sexta-feira, 31 de maio de 2013

"Canto da castanheira em ou sem flor"

As castanheiras em flor na Kastanienallee (Aleia das Castanhas), em Berlim.


Canto da castanheira em ou sem flor

Safo
Diz-me por que me deixou o que outrora fora só meu O Moço.
Safo Safo
Diz-me por que ora a outro dispensa os seus beijos meu Moço.

Não me importam na aleia as castanhas em flor sem sua pança.
Sem o menos casto dos moços é tão-só casmurra essa andança.
Agora se me assemelham simples castigo na aleia as castanhas.
Kastanienallee Kastanienallee sem seu tórax é carga tamanha.

Catulo
Por que me encasulo entre as castanheiras em flor sem O Moço?
Catulo Catulo
Com outro se encastela o que antes à flor de minha pele castanha.

A meus pés às castanhas sem O Moço na aleia é sempre outono.
É sem tom a Kastanienalle e o clima ensimesma sem O Moço.
Que diferença há nessa febre se inverno ou verão sem doutor.
Dão nojo sem castanhas a neve e o sol por entre galhos em flor.

Ovídio
Nenhuma Metamorfose há-de tornar-me o suor suábio d´O Moço.
Ovídio Ovídio
De Amores não há o que outrora fora O Moço e eu eu e O Moço.

Topônimos são todos anônimos se não servem a cantar dele o couro.
As metáforas já não ligam fonemas na Comunhão dos Jovens Touros.
Pai mãe poetas irmãs dai-me no mundo sem fundos o glabro senhor:
Eu sou Ricardo Domeneck o desMoçado entre as castanheiras em flor.

Arnaut
Sem O Moço sou eu para os judeus o zen e o cristão entre os mouros.
Arnaut Arnaut
Que cessem Cruzadas se não cruzo na aleia com o Todo-Glamuroso.

Meus pais Cida e João que me adiantou jogar-me no Mundo pré-Moço.
João e Cida meus pais antes o Nada que esse nadar em oceano desMoço.
Irmãs Elisângela Elaine não se irmana a meu corpo o glabro d´O Moço.
Elaine Elisângela quede o sangue que me aqueça na gleba pós-Moço.

Cavafy
Sem O Moço é além o lá e ali o aí e nenhures de nunca o agora o aqui.
Cavafy Cavafy
DesMoço estraga-me o tomate bigata-me a goiaba azeda-me o caqui.

Doravante
E para sempre
O´Hara Codax
Brecht Dufrêne

E assim
Por diante
Pasolini Hilst
Eliot Lavant

Pelos séculos
Dos séculos
Amém
Que amem

Mas não há pajé
Ou xamã
Que desapodreça
A maçã

Desse almoço
Sem O Moço.


§

31 de maio de 2013. Ricardo Domeneck, Berlimbo de primavera chuvosa, pensando no "Canto da Castanheira" do poeta-pajé Kãñïpaye-ro Araweté, lido na tradução de Eduardo Viveiros de Castro, e retrabalhada e comentada por Antônio Risério.

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sábado, 25 de maio de 2013

"Meu campo de trabalho", poema inédito.


Meu campo de trabalho

Há dez anos
nem morto
eu teria
sido pego
dizendo isso
mas agora
como seria
acordar cedo
e se eu
quiser comer
em uma semana
ter que plantar
hoje o almoço
e a janta
que hão de vir
e se eu quiser
comer hoje
ter que colher
agora o que
cresce já
há um mês
e então cozer
o que só eu
hei de engolir
e ter a coser
o que eu só
hei de vestir
e ter a terra
que adubei
nos dedos
dos pés
nos dedos
das mãos
e para lavá-la
ir a lago ou rio
então sentar
-me à sombra
de uma árvore
da qual sei
o nome científico
e popular
ouvir o pássaro
do qual localizo
o canto o ninho
e então escrever
um poema cheio
de topônimos


- Ricardo Domeneck. Berlimbo, maio de 2013.

