quarta-feira, 24 de abril de 2013

Pequena participação minha em vídeo do romancista holandês Philip Huff sobre Berlim

Hanne Lippard e eu conversamos com o romancista holandês Philip Huff sobre ser escritores em Berlim e tal. Ainda com Thomas Geiger (Literarische Colloquium Berlin), o também romancista holandês Tomas Lieske, e Martin Scharfe (volkslesung).


 

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domingo, 21 de abril de 2013

Conversa sobre uma possível poética conceitual no contexto brasileiro

Em primeiro lugar, uma recomendação de leitura, a mesma que me levou a compor este texto. Com curadoria da poeta norte-americana Vanessa Place, que organizou com Robert Fitterman a importante antologia Notes on Conceptualism, cartografando o movimento em língua inglesa, trata-se de uma conversa na revista Jacket2 sobre o conceptualism (que passarei a chamar adiante de conceitualismo) em termos internacionais, que traz minha companheira de editora aqui na Alemanha, Swantje Lichtenstein, e ainda os poetas Divya Victor e Riccardo Boglione.


Tal discussão, no contexto brasileiro, ainda está por começar, se é que nosso contexto o exige. Como o mais recente auto-declarado movimento de vanguarda em língua inglesa, pelo menos, e convivendo com a prática (que parece ter sumido do debate) da poesia flarfista (Flarf Poetry), o movimento não parece ter colhido frutos ou membros no Brasil, onde a último movimento poético norte-americano a ter sido discutido e incorporado foi o dos poetas em torno da revista L=A=N=G=U=A=G=E.

Em termos estritamente conceitualistas, para usar o ismo proposto pelos norte-americanos e de antemão consciente da ineficácia do advérbio estritamente nesta discussão, tal cartografia de antecedentes provavelmente teria que passar por parte do paideuma estabelecido pelo Grupo Noigandres dentro da "tradição experimental" brasileira, mas ao mesmo tempo nos permitiria finalmente incorporar certos outsiders que não cumpriam, para os poetas da década de 50, a função de referencial em movimentos que tanto fetichizaram a ideologia construtivista.

Minha contribuição a esta discussão, há algum tempo já e sem a preocupação de a ver como parte do debate conceitualista, foi a tentativa de atenção ao conceito de textualidade, incorporando e discutindo em grande parte na revista Modo de Usar & Co., que sempre se quis uma revista de poesia, vários textos que só podiam encaixar-se ali como poesia por sua clara consciência como construção textual e por sua disseminação pelos canais auto-declarados ou institucionalmente poéticos, sejam revistas, editoras ou coleções, passando ainda por operações textuais que jamais haviam sido reivindicadas como poesia. Em tudo isso, não se pode esquecer a própria herança das vanguardas históricas que levam ao self-staging, ou à prática do "é arte o que eu chamo de arte". Marshall MacLuhan, apropriadamente ele, teria dito: "art is what you can get away with."

Poderíamos pensar aqui em Gregório de Matos (1636 - 1696), incorporando palavras indígenas a sua poética barroca; em Qorpo-Santo (1829 - 1883), que já foi chamado tanto de precursor do surrealismo como do Teatro do Absurdo; ou ainda no Joaquim de Sousândrade (1832 - 1902) do "Inferno de Wall Street". Mas dificilmente poderíamos defendê-los como precursores de uma escrita conceitual. Seguem como grandes mestres nossos de uma escrita experimental, capaz de incorporar todo material linguístico à sua disposição histórica, mas não necessariamente questionando os módulos da literariedade. E é aqui, com um misto de surpresa e prazer, que penso em Machado de Assis (1839 - 1908) como uma primeira referência possível para o debate acerca de uma escrita conceitual no Brasil, referindo-me, é claro, ao famoso capítulo "O velho diálogo de Adão e Eva" no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881).



Tal prática está fincada em uma tradição experimental internacional, e poderíamos pensar aqui na página preta de Laurence Sterne em Tristram Shandy (1759), como já foi apontado tantas vezes. 

Na conversa entre Lichtenstein, Boglione e Victor, o nome de Gertrude Stein é invocado um par de vezes na discussão da importância da prática tanto gráfica, como sonora e performática, da repetição e da permutação. O Movimento Conceitualista ainda está à espera de seu Jerome Rothenberg, que possa buscar na tradição poética mundial e arcaica os possíveis antecedentes da prática contemporânea, salvando-a da típica insularidade norte-americana. No entanto, há que se dizer que a própria curadoria de Vanessa Place para esta discussão já demonstra a abertura do movimento para uma verdadeira noção de comunidade internacional.

