terça-feira, 3 de julho de 2012

Novo selo europeu, Human Level, abre com lançamento de Planningtorock




O novo selo europeu Human Level fará no dia 30 de julho seu primeiro lançamento, novo single de Planningtorock, o primeiro desde o lançamento explosivo do seu segundo álbum: W (DFA Records, 2011). O single, engajada e fantasticamente intitulado Patriarchy Over & Out, traz ainda uma faixa de rRoxymore, "Wheel of fortune", artista francesa que vem colaborando com Planningtorock (Janine Rostron) há alguns anos e se apresenta com ela ao vivo. O single sairá nos Estados Unidos no dia seguinte pelo selo de James Murphy, DFA. 

Planningtorock é hoje um dos nomes mais importantes da vanguarda europeia, com sua brilhante mescla de música, vídeo-arte e performance, e um trabalho marcado por uma pesquisa sobre nossas noções contemporâneas de identidade. A nova faixa é brilhante. Ouça-as aqui: HL001

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segunda-feira, 2 de julho de 2012

"Clarice Lispector, internacional" - artigo para a Deutsche Welle



Pequeno artigo meu sobre o novo interesse internacional pela obra de Clarice Lispector (1920 - 1977), para a Deutsche Welle.





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quinta-feira, 28 de junho de 2012

De volta a Berlim, já ocupadíssimo com as afinidades eletivas


Cheguei ontem à noite de volta ao Berlimbo, após uma maratona por aeroportos brasileiros e europeus. Deixei a casa de meus pais às 7:30 da segunda-feira. Entrei em minha casa berlinense às 21:00 da quarta. Moído.

Mas fui recebido por lábios e pernas e braços amorosos (imaginem toda uma anatomia amorível, no entanto a lista seria longa e proibida para menores de 18 anos). A passagem pelo Brasil foi excelente, pena não ter podido ver os amigos em São Paulo e Rio como tinha pretendido.

Agora de volta, lanço-me no turbilhão das afinidades eletivas. Os amigos mantiveram-se ocupadíssimos. Alguns highlights do que ocorre nos próximos dias, e a chance de rever amigos:

Hoje à noite, quinta-feira, Planningtorock lança oficialmente seu vídeo para a faixa "Black Thumber" na galeria Dittrich & Schlechtriem. Pode-se ter uma ideia do vídeo neste arquivo abaixo, filmado por um fã em uma outra galeria.




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Mais tarde, Anika toca com Obi Blanche no clube Prince Charles. Eles vêm colaborando nos últimos meses, e já fizeram um excelente set no projeto Boiler Room (quero escrever sobre isso, tocando numa velha ideia minha sobre as conexões entre o trabalho do DJ e certas práticas poéticas), além de ter feito juntos uma ótima versão para "Fitter Happier" do Radiohead, abaixo com vídeo da querida poeta e videasta colega Doireann O´Malley.


Anika & Obi Blanche - "Fitter Happier", Radiohead cover 
for the OK Computer Tribute on Musikexpress

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Amanhã, sexta-feira, o poeta americano Shane Anderson, residente em Berlim, lança seu livro de estreia no espaço O´Tannenbaum. Publiquei um poema excelente dele na Hilda Magazine, deem uma olhada. O livro está sendo lançado pela (ótima) editora berlinense Broken Dimanche Press, com posfácio de Daniela Seel e trabalhos visuais destacáveis de Eilis McDonald. Você pode encomendar o livro através da página da BDP, com envio postal gratuito.




Shane Anderson, Études des Gottnarrenmaschinen (Berlin: Broken Dimanche Press, 2012)


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E, por fim, meu caríssimo Marius Funk lançou ontem na Rede um mix que preparou a convite de um projeto artístico envolvendo a Facção do Exército Vermelho, o grupo alemão que causou traumas e transformações profundas no país entre a década de 60 e 80, e do qual fez parte um de meus fantasmas pessoais, a escritora Ulrike Meinhof. Outra coisa que me lembra da ideia sobre as conexões entre o DJ e o poeta contemporâneo.




Ainda dentro das afinidades eletivas berlinenses, mas ocorrendo em Nova Iorque, amanhã é também o lançamento do livro de Black Cracker, 40oz Elephant.


Black Cracker, 40oz Elephant (New York: Bowery Books, 2012)



Abaixo, você pode ler o blurb que escrevi para o livro, a pedido do poeta americano. Em setembro, lemos juntos no México.





