segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Minha mãe não lê a sorte, ora, porque isso é coisa do diabo.

A mãe de Victor Heringer lê a sorte no açúcar, se for ficção a realidade. Minha mãe não lê a sorte, ora, porque isso é coisa do diabo. Tanto que, em minha casa, só se referia àquele-que-não-deve-ser-mencionado como "o Inimigo". Somos povo prascóvio. Cuidem-se os que têm sonhos. Eu não jogo na Telesena.

 

Victor Heringer nasceu em 1988, no Rio de Janeiro, onde ainda vive. O poeta é autor de duas plaquetes de poesia, Quando você foi árvore (2010) e canção do sumidouro (2010), disponíveis em seu site: http://automatografo.org. Seu primeiro livro foi publicado em 2011, intitulado Automatógrafo (Rio de Janeiro: 7Letras, 2011), seguido do ótimo romance Glória (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012).



No momento, o poeta está pesquisando imagens em domínio público para um livro de memórias ao estilo do Itinerário de Pasárgada, mas de um poeta fictício. 



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domingo, 16 de dezembro de 2012

Traduzindo Lorine Niedecker: uma homenagem

Às vezes, quando penso no famoso verso de Allen Ginsberg, "I saw the best minds of my generation destroyed by madness starving hysterical naked", eu me pergunto se em alguma outra geração isso fora diferente, ou se algumas gerações não sofreram coisas ainda piores. Penso na elegia de Roman Jakobson para Vladimir Maiakóvski em A Geração que Desperdiçou seus Poetas (1930), ou nos poetas que o próprio Jakobson desperdiçou em seu lamento, talvez porque estivessem vivos, talvez porque não estivessem, em sua opinião, à altura de Khlébnikov e Maiakóvski, mas que estavam também sendo desperdiçados na fome, exílio, perda, detrimento, como os grandes Mandelshtam, Tsvetáieva (aquela rainha que, como poucos, conjugou violência e controle), Pasternak e Akhmátova. Mas eu com frequência penso em Lorine Niedecker, poeta maravilhosa que passou a vida ganhando seu pão, às vezes, limpando e fazendo faxina em escolas onde deveria estar sendo celebrada e ensinada.




Lorine Niedecker (1903 - 1970)
Especial para a Modo de Usar & Co., publicado a 2 de setembro de 2009.

Lorine Niedecker nasceu em uma ilha, a Black Hawk Island, no estado americano de Wisconsin, uma região rural razoavelmente isolada. Passaria toda a sua vida ali. Seus primeiros poemas seriam publicados, por intervenção de Louis Zukofsky, em revistas como a importante Poetry. Sua estréia em livro viria apenas em 1946, quando a poeta já tinha 43 anos, com o título New Goose. A próxima coletânea apareceria somente quinze anos mais tarde, intitulada My Friend Tree (1961), sendo seguida por North Central (1968), T&G: The Collected Poems 1936-1966 (1969) e os livros de publicação póstuma Blue Chicory (1976) e Harpsichord & Salt Fish (1991).

§

Poema

O varal está posto
mas totem nenhum diferencia a tribo Niedecker
das outras; a cada sete dias vão às águas:
veneram o sol; temem a chuva e, dos vizinhos, os olhos;
erguem aos céus as mãos desde o solo
e penduram ou despencam pela brancura de seu todo.

(tradução de Ricardo Domeneck)

///

Poem
Lorine Niedecker


The clothesline post is set

yet no totem-carvings distinguish the Niedecker tribe
from the rest; every seventh day they wash:
worship sun; fear rain, their neighbors' eyes;
raise their hands from ground to sky,
and hang or fall by the whiteness of their all.


§

Lorine Niedecker foi contemporânea de poetas como Henriqueta Lisboa, para citar um exemplo de autora brasileira que necessitamos redescobrir, especialmente seus livros das décadas de 60 e 70, assim como seria tentador traçar alguns paralelos biográficos e estilísticos entre Niedecker e Orides Fontela (1940 - 1998).

