quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Meus amigos estão ocupados: PARTE 2: O melhor de 2013

Postei ontem várias canções, poemas e notícias do que meus amigos e companheiros andaram produzindo em 2013. Chamemo-la de meu "Best Of This Year". Segue aqui a segunda parte.

Joel Gibb, o homem por trás da banda canadense The Hidden Cameras, lançou há pouco um novo álbuml. Joel é excelente cantor e letrista. Mostro abaixo o vídeo para a extremamente atual "Gay Goth Scene". Dedico esta a Silas Malafaia e Marco Feliciano.


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Por organizar o evento READING: a night ot text / sound / video com meu amigo Black Cracker, tive a oportunidade de conhecer Louis MacGuire, que se apresentou como Young Neck no evento de maio. Foi um dos presentes que recebi em 2013, sua amizade. Excelente produtor, e agora bateirista da banda Ballet School.





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Ficando ainda na beleza de ter conhecido Louis, graças a ele pude conhecer também Rosie e Michel, com quem ele forma a banda Ballet School, que lançou este ano seu álbum de estreia. Abaixo, a apresentação deles no nosso evento READING: a night ot text / sound / video, e seu vídeo para "Crush".



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Meu amigo Niklas Goldbach produziu e viajou muito em 2013. Visitem seu website. E vejam abaixo a última coisa que ele subiu para a rede, um excerto de "Prologue".


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Adelaide Ivánova está prestes a lançar um livro com a editora Cesárea, de Schneider Carpeggiani. Fez várias exposições na Europa. Posto aqui um de seus poemas e uma de suas fotos recentes.


tulipas
Adelaide Ivánova

meu parapeito
não tem flores,
meu apartamento
não tem geladeira,
ponho os saquinhos
de mussarela do lado
de fora da janela
para não estragarem
e assim prescindo
de tulipas.

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fotografia recente de Adelaide Ivánova

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Veronica Stigger lançou um dos melhores livros de prosa do ano, Opisanie świata (São Paulo: Cosac Naiy, 2013), e foi merecidamente reconhecida com vários prêmios.


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Aquele que considero um dos melhores poetas da língua hoje, o português Miguel Martins (n. 1969), seguiu postando excelentes poemas em seu blogue. O poeta, além disso, traduziu este ano A Arte do Ruído, de Luigi Russolo. Abaixo, seu poema mais recente.

A carapuça universal
Miguel Martins

Entre cintilações fugazes e pretéritas
e as cinzas litigantes do presente,
vão mastigando o bolo, quimo, quilo,
vício mandibular e nada mais. 

Pegas de costas, arpoação de enguias
e umas danças de roda nos saguões,
vão evitando a formação de vértebras,
o que empecilharia o ganha-pão. 

Tomados de tonturas ante os monstros,
mesmo se de algibeira, canivetes,
vão floreando com palavras destas
o que, está bom de ver, é, tão-só, merda,

que melhor fôra não a ver jamais
– pensar é não viver, é literatura,
e fingir que se pensa, então, é cal
a disfarçar um desasseio intenso.


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Este foi um ano de trabalhos hercúleos no campo tradutório, e destaco o trabalho de Guilherme Gontijo Flores na tradução de A anatomia da melancolia, de Robert Burton, em 4 volumes. Merecidamente premiado. Guilherme é, além do mais, coeditor de uma das melhores plataformas digitais de poesia traduzida no Brasil, escamandro.





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2013 foi também o ano do surgimento de um novíssimo cujo trabalho muito me interessa: Rubens Akira Kuana, nascido em Videira, Santa Catarina, em 1992. Vive em Curitiba, onde estuda Arquitetura. Abaixo, seu poema mais recente.


Vida e Morte nas Grandes Imagens
Rubens Akira Kuana

interferir na sua fome
por score e ranking
ocioso, qual pontuação
devo alcançar para ser
aceito em seus ciclos

projeções, simulacros
mensagens de texto
visualizadas mas
não respondidas
10:20 17:50 23:45

o máximo esperado
o mínimo ocorrido
pratico o situacionismo
conforme espetáculo
ou ornamento acidentais

as minhas teorias
da deriva somente
conferem aos passos
um nome Próprio
para solidão

ponto nodal, envoltório
bolha química
bolha imobiliária
superfície contínua
homogênea, fragmentada

onde a superacumulação
de repudiações líricas
desenvolve, rígida
o apocalipse de todos
os anticorpos virais

jamais supus aumento
em conta corrente conjunta
porém ao assinar nosso seguro
desemprego, submeto
trabalho e obra

o crédito consignado
à loteamento e pena
reúne o cárcere
gentrifica a goela
reifica

feito um pássaro
feito um pássaro
mundano
feito um pássaro
moído

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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Meus amigos andam ocupados: postagem com poemas, canções, entrevistas e outras belezas recentes de companheiros

Postagem com algumas das belezas que aqueles que tenho a sorte de chamar de amigos ou companheiros lançaram no mundo nos últimos tempos.