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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Suplemento Literário de Minas Gerais - 54 poetas comentam poemas dos últimos 20 anos




Já se pode baixar o arquivo com a edição especial do Suplemento Literário de Minas Gerais, dedicado à poesia dos últimos 20 anos. Mais de 50 poetas foram convidados a selecionar e comentar 1 poema, publicado a partir de 1990. Sugeri e comentei "O cutelo", do livro Icterofagia (São Paulo: Hedra, 20120), de Dirceu Villa. Leia este e os demais poemas baixando o arquivo em PDF, disponível no link abaixo.



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domingo, 19 de maio de 2013

"A poesia talvez

seja a última das artes funcionando no sistema econômico do potlatch."

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quinta-feira, 16 de maio de 2013

Recomendação: a antologia "Poesia (Im)Popular Brasileira". E dois poemas de Stela do Patrocínio.



"Poesia (Im)PopularBrasileira é uma antologia que reúne poemas de alguns importantes poetas brasileiros menos conhecidos do público, ou que, por maior ou menor tempo, ficaram ou estão deslocados em relação aos cânones vigentes, mas que, ao mesmo tempo, foram ou são influenciados por elementos da cultura e da fala populares. São eles: Aldo Fortes, Edgard Braga, Gregório de Matos, Joaquim Cardozo, Max Martins, Omar Khouri, Pagu, Qorpo-Santo, Sapateiro Silva, Sebastião Nunes, Sebastião Uchoa Leite, Sousândrade, Stela do Patrocínio e Torquato Neto. O livro está organizado da seguinte forma: cada um dos poetas é apresentado por um autor convidado, o qual também selecionou uma pequena antologia de seus poemas."

Discuti alguns dos autores incluídos na antologia na Modo de Usar & Co.:


Patrícia Galvão
Joaquim Cardozo
Max Martins
o enormíssimo Sapateiro Silva
Sebastião Nunes
Torquato Neto

Trata-se de uma iniciativa excepcional. É um início e dos bons. Os esforços poderiam continuar, pensando aqui em outros autores, como Luiz Gama, Pedro Kilkerry, Hilda Machado, Orlando Parolini, Maria Ângela Alvim, Raul Fiker, Henriqueta Lisboa – essa representante maior de uma verdadeira poésie pure brasileira que ainda espera o respeito de grande modernista que foi –, ou ainda Francisca Júlia, Marcelo Gama, Isabel Câmara, Edimilson de Almeida Pereira e outros.

Omar Khouri está entre os poetas convidados pela curadoria da Modo de Usar & Co. para o Festival Internacional de Artes de Tiradentes este ano, e terá poemas inéditos no quarto número impresso da revista, a ser lançado durante o festival, entre 12 e 22 de setembro, em Tiradentes, Minas Gerais.

Mas esta antologia me parece a maior contribuição antológica neste ano de tantas antologias, justamente por seu caráter de intervenção no cânone, quesito em que algumas outras antologias têm falhado justamente por sua ânsia canônica. Voltarei a esta questão em breve.

A inclusão de Stela do Patrocínio é uma contribuição excelente, por exemplo, para chacoalhar e embaralhar nosso cânone engessado.




Stela do Patrocínio nasceu em 1941, e viveu, desde 1962, internada na Colônia Juliano Moreira, assim como Arthur Bispo do Rosário (1911 - 1989). Sua fala poética chegou a nós transcrita de fitas cassetes por Viviane Mosé, que organizou essa textualidade no volume Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (Rio de Janeiro: Azougue, 2002).



O trabalho de Stela do Patrocínio, em sua fala poética, chamou a atenção de vários artistas, como Georgette Fadel, Juliana Amaral e Lincoln Antonio, que encenaram com seus textos o espetáculo "Entrevista com Stela do Patrocínio" (São Paulo, 2005), e o documentarista Márcio de Andrade, que preparou o documentário Stela do Patrocínio - A mulher que falava coisas. Num país como o Brasil, machista e racista, não é de admirar que a poesia de uma mulher negra e tida como louca não tenha tido mais atenção, com sua textualiade que por vezes nos leva a uma forma de logopeia pelo viés da loucura.