Isolada das rodas literárias e poéticas de cidades como Nova Iorque ou San Francisco, a poeta passaria a vida lutando contra a pobreza e pela publicação de seus poemas. Recebendo atenção para seu trabalho poético apenas no fim da vida, quando alguns poetas mais jovens a redescobrem (como Cid Corman, que viria a editar um de seus livros), a poeta escreveu a maior parte de sua obra sem encontrar possibilidade de publicação, ganhando a vida durante anos em um hospital, limpando o chão e os sanitários, enquanto escrevia alguns dos poemas mais bonitos da primeira metade do século poético americano.

Lorine Niedecker é frequentemente comparada a Emily Dickinson, por certos paralelos entre suas vidas - o isolamento, a relação com um "mentor", Higginson no caso de Dickinson, Zukofsky no caso de Niedecker, o jogo poético com nursery rhymes (ou o que nós chamaríamos de "cantigas de roda") e o hinário protestante. Alguns críticos têm, no entanto, questionado esta comparação, como Gloria Frym no ensaio "Lorine Niedecker’s Plain (Language)".

A poeta é geralmente associada a um grupo específico de poetas da década de 30 americana que, por causa de uma antologia organizada para um número da conhecida revista e já mencionada Poetry, ficaria conhecido como o grupo dos Objectivists. Louis Zukofsky - o organizador da antologia do grupo, sob aconselhamento de Ezra Pound (que já havia praticamente inventado dois grupos para a revista, os Imagists e os Vorticists), George Oppen, Carl Rakosi e Charles Reznikoff são os mais conhecidos. Niedecker leria este número da revista, de fevereiro de 1931, e escreveria uma carta para Louis Zukofsky, iniciando uma das correspondências mais frutíferas daquelas décadas.

§

Quando o êxtase é inoportuno

Finja uma grande calma;
todo enlevo logo termina.
Cante: quem sabe -
se fim ou início do vôo
para a gaivota em pouso?

Coração, aquiete-se.
Diga: dinheiro há, mas com ferrugem;
diga: luar não é propício para fugas.
É a cor no baixo firmamento
espargindo cores largas
ou, em minha gravata, o vento.

Saiba em espanto como
se toma a própria loucura
nas mãos
e a guarda.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

When ecstasy is inconvenient
Lorine Niedecker


Feign a great calm;
all gay transport soon ends.
Chant: who knows—
flight's end or flight's beginning
for the resting gull?


Heart, be still.
Say there is money but it rusted;
say the time of moon is not right for escape.
It's the color in the lower sky
too broadly suffused,
or the wind in my tie.



Know amazedly how
often one takes his madness
into his own hands
and keeps it.


§

No Brasil, a discussão e tradução de poetas como Lorine Niedecker ou outros Objectivists, em especial George Oppen e Charles Reznikoff, poderiam iluminar vários aspectos de alguns dos debates da poesia brasileira contemporânea, como o questionamento sobre a melhor aplicação dos parâmetros de qualidade baseados em concisão e objetividade; a conjunção entre ética e estética e a implicação política do trabalho formal de todo poeta; assim como o trabalho destes poetas poderia ter efeitos frutíferos no país que viu surgir, a partir da década de 90, um grande interesse por poetas como Robert Creeley e os autores reunidos na revista L=A=N=G=U=A=G=E (leia todos os números da revista AAQQUUII).

Nos Estados Unidos, os últimos anos têm presenciado um interesse crescente pela obra de Lorine Niedecker e seu trabalho foi reeditado em 2002, com o título Lorine Niedecker: Collected Works.


--- Ricardo Domeneck

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sábado, 15 de dezembro de 2012

Angélica Freitas recebe prêmio da APCA por "Um útero é do tamanho de um punho": celebração com poemas

O segundo livro de Angélica Freitas, Um útero é do tamanho de um punho (São Paulo: Cosac Naify, 2012) é eleito o melhor livro de poesia de 2012 pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), e, quando um livro como este ganha, todos nós ganhamos.

