domingo, 24 de fevereiro de 2013

Último passo para consumar o exorcismo: publicar este poema, "Texto em que o poeta dispara sua ulterior torrente de elogios, neste que oxalá seja o último poema para O Moço"





Texto em que o poeta dispara sua ulterior torrente de elogios, 
neste que oxalá seja o último poema para O Moço


Cavalinho de desequilíbrio, geringonça desastrada,
espargidor no meu carpete dos cafés sucessivos,
peixe de lago constante, camundongo do mato,
coisa alta, ninfo palidíssimo para novos poetas
decadentes, filhote albino de tigre, loa de sertã,
guia da trilha ao descampado de meu bosque,
enguia-de-muco, alface-de-cão, dente-de-leão,
insistência heróica na busca dos sobreviventes
de mim, aquele que transporta o meu cale-se,
arquivista de minhas enumerações caóticas,
com esta minha cachoeirinha de atributos
ao teu tórax e cóccix, eu juro que juro
que esta é a última vez que te canto.

Ricardo Domeneck, 2012.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Novos artistas na "Hilda Magazine"



Elizabeth Veldon (Escócia, arte sonora)

§

Doireann O´Malley (Irlanda, poesia e filme)

§

Daniel Saldaña París (México, poesia)

§

Linn Hansén (Suécia, poesia)

§ 

Luca Argel (Brasil, poesia e vídeo)

§

Tim Hetherington (Inglaterra, vídeo)

§

Vanessa Place (Estados Unidos, poesia)

.
.
.



sábado, 9 de fevereiro de 2013

Lista de poemas em meu livro alemão, a sair em março.


Página de rosto do meu livro. Ilustração de Annemarie Otten.

Estou corrigindo as provas finais do meu livro a sair aqui na Alemanha no mês que vem. Bilíngue, o livro se chama Körper: Ein Handbuch., e, em português, Corpo: Um Manual. Optamos por fim na seguinte estratégia de diagramação: de um lado, o livro alemão, e, virando-o de ponta-cabeça, o livro em português. Odile Kennel (minha tradutora) e eu discutimos por algum tempo sobre a seleção, e decidimos muito rápido que não queríamos uma simples "antologia" no estilo Best Of, tomando poemas de todos os meus livros. Queríamos que o livro funcionasse como livro em si, e não apenas coletânea. Como imagino que seja o caso de todo autor, preferindo os trabalhos mais recentes e como havia acabado de lançar meu quinto livro Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012), a maior parte dos poemas veio deste, unidos a alguns poemas do meu primeiro livro, Carta aos anfíbios (Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2005), um único de Sons: Arranjo: Garganta (São Paulo: Cosac Naify, 2009), e vários poemas completamente inéditos em livro. Seguindo o que fiz no último, dividimos os poemas em capítulos.

Abaixo, o sumário. As siglas em frente aos poemas são:

CAA - Carta aos anfíbios (2005).
SAG - Sons: Arranjo: Garganta (2009).
CAS - Ciclo do amante substituível (2012).

Körper: Ein Handbuch. (Berlin: Verlagshaus J. Frank, 2013).
Corpo: Um Manual. (Berlim: Verlagshaus J. Frank, 2013).

1. Você está aqui

"Vida longa à poesia pura" (CAS)
"Corpo"  (CAS)
"X + Y: uma ode" (CAS)
"Carta do poeta no inverno berlinense a um amigo no verão paulistano" (CAS)
"Dos sons do sentido" (SAG)

2. Relações mercantis com o oxigênio

"Breviário de secreções" (CAA)
"Sempre o exílio" (CAA)
"Praticando o dérive: trajeto Charlottenburg–Mitte, Berlim, 5 de outubro de 2011" (CAS)
"Seis canções óbvias" (CAA)
"Os pés alheios nos próprios glúteos" (CAS)
"Da tradução como exercício erótico" (CAS)

3. Permanece à deriva

"Grão-guia para viagem aos quatro cantos" (CAS)
"O cartógrafo confuso ou Notas às margens do Tejo" (CAS)
"O acordeonista da Catedral de Bruxelas" (CAS)
"Texto em que o poeta sente-se impelido a dizer a Jannis Birsner em Zurique o que Frank O´Hara quis dizer a Vincent Warren em Nova Iorque" (CAS)
"Pacote turístico para panças de baleia" (CAS)
"Alienações fiduciárias" (Inédito)

4. Ginástica Odisséica

"Deixem-me recitar o que a História ensina" (Inédito)
"Texto em que o poeta medita sobre a fuga inexequível da História como turista em Budapeste, Hungria" (CAS)
"Ísis Dias de Oliveira" (1941–?) (Inédito)

5. Amor, questão de hidráulica

"Texto em que o poeta celebra o amante de vinte e cinco anos" (CAS)
"Cartografia do cobertor em uma cama de casal"  (CAS)
"Cantiga de ninar para amante surdo" (CAS)
"Carta a Antínoo" (CAS)
"Como terminaram cômicos nossos épicos" (CAS)
"Texto ao que poderia porventura reconstruir os muros e repovoar a cidadela" (Inédito)

6. Sonhos Hollywoodianos

"Sonhos Hollywoodianos de Poeta" (CAS)
"Texto em que o poeta surpreende-se com a morte de Maria Schneider, que parece formar uma sinédoque da qual não discerne a fronteira entre parte e todo" (CAS)
"Versos que circundam a instância de serem escritos enquanto o poeta tomava café-da-manhã e sofria de dor nas costas" (CAS)
"Texto em que o poeta medita sobre o fim dos recomeços de sua memória ainda que um possível mito não o console pelo “The End” em sua história" (CAS)

.
.
.



