Seguir amando você, Moço,
sem receber algo em troca,
quando os amigos ao redor
me chamam de tolo, idiota,
é a minha única resistência
efetiva contra este sistema
capitalista, que agora reina.
De algum ponto da estante,
Rumi sorri, e Simone Weil.
§
Berlim, 2 dias antes de cumprir anos sem ele.
Claramente, o bem deste mal mostra-se incurável.
.
.
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quarta-feira, 2 de julho de 2014
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Poema inédito na revista portuguesa "Enfermaria 6"
Descoberta de Antínoo, Delfos, 1893
No ano passado, escrevi um poema que terminava com um "eu juro que juro que esta é a última vez que te canto", querendo que fosse o último texto jogado no colo d´O Moço. Depois disso, ainda acabei escrevendo mais uns três ou quatro. Mas chega uma hora em que qualquer poeta, até dos mais obcecados, precisa dar um basta na sua Beatrice, especialmente quando ela anda doando apenas beatices. Foi então que eu pensei num certo filantropo que aparece aqui em casa de vez em quando, e decidi celebrá-lo. Como não posso revelar o nome, chamei-o de Maximin, numa das minhas acanhadas tentativas de participar da melhor tradição do culto a Antínoo. Para quem não conhece, "Maximin" foi o Antínoo de Stefan George. Esta é a primeira das "Odes a Maximin", publicada hoje na revista portuguesa Enfermaria 6. Há quatro já. Planejo dez. Elas virão precedidas por esse textículo de exórdio:
Ora
cansei-me d´O Moço,
há o tempo de bajular
e o tempo de escorraçar
os fantasmas
dos natais passados
para permitir-me
deixar-me encurralar
por outros
e dessarte inicio
esta celebração
do bendito
menino filantropo
que passo a chamar
de Maximin.
E abaixo, a primeira delas. Grato a Tatiana Faia por acolher minhas baboseiras em sua ótima revista. E grato a Victor Heringer por me mostrar a foto acima.
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segunda-feira, 23 de junho de 2014
R.I.P. Rose Marie Muraro (1930 - 2014)
Rose Marie Muraro foi uma escritora brasileira, nascida no Rio de Janeiro a 11 de novembro de 1930. Foi uma das intelectuais brasileiras mais importantes no campo de batalha da política de gênero. Representante maior do movimento feminista no Brasil, deixou contribuições essenciais, como o livro Por Uma Erótica Cristã (1986), que levaria à sua expulsão da Editora Vozes por ordem do Vaticano. Perdemos esta grande voz no dia 21 de junho de 2014.
Cada espécie animal percebe o real segundo a vida que lhe é peculiar. A espécie humana relaciona-se com ele por meio de seus sistemas simbólicos. E é exatamente por esse motivo que ela é a única espécie que o pode transformar. Mas, embora a capacidade de simbolizar seja inata, seu uso varia ao longo dos tempos.É pelos sistemas simbólicos que os seres humanos pensam, falam, se comunicam e criam as suas leis de comportamento e, portanto, os seus sistemas sociais, políticos e econômicos. Esses sistemas variaram muito nos 2 milhões de anos de vida de nossa espécie, principalmente nos últimos 10 mil anos do nosso período histórico. O grande erro dos pensadores foi tomar os sistemas, que foram socialmente construídos, como biológicos e imutáveis. Isso aconteceu, por exemplo, com os psicólogos do fim do século 19 e do início do século 20, principalmente Freud e Lacan. Freud afirma que a natureza foi madrasta com a mulher porque ela não tem a capacidade de simbolizar como o homem. Lacan afirma que o simbólico é masculino e que "a mulher não existe". Não existe porque não tem acesso à ordem simbólica. A palavra pertence ao homem e o silêncio pertence à mulher. Segundo ele, o simbólico é estruturado pela cadeia de significantes na qual o grande organizador é o falo. Este, ao mesmo tempo, é metáfora do órgão sexual masculino e do poder. O poder -que é essencialmente masculino- é o "grande outro", ao qual, implícita ou explicitamente, todos os atos simbólicos humanos se referem. Incluem-se aí os pensamentos, os gestos, as leis e até os sistemas macro (políticos e econômicos). E, de fato, ele tem razão. A realidade humana é gendrada (gendered), como gendrados somos todos nós. Todos os sistemas simbólicos atuais foram sendo fabricados pelos -e para os- homens. Leis, gramática, crenças, filosofia, dinheiro, poder político eeconômico.Na última metade do século 20, no entanto, algo novo aconteceu. Os dois grandes resultados da sociedade de consumo são a entrada da mulher no mercado mundial de trabalho -uma vez que o sistema fez mais máquinas do que machos- e a destruição dos recursos naturais -porque os retirou da natureza num ritmo mais acelerado do que capacidade de reposição dela.