Poemas de Um útero é do tamanho de um punho (São Paulo: Cosac Naify, 2012)


da série "uma mulher limpa"


porque uma mulher boa
é uma mulher limpa
e se ela é uma mulher limpa
ela é uma mulher boa

há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre duas patas
a mulher era braba e suja
braba e suja e ladrava

porque uma mulher braba
não é uma mulher boa
e uma mulher boa
é uma mulher limpa

há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre duas patas
não ladra mais, é mansa
é mansa e boa e limpa

§

uma mulher sóbria
é uma mulher limpa
uma mulher ébria
é uma mulher suja

dos animais deste mundo
com unhas ou sem unhas
é da mulher ébria e suja
que tudo se aproveita

as orelhas o focinho
a barriga os joelhos
até o rabo em parafuso
os mindinhos os artelhos

§

da série "mulher de"

mulher de vermelho

o que será que ela quer
essa mulher de vermelho
alguma coisa ela quer
pra ter posto esse vestido
não pode ser apenas
uma escolha casual
podia ser um amarelo
verde ou talvez azul
mas ela escolheu vermelho
ela sabe o que ela quer
e ela escolheu vestido
e ela é uma mulher
então com base nesses fatos
eu já posso afirmar
que conheço o seu desejo
caro watson, elementar:
o que ela quer sou euzinho
sou euzinho o que ela quer
só pode ser euzinho
o que mais podia ser

§

mulher de respeito

diz-me com quem te deitas
angélica freitas

§

querida angélica

querida angélica não pude ir fiquei presa
no elevador entre o décimo e o nono andar e até
que o zelador se desse conta já eram dez e meia

querida angélica não pude ir tive um pequeno
acidente doméstico meu cabelo se enganchou dentro
da lavadora na verdade está preso até agora estou
ditando este e-mail para minha vizinha

querida angélica não pude ir meu cachorro
morreu e depois ressuscitou e subiu aos céus
passei a tarde envolvida com os bombeiros
e as escadas magirus

querida angélica não pude ir perdi meu cartão
do banco num caixa automático fui reclamar
para o guarda que na verdade era assaltante
me roubou a bolsa e com o choque tive amnésia

querida angélica não pude ir meu chefe me ligou
na última hora disse que ia para o havaí
de motocicleta e eu tive que ir para o trabalho
de biquíni portanto me resfriei

querida angélica não pude ir estou num
cybercafé às margens do orinoco fui sequestrada
por um grupo terrorista por favor deposite
dez mil dólares na conta 11308-0 do citibank
agência valparaíso obrigada pago quando voltar







sábado, 8 de dezembro de 2012

Programa da Rede Minas sobre o Festival Zeitkunst (vídeo completo)



"25/11/2012 - O Harmonia exibe cobertura do Festival Internacional de Música e Literatura Contemporânea Zeitkunst, que realizou sua 1ª edição no Brasil. O evento, que homenageou o compositor John Cage, passou por três capitais brasileiras: Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba."

Programa da Rede Minas sobre o Festival Zeitkunst, com entrevistas de Luiz Gustavo Carvalho, Johannes CS Frank, Caspar Frantz, Julian Arp, Die. Puntigam e minha. Conversas sobre o trabalho de John Cage, a relação entre música e poesia, e sobre o Festival.

O Zeitkunst 2012, que homenageou John Cage em seu centenário, contou com a participação dos poetas Johannes CS Frank (Inglaterra), Max Czollek (Alemanha), Maya Kuperman (Israel); dos músicos: Luiz Gustavo Carvalho (Brasil, piano e piano preparado), Caspar Frantz (piano preparado) e Julian Arp (violoncelo); e do artista visual Die. Puntigam. A direção foi de Lilly Jäckl.




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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Tradução para um poema de Horst Bienek (1930 - 1990)

Descobri o trabalho de Horst Bienek em uma gigantesca antologia que recolhia a poesia germânica desde os seus primórdios. Este poema, que traduzi para o segundo número impresso da Modo de Usar & Co., tornou-se um dos meus favoritos. Em janeiro de 2011, preparei a postagem abaixo para a franquia eletrônica da revista. Este poema me veio à mente hoje, reli-o e quis compartilhar sua tradução também aqui.