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Após ler sobre a descoberta, e confirmação científica, dos ossos de Ricardo III sob um estacionamento público.

Ossos de Ricardo III, expostos após confirmação genética.


Ao meu xará corcunda

                “Now is the winter of our discontent
                  Made glorious summer by this son of York”
                                                   Shakespeare

Morte estende-se humilhante e dura,
se começa nos campos de Bosworth,
em batalha, termina com arqueólogos,
a um da casa de York e/ou corcunda.
Planta precede concreto, Plantagenet,
e, do reino, restam indícios genéticos.
Auden disse, de Yeats, que ao poeta
virar seus admiradores é o que resta.
Mesmo a um rei tudo que se reserva,
pior, é transformar-se nos detratores.
Jamais saberemos se vilão de Tudors
ou só psicopata ordinário, frequência
dos regentes da época, e hodiernos.
Confesso, em Shakespeare, odiar-te
é um prazer imenso, torcer que reino
não valha cavalo, ou sequer um jegue.
Mas, eis teus ossos, Ricardo Terceiro.
Enfim iguais: naquilo que nos sobeja,
ainda que murmures, tal qual Heine,
"Quem dera fossem os teus, Ricardo"

Ricardo Domeneck, Berlim, madrugada de 05 de fevereiro de 2013.

.
.
.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Companhia das Letras lança volume com a poesia reunida de Paulo Leminski

                                                                    Para comprar em livraria 
                                                                    pequenina 
                                                                    de qualquer esquina, 

                                                                    e depois tomar um rabo 
                                                                    -de-galo 
                                                                    no boteco ao lado.


A editora paulista Companhia das Letras lança este mês um volume que reúne toda a poesia de Paulo Leminski, em edição comercial que recolocará em grande circulação aquele que nunca deixou de circular por nossas cabeças. Para celebrar, reposto aqui um texto que escrevi para a franquia eletrônica da Modo de Usar & Co. em julho de 2008, na séria "Sintonia de nossa sincronia".

Paulo Leminski (1944 - 1989)

Modo de Usar & Co., 30 de julho de 2008
na série "Sintonia de nossa sincronia"



Paulo Leminski nasceu em Curitiba, como todos já deveriam saber, e aí mesmo morreu, pouco antes de completar 45 anos. É um dos poetas brasileiros, surgidos após a década de 50, de maior influência  entre os poetas das décadas seguintes. À época de sua morte, já havia conquistado um lugar de destaque e relevo na poesia brasileira do pós-guerra. 

Seus livros mais importantes foram publicados na década de 70, um momento de embate poético dualista, entrincheirado entre noções poéticas que passaram a ser narradas por muito tempo como se numa batalha por hegemonia, tanto por parte de poetas ligados às neovanguardas brasileiras do pós-guerra (baseados em grande parte em São Paulo), como por aqueles que ficaram conhecidos como poetas marginais, que poderíamos chamar de Grupo do Mimeógrafo, baseados no Rio de Janeiro. A insistência nestes rótulos faz cada vez menos sentido, mesmo que alguns poetas ainda dependam deles para manter sua narrativa dualista nos dias de hoje (especialmente em SP). Porém, para os que não estão interessados primordialmente em escolas e grupos, sabendo que uma contextualização crítica e est-É-tica precisa ir além disso, as décadas de 60 e 70 começam a mostrar-se em sua verdadeira complexidade. Como rotular, por exemplo, uma década como a de 60, quando surgiram na poesia brasileira poetas tão diferentes e independentes como Leonardo Fróes, Roberto Piva, Sebastião Nunes, Orides Fontela, Sebastião Uchoa Leite, Oliveira Silveira e Torquato Neto?

Ao final da década de 80 e através da década de 90, tentou-se instituir uma narrativa historiográfica que criava uma rivalidade razoavelmente fictícia na década de 70, numa luta por hegemonia crítica que por muito tempo fez da década o período oficial de um único grupo de poetas, ao qual foi dado o rótulo de "poesia marginal". No entanto, os poetas ativos naquela década e que hoje parecem mostrar a maior vitalidade poética aos olhos dos poetas mais jovens podem apenas com muito esforço, e em um discurso crítico que impede uma compreensão mais ampla de seus trabalhos, ser encaixotados juntos sob qualquer rótulo limitado, que invariavelmente apaga as diferenças que fazem dos poetas seres individuais, ainda que ligados a estéticas coletivas. É ainda hábito em certos setores, por exemplo, referir-se à poesia marginal, no singular, sem qualquer discernimento crítico que compreenda as características particulares de poetas como Ana Cristina César, Chacal, Eudoro Augusto ou Francisco Alvim, tão diferentes uns dos outros.