Não sou eu que gosto de nascer
Eles é que me botam para nascer todo dia
E sempre que eu morro me ressuscitam
Me encarnam me desencarnam me reencarnam
Me formam em menos de um segundo
Se eu sumir desaparecer eles me procuram onde eu estiver
Pra estar olhando pro gás pras paredes pro teto
Ou pra cabeça deles e pro corpo deles

(Stela do Patrocínio, em diagramação de sua fala por Viviane Mosé)

Suas enumerações e anáforas por vezes nos remetem à poesia urgente de Patrícia Galvão. Nos Estados Unidos, soube-se valorizar a contribuição de uma poeta como Hannah Weiner (1928 - 1997), que fez de sua condição psíquica a forma do seu pensar. No segundo número impresso da Modo de Usar & Co., incluímos uma tradução para poema da norte-americana.


Texto de Hannah Weiner (1928 - 1997)


Lembro-me aqui da asserção de Sérgio Buarque de Holanda sobre a poesia de Dante Milano, ao dizer que "seu pensamento é de fato sua forma". No caso de poetas como Stela do Patrocínio ou Hannah Weiner, seu pensamento é toda a sua forma.

Imagino que Viviane Mosé tenha se guiado pela marcação oral dos sintagmas que se escandiam da boca da poeta Stela do Patrocínio para marcar suas quebras-de-linha, o que em certos textos nos remete à poética de Murilo Mendes.



É dito: pelo chão você não pode ficar
Porque lugar da cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
Pelas paredes você também não pode
Pelas camas também você não vai poder ficar
Pelo espaço vazio você também não vai poder ficar
Porque lugar da cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo

(Stela do Patrocínio, em diagramação de sua fala por Viviane Mosé)


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quarta-feira, 15 de maio de 2013

"Eros: página policial seguida de coluna social" (poema amaro-satírico inédito)



Eros: página policial seguida de coluna social

O Plantão do Jornal Heródoto
                          informa:
  Eros
          foi sequestrado ontem
                              pelo Fantasma
dos Natais Passados,
                            mas após nanoeras
de negociações, acionou-se o Batalhão
           Sagrado de Tebas,
                                        e,
com o auxílio técnico
                 da delegada de polícia
                                     Psylocke,
determinou-se a localização
do cativeiro – na Favela do Xeol.

  Invadiu-se o local
em operação de resgate secreta
denominada “Parúsia de paiol”
         e considerada de extremo
sucesso,
             ainda que o abducente
tenha uma vez mais evadido-se,
                 ao elidir os esforços
de captura pelo Ibama
do famoso amo dos ânus,
esse Inimigo Número 1
dos crânios e dos planos.
(aqui o relato
tornou-se confuso,
se o corregedor
referia-se ao sequestrado
ou ao sequestrador).
       
                           Mas após check-up
na Clínica Particular do Dr. Obaluaiê,
                               Eros de Orleans
e Bragança retornou à Casa Grande
                                em Alphaville.

Segundo a colunista social Cassandra
de Tróia,    papparazzi      flagraram
                                    Eros porém
partindo em seu eromóvel na manhã
de oitava-feira,
                         sem malas ou cuias.

Fontes do jornal
afirmam que se trata de escape de férias
com os amigos Santa Claus von Noel
                        e Leporídeo de Pessach
no Spa Quinto Império,
                                                 onde hoje,
segundo a Agência Meteorológica São Pedro,
o clima amanheceu ameno, ainda que alarmes
impeçam o banho de mar pelas possibilidades
de um eventual ataque de Godzilla às paragens,

mas, no local, reina a total e completa confiança
no serviço de segurança     
                                  prestado por Superman.

(2013, ano dos alarmes falsos)

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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Pequena participação minha em vídeo do romancista holandês Philip Huff sobre Berlim

Hanne Lippard e eu conversamos com o romancista holandês Philip Huff sobre ser escritores em Berlim e tal. Ainda com Thomas Geiger (Literarische Colloquium Berlin), o também romancista holandês Tomas Lieske, e Martin Scharfe (volkslesung).


