berlim, após as apresentações no Poesiefestival (foto de Timo Berger).




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sábado, 16 de junho de 2012

Notícias de Belo Monte + Eduardo Viveiros de Castro fala sua contrafala

Belo Monte, Rio Xingu, 15 de junho de 2012 –
Trezentas pessoas entre povos indígenas, agricultores, pescadores, ativistas
e moradores afetados pela construção da Hidrelétrica de Belo Monte ocuparam
essa manhã uma das ensecadeiras de Belo Monte – pequena barragem próxima
da Vila de Santo Antônio. Abriram um canal com picaretas, pás, enxadas, deixando
o Rio Xingu correr livre novamente. Moradores do Xingu fizeram uma faixa
humana com as palavras “Pare Belo Monte”. No início da Rio +20, enviam
uma mensagem da imensa devastação social e ambiental que este projeto
está causando a região, alertando que hidrelétrica não é energia limpa.
A mensagem dos povos é “Energia que não respeita a lei, a população local,
violenta direitos indígenas, destrói comunidades e o meio ambiente não pode ser limpa”.
Eles querem a paralização da construção de Belo Monte!
Foto: Atossa Soltani/ Amazon Watch / Spectral Q

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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Minhas memórias mais antigas de Yeats

 Portrait of Yeats as a young lad

Eu ainda me lembro claramente da primeira vez que ouvi o nome de Yeats. Eu era criança, e estava assistindo ao filme de Francis Ford Coppola, Peggy Sue Got Married (1986), legendado. Devia ser 1988, quando meu pai comprou nosso primeiro aparelho de vídeo-cassete. Pois é, o famoso Peggy Sue - Seu passado a espera. Para os leitores mais jovens: trata-se daquele em que a personagem de Kathleen Turner passa mal na reunião de 25 anos de sua turma de colegial, desmaia e desperta no passado, de novo em sua vida aos 17 anos de idade, mas com sua memória do "futuro" intacta.

De volta ao colegial, aquela fauna e flora típicas dos filmes adolescentes americanos: o nerd/geek que apanha de todo mundo, a cheerleader que todos querem imitar ou foder, o macho-alfa gostosão e cool (que mais tarde vira o loser barrigudo), etc, etc, etc. Mas havia no filme também a personagem do poeta adolescente/intelectual pubertário (se fosse menina, seria interpretada por Winona Ryder -:: nota mental: algum dia preciso escrever sobre o impacto que o filme Heathers teve em mim), interpretado no filme por Kevin J. O´Connor, que se vestia todo de preto, como se fosse um existencialista exilado de Paris ou um beatnik, é claro que antes dos beats virarem hippies cantando Odara Odara em roda com margaridas no cabelo - aquele horror todo.

Lembro-me da cena em que o professor está discutindo The Old Man and The Sea, de Hemingway, dando uma explicação toda elaborada e literata para o livro, quando a personagem-poeta de Kevin J. O´Connor (no filme ele se chamava Michael Fitzsimmons) argumenta que o livro é uma metáfora para o declínio dos níveis de testosterona em Hemingway (that overrated slob), ou algo nestes termos. Apaixonei-me na hora.

Sim, Michael Fitzsimmons foi uma de minhas primeiras crushes por personagens cinematográficas. Eu já sabia que queria ser escritor, e me apaixonava por qualquer personagem que escrevesse. Pois bem, Peggy Sue, que era a head-cheerleader e namorava o macho-alfa gostosão (estranhamente interpretado por Nicholas Cage) começa um caso às escondidas com Michael Fitzsimmons. Céus, os calafrios que percorreram minha espinha e genitália quando (sutilmente, pois se trata de um filme de adolescentes) insinua-se que Peggy Sue perde a virgindade com Fitzsimmons, que, longo antes de beijá-la, recita, do poema "When you are old":


How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;


Eu, que até então (tinha por volta dos 10 anos) havia tido contato apenas com poetas românticos brasileiros e Vinícius de Moraes, tive um choque. Rebobinava  a fita (pede-se que os leitores mais jovens procurem no dicionário o significado do verbo "rebobinar") e ouvia de novo, sem entender, lendo a tradução, e deixando o beijo acontecer e o calafrio correr. Era a década de 80, não havia Google e eu morava em Bebedouro. Como saber mais sobre Yeats? Como ler mais? Por anos, esta estrofe foi tudo o que soube do poeta.