A obra de um poeta como Paulo Leminski já foi conectada pela crítica tanto aos poetas do pós-concretismo paulista, como aos marginais cariocas. Outros grupos contemporâneos têm reivindicado a candidatura e filiação de Leminski para seus partidos poéticos. Nada disso ajuda-nos a compreender a singularidade de sua poética, que passa por um texto denso e plurilingüista como o Catatau, e ainda por sua poesia conscientemente questionadora das trincheiras entre formalismo e informalidade, em livros como Caprichos e relaxos ou Distraídos venceremos, títulos bastante sugestivos da atitude artística de Leminski, que jamais cedeu a um experimentalismo racionalista estéril e conceitual, e é um dos poetas brasileiros do pós-guerra que melhor compreenderam a lição de Pound - a de que “only emotion endures”. 

Se o agrupamento de poetas ajuda sua recepção crítica imediata, a longo prazo tal postura apenas nubla a compreensão crítica de suas obras, lançando às sombras muitas vezes os melhores poetas da manada. Já se passaram mais de 30 anos desde as estreias de alguns destes poetas da década de 70.

Porém, se apenas nos últimos anos começamos a saber separar e discernir entre nossa compreensão da obra de Haroldo de Campos e a de Augusto de Campos, e estas da obra de Décio Pignatari (enquanto as de Ronaldo Azeredo, Pedro Xisto e Edgard Braga, por exemplo, permanecem infelizmente como apêndices de núcleos), talvez precisemos esperar ainda 20 anos mais para vermos as obras de Paulo Leminski, Ana Cristina César, Francisco Alvim ou Afonso Henriques Neto compreendidas em suas particularidades.


Este discurso por rótulos e trincheiras precisa ser suprimido, pois só assim poderemos compreender e fazer justiça a uma década em que surgiram poetas tão importantes e diversos entre si, como Paulo Leminski, Wally Salomão, Duda Machado, Afonso Henriques Neto, Elisabeth Veiga, Ronaldo Brito, Eudoro Augusto, Ana Cristina César ou Júlio Castañon Guimarães, entre outros. Tal lista tampouco se quer como proposta canônica.

O que nos interessa em Paulo Leminski, o que nos parece útil como jovens poetas, é justamente sua capacidade inigualável de manter uma alta qualidade composicional, sem perder de vista o leitor com quem estabelece a sua poesia, em poemas que caminham na corda bamba e deliciosa como fronteira que ainda se faz sentir entre escrita e oralidade, com Leminski equilibrando-se entre o experimentalismo e o lirismo que remonta à tradição trovadoresca. Também por um motivo importante: Paulo Leminski fazia tudo com fúria e humor.

Não queremos saquear sua aura de autoridade, nem incluí-lo em antologias em que surgiríamos como seus herdeiros, legitimados por sua presença. Temos apenas a grande certeza de que Paulo Leminski é um dos poetas mais úteis e necessários da atualidade.

--- Ricardo Domeneck

§

TEXTOS E VÍDEOS DE PAULO LEMINSKI



(Documentário "Polaco Loco Paca". Direção: João Knijinik. 10'50")