Horst Bienek foi um poeta e romancista alemão, nascido em 1930 na cidade de Gleiwitz, na região da Silésia, quando esta ainda pertencia à Alemanha. Com o fim da Segunda Guerra, grande parte da região é incorporada à Polônia, a língua alemã é proibida e a maioria dos alemães é expulsa. Horst Bienek tinha 16 anos quando a família fixa residência na Alemanha Oriental. Em 1951, Bienek conhece o poeta e dramaturgo Bertolt Brecht e é convidado a lecionar no teatro Berliner Ensemble, mas, neste mesmo ano, é preso pela Stasi (a Polícia Secreta da Alemanha Oriental) sob acusação de agitação anti-soviética e é condenado a 25 anos de prisão. O poeta tinha 21 anos. É deportado para o campo de trabalhos forçados de Vorkuta, em uma região da Rússia que fica ao norte do Polo Norte, parte do que Alexander Soljenítsin viria a chamar de "Arquipélago Gulag". Quatro anos depois recebe anistia e emigra para a Alemanha Ocidental, onde passa a trabalhar como jornalista para a rádio estatal do estado alemão de Hesse, coeditor do jornal blätter + bilder, e ainda lector da editora Deutsche Taschenbuch Verlag (Editora Alemã de Livros de Bolso) e diretor do setor literário da Academia Bávara de Belas Artes em Munique. Horst Bienek morreu em decorrência da AIDS em 1990, na capital bávara.

Sua estreia literária em livro foi com Traumbuch eines Gefangenen (1957), algo como "diário de sonhos de um prisioneiro", ao qual se seguiram peças de teatro, roteiros cinematográficos, crítica, poemas e romances. Em 1970, escreveu e dirigiu o filme Die Zelle.

O poema apresentado e traduzido abaixo chama-se "Die Zeit danach", algo como a época seguinte, na mesma construção sintática que usaríamos para o filme de catástrofe nuclear "O Dia Seguinte". O cenário apresentado pelo poema é justamente o de uma catástrofe histórica, escrito por este poeta que sobreviveu à brutalidade da Segunda Guerra e às brutalidades do pós-guerra, nos campos de concentração do Gulag.

Horst Bienek foi contemporâneo de poetas e intelectuais germânicos como Hans Magnus Enzensberger, Heiner Müller, Thomas Bernhard e Ingeborg Bachmann que, tanto na Alemanha como na Áustria, herdaram de seus pais países em ruínas (a Alemanha estava arrasada) e moralmente em frangalhos. Acusar e ao mesmo tempo buscar redenção onde a maioria não a merecia representaram dilemas est-É-ticos gigantescos para esta geração de poetas. Bienek parece-me tê-los enfrentado com brilho, inteligência e delicadeza.


--- Ricardo Domeneck


§


POEMA DE HORST BIENEK
em tradução de Ricardo Domeneck, publicado originalmente
na segunda edição impressa da Modo de Usar & Co.

A época seguinte

I

Há uma época
........e a época seguinte
sobre qual época gostaríamos de conversar?

II

Quando o cervo pastou junto ao leão
quando amadureceu a maçã para aquele que adubara a macieira
quando àquele que pescou o peixe permitiu-se também comê-lo
era uma época
....................época paradisíaca
..........................sobre a qual nossos ouvidos
apreciavam o sermão

Quando nos apertamos de bruços em catres de madeira
quando a escuridão trancafiou nossos corpos em suor
quando a fome esmigalhou-nos os sonhos e o sono
era uma época
....................época tenebrosa
..........................que não desejávamos
aos nossos inimigos

Quando os vigias berravam no pátio para nossa contagem
quando cavamos da terra o carvão com ferramentas cegas
quando buscamos uma resposta nas petrificações negras
por que essa época
....................assim era
...........................sobre a qual preferiríamos
haver lido nos manuais escolares

Quando voltamos sem lembrança às cidades natais
quando – incógnitos – misturamo-nos entre os habitantes
quando arrombamos suas portas e deixamos voltar a desconfiança
era uma época
....................época dolorosa
...........................em que transbordamos
em nossa aflição