Parte 1


Preparando-se para o lançamento de seu novo álbum, All Love´s Legal (Human Level Rec.) em fevereiro de 2014, a maravilhosa Jam Rostron a.k.a. Planningtorock lançou o vídeo para sua nova faixa "Human Drama", que pode ser visto na revista Dazed & Confused. Abaixo, a intro do novo álbum, "Manifesto".


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A poeta e artista visual anglo-norueguesa Hanne Lippard criou uma conta no Soundcloud, na qual começou a desaguar seus excelentes e inteligentes poemas vocais. Chamo a atenção para esta peça, "Boys". Visitem e sigam a conta toda. Vocês podem ler uma entrevista recente dela na revista aqnb.



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O duo Tetine, Eliete Mejorado e Bruno Verner, lançou dois álbuns este ano: Voodoo Dance & Other Stories (Slum Dunk, 2013) e Mother Nature & Black Semiotics (Wet Dance Recordings, 2013). Ouçam, do último, a faixa "Charlote Maluf".




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Preparando-se para lançar seu novo álbum em 2014, meu companheiro Black Cracker vem desaguando algumas canções em sua conta do Soundcloud. Ouçam essa joia, "Back".




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Annika Henderson, melhor conhecida como Anika, permitiu-me publicar dois de seus poemas e uma de suas canções na Hilda Magazine. Abaixo, a pérola que é "Margaret".



"Margaret"
Tight bitter face
scrunched into a fist
this little madam
would benefit quite a bit
from removal of the poker
and gentle rub of the clit
Just a moment of enlightenment
could have transformed
this surfaced bigot
from anally retentive
into wonderfully relaxed
in just one lick
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Lauren Flax & Lauren Dillard, o duo novaiorquino Creep, lançou seu álbum de estreia - Echoes (2013), pelo qual vínhamos esperando há tempos. Ouçam a faixa com Sia nos vocais.





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Hermione Frank, mais conhecida como rRoxymore, lançou seu EP "Precarious/Precious" pelo Human Level neste semestre. Vocês já ouviram?




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Steven Warwick, mais conhecido como Heatsick, lançou há pouco seu álbum Re-Engineering (PAN Rec., 2013), que vem sendo saudado com entusiasmo pela crítica. Vídeos recentes para "Mimosa" e "Clear Channel" podem ser vistos aqui e aqui, respectivamente. Abaixo, o vídeo para "Snakes & Ladders".



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Uli Buder, mais conhecido como Akia, com quem já colaborei em várias peças e um de meus amigos queridos, segue desaguando suas produções. Aqui, a mais recente:


  

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Luke Troynar, mais conhecido como Creatures, lançou este ano seu lindo álbum de estreia New Campaigns (Wait! What? Records, 2013). Abaixo, o vídeo ao vivo para a linda "Mirror Mirror".




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O cantautor alemão Jonas Lieder, um dos meus melhores amigos, continua desaguando suas canções lindas. A mais recente chama-se "Give up".





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Markus Nikolaus, também conhecido como Cunt Cunt Chanel, compôs essa coisa bonita há pouco tempo, "Robot Hard". E logo abaixo, o vídeo de sua apresentação em Bruxelas, na mesma noite em que Tetine e eu nos apresentamos.


Robot HardThis is me and you being somewhere / This is me and you going to change. / - Being soaked up. / Both go seperate ways, / We both break in days. / I was out here, I came here / Only for a word or three. / Now, it's missing. / This is you , this is me... / Being somewhere / But I was only out here for a word or three / Know what's missing me, oh, its missin' me. / But It Aint Hard, / No, it aint hard. / // This is me, this is you / we both gonna separate / - "Just try to be yourself" / "That's usually the road to disaster!" / But It Aint Hard, It aint hard to see / It aint complex in me. / This is you not sure what to tell me. / We both break into seperate ways. / // This is me and you being somewhere. / It's so hard to take... / But It Aint Hard It aint to see / What is happening in me. / // Just try and be yourself. / Thats usually the road to disaster for me. / // But It Ain't hard, you see. / It's happening in me. / // But It Aint Hard to see / But It Aint Hard to see /

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Markus Nikolaus a.k.a. Cunt Cunt Chanel - ao vivo em Bruxelas


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Daniel Saldaña París lançou no México seu primeiro romance, En medio de extrañas víctimas, que vem sendo também saudado com entusiasmo pela crítica.




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Luis Felipe Fabre lançou sua nova coletânea de poemas Poemas de terror y de misterio, do qual extraí  e traduzi a série "Notas en torno a la catástrofe zombi", lançada este ano pela Lummer Editor.
  
   



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Preparando-se para lançar seu primeiro EP no ano que vem, pelo selo do clube Dora Brilliant, o produtor alemão Ludwig Roehrscheid permitiu-nos postar duas faixas na Hilda Magazine. Abaixo, uma das faixas.
   

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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

"Sistema judiciário no patriarcado" - poema recente.