Nosso movimento modernista, com seu nacionalismo superficial, não permitiu ou operou uma verdadeira sonda nas jazidas poéticas, por exemplo, dos nossos povos indígenas, nas quais certas práticas rituais poderiam (ainda podem) servir de estímulo a novas experimentações em português, como Divya Victor relata sobre sua apropriação das estruturas sonoras de cantos hindus como o Venkateśasuprabhātam e o Kirtan. Penso aqui, por exemplo, no "Canto da Folha da Árvore" do Povo Maxakali, que acabei de discutir na Modo de Usar & Co., com minha temerária aproximação daquele yãmîy a um poema de e.e. cummings. No entanto, como performance textual e sonora, portanto temporal, este texto poderia permitir uma base cultural própria as possíveis performances textuais conceitualistas em nosso território.

Dentre os nossos modernistas, talvez o único autor que possa servir de referência a este debate acabe sendo, uma vez mais, Oswald de Andrade, com suas apropriações textuais dos textos portugueses de Pero Vaz de Caminha, por exemplo, a que Haroldo de Campos já se referiu como parte do mesmo ethos que levou Duchamp ao ready-made. Poderíamos chamar tais poemas de Oswald, ainda, tanto de percursores do détournement da Internacional Situacionista, como de certas práticas, hoje, do movimento conceitualista.


Oswald de Andrade, apropriando-se:

               A descoberta

              Seguimos nosso caminho por este mar de longo
              Até a oitava da Páscoa
              Topamos aves
              E houvemos vista de terra

               Os selvagens

              Mostraram-lhes uma galinha
              Quase haviam medo dela
              E não queriam por a mão
              E depois a tomaram como espantados

                Primeiro chá

               Depois de dançarem
               Diogo Dias
               Fez o salto real

               As meninas da gare

              Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
              Com cabelos mui pretos pelas espáduas
              E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
              Que de nós as muito bem olharmos
              Não tínhamos nenhuma vergonha.


Com o backlash do Grupo de 45 e o próprio isolamento de Oswald de Andrade dentro o Grupo de 22, tais práticas mantiveram-se isoladas. Com a retomada das estratégias de vanguarda no Pós-Guerra, como já argumentei várias vezes, a experimentação no Brasil seguiu marcada e encasulada na ideologia construtivista da maior parte de seus praticantes (invariavelmente homens, brancos, heterossexuais), ao contrário do que veríamos na França com os Léttristes e a partir da já mencionada Internacional Situacionista, ou, na Áustria, com o Grupo de Viena e poetas independentes como Heimrad Bäcker, que discuti na Modo já em 2008.

Heimrad Bäcker

:

9228 de sedziszow para treblinka

9229 trem vazio

9230 de szydlowiec para treblinka

9231 trem vazio

9232 de szydlowiec para treblinka

9233 trem vazio

9234 de kosienice para treblinka

9235 trem vazio




Entre os grupos brasileiros da década de 50 e 60, uma referência incontornável para esta discussão é o Poema Processo (como na obra importante de Wlademir Dias-Pino) que, no entanto, operou em grande medida através da supressão da textualidade.



Mas, mesmo dentro da ideologia construtivista da Grupo Noigandres, o sempre surpreendente Décio Pignatari deu-nos aquela pequena joia de apropriação e redirecionamento contextual que é "beba coca cola", apresentado abaixo com a composição de Gilberto Mendes.



Até pouco tempo, teríamos que buscar nas artes visuais possíveis referências para uma "textualidade" que chamássemos, aqui e no contexto desta discussão, conceitual. Um exemplo é o trabalho, tão frutífero para poetas, de Arthur Bispo do Rosário (1911 - 1989), em especial seus "Mantos", mas ainda em várias outras peças.


Peças de Arthur Bispo do Rosário





A obra de Bispo do Rosário tem ecoado em peças de Ricardo Aleixo, como seu "Poemanto", buscando aqui sua matriz africana e ritual. Ao mesmo tempo, a diagramação obsessiva de nomes próprios por Bispo do Rosário remete a um texto contemporâneo como "The Lazarus Project: Nine Eleven", de Joey Yearous-Algozin, em que o autor americano lê, em uma performance que assume seu caráter mais pungente em seu aspecto sonoro-temporal, os nomes de todos os mortos no World Trade Center em setembro de 2001. Por sua vez, ambos remetem ao trabalho da espanhola Esther Ferrer sobre um grupo de imigrantes chineses que se asfixiaram em um transporte ilegal coletivo, trabalho que discuti na Modo de Usar & Co.

Aqui começa a se tornar necessário e imperativo, para mim, discutir se o contexto brasileiro pede a necessidade de tal conceitualismo, de forma estrita, já que o trabalho tanto de Bispo do Rosário como de Aleixo apresentam-se como armas justamente contra o logocentrismo que parece cercar certas discussões do movimento. As práticas poéticas mais interessantes no Brasil têm caminhado para certo hibridismo. Mas voltarei a isso adiante.

Outras referências importantes, no campo das artes visuais, seriam as peças textuais/visuais de José Leonilson e as colagens de Jac Leirner a partir de textos de revistas femininas. No campo poético, o trabalho de Philadelpho Menezes pertence certamente a esta discussão.