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domingo, 24 de junho de 2012

A função social do poeta




A função social do poeta

         
                                           a Daniel Saldaña París


A Perse e Parra, o poeta
funciona tal qual mala 
conciencia de la época.
Pergunto, se os traduzo:
consciência má? Pesada?
Peso na ou da cuja dita?
Para uns, trata-se do id
dos ânus do tempo, R.G.
da lama entre as linhas
de mapas. Quiçá raio-X
genérico dos portadores
dos XX & XY de um país.
Outros estão mui certos
de que esta sua fatura
aumenta deveras o PIB,
ou que sua voz é o GPS
dos perdidos en la noche
oscura. Quando juntos,
dão-se ares de BNDES.
Entre os egos, talvez
seja o poeta o super-
ego do seu momento,
como uma tia chata
que ao invés de dizer
em alto e bom tom:
"coma logo as ervilhas",
recorre a vários métodos
obscuros de persuasão,
"esta ervilha é um mundo",
"esverdeadas dar-te-ão
eterna vida", "este legume
é como o planeta coberto
de gramíneas", "das vagens
às várzeas da tua louça",
"estas trezentas soldadas
são espartanas, faz agora
do teu prato as Termópilas",
"ervilha minha senil que
te comeste, tão logo desta
janta descontente", "pelo
menos um fruto em teu
ventre, solteirona". Ainda
por cima nos tantaliza
com suas tautologias:
"a ervilha é verdinha", etc.
É óbvio que os bar-roucos
prefeririam: "Ervilha-Fénix
das aias do escarra-velhos
do Himalaia, iactantia est".
Pois se alguns há séculos
insistem em lembrar-nos 
que o céu é azul, pássaros
voam e as flores se abrem
no mês de ____ (escolha,
leitor, o seu hemisfério). 
Tia chata, recorra à sátira,
pois os subnutridos não
são moucos só ao riso:
"Não querias comer Elvira?
No interregno, às ervilhas!"
Esqueçamos os legumes.
Os mortos-vivos só dão
ouvidos a energúmenos.
Por mim, possuísse
algum alto-falante
potente ou bastante,
esgoelaria: "devorem
logo toda essa merda
no prato, nos poupem
o trabalho", mas ao fim
sei que ninguém
comeria, anyway.
É como passar a vida
a buscar novas formas
para olha o aviãozinho.
Ai, de Sísifo,
já me basta
o phallus.
Dirão que um poeta,
ao dizer isso, pratica
a auto-sabotagem.
Ora encerremos,
dessarte, com algo
ambíguo e suficiente
para as meditações
em nossos próximos
Minutos de Sabedoria:
"Poeta: geringonça
entregue a ciclos
circadianos sem
qualquer zeitgeber."
Cansa-me a beleza.



Rocirda Demencock, a rolar no chão rindo da cara de Ricardo Domeneck,
Bebedouro - São Paulo, 24 de junho de 2012.


§

Nota escrita a 15 de julho de 2012:


Este poema surgiu ao ler uma citação do poeta chileno Nicanor Parra na página (Tumblr) do poeta mexicano Daniel Saldaña París, a quem dediquei este poema. A citação era: en un mundo desprovisto de racionalidad / la poesía no puede ser otra cosa / que la mala conciencia de la época / lo demás es literatura grecolatina”, de um poema escrito em 1992. Ao publicar aqui este poema, as primeiras linhas eram: "Parra escreveu: o poeta / funciona tal qual mala / conciencia de la época", em referência direta ao chileno. Naquele dia, o poeta gaúcho Marcus Fabiano Gonçalves chamou-me a atenção para o fato de que o poeta francês Saint-John Perse dissera coisa muito parecida em seu discurso em Estocolmo, ao aceitar o Prêmio Nobel em 1961: Face à l'énergie nucléaire, la lampe d'argile du poète suffira-t-elle à son propos? Oui, si d'argile se souvient l'homme. Et c'est assez, pour le poète, d'être la mauvaise conscience de son temps.” Decidi incorporar Perse ao poema, passando a iniciar o texto com o aliterativo "A Perse e Parra, o poeta", mantendo no entanto a citação em castelhano do latinoamericano, por ser mais imediatamente compreensível a um leitor lusófono, e porque me interessa o jogo com mala, falso cognato em português e espanhol.

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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Miguel Martins: novo livro.



