domingo, 7 de setembro de 2014

Alguns poemas baianos

Tendo acabado de passar uma linda semana em Salvador, onde ministrei uma oficina na Fundação Cultural do Estado da Bahia, fiz uma fala na Universidade Federal da Bahia e conheci pessoas adoráveis, faço minha homenagem à terra da primeira Capital do país com uma pequena seleção de meus poemas favoritos de poetas baianos. 

§

António Vieira (1608 - 1697)

Sermão da Sexagésima (excerto)


Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior. A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui, e para onde venho. Tudo o que aqui padeceu o trigo, padeceram lá os semeadores. Se bem advertirdes, houve aqui trigo mirrado, trigo afogado, trigo comido e trigo pisado. Trigo mirrado: Natum aruit, quia non habebat humorem; trigo afogado: Exortae spinae suffocaverunt illud; trigo comido: Volucres caeli comederunt illud; trigo pisado: Conculcutum est. Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da missão do Maranhão de doze anos a esta parte. Houve missionários afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas; houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaros na ilha dos Aroãs; houve missionários mirrados, porque tais tornaram os da jornada dos Tocatins, mirrados da fome e da doença, onde tal houve, que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas. Vede se lhe quadra bem o Notum aruit, quia non habebant humorem! E que sobre mirrados, sobre afogados, sobre comidos, ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens: Conculcatum est! Não me queixo nem o digo, Senhor, pelos semeadores; só pela seara o digo, só pela seara o sinto. Para os semeadores, isto são glórias: mirrados sim, mas por amor de vós mirrados; afogados sim, mas por amor de vós afogados; comidos sim, mas por amor de vós comidos; pisados e perseguidos sim, mas por amor de vós perseguidos e pisados.

Agora torna a minha pergunta: E que faria neste caso, ou que devia fazer o semeador evangélico, vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos? Deixaria a lavoura? Desistiria da sementeira? Ficar-se-ia ocioso no campo, só porque tinha lá ido? Parece que não. Mas se tornasse muito depressa a buscar alguns instrumentos com que alimpar a terra das pedras e dos espinhos, seria isto desistir? Seria isto tornar atrás? -- Não por certo. No mesmo texto de Ezequiel com que arguistes, temos a prova. Já vimos como dizia o texto, que aqueles animais da carroça de Deus, «quando iam não tornavam»: Nec revertebantur, cum ambularent. Lede agora dois versos mais abaixo, e vereis que diz o mesmo texto que «aqueles animais tornavam, e semelhança de um raio ou corisco»: Ibant et revertebantur in similitudinem fulgoris coruscantis. Pois se os animais iam e tornavam à semelhança de um raio, como diz o texto que quando iam não tornavam? Porque quem vai e volta como um raio, não torna. Ir e voltar como raio, não é tornar, é ir por diante. Assim o fez o semeador do nosso Evangelho. Não o desanimou nem a primeira nem a segunda nem a terceira perda; continuou por diante no semear, e foi com tanta felicidade, que nesta quarta e última parte do trigo se restauraram com vantagem as perdas do demais: nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu-se, mediu-se, achou-se que por um grão multiplicara cento: Et fecit fructum centuplum.

Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira! Oh que grande exemplo me dá este semeador! Dá-me grandes esperanças a sementeira porque, ainda que se perderam os primeiros trabalhos, lograr-se-ão os últimos. Dá-me grande exemplo o semeador, porque, depois de perder a primeira, a segunda e a terceira parte do trigo, aproveitou a quarta e última, e colheu dela muito fruto. Já que se perderam as três partes da vida, já que uma parte da idade a levaram os espinhos, já que outra parte a levaram es pedras, já que outra parte a levaram os caminhos, e tantos caminhos, esta quarta e última parte, este último quartel da vida, porque se perderá também? Porque não dará fruto? Porque não terão também os anos o que tem o ano? O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos. Porque não terá também o seu Outono a vida? As flores, umas caem, outras secam, outras murcham, outras leva o vento; aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto, só essas são as venturosas, só essas são as que aproveitam, só essas são as que sustentam o Mundo. Será bem que o Mundo morra à fome? Será bem que os últimos dias se passem em flores? -- Não será bem, nem Deus quer que seja, nem há-de ser. Eis aqui porque eu dizia ao princípio, que vindes enganados com o pregador. Mas para que possais ir desenganados com o sermão, tratarei nele uma matéria de grande peso e importância. Servirá como de prólogo aos sermões que vos hei-de pregar, e aos mais que ouvirdes esta Quaresma.

