domingo, 18 de agosto de 2013

Dos satyricus. Poema.

Vida de poeta de sucesso: 
paguei a dívida no puteiro,
reabriu-se-me o crédito,
tem shampoo no banheiro
pros meninos em oferta.

Ricardo Domeneck. 2013. Agosto. Foto: Philip-Lorca diCorcia, da série "Hustlers".




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sábado, 17 de agosto de 2013

Da lírica jurisprudente


eu, teu
premorto
nesta sucessão
ilegítima, ó meu
cônjuge meeiro,
prefiro falecimento
à falência
de ser teu supérstite,
dulcíloquo de cujus,
ainda que o espúrio
beneficie-se da partilha
dos nossos bens
por cabeça e estirpe,
já que o Grande Juiz
não nos legou
a comoriência,
vem, sentença
definitiva e doa
a ele, o Moço
que fez de mim o
não-facultativo,
a bem-aventurança
de todas as heranças.


Ricardo Domeneck. Berlim, 17 de agosto de 2013

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sábado, 10 de agosto de 2013

O mestre Pier Paolo Pasolini (1922 - 1975): trecho de entrevista e documentário.



"A recusa sempre foi o gesto mais importante. Santos, eremitas, intelectuais... a História foi feita por aqueles poucos que disseram `não´, não pelos cortesãos e conselheiros, não pelos `cardeais cinzentos´. Mas por uma recusa a fazer sentido, tem que ser principal, não secundária; tem que ser total, não em meros pontos individuais; tem que ser absurda e desafiar o senso comum. Eichmann estava cheio de senso comum. O que lhe faltava? Faltava-lhe a habilidade de dizer `não´ à coisa principal imediatamente, quando ele ainda era um administrador, um burocrata comum. Talvez ele até mesmo tenha dito a outros a seu redor no escritório: `Eu não gosto daquele Himmler´. Talvez ele o tenha murmurado, da forma como se murmura em editoras, jornais, em grupos do governo, na televisão. E talvez ele até tenha protestado contra o fato de que alguns trens paravam apenas uma vez por dia para que os prisioneiros pudessem ir ao banheiro, comer um pouco de pão, beber um pouco de água, quando na verdade teria sido mais sensato parar algumas vezes. Mas ele nunca pisou nos freios da máquina fascista. Então você precisa fazer três perguntas: qual é a `situação´; por que ela deve ser detida; e como?" --- Pier Paolo Pasolini, em sua última entrevista, na semana em que foi brutalmente assassinado. 

§ 

 

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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Justaposições: Khlebnikov & Kilkerry


Justaposições 

Khlebnikov & Kilkerry 

ambos nascidos em 1885 
(Rússia/Brasil) 
mortos 1922/1917



[Uma vez mais]
Velimir Khlebnikov

Uma vez mais, uma vez mais
Sou para você
Uma estrela.
Ai do marujo que tomar
O ângulo errado de marear
Por uma estrela:
Ele se despedaçará nas rochas,
Nos bancos sob o mar.
Ai de você, por tomar
O ângulo errado de amar
Comigo: você
Vai se despedaçar nas rochas
E as rochas hão de rir
Por fim
Como você riu
De mim.

(tradução de Augusto de Campos)

:

O verme e a estrela
Pedro Kilkerry

Agora sabes que sou verme.
Agora, sei da tua luz.
Se não notei minha epiderme...
É, nunca estrela eu te supus
Mas, se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz!

E eras assim... Por que não deste
Um raio, brando, ao teu viver?
Não te lembrava. Azul-celeste
O céu, talvez, não pôde ser...
Mas, ora! enfim, por que não deste
Somente um raio ao teu viver?

Olho, examino-me a epiderme,
Olho e não vejo a tua luz!
Vamos que sou, talvez, um verme...
Estrela nunca eu te supus!
Olho, examino-me a epiderme...
Ceguei! ceguei da tua luz?

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Justaposição ocorre ainda na figura do tradutor/redescobridor Augusto de Campos.

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Dedicado a Carlito Azevedo.

