quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Traduzindo um poema de Robinson Jeffers (1887 - 1962)

Robinson Jeffers (1887 – 1962).



Ave César

Sem amargor: nossos ancestrais o fizeram.
Apenas ignorantes e esperançosos, eles queriam liberdade mas também riqueza.

Seus filhos hão-de aprender a ansiar por um César.
Ou melhor -- pois não somos Romanos aquilinos mas colonos mestiços --
Algum tirano gentil da Sicília que manterá
Pobreza e Cartago à distância até que cheguem os Romanos,
Somos de gerenciamento fácil, um povo cordial,
Cheio de emotividade, esperto em gambiarras, e amamos nossos privilégios.

(tradução, com leve transcontextualização minha, aqui dos meus privilégios)

:

Ave Caesar
Robinson Jeffers


No bitterness: our ancestors did it.
They were only ignorant and hopeful, they wanted freedom but wealth too.
Their children will learn to hope for a Caesar.
Or rather--for we are not aquiline Romans but soft mixed colonists--
Some kindly Sicilian tyrant who'll keep
Poverty and Carthage off until the Romans arrive,
We are easy to manage, a gregarious people,
Full of sentiment, clever at mechanics, and we love our luxuries.


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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Carta aberta à mulher desesperada num poema de Jacques Prévert


Encontre-me
em qualquer esquina
da Rue de Seine
e tomaremos juntos um porre
de uísque tequila champanha
pois eu entendo a necessidade
por trás de sua pergunta
que o francês chamou
de grandiosa e estúpida
diga-me a verdade
diga-me a verdade
eu quero saber tudo
Pierre ou ____________
(insira o nome do macho)
também não me importa
que ele titubeie ou agite
os braços
feito um náufrago um afogado
eu também quis saber tudo
diga-me a verdade
diga-me a verdade
Moço
você quebrou minhas pernas
ponha com a verdade
os ossos no lugar
deixe-me purgar as fraturas
com a veritas
e só depois fazer o mergulho
in vino
não me faça perder tempo
precioso de cicatrização
com mensonges e menções
à bibliografia universal
dos estudos erológicos
sobre o pé na bunda
diga-me a verdade
que é sempre grandiosa
e estúpida
que me importa tua vontade
de partir sumir morrer
eu estou do lado dela
a desesperada a histérica
com sua gana de viver
Moço diga-me a verdade
Moço mas agora é tarde
dois anos tarde demais
para a verdade e os ossos
fora do lugar
veja e ria-se de como ora
caminho torto
pelas ruas da sua cidade
que sequer conta
com uma Rue de Seine
Moço diga-me
Moços digam-nos
então por ora quiçá
qualquer mentira
que nutra
nossa vontade nossa gana
de continuar
às costas às nucas
de um qualquer
Pierre ou Moço
pelas calçadas
da Rua Augusta
da Rue de Seine
da Kastanienalllee
da Madison Avenue
das Ramblas
carregando nos ossos
nossa verdade
que é deveras
grandiosa e estúpida


§


Rue de Seine
Jacques Prévert

Rue de Seine dix heures et demie
le soir
au coin d’une autre rue
un homme titube… un homme jeune
avec un chapeau
un imperméable
une femme le secoue…
elle le secoue
et elle lui parle
et il secoue la tête
son chapeau est tout de travers
et le chapeau de la femme s’apprête à tomber en arrière
ils sont très pâles tous les deux
l’homme certainement a envie de partir…
de disparaître… de mourir…
mais la femme a une furieuse envie de vivre
et sa voix
sa voix qui chuchote
on ne peut pas ne pas l’entendre
c’est une plainte…
un ordre…
un cri…
tellement avide cette voix…
et triste
et vivante…
un nouveau né malade qui grelotte sur une tombe
dans un cimetière l’hiver…
le cri d’un être les doigts pris dans la portière…
une chanson
une phrase
toujours la même
une phrase
répétée…
sans arrêt
sans réponse…
l’homme la regarde ses yeux tournent
il fait des gestes avec les bras
comme un noyé
et la phrase revient
rue de Seine au coin d’une autre rue
la femme continue
sans se lasser…
continue sa question inquiète
plaie impossible à panser
Pierre dis-moi la vérité
Pierre dis-moi la vérité
je veux tout savoir
dis-moi la vérité…
le chapeau de la femme tombe
Pierre je veux tout savoir
dis-moi la vérité…
question stupide et grandiose
Pierre ne sait que répondre
il est perdu
celui qui s’appelle Pierre…
il a un sourire que peut-être il voudrait tendre
et répète
Voyons calme toi tu es folle
mais il ne croit pas si bien dire
mais il ne voit pas
il ne peut pas voir comment
sa bouche d’homme est tordue par son sourire…
il étouffe
le monde se couche sur lui
et l’étouffe
il est prisonnier
coincé par ses promesses…
on lui demande des comptes…
en face de lui…
une machine à compter
une machine à écrire des lettres d’amour
une machine à souffrir
le saisit…
s’accroche à lui…
Pierre dis-moi la vérité