Neste sábado, 23 de junho de 2012, é lançado em Lisboa o novo livro de Miguel Martins (n. 1969), intitulado fôlego sem folga (Lisboa: Língua Morta, 2012), com capa de Inês Dias. São apenas 150 exemplares. O lançamento começa por volta das 18:30, na galeria Câmara Lenta (Rua da Quintinha, 31), com apresentação de António Caeiro (Universidade Nova).

Descobri sua escrita em Lisboa, ao estar coincidentemente na cidade quando o poeta lançou Lérias (Lisboa: Averno, 2011). Impressionado com o livro e com sua leitura no lançamento, preparei com o auxílio de Changuito, da Livraria Poesia Incompleta, uma postagem com poemas de Martins para a Modo de Usar & Co., extraídos de vários livros. Dentre os poetas em atividade nesta nossa língua, obviamente aqueles a que tive acesso, considero-o um dos melhores. Ou, para evitar ferir sensibilidades, um dos que mais respeito.

Publico abaixo um poema que Martins postou recentemente em seu blogue (que ora ameaça encerrar - O Único Deus Vivo), e termino a postagem com a reprodução dos textos que publicamos na Modo de Usar & Co. a 11 de outubro de 2011.



A vida tarda
enquanto esta demonstração democrática do Demo
se demora entre ademanes e esgares,
como se tudo não passasse de uma farsa
velha e medíocre,
levada à cena, em sessões contínuas,
desde que uma salamandra se fez gente,
gente escondida
com o rabo de fora.
Resta-nos correr no sentido inverso
aos ponteiros do relógio e procurar,
inglórios, o pântano primordial
e, nele, nossos recantos de calor estagnado,
passar a borracha da noite sobre o carvão do vento,
correndo o risco de tudo esborratar,
e ter esperança ou, pelo menos, fé
nas propriedades curativas das folhas brancas.
Imaginem comigo:
o branco mais profundo
sugando-nos para dentro de si
como o olho de um furacão,
olho terrível e encantador
de répteis.
Antes de mergulhar, permitam-me apenas
um cálice de licor de ervas amargas
e o clangor lânguido de um oboé tibetano.
E depois - só depois - o abismo imenso,
antediluviano,
da nossa morte inteira e sem mentiras,
sem conta-gotas a dosearem tudo,
até a beira-mar
e até o medo.



Miguel Martins




Miguel Martins é um poeta contemporâneo português, nascido em 1969. Viveu quase sempre em Lisboa, com a exceção de uma temporada em Maputo, Moçambique. O poeta é formado em arqueologia. Sua primeira publicação é de 1995, uma pequena plaquete intitulada Seis poemas para uma morte. A ela seguiram-se os volumes Cirrose (editado pela Fenda), Atol (Clube dos Poetas Vivos), o livro de ensaios Jazz e Literatura (Campo das Letras), O taberneiro (Poesia Incompleta), Proibida a entrada a animais (excepto cães-guia) (Língua Morta), e seu mais recente, lançado este ano e intitulado Lérias (Lisboa: Averno, 2011). Prepara uma tradução para o português do livro Call It Sleep (1934), do romancista e contista norte-americano Henry Roth (1906 – 1995), que será lançado com o título Uma espécie de sono. O poeta vive e trabalha em Lisboa.

§

POEMAS


Uma caixa de cimento fresco. Deita-o
lá dentro. Mete-te na mota, arranca, não
penses mais nisso. A sul, há mulheres
cujo futuro é um avião que não deixa
traços no céu. A norte, se preferires,
... há-as engarrafadas, em decilitragens
as mais diversas. Com os homens
é a mesma coisa, dois dedos de conversa
e uns quantos cubos de gelo. Meia
hora chega para ir repondo o stock
de episódios com que fingir que estamos
vivos. Isso deve bastar-te, excepto
se te achares mais do que os outros
e Deus te livre de uma coisa dessas.
É isso: aprende a metafísica das
t-shirts brancas, das curvas apertadas,
da velocidade calma. O resto é
conversa de poetas, filósofos, historia-
dores, que fumam mais do que vêem
e lêem mais do que assobiam ao sair
à rua. O resto é uma perda de tempo
e não eras tu o tal que tanto nos
maçava com a iminência da
morte, com a falência da Sociedade
por quotas, com a genealogia
dos suínos? Aproveita agora esta
oportunidade de não ser nada
contigo; juro-te que ninguém
te vai levar a mal; envia, apenas,
um postal de Tânger e um contacto,
para o caso de o Emanuel ou a
Angelina quererem ir de férias e
precisarem de um sítio onde ficar.
Não é pedir muito em troca da
tua liberdade. Vá! Uma caixa de
cimento fresco. Deita-o lá dentro.
Sabes do que estou a falar. Ver-
melho escuro. Isso. O coração.