Na primeira década deste século, quando o movimento tomou força nos Estados Unidos, alguns poetas  no Brasil dirigiam-se para práticas similares. Assim como a Poesia Concreta surge em português e alemão, Angélica Freitas começa sua prática das googlagens num mesmo momento em que a FLARFlist Collective inicia seus trabalhos nos Estados Unidos, sem terem conhecimento um do outro. Sei que os movimentos conceitual e flarfista são distintos, mas a prática da apropriação, repetição e recontextualização surge em ambos.


Love
googlagem de Angélica Freitas

During a drunken argument in Brussels, Verlaine
shot at Rimbaud, hitting him once in the wrist On 10
July 1875, in a drunken quarrel in Brussels,
Verlaine shot Rimbaud in the wrist, and was
imprisoned for two years at Mons. Together again in
Brussels in the summer of that year, Verlaine shot
Rimbaud in the wrist following a drunken argument.
Verlaine, drunk and desolate, shot Rimbaud in the
wrist with a 7mm pistol after a quarrel. At one
point, the tension between them became so great
that Verlaine shot Rimbaud in the wrist. about 2
o'clock, when M. Paul Verlaine, in his mother's
bedroom, fired a shot of revolver. the subject of
various books, films, and curiosities, ended July
12, 1873 when a drunken Verlaine shot at Rimbaud and
injured him in the wrist. Verlaine shot Rimbaud in a
fit of drunken jealousy.



Em um poema como "Teoria dos gêneros", Érica Zíngano parte de procedimentos similares:

teoria dos gêneros
Érica Zíngano

                                     este poema é, e não haveria como não ser, dedicado à minha mãe

Lyrika® é um remédio contra fibromialgia que a minha mãe toma todas as noites (antes de dormir) quando está em período de crise. A fibromialgia é uma espécie de reumatismo – só que dos músculos, tendões e ligamentos – e causa dor, fadiga, indisposição, dentre outros sintomas. Além de tomar o Lyrika® (todas as noites) antes de dormir, a minha mãe faz três sessões de fisioterapia por semana, o que ajuda a diminuir bastante a dor, afirma convicta. O Lyrika® é fabricado pela Pfizer™, indústria farmacêutica responsável por arrematar a maior fatia do mercado de medicamentos para o coração: o Norvasc®, que a minha mãe também toma (todas as noites antes de dormir), é, sem dúvida, o mais vendido para pressão alta. De origem norte-americana, a Pfizer™ tornou-se conhecida em todo o mundo pela fabricação do Viagra® que, por incompatibilidade de gênero, claro, a minha mãe não toma.

(esse poema foi escrito com dados retirados do Google Inc. e a poeta se exime da responsabilidade pela veiculação de quaisquer dessas informações. infelizmente, parece que está fazendo propaganda para a Pfizer™, apesar de parecer, ela garante que a intenção primeira não era a de fazer propaganda, mas a de fazer uma singela homenagem aos hábitos medicamentosos de sua mãe: se falhou em tal empreitada, pede desculpas e avisa que continuará tentando)


Um exemplo importante no campo de uma poética conceitual, mesmo que embaralhe (e talvez por isso mesmo) a questão de supressão da voz autoral proposta pelos norte-americanos, é o livro Tudo o que escrevi durante um mês (2010), de Fabiana Faleiros.

Outros exemplos são os poemas de Veronica Stigger ////  "(Flávio de Carvalho)" //  New Kolor / (Utilicity 13,90) / Lâmina de aço inox / Cabos de polipropileno / Resistentes à máquina de lavar" //// e outro trabalho recente que pode ser pensado neste contexto é "totem", de André Vallias.





Dentre os autores da mais nova geração, tenho acompanhado com muito interesse o desenvolvimento do trabalho de Luca Argel, como em sua série "desinvenção".

É importante notar que tais trabalhos, no Brasil, têm-se subscrevido ao minimalismo que encontramos tanto em Oswald de Andrade como nos trabalhos do Grupo Noigandres, e estão muito longe da prática caudalosamente épica de apropriação de material linguístico de obras como Day (2003) e The Weather (2005), de Kenneth Goldsmith; ou da trilogia Tragodía, de Vanessa Place.

Minha aproximação destes trabalhos brasileiros a um debate sobre uma poética conceitual é, portanto, questionável.

§

Pois muitos destes trabalhos estão fincados na tradição satírica brasileira (satírico compreendido aqui como intervenção poético-política), e não precisam ser vinculados a um movimento conceitualista, especiamente não de forma programática. Neste aspecto, a maior parte destes trabalhos experimentais brasileiros talvez se vinculem de forma mais clara ao que nos Estados Unidos tem sido chamado de hibridismo, como na antologia American Hybrid: A Norton Anthology of New Poetry, editada por David St. John e Cole Swensen.