Fast-forward: 1997. Dez anos depois. Foi o ano em que me mudei para São Paulo, onde faria cursinho no bairro da Liberdade para ingressar na Faculdade de Filosofia da USP. No ínterim, já havia morado nos Estados Unidos, onde terminara o colegial e eu próprio bancara o poeta adolescente/intelectual pubertário, lendo Thoreau (por causa de outra crush cinematográfica de adolescente - a personagem de Robert Sean Leonard em Dead Poets Society), Whitman (com aquela sensação de perigo por seus homoerotic under/overtones), Poe, Dickinson, Frost. Nada de Yeats. Havia me esquecido de Yeats.

Mas naquele primeiro ano em São Paulo, 1997, comecei a percorrer os sebos, aumentar minha pequena biblioteca. Lembro-me de comprar a Obra Completa, bilíngue, de Federico García Lorca; a obra reunida, em dois volumes, de João Cabral de Melo Neto; descobrir Hilda Hilst em Estar Sendo, Ter Sido, com aquele poema final pelo qual sou obcecado, "A Mula de Deus"; e, aos 20 anos, encontrar a antologia preparada, traduzida e prefaciada por Paulo Vizioli, lançada pela Companhia das Letras em 1994: W.B. Yeats, Poemas. Aqui, outra memória vívida envolvendo Yeats: sentado na calçada de uma rua de São Paulo, esperando os portões da escola onde faria a prova da segunda fase da FUVEST se abrirem, e, enquanto todos os outros liam suas apostilas do cursinho, eu lia Poemas, de Yeats.

Mais tarde, no ápice do meu fervor experimental e vanguardista, com os preconceitos comuns de tal fervor, I become estranged from Old Bill Yeats. Hoje, porém, mais velho e equilibrado, sentindo a liberdade para amar os mais românticos e mais antilíricos dos poetas que amo, chego a Bebedouro, onde estou agora na casa dos meus pais, e encontro na estante esta mesma antologia, comprada há 15 anos, os Poemas de Yeats, e é o que tenho lido e relido nestes últimos dias.

Posto aqui, assim, em homenagem ao velho irlandês, alguns dos meus poemas favoritos, a quem estiver aí fora, de plantão, getting old ou no fervor lindo e divino dos poetas adolescentes. Aproveitem, esta febre que vocês sentem é uma coisa maravilhosa. Acho que Yeats nunca deixou de senti-la.



When You Are Old
W. B. Yeats

WHEN you are old and gray and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face among a crowd of stars.


 §


No Second Troy
W. B. Yeats

WHY should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great.
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done, being what she is?
Was there another Troy for her to burn?



§


The Fascination of What’s Difficult
W. B. Yeats

The fascination of what's difficult
Has dried the sap out of my veins, and rent  
Spontaneous joy and natural content
Out of my heart. There's something ails our colt  
That must, as if it had not holy blood  
Nor on Olympus leaped from cloud to cloud,  
Shiver under the lash, strain, sweat and jolt
As though it dragged road metal. My curse on plays  
That have to be set up in fifty ways,
On the day's war with every knave and dolt,  
Theatre business, management of men.  
I swear before the dawn comes round again  
I'll find the stable and pull out the bolt.



§


Sailing to Byzantium
W. B. Yeats

THAT is no country for old men. The young
In one another's arms, birds in the trees
- Those dying generations - at their song,
The salmon-falls, the mackerel-crowded seas,
Fish, flesh, or fowl, commend all summer long
Whatever is begotten, born, and dies.
Caught in that sensual music all neglect
Monuments of unageing intellect.

An aged man is but a paltry thing,
A tattered coat upon a stick, unless
Soul clap its hands and sing, and louder sing
For every tatter in its mortal dress,
Nor is there singing school but studying
Monuments of its own magnificence;
And therefore I have sailed the seas and come
To the holy city of Byzantium.

O sages standing in God's holy fire
As in the gold mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre,
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.

Once out of nature I shall never take
My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.


§

Leda and the Swan
W. B. Yeats

A sudden blow: the great wings beating still
Above the staggering girl, her thighs caressed
By the dark webs, her nape caught in his bill,
He holds her helpless breast upon his breast.