§

Gregório de Matos (1636 - 1696)


Anjo Bento

Destes que campam no mundo
Sem ter engenho profundo
E, entre gabos dos amigos,
Os vemos em papafigos
Sem tempestade, nem vento:

Anjo Bento!

De quem com letras secretas
Tudo o que alcança é por tretas,
Baculejando sem pejo,
Por matar o seu desejo,
Desde a manhã té à tarde:

Deus me guarde!

Do que passeia farfante,
Muito prezado de amante,
Por fora luvas, galões,
Insígnias, armas, bastões,
Por dentro pão bolorento:

Anjo Bento!

Destes beatos fingidos,
Cabisbaixos, encolhidos,
Por dentro fatais maganos,
Sendo nas caras uns Janos:
Que fazem do vício alarde:

Deus me guarde!

Que vejamos teso andar
Quem mal sabe engatinhar,
Muito inteiro e presumido,
Ficando o outro abatido
Com maior merecimento:

Anjo Bento!

Destes avaros mofinos,
Que põem na mesa pepinos,
De toda a iguaria isenta,
Com seu limão e pimenta,
Porque diz que o queima e arde:

Deus me guarde!

/

[Carregado de mim ando no mundo]

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo em mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.

§

Luiz Gama (1830 - 1882)

O Barão da Borracheira

Na Capital do Império Brasileiro,
Conhecida pelo — Rio de Janeiro,
Onde a mania, grave enfermidade,
Já não é como dantes, raridade;
E qualquer paspalhão endinheirado
De nobreza se faz empanturrado -
Em a rua chamada do Ouvidor,
Onde brilha a riqueza, o esplendor,
À porta de uma modista de Paris,
Lindo carro parou — Número — X — ,
Conduzindo um volume, na figura,
Que diziam alguns, ser criatura
Cujas formas mui toscas e brutais
Assemelham-na brutos animais.

Mal que da sege salta a raridade,
Retumba a mais profunda hilaridade.
Em massa corre o povo, apressuroso
Para ver o volume monstruoso;
De espanto toda a gente amotinada
Dizia ser coisa endiabrada!

Uns afirmam que o bruto é um camelo,
Por trazer no costado cotovelo,
É asno, diz um outro, anda de tranco,
Apesar do focinho d'urso branco!
Ser jumento aquele outro declarava,
Porque longas orelhas abanava.
Recresce a confusão na inteligência,
O bruto não conhecem d'excelência.
Mandam vir do Livreiro Garnier,
Os volumes do Grande Couvier;
Buffon, Guliver, Plínio, Columella,
Morais, Fonseca, Barros e Portela;
Volveram d'alto a baixo tais volumes,
Com olhos de luzentes vagalumes,
E desta nunca vista raridade
Não puderam notar a qualidade!

Vencido de roaz curiosidade
O povo percorreu toda a cidade;
As caducas farmácias, livrarias,
As boticas, e vãs secretarias;
E já todos a fé perdida tinham,
Por verem que o brutal não descobriam,
Quando idéia feliz e luminosa,
Na cachola brilhou dum Lampadosa
Que excedendo em carreira os finos galgos,
Lá foi ter à Secreta dos Fidalgos;
E dizem que encontrara registrado
O nome do colosso celebrado:
Era o grande Barão da borracheira,
Que seu título comprou na régia-feira!

§


Serei Conde, Marquês e Deputado


Pelas ruas vagava, em desatino,
Em busca do seu asno que fugira,
Um pobre paspalhão apatetado,
Que dizia chamar-se - Macambira.