III

Nós estamos no caminho de uma época
para outra
..............................mas aonde nos encaminhamos
..............................não haveremos de chegar
..............................às vezes nossos joelhos partem-se
..............................e a chuva molha nossos rostos
nós cantamos
.............ninguém nos ouve
.............(pois o cansaço
.............cola-nos de suor os lábios)
nossos gestos são trémulos
.............ninguém os compreende
.............(pois o desespero
.............rebenta-nos os braços do tronco)
nós continuamos
no caminho que leva de uma época
...........................à época seguinte

IV

Por compaixão jogam-nos palavras no colo


:


Die Zeit danach: / I / Es gibt eine Zeit / und die Zeit danach / von welcher Zeit wollen wir reden? // II / Als das Reh neben dem Löwen weidete / als der Apfel reifte für den der den Apfelbaum düngte / als wer den Fisch fing ihn auch essen durfte / das war eine Zeit / paradiesische Zeit / von der wir gerne / predigen hörten. // Als wir zusammengedrängt lagen auf hölzernen Pritschen / als die Dunkelheit unsere schwitzenden Leiber einsperrte / als uns der Hunger den Schlaf und den Traum zerspellte / das war eine Zeit / finstere Zeit / die wir unseren Feinden / nicht wünschten // Als der Schrei des Wachmanns uns auf den Appellplatz jagte / als wir mit stumpfen Geräaten die Kohle aus der Erde gruben / als wir in den schwarzen Versteinerungen eine Antwort suchten / warum diese Zeit / so war / von der wir lieber / in den Lesebüchern gelesen hätten // Als wir heimkehrten in die Städte ohne Erinnerung / als – unerkannt – wir uns unter ihre Bewohner mischten / als wir einbrachen in ihre Häuser und den Argwohn zurückliessen / das war eine Zeit / schmerzliche Zeit / die wir unserer Trauer / zuschütteten // III // Wir sind auf den Weg von der einen Zeit / in die andere / doch wohin wir auch gehen / wir kommen nicht an / machmal brechen wir in die Knie / und der Regen nässt unsre Gesichter / wir singen / man hört uns nicht / (denn die Müdigkeit / schweisst uns die Lippen zusammen) / unsere Gesten sind zaghaft / man begreift sie nicht / (denn die Verzweiflung / schlägt uns die Arme vom Rumpf) / wir gehen weiter / auf dem Weg von der einen Zeit / ind die Zeit danach // IV // Mitleidig wirft man uns Wörter in den Schoss


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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

"Deixem-me recitar o que a História ensina" - Original & Deutsche Interpretation von Odile Kennel



Ontem à noite fizemos a última performance do Zeitkunst 2012, na Villa Elisabeth, aqui em Berlim. Posto aqui o poema que escrevi para a performance e que vocalizei com a peça "In a landscape" (1948), de John Cage, para a sua "Homenagem". Unten: Deutsche Interpretation von Odile Kennel.


Deixem-me recitar o que a História ensina

“Let me recite what History teaches”
Gertrude Stein

Nada, talvez. Não
se arde com a febre
alheia, só se aprende
com a faca e o fogo
na própria pele,
não contemplando a foto
da cicatriz
dum antepassado. Trágico
ou banal, tudo
parece fadado a repetir-se,
mesmo os discursos
sobre o sangue
que nos precede, nossa dívida
com seu derramamento.
Mas, mal há tempo
para justiçar os mortos
cumulativos, quiçá o sangue
se predestine, década
a década, a jorrar fora
de veias e artérias,
como se o chão invejasse,
por ser inanimado, os cinco
litros que insistimos
em manter selados,
(quase) herméticos
em nossos corpos. Fraturas
em esqueletos
de outros séculos? Fêmures,
úmeros de avós não
nos asseguram o aumento
da resiliência dos ossos,
não a curto prazo, os erros
de mães não nos valem
como cartilha.

Talvez Waterloo
ensinara algo a Napoleão,
mas certamente não
aos que ali morreram, a nós
são relatos tão próximos
quanto o das Termópilas,
e os soldados
em posição de descanso
em ambos os solos
ali estão, obedientes
ainda às ordens.
“Ilustríssimo senhor transeunte,
vem-se por meio desta requerer
que informe aos honrados
cidadãos de Esparta
que, por ocasião
da ressurreição dos mortos,
aqui estaremos, ainda
de uniforme, todavia prontos
para mutilar, pilhar e tolher.”