Sistema judiciário no patriarcado

Sempre da mulher a culpa e o crime,
como se diz que por Helena 
se queimou e saqueou Troy City,
e não por Menelau e os testículos 
de Agamémnon, que os criam 
mais valiosos que os filhos
de Hécuba, as filhas de Príamo.
Eis os egos machos dos gregos,
que cantamos até hoje 
como heroicos, sem hesitar, 
perante Polixena,
em vará-la o esterno ao meio,
pois seu sangue quente 
em veias e artérias
valia, é certo, muito menos
que o espectro frio de Aquiles,
sua destreza com objetos fálicos,
e quando enfim as contas do ábaco
pendem à hora e à vez de Hécuba
e cabe-lhe o momento da vingança,
mesmo ela transforma-se em cadela
(tenha ou não agido como rabid bitch)
por palavra de um alcoólatra, Dionísio,
não se esqueçam, também macho
-alfa, tanto quanto aquele Apolo
que atraíra os gregos e os troianos
para o mesmo espetáculo de sandice
do qual escaparam tão poucos,
um deles velejando por dez anos
dependente de outra que entra 
na história com fama de bitch, Circe.
Sempre da mulher a culpa e o crime.

(Publicado originalmente na revista portuguesa Enfermaria 6, editada por Tatiana Faia e José Pedro Moreira (antigos editores da Ítaca) e por Paulo Rodrigues Ferreira (um dos responsáveis pela Fyodor Books, em Lisboa). O poema faz parte do meu próximo livro, que deve se chamar Manual da Anfitriã segundo Hécuba.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

#DesarquivandoBR: "Que Bom Te Ver Viva" (1989), filme de Lúcia Murat.



 #DesarquivandoBR: Que Bom Te Ver Viva (1989), filme de Lúcia Murat.

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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

#DesarquivandoBR: "AI-5 e soluços"

VIII Blogagem Coletiva

na semana dos 45 anos do Ato Institucional #5



ATO INSTITUCIONAL Nº 5, DE 13 DE DEZEMBRO DE 1968

O PRESIDENTE (sic) DA REPÚBLICA (sic) FEDERATIVA (sic) DO BRASIL, ouvido (sic) o Conselho (sic) de Segurança (sic) Nacional (sic),

e

CONSIDERANDO (sic) que a Revolução (sic) Brasileira (sic) de 31 de março (sic) de 1964 teve, conforme decorre dos Atos com os quais se institucionalizou (sic), fundamentos (sic) e propósitos (sic) que visavam a dar (sic) ao País (sic) um regime que, atendendo (sic) às exigências (sic) de um sistema jurídico (sic) e político (sic), assegurasse autêntica (sic) ordem democrática (sic), baseada na liberdade (sic), no respeito (sic) à dignidade (sic) da pessoa humana (sic), no combate à subversão (sic) e às ideologias contrárias (sic) às tradições de nosso povo (sic), na luta (sic) contra (sic) a corrupção (sic), buscando, deste modo (sic), "os meios indispensáveis (sic) à obra de reconstrução (sic) econômica (sic), financeira (sic), política (sic) e moral (sic) do Brasil (sic), de maneira a poder enfrentar (sic), de modo direto e imediato, os graves e urgentes problemas de que depende a restauração (sic) da ordem interna (sic) e do prestígio (sic) internacional (sic) da nossa pátria (sic)" (Preâmbulo do Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964);

CONSIDERANDO que o Governo (sic) da República (sic), responsável (sic) pela execução daqueles objetivos e pela ordem (sic) e segurança (sic) internas (sic), não só não (sic) pode permitir (sic) que pessoas ou grupos anti-revolucionários (sic) contra ela trabalhem, tramem ou ajam, sob pena de estar faltando (sic) a compromissos (sic) que assumiu (sic) com o povo brasileiro (sic), bem como porque o Poder Revolucionário (sic), ao editar (sic) o Ato Institucional nº 2, afirmou, categoricamente, que "não se disse que a Revolução (sic) foi, mas que é e continuará" e, portanto, o processo revolucionário (sic) em desenvolvimento (sic) não (sic) pode ser detido (sic);

CONSIDERANDO que esse mesmo Poder Revolucionário (sic), exercido pelo Presidente (sic) da República (sic), ao convocar (sic) o Congresso Nacional (sic) para discutir (sic), votar (sic) e promulgar (sic) a nova Constituição (sic), estabeleceu que esta, além de representar "a institucionalização dos ideais (sic) e princípios (sic) da Revolução" (sic), deveria "assegurar a continuidade da obra revolucionária (sic)" (Ato Institucional nº 4, de 7 de dezembro de 1966);

CONSIDERANDO, no entanto, que atos nitidamente (sic) subversivos (sic), oriundos dos mais distintos setores políticos e culturais, comprovam que os instrumentos jurídicos (sic), que a Revolução (sic) vitoriosa (sic) outorgou (sic) à Nação (sic) para sua defesa (sic), desenvolvimento (sic) e bem-estar (sic) de seu povo (sic), estão servindo de meios para combatê-la e destruí-la;