How can those terrified vague fingers push
The feathered glory from her loosening thighs?
And how can body, laid in that white rush,
But feel the strange heart beating where it lies?

A shudder in the loins engenders there
The broken wall, the burning roof and tower
And Agamemnon dead.
                    Being so caught up,
So mastered by the brute blood of the air,
Did she put on his knowledge with his power
Before the indifferent beak could let her drop?

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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Da "Janela do caos", de Murilo Mendes

O pequeno ensaio abaixo foi originalmente publicado na franquia eletrônica da Modo de Usar & Co., em novembro de 2011. Há tempos queria reproduzir estas linhas de pensamento sobre O Mestre aqui. Aos que não o haviam visto e a quem mais possa interessar.


Da "Janela do caos", de Murilo Mendes




O mestre Murilo Mendes (1901 - 1975 e então a eternidade)


Publicado originalmente em Poesia Liberdade (1947), lançado na França já em 1949 em um volume com seis litografias de Francis Picabia e traduzido para o italiano por ninguém menos que Giuseppe Ungaretti, "Janela do caos" é um dos poemas imprescindíveis da poesia brasileira e em língua portuguesa, ainda que tenha encontrado acolhida parca no cânone, na bibliografia crítica e nas listagens dos gigantes, cujas vagas são em geral ocupadas por outros textos muito merecedores do espaço, como "A Máquina do Mundo" de Drummond, "Uma Faca Só Lâmina" de Cabral, ou, em casos raros, o "Cântico dos Cânticos para Flauta e Violão" de Oswald de Andrade, talvez o poema que mais se lhe assemelhe em escopo, escolhas e contexto histórico. É claro que críticos muito bons se ocuparam dele e de seu autor, como Murilo Marcondes de Moura no excelente Murilo Mendes: a poesia como totalidade (São Paulo: Edusp, 1995). Vale também lembrar, entre outros, o livro de Júlio Castañon Guimarães, Territórios/Conjunções: poesia e prosa críticas de Murilo Mendes (Rio de Janeiro: Imago, 1993). Mas a importância deste texto pediria muito mais festança crítica e tentativas de emulação pupilar.

Em termos de fanopeia, talvez nenhum poeta brasileiro se compare a Murilo Mendes, maestria reconhecida por João Cabral de Melo Neto, que declarou haver aprendido com o mestre de Juiz de Fora a sempre dar precedência à imagem sobre a ideia (cito de memória). Em língua portuguesa, encontramos tamanha ousadia metafórica em poucos poetas, como Fernando Pessoa e Herberto Helder. Mas, a meu ver, tal uso da fanopeia como instância da hierofania ocorre em poucos poetas espalhados pela modernidade ocidental. O tipo de beleza que sinto em versos como "O céu cai das pombas. / Ecos de uma banda de música / Voam da casa dos expostos" ou aquela quinta parte, em que o mestre Murilo Mendes diz-nos que "Nenhum som de flauta, / Nem mesmo um templo grego / Sobre colina azul / Decidiria o gesto recuperador. / Fome, litoral sem coros, / Duro parto da morte. / A terra abre-se em sangue, / Abandona o branco Abel / Oculto de Deus", faz-me pensar na potência imagética de certos versos do Pessoa do "coração como balde despejado" ou, ousaria dizer, em momentos em que a fanopeia também manifesta-se como instância de hierofania no Gerard Manley Hopkins de "The Wreck of the Deutschland", como "I am soft sift / In an hourglass—at the wall / Fast, but mined with a motion, a drift, / And it crowds and it combs to the fall; / I steady as a water in a well, to a poise, to a pane", mesmo que eu esteja ciente que Hopkins talvez seja um dos mestres insuperados (também Pessoa, em menor medida) da arte de conjugar, em equilíbrio quase sempre perfeito, fanopeia, melopeia e logopeia, quando Murilo Mendes foi em geral mestre supremo daquela primeira.