(Paroles. Paris: Gallimard, 1946).

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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Jovens poetas europeus: Ondřej Buddeus


Ondřej Buddeus é um poeta, ensaísta e tradutor tcheco, nascido em Praga em 1984. Ele traduz do alemão e norueguês (J. Winkler, J.E. Vold, A. Mortensen, entre outros) e é editor da revista de literatura tcheca contemporânea Psí vino.


 
Ondřej Buddeus - "a me". Criado em conjunção com a exibição "adaptation" (Graz: Steirischer Herbst, 2012), 
da qual o poeta participou. O texto-instalação fará parte de um livro intitulado "a me"
a ser lançado em fevereiro de 2014.


Seus textos foram traduzidos para o alemão, italiano, polonês, galês, húngaro e inglês. Estreou em livro com 55.007 caracteres com espaços (2011) e Swiflty (2013), pelo qual recebeu o Prêmio Jiří Orten




Sua publicação mais recente é um livro infantil em colaboração com o artista David Böhm. As traduções-parâfrases abaixo foram feitas a partir das traduções para o inglês. Ondřej Buddeus vive e trabalha em Praga.



POEMAS DE ONDŘEJ BUDDEUS



O poema flexível

Este poema é flexível
dinâmico
compatível com absolutamente
qualquer coisa
por exemplo Karel que Milena abandonara
ele estava muito bem
até que caiu a ficha
ele leu este poema flexível
que se adaptou a ele
abriu seus olhos
e o centrou
neste mundo louco
dessarte ele está bem de novo
ou veja a pequena Tereza
ele tinha pavor
que eles finalmente viessem
e eles vieram
ela leu para eles este poema
e eles sumiram de imediato
ou como ontem
ainda estava lá
e hoje não mais
o motivo, a consequência
o resultado sumiram
tome três vezes ao dia após refeições
faça suas orações urine e vá pra cama
amanhã
estará lá novamente
Um último exemplo:
você acordou
devorou o café-da-manhã e saiu
por cinco horas
eu me sentei pensando
e então escrevi
não!
por quatro horas
eu me sentei pensando
e então escrevi
sim!
você voltou
e de repente aí está.
este é um poema flexível
ninguém precisa ter vergonha dele
ou por ele
ele está aqui para todos
até mesmo para você
sinta-se à vontade para confissões

(paráfrase de Ricardo Domeneck, a partir da tradução inglesa)

§

Estado de equilíbrio (Fazer o bem I)

ele veio para fazer
o bem, disse ele.
puxou uma cadeira.

ele sentou-se
ele disse nada
ele fez o bem.

:


Estado de equilíbrio (Fazer o bem II)



ele veio para fazer
o bem, disse ele.
puxou uma cadeira
e começou.

com o tempo
pedimos a ele
fosse fazer o bem
em outro lugar


§

Como sair em busca de Bárbara

Dedique uma tarde à busca de Bárbara.
Passeie pela rua central da vila, pela praça da matriz
ou pelo comércio
e pergunte às mulheres que atraírem seu olhar: "Com licença,
você por acaso seria Bárbara?" Se for negativa a resposta,
desculpe-se. Se for afirmativa a resposta, prossiga:
"Poderia fazer mais uma pergunta - você me reconhece?"
Se for negativa a resposta,
prossiga em sua busca por Bárbara.