A todos perguntava se não viram
O bruto que era seu, e desertara;
Ele é sério (dizia), está ferrado,
E tem o branco focinho, é malacara.

Eis que encontra postado numa esquina,
Um esperto, ardiloso capadócio,
Dos que mofam da pobre humanidade,
Vivendo, por milagre, santo ócio.

Olá, senhor meu amo, lhe pergunta
O pobre do matuto, agoniado;
“Por aqui não passou o meu burrego
Que tem ruço o focinho, o pé calçado?”

Responde-lhe o tratante, em tom de mofa:
“O seu burro, Senhor, aqui passou,
Mas um guapo Ministro fê-lo presa,
E num parvo Barão o transformou!”

Ó Virgem Santa! (exclama o tabaréu,
Da cabeça tirando o seu chapéu)
Se me pilha o Ministro, neste estado,
Serei Conde, Marquês e Deputado!...


§

Pedro Kilkerry (1885 - 1917)



É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.
Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado.  E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda.  E a sala muda, muda...
Áfonamente rufa.  A asa da rima
Paira-me no ar.  Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...
.......................................................................
E abro a janela. Ainda a lua esfia
últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.

E ó minha amada, o sentimento é cego...
Vês?  Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.

§


O verme e a estrela 

Agora sabes que sou verme.
Agora, sei da tua luz.
Se não notei minha epiderme...
É, nunca estrela eu te supus
Mas, se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz!

E eras assim... Por que não deste
Um raio, brando, ao teu viver?
Não te lembrava. Azul-celeste
O céu, talvez, não pôde ser...
Mas, ora! enfim, por que não deste
Somente um raio ao teu viver?

Olho, examino-me a epiderme,
Olho e não vejo a tua luz!
Vamos que sou, talvez, um verme...
Estrela nunca eu te supus!
Olho, examino-me a epiderme...
Ceguei! ceguei da tua luz?

§


Cetáceo

Fuma. É cobre o zênite. E, chagosos no flanco,
Fuga e pó, são corcéis de anca na atropelada.
E tesos no horizonte, a muda cavalgada.
Coalha bebendo o azul um largo vôo branco.

Quando e quando esbagoa ao longe uma enfiada
De barcos em betume indo as proas de arranco.
Perto uma janga embala  um marujo no banco
Brunindo ao sol brunida a pele atijolada.

Tine em cobre o zênite e o vento arqueja e o oceano
Longo enfroca-se a vez e vez e arrufa,
Como se a asa que o roce ao côncavo de um pano.

E na verde ironia ondulosa de espelho
Úmida raiva iriando a pedraria. Bufa
O cetáceo a escorrer d’ água ou do sol vermelho.

§


Sosígenes Costa (1901 - 1968)

O pavão vermelho

Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.

É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.

Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

§

Duas festas no mar

Uma sereia encontrou
um livro de Freud no mar.
Ficou sabendo de coisas
que o rei do mar nem sonhava.

Quando a sereia leu Freud
sobre uma estrela do mar,
tirou o pano de prata
que usava para esconder
a sua cauda de peixe.
E o mar então deu uma festa.

E no outro dia a sereia
achou um livro de Marx
dentro de um búzio do mar.

Quando a sereia leu Marx
ficou sabendo de coisas
que o rei do mar nem sonhava
nem a rainha do mar.

Tirou então a coroa
que usava para dizer
que não era igual aos peixinhos.
Quebrou na pedra a coroa.

E houve outra festa no mar.

§

O pôr-de-sol do papagaio

O papa-vento nos jardins de maio
e o verde no seu mar de leite.
O mar já não é azul, é verde-gaio
num clarão que é relâmpago de azeite.

Se o mar é belo sem que a tarde o enfeite
quanto mais se o enfeitar o sol de maio.
O mar do papa-vento é o papagaio
e o céu do verde papa é o papa-leite.

Latadas cristalinas em desmaio.
Tombam flores do céu, meu papagaio.
E o papa-vento é de cristal e leite.