 

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domingo, 21 de abril de 2013

Conversa sobre uma possível poética conceitual no contexto brasileiro

Em primeiro lugar, uma recomendação de leitura, a mesma que me levou a compor este texto. Com curadoria da poeta norte-americana Vanessa Place, que organizou com Robert Fitterman a importante antologia Notes on Conceptualism, cartografando o movimento em língua inglesa, trata-se de uma conversa na revista Jacket2 sobre o conceptualism (que passarei a chamar adiante de conceitualismo) em termos internacionais, que traz minha companheira de editora aqui na Alemanha, Swantje Lichtenstein, e ainda os poetas Divya Victor e Riccardo Boglione.


Tal discussão, no contexto brasileiro, ainda está por começar, se é que nosso contexto o exige. Como o mais recente auto-declarado movimento de vanguarda em língua inglesa, pelo menos, e convivendo com a prática (que parece ter sumido do debate) da poesia flarfista (Flarf Poetry), o movimento não parece ter colhido frutos ou membros no Brasil, onde a último movimento poético norte-americano a ter sido discutido e incorporado foi o dos poetas em torno da revista L=A=N=G=U=A=G=E.

Em termos estritamente conceitualistas, para usar o ismo proposto pelos norte-americanos e de antemão consciente da ineficácia do advérbio estritamente nesta discussão, tal cartografia de antecedentes provavelmente teria que passar por parte do paideuma estabelecido pelo Grupo Noigandres dentro da "tradição experimental" brasileira, mas ao mesmo tempo nos permitiria finalmente incorporar certos outsiders que não cumpriam, para os poetas da década de 50, a função de referencial em movimentos que tanto fetichizaram a ideologia construtivista.

Minha contribuição a esta discussão, há algum tempo já e sem a preocupação de a ver como parte do debate conceitualista, foi a tentativa de atenção ao conceito de textualidade, incorporando e discutindo em grande parte na revista Modo de Usar & Co., que sempre se quis uma revista de poesia, vários textos que só podiam encaixar-se ali como poesia por sua clara consciência como construção textual e por sua disseminação pelos canais auto-declarados ou institucionalmente poéticos, sejam revistas, editoras ou coleções, passando ainda por operações textuais que jamais haviam sido reivindicadas como poesia. Em tudo isso, não se pode esquecer a própria herança das vanguardas históricas que levam ao self-staging, ou à prática do "é arte o que eu chamo de arte". Marshall MacLuhan, apropriadamente ele, teria dito: "art is what you can get away with."

Poderíamos pensar aqui em Gregório de Matos (1636 - 1696), incorporando palavras indígenas a sua poética barroca; em Qorpo-Santo (1829 - 1883), que já foi chamado tanto de precursor do surrealismo como do Teatro do Absurdo; ou ainda no Joaquim de Sousândrade (1832 - 1902) do "Inferno de Wall Street". Mas dificilmente poderíamos defendê-los como precursores de uma escrita conceitual. Seguem como grandes mestres nossos de uma escrita experimental, capaz de incorporar todo material linguístico à sua disposição histórica, mas não necessariamente questionando os módulos da literariedade. E é aqui, com um misto de surpresa e prazer, que penso em Machado de Assis (1839 - 1908) como uma primeira referência possível para o debate acerca de uma escrita conceitual no Brasil, referindo-me, é claro, ao famoso capítulo "O velho diálogo de Adão e Eva" no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881).



Tal prática está fincada em uma tradição experimental internacional, e poderíamos pensar aqui na página preta de Laurence Sterne em Tristram Shandy (1759), como já foi apontado tantas vezes. 

Na conversa entre Lichtenstein, Boglione e Victor, o nome de Gertrude Stein é invocado um par de vezes na discussão da importância da prática tanto gráfica, como sonora e performática, da repetição e da permutação. O Movimento Conceitualista ainda está à espera de seu Jerome Rothenberg, que possa buscar na tradição poética mundial e arcaica os possíveis antecedentes da prática contemporânea, salvando-a da típica insularidade norte-americana. No entanto, há que se dizer que a própria curadoria de Vanessa Place para esta discussão já demonstra a abertura do movimento para uma verdadeira noção de comunidade internacional.