§

gatilho

eu puxo o gatilho
viro-me e contemplo
a tela
eu puxo o gatilho viro-me
e contemplo a tela
eu puxo o gatilho viro-me e contemplo
a tela sou eu

você puxa o gatilho
vira-se e contempla
a tela
você puxa o gatilho vira-se
e contempla a tela
você puxa o gatilho vira-se e contempla
a tela é você

eu subo minha camisa tensiono
meu abdômen e puxo
o gatilho viro-me e contemplo
a tela este sou eu
digo e mostro para você

você sobe sua camisa
pesca um seio do sutiã e puxa
o gatilho vira-se e contempla
a tela esta sou eu
você diz e me mostra

há-de haver amor




Ondřej Buddeus (Praga, República Tcheca, 1984)


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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Dos satyricus: "Brace Brace for Crash Loving" (2014)


"Brace Brace for Crash Loving" (2014)

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21 anos, hoje, do suicídio de Pe Cas Cor



Pedro Casariego Córdoba, também conhecido na Espanha como Pe Cas Cor, nasceu em Madri em 1955. Iniciou seu trabalho poético por volta de 1974, escrevendo em geral poemas-em-série, como pequenos roteiros, em que personagens estranhas, num ambiente quase lynchiano, convivem com personagens históricas, como nos livros La canción de Van Horne, El hidroavión de K., La risa de Dios, Maquillaje. Letanía de pómulos y pánicos, La voz de Mallick (pelo qual recebeu o prêmio Juan Ramón Jiménez, em 1989) e Dra. Um exemplo, que abre o poema-em-série El Hidroavión de K., escrito em 1978:

El atractivo
tejido vitamínico
que constituye el alma
de la mujer de Laos.
La torpe avitaminosis
que corroe a Kierkegaard.
La mujer de Laos
se hace un ovillo
un ovillo de lana natural.
Kierkegaard
tejerá con ella
un tapiz de color azul.
Galán de bisutería
nuestro hombre se adelanta.


(in El Hidroavión de K., 1978)

O poeta publicou pouco em vida. A maioria desses poemas-em-série seria reunida no volume Poemas Encadenados (1977-1987), publicado na Espanha pela editora Seix Barral, em 2003, dez anos após a morte do poeta. Como o poeta escreveu no poema de abertura de La voz de Mallick (1981):

Wataksi
escúchame.
He callado y he callado más aún:
mi silencio ha sido más largo
que el camino de la serpiente
más profundo
                          que el dolor de la hiena.


(La voz de Mallick, 1981)


O ano de 1987, no qual escreve um único poema, marca seu abandono da poesia, passando a dedicar-se à pintura e ao desenho, até o ano de 1993, quando decide deitar-se na frente de um trem. O poeta se assemelha em sua estranheza e posição marginal, na poesia espanhola contemporânea, a Leopoldo María Panero (n. 1948), o outro "esquisito" da década de 70 espanhola. Cometeu suicídio no dia 6 de janeiro de 1993.


POEMAS DE PEDRO CASARIEGO CÓRDOBA


O suicídio é só teu

                                                  Ron Padgett,
                                   Suicide is only yours
                                                                 1984

Todos se deitaram
e chegou o medo

Meu coração conta suas batidas
e tua grande bunda rosa me protege

Tua grande bunda amável me defende do frio
mas atrai os pernilongos

Tua dor não é muito grande
se podes pedir ajuda

Uma bolsa d´água quente em minha cama
e toda a solidão do mundo

Aquele bar é o ninho de bocas domadas
e agora é noite e ranges os dentes

Indefeso como o espirro de um pássaro
vejo batidas que foram minhas

Se queres meter-te uma bala
eu te emprestarei meu revólver

Meu revólver é um manancial de esperança
tão seco como o ventre de uma anciã

Assina com meu revólver um cheque sem fundos
e compra um ingresso para o fundo da terra

Uma bala é um buraco no paladar
e um jejum eterno e barato

Tua grande bunda rosa e delicada
já não pedirá carne ou ar

Quem pintou de negro meus pulmões
para a torpe alegria da noite?