E no tempo começam
a distanciar-se
Canudos e Babi Jar,
Darfur e Bagdá
deitam-se tão longe
dos mapas do meu bairro.
Fronteiras unem, separam,
e nós, na fila de espera
entre passado e futuro,
nos confundimos,
sem passaportes,
como se as paredes
móveis de uma armadilha –
retrocedem, avançam,
não em velocidade
equilibrada e mal
as sabemos prestes
a esmagar-nos. Reprises
das quais esquecemos
invariavelmente os finais
ou os confundimos
com os começos de novos
episódios, ao advento
das represálias não sabemos
quais os crimes
originais, se somos o que vinga
ou o que incinera com ares
de uma mítica defesa legítima.

Toda morte
é uma queima de arquivos.
Aulas de História, mas não
da História. Esta, nada mais
que uma lista de revanches
infindáveis e não importa
se nossa brutalidade
é edênica ou endêmica,
se culpamos o ovo
ou o galo.

Com sorte, para nós o dénouement
funcionará como um desnudamento,
seguido de extinção, oxalá
sem muitos gritos.


Ricardo Domeneck, 2012.

:


Lasst mich vortragen, was Geschichte lehrt

                   Let me recite what History teaches
Gertrude Stein

Nichts, womöglich.
Man glüht nicht
von fremdem Fieber
man lernt nur
vom Messer und Feuer
an der eigenen Haut
nicht beim Betrachten
der Narben auf Fotos
von Vorfahren. Tragisch
oder banal, alles
scheint zur Wiederholung
bestimmt, sogar die Reden
übers Blut, das uns voranging
und unsere unbeglichene
Schuld an seinem Vergießen.
Wir haben keine Zeit
die angehäuften Toten
zu rächen, kann sein
Blut ist dazu bestimmt
Dekade um Dekade
aus Kapillaren
zu quellen, als würde
der unbelebte Boden
die fünf Liter uns neiden
die wir beharrlich
und (fast) hermetisch
in unserem Körper
verschlossen halten. Brüche
an Skeletten aus Großvaters
Zeiten? Oberschenkel-
Oberarmknochen
von Großmüttern
garantieren uns keine
größere Knochendichte, nicht
kurzfristig, die Irrtümer
der Mütter dienen
uns nicht als Fibeln.

Vielleicht hat Napoleon
aus Waterloo gelernt
doch sicher nicht die
die starben, und für uns
sind das Berichte
kaum näher als die Schlacht
bei den Thermopylen, Soldaten
in Ruhestellung bergen
beide Böden, sie gehorchen
noch immer Befehlen.
„Werter Wanderer,
hiermit bitten wir, die aufrechten
Bürger von Sparta
darüber in Kenntnis
zu setzen, dass wir
bei Auferstehung
der Toten bereit sein werden
zum Plündern, Verstümmeln, Verwüsten.“

Canudos und Babi Jar
rücken in die Ferne
Darfur und Bagdad liegen
außerhalb meines Stadtplans.
Grenzen vereinen, trennen
doch wir stehen Schlange
zwischen Vergangenheit
und Zukunft, kommen
durcheinander ohne Pass
als ob die beweglichen
Wände einer Falle –
sich auf dem Vormarsch
auf dem Rückzug
befinden, doch nicht
gleich schnell, wir ahnen
sie werden uns zermalmen. Reprisen
deren Ende wir grundsätzlich
vergessen oder
mit dem Anfang neuer
Episoden verwechseln.
In Erwartung von Repressalien
wissen wir nicht
was das Erste Verbrechen war
und ob wir Rächer sind
oder alles abfackeln
mit einem Ausdruck
mythischer Notwehr.

Jeder Tod
bedeutet Niederbrennen
von Archiven. Unterricht
in Geschichte, nicht
der Geschichte. Diese besteht
aus einer nie abreißenden Kette
von Vergeltungen, müßig
die Frage ob unsere Brutalität
edenisch oder endemisch ist
ob wir die Schuld beim Ei suchen
oder beim Hahn.