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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Poema-billboard em Denver, Colorado (EUA), para a Bienal das Américas.


"Continental Scar Issue" (2013), poema-billboard em Denver, Colorado (EUA), 

Sandy creeks around Denver   Under the asphalt of São Paulo
A trail of tears from Araweté  At ski resorts and beer parlors
Centennials for the Americas  Now an urban dance of ghosts
Trail of bones from Arapaho   Dammed rivers and Super Bowl
Dead Emerson and Thoreau  No more tickets to the funeral





Do catálogo:

Ricardo Domeneck, "Continental Scar Issue" (2013) 

Both formally precise and musically rich, Ricardo Domeneck’s poems are never afraid to tackle politics, philosophy, the body, and history. Written in English, Domeneck’s poem follows a precise measure like downtown Denver’s city grid. It traces both the geography and history of the Americas, mixing the current locale with his native Brazil, illustrating subtle tensions. In the first two stanzas, Domeneck jumps from one location to the other, juxtaposing landscapes, histories, and cultures. With this hopping from one to the other, the trail of tears from the Arawaté tribe can be located in São Paolo as well as in Colorado ski resorts—central conjunction between the two, as if this violence can be seen and felt just about everywhere. Indeed, one of the poem’s strengths is its ability to entwine loss and celebration. By the time we reach “Centennials for the Americas,” the poem slowly drifts out of a specific location to the idea of America, claiming that the transcendentalist thinkers Emerson and Thoreau are dead (and not only in a literal sense). In claiming “No more tickets to the funeral,” Domeneck is making an injunction against morbidity but also suggesting that the event is, perhaps morbidly, sold out.


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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Como eu me vejo / Como os alemães me veem

Como eu me vejo na Alemanha.
How I see myself in Germany.
  
   
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 Como os alemães me veem.
How Germans see me.

 

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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Extrato de sardas (poema inédito).

(fotografia: Adelaide Ivánova)


Extrato de sardas

Ele chega 
sempre com nada
mais que seu corpo,
alto, rijo e magro,
o qual tira de dentro
de roupas e mostra
seus pelos loiros,
negros, castanhos,
ruivos, ou tão-só
ausentes, e exibe
o seu orgulho
ereto e perpétuo.

Eu o recebo 
como o projeto 
urbanístico 
de Brasília recebe 
o céu do cerrado.
Eu plano, ele pilota.

Não sabe conversar,
apenas convergir,
não possui discursos
além do descorçoo,
não sabe debater
senão como verbo
reflexivo. 

Minha juventude
acabou enfim,
rest in peace,
mas como esta
que ele esbanja
parece perene,
renovável, eterna.

É certo, pensa
que Wittgenstein, 
Huizinga, Agamben,
Fustel de Coulanges 
são 
marcas de remédio,
diz que meus filmes
em preto e branco
são só-tão soníferos,
e se na casa soam
gravações de Arnaut,
Bertran ou Marcabru,
pergunta se é o caso
de minha conversão
a uma seita New Age.
Uc de la Bacalaria?
Ele não come peixe.

Mas deita-se manso
quando quer
ou feroz se convém
e chega a hora
de tocaia e estocada,
e nisso nunca falha
o seu instinto imberbe
nas termas do contexto.

Não me basta a leitura
de Estratão de Sardes
se insistem em proibir
a vasão do meu corpo
introvertido ao avesso
nesse extrato de sardas.

Se vigoram os textos
de Konstantínos Kaváfis
em minha mente
e outras glândulas
é porque tenho dedos
a cavar fios nos côncavos
e convexos de corpos
mui alexandrinamente.

Nem vão me saciar só
poemas de Frank O´Hara
sem poder ser franco
e dizer: "esse é o cara!,
é com esse que eu vou,
agora, e agora, e agora."

Por que, ora, esperar
mais que a dádiva
de sermos ao menos
por alguns minutos
erastés e erômenos
na acrópole-e-abismo
dessa ativa e passiva
gangorra
da Musa Puerilis?

Entre e fique, menino.
A casa não é minha
mas, como sói
ser, sua.

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