Se queres meter-te uma bala
eis aqui desinfetado meu revólver.

(tradução de Ricardo Domeneck)

§

El suicidio es sólo tuyo
Pedro Casariego Córdoba

                                                  Ron Padgett,
                                   Suicide is only yours
                                                                 1984

Todos se acostaron
y llegó el miedo

Mi corazón cuenta sus latidos
y tu gran culo rosa me protege

Tu gran culo amable me defiende del frío
pero atrae a los mosquitos

Tu dolor no es muy grande
si puedes pedir ayuda

Una bolsa de agua caliente en mi cama
y toda la soledad del mundo

Aquel bar es el nido de las bocas domadas
y ahora es de noche y aprieta los dientes

Indefenso como el estornudo de un pájaro
veo latidos que fueron míos

Si quieres pegarte un tiro
yo te prestaré mi pistola

Mi pistola es un manantial de esperanza
tan seco como el vientre de una anciana

Firma con mi pistola un cheque sin fondos
y compra un billete para el fondo de la tierra

Una bala es un agujero en el paladar
y un ayuno eterno y barato

Tu gran culo rosa y sencillo
ya no pedirá carne ni aire

¿Quién pintó de negro mis pulmones
para torpe alegría de la noche?

Si quieres pegarte un tiro
aquí tienes mi pistola limpia.

§

Poemas publicados no segundo número impresso da Modo de Usar & Co.:



Esta solidão

esta solidão é filha de uma altura equivocada
eu tenho o vício dos céus
sou o único proprietário
do ar ossudo e dos pássaros fáceis

os ossos azuis do céu
formam um espaço grande e delicado
e se partem em tormenta
e descem em água
para acabar em lápide sem nome

o vermelho das minhas mãos é um mistério
porque brota de rios brancos que se inclinam como lápides

através da tela metálica
cabisbaixa a erva daninha rouba o início do outono

no outono os ladrões de céu
carregam silêncio no bico e tumba nas asas

agarro-me à tela metálica
e não tenho dinheiro

as mulheres redondas sempre têm dinheiro
mas quando olham para o alto a celebrar uma cama nova
alguém obstrui o céu com uma navalha de ar

agarro-me à tela metálica
e não tenho mulher redonda

eu tenho o vício do céu porque tenho medo
porque sou covarde

mulher inteira nada tenho a oferecer desamarrote minha tormenta
A JANTA É ÀS 6.
EU SOU O GARÇOM.

:

ESTA SOLEDAD / esta soledad es hija de una altura equivocada / yo tengo el vicio del cielo / soy el único propietario / del aire huesudo y de los pájaros fáciles // los huesos azules del cielo / forman un espacio largo y delgado / y se quiebran en tormenta / y bajan en agua / para acabar en lápida sin nombre // el rojo de mis manos es un misterio / porque brota de ríos blancos que se inclinan como lápidas // a través de la tela metálica / cabizbaja la mala hierba roba el principio del otoño // en otoño los ladrones del cielo / llevan silencio en el pico y tumba en las alas // me agarro a la tela metálica / y no tengo dinero / las mujeres redondas siempre tienen dinero / pero cuando miran hacia lo alto para celebrar una cama nueva / alguien impide el cielo con una navaja de aire // me agarro a la tela metálica / y no tengo mujer redonda // yo tengo el vicio del cielo porque tengo miedo / porque soy cobarde // mujer entera no puedo darte nada plancha mi tormenta / LA CENA ES A LAS 6. / YO SOY EL CAMARERO.