Sintaticamente, não consigo pensar em uso melhor e mais necessário do hipérbato que naquela última parte, a décima primeira, em que este assume caráter praticamente isomórfico, para usar abusadamente uma expressão cara a Augusto de Campos, que desempenha (como uma performance) a ideia-sensação de ascensão transcendente, ao deixar para o último verso aquele "Subindo vão", ao mesmo tempo que, de maneira gráfica, digamos, cria uma espécie de embate entre ascensão e queda ao fazer dele o ulterior e último dos versos. Há aqui uma relação interessante a ser pensada sobre os efeitos vocais e auditivos do poema quando é falado/ouvido e seus efeitos visuais quando é lido. Não seria impossível também pensar no verso final, a partir da quebra-de-linha, como uma espécie de sínquise a fazer de "vão" não um verbo, mas adjetivo, sem concordância direta com as linhas anteriores, doando certa desesperança ao poema não conhecêssemos a fé de seu autor.


Talvez mais condizente com o pensamento de Murilo Mendes seria a sugestão do poeta gaúcho Marcus Fabiano, em correspondência particular sobre esta possibilidade, a de ler "vão" nem como verbo nem como adjetivo, mas como substantivo, criando a imagem de ascensão por aquele "vão azul" que nos pareceria vazio apenas porque nós, segundo um verso do poema, "só vemos o céu pelo avesso". Pois, quase no extremo oposto de um poeta como Wallace Stevens, que escreveu que "Poetry / Exceeding music must take the place / Of empty heaven and its hymns, / Ourselves in poetry must take their place", Murilo Mendes não cria vazio o céu nem imaginaria que nós pudéssemos substituir o sagrado com a poesia, especialmente não colocando esta acima da música, já que M.M. era melomaníaco notório.

Estas possíveis leituras do último verso de "Janela do caos", de certa forma (trata-se aqui de sensação minha), talvez evoquem a sensibilidade e imagética mística anterior de poetas como Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens, poetas que parecem presidir ou ao menos prenunciar a poesia mística brasileira moderna, a de Murilo Mendes e de seus excelentes companheiros Jorge de Lima, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes (da primeira fase) e Henriqueta Lisboa. Entre os poetas do pós-guerra, poderíamos mencionar Hilda Hilst e Leonardo Fróes, todos estes, ao mesmo tempo, poetas muito distintos entre si.

Outro aspecto que seria importante discutir neste poema é a relação entre linguagem metafórica e linguagem metonímica em sua textualidade, pois Murilo Mendes mescla-as de forma inteligentíssima, apontando para advertências do próprio Jakobson sobre o perigo de estabelecermos fronteiras demarcadas demais entre as duas, assim como este poema é uma lição incontornável sobre o equívoco de certos poetas e críticos contemporâneos, que insistem em crer que a função poética da linguagem cancela as outras funções, como a referencial, quando nada disso pode ser comprovado nos grandes poemas de todos os tempos. A linguagem poética parece operar e funcionar, em seu material, forma, função e contexto, em "Janela do caos" e em tanta grande poesia, na fronteira entre transparência e não-transparência do signo, como insisto com frequência.

Nestes nossos tempos de equívoco crítico desastrado que busca equivaler como se sinônimos, de forma confusa e desengonçada, conceitos como "pós-utópico", "trans-histórico" e "sincrônico", Murilo Mendes retorna como mestre supremo e indispensável. Pois é importante dizer que o "surreal" em Murilo Mendes talvez se manifeste com força real de escrita automática apenas em um livro como As Metamorfoses (1944), como Murilo Marcondes de Moura já argumentou, já que M.M. parece ter usado o surrealismo apenas para educar-se em sua futura maestria do que já foi chamado de "metáfora dissonante" e para a própria conjunção entre linguagem metafórica e metonímica que parece operar em um poema como "Janela do caos". Há pouquíssimo de "automático" na escrita do mestre mineiro. Um poema como "Janela do caos" apresenta-se consciente em cada filigrana de sua textualidade, atento à conjugação do temporal, secular e histórico como campos de ação do sagrado, daí o caráter hierofânico de sua fanopeia. Pois se ele está ligado, sim, a esta que foi uma das vanguardas mais utópicas do século XX, o surrealismo de Breton, Picabia e Éluard, entre outros, a poesia de Murilo Mendes, que foi chamado de "conciliador de contrários" por Manuel Bandeira, sempre demonstrou a consciência de que a defesa do utópico (que se manifesta em M.M. no bojo de sua crença inabalável na parúsia) precisa estar unida a um ataque ao distópico, pois ele sabia bem que a humanidade balança-se, em pêndulo, entre distopia e sua antesala.