Creio que uma desconfiança tipicamente brasileira na discussão adviria de nossa filiação ao paideuma do Grupo Noigandres, a quem eu imagino que tais práticas textuais pareceriam demasiadamente oblíquas, não concretas. Tenho defendido, dentro desta discussão de uma "textualidade", a noção do poético funcionando entre a transparência e não-transparência do signo, e, portanto, em sua obliquidade.

Para mim, um desafio pessoal nesta discussão tem sido pensar nesta possibilidade de uma textualidade conceitual, aplicada em meio a minha tentativa de questionamento do logocentrismo de certa poesia brasileira de matriz construtivista. Aqui, voltamos à questão surgida em meio à discussão do trabalho de Arthur Bispo do Rosário e Ricardo Aleixo, como exemplos claros. Em seu debate com Lichtenstein e Boglione, a poeta Divya Victor toca neste problema: o de um centramento crítico e de "paternidade" na poética ocidental, de matriz branca e, muitas vezes, masculina, em especial a partir da Conceptual Art dos anos 60. Em seu segundo texto, Riccardo Boglione furta-se à questão de gender na discussão pela insistência dos autores do movimento na "supressão da figura autoral". Ainda está por se discutir a fundo o quanto há de wishful thinking nesta proposição. Outra tentativa de fuga do contexto está na insistência de uma ideia de "trans-nacionalidade" em oposição a uma internacionalidade. Em minha opinião, também aqui aplica-se a possibilidade de um debate sobre a possível "wishfulthinkingness" desta crença. Uma proposta interessante é o questionamento feito por eles de por que motivo tal reapropriação de linguagem passa necessariamente pelos refugos linguísticos da Rede, como se tem visto primordialmente nos Estados Unidos. Na conversa, eles subscrevem isso a uma lealdade à estética pós-punk. Um exemplo contrário na América Latina tem sido o trabalho do argentino Pablo Katchadjian.

No meu trabalho específico, recorri a práticas de apropriação que em poucos casos poderiam ser vinculadas a uma poética conceitual. Na série "Bruit pur pour les brutes", talvez possa mencionar o único caso em que esta prática se conceitualize, ao usar o poema fonético "Karawane", de Hugo Ball, como forma fixa, usando então palavras foneticamente similares, mas de línguas que desconheço e não domino, unidos a textos de poetas como Carlos Drummond de Andrade ("Áporo") e Wallace Stevens, mas invertendo os textos foneticamente, ao simplesmente inverter seus grafemas (já que nossas línguas ocidentais são grafias para o fônico). A prática foi "erroneamente" ligada por Marcelo Flores ao zaoum de Khlebnikov, em sua resenha de meu livro.

Bruit Pur Pour Les Brutes 

§ dos sons do sentido

Bepaalde

inderdaad voelen  u  onder voelen
stoelen soa’s nooit niets
moest draaide
toch  waarin zwaaien  maar
vrouwen  voorbij
stadse weet
trouw   weet   trouw   weet
raken elkaar
€   € €   €
bestaan enige  eruit  terug
ook  lebei  zoals
beneden  gewoond
nieuwe  jijzelf  denken  jijzelf
beide  ik-een
alle  halen
ik - een

§ dos sentidos do som

esamrof aedíuqro amu
anaidilcueitna
ahnizos edrev me

atased es otserp
oirétsim oazar ho
otniribal o euq sie

oirénim e ziar
etion ed ecalne
odaeuqolb síap me
otsuaxe rezaf euq

epacse rahca mes
arret a odnarufrep
emrala mes avac
avac otesni mu


Aqui, como na textualidade conceitual de alguns norte-americanos, poderíamos apenas falar de uma "poética de implicações", e tentei neste texto chegar a um extremo disso. O texto está em meu livro Sons: Arranjo: Garganta (Cosac Naify, 2009), cuja epígrafe é de Gertrude Stein: "Sound sight and sense around sound by sight with sense around by with sound sight and sense will they apologise truthfully". Em trabalhos como meus textos permutacionais das "Six songs of causality" ou o texto-colagem "Entrañas de las soledades", a partir das "Soledades" de Góngora, se há uma complicação da noção de voz autoral, mesmo assim permanece o autor-organizador. Esta crença na supressão da figura do autor parece seguir sendo uma das questões mais problemáticas do Movimento Conceitualista. Em um texto recente, em polêmica com Marjorie Perloff, o poeta Matvei Yankelevich referiu-se à maneira como os poetas do movimento conceitualista, apesar de declararem a supressão do autor-divindade, assumem personas públicas altamente visíveis e "performáticas", como é o caso de Kenneth Goldsmith. Em meio a esta busca pela supressão da figura do autor, talvez vejamos ainda os relances da personalidade do chamado "autor-gênio" ou ainda do que se poderia acusar como um "culto à personalidade", que cerca sempre, de certa forma, o trabalho experimental.

E, sobre toda essa discussão paira o perigo (ou proposta?) da afirmação de Joshua Clover, citada por Divya Victor: “the shattering of representation happens twice: the first time as revolution, the second time as fashion.”