Deite leite, meu mar, pro papagaio.
Que o papagaio em verde se deleite
e não se enfeite de outra cor em maio.


§

Erthos Albino de Souza (1932 - 200) 



(Nota: nascido em Minas, produziu grande parte de sua obra na Bahia, 
onde editou a importante revista Código)


§

Elomar Figueira Mello (Vitória da Conquista, 1937)



§


Caetano Veloso (Santo Amaro da Purificação, 1942)

A terceira margem do rio

Oco de pau que diz:
Eu sou madeira, beira
Boa, dá vau, triztriz
Risca certeira
Meio a meio o rio ri
Silencioso, sério
Nosso pai não diz, diz:
Risca terceira

Água da palavra
Água calada, pura
Água da palavra
Água de rosa dura
Proa da palavra
Duro silêncio, nosso pai

Meio a meio o rio ri
Por entre as árvores da vida
O rio riu, ri
Por sob a risca da canoa
O rio riu, ri
O que ninguém jamais olvida
Ouvi, ouvi, ouvi
A voz das águas

Asa da palavra
Asa parada agora
Casa da palavra
Onde o silêncio mora
Brasa da palavra
A hora clara, nosso pai

Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai

§

O estrangeiro


§



Gilberto Gil (Salvador, 1942)





§




Waly Salomão (1943 - 2003)

Sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite da pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.
sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão chave é:
sob que máscara retornará o recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra “recalcado” é uma expressão
por demais definida, de sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão mágica
vou rasurá-la daqui do poema)

            pois a questão chave é:
            sob que máscara retornará?

§

Vapor Barato

 

§

Duda Machado (Salvador, 1944)


Meridiano

tempestades sem céu
de noites em claro

em que o espírito
rasga a carne
e a memória se contrai
ante um mapa

de linhas equívocas
cujos pontos foram percorridos
ao vivo
entre gestos hipnoticamente acesos

ignorantes
inacessíveis estrelas:
viver também pode
ser longe

acordar é raro
breve

um cochilo, piscar de olhos
por onde irrompe
o entrevisto espanto
do que somos
acordar é um sonho

despertar es raro
breve

§


Antônio Risério (Salvador, 1953)


Via Papua

desamarra a quilha, canoa
desamarra a quilha
e voa

(vai pelo ar
pelo mar
e sobre a ilha;
voa sobre o que
se armadilha)

mas voa leve, canoa
e leva uma estrela
na ponta da proa

cruza o mar, a névoa
o peito, a boca, a língua
almas que invadem nuvens
dobras de angra e de íngua

(mas voa leve, canoa
há uma estrada inteira
na ponta da tua proa)

e que o ar mais leve a leve
e faça das algas do céu
a minha única
e exclusiva
coroa,

canoa.

§

Abaite ya

para augusto de campos

"Their concept of a garden is a reproduction on a dwarfish scale of nature they see around themselves. It makes a characteristic contrast with the modern horizontal park dotted with geometric patterns of flower-beds and shady trees planted at regular intervals in parallel lines as in French gardens of the Cartesian age.- Shunkichi Akimoto.


morai mizu

yumê-sakura
no chão
da lagoa escura

yumê ah
ah yumê ah
ah yumê

yumê-sakura
no chão
da lagoa escura

o sol bashô
à doce brissa
caracol
ka-dô

lua branca
areia branca
uma polegada
escura

odô ya
a conta de vidro kai
o som da água

graveto kanji
kioto ketu
uma cidade:

mairi

asagao ya
oh ipoméia
abaité ya
a ideia
de uma
orquídea

sereia no ideograma
areia no brinquedo
ipupiara em ikebana

semilua em leque
a mulher bem nua
dama kasa não é minha
yamakochi
nem é tua:

sozinha sozinha
a mulher flutua

yamabuki
exu samurai
terreiro kabuki

sendas de okunrin
satoriki
um jardim enfim
onde eu ronin
onde eu chonin
diga sim ao sim

lua na neve

okê aro
me sento dentro
de uma peça nó

noite de outono
emi hakuryo
nenhum hagoromo
os olhos no cio

alakorô alakorô
oh oxotokanxoxô
o rei menos o reino
o cheiro de uma cor

§


Aviso à praça

O humano é um engano do humano.
Divide o humano em humano e desumano.
Sonho insano de se ver a salvo
De crivos e crises e crimes
Cravados no alvo.