*
As mulheres já estão entrando nos sistemas simbólicos masculinos; ajudando a desconstruir a ordem universal de poder. As mulheres entram nos sistemas simbólicos masculinos no momento em que esses estão se mostrando implacavelmente destrutivos em relação à vida. A tarefa monumental que os movimentos de mulheres e as mulheres têm hoje é a de construir uma nova ordem simbólica não mais centrada sobre o falo (o poder, o matar ou morrer que é a sua lei), mas uma nova ordem que possa permear desde o inconsciente individual até os sistemas macroeconômicos, mas, agora, numa nova ordem estruturada sobre a vida. Essas reflexões não poderiam estar sendo feitas se esse trabalho já não estivesseem curso. Já estão sendo construídos consensos entre os povos contra uma dominação global que exclui o grosso da humanidade e sobre uma nova ordem que inclua uma relação complementar entre os gêneros, uma família democrática, um tipo de relação econômica que não transfira a riqueza de todos para os poucos que dominam, que inclua relações comerciais e econômicas menos desumanas e destrutivas. As mulheres já estão entrando nos sistemas simbólicos masculinos. E não só nas instituições convencionais (empresas, partidos etc.), mas também em outras, muitas vezes na contramão da história (nas lutas populares, ecológicas, pela paz etc., onde são a grande maioria). Elas estão construindo uma nova ordem simbólica, na qual o "grande outro" é a vida (viver e deixar viver), e ajudando a desconstruir a atual ordem universal de poder. Se não trabalharmos nessa profundidade, por mais que se transformem as estruturas económicas antigas, elas tenderão a voltar. Ou substituímos a função estruturante do falo pela função estruturante da vida ou não teremos mais nem falo nem vida.
*
Excerto do documentário Memórias de uma mulher impossível,
de Márcia Derraik, sobre a escritora Rose Marie Muraro.
§
POR UMA NOVA ORDEM SIMBÓLICA
Rose Marie Muraro
Cada espécie animal percebe o real segundo a vida que lhe é peculiar. A espécie humana relaciona-se com ele por meio de seus sistemas simbólicos. E é exatamente por esse motivo que ela é a única espécie que o pode transformar. Mas, embora a capacidade de simbolizar seja inata, seu uso varia ao longo dos tempos.É pelos sistemas simbólicos que os seres humanos pensam, falam, se comunicam e criam as suas leis de comportamento e, portanto, os seus sistemas sociais, políticos e econômicos. Esses sistemas variaram muito nos 2 milhões de anos de vida de nossa espécie, principalmente nos últimos 10 mil anos do nosso período histórico. O grande erro dos pensadores foi tomar os sistemas, que foram socialmente construídos, como biológicos e imutáveis. Isso aconteceu, por exemplo, com os psicólogos do fim do século 19 e do início do século 20, principalmente Freud e Lacan. Freud afirma que a natureza foi madrasta com a mulher porque ela não tem a capacidade de simbolizar como o homem. Lacan afirma que o simbólico é masculino e que "a mulher não existe". Não existe porque não tem acesso à ordem simbólica. A palavra pertence ao homem e o silêncio pertence à mulher. Segundo ele, o simbólico é estruturado pela cadeia de significantes na qual o grande organizador é o falo. Este, ao mesmo tempo, é metáfora do órgão sexual masculino e do poder. O poder -que é essencialmente masculino- é o "grande outro", ao qual, implícita ou explicitamente, todos os atos simbólicos humanos se referem. Incluem-se aí os pensamentos, os gestos, as leis e até os sistemas macro (políticos e econômicos). E, de fato, ele tem razão. A realidade humana é gendrada (gendered), como gendrados somos todos nós. Todos os sistemas simbólicos atuais foram sendo fabricados pelos -e para os- homens. Leis, gramática, crenças, filosofia, dinheiro, poder político eeconômico.Na última metade do século 20, no entanto, algo novo aconteceu. Os dois grandes resultados da sociedade de consumo são a entrada da mulher no mercado mundial de trabalho -uma vez que o sistema fez mais máquinas do que machos- e a destruição dos recursos naturais -porque os retirou da natureza num ritmo mais acelerado do que capacidade de reposição dela.