§

16 de julho


mãe
      arranque a partir de hoje a coroa
                                                    de rainha da insônia
            porque é uma coroa falsa
                     nem uma única pedra preciosa
                             e mesmo assim
       quando não pode dormir
                     você se converte na enfermeira do céu
            médico de cabeceira dos cometas
                                   nuvens sensíveis
                                                estrelas que têm febre

como se compadece o sonho
          aquele que congela suas mãos
                                 suas mãos fundas de beleza
                                                                de rastelo
                             de tesouras de duas luas

               dois jardins suas mãos quando regam
           dez flores seus dedos quando plantam
                                                      algo       um bulbo?
                    que parece uma toupeira
                                                      tão fechada em si
                                     como uma noz
                        e que
                                 com certeza
               se abrirá amanhã
                            para soltar um pássaro de pétalas
           o pássaro há de tossir um pouco
                              pedirá um cigarro
                                                                e dirá
   que lhe observa quando você não pode dormir
                                   e que
                bem no momento em que consegue domir
       aparece no calor do céu de verão
         uma estrela nova e fraquíssima

talvez por isso lhe custe tanto dormir
                 iluminar uma estrela ferida
   fazer curativos na perna quebrada de uma estrela acrobata demais
         não está ao alcance dos que dormem como pedras
     dos que se esquecem das pernas alheias
                             as penas alheias
                             as próprias penas
                                                               mãe
                    creio em sua coragem
                                                               creio


:

16 DE JULIO // madre / quítate desde hoy la corona / de reina del insomnio / porque es una corona falsa / ni una sola piedra preciosa / y sin embargo / cuando no puedes dormirte / te conviertes en la enfermera del cielo / médico de cabecera de los cometas / nubes delicadas / estrellas que tienen fiebre // qué compasivo es el sueño / el que congela tus manos / tus manos hondas de belleza / de rastrillo / de tijeras de dos lunas // dos jardines tus manos cuando riegan / diez flores tus dedos cuando plantam / algo ¿un bulbo? / que parece un topo / tan encerrado en sí mismo / como una nuez / y que / seguro / mañana se abrirá / para soltar un pájaro de pétalos / el pájaro toserá un poco / te pedirá un cigarrillo / y te dirá / que te mira cuando no puedes dormir / y que / justo cuando consigues dormirte / aparece entre el calor del cielo de verano / una estrella nueva y debilísima // quizá por eso te cueste tanto dormirte / alumbrar una estrella herida / vendar la pierna rota de una estrella demasiado saltimbanqui / no está al alcance de los que duermen a pierna suelta / de los que olvidan las piernas de los otros / las penas de los otros / sus propias penas / madre / creo en tu coraje / creo


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domingo, 5 de janeiro de 2014

Um poeminha bem sem vergonha

Poema-cantata, quer dizer: cantada para o músico Manuel Hofer, escrito enquanto tocava, com Hèlene Tysman, o "Romeu e Julieta" de Prokofiev na Igreja do Rosário em Tiradentes, provando que este poeta merece o inferno

Quando primeiro vi o austríaco
Manuel Hofer, que doma a viola,
não sabia ao certo se ia ovular
ou enfiar num buraco, avestruz,

a minha cara que é de peroba,
não de Carrara. Ereto, ele toca
no palco o Romeu de Prokofiev,
e eu sonho ser só sua Juliette.

Enquanto move-se tal Kabuki,
eu sinto-me um cafuçu tosco
por imaginá-lo num Bukakke,
cobiçando suas pernas e torso.

Donde essas madeixas loiras
se afirma ter genes de mexicas?
Posso ajudá-lo a virar a página
se me contratar como calouro.

Roubo seu tabaco, tendo cigarros,
apenas para em sentido figurado
incendiarmos alguma coisa juntos.
Não perca a chance, pré-túmulo,

de lermos, de queixo na barriga,
poemas de Cavafy, O´Hara, Piva,
enquanto unimos métrica e vida
na prática de suas canetas fálicas.

Não quero mais só dessas coxias
exercitar luxúria com suas coxas.
Vamos para a Inaccessible Island.
Queremos os dois fuga à Islândia.

Vizinhos já, por que não de cama?
Dar-nos-emos mútua petite morte
ao som de Der Tod und der Mann.
Serei tua viola nova, tua consorte.