Num momento em que liberdades civis estão claramente ameaçadas tanto em São Paulo como em São Petersburgo; com sangue jorrando no Egito e outros países árabes; prisioneiros políticos em prisões como Guantânamo e Guanajay; partidos de extrema direita vencendo eleições em países europeus e expulsão de estrangeiros de países como a França; sem mencionar as matanças por questões étnicas que nunca cessam, eu, pessoalmente, retorno uma vez mais a mestres como o Murilo Mendes de "Janela do caos" e o Oswald de Andrade de "Cântico dos cânticos para flauta e violão", estes brasileiros que sabiam que a poesia lírica sai e soa alienada tão-só dos e para os que têm panfletos inúteis ou cartões de crédito nas cavidades onde deveriam residir seus miocárdios e cérebros.


--- Ricardo Domeneck


§


O POEMA DO MESTRE MURILO MENDES


Janela do caos


1


Tudo se passa
Em Egitos de corredores aéreos
Em galerias sem lâmpadas
À espera de que Alguém
Desfira o violoncelo
- Ou teu coração?
Azul de guerra.


2


Telefonam embrulhos,
Telefonam lamentos,
Inúteis encontros,
Bocejos e remorsos.
Ah! Quem telefonaria o consolo
O puro orvalho
E a carruagem de cristal.


3


Tu não carregaste pianos
Nem carregaste pedras
Mas na tua alma subsiste
- Ninguém se recorda
E as praias antecedentes ouviram -
O canto dos carregadores de pianos,
O canto dos carregadores de pedras.



4


O céu cai das pombas.
Ecos de uma banda de música
Voam da casa dos expostos.
Não serás antepassado
Porque não tiveste filhos:
Sempre serás futuro para os poetas.
Ao longe o mar reduzido
Balindo inocente.


5


Harmonia do terror
Quando a alma destrói o perdão
E o ciclo das flores se fecha
No particular e no geral:
Nenhum som de flauta,
Nem mesmo um templo grego
Sobre colina azul
Decidiria o gesto recuperador.
Fome, litoral sem coros,
Duro parto da morte.
A terra abre-se em sangue,
Abandona o branco Abel
Oculto de Deus.


6


A infância vem da eternidade.
Depois só a morte magnífica
- Destruição da mordaça:
E talvez já a tivesses entrevisto
Quando brincavas com o pião
Ou quando desmontaste o besouro.
Entre duas eternidades
Balançam-se espantosas
Fome de amor e a música:
Rude doçura,
Última passagem livre.
Só vemos o céu pelo avesso.


7


Cai das sombras das pirâmides
Este desejo de obscuridade.
Enigma, inocência bárbara,
Pássaros galopando elementos
Do fundo céu
Irrompem nuvens eqüestres.
Onde estão os braços comunicantes
E os pára-quedistas da justiça?
Vultos encouraçados presidem
À sabotagem das harpas.


8


Que esperam todos?
O vento dos crimes noturnos
Destrói augustas colheitas,
Águas ásperas bravias
Fertilizam os cemitérios.
As mães despejam do ventre
Os fantasmas de outra guerra.
Nenhum sinal de aliança
Sobre a mesa aniquilada.
Ondas de púrpura,
Levantai-vos do homem.


9


Penacho da alma,
Antiga tradição futura:
?Se a alma não tem penacho
Resiste ao Destruidor?


10


A velocidade se opõe
À nudez essencial.
Para merecer o rompimento dos selos
É preciso trabalhar a coroa de espinhos.
Senão te abandonam por aí,
Sozinho, com os cadáveres de teus livros.



11


Pêndulo que marcas o compasso
Do desengano e solidão,
Cede o lugar aos tubos do órgão soberano
Que ultrapassa o tempo:
Pulsação da humanidade
Que desde a origem até o fim
Procura entre tédios e lágrimas.
Pela carne miserável,
Entre colares de sangue,
Entre incertezas e abismos,
Entre fadiga e prazer,
A bem-aventurança.
Além dos mares, além dos ares,
Desde as origens até o fim,
Além das lutas, embaladores,
Coros serenos de vozes mistas,
De funda esperança e branca harmonia
Subindo vão.



Murilo Mendes, Poesia Completa e Prosa, Nova Aguilar, 1994.


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