(publicado originalmente no jornal O Público, a 8 de outubro de 2011)

§

de O Taberneiro

Eu sou O TABERNEIRO-da-cintura-para-baixo e cara de cavalo relinchando aos pagodes, mijando nas traseiras de Notre Dame de Damn You, trombando uma defunta num sonho de luz branca. Vinde dizer-me agora que agora é que começa essa novíssima Volta a Portugal de que saireis vencedores-de-vozes-cristalinas-e-piscinas-nos-bolsos-resguardados...– do alto destas pirâmides, responde Napoleão, uma chuva de das Caldas vos contempla; e avoengos, trajando neve e medos, não hesitarão, sequer, no arremesso. E eis que entra um côro de gospel fumegante, ressaca bacanal já pronta para outra, e me embala menino-dos-ditos-saraivada-«tu sabes lá o que é que tás páí a dzer». «É verdade, não sei, eu sou O TABERNEIRO, li Stendhal, Sade, Camilo, Hugo e Zweig sentado numa pipa de mecha ainda acesa, pelo qu'é natural a pouca retenção; desculpem se me cago – almocei a correr e já bebi três litros de sobras clientelares.»

§

Ignis Fatuus

Vem a lume uma ideia luminosa
um chá de lúcia-lima fumegante
inalação de folhagem capitosa
num bule de feldspato crepitante

Disfarçada de paz fortificante
de miasma benigno, inspirativo
é a estultícia que naquele instante
rebrilha num fogacho transitivo

É o Futuro que pede, apreensivo
um cisma com as crenças abaladas
uma balada ao coração cativo
dos sismos e dos contos-de-fadas

que são suas madrastas desveladas
numa fumigação protelatória
da descoberta das portas encerradas
em chaleiras sem mago, sem memória

do aprisionamento nessa história
em que um afago acendia um fogo
que num segundo alcandorava à glória
uma vitória assegurada ao jogo

Mas na derrogatória a nosso rogo
restolha uma seara, seca a fonte
por se encontrar, apenas, muro e mogo
onde tanto aguardou o horizonte.

(O Taberneiro, Poesia Incompleta, 2010]

§

Seis poemas para uma morte

1

Que importa o que não temos
quando a vida leva tudo o que nos dá

e a morte restitui-nos ao silêncio.


2

Naquele dia choveu ao contrário
a chuva fina e o seu silvo subiam do chão

e eu caindo da janela
sem um raio de sol que me amparasse.


3

Na noite clara da tua morte Pai
parto de vez para a margem da brandura
Levo nos olhos esta luz de dor
feixes opacos medas de cansaço
(como as que carregavas)
seara que nasce no sonho condenada
quando na alma a chama esmoreceu
Chegou-me a mim: já nada perdura
Querias saber o que era aquele nada
contra o qual lutava – sou eu
vazio de ti. Poupámos o Futuro.


4

Nem umas palavras de despedida
nem “adeus”
Será que depois nos encontramos
na terra linda onde são as coisas que não são
sem medo do fim?
Já moras, Pai, com o teu Cristo
o Cristo que nos salvou a todos
por termos alguém como tu.
Nunca te disse bem quanto te amava
como te amo muito dentro de mim
na terra linda onde são as coisas que não são
com tanto medo de as perder.
Estar a fazer a barba, cair
e partir para o outro lado
sem dizer tudo o que é preciso.
Ou como tu ficar assim à espera
suspenso de nada
à porta de Deus como um pedinte
pedinte de Deus
que só nos pediste que fôssemos melhores
e talvez por isso nos dás ainda mais uns minutos
da tua eternidade.
Vai agora, parte por favor
vai viver com as estrelas e com a alma das flores.
Sei que todos os dias continuarás a madrugar
para colher os odores mais puros.
Já não são precisos sacrifícios
aí é tudo dado num natal perpétuo e permanente.
Até nós te nos vamos dar
como tu te nos deste, como te entregaste cada dia
de manhã à noite

a Mãe
a Paula
o Ricardo
e eu
(por outra ordem espero que não esta
que eu não aguento mais)
vamos voltar a tocar-te o cabelo
o cabelo mais lindo que conheço
e a beijar-te
(como é possível que beijos tão a medo
como os teus quisessem sempre dizer tanto?).