§

Primeiras páginas do Catatau

ergo sum, aliás, Ego sum Renatus Cartesius, cá perdido, aqui presente, neste labirinto de enganos deleitáveis, — vejo o mar, vejo a baía e vejo as naus. Vejo mais. Já lá vão anos III me destaquei de Europa e a gente civil, lá morituro. Isso de “barbarus — non intellegor ulli” — dos exercícios de exílio de Ovídio é comigo. Do parque do príncipe, a lentes de luneta, CONTEMPLO A CONSIDERAR O CAIS, O MAR, AS NUVENS, OS ENIGMAS E OS PRODÍGIOS DE BRASÍLIA. Desde verdes anos, via de regra, medito horizontal manhã cedo, só vindo à luz já sol meiodia. Estar, mister de deuses, na atual circunstância, presença no estanque dessa Vrijburg , gaza de mapas, taba rasa de humores, orto e zôo, oca de feras e casa de flores. Plantas sarcófagas e carnívoras atrapalham-se, um lugar ao sol e um tempo na sombra. Chacoalham, cintila a água gota a gota, efêmeros chocam enxames. Cocos fecham-se em copas, mamas ampliam: MAMÕES. O vapor umedece o bolor, abafa o mofo, asfixia e fermenta fragmentos de fragrâncias. Cheiro um palmo à frente do nariz, mim, imenso e imerso, bom. Bestas, feras entre flores festas circulam em jaula tripla — as piores, dupla as maiores; em gaiolas, as menores, à ventura — as melhores. Animais anormais engendra o equinócio, desleixo no eixo da terra, desvio das linhas de fato. Pouco mais que o nome o toupinambaoults lhes signou, suspensos apenas pelo nó do apelo. De longe, três pontos... Em foco, Tatu, esferas rolando de outras eras, escarafuncham mundos e fundos. Saem da mãe com setenta e um dentes, dos quais dez caem aí mesmo, vinte e cinco ao primeiro bocado de terra, vinte o vento leva, quatorze a água, e um desaparece num acidente. Um, na algaravia geral, por nome, Tamanduá, esparrama língua no pó de incerto inseto, fica de pé, zarolho de tão perto, cara a cara, ali, aí, esdruxula num acúmulo e se desfaz eclipsado em formigas. Pela ou na rama, voce mettalica longisonans, a araponga malha ferro frio, bentevi no mal-me-quer-bem-me-quer. A dois lances de pedra daqui, volta e meia, dois giros; meia volta, vultos a três por dois. De onde em onde, vão e vêm; de quando em vez, vêem o que tem. Perante o segundo elemento, a manada anda e desanda, papa e bebe, mama e baba. Depois da laguna, enchem a anterior lacuna. Anta, nunca a vi tão gorda. Nuvens que o gambá fede empalidecem o nariz das pacas. Capivara, estômago a sair pelas órbitas, ou, porque fartas se estatelam arrotando capinzais ou, como são sabem senão comer, jogam o gargalo para o alto, arreganhando a dentadura, tiriricas de estar sem fome. Ensy, joão chamado bobo, não tuge nem muge, não foge tiro, brilho nem barulho — gálbula, brachyptera, insectívora, taciturna, non scansoria, stupida — , para jogar sério a esmo. Monos se penteando espelham-se no banho das piranhas, cara quase rosto no quasequase das águas: agulhas fazem boa boca, botam mau olhado anulando-lhes a estampa, símios para sempre. Na aguada, o corpanzil réptil entretece lagartos e lagostas. Monstros da natura desvairada nestes ares, à tona, boquiaberta, à toa, cabisbaixa, o mesmo nenhum afã. Tira pestana ao sol uma jibóia que é só borboletas. Tucanos atrás dos canos, máscara sefardim, arcanos no tutano. Jibóia, no local do crime, desamarram espirais englobando cabras, ovelhas, bois. Chifres da boca para fora — esfinges bucefálicas entre aspas — decompõem pelos mangues o conteúdo: cospem cornos o dobro. Exorbitantes, duram contos de séculos, estabelece Marcgravf, na qualidade de profeta. Vegetam eternidades. Crias? Mudas? Cruzam e descruzam entre si? Não, esse pensamento, não, — é sístole dos climas e sintoma do calor em minha cabeça. Penso mas não compensa: a sibila me belisca, a pitonisa me hipnotiza, me obelisco, essa python medusa e visa, eu paro, viro paupau, pedrapedra. Dédalos de espelho de Elísio, torre babéu, hortus urbis diaboli, furores de Thule, delícias de Menrod, curral do pasmo, cada bicho silencia e seleciona andamentos e paramentos. Bichos bichando, comigo que se passa? Abrir meu coração a Artyczewski. Virá Artyczewski. Nossas manhãs de fala me faltam. Um papagaio pegou meu pensamento, amola palavras em polaco, imitando Articzewski (Cartepanie! Cartepanie!). Bestas geradas no mais aceso fogo do dia... Comer esses animais há de perturbar singularmente as coisas do pensar. Palmilho os dias entre essas bestas estranhas, meus sonhos se populam da estranha fauna e flora: o estalo de coisas, o estalido dos bichos, o estar interessante: a flora fagulha e a fauna floresce... Singulares excessos... In primis cogitationibus circa generationem animalium, de his omnibus non cogitavi. Na boca da espera, Articzewski demora como se o parisse, possesso desta erva de negros que me ministrou, — riamba, pemba, gingongó, chibaba, jererê, monofa, charula, ou pango, tabaqueação de toupinambaoults, gês e negros minas, segundo Marcgravf. Aspirar estes fumos de ervas, encher os peitos nos hálitos deste mato, a essência, a cabeça quieta, ofício de ofídio.

§



§

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores

§

moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia
vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia

§

o pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique

§

Círculo

cansei da frase polida
por anjos da cara pálida
palmeiras batendo palmas
ao passarem paradas
agora eu quero a pedrada
chuva de pedras palavras
distribuindo pauladas

§

enchantagem

de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo

esperanças, cheguei
tarde demais como uma lágrima

de tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito

pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito

que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar

tanto evitar o inevitável
in vino veritas
me parece
verdade

o pau na vida
o vinagre
vinho suave

pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade

§

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

§

desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado
[aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormendo

§

eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito

eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões

em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois

§

Bem no Fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

.
.
.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

"Viola Chinesa" (1975), Júlio Bressane.



"Viola Chinesa" (1975), Júlio Bressane. 

.
.
.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Nota sobre minha descoberta dos poetas finlandeses Paavo Haavikko (1931 - 2008) e Pentti Saarikoski (1937 – 1983).

Soube esta semana da morte do poeta e tradutor Anselm Hollo (1934 - 2013). Hollo foi um destes polígrafos desenraizados. Nascido na Finlândia, em Helsinki, cresceu na Alemanha com seu avô e começou sua carreira como poeta escrevendo em alemão. Mais tarde, casado, mudou-se para Londres, onde passou a trabalhar na BBC e reiniciou sua carreira literária como poeta britânico e anglófono. Em 1965, por exemplo, Hollo leu na lendária International Poetry Incarnation, a noite de leituras no Royal Albert Hall que, com casa lotada, reuniu ainda os poetas Allen Ginsberg, Gregory Corso, Alexander Trocchi, Adrian Mitchell, Ernst Jandl, William S. Burroughs, Christopher Logue, George Macbeth, Lawrence Ferlinghetti, Michael Horovitz, Simon Vinkenoog, Harry Fainlight, Spike Hawkins e Tom McGrath. Seu trabalho foi incluído, entre outras, na antologia Children of Albion: Poetry of the Underground in Britain (London: Penguin Books, 1969).

Mas foi nos Estados Unidos que Anselm Hollo tornou-se poeta de poetas e respeitado tradutor. Hollo traduziu Bertolt Brecht para o inglês, Allen Ginsberg para o finlandês e William Carlos Williams  para o alemão. Entre muitos outros.