Mit etwas Glück besteht die Auflösung
für uns in Entblößung
und wir sterben aus, hoffentlich
ohne viel Geschrei.


(Deutsche Interpretation von Odile Kennel)
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domingo, 25 de novembro de 2012

Primeira noite do Zeitkunst 2012 em Berlim: textos que li



Ontem foi a primeira noite do Zeitkunst 2012 em Berlim, com um programa diferente do que apresentamos no Brasil. Com o título "The Human Voice", leram, além de mim, os poetas Björn Kuhligk (um dos poetas alemães mais respeitados da Geração 90 do país), Birgit Kreipe e a israelense Tal Nitzan. O Ensemble Meitar tocou composições de contemporâneos como Fabian Panisello, Toru Takemitsu, Hadas Pe'ery e Sivan Cohen Elias. Eu li 5 fragmentos do poema-em-série "Dedicatória dos joelhos", incluído a´a cadela sem Logos (2007). Hoje será o encerramento, com a "Homenagem a John Cage" que apresentamos no Brasil. Abaixo, os texto que li e as respectivas traduções de Odile Kennel para o alemão.


falar hoje exige
elidir a própria
voz as transações
inventivas entre
interno e externo
demandam
que a base venha
à tona e a
superfície seja
da profundidade da
história ímpeto
denotando o
centrífugo
o corpo público
que exibo como
palco fruto
da ansiedade
do remetente
o interno ao longo
da epiderme
como emily
dickinson terminando
uma carta de minúcias
com “forgive
me the personality“

§

sprechen verlangt heute
die eigene Stimme
zu sperren der findige
Handel zwischen
Innen und Außen
setzt voraus
dass der Grund
zutage tritt die
Oberfläche tief
wie Geschichte
ist Wucht
die Zentrifugales
zeigt öffentlicher
Körper den
ich als Bühne
ausstelle Frucht
der Furcht
des Absenders
Inneres in der Ferne
der Haut
wie Emily
Dickinson die einen
Brief voller Kleinigkeiten
beendet mit "forgive
me the personality"

§

para provar seu
entusiasmo e assegurar
a destruição de tecidos
no pedágio
da alegria
apagou o
cigarro no próprio
pulso que revidou
latejando
e mordendo a
brasa lambendo
as cinzas a
semente da
maçã inaproveitável
devolva-me
o caroço como exige
o mel do rei ao mesmo
tempo que o depõe
a prover dor ao fingimento
alheio

§

um seine Begeisterung
zu beweisen und die
Zerstörung von Stoffen
an der Zahlbox
der Freude
zu gewährleisten
drückte er die
Zigarette auf dem
eigenen Puls
aus der zurückschlug
in die Glut
biss Asche
leckte die immer
nutzlose Apfel-
saat gibt mir den
Kern zurück mein
Liebster will
den Honig des
Königs und bietet
ihn feil versieht
mit Schmerz das Heucheln
des anderen

§

difícil convencer todas
as partes do meu corpo
do sentido
de uma ação e
assim pôr em
movimento as roldanas
da corpulência em
direção ao
abstrato cruzar
o oceano tantas
vezes umedece
os propósitos faz
querer uma cama
no fundo
não não
é irônico
que bas jan ader in search
of the miraculous afunde
desapareça em meio
oceano

§

schwierig alle
Teile meines
Körpers vom Sinn
einer Handlung zu
überzeugen und
so die Flaschenzüge
der Fettleibigkeit in
Richtung Abstraktheit
in Bewegung zu
setzen so oft das Meer
zu überqueren wässert
die Absicht weckt
den Wunsch nach
einem Bett
am Grund nein
das ist keine Ironie
möge Bas Jan Ader in Search
of the Miraculous versinken
verschwinden mitten im
Meer

§

o que é uma língua
perdida se
encontra saliva
em estranhos como se
vai de são paulo a
berlim nomear esta
relevância morta
vício de memória horror
à memória horror do
esquecimento uma foto
é irrespirável a catedral
da cidade do méxico
afundando no antigo
lago bombeie bombeie
concreto até reter as
águas é preciso
cruzar o oceano
para ousar
falar de
água