E olha que se eu aí chegar
a essa terra que não mereço
é mesmo só por ti
é para te ver e ficar espantado
como só nos espantamos com os anjos.
Adeus Pai
tem calma.
Eu pensarei em ti todos os dias.


5

Tinhas-nos a nós
como nos querias
não como nós somos

Partiste
olhando o ar
pensando o Vago
escutando o Ser
na boca o Fluido
a essência do Sangue
nós
em tudo isso nós
o imenso Amor

Em que pensaste, Pai, nessa semana
em que soubeste tudo isso
que dizias há tanto
e que os homens procuram?

O teu olhar tão calmo
as tuas mãos
só diziam Amor
e a respiração era a de que ele é feito:
com a Mãe
sabe Deus e o vosso Amor quando
connosco
dia a dia e a desoras
com tanta gente
que eu nem adivinho
na mudez superior de quem é grande

Toda a vida
só fizeste Amor

Perdeste a Palavra e o Movimento
usa o meu corpo se isso for possível
Nunca será a mesma coisa
mas vou portar-me bem
(a gente cá sabe o que isto quer dizer)

Há que roubar as flores ao abandono


6

Guardo o brilho baço dos teus olhos
de seres inteiro em cada coisa
o Ritual dos dias conhecidos
e a alegria desentranhada
do fundo da eternidade
que é a bruma de Deus.

Guardo a entrega funda de saber
que a revolta não tem princípio nem fim
e aquela altivez tão especial inapercebida
que pode haver na submissão
de estarmos à frente dos homens e do tempo
viver como quem morre cada dia

e estarmos mortos como quem está vivo.


Seis poemas para uma morte, Fábrica das Letras, 1995

§

Página 13 do livro Cirrose


Detesto toda a psicologia. Pelo menos tanto como o homem de trabalho e os escritores movidos a bons sentimentos, que o querem entreter ou melhorar ao módico preço dos direitos de autor. Para me sustentar tenho todas as loiras do mundo. E não são poucas. De ambos os sexos e qualquer côr de cabelo. É o que basta. A somar ao jogo. O jogo de sonhar acordado. Sou o chulo vigil dos pesadelos das mães. As nossas e as delas. A fera com mais inteligência que moral. Uma inteligência manipuladora. O abismo brilhante. Um falo que fosse vaso. Disputo corridas sem sair do lugar e, por isso, sou sempre o primeiro a alcançar a meta riscada no chão com o giz líquido do meu sémen. Os outros chegam estafados. Caem de borco. Matam a sede na fonte desse giz. E pagam o pecado. A minha religião indulgencia-me sempre. Sou o Papa Negro das Noites Brancas. O Papa Branco das Noites Negras. Sou cinzento. Como as balanças que aferem o peso para aferir o custo. Estou afinado. Não ranjo. Não sangro. Não choro. Não peço. Não morro. A não ser que me sobrevenha uma embolia ao baralho. Ao caralho. Por isso, conservo-me em álcool. Como os miúdos fazem às cobras. O formol é para os Deuses.

§

de Proibida a entrada a animais (excepto cães-guia)

O Caso da Fruta

I

Não ser marinheiro. Não ser coisa alguma. E, ainda assim, zarpar deste lugar de fama sem proveito. Aportar às quatro estações, simultâneamente, num único cachimbo (milho de cerejeira). Comer mar, beber sal, respirar resina, cobrir a pele de lâminas de vinho. Renegar renegar. (O tempo). Ressarcir a cinta do silêncio. Derrimir a porca rouquidão. Arrancar às costas a tareia, às pernas o balastro, às mãos as mãos, à voz a recaída. Arrancar o pensamento ao fígado e o fígado ao pensamento. Lamber, ininterruptamente, uma mulata estéril de olhos mais verdes que a maior escuridão. Calar. Sobretudo isso. Calar-me. Escutar o canto sinusoidal, elíptico, dos cactos quando levantam voo para se tornarem homens. Nesses breves segundos, em que os cactos são vermelhos e aveludados, Deus assobia, dizem, velhos ragtimes e eu gosto de ragtimes. Pelo menos tanto quanto gosto de nêsperas, de salivas que não a minha, de bicos-de-lacre, do toque da cortiça. Eu gosto de gostar. E ando esquecido disso.