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sábado, 20 de abril de 2013

"Lembrete" (para mim mesmo, com novas inclusões)


O poema abaixo encerra meu primeiro livro, Carta aos anfíbios (2005) - que pode, aliás, ser baixado gratuitamente aqui. Creio já ter falado dele e o transcrito nesse espaço. Perdoem-me se me repito. Mas estou com ele na cabeça, hoje. Por algum tempo pensei em repeti-lo como poema de encerramento em todos os meus livros. Talvez devesse tê-lo feito. Segue de novo, com algumas inclusões. Pensei nisso ao rever hoje a entrevista de Clarice Lispector para Junio Lerner em 1977, pouco antes de morrer. Em itálico, as inclusões.

Lembrete 

Cruz e Sousa
em vagões de
transporte
de gado.

Pedro Nava
numa calçada
na Glória.

Paul Celan
nas águas
do Sena.

Miklós Radnóti
com os micróbios 
e os últimos poemas 
exumáveis no paletó.


Frank O’Hara
estirado n’areia.

Christine Lavant
crivada de camas
e escamas.

Virginia Woolf
com pedras
no bolso.

Alejandra Pizarnik,
intolerância
a secobarbital.

Clarice Lispector
carregando um câncer
no ovário, inoperável.

Carlos Drummond de Andrade
doze dias após a filha.

Pier Paolo
a pau e pedra.

João Cabral de Melo Neto
                              cego.

Orides Fontela
à beira da indigência.

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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Black Cracker & Grand Pianoramax - "Till There´s Nothing Left" - Lançamento Hoje

Black Cracker lança hoje, com seu projeto Grand Pianoramax, o álbum Till There's Nothing Left.





quarta-feira, 17 de abril de 2013

Dois poemas de Marília Garcia (em vídeo)

 

Marília Garcia vocaliza seu texto "é uma lovestory e é sobre um acidente", 
em Berlim, Alemanha, a 6 de dezembro de 2011. 

 § 

   

Marília Garcia - "Aquário" - colaboração com Rodolfo Caesar - 
Performance no MAM-Rio a 26 de janeiro de 2012.

§


Marília Garcia, minha companheira,
e eu - na Bélgica, em 2011.

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terça-feira, 16 de abril de 2013

Um poema de Aleksandr Púshkin (1799 - 1837).



Aleksandr Púshkin

"Imitação ao árabe"

Meu carinhoso e meigo rapaz,
Não cores, que meu és para sempre!
Eis que desnuda o fogo em nós
Esta vida única existente.

Não temas outros de riso atroz,
Pois em nós mesmos nos desdobramos:
Tal qual duas partes de uma noz,
Sob a mesma casca nos achamos.

:

"Podrajánie arábskomu"

Ótroc míli, ótroc niéjni,
Nié stidís, naviéc ti mói;
Tot je v nas ogón miatiéjni,
Jízniu mi jiviom odnói.

Nié boiússa iá nasmiéchec:
Mi sdvóilis miéj sobói,
Mi totch-v-totch dvóinoi oriéchec
Pod edínoi scorlupói.



segunda-feira, 15 de abril de 2013

Um poema de Érico Nogueira




Com pernas bambas, tripas formigando
e pele purulenta fica sempre
quem ante a nádega, ou o flanco,
ao tronco só consente
que chegue ao lado, perto, quase, rente.

A mão que fica à-toa, sem saber
o grau das curvaturas que pressente;
a língua tão sobressalente
falando sem lamber;
e o olho cego, que só sabe ler:

que uso podem ter naquele jogo
que é mais preciso quanto mais é tosco?
Então educa a tua mente
para aprender do corpo
o quanto é seu o mundo à sua frente.


Érico Nogueira (Bragança Paulista, 1979), no livro Dois (São Paulo: É, 2010).




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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Entrevista em vídeo para a Deutsche Welle Brasil (Youtube)

Entrevista em vídeo para a Deustche Welle Brasil, conduzida por Ivi Roberg, por ocasião do lançamento do meu livro aqui na Alemanha.

 

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segunda-feira, 1 de abril de 2013

No dia das verdades inventadas



No dia das verdades inventadas


Você diz ter ciúmes do meu poema
sobre um menino na corda-bamba
num parque de Berlim, quando
aborrecer-se com a suposta
sinceridade de um poeta
é a mais boba das paranoias
em um amante, se as suas provisões
de ocasião a eflúvios mais sinceros
são tão maiores numa simples
cama de solteiro. Fingi por acaso
alguma de minhas ereções? Abra
a boca e detenha
esse meu fluxo de palavras.


1° de abril de 2013.

§


Boy walking a tight-rope
stretched between two Berliner trees,
I am as taut and skinny,
walk on me, for between the furthest
septentrional breadth
of hair and the southern tips of my toe
nails, I am certain I´d
not give and yet, do nothing but give.