CONSIDERANDO que, assim, se torna imperiosa (sic) a adoção (sic) de medidas (sic) que impeçam sejam frustrados os ideais (sic) superiores (sic) da Revolução (sic), preservando (sic) a ordem (sic), a segurança (sic), a tranqüilidade (sic), o desenvolvimento (sic) econômico (sic) e cultural (sic) e a harmonia (sic) política (sic) e social (sic) do País comprometidos (sic) por processos subversivos (sic) e de guerra (sic) revolucionária (sic);

CONSIDERANDO que todos esses fatos perturbadores (sic) da ordem (sic) são contrários aos ideais (sic) e à consolidação do Movimento de março (sic) de 1964, obrigando (sic) os que por ele se responsabilizaram e juraram defendê-lo, a adotarem as providências (sic) necessárias (sic), que evitem sua destruição,

Resolve editar o seguinte

ATO INSTITUCIONAL

Art. 1º - São mantidas a Constituição (sic) de 24 de janeiro de 1967 e as Constituições (sic) estaduais, com as modificações constantes deste Ato Institucional.

Art. 2º - O Presidente (sic) da República (sic) poderá decretar o recesso (sic) do Congresso Nacional, das Assembléias Legislativas e das Câmaras de Vereadores, por Ato Complementar, em estado de sitio ou fora dele, só voltando os mesmos a funcionar quando convocados pelo Presidente (sic) da República (sic).

§ 1º - Decretado o recesso (sic) parlamentar, o Poder Executivo (sic) correspondente fica autorizado (sic) a legislar (sic) em todas as matérias e exercer as atribuições previstas nas Constituições (sic) ou na Lei (sic) Orgânica (sic) dos Municípios.

§ 2º - Durante o período (sic) de recesso (sic), os Senadores, os Deputados federais, estaduais e os Vereadores só perceberão a parte fixa de seus subsídios.

§ 3º - Em caso de recesso (sic) da Câmara Municipal, a fiscalização financeira e orçamentária dos Municípios que não possuam Tribunal de Contas, será exercida pelo do respectivo Estado, estendendo sua ação às funções de auditoria, julgamento das contas dos administradores e demais responsáveis por bens e valores públicos.

Art. 3º - O Presidente (sic) da República (sic), no interesse nacional (sic), poderá decretar (sic) a intervenção (sic) nos Estados e Municípios, sem as limitações previstas na Constituição (sic).

Parágrafo único - Os interventores (sic) nos Estados e Municípios serão nomeados (sic) pelo Presidente (sic) da República (sic) e exercerão (sic) todas as funções e atribuições que caibam, respectivamente, aos Governadores ou Prefeitos, e gozarão (sic) das prerrogativas, vencimentos e vantagens fixados em lei.

Art. 4º - No interesse de preservar a Revolução (sic), o Presidente (sic) da República (sic), ouvido o Conselho (sic) de Segurança (sic) Nacional (sic), e sem as limitações previstas na Constituição (sic), poderá suspender (sic) os direitos políticos de quaisquer cidadãos (sic) pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais.

Parágrafo único - Aos membros dos Legislativos federal, estaduais e municipais, que tiverem seus mandatos cassados, não serão dados substitutos, determinando-se o quorum parlamentar em função dos lugares efetivamente preenchidos.

Art. 5º - A suspensão dos direitos políticos, com base neste Ato, importa, simultaneamente, em:

I - cessação de privilégio de foro por prerrogativa de função;

II - suspensão do direito de votar e de ser votado nas eleições sindicais;

III - proibição de atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política;

IV - aplicação, quando necessária, das seguintes medidas de segurança (sic):

a) liberdade (sic) vigiada;

b) proibição de freqüentar determinados lugares;

c) domicílio determinado,

§ 1º - O ato que decretar a suspensão dos direitos políticos poderá fixar restrições ou proibições relativamente ao exercício de quaisquer outros direitos públicos ou privados.

§ 2º - As medidas de segurança de que trata o item IV deste artigo serão aplicadas pelo Ministro (sic) de Estado (sic) da Justiça (sic), defesa (sic) a apreciação de seu ato pelo Poder Judiciário (sic).

Art. 6º - Ficam suspensas as garantias constitucionais ou legais de: vitaliciedade, inamovibilidade e estabilidade, bem como a de exercício em funções por prazo certo.

§ 1º - O Presidente (sic) da República (sic) poderá mediante decreto, demitir, remover, aposentar ou pôr em disponibilidade quaisquer titulares das garantias referidas neste artigo, assim como empregado de autarquias, empresas públicas ou sociedades de economia mista, e demitir, transferir para a reserva ou reformar militares ou membros das polícias militares, assegurados, quando for o caso, os vencimentos e vantagens proporcionais ao tempo de serviço.

§ 2º - O disposto neste artigo e seu § 1º aplica-se, também, nos Estados, Municípios, Distrito Federal e Territórios.

Art. 7º - O Presidente (sic) da República (sic), em qualquer dos casos previstos na Constituição (sic), poderá decretar o estado de sítio e prorrogá-lo, fixando o respectivo prazo.