§

Não-raciocínio acerca da auto-estima

para o Levi Condinho

Uma semana da minha vida é um ano
da vossa, disse Lou Reed, cheio de si
e de razão. "Caro ouvinte, o caminho
é o mesmo e o disco meu - anda cá

tu" - digo, para completar a ideia.

Alma noise, dir-se-ia neste tempo
de muita coisa e nada. "Ama-me ou
deixa-me ou ama-me e deixa-me,
desassossegado. Trémulo. Vazio. Toc

ando uma guitarra autónoma, como
o vento que me varre, mesmo quando
me resguardo da noite, das aves, das aves
da noite, da calma, que é o peixe com mais

tripa". Esqueci-me do que queria
dizer: há nisto um lodo; um lodo
desgraçadamente impossível.


in Proibida a entrada a animais (excepto cães-guia)

§

Do tempo

Todo o tempo passado a trabalhar. Todo o tempo passado a falar com gente cheia de aspirações concretas. A esgravatar caminhos alternativos ao caminho que desde sempre soube e é o meu. Todo o tempo sóbrio, bêbedo, acordado, aqui. Fora da minha nuvem, Britânia imaginária. Todo o tempo perdido. Tanto. Roseiras por enxertar. Trutas à deriva. Bibliotecas de couro. Cavernames. Oboés doidos na charneca fria. Nunca os tocarei. O Tempo, indemne, não indemniza. Não se desdobra. Não se recupera. Resta-me ronronar e gemer. Ser gato. Exprimir o inefável com um orgulho estóico mas envelhecido. Tardio. O pêlo caindo. A pele demasiado larga para a carne. Peritonite infecciosa felina. O fim a instalar-se por toda a parte. O olhar triste. A espera. A inevitabilidade. Não conseguir saltar, e saltar. O sonho. A sublime humanidade dos bichos. A redenção. Privada. Como uma cicatriz que torna a pele única e intransmissível e, por isso mesmo, mais bonita.


in Lérias (Lisboa: Averno, 2011)


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quinta-feira, 21 de junho de 2012

Lula e Maluf: um acerto de mãos





Um acerto de mãos

Aos poucos, tanto pulso
que dita como reivindica
confundem-se no fundo
sem vilões e sem puros
da História: arte narrativa.

Cerradas, mãos se agitam
no ar. Depende da boca,
porém, o que significam
a lobos e ovelhas passivas
em conluio na mesma toca.

Ora Lula e Maluf dão
-se os punhos, um novo
pacto (o eterno retorno)
de apoio e não-agressão.
Tudo em nome do polvo,

os interesses do polvo
são supremos. Limites?
Mas o que são limites?
Limites são coisas
para os lemingues.


Rocirda Demencock, com os movimentos peristálticos na contramão, 21 de junho de 2012.

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segunda-feira, 18 de junho de 2012

"Belo Monte, anúncio de uma guerra", filme na íntegra.



Belo Monte, anúncio de uma guerra (2012), financiado pelo público. Direção de André D´Elia.
Implora-se que se o espalhe, ou não se volte mais a este espaço.



 

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domingo, 17 de junho de 2012

Dirceu Villa escreve sobre o Festival de Poesia de Berlim 2012

 
Eu (de costas) com Dirceu Villa, do lado de fora da Akademie der Künste,
Berlim, após as apresentações no Poesiefestival (foto de Timo Berger).




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sábado, 16 de junho de 2012

Notícias de Belo Monte + Eduardo Viveiros de Castro fala sua contrafala

Belo Monte, Rio Xingu, 15 de junho de 2012 –
Trezentas pessoas entre povos indígenas, agricultores, pescadores, ativistas
e moradores afetados pela construção da Hidrelétrica de Belo Monte ocuparam
essa manhã uma das ensecadeiras de Belo Monte – pequena barragem próxima
da Vila de Santo Antônio. Abriram um canal com picaretas, pás, enxadas, deixando
o Rio Xingu correr livre novamente. Moradores do Xingu fizeram uma faixa
humana com as palavras “Pare Belo Monte”. No início da Rio +20, enviam
uma mensagem da imensa devastação social e ambiental que este projeto
está causando a região, alertando que hidrelétrica não é energia limpa.
A mensagem dos povos é “Energia que não respeita a lei, a população local,
violenta direitos indígenas, destrói comunidades e o meio ambiente não pode ser limpa”.
Eles querem a paralização da construção de Belo Monte!
Foto: Atossa Soltani/ Amazon Watch / Spectral Q

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