Nosso movimento modernista, com seu nacionalismo superficial, não permitiu ou operou uma verdadeira sonda nas jazidas poéticas, por exemplo, dos nossos povos indígenas, nas quais certas práticas rituais poderiam (ainda podem) servir de estímulo a novas experimentações em português, como Divya Victor relata sobre sua apropriação das estruturas sonoras de cantos hindus como o Venkateśasuprabhātam e o Kirtan. Penso aqui, por exemplo, no "Canto da Folha da Árvore" do Povo Maxakali, que acabei de discutir na Modo de Usar & Co., com minha temerária aproximação daquele yãmîy a um poema de e.e. cummings. No entanto, como performance textual e sonora, portanto temporal, este texto poderia permitir uma base cultural própria as possíveis performances textuais conceitualistas em nosso território.

Dentre os nossos modernistas, talvez o único autor que possa servir de referência a este debate acabe sendo, uma vez mais, Oswald de Andrade, com suas apropriações textuais dos textos portugueses de Pero Vaz de Caminha, por exemplo, a que Haroldo de Campos já se referiu como parte do mesmo ethos que levou Duchamp ao ready-made. Poderíamos chamar tais poemas de Oswald, ainda, tanto de percursores do détournement da Internacional Situacionista, como de certas práticas, hoje, do movimento conceitualista.


Oswald de Andrade, apropriando-se:

               A descoberta

              Seguimos nosso caminho por este mar de longo
              Até a oitava da Páscoa
              Topamos aves
              E houvemos vista de terra

               Os selvagens

              Mostraram-lhes uma galinha
              Quase haviam medo dela
              E não queriam por a mão
              E depois a tomaram como espantados

                Primeiro chá

               Depois de dançarem
               Diogo Dias
               Fez o salto real

               As meninas da gare

              Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
              Com cabelos mui pretos pelas espáduas
              E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
              Que de nós as muito bem olharmos
              Não tínhamos nenhuma vergonha.


Com o backlash do Grupo de 45 e o próprio isolamento de Oswald de Andrade dentro o Grupo de 22, tais práticas mantiveram-se isoladas. Com a retomada das estratégias de vanguarda no Pós-Guerra, como já argumentei várias vezes, a experimentação no Brasil seguiu marcada e encasulada na ideologia construtivista da maior parte de seus praticantes (invariavelmente homens, brancos, heterossexuais), ao contrário do que veríamos na França com os Léttristes e a partir da já mencionada Internacional Situacionista, ou, na Áustria, com o Grupo de Viena e poetas independentes como Heimrad Bäcker, que discuti na Modo já em 2008.

Heimrad Bäcker

:

9228 de sedziszow para treblinka

9229 trem vazio

9230 de szydlowiec para treblinka

9231 trem vazio

9232 de szydlowiec para treblinka

9233 trem vazio

9234 de kosienice para treblinka

9235 trem vazio




Entre os grupos brasileiros da década de 50 e 60, uma referência incontornável para esta discussão é o Poema Processo (como na obra importante de Wlademir Dias-Pino) que, no entanto, operou em grande medida através da supressão da textualidade.



Mas, mesmo dentro da ideologia construtivista da Grupo Noigandres, o sempre surpreendente Décio Pignatari deu-nos aquela pequena joia de apropriação e redirecionamento contextual que é "beba coca cola", apresentado abaixo com a composição de Gilberto Mendes.



Até pouco tempo, teríamos que buscar nas artes visuais possíveis referências para uma "textualidade" que chamássemos, aqui e no contexto desta discussão, conceitual. Um exemplo é o trabalho, tão frutífero para poetas, de Arthur Bispo do Rosário (1911 - 1989), em especial seus "Mantos", mas ainda em várias outras peças.


Peças de Arthur Bispo do Rosário





A obra de Bispo do Rosário tem ecoado em peças de Ricardo Aleixo, como seu "Poemanto", buscando aqui sua matriz africana e ritual. Ao mesmo tempo, a diagramação obsessiva de nomes próprios por Bispo do Rosário remete a um texto contemporâneo como "The Lazarus Project: Nine Eleven", de Joey Yearous-Algozin, em que o autor americano lê, em uma performance que assume seu caráter mais pungente em seu aspecto sonoro-temporal, os nomes de todos os mortos no World Trade Center em setembro de 2001. Por sua vez, ambos remetem ao trabalho da espanhola Esther Ferrer sobre um grupo de imigrantes chineses que se asfixiaram em um transporte ilegal coletivo, trabalho que discuti na Modo de Usar & Co.