Lendo sobre o poeta na Rede, em meio aos louvores por suas muitas traduções, li pela primeira vez os nomes dos poetas finlandeses Paavo Haavikko (1931 - 2008) e Pentti Saarikoski (1937 – 1983),  que ele apresentara aos leitores anglófonos, mencionados como mestres em seu país e responsáveis pela modernização da linguagem poética finlandesa.

Sempre aprendemos que, no Brasil da década de 20, nossos modernistas investiram contra a "mais atrasada das literaturas". Mas eu folgo em dizer que, em comparação com vários países europeus, ter chegado ao Modernismo na década de 20 nos põe à frente de vários países "civilizados", sem mencionar que já havíamos chegado a uma Literatura Moderna no fim do século XIX, com escritores como Machado de Assis, Joaquim de Sousândrade, Qorpo-Santo, Raul Pompeia e Cruz e Sousa, ou, logo em seguida – naquela outra geração também maravilhosa e, como a anterior, tão melhor que muitos dos modernistas, – com Lima Barreto, Euclides da Cunha, Augusto dos Anjos e Pedro Kilkerry.

Paavo Haavikko na década de 50


Na pesquisa que fiz nos últimos dias, é reputado a Paavo Haavikko e Pentti Saarikoski a chegada à modernidade poética finlandesa apenas na década de 50, justamente por meio de uma técnica que seria realmente inaugurada pelo Grupo de 22 entre nós: a quebra da barreira entre linguagem falada e linguagem poética. Segundo um resenhista da tradução de Anselm Hollo para o livro de memórias/romance The Edge of Europe, de Pentti Saarikoski, a mescla de registros na poesia deste teria tido o mesmo impacto chocante na Finlândia que os trabalhos de Burroughs e Ginsberg tiveram nos Estados Unidos à mesma época.

"First there were hopes and expectations, then came orders and restrictions, after those, requests and demands, they were attached to one's earlobes and buttocks, and characteristics were distributed at the same time, so that was when one learned to lie, to obey and to lie, to eat what was served, to go to church, to the theater, to the cafe, to smoke tobacco and to drink liquor, one learned all kinds of things, the names of birds and flowers and emperors, but then, one day, the birds stopped singing, the flowers stopped flowering, and the emperors stopped ruling, evolution had rolled back tens of millions of years, and you were a shrew. You did not know that you would become a human being who would be fruitful and multiply and build navies and great cities." --- Pentti Saarikoski, no livro de memórias The Edge of Europe, em tradução de Anselm Hollo.

Mesmo numa literatura hoje forte dentro da Europa como a eslovena, a modernização da linguagem poética só chegaria com o livro de estreia do então jovem Tomaž Šalamun, intitulado Poker (1966), quando este tinha 25 anos. Sua poesia à época o liga em arco espiritual e sincrônico à poesia que Roberto Piva estava publicando naquela época, como em Paranoia (1963) e Piazzas (1964).

Mesmo na poesia norte-americana, a barreira entre linguagem falada e linguagem poética só cairia de vez com Frank O´Hara, Allen Ginsberg e outros da década de 50. Se Manuel Bandeira foi nosso São João Batista neste aspecto, o dos americanos foi William Carlos Williams.

Dos dois poetas finlandeses o que me parece mais fascinante é Pentti Saarikoski, ainda que tenha gostado muito de tudo o que encontrei na Rede de autoria de Paavo Haavikko. Deste último, leia por exemplo estes:



&

Paavo Haavikko


Mas a personalidade de Pentti Saarikoski parece ter sido daquelas transbordantes, larger than life. Saarikoski gostava de gabar-se de ter sido o único escritor no mundo a traduzir para sua língua tanto a Odisseia, de Homero, como Ulysses, de James Joyce

Pentti Saarikoski na década de 50.

O poeta candidatou-se ao Parlamento de seu país duas vezes, foi comunista militante, e estava constantemente envolvido em escândalos para a sociedade conservadora do país, com seus muitos casamentos e bebedeiras. Uma figura que talvez se aproxime do nosso Vinícius de Moraes, mais velho que ele. Sua última grande obra foi a Trilogia, três coletâneas de poemas publicadas em 1977, 1980 e 1983, nas quais o filósofo grego Heráclito parece figurar de forma vultosa.

Abaixo, um vídeo com o poeta, mesmo sem entender bulhufas de finlandês, mas para se ter uma ideia do homem de carne e osso, "o único e verdadeiro irmão, que ri, sofre, ama e morre - sobretudo morre", mas palavras de Miguel de Unamuno.

Pentti Saarikoski

Abaixo, publico alguns poemas de Pentti Saarikoski. Assim como o holandês Gerard Reve, sinto-me desenvolvendo uma leve obsessão sem sequer poder lê-lo no original. Nada de novo no Western Front, já que sou obcecado por vários poetas que não posso ler no original, como Kaváfis e Tsvetáieva.  Prestem atenção na plasticidade vocálica da língua finlandesa no primeiro pequeno poema. 

Editoras brasileiras, por favor, traduzam mais poesia!

§

POEMAS E FRAGMENTOS DE POEMAS DE PENTTI SAARIKOSKI



I thought thoughts, which fit me well,
I walked in a forest, and it was raining on me from the trees,
I came now and then here and there,
and I knew that I was always in the right place.