Bobagem. Nenhum capitalismo é selvagem.
Puta não é cadela. Nem a vida, feroz.
O homem é o homem do homem.
Todos juntos e a uma só voz.
Humana é a sala de tortura,
A napalm, a navalha, a metralha no gueto
- a pele esfolada no porão.
Humana, humaníssima, a escravidão.

Humano é o arame farpado
O estripador branco, o estuprador preto,
Carndiru, Somália, Khmer, Bopal
O massacre na Praça da Paz Celestial.
Humana a fissão do átomo
Humana a fissura do FIM.

Não consta que roseiras e gaivotas ajam assim.

§

Karina Buhr (Salvador, 1974)



§

João Filho (Bom Jesus da Lapa, 1975)


Louvação ao Morão de Privintina

É Ojasso Margoso
farinhando seu sustento
na curva da duna
alinhavando lamento
na lombada da ponte
todo esforço é nulo
bovinamente bolando
a touceira e o pulo.

É fundura de cova
que tatu não se arrisca
e todo o seu incêndio
no meu capim é faísca
escancarada feito retina
em noite defunta
chumbo espalhado no ar
quenãoseajunta.

É Ojasso Margoso
farinhando proveito
pois a desavença o empurra
prum buraco estreito
a míngua é muita
a cama-de-quiabento
na estirância seca
desse campo restinguento.

Corpo boiando sem peso
na desausência do farto
feiúra pra mais de metro
abarrotando seu quarto
É Ojasso Margoso
garantindo guarnição
raspando até escama
de traíra, lambú e azulão.

É nêgo Bizuíto bizorando
no borralho da quebrada
gamela d’astúcia cheia
por todos ignorada
mas não se fie fidalgo
em luz de ponta-de-faca
da treita sua folia
das tripas sua capa.

O tempo nos assalta
com bala, ruga, confissão
carpindo, curvo, coxo
agregado no gibão
agentingole sapo
sapo, já engoliu brasa
e vai anjo gago, demente
depenar sua própriasa

Tira fina de córgo
vencendo lajedo
na embolada ladeira
malocando seu medo
avesso a ferro e lonjura
enfurecido engodo
comido pela metade
mas já morrido de todo.

Tá no eito largado
sem riso cuia ou lenha
larga logo um gemido
feito cadela prenha
mas é liso gongazeiro
evita beco, barulho
sabe que meganha é guariba
e pocomã engolintulho.

Nos vasos magros do mês
lambança deu embolia
sobrou as estacas do cercado
cruezas de casa vazia
desusos dum déu de desejo
de velhas usanças
despejo de verbos alheios
no meio da contradança.

Pipocam clarões
no lado esquerdo das esquinas
Tõin gongá releva
mas já não tarantina
o que vai dentro da treva
côa sua resina
é zabelê ciscando rumo
no descompasso da chacina.

§

Karina Rabinovitz (Salvador, 1977)



§

Rodrigo Damasceno (Feira de Santana, 1985)



Kosí Ewé, 
Kosí Òrisà

        para Maria Dolores

Onde não
tem mato
mas mesmo
assim folha -
estou.

Onde não
passa rio
mas mesmo
assim pássaro -
estou.

Onde não
bate mar
(coração)
mas mesmo
assim onda -
estou.

Onde não
pega fogo
mas mesmo
assim chama -
estou.

Onde não
chega gente
mas mesmo
assim vamos -
estou.