Aqui começa a se tornar necessário e imperativo, para mim, discutir se o contexto brasileiro pede a necessidade de tal conceitualismo, de forma estrita, já que o trabalho tanto de Bispo do Rosário como de Aleixo apresentam-se como armas justamente contra o logocentrismo que parece cercar certas discussões do movimento. As práticas poéticas mais interessantes no Brasil têm caminhado para certo hibridismo. Mas voltarei a isso adiante.

Outras referências importantes, no campo das artes visuais, seriam as peças textuais/visuais de José Leonilson e as colagens de Jac Leirner a partir de textos de revistas femininas. No campo poético, o trabalho de Philadelpho Menezes pertence certamente a esta discussão.

Na primeira década deste século, quando o movimento tomou força nos Estados Unidos, alguns poetas  no Brasil dirigiam-se para práticas similares. Assim como a Poesia Concreta surge em português e alemão, Angélica Freitas começa sua prática das googlagens num mesmo momento em que a FLARFlist Collective inicia seus trabalhos nos Estados Unidos, sem terem conhecimento um do outro. Sei que os movimentos conceitual e flarfista são distintos, mas a prática da apropriação, repetição e recontextualização surge em ambos.


Love
googlagem de Angélica Freitas

During a drunken argument in Brussels, Verlaine
shot at Rimbaud, hitting him once in the wrist On 10
July 1875, in a drunken quarrel in Brussels,
Verlaine shot Rimbaud in the wrist, and was
imprisoned for two years at Mons. Together again in
Brussels in the summer of that year, Verlaine shot
Rimbaud in the wrist following a drunken argument.
Verlaine, drunk and desolate, shot Rimbaud in the
wrist with a 7mm pistol after a quarrel. At one
point, the tension between them became so great
that Verlaine shot Rimbaud in the wrist. about 2
o'clock, when M. Paul Verlaine, in his mother's
bedroom, fired a shot of revolver. the subject of
various books, films, and curiosities, ended July
12, 1873 when a drunken Verlaine shot at Rimbaud and
injured him in the wrist. Verlaine shot Rimbaud in a
fit of drunken jealousy.



Em um poema como "Teoria dos gêneros", Érica Zíngano parte de procedimentos similares:

teoria dos gêneros
Érica Zíngano

                                     este poema é, e não haveria como não ser, dedicado à minha mãe

Lyrika® é um remédio contra fibromialgia que a minha mãe toma todas as noites (antes de dormir) quando está em período de crise. A fibromialgia é uma espécie de reumatismo – só que dos músculos, tendões e ligamentos – e causa dor, fadiga, indisposição, dentre outros sintomas. Além de tomar o Lyrika® (todas as noites) antes de dormir, a minha mãe faz três sessões de fisioterapia por semana, o que ajuda a diminuir bastante a dor, afirma convicta. O Lyrika® é fabricado pela Pfizer™, indústria farmacêutica responsável por arrematar a maior fatia do mercado de medicamentos para o coração: o Norvasc®, que a minha mãe também toma (todas as noites antes de dormir), é, sem dúvida, o mais vendido para pressão alta. De origem norte-americana, a Pfizer™ tornou-se conhecida em todo o mundo pela fabricação do Viagra® que, por incompatibilidade de gênero, claro, a minha mãe não toma.

(esse poema foi escrito com dados retirados do Google Inc. e a poeta se exime da responsabilidade pela veiculação de quaisquer dessas informações. infelizmente, parece que está fazendo propaganda para a Pfizer™, apesar de parecer, ela garante que a intenção primeira não era a de fazer propaganda, mas a de fazer uma singela homenagem aos hábitos medicamentosos de sua mãe: se falhou em tal empreitada, pede desculpas e avisa que continuará tentando)


Um exemplo importante no campo de uma poética conceitual, mesmo que embaralhe (e talvez por isso mesmo) a questão de supressão da voz autoral proposta pelos norte-americanos, é o livro Tudo o que escrevi durante um mês (2010), de Fabiana Faleiros.