*
As mulheres já estão entrando nos sistemas simbólicos masculinos; ajudando a desconstruir a ordem universal de poder. As mulheres entram nos sistemas simbólicos masculinos no momento em que esses estão se mostrando implacavelmente destrutivos em relação à vida. A tarefa monumental que os movimentos de mulheres e as mulheres têm hoje é a de construir uma nova ordem simbólica não mais centrada sobre o falo (o poder, o matar ou morrer que é a sua lei), mas uma nova ordem que possa permear desde o inconsciente individual até os sistemas macroeconômicos, mas, agora, numa nova ordem estruturada sobre a vida. Essas reflexões não poderiam estar sendo feitas se esse trabalho já não estivesseem curso. Já estão sendo construídos consensos entre os povos contra uma dominação global que exclui o grosso da humanidade e sobre uma nova ordem que inclua uma relação complementar entre os gêneros, uma família democrática, um tipo de relação econômica que não transfira a riqueza de todos para os poucos que dominam, que inclua relações comerciais e econômicas menos desumanas e destrutivas. As mulheres já estão entrando nos sistemas simbólicos masculinos. E não só nas instituições convencionais (empresas, partidos etc.), mas também em outras, muitas vezes na contramão da história (nas lutas populares, ecológicas, pela paz etc., onde são a grande maioria). Elas estão construindo uma nova ordem simbólica, na qual o "grande outro" é a vida (viver e deixar viver), e ajudando a desconstruir a atual ordem universal de poder. Se não trabalharmos nessa profundidade, por mais que se transformem as estruturas económicas antigas, elas tenderão a voltar. Ou substituímos a função estruturante do falo pela função estruturante da vida ou não teremos mais nem falo nem vida.
*
(Publicado na Folha de São Paulo : Tendências e Debates - 08/03/01 )
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quarta-feira, 18 de junho de 2014
segunda-feira, 16 de junho de 2014
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Textos dos 3 autores já confirmados para o Festival Artes Vertentes 2014
Curadoria de literatura: Ricardo Domeneck.
Direção artística: Luiz Gustavo Carvalho.
Direção artística: Luiz Gustavo Carvalho.
Já anunciadas as presenças do brasileiro Leonardo Fróes (n. 1941) e do ucraniano Andriy Lyubka (n. 1987). Confirmada hoje também a participação do maranhense Reuben da Cunha Rocha (n. 1984). Leia abaixo um poema de cada um dos autores. Os outros escritores, brasileiros e internacionais, serão anunciados ao longo dos próximos meses.
Aberto para os dedos de Deus
Leonardo Fróes
se eu fizer pelo menos a manhã começar
dos meus cabelos e tirar mais um pouco
da última fatia e não ficar lamentando
a primeira oportunidade perdida, e se eu não der
bola para os preconceitos que me reduzem até
eu mesmo achar que sendo um ser humano eu me explico
na complicação cósmica desses bagaços distantes
que são tão simples,
se eu realmente não puser mais o pé na fantasia
do dia que está à minha espera e represa
tantas demonologias ferozes que eu esqueço de olhar,
se eu não ficar completamente maluco
por isso e o desejo de cumprimentar
deus em pessoa.
§
[Essa mulher em seu banheiro, depilando-se]
Andriy Lyubka
Essa mulher em seu banheiro, depilando-se,
celebrará o vigésimo-quarto aniversário amanhã.
Talvez "celebrar" seja palavra ruidosa demais,
ela simplesmente telefonará para pai e mãe
e fará suas orações antes de ir para a cama.
Você não entende as orações, nem seus olhares misteriosos,
a língua que usa nos menus de seu telefone.
Vocês não estão predestinados a ficar juntos, e é melhor assim,
você diz para si mesmo: "é melhor assim".