§

Was ist eine verlorene
Sprache Speichel
finden in Fremden
wie man von Sao Paulo
nach Berlin
geht diese tote
Bedeutung benennen
Laster der Erinnerung Horror
für die Erinnerung Horror
des Vergessens ein Photo ist
uneinatembar die Kathedrale von
Mexiko Stadt versinkt
im Ursee Beton
Beton das Wasser
zu bremsen
man muss das Meer
überqueren bevor
man von Wasser
zu sprechen
wagt

§

em minha boca ele
alcança o meio-dia
mas a intermitência o
apreende como em
qualquer música
cúmplice do acaso a
pessoa começa a
afastar-se desde que
se aproxima a distância
existe entre pele e
pele cada imagem
dobrando a esquina
não configura
sua chegada
ele
só chega quando seu
corpo chega carregado
pelas próprias pernas
e jamais falha que
eu o reconheça
de imediato
como dono de
certos lábios voz
nome e um modo
de apresentar-se
ele
chega o mundo
assume uma nova
forma: a do
equilíbrio precário do
mundo

§


§

in meinem Mund erreicht
er den Mittag aber
die Unterbrechung um-
klammert ihn wie
eine Musik die Komplizin
des Zufall ist die
Person beginnt
sich zu entfernen sobald
sie sich nähert Entfernung
existiert zwischen Haut und
Haut jedes Bild
das um die Ecke biegt
zeigt nicht
seine Ankunft
er
erscheint nur
wenn sein Körper
erscheint getragen
von seinen Beinen
und nie bleibt
es aus, dass ich
ihn gleich erkenne
als Besitzer von
Lippen Stimme
Name an seiner Art
sich vorzustellen
er
erscheint die Welt
nimmt eine neue Form
an: die des heiklen
Gleichgewichts der
Welt


.
.
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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Tendo acabado de deixar Curitiba, dois poetas ligados à cidade





[um dia]
Paulo Leminski

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada

depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg

por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores

§

Plegária
Jussara Salazar

Verde, âmbar as
pedras,
e as violetas rosadas –
eternas e o humo que
cobria o chão negro
como a noite, e quisera
falar-lhe em seu idioma
antigo
e recordar os lobos
correndo ao redor da
casa e a hera selvagem
cobrindo os vestidos e
os animais, pequenos,
nos bordados coloridos e
ramitos a entreabrir-se
brancos e escuros, cristal
de la luna ao reflexo
como a aparição das
lebres e das ovelhas
correndo os campos sob
as nuvens e a subterra
profunda do horto na
pele do ar em minutos
precisos, envolvendo o
tempo quando vi morrer
o sol, e o vento girando,
soprando mirações da
cor da água, nas rosas e
nos insetos. Quisera falar
seu idioma antigo e
guardar-lhe nas luzitas
do espelho como os
cravos também tão
antigos sobre a toalha
branca, e uma lua de
seda derrama um rosário
de ouro mais os rumores
de um sonho, quisera.


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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Curitiba: Performance no Museu Oscar Niemeyer : Hoje à noite, 20:00



HOMENAGEM A JOHN CAGE - Zeitkunst 2012 - CURITIBA

Em Curitiba esta noite, 20/11: última performance brasileira da "Homenagem a John Cage", parte do Festival Zeitkunst 2012. A apresentação será no Museu Oscar Niemeyer, às 20:00.

Com os poetas Johannes CS Frank (Inglaterra), Max Czollek (Alemanha), Maya Kuperman (Israel) e Ricardo Domeneck (Brasil). Músicos: Luiz Gustavo Carvalho (Brasil, piano e piano preparado), Caspar Frantz (piano preparado) e Julian Arp (violoncelo). 

No programa, peças de Cage como "A valentina out of season" e "Dream", além de uma homenagem a ele, composta pelo húngaro György Kurtág (n. 1926).

20 de novembro, às 20:00
Museu Oscar Niemeyer
Rua Marechal Hermes, 999 
Curitiba




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