Am Falkplatz, Berlin, March 4th, 2013.

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sábado, 30 de março de 2013

Eu estou apaixonado e Marco Feliciano não me representa


Eu estou apaixonado 
e Marco Feliciano não 
me representa

Poetas que gente como Marco Feliciano censuraria:

Eros
fragmento de Safo de Lesbos

[queima-nos]


§

Poema 99
Caio Valério Catulo

Um selinho mais doce que doce ambrosia,
Juvêncio, te roubei quando brincavas.
Mas não impunemente: pois da cruz mais alta
me vejo, há uma hora ou mais, pendido
pedindo-te perdão, e sem que minhas lágrimas
consigam aplacar a tua ira.
Assim que te beijei, teus dedos delicados
te lavaram o lábio com gotículas,
de modo que do meu no teu não resta nada,
pois julgaste ser mijo, não saliva.
Desde então me castigas com um amor negado,
e de tantas maneiras me excrucias,
que vejo, então, mudado o beijo de ambrosia
em amargor pior que o mesmo amargo;
por um selinho amor assim me castigou:
o que faria, ai, ai, se fossem dois?

(tradução de Érico Nogueira)



§

A origem
Konstantínos Kaváfis

Consumara-se o prazer ilícito.
Ergueram-se ambos do catre humilde.
À pressa se vestiram, sem falar.
Saíram separados, furtivamente;
e, ao caminhar inquietos pela rua,
como que receavam que algo neles traísse
em que espécie de amor há pouco se deitavam.

Mas quanto assim ganhou a vida do poeta!
Amanhã, depois, anos depois, serão
escritos os versos de que é esta a origem.

(tradução de Jorge de Sena).



§

Excerpt from Lifting belly
Gertrude Stein

Kiss my lips. She did.
Kiss my lips again she did.
Kiss my lips over and over and over again she did.
I have feathers.
Gentle fishes.
Do you think about apricots. We find them very beautiful. It is not alone their color it is their seeds that charm us. We find it a change.
Lifting belly is so strange.
I came to speak about it.
Selected raisins well their grapes grapes are good.
Change your name.
Question and garden.
It's raining. Don't speak about it.
My baby is a dumpling. I want to tell her something. Wax candles. We have bought a great many wax candles. Some are decorated. They have not been lighted.
I do not mention roses.
Exactly.
Actually.
Question and butter.
I find the butter very good.
Lifting belly is so kind.
Lifting belly fattily.
Doesn't that astonish you.
You did want me.
Say it again.
Strawberry.
Lifting beside belly.
Lifting lindly belly.
Sing to me I say.
Some are wives not heroes.
Lifting belly merely.
Sing to me I say.
Lifting belly. A reflection.
Lifting belly adjoins more prizes.
Fit to be.
I have fit on a hat.
Have you.
What did you say to excuse me. Difficult paper and scattered.
Lifting belly is so kind.



§

A um papa
Pier Paolo Pasolini

Poucos dias antes de morreres, a morte
pousou os olhos em alguém da tua idade:
aos vinte anos, tu estudavas, ele era pedreiro,
tu, nobre, rico, ele, um rapazote plebeu:
mas os mesmos dias douraram sobre vós
a velha Roma, voltando a dar-lhe a sua juventude.
Vi os seus despojos, pobre Zucchetto.
Andava de noite, bêbado, à volta dos Mercados,
e um eléctrico que vinha de San Paolo atropelou-o
e arrastou-o por uns metros de carris no meio dos plátanos:
durante umas horas ficou ali, sob o rodado:
poucas pessoas se juntaram em redor, olhando-o,
em silêncio: já era tarde, havia pouca gente.
Um dos homens que existem para que tu existas,
um velho polícia, desbocado como todos os patifes,
gritava aos que se aproximavam mais: «Larguem-lhe os colhões!»
Depois veio uma ambulância buscá-lo:
as pessoas desapareceram, só ficaram uns grupos aqui e acolá,
e, mais à frente, a dona de um cabaré,
que o conhecia, disse a um recém-chegado
que Zucchetto tinha ficado debaixo de um eléctrico, que estava morto.
Poucos dias depois, morrias tu: Zucchetto era um
dos do teu grande rebanho romano e humano,
um pobre bêbado, sem família nem leito,
que andava de noite, vivendo ao deus-dará.
Tu ignoravas: como ignoravas
outros milhares e milhares de cristos como ele.
Talvez seja cruel ao perguntar por que razão
a gente como Zucchetto é indigna do teu amor.
Há lugares infames, onde mães e filhos
vivem na poeira antiga, na lama de outras eras.
Não muito longe de onde tu viveste,
à vista da bela cúpula de San Pietro,
fica um desses lugares, o Gelsomino...
Um monte cortado ao meio por uma pedreira, e no sopé,
entre um charco e uma fieira de prédios novos,
um montão de tugúrios miseráveis, não casas mas pocilgas.
Bastava um gesto teu, uma palavra,
para esses teus filhos terem uma casa:
nunca fizeste um gesto, nunca disseste uma palavra.
Ninguém te pedia que perdoasses Marx! Uma vaga
imensa que irrompe sobre milénios de vida
te separava dele, da sua religião:
mas não se fala, na tua religião, de piedade?
Milhares de homens sob o teu pontificado,
diante dos teus olhos, viveram em estábulos e pocilgas.
Tu sabias que pecar não é fazer o mal:
não fazer o bem, isso sim, é que é pecar.
Quanto bem podias tu ter feito! E não fizeste:
não houve quem mais pecasse do que tu.

(Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo)




§

A piedade
Roberto Piva

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
dos meus sonhos



§

Poema
Frank O´Hara

Há dias em que sinto exalar uma fina poeira
como aquela atribuída a Pilades na famosa
Chronica nera areopagitica ao ser descoberta

e é porque um arqueólogo
adentrou a câmara secreta do meu peito
e chacoalhou o papel que carrega seu nome

Não gosto deste estranho espirrando sobre nosso amor.

(tradução de Ricardo Domeneck)





§

Poema
Juan Carlos Bautista

Puto decía en las frentes,
puto en las paredes pompeyanas del inodoro,
puto en las manos cebosas
y en los muros ignorados, escrito con odio:
pe de puto en los ojos cuando hacían esas hipérboles,
esas elipsis.
cuando se iban al techo, a la nuca,
la niña desmayada entre secreciones y ronca risa:
puto en esas visiones repentinas,
en esos gestos movedizos,
en la cadera, su abrupta estatua,
sus lentas, desaforadas descripciones:
puto en la locura doliente desde los ojos
como pájaros escapándose
a un cielo que respira su trágico y su cómico,
y se deja caer por el lujo de contemplarse en esa prisa:
y el dedo que rayaba las sábanas,
tan triste y tan digno,
                                luego removiéndose entre risas,
detenido en el aire, diciéndolo:

"pues sí,
              morena (y puto) soy porque el sol me quemó,
¡oh, hijas de israel¡



§

Uma Arte
Elizabeth Bishop

A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.

(tradução de Paulo Henriques Britto)

:

One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.



§


De profundis amamus
Mario Cesariny

Ontem às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
é há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso



§


1955
Salvador Novo

Al poema confío la pena de perderte.
He de lavar mis ojos de los azules tuyos,
faros que prolongaron mi naufragio.
He de coger mi vida desecha entre tus manos,
leve jirón de niebla
que el viento entre sus alas efímeras dispersa.
Vuelva la noche a mí, muda y eterna,
del diálogo privada de soñarte,
indiferente a un día
que ha de hallarnos ajenos y distantes.



§


Uma litania para a sobrevivência
Audre Lorde

Para aqueles entre nós que vivem no litoral
em pé frente às arestas constantes da decisão
cruciais e sós
para aqueles entre nós que não podem dar-se ao luxo
dos sonhos passageiros da decisão
que amam de passagem por soleiras
nas horas entre auroras
olhando para dentro e para fora
no instante antes e depois
buscando um agora que possa gerar
futuros
como pão na boca de nossos filhos
para que seus sonhos não reflitam
a nossa morte:

Para aqueles entre nós
que foram impressos com o medo
como uma linha tênue no centro de nossas testas
aprendendo a temer com o leite de nossas mães
pois por esta arma
esta ilusão de alguma segurança a ser achada
os de passos pesados esperavam silenciar-nos
Para todos nós
esse instante e esse triunfo
Nunca fomos destinados a sobreviver.

E quando o sol se ergue temos medo
que talvez não permaneça
quando o sol se põe temos medo
que talvez não se erga de manhã
quando nossos estômagos estão cheios temos medo
da indigestão
quando nossos estômagos estão vazios temos medo
que talvez nunca mais comamos
quando nós amamos temos medo
que o amor desaparecerá
quando estamos sós temos medo
que o amor jamais voltará
e quando falamos temos medo
que nossas palavras não sejam ouvidas
nem benvindas
mas quando estamos em silêncio
ainda assim temos medo

Então é melhor falar
lembrando-nos
de que nunca fomos destinados a sobreviver

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

A litany for survival
Audre Lorde

For those of us who live at the shoreline
standing upon the constant edges of decision
crucial and alone
for those of us who cannot indulge
the passing dreams of choice
who love in doorways coming and going
in the hours between dawns
looking inward and outward
at once before and after
seeking a now that can breed
futures
like bread in our children's mouths
so their dreams will not reflect
the death of ours:

For those of us
who were imprinted with fear
like a faint line in the center of our foreheads
learning to be afraid with our mother's milk
for by this weapon
this illusion of some safety to be found
the heavy-footed hoped to silence us
For all of us
this instant and this triumph
We were never meant to survive.