Em momentos de ternura incomum, você diz
que acredita que eles não têm armas nucleares,
destruição em massa nenhuma, e sente-se um idiota.
E então você tem um sonho no qual o corpo dela
cheira a armas nucleares, como os desertos, as canções dos ciganos.
"Mas por que ciganos?", você se pergunta na manhã seguinte,
pena, não há resposta para esta pergunta. Você não sabe nada
sobre a infância dela, sobre o território em que recebeu sua
[educação em língua inglesa,
e por que exatamente ela escolheu você e não outro.
Vocês estão juntos há três semanas. E às vezes você examina
[o mapa-múndi,
avaliando a localização do Irã, seus vizinhos,
seus recursos, naturais e humanos.
Você considera que, com o passar do tempo, a compreenderá melhor.
Às vezes, você faz perguntas sobre o Irã, e promete a ela que visitarão
[o país juntos,
e ela ainda cheira a verão cigano e armas nucleares,
o deserto dela é entre vocês dois, a noite aproxima-se,
e ela está em seu banheiro, depilando-se.
(tradução de Ricardo Domeneck, a partir da tradução inglesa).
celebrará o vigésimo-quarto aniversário amanhã.
Talvez "celebrar" seja palavra ruidosa demais,
ela simplesmente telefonará para pai e mãe
e fará suas orações antes de ir para a cama.
Você não entende as orações, nem seus olhares misteriosos,
a língua que usa nos menus de seu telefone.
Vocês não estão predestinados a ficar juntos, e é melhor assim,
você diz para si mesmo: "é melhor assim".
Em momentos de ternura incomum, você diz
que acredita que eles não têm armas nucleares,
destruição em massa nenhuma, e sente-se um idiota.
E então você tem um sonho no qual o corpo dela
cheira a armas nucleares, como os desertos, as canções dos ciganos.
"Mas por que ciganos?", você se pergunta na manhã seguinte,
pena, não há resposta para esta pergunta. Você não sabe nada
sobre a infância dela, sobre o território em que recebeu sua
[educação em língua inglesa,
e por que exatamente ela escolheu você e não outro.
Vocês estão juntos há três semanas. E às vezes você examina
[o mapa-múndi,
avaliando a localização do Irã, seus vizinhos,
seus recursos, naturais e humanos.
Você considera que, com o passar do tempo, a compreenderá melhor.
Às vezes, você faz perguntas sobre o Irã, e promete a ela que visitarão
[o país juntos,
e ela ainda cheira a verão cigano e armas nucleares,
o deserto dela é entre vocês dois, a noite aproxima-se,
e ela está em seu banheiro, depilando-se.
(tradução de Ricardo Domeneck, a partir da tradução inglesa).
§
Praça do Sol às 3 da tarde
Reuben da Cunha Rocha
Praça do Sol às 3 da tarde
risca o fósforo do incendiário
Praça do Sol às 3 da tarde
abre as narinas p/ o fedor dos muros
Praça do Sol às 3 da tarde
esconde a senha dos holocaustos
Praça do Sol às 3 da tarde
enerva cada coração covarde
Praça do Sol às 3 da tarde
aponta os mísseis à glória
Praça do Sol às 3 da tarde
depila as tuas rameiras
Praça do Sol às 3 da tarde
apascenta teus ambulantes
Praça do Sol às 3 da tarde
despista o fumo dos policiais
Praça do Sol às 3 da tarde
oculta o raio do cego
Praça do Sol às 3 da tarde
acode o baque das ondas
Praça do Sol às 3 da tarde
distrai o tédio do pipoqueiro
Praça do Sol às 3 da tarde
loas ao biquíni túrgido
Praça do Sol às 3 da tarde
acorda a renca dos ventos
Praça do Sol às 3 da tarde
diz a gíria do guardador de carros
Praça do Sol às 3 da tarde
toma gosto c/ as empregadas
Praça do Sol às 3 da tarde
pendura a nuvem nos galhos
Praça do Sol às 3 da tarde
trocados ao vendedor de coco
Praça do Sol às 3 da tarde
ouvido ao reggae das bacantes
Praça do Sol às 3 da tarde
Praça do Sol às 3 da tarde
Praça do Sol às 3 da tarde
devora a muvuca das gentes
cede teus bancos às fodas
legisla a rixa dos traficantes
senhora injuriada das trapaças
abre tuas pernas p/ os pivetes
engole o mijo da criança
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Marcadores:
andriy lyubka,
artes vertentes,
leonardo fróes,
reuben da cunha rocha
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Luca Argel - "diversão para os soldados no deserto" (2014)
Luca Argel - "diversão para os soldados no deserto", de O livro de reclamações (Lisboa: Escalpo de Mársias, 2014).