Art. 8º - O Presidente (sic) da República (sic) poderá, após (sic) investigação (sic), decretar o confisco de bens de todos quantos tenham enriquecido, ilicitamente, no exercício de cargo ou função pública, inclusive de autarquias, empresas públicas e sociedades de economia mista, sem prejuízo das sanções penais cabíveis.

Parágrafo único - Provada a legitimidade (sic) da aquisição dos bens, far-se-á sua restituição.

Art. 9º - O Presidente (sic) da República (sic) poderá baixar Atos Complementares para a execução deste Ato Institucional, bem como adotar, se necessário (sic) à defesa da Revolução (sic), as medidas previstas nas alíneas d e e do § 2º do art. 152 da Constituição (sic).

Art. 10 - Fica suspensa a garantia de habeas corpus, nos casos de crimes (sic) políticos, contra (sic) a segurança (sic) nacional (sic), a ordem (sic) econômica (sic) e social (sic) e a economia popular (sic).

Art. 11 - Excluem-se de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de acordo com este Ato institucional e seus Atos Complementares, bem como os respectivos efeitos.

Art. 12 - O presente Ato Institucional entra em vigor nesta data, revogadas as disposições (sic) em contrário.

Brasília, 13 de dezembro de 1968; 147º da Independência (sic) e 80º da República (sic).

A. COSTA E SILVA
Luís Antônio da Gama e Silva
Augusto Hamann Rademaker Grünewald
Aurélio de Lyra Tavares
José de Magalhães Pinto
Antônio Delfim Netto
Mário David Andreazza
Ivo Arzua Pereira
Tarso Dutra
Jarbas G. Passarinho
Márcio de Souza e Mello
Leonel Miranda
José Costa Cavalcanti
Edmundo de Macedo Soares
Hélio Beltrão
Afonso A. Lima
Carlos F. de Simas

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sábado, 7 de dezembro de 2013

Três canções de Jonas Lieder



Conheci Jonas em 2006, ano durante o qual nutri uma queda-abismo por ele. Hoje, damos ambos graças aos céus por jamais termos namorado, já que podemos agora usufruir de uma das amizades mais fortes e marcantes que eu pessoalmente conto em minha vida. De monstrengos com quem já troquei fluidos corporais já está cheia minha sitcom.

Jonas é daquelas pessoas com quem jamais preciso medir palavras, para quem posso me mostrar em toda a minha escuridão e rutilância. Abaixo, compartilho três canções recentes do meu amigo Jonas Lieder, encerrando com uma composição que ele me dedicou após uma de nossas conversas assustadoras. Ao final de tudo, dois poemas escritos após conversas com ele.














Fazendo reservas para a pança da baleia
ou Poema para Jonas

Amontoar escombros
sobre escombros
e então dispersá-los
sob meus saltos altos.
Imputando talvez
aos gregos e às novelas
a culpa por este meu gosto
pelo glamour das tragédias,
esta queda literal,
como quem espera
desenovelar a trama
da intriga e trazer o último
ato à nossa peça.
A ansiedade legítima
do último episódio.
Esqueci-me, querido,
de assinar o contrato
para o papel de protagonista
nesta comédia, sem chance
agora de um final
feliz em tecnicolor,
se nem catas troféus
ou mísero Oscar
de efeitos especiais.
Como figurantes
em nossos próprios épicos,
sabemos que a morte
chega
a todas as personagens.
Só exijo ser tão provável
quanto necessário,
registrar as últimas palavras
de qualquer um antes
do grande sono,
mesmo se de um segundo,
ou depois dos hematomas
de prazeres
desconhecidos com desconhecidos.
O que é causalidade
senão beber água
quando com sede
ou a confusão de pronomes
diante do espelho?
Mostro
à mosca
a saída
do Chianti.
Lição de contentamento
no contexto alheio,
calma no próprio carma,
estou chucro e feliz
como se respondesse
em chinês
a perguntas em islandês, não
mais esta mula
colérica lambendo
teus olhos de Cassandra,
de peste mista.
Desconheço alienígena
que se aninhe
em meu peito,
hóspede
ou hospedeiro.
E se evadíssemos,
Jonas? As entranhas
desta baleia
entediam-me.
Ou, que tal se roubássemos
automóveis e cruzando fronteiras
e alfândegas
do Oriente ao Ocidente
nos tornássemos
metecos
em qualquer centro?
Não há, por fim, elixir
contra exílios,
a não ser nos delírios
de cidadania, esta coisa
que ao fim sabemos
que não existe
a quem a Eros se exibe.


(a Jonas Lieder)

§
 
Poema
Enfim aurora-me na cachola,
Jonas das férias em baleias,
por que os deuses desaprovam
o incesto, esse advertisement
ou entertainment em família,
tal reciclagem ad aeternitatem
ou sexo homogêneo à margem
(e sua homenagem a soi-même)
como o cúmulo da economia.
Leis de veto a fellatio in toilets
e virilha em público, ilegíveis,
como Coca-Cola, cocaína & Co.
ou outros substantivos ilegais
para nossa literatura ou lírica.
Teu Ricardo sabe que o peixe
morre pela fome, boca em pênis
de moçoilos é o anzol de sempre
e eis que pé no rabo eu vos nego.
Pedicabo ego vos et irrumabo.
Seguirei sendo nota de pontapé
no apêndice de vossos cérebros
ou até que me canse, escravo
paciente e devoto, das horas-
-extras de chicote e chacota
sobre vossas gretas garbosas.