Outros exemplos são os poemas de Veronica Stigger ////  "(Flávio de Carvalho)" //  New Kolor / (Utilicity 13,90) / Lâmina de aço inox / Cabos de polipropileno / Resistentes à máquina de lavar" //// e outro trabalho recente que pode ser pensado neste contexto é "totem", de André Vallias.





Dentre os autores da mais nova geração, tenho acompanhado com muito interesse o desenvolvimento do trabalho de Luca Argel, como em sua série "desinvenção".

É importante notar que tais trabalhos, no Brasil, têm-se subscrevido ao minimalismo que encontramos tanto em Oswald de Andrade como nos trabalhos do Grupo Noigandres, e estão muito longe da prática caudalosamente épica de apropriação de material linguístico de obras como Day (2003) e The Weather (2005), de Kenneth Goldsmith; ou da trilogia Tragodía, de Vanessa Place.

Minha aproximação destes trabalhos brasileiros a um debate sobre uma poética conceitual é, portanto, questionável.

§

Pois muitos destes trabalhos estão fincados na tradição satírica brasileira (satírico compreendido aqui como intervenção poético-política), e não precisam ser vinculados a um movimento conceitualista, especiamente não de forma programática. Neste aspecto, a maior parte destes trabalhos experimentais brasileiros talvez se vinculem de forma mais clara ao que nos Estados Unidos tem sido chamado de hibridismo, como na antologia American Hybrid: A Norton Anthology of New Poetry, editada por David St. John e Cole Swensen.

Creio que uma desconfiança tipicamente brasileira na discussão adviria de nossa filiação ao paideuma do Grupo Noigandres, a quem eu imagino que tais práticas textuais pareceriam demasiadamente oblíquas, não concretas. Tenho defendido, dentro desta discussão de uma "textualidade", a noção do poético funcionando entre a transparência e não-transparência do signo, e, portanto, em sua obliquidade.

Para mim, um desafio pessoal nesta discussão tem sido pensar nesta possibilidade de uma textualidade conceitual, aplicada em meio a minha tentativa de questionamento do logocentrismo de certa poesia brasileira de matriz construtivista. Aqui, voltamos à questão surgida em meio à discussão do trabalho de Arthur Bispo do Rosário e Ricardo Aleixo, como exemplos claros. Em seu debate com Lichtenstein e Boglione, a poeta Divya Victor toca neste problema: o de um centramento crítico e de "paternidade" na poética ocidental, de matriz branca e, muitas vezes, masculina, em especial a partir da Conceptual Art dos anos 60. Em seu segundo texto, Riccardo Boglione furta-se à questão de gender na discussão pela insistência dos autores do movimento na "supressão da figura autoral". Ainda está por se discutir a fundo o quanto há de wishful thinking nesta proposição. Outra tentativa de fuga do contexto está na insistência de uma ideia de "trans-nacionalidade" em oposição a uma internacionalidade. Em minha opinião, também aqui aplica-se a possibilidade de um debate sobre a possível "wishfulthinkingness" desta crença. Uma proposta interessante é o questionamento feito por eles de por que motivo tal reapropriação de linguagem passa necessariamente pelos refugos linguísticos da Rede, como se tem visto primordialmente nos Estados Unidos. Na conversa, eles subscrevem isso a uma lealdade à estética pós-punk. Um exemplo contrário na América Latina tem sido o trabalho do argentino Pablo Katchadjian.

No meu trabalho específico, recorri a práticas de apropriação que em poucos casos poderiam ser vinculadas a uma poética conceitual. Na série "Bruit pur pour les brutes", talvez possa mencionar o único caso em que esta prática se conceitualize, ao usar o poema fonético "Karawane", de Hugo Ball, como forma fixa, usando então palavras foneticamente similares, mas de línguas que desconheço e não domino, unidos a textos de poetas como Carlos Drummond de Andrade ("Áporo") e Wallace Stevens, mas invertendo os textos foneticamente, ao simplesmente inverter seus grafemas (já que nossas línguas ocidentais são grafias para o fônico). A prática foi "erroneamente" ligada por Marcelo Flores ao zaoum de Khlebnikov, em sua resenha de meu livro.