Aqui
Restou

§

Os peixes vermelhos

estou contando
os peixes
que passam:
somo os vivos
aos mortos -
e conto todos;
e em seguida
ao centésimo
de cor azul,
de cor pedra,
de cor fogo,
vou acender
um teu cigarro
e mergulhar
(apneia, agonia,
certo sufoco)(vou
em teu cavalo
terreno, este
bicho louco -
enxame de músculo
e osso - e ponte):
e passarei com eles,
com os peixes roxos,
aos pés
de quem nos conte,
a todos,
esteja eu vivo
esteja
eu morto.

§

Portugal não descobriu
o mundo,
mas eu conheço
gente que vive
em Maputo, que viu
o Japão,
que ama
o Porto - e este
poema é escrito
com acento
luso. Conheço um
português, (ele é o dono
desta pensão),
que já não tem
sotaque, já não
tem saudades: ao
falar-me de sua
cidade, comparou-a
com o sertão,
ele pensa
que eu vim
do sertão
(que bom, pensa
que sou como
ele, então)
Portugal não descobriu
o mundo,
mas eu conheço
gente que quer
voltar para o Rio de Janeiro,
que já não suporta
o caos, já não suporta
o cheiro
mau
do rio Pinheiros - será
que este também
vai morrer
no meio do mar?
Portugal não descobriu
o mundo,
não é o dono do mar,
mas eu conheço gente,
conheço gente,
conheço
gente.


§


Uyatã Rayra (Feira de Santana, 1987)


§


Encerro esta postagem com 3 poemas, de 3 poetas com quem convivi durante os dias de oficina em Salvador. Meu abraço a todos os novos amigos na Bahia.


Alex Simões (Salvador, 1973)

poesia, pai dê uma
poesia    é
             é round
             é play-ground
             é underground
             é all-around

quem não gosta de brincar
não desce da plêiade

e põe a culpa no Pound

§

Marcio Junqueira (Feira de Santana, 1981)




Ele não era louro, era gallego

(Para ler ao som de "Quero ser justo" - Caetano Veloso)

ele não era louro
era gallego
gallego da galícia
há muitos anos seu avô
tinha vindo de lá

teve duas filhas
a mais nova
- ainda muito nova -
engravidou
casou/separou
e teve esse menino
que não era louro
esse menino
gallego
que comia terra
brincando com o avô
no quintal em paciência
esse avô
que era louro
e mais que isso
era : gallego gallego
(seus pais (os bisavós do menino) eram primos)
essa parte da historia ele não contou
mas eu imagino
muito magro e muito branco
tomando chocolate
e assistindo doug
frágil e assombrado
como agora
(quando o avô já não é mais
quando paciência é um lugar longe
onde, de vez em quando, ele vai)
sentado no sofá azul
na fotografia que não tirei
falando coisas que não ouço
concentrado que estou na sua boca
ou mais cedo
com luva amarela de borracha
mexendo mingau de maizena
e cantando mr. sandman
daqui a pouco vou beijá-lo
depois disso
vão existir duas noites e dois dias
mortos
até ressuscitar ao terceiro dia
e me fazer feliz
e me fazer infeliz depois
mas antes disso
eu olho ele
ele me olha
e nem mesmo
saturno visto de um telescópio
o livro das perguntas de neruda
uma pessoa pintada e deitada na grama
ou uma casa de legos habitada por playmobils
consegue ser mais bonito.

§

Ederval Fernandes (Feira de Santana, 1985)

O cobrador da van disse

oxeee, mô fio,
é ba-rril.
nego pagou foi pau.
né, moral,
tu num viu?
tu vai pá rua,
pacêro?
simbora, qui é passe.
dinhêro né mato,
que nasce à toa.
amanhã é dumingo,
viu, coroa?,
e cabucives é sagrado...
sem baratino,
no barro, só de boa.
e é isso meismo.
mar menino.
se alterar o plantão,
tu já num sabe?
é daquele jeito,
mô fio.
é dá um mole,
o pipoco vem.
vai, sá-cana -
é-só-o-barril.