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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Traduzindo dois poemas de Isabella Motadinyane (África do Sul, 1963 - 2003)


Soube da morte de Nelson Mandela esta manhã. Após ler vários artigos interessantes sobre o grande homem que foi, revolucionário ativista acima de tudo, passei algum tempo pesquisando a poesia sul-africana moderna e contemporânea. Conhecia muito pouco, quase nada além da poeta afrikaans Ingrid Jonker (1933 – 1965), o trabalho de Lesego Rampolokeng e o de Breyten Breytenbach, com quem cheguei a participar de um par de eventos.

Descobri alguns poetas muito interessantes, como S.E.K. Mqhayi (1875 – 1945) e Mzwandile Matiwana (1967 - 2009) e, entre os vivos, Keorapetse Kgositsile, Mxolisi Nyezwa e Jethro Louw.

Mas foram alguns poemas de Isabella Motadinyane que me marcaram hoje. Nascida em Soweto, em 1963, foi uma das fundadoras do coletivo Botsotso Jesters em 1994, que viria a se tornar também editora. Teve poemas publicados em duas antologias do coletivo, We Jive Like This (1996) e Dirty Washing (1999). Seus poemas foram reunidos postumamente no volume Bella (2007). Não encontrei informações sobre a causa de sua morte, aos 40 anos.

Sua poesia está claramente marcada pela tradição oral e pela performance, pelo canto, e a mímica de sua voz parece resistir mesmo no texto impresso. Há ainda certo minimalismo unido a um tom celebratório, de ode e canto, que parecem buscar surtir efeito sobre o leitor por outras estratégias, num ativismo que parece, ao menos nestes poemas abaixo, conclamar à resistência pelo sorriso.

Traduzi dois poemas, a partir da tradução para o inglês por Ike Mboneni Muila e cotejando sons e estruturas com o original. Isabella Motadinyane escrevia usando tanto Sotho (uma das 11 línguas oficiais da África do Sul), como Isicamtho, um dialeto urbano de Soweto.

Vem gente

Paaha
vem gente
paaha
vem gente
é hora de carpir as ervas
é hora da colheita
vem vamos conversar
vem em paz
paaha
vem gente
paaha
vem gente
é chegado o verão
a espiga de milho está madura e tenra
vocês já ouviram
notícias de alegria?
paaha
vem gente
paaha
vem gente


(paráfrase de Ricardo Domeneck)

:

Tlong beso
Isabella Motadinyane

Paaha
tlong beso
paaha
tlong beso
ke nako ya ho hlaolo
ke nako ya kotulo
tlong re buisaneng
tlong ka kutlwano
paaha
tlong beso
paaha
tlong beso
selemo se thwasitse
babele a hodile
na le utlwile na
taba ketse monate
paaha
tlong beso
paaha
tlong beso

§

Quieta bebê

Quieta bebê
anda alta
assovios aqui e ali
sorrindo feito estrela
com o rosto redondo
bebê de covinhas na bochecha
que prendem os olhos
nós vimos seu trabalho aqui
no campo
aqueles que dizem
que você é feia
são uns tolos
deixe-os no equívoco deles
brilha bela e ensolara
ho ha
quieta bebê
ho ha
a propósito
você é a número 1
anda alta bebê
brilha bela e ensolara
quieta bebê
ho ha
donde você se vai
ficam para trás estrelas
fala clã de Mohlakwana
fala clã de Mofokeng
nós vimos seu trabalho
presentes de núpcias
estão a caminho
vai irmã deixe-os zonzos
deixe-os tontos boneca
eles chegaram agora
os que tocarão sax para você

(paráfrase de Ricardo Domeneck)

:

Hoshe ngwana
Isabella Motadinyane

Hoshe ngwana
qata o qatoge
melodi kafa le fa
ngwana dikoti marameng
pososelo eka naledi
sefahlelo sone
botjhitja bo kgatlang mahlo
re bone mesebetsi ya hao
naheng mona
ba reng
o sekobo
ke baikaketsi
ba lese ba iphore jaalo
shine bright sunbeam
hoha
kana wena o motswa mantlha
qata o qatoge thope
shine bright sunbeam
hoshe thope
hoha
moo o fetileng
ho sala dinaledi
thebetha Mohlakwana
thebetha Mofokeng
re bone mesebetse ya hao
digaboi di dizzie ousie
slaat hulle giddy poppy
ba fehlile jwale
ba ho bapallang

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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Domeneck & Nikolaus - excertos em vídeo de uma performance em Berlim


Conheci Markus Nikolaus na noite de 15 de janeiro de 2013. É fácil lembrar-me da data, pois fora uma noite especial. Minha querida amiga e cúmplice no crime Annika Henderson, mais conhecida como Anika, tinha uma performance aquela noite no lendário Berghain, ao lado de Trust e Zebra Katz, e eu organizara para eles a festa pós-concerto em um local charmosíssimo da cidade chamado Loftus Hall. Markus, que estava no concerto para assistir justamente ao concerto de Anika, viria para a festa depois, onde nos conhecemos. 