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sábado, 4 de janeiro de 2014

Jovens poetas europeus: Gabrielė Labanauskaitė


Gabrielė Labanauskaitė é uma poeta textual e vocal, prosadora, dramaturga e crítica lituana, nascida em  1980. Estudou História e Teoria Literária na Universidade de Vilnius e mais tarde seguiu seus estudos nas Universidades de Jyvaskyla (Finlândia) e Parma (Itália). Hoje, leciona Teoria Dramatúrgica na Academia de Música e Teatro de Vilnius. Estreou como dramaturga em 2003, com a peça "Aquilo que mais machuca". Em sua poesia, Gabrielė Labanauskaitė tem privilegiado a oralidade, lançando seus poemas em álbuns como Apelsinai aikštėj apgriuvusioj (Laranjas em uma praça destituta, 2004).


Em 2009, fundou o coletivo de poesia sonora AVASPO, com o qual lançou vários álbuns. Alguns exemplos de suas performances coletivas podem ser encontrados em vídeos, abaixo.


A tradução foi feita a partir da inglesa, tentando respeitar certa estrutura sonora no original. Labanauskaitė vive e trabalha em Vilnius.

§

POEMA DE GABRIELÈ LABANAUSKAITÈ

[Como o calendário maia, os anos passados]

Como o calendário maia, os anos passados somam zero
Significando nada mais que uma concha vazia.
E nossa existência
É igualmente insignificativa
Ou talvez a mesma conquista -
Depende de sua vista.

Mas mesmo assim não faz diferença.

:

[Kaip majų kalendoriuje prabėgę metai susiveda į nulį]

Kaip majų kalendoriuje prabėgę metai susiveda į nulį
Reiškiantį nieko daugiau, tik tuščią kevalą
Taip ir mūsų buvimas
Yra toks pat beprasmiškas
Arba toks pats išsipildymas –
Čia jau kaip pažiūrėsi.

Bet juk net ir nuo to niekas nesikeičia.


§


§


Gabrielė Labanauskaitė, Žygimantas Kudirka & Darius Jurevičius - "nunu"


§



Nota: esta postagem é dedicada ao amigo lituano Dovydas Sidabras.


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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Feliz aniversário, Marius Funk.



Hoje é aniversário do meu queridíssimo Marius Funk, excelente DJ e produtor berlinense nascido em 1986, meu vizinho em Prenzlauer Berg, amigo grande, e distribuidor de boa música através de seu blogue e discotecagens. Eu o celebro aqui, já que estou longe demais para poder dar um abraço nele.



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Comentários ao artigo "Poesia Brasileira Hoje", de Paulo Henriques Britto

Li hoje o artigo de Paulo Henriques Britto para a Los Angeles Review of Books, intitulado "Poesia Brasileira Hoje" (em inglês e português no link ao lado). Escrito para o público americano, que tem um conhecimento parquíssimo sobre a Literatura Brasileira, o texto delineia a História Oficial de nossas letras desde o século XIX até os dias de hoje.

Peço licença para tecer um par de comentários sobre o artigo, de um poeta, tradutor e crítico que respeito e que, aliás, já foi generoso com meu trabalho.



O primeiro tem a ver justamente com esta "História oficial". É uma questão complexa, mas se acredito que ela deve começar a ser questionada aqui, faz sentido espalhá-la pelo estrangeiro? Minha decepção, ao contrário do que alguns possam imaginar, está na descrição oficialesca que ele faz do século XIX.



Não podemos, e esta é apenas minha opinião, seguir com esta narrativa histórica única, herdada em grande parte dos nada desinteressados Modernistas de 22. Sinto uma falta de capacidade nossa em pensar Histórias alternativas, em compreender precisamente a narratividade e a historicidade de qualquer "narrativa histórica".

Estado de exceção? A Literatura é toda ela um estado de exceção. Precisamos evitar os efeitos do inchaço bibliográfico do que Dirceu Villa já chamou de "historiografia do típico". Que parece nos impedir de rever o que nos interessa HOJE.

A Modernidade literária brasileira firma-se no fim do século XIX. Repetir ininterruptamente a narrativa da construção nacional tem sua relevância talvez como historiografia, mas já não mais interessa como visão e narrativa unívocas da Literatura brasileira. Pois, como sempre, acaba jogando à margem, como se deu mais uma vez aqui, artistas como Qorpo-Santo, Joaquim de Sousândrade, Luiz Gama, Sapateiro Silva e Raul Pompeia, que sequer são mencionados no texto. Mas como, se são hoje mais importantes que José de Alencar, ao menos para quem lê mais que manuais escolares de literatura?