:

Ajattelin ajatuksia, jotka sopivat minulle,
kävelin metsässä, ja puista satoi pisaroita päälleni,
tulin milloin mihinkin
ja tiesin, että aina olin oikeassa paikassa.

§


     This began two years before the wars
     in a village that now belongs to the Soviet Union
     my sole recollection of the war is the fires they were great
     they don't come like that nowadays
     I run to the window at the wail of the fire engine
     I was on the move all my childhood
     I turned communist
     I went into the cemetery and studied the angels
     they don't come like that nowadays -
     sella in curuli struma Nonius sedet
     I burned books in Alexandria
     I played the part of a stone and a flower and built a church
     I wrote poems to myself myself the chair went up and down
     high-backed ones like that don't come nowadays
     high poetry there is I'm expecting a cheque
          Which is the mistake, the wrong way, or the right, not the Way
          it's ±2
     I live the future times
     I read tomorrow's newspapers
     I support Khrushchev carry the owl from room to room
     I'm looking for the right place for it, This began

(Este é supostamente um dos seus poemas mais famosos, da coletânea What's going on, really?, de 1962, quando ele passou a ser chamado de "Beatle loiro do Norte" pela imprensa literária escandinava).

§


No, Quetzalcoatl, don't come back
we adore other gods here now
your feathers are on special offer
in the supermarkets
your lakes are ice
the island-to-island bridges
are exhaust pipes of human distress
from the apartment windows
dud eyes look out
on People's Square
gone red with innocent blood
no don't come back, Quetzalcoatl
stay with the faith of your ancestors


§

Life is given to man
to make him consider carefully
the position he'd like to be dead in,

grey skies pass over,
the sky's a hanging garden
and earth comes into the mouth like bread.
(from Runot ja Hipponaksin runot, 1959)

§


Snakes with their small tongues
licked my ears clean
once again I can hear
the sounds of the world
Festive
the rowan-berries

I want to keep this peace
in which I have creatures sit on my shoulders
and dance floor on the mountain

§

in the café I sit
look at tall villas on the opposite shore
inhabited by people with their own brand of contentment
other people
they've turned the wind around so the spirit of the city
won't breathe on them
sunny mornings busy with sailboats
on the bay
cool highballs early summer evenings
they have those coming to them
new thoughts won't be needed for a long time

§

I make the kind of observations a depressed person makes
                    the boat's been left there
                                     to rot in the water
                    now that he who used to row it
                                                               is dead

§


I bought a horse from a madman.
He'd sketched it himself
and otherwise it as a perfectly ordinary horse
but its eyes were in its nostrils.
He'd done that
on purpose: so people would see
how mad he was
and buy more briskly.
I bought it.
I thought about the horse: as it would stand in a pine grove
in the evening with blood dripping from the sun's ears.


.
.
.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Pequeno texto sobre um trabalho fundamental que forma o meu "Códice"


Alan Strang: ___

"Equus. 
Take me. Whoa, down, easy, boy, easy.
Equus, the Godslave.
Faithful and true, that's it.
He's good.
Equus, son of Fleckwus.
Son of Neckwus.
Walk.
Here we go.
The king rides out on Equus, mightiest of horses.
Only I can ride him.
His neck comes out of my body.
It lifts in the dark. Equus, Godslave.
Now the King commands you.
Tonight, we ride against them all. The hosts of Bowler... the hosts of Jodhpur... 
all those who show you off for their vanity... tie rosettes on your head for their vanity.
Come on, Equus, let's get them.
Trot! Steady, steady! That's it, steady.
Cowboys are watching, taking off their Stetsons.
They know who we are. They're admiring us.
Bowing low unto us. Come on, show them.
Canter!
And Equus the Mighty rose against all.
His enemies scatter.
His enemies fall.
Turn! Trample them!
Stiff in the wind. My mane, stiff in the wind!
I'm raw, I'm raw. Do you feel my raw?
Feel me on you?
On you! I want to be inside you.
I want to be inside you, and be you. Forever one person.
I love you!
Bear me away. Make us now one person.
Amen."

Doctor Dysart: ___ 

"Afterwards, he says, they always embrace. He showed me how he stands in the night, like a frozen tango dancer, inhaling the cold, sweet breath. Have you noticed it about horses, the way they'll stand one hoof on its end, like those girls in the ballet? Now he's gone off to rest, leaving me alone... with Equus. I can hear the creature's voice. He's calling me out of the black cave of the psyche. I shove in my dim little torch, and there he stands... waiting for me. He raises his matted head. He opens his great square teeth, and he says: `Why? Why me? Why, ultimately, me? Do you imagine you can account for me... totally, infallibly, inevitably account for me? Poor Dr. Dysart.´ Of course, I've stared at such images before, or been stared at by them, whichever way you look at it. Weirdly, often now with me, the feeling is that... they are staring at us. And in some quite palpable way, they precede us. Meaningless, but unsettling. In either case, this particular one, this huge, implacable head is the most alarming yet. It asks questions I've avoided all my professional life. A child is born into a world of phenomena, all equal in their power to enslave. It sniffs, it sucks, it strokes its eyes over the whole, uncountable range. Suddenly, one strikes. Then another. Then another. Why? Moments snap together, like magnets forging a chain of shackles. Why? I can trace them. I can, with time, pull them apart again. But why, at the start, they were ever magnetized at all... why those particu/ar moments of experience and no others? I do not know, and nor does anybody else! If I don't know, if I can never know, what am I doing here? I don't mean clinically or socially doing, but fundamentally. These whys, these questions, are fundamental."