Desde então, Markus, que se apresenta como poeta-músico sob o codinome Cunt Cunt Chanel, tornou-se uma das pessoas mais próximas e importantes em minha vida e começamos a colaborar em peças de spoken word + soundscape, assumindo para o projeto o codinome de dupla eletrocaipira Domeneck & Nikolaus. Apresentamo-nos na Bélgica, ao lado do Tetine, colaboramos em peça para o programa paralelo da retrospectiva de Hélio Oiticica no Museu de Arte Moderna de Frankfurt, e já temos performances programadas para 2014 em Roma, Madri e Barcelona.

O vídeo abaixo foi gravado em nossa última performance, em Berlim, durante a sexta edição do evento que organizo com meu outro grande amigo e cúmplice no crime Black Cracker, chamado READING: a night of text / sound / video, que investiga maneiras alternativas de publicação de texto (publicação no sentido de tornar público), seja em voz, música ou vídeo.

Nele, pode-se ou/ver a última estrofe da nossa primeira peça em colaboração, "Don´t feed the poet", e então na íntegra a peça mais recente, "No vacancies". Abaixo do vídeo, publico o texto da peça.


Domeneck & Nikolaus - performance em Berlim - 
parte da peça "Don´t feed the poet" e ainda "No vacancies" na íntegra.


No Vacancies
Ricardo Domeneck


"Cette vie est un hôpital où chaque malade est possédé du désir de changer de lit."
Charles Baudelaire

It is hard to believe the calendar or trust the GPS when you wish to be out of time, out of place, sharing the oxygen and geography with no other creature. Even harder to accept the clock or the map, so you repeat: “This is Berlin, not Tierra del Fuego, Poughkeepsie or Dubai, much less Hogwarts or Oz.” Here you are, connected, located by satellite, mobile, googlable, always in the attachment, twinkling like a star and twittered, your face on the book, my space is your space. Here I am, with a registered address, full of social security, a part of your whole, a member of the club, a resident, an alien, you can locate me better than I can find my navel, my cock, my anus, I sign up, I type in, I log on, I fade out. 52°30'N 13°23'E. Alone and crowded, hunting for the hole where to stick my entire body, if I could only dig that hole in you. Where is the so-called “The One”, is this some fucking Matrix, the joke is on me, only six degrees of segregation between my body and the perfect lover, maybe here, surely there, in 05°33'N 00°12' W or in 29°39'N 91°07' E, in Viznar, Uppsala or Lhasa, in Curitiba, Oaxaca or Accra. We all happy kids in our own little private hospital beds, our labeled and fashioned and styled pretty hospital beds. No spare rooms. You hum, you whisper, you buzz. “Hey Sister Morphine”, remember when your Nanny would sing you that song, her melons bobbling to the beat of the lullaby. The dogs barking in the neighbor´s yard. Beware of all dogs. You are not welcome here. Go on kid, take your clonazepam, your valerian, your promethazine, your catnip and camomile, sleep tight, here comes the high tide. You have been cheated of ever being at the right place, at the right time. Check your wristwatch, it has stopped, you have no pulse, your heart is clogged, your throat is sore. And this is what they call spring, this sorry excuse for a winter, this toxic rain over plastic flowers. But your hair is natural, your hair your good old friend, never leaves you, never abandons you, your good friend The Hair. And your lungs, tireless pair of things. Your nails, not growing, they don´t grow, what they do is try to escape from you. Your feet forgot the taste of a place. Vacation is over, school is closed, you must move on. Where, you ask. There. Or maybe there. Or there. We don´t have all day. March 19th 2010. 3 euros and 25 cents in your pocket, the one with a hole. There we go. You overslept. Missed the bus. Took the wrong turn. Walked one corner too much, one block too little. You were not the fitting X for the crucial Y. Actually you were lucky your parents ever met. Fucked. Didn´t choose abortion. I will go on mapping my displacement by the coordinates of your restlessness. Thank you very much. I am here, says the map, and elsewhere. Now, says the clock. It is the end and the beginning, and anywhere is only the place to forget the place before. Look at me. Look how I adapt to your natural habitat. Move over, this hospital bed is now mine.


(publicado como texto originalmente na revista alemã Zeitlosschrift, em 2010. Escrito especialmente para a revista, o mote dado aos autores da edição era o verso de Baudelaire que passei a usar como epígrafe).