Bruit Pur Pour Les Brutes 

§ dos sons do sentido

Bepaalde

inderdaad voelen  u  onder voelen
stoelen soa’s nooit niets
moest draaide
toch  waarin zwaaien  maar
vrouwen  voorbij
stadse weet
trouw   weet   trouw   weet
raken elkaar
€   € €   €
bestaan enige  eruit  terug
ook  lebei  zoals
beneden  gewoond
nieuwe  jijzelf  denken  jijzelf
beide  ik-een
alle  halen
ik - een

§ dos sentidos do som

esamrof aedíuqro amu
anaidilcueitna
ahnizos edrev me

atased es otserp
oirétsim oazar ho
otniribal o euq sie

oirénim e ziar
etion ed ecalne
odaeuqolb síap me
otsuaxe rezaf euq

epacse rahca mes
arret a odnarufrep
emrala mes avac
avac otesni mu


Aqui, como na textualidade conceitual de alguns norte-americanos, poderíamos apenas falar de uma "poética de implicações", e tentei neste texto chegar a um extremo disso. O texto está em meu livro Sons: Arranjo: Garganta (Cosac Naify, 2009), cuja epígrafe é de Gertrude Stein: "Sound sight and sense around sound by sight with sense around by with sound sight and sense will they apologise truthfully". Em trabalhos como meus textos permutacionais das "Six songs of causality" ou o texto-colagem "Entrañas de las soledades", a partir das "Soledades" de Góngora, se há uma complicação da noção de voz autoral, mesmo assim permanece o autor-organizador. Esta crença na supressão da figura do autor parece seguir sendo uma das questões mais problemáticas do Movimento Conceitualista. Em um texto recente, em polêmica com Marjorie Perloff, o poeta Matvei Yankelevich referiu-se à maneira como os poetas do movimento conceitualista, apesar de declararem a supressão do autor-divindade, assumem personas públicas altamente visíveis e "performáticas", como é o caso de Kenneth Goldsmith. Em meio a esta busca pela supressão da figura do autor, talvez vejamos ainda os relances da personalidade do chamado "autor-gênio" ou ainda do que se poderia acusar como um "culto à personalidade", que cerca sempre, de certa forma, o trabalho experimental.

E, sobre toda essa discussão paira o perigo (ou proposta?) da afirmação de Joshua Clover, citada por Divya Victor: “the shattering of representation happens twice: the first time as revolution, the second time as fashion.”

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sábado, 20 de abril de 2013

"Lembrete" (para mim mesmo, com novas inclusões)


O poema abaixo encerra meu primeiro livro, Carta aos anfíbios (2005) - que pode, aliás, ser baixado gratuitamente aqui. Creio já ter falado dele e o transcrito nesse espaço. Perdoem-me se me repito. Mas estou com ele na cabeça, hoje. Por algum tempo pensei em repeti-lo como poema de encerramento em todos os meus livros. Talvez devesse tê-lo feito. Segue de novo, com algumas inclusões. Pensei nisso ao rever hoje a entrevista de Clarice Lispector para Junio Lerner em 1977, pouco antes de morrer. Em itálico, as inclusões.

Lembrete 

Cruz e Sousa
em vagões de
transporte
de gado.

Pedro Nava
numa calçada
na Glória.

Paul Celan
nas águas
do Sena.

Miklós Radnóti
com os micróbios 
e os últimos poemas 
exumáveis no paletó.


Frank O’Hara
estirado n’areia.

Christine Lavant
crivada de camas
e escamas.

Virginia Woolf
com pedras
no bolso.

Alejandra Pizarnik,
intolerância
a secobarbital.

Clarice Lispector
carregando um câncer
no ovário, inoperável.

Carlos Drummond de Andrade
doze dias após a filha.

Pier Paolo
a pau e pedra.

João Cabral de Melo Neto
                              cego.

Orides Fontela
à beira da indigência.

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