.
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Marcadores:
luca argel,
poesia contemporânea
sábado, 31 de maio de 2014
Eros IV
Tudo o que sobra
é a trilha sonora.
§
::: via tradução por homofonia/homosignia do fragmento 38 de Safo de Lesbos:
é a trilha sonora.
§
Os outros três, publicados em Ciclo do amante do substituível (2012):
Eros
Optas,
amo.
Queima-nos.
::: via tradução por homofonia/homosignia do fragmento 38 de Safo de Lesbos:
ὄπταις ἄμμε
thou burnest us
§
Eros
II
meteoro
que
chegou
não
como
soco
mas
beijo
de
todos
os
cafunés
e
não cavou
crateras
mas
ferindo
as
tais leis
da
física
massageou
meu
físico
macérrimo
detendo-se
a
um
centímetro
da
minha
atmosfera
fez
de mim
seu
satélite
Berlim,
tarde amorosa à distância, sem cigarros ou cegueiras, na qual Eros
fez do mais verborrágico dos poetas contemporâneos brasileiros um
líricozinho lacônico, 07 de junho de 2011. Agora: descer, comprar
cigarros e sorvete de chocolate.
§
Eros
III
Quiçá
Eros
decidira
que minha data
de
validade
como
receptáculo expirara,
ou
talvez eu tenha sido
tão-só
incubador
de
um alienígena,
hospedeiro
de um verme
ou
varejo de um vírus
que
agora segue no atacado
sua
existência externa.
Quem
sabe eu apenas
viva
o momento
do
carteiro incompetente
que
confunde remetente
por
destinatário,
o
bilhete de SOS
na
garrafa
acaba
engolida
por
uma orca,
a
carta retorna
deslida,
selada.
Carmen:
L´amour
est
un microraptor,
rapta-nos
e domestica
antes
de servir-nos,
presa
e merenda,
para
seus filhotes
ávidos,
e nada
se
compara a
este
nutricionista
quando
se trata
de
excitar anemias.
Pensar
nele
é
como estar sentado
numa
cadeira
sob
uma árvore
da
mesma espécie
da
qual extraiu-se
a
sua madeira.
Jatos,
aviões
cruzam
os céus
deixando
como feridas
cortes
no azul
que
se cicatrizam
por
dispersão,
diferente
de
nossa pele,
que
se encrosta
para
cerrar os portos
para
o sangue.
Veraneio
no
inferno,
bronzeio
o
cenho
e
estas cãs
que
me dás.
.
.
.
.
.
terça-feira, 27 de maio de 2014
A culpa é de Hollywood
a Jonas Lieder
Querido, para alguns de nós,
desde o começo,
foi sempre assim que as coisas
funcionaram: affectus ou nada.
Enquanto meus colegas de escola
aguardavam ansiosos
em Highlander
lá pelos idos de 1986
que os imortais cortassem
suas mútuas cabeças,
eu me debulhava em lágrimas
pela morte do primeiro amor
de Christopher Lambert,
o útero seco de sua mulher,
ela que tanto quis dar-lhe filhos,
sem que ele ou ela ou mesmo nós
àquela altura da estória
soubéssemos que a esterilidade
era coisa dos imortais.
E pelas montanhas escocesas ecoava
a voz de Freddie Mercury, exigindo
uma resposta, qualquer resposta:
"Who wants to live forever?"
E minhas glândulas lacrimais
imploravam
que eu as deixasse em paz.
Era o tempo em que ainda havia
estória e História.
Como era prazeroso e mais simples
apaixonar-me
por Timothy Hutton em Ordinary People,
por River Phoenix em Running on Empty,
aguardar seus novos filmes,
como se espera pela visita
de um primo, o favorito, do litoral.