Assim como seguimos vendo o século XIX sob a lente de contato dos militares de então, seguiremos vendo nossa modernidade como mero pré-modernismo? Os rapazes importantíssimos e necessários de 1922, por mais que ame a obra de vários deles, empalidecem muitas vezes perante a fúria est-É-tica daqueles dragões das últimas décadas do século XIX que mencionei aqui, ligados ainda ao gigantesco Machado de Assis, assim como Cruz e Sousa, ou, entrando já no século XX, Euclides da Cunha, Lima Barreto e Augusto dos Anjos. Por serem autores que vão justamente contra essa noção de mera construção nacional. Como já disse algures, criam "não mitos da fundação, mas crônicas do afundanço." Esses autores já estavam enfrentando o "cronicamente inviável" no século XIX, acima de ufanismos. Sua violência política e modernidade literária seguem sendo exemplares. E as duas estão, creio, conectadas.

Paulo Henriques Britto chama estes autores de meros "stirrings of modernity in the previous generation". Quantos países realmente contavam com tal modernidade em 1914, às vésperas da Grande Guerra? Não deveríamos estar apresentando, não só a nossos estudantes nas escolas, mas também a leitores estrangeiros, o que temos de melhor? Havia muito mais que meras ideias importadas da França agitando-se naquela fabulosa geração das últimas décadas do século XIX. 

Este foi um dos meus maiores incômodos. O artigo busca certa neutralidade, ainda que ele pareça ter compreeendido melhor, como era de se esperar, a pluralidade de vozes de sua própria geração. Talvez estejamos todos presos a esse dilema. 

Tive prazer em sua atitude non-partisan com outros momentos, como a década de 50 e seu resgate de um poeta como Mario Chamie, que deveria ser lido para além da lei de silêncio imposta por Noigandres. Duvido que os herdeiros eleitos em SP vão gostar muito disso. Assim como apreciei a importância que dá à Tropicália. 

Paulo Henriques Britto é um crítico consciente e generoso, como podemos ver em sua apreciação de três poetas tão distintos quanto Edimilson de Almeida Pereira, Érico Nogueira e Ismar Tirelli Neto. Considero os três importantes, e é um sinal de inteligência que ele possa perceber a obra de Edimilson para além da questão política, mas que é importantíssima e que defendo, assim como ele pôde ver além do aspecto conservador apenas de superfície do trabalho de Érico Nogueira. 

Mas, por fim, menciono outro grande incômodo com o texto: de cerca de 20 parágrafos para um texto intitulado "Poesia Brasileira Hoje", apenas 3 são realmete dedicados à poesia brasileira de hoje.

Em Frankfurt, pude testemunhar Luiz Costa Lima subir a um palco, convidado a falar sobre a "poesia brasileira hoje", e passar uma hora tergiversando justamente para não falar sobre a poesia brasileira de hoje. 

Isso me parece uma pena. Por mais que os americanos precisem de uma "contextualização", mais tempo poderia ter sido dedicado à poesia brasileira de hoje, se este era o objetivo. De qualquer forma, estes 3 parágrafos são uma contribuição à discussão.

Há outras coisas a serem discutidas no texto. A ideia de uma "turn to the normalcy" parece-me complicadíssima. Há outras "histórias oficiais" apresentadas no texto que merecem questionamento, como o alardeado suposto "fim das utopias", com data marcada e tudo. 

Ainda vamos manter esse discusro em pleno final de 2013, hoje já 2014? Isso é algo que venho questionando a partir de certas falácias narrativo-críticas do ensaio de Haroldo de Campos sobre o "poema pós-utópico" já há algum tempo. Talvez não seja o lugar de voltar a isso. No ensaio que estou escrevendo para a revista alemã Babelsprech, sobre a "poesia brasileira hoje", talvez possa responder a algumas destas outras questões. Se alguém mais quiser entrar no debate, minha caixa de comentários está à disposição. Só não estou interessado em Fla-Flu. 