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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Textículos encontrados num caderno de rascunhos


Poemetos de viagem

I. Da beleza mimética

um menino
muito bonito
na sala
para fumantes
do aeroporto
de zurique
estava a fitar
com a cara
enfiada na tela
os peixes
do aquário que era
porém digital
(ecológicos
os suíços)
e eu
por minha vez
o fitava
e me perguntava
se percebia
que aquilo
não eram mesmo
peixes
e então pensei
ora mas são
peixes

II. Da bondade benfazeja dos céus

Ainda que cínicos
diriam que comprada
bondade é bondade
a aeromoça
oferece-me chocolates
eu aceito os chocolates
não é preciso
o som dos sinos
ou anjo com bandeja
para que se reconheça
uma benfazeja
e que nosso martírio
e a serotonina
nossa de cada dia
são compartilháveis

III. Das mesmices da língua

Foi na cidade
do Porto
que um radialista
ao discutir
em seu programa
os hábitos
sexuais dos jovens
portugueses,
referindo-se ao que nós
brasileiros
chamaríamos de sexo
sem preservativo,
disse “relações
desprotegidas”
e emocionou-me
até o caroço.

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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Poesia sonora: "A fala e a folha", de Marcus Fabiano Gonçalves


LEITURA SINTÉTICA DE UM POEMA


"Apresento aqui uma experiência de leitura por sintetizador do meu poema A FALA E A FOLHA, do livro ARAME FALADO. Pesquisei nove softwares de assistência a deficientes visuais e de oralização de textos escritos, com um resultado, na maior parte das vezes, frustrante: falta ou excesso de velocidade, timbres robóticos, ausência de ritmo ou inexistência de interfaces para o português. Obtive o melhor rendimento com o programa BALABOLKA, termo que em russo significa algo como “moinho de palavras”. Abandonei as vozes artificiais e adotei o repertório (formato SP5) da voz de Raquel, a célebre locutora da grande maioria dos GPS e outros dispositivos falantes em nosso idioma. A leitura sintética é baseada na pronúncia silábica corrigida por princípios de entonação e acentuação. O leitor/ouvinte poderá notar as escorregadelas em alguns momentos do poema, bem como o êxito em outros instantes, dentre os quais destaco a difícil rima com a palavra “vernaculiza”, na qual a máquina saiu-se, creio, bastante bem. Por me considerar mau leitor de meus próprios poemas, escolhi justamente um que aborda as relações entre os discursos oral e escrito para essa interpretação artificial que, de resto, não me pareceu muito prejudicada por uma drástica falta de emoção, já que os seus versos vinculam-se a um tipo de sentimento intelectivo que se distancia da declamação ou da performance, impondo uma leitura despojada de afetações que é, ela mesma, um tipo específico de anseio estético. A paleta de recursos métricos, rítmicos e rímicos é também perceptível no gráfico de amplitudes que o Soundcloud gera a partir das unidades estróficas e seus intervalos. Quem desejar, poderá ainda ler no blog outras considerações minhas a respeito desse texto no final da postagem POEMA PARA DUAS VOZES E DIVERSOS SUPORTES." --- Marcus Fabiano Gonçalves


A FALA E A FOLHA
Marcus Fabiano Gonçalves

a fala exala, a folha fixa
o som sepulta, o livro ressuscita

a escuta deduz, a leitura explica
a conversa à-toa, a carta suicida

a eloquência alarga, a letra limita
a verborreia evacua, o conto constipa

o arauto proclama, o in-fólio publica
o adágio sugere, o compêndio doutrina

o branco olvida, o pergaminho eterniza
o dialeto meteco, a tradução peregrina

o depoente alega, o escrivão certifica
o tribuno improvisa, o assessor requinta

a voz abafa, o símbolo designa
o belo timbre, a letra na linha

o papo rola, o ponto pinga
o que se perde, o que se pagina

a lenda reza, o papiro decifra
o dito adeja, o volante aterriza

o repente inventa, o cordel sextilha
o rumor inocula, o jornal dissemina

o eco repete, a traça aniquila
a pronúncia elide, a correta grafia

o senhor & o escravo, a casta do escriba
o Minotauro do ouvido, o Teseu da pupila

a testemunha jura, o falsário assina
quem se degola, o que vira cinza

o sermão prega, a bula pontifica
o comentário tece, a crítica desfia

a língua lambe, o texto mandíbula
o lábio sibila, o acento na sílaba

o chinês diz, o ideograma imagina
o primata grunhe, a gruta se pinta

o papagaio imita, a prensa procria
o palato impele, a cunha na argila

o sertão gera, o Rosa ajardina
o verbo tricota, a escrita escumilha

[ou quando a folha e a fala:

a pauta prevê, o cantor modifica
a lauda calcula, o locutor recita

a glosa aclara, o narrador neblina
o pasquim revela, o porta-voz ludibria

a gramática arruma, o povo rebuliça
o que leva aspas, o que se vernaculiza

o cego apalpa, o surdo fita
o braille perfura, a mão pantomima

a tinta mancha, o silêncio faxina
a tábua manda, o pastor homilia

a regra depura, a babel mestiça
o suposto luxo, a dita pacotilha].

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in Arame Falado (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012).

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