Os sentimentos eram não imaginários,
mas imaginados, críamos
que entendíamos todas as canções.
Fingíamos a dor que todavia
não sentíramos, não
deveras.
O passado era tão curto,
nossas bagagens, leves.
As dores eram abreviadas
por uma legenda
que dizia TRÊS ANOS DEPOIS
e esses três anos duravam apenas
um corte na ilha de edição.
E quando alguém morria,
a morte era só uma reviravolta
da trama, e doía,
mas bastava esperar que se encarnassem
novamente, feito Budas,
em novas personagens
de novos filmes.
O The End nos redimiria a todos.
As perdas tinham uma espécie de glamour,
ficavam fora do quadro os lençóis de suor,
o suor só de um,
que sempre parece cheirar mal,
o café da manhã
com o pão duro e o café frio,
os cigarros baratos, baratos.
Agora sabemos que os TRÊS ANOS DEPOIS
precisam ser vividos segundo a segundo.
Que um acaso qualquer benevolente,
que traga reunião, concerto, concórdia,
das mãos de um roteirista generoso,
quiçá algo cafona, se vier,
será só isso, um acaso benevolente,
mas já não acreditamos muito na existência
do roteirista generoso, ainda que sintamos
que a trama continua cafona,
imperdoavelmente cafona.
§
Berlim, 27 de maio de 2014.
Querido, para alguns de nós,
desde o começo,
foi sempre assim que as coisas
funcionaram: affectus ou nada.
Enquanto meus colegas de escola
aguardavam ansiosos
em Highlander
lá pelos idos de 1986
que os imortais cortassem
suas mútuas cabeças,
eu me debulhava em lágrimas
pela morte do primeiro amor
de Christopher Lambert,
o útero seco de sua mulher,
ela que tanto quis dar-lhe filhos,
sem que ele ou ela ou mesmo nós
àquela altura da estória
soubéssemos que a esterilidade
era coisa dos imortais.
E pelas montanhas escocesas ecoava
a voz de Freddie Mercury, exigindo
uma resposta, qualquer resposta:
"Who wants to live forever?"
E minhas glândulas lacrimais
imploravam
que eu as deixasse em paz.
Era o tempo em que ainda havia
estória e História.
Como era prazeroso e mais simples
apaixonar-me
por Timothy Hutton em Ordinary People,
por River Phoenix em Running on Empty,
aguardar seus novos filmes,
como se espera pela visita
de um primo, o favorito, do litoral.
Os sentimentos eram não imaginários,
mas imaginados, críamos
que entendíamos todas as canções.
Fingíamos a dor que todavia
não sentíramos, não
deveras.
O passado era tão curto,
nossas bagagens, leves.
As dores eram abreviadas
por uma legenda
que dizia TRÊS ANOS DEPOIS
e esses três anos duravam apenas
um corte na ilha de edição.
E quando alguém morria,
a morte era só uma reviravolta
da trama, e doía,
mas bastava esperar que se encarnassem
novamente, feito Budas,
em novas personagens
de novos filmes.
O The End nos redimiria a todos.
As perdas tinham uma espécie de glamour,
ficavam fora do quadro os lençóis de suor,
o suor só de um,
que sempre parece cheirar mal,
o café da manhã
com o pão duro e o café frio,
os cigarros baratos, baratos.
Agora sabemos que os TRÊS ANOS DEPOIS
precisam ser vividos segundo a segundo.
Que um acaso qualquer benevolente,
que traga reunião, concerto, concórdia,
das mãos de um roteirista generoso,
quiçá algo cafona, se vier,
será só isso, um acaso benevolente,
mas já não acreditamos muito na existência
do roteirista generoso, ainda que sintamos
que a trama continua cafona,
imperdoavelmente cafona.
§
Berlim, 27 de maio de 2014.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Nadezhda Mandelshtam (1899 - 1980).
"Ninguém pode tirar de mim o meu amor"
O filme abaixo é importante não apenas por Óssip Mandelshtam, um dos maiores poetas russos do século XX. Nadezhda Mandelshtam é por si só uma escritora importante, uma das grandes testemunhas do século passado. E assistir à jovialidade da sua fala é um prazer. Sua força de espírito, depois de tudo pelo que passou.
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