Ricardo Domeneck, 2 de janeiro de 2014.

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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Dicionário sem memória


                           "Demasiado velho para pegar em armas e combater como os demais
                            foi-me generosamente atribuído o cargo inferior de cronista
                            e registro – sem saber para quem – a história do cerco"

                                                Zbigniew Herbert, "Crônica de uma cidade sitiada"


Quando a base da pirâmide
ensaia mover-se, o cume
não cambaleia
ou desequilibra-se
de suas certezas cimeiras.
Em Tácito, Percênio
não passa de um bufão,
as legiões panônicas
um bando de preguiçosos
oportunistas entre o féretro
de Augusto e a tiara a Tibério.
Quem hoje negaria
reivindicação tão plausível
de um denário
por jornal, serviço
de dezesseis anos?
Insolência plebeia.
"Estão ociosos,
por isso gritam",
disse Faraó dos hebreus
e aumentou-lhes
sobremaneira a carga
horária sem holerite.
E mesmo a Euclides
custou bipartir o Sertão.
Ainda assim, desfilamos
a cada Quinze de Novembro
para festejar
outro golpe de milicos.
Repitam comigo:
Peixoto, Vargas, Médici.
Vem aí a nova novela das 7.
"Mudar para não mudar", cerne
da ordem e progresso
na República Federativa.
Dos irmãos Vinagre
à Revolta do vinagre,
de Palmares à Chibata,
rebelar-se contra o castigo
convida mais chicote
e acinte. Nas cenas
do próximo capítulo,
veremos na acrópole
e na ágora, na Augusta
e no Senado, os cidadãos pasmos
ante rebeliões de ex-escravos,
e outros bárbaros subjugados
que recusam e questionam
suas dádivas civilizatórias.
Que se contentem
como metecos, brada-se
do Oiapoque ao Chuí.
Onde já se viu?
Classes
inferiores exigindo catarse
em seus teatros, ao alcance
de sua acústica?
É o fim das pilastras
dóricas desse Eldorado.
Há quem tenha dicionário
mas não muita memória.
"Guerra psicológica",
pronuncia a presidente
cercada de engenheiros,
não de poetas. Mas,
como vimos em Tácito,
sabe-se que mesmo escribas
defendem sua gleba.
Toda transição
tem seus desafetos.
Augusto e Tibério,
Lula e Rousseff.
Tive menos sorte
que Catulo, não apenas
na repartição do talento:
aquele ao menos
morreu numa República.
Ora viva nossa crônica
Síndrome de Estocolmo.
"Ó abre alas", 
mas não muito largas
pois vivemos
em cidade sitiada.
Do Velodrôme d´Hiver
ao Reformatório Krenak,
de Deir ez-Zor a Babi Jar,
de Guantanamo a Guanajay, 
de Wounded Knee e Sandy Creek
a Haximu e Capacete.
Sabemos o destino
dos povos menores
a cada Queda de Muro.
O Gigante acordou, Johnny Walker
não
anda de ônibus.
A História
ora uma graphic novel,
e o velho  tédio
de ouvir o capitão
gritar "Isso é motim!",
no filme, quando começa
o motim. Você
já foi a Inhotim?
Perdoem-nos, leitores.
Escritores vivemos confusos,
em nosso pledge of allegiance,
desde 1789. E 1917
deixou-nos propriamente
esquizofrênicos.
Mais um ano,
mais mil danos
e nenhum substituto
para o Angelus Novus.
Sim, lamentamos as lacunas
da narrativa, todos os mortos
que não tiveram tempo
de ter seus próprios capítulos,
ou sequer suas notas
de rodapé, mas History,
queridos,
is the chronicle of leftovers.
E em certos países, restos
são a nutrição perfeita
na lavagem para porcos.



(dezembro de 2013 - janeiro de 2014)


§

Nota:


Com os últimos versos escritos em 2013 e os primeiros de 2014. A primeira ocasião, uma releitura de Auerbach. A última? Os últimos acontecimentos risíveis da República.

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