O trecho acima é um dos momentos mais marcantes da peça Equus (1973), do dramaturgo inglês Peter Shaffer (n. 1926). Trata-se também de uma das experiências mais importantes em minha vida, como escritor, como pessoa-coisa. Eu a descobri pela primeira vez através da excelente filmagem de Sidney Lumet, Equus (1977), com Richard Burton no papel do Doutor Dysart, e Peter Firth no papel de Alan Strang. Creio que era 2003.




A quem não conhece a peça ou o filme, uma pequena sinopse: o Doutor Dysart recebe em seu consultório uma visita de sua amiga Hesther Saloman, uma assistente social que vem implorar que ele trate de um adolescente que acabou de ser preso. Dysart diz não ter tempo, estar sobrecarregado, e pergunta com empáfia cínica: "O que foi que ele fez? Pôs sonífero na bebida de alguma garota? Fogo em alguma coisa?"

Hesther responde, definitiva: "Ele cegou seis cavalos com uma estaca."



Ao começar a "tratar" Alan Strang, o Doutor Dysart entra em sua própria descida ao inferno dos mitos primordiais, e uma batalha consigo mesmo por ser um sacerdote do que ele passa a chamar de Deus do Normal. Para mim, parece um dos últimos grandes trabalhos da modernidade particular que nos afeta até hoje, daqueles guinchos de angústia pela dessacralização e desritualização do nosso mundo que geraram The Waste Land, de Eliot; o "Cantar LI, ou da Usura", de Pound; "A Janela do Caos", de Murilo Mendes. No pós-guerra, os guichos de angústia já haviam sucumbido a grunhidos de agrura do vazio em obras como La Dolce Vita, de Fellini; ou Deserto Vermelho, de Antonioni. Alguns poucos seguiriam entre os guinchos e os grunhidos, como Andrei Tarkóvski e Hilda Hilst dos anos 70 em diante. Não é à toa que o porco assume posição de destaque na obra de Hilst. E eu já não saberia dizer se eu, na Carta aos anfíbios, estava guichando ou grunhindo, porventura já em plena lamúria, aquela descrita por Eliot: "This is the way the world ends, / This is the way the world ends, / This is the way the world ends, / not with a bang, but a whimper".

Levou algum tempo até que conseguisse achar um exemplar do texto da peça. Mas há alguns anos o tenho.

Este texto de Shaffer, e sua encarnação (todo verbo faz-se carne, a não ser em alguns poetas brasileiros contemporâneos) no filme de Lumet é um dos textos fundamentais do que eu chamo de meu Códice, uma lista de textos que formaram (alguns diriam deformaram) minha mente e meu senso de est-É-tica. E é nisso que esta minha ideia de um Códice se diferencia do Paideuma de Pound. Pois enquanto, no Paideuma, Pound nos presenteou com aquela lista maravilhosa de trabalhos infalíveis nos quais podemos aprender sobre a poesia como poiesis, como tekhné, o que me fascina nos trabalhos que vão formando esta minha lista pessoal, este códice, é sua insistência em não ser apenas estética, mas de embater-se e pelejar com o mundo e o Mundo, de forma febril, desesperada, desbordante, impura em suas contaminações com a Vida.

Talvez outro aspecto da diferenciação entre o artista como artesão e o artista como interventor?

Algum dia quero publicar um livro com este título, Códice, contendo uma série de artigos ou ensaios em que me embata e peleje com estes textos. Seria o mais perto que eu poderia chegar do Itinerário da minha Pasárgada. Posso mencionar aqui alguns... como Do Sentimento Trágico da Vida (1933), de Miguel de Unamuno; Temor e Tremor (1843), de Kierkegaard; o poema "Janela do caos", de Murilo Mendes; o romance Qadós (1973), de Hilda Hilst; o conto "Nada e a nossa condição", de João Guimarães Rosa; o filme Krótki film o miłości (Não Amarás, 1988), de Krzysztof Kieślowski, assim como todo o seu Decálogo; e vários outros. Nos últimos dois anos, Simone Weil tem sido um fantasma-mor a pairar sobre minha cachola.

Porque é difícil explicar o que é viver com o que eu chamo de Complexo de Jonas, título de um poema em que trabalho aos pouquíssimos, jogando com o tema em tantos outros poemas, porque tenho medo de escrever este.

E tudo isso, aqui, apenas para recomendar a vocês que assistam à filmagem de Sidney Lumet para a peça Equus, de Peter Shaffer, e leiam o texto em si. Pois neste mundo que segue insistindo que adoremos ao deus da normalidade, do uniforme,  do concreto e sólido e prático, Alan Strang, e, mais importante: gente de carne e osso, ao menos galoparam no Campo Ha Ha. E você? E eu?


Da peça Equus, diálogo entre o Doutor Dysart e Hesther:

 __ I'm talking about passion, Hesther. You know what that word meant originally? Suffering. The way you get your own spirit through your own suffering. Self-chosen. Self-made. This boy's done that. He's created his own desperate ceremony just to ignite one flame of original ecstasy in the spiritless waste around him. He's destroyed for it, horribly. He's virtually been destroyed by it. One thing I know for sure, that boy has known a passion more ferocious than I have known in any second of my life. Let me tell you something: I envy it.