And when the sun rises we are afraid
it might not remain
when the sun sets we are afraid
it might not rise in the morning
when our stomachs are full we are afraid
of indigestion
when our stomachs are empty we are afraid
we may never eat again
when we are loved we are afraid
love will vanish
when we are alone we are afraid
love will never return
and when we speak we are afraid
our words will not be heard
nor welcomed
but when we are silent
we are still afraid

So it is better to speak
remembering
we were never meant to survive



§


Por qué seremos tan hermosas
Néstor Perlongher

Por qué seremos tan perversas, tan mezquinas
(tan derramadas, tan abiertas)
y abriremos la puerta de calle
al monstruo que mora en las esquina,
o sea el cielo como una explosión de vaselina
como un chisporroteo,
como un tiro clavado en la nalguicie.

Por qué seremos tan sentadoras, tan bonitas
los llamaremos por sus nombres
cuando todos nos sienten
(o sea, cuando nadie nos escucha)
Por qué seremos tan pizpiretas, charlatanas
tan solteronas, tan dementes

Por qué estaremos en esa densa fronda
agitando la intimidad de las malezas
como una blandura escandalosa cuyos vellos
se agitan muellemente
al ritmo de una música tropical, brasilera.

Por qué seremos tan disparatadas y brillantes
abordaremos con tocado de plumas el latrocinio
desparramando gráciles sentencias
que no retrasarán la salva, no
pero que al menos permitirán guiñarle el ojo al fusilero

Por qué seremos tan despatarradas, tan obesas
sorbiendo en lentas aspiraciones
el zumo de las noches peligrosas
tan entregadas, tan masoquistas,
tan hedonísticamente hablando

Por qué seremos tan gozosas, tan gustosas
que no nos bastará el gesto airado del muchacho,
su curvada muñeca:
pretenderemos desollar su cuerpo
y extraer las secretas esponjas de la axila
tan denostadas, tan groseras

Por qué creeremos en la inmediatez,
en la proximidad de los milagros
circuidas de coros de vírgenes bebidas y asesinos dichosos
tan arriesgadas, tan audaces
pringando de dulces cremas los tocadores
cachando, curioseando.

Por qué seremos tan superficiales, tan ligeras
encantadas de ahogarnos en las pieles
que nos recuerdan animales pavorosos y extintos,
fogosos, gigantescos.

Por qué seremos tan sirenas, tan reinas
abroqueladas por los infinitos marasmos del romanticismo
tan lánguidas, tan magras

Por qué tan quebradizas las ojeras, tan pajiza la ojeada
tan de reaparecer en los estanques donde hubimos de hundirnos
salpicando, chorreando la felonía de la vida
tan nauseabunda, tan errática.



§


Diving into the Wreck
Adrienne Rich

First having read the book of myths,
and loaded the camera,
and checked the edge of the knife-blade,
I put on
the body-armor of black rubber
the absurd flippers
the grave and awkward mask.
I am having to do this
not like Cousteau with his
assiduous team
aboard the sun-flooded schooner
but here alone.

There is a ladder.
The ladder is always there
hanging innocently
close to the side of the schooner.
We know what it is for,
we who have used it.
Otherwise
it is a piece of maritime floss
some sundry equipment.

I go down.
Rung after rung and still
the oxygen immerses me
the blue light
the clear atoms
of our human air.
I go down.
My flippers cripple me,
I crawl like an insect down the ladder
and there is no one
to tell me when the ocean
will begin.

First the air is blue and then
it is bluer and then green and then
black I am blacking out and yet
my mask is powerful
it pumps my blood with power
the sea is another story
the sea is not a question of power
I have to learn alone
to turn my body without force
in the deep element.

And now: it is easy to forget
what I came for
among so many who have always
lived here
swaying their crenellated fans
between the reefs
and besides
you breathe differently down here.

I came to explore the wreck.
The words are purposes.
The words are maps.
I came to see the damage that was done
and the treasures that prevail.
I stroke the beam of my lamp
slowly along the flank
of something more permanent
than fish or weed

the thing I came for:
the wreck and not the story of the wreck
the thing itself and not the myth
the drowned face always staring
toward the sun
the evidence of damage
worn by salt and away into this threadbare beauty
the ribs of the disaster
curving their assertion
among the tentative haunters.

This is the place.
And I am here, the mermaid whose dark hair
streams black, the merman in his armored body.
We circle silently
about the wreck
we dive into the hold.
I am she: I am he

whose drowned face sleeps with open eyes
whose breasts still bear the stress
whose silver, copper, vermeil cargo lies
obscurely inside barrels
half-wedged and left to rot
we are the half-destroyed instruments
that once held to a course
the water-eaten log
the fouled compass

We are, I am, you are
by cowardice or courage
the one who find our way
back to this scene
carrying a knife, a camera
a book of myths
in which
our names do not appear.



§

Viðrar vel til loftárása (Clima bom para um bombardeio)
Jón Þór Birgisson (Sigur Rós)

 

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