__ You can't.

__ Don't you see? That's what his stare has said all this time. "At least I galloped. When did you?" I'm jealous, Hesther. Jealous... of Alan Strang.

__ That's absurd.

__ Is it?

__ Yes, utterly. Utterly!

__ I go on about my wife. Have you thought about the husband? The finicky, critical husband, with his art books on mythical Greece? What real worship has he known? Without worship, you shrink! It's brutal. I shrank my life. No one can do it for you. I settled for being pallid and provincial out of my eternal timidity. The old story of bluster, and do bugger-all. I didn't even dare to have children... didn't dare to bring children into a house and marriage as cold as mine. I tell everyone Margaret is the puritan, I'm the pagan. Some pagan! Such wild returns I make to the womb of civilization! Three weeks a year in the Mediterranean. Beds booked in advance, meals paid with vouchers, cautious jaunts in hired cars, suitcase crammed with Kaopectate. What a fantastic surrender to the primitive! The "primitive." I use that word endlessly. "The primitive world," I say,"what instinctual truths were lost with it!" While I sit baiting that poor, unimaginative woman with the word, that freaky boy is trying to conjure the reality. I look at pages of centaurs trampling the soil of Argos. Outside my window, that boy is trying to become one in a Hampshire field. Every night I watch that woman knitting, a woman I haven't kissed in six years. And he stands for an hour in the dark, sucking the sweat off his god's hairy cheek. In the morning, I put away my books on the cultural shelf, close up my Kodachrome snaps of Mount Olympus, touch my reproduction statue of Dionysus for luck and go off to the hospital to treat him for insanity. Now do you see?






§

Book of Job, Chapter 39 (King James Bible)

 19. Hast thou given the horse strength? hast thou clothed his neck with thunder? 
 20. Canst thou make him afraid as a grasshopper? the glory of his nostrils is terrible. 
 21. He paweth in the valley, and rejoiceth in his strength: he goeth on to meet the armed men. 
 22. He mocketh at fear, and is not affrighted; neither turneth he back from the sword. 
 23. The quiver rattleth against him, the glittering spear and the shield. 
 24. He swalloweth the ground with fierceness and rage: neither believeth he that it is the sound of the trumpet. 
 25. He saith among the trumpets, Ha, ha
.
.
.




sábado, 26 de janeiro de 2013

Mundo lusófono, em três notícias: Lisboa, Rio de Janeiro e Recife

Notícias: o mundo lusófono, em três cidades

LISBOA

O poeta Miguel Martins convida, hoje dia 26, pelas 22.30h no bar do teatro A Barraca, para o concerto de A FAVOLA DA MEDUSA - "Bucolique Mélancolique II".

Entrada: 4 euros, com direito a uma cerveja.

Alexandre Andrade - trompete; Filipe Homem Fonseca - guitarra eléctrica; João Camões - viola d'arco; Miguel Martins - composição, direcção, objectos; Pedro Castello-Lopes - percussões; Rui Godinho - piano; featuring Anabela Duarte (ex-Mler If Dada) - voz.

   

 §



RIO DE JANEIRO 

Hoje também, 26 de janeiro de 2013, "A Gentil Carioca" apresentará a 9ª edição do projeto Abre Alas. Criado e organizado pelos artistas e galeristas Marcio Botner, Laura Lima e Ernesto Neto desde 2006, a partir do trabalho de jovens artistas brasileiros, a exposição deste ano tem entre eles os poetas Fabiana Faleiros (Rio Grande do Sul, 1980) e Ícaro Lira (Ceará, 1986).

ARTISTAS ABRE ALAS 9

Bet Katona (RJ)
Bruno Baptistelli (SP)
Bruno Senise (RJ)
Camila Soato (Brasilia)
Fábia Schnoor (RJ)
Frederico Filippi (SP)
Gabriel Secchin (SP)
Gustavo Torezan (Piracicaba- SP)
Ícaro Lira (Fortaleza/Ceará)
Jaime Lauriano (SP)
Juan Parada (Curitiba)
Leonardo Akio (SP)
Oscar Barbery (Argentina)
Patricio Gil Flood (Argentina)
Rafael Perpétuo (Belo Horizonte)
RG Faleiros (SP)
Silvio de Camilis Borges (SP)


§

RECIFE

Ocorre hoje, às 18:00 na Academia da Cidade do Coque, ao lado do viaduto Capitão Temudo, o lançamento da série de documentários para a TV "Coque: memórias da terra", realizado pela Rede Coque Vive e a Jacaré Vídeo, com incentivo do FUNCULTURA/FUNDARPE. 

"Neste momento de intensas intervenções urbanísticas no Coque, e em toda a Região Metropolitana do Recife, resgatar a história de formação do bairro e de luta da comunidade se faz mais do que justo e especial."



.
.
.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Diálogos berlinenses (2)

A. __ Ai, você fala como se fizesse alguma coisa que a maioria dos poetas não faz. Vai, diga aí o que é que você acha que você faz tanto, que a maioria dos outros poetas não faz?

B. __ Sexo.

.
.
.

Arquivo do blog