.
.
.


sábado, 6 de setembro de 2014

"Segundo São Lucas", poeminha escrito em Salvador


Segundo São Lucas

Meus planos eram só
lavar os pés
na Baía de Todos-os-Santos
após tê-los enfiado na jaca
à noite de Santo Antônio anterior,
solteiro que nem milagreiro
ajuda. A caminho da compra
de um Lucky Strike,
tu passaste dentro de tua sunga
laranja. Pensei em Frank O´Hara,
"how terrible orange is, and life"
mas o sol incidia na tua fruta,
e laranja e vida
se me assemelharam
coisas gloriosas.
Que lucky
strike, isso.
Te vi descer à areia
e lançar-te às águas
e nada amuado
me pus à murada
para melhor contemplar
tua antítese de Botticelli.
Do nariz às panturrilhas,
passei mal na crista-ilíaca.
Barroco é isso, meus filhos.
Ê, perfeito até nos calcanhares.
Se tivesses guerreado na Ilíada,
terias sobrevivido a Aquiles
e então velejado com Ulisses,
deixando boquiabertas,
pasmas de mudez as sereias.
Santa Maria e São Diogo
dos Fortes, valei-me.
Emergindo gigante
feito Itaparica, vi a tatuagem
na tua região
ântero-lateral, oh! grande dorsal,
"Lucas & ______",
mas não pude ler o segundo.
Provável, uma tua concubina.
Mas se certo julgo pela forma
obsessiva
com que ajeitavas a sunga,
alisavas o tanque de quem-dera
minhas roupas sujas
e apalpavas a própria bunda,
numa demonstração pública
de amor-próprio merecidíssimo,
começaste com teu nome.
Eu também estava todo
entimesmado. Por tanto,
ah! Lucas, qual a cartilha
que rezas? Diz-me
o abecedário
do teu Evangelho.

§

Salvador, 6 de setembro de 2014.

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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Ouçam "Muddy Waters", dos meus queridos Markus Nikolaus & Louis McGuire (o duo berlinense Us)


Markus Nikolaus & Louis McGuire

Markus Nikolaus e Louis McGuire são dois dos meus mais queridos e próximos amigos nestes dois últimos anos de Berlimbo. Já falei muito sobre Markus aqui, e preparei uma postagem também sobre o trabalho sonoro de Louis na Modo de Usar & Co..

No melhor espírito berlinense, onde ser amigo significa colaborar e criar juntos, Markus e Louis vêm compondo juntos há algum tempo, e, assinando agora como o duo Us – lançam seu primeiro single,  intitulado Muddy Waters, pelo selo dirigido por Julien Bracht em Frankfurt, Trust. Julien foi ainda responsável pelos dois remixes.

Ouçam meus dois queridos, Markus idolatrado salve salve e o ruivo zen Louis, com suas águas cristalinamente lamacentas.

O nome do duo vem do fato de já colaborarem com Maayan Nidam no trio The Waves & Us. Como Maayan se apresenta sozinha como The Waves, os dois decidiram que juntos seriam o Us. Muito carinho para todos os envolvidos.




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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Ler é uma duração tamanha

Muita coisa incomoda na carne que começa a afrouxar-se aqui e ali, no cabelo que vai se embranquecendo. Mas há uma coisa que deviam ter-me dito sobre a idade: que eu leria, um dia, pela primeira vez, aquilo que já havia lido centenas de vezes antes. Deveria dizer: ler "como se" pela primeira vez, mas isso não faz jus à coisexperiência. E aquilo que parecia até mesmo ter perdido o lustro por ter-se tentado acender tantas vezes, e críamos ter entendido, e o tínhamos, mas não compreendido, de repente se ilumina imenso. Ler é uma duração tamanha. Quantos dias dura ler "Tudo no mundo começou com um sim"? Quantos dias dura ler "É cuidar que se ganha em se perder"? E jamais esquecer: é bom, não quer o mal. "Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta."


Berlim, 25 de agosto (mês de desgosto) de 2014.

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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Poetry: USA - Frank O'Hara (1966)

USA: POETRY, FRANK O'HARA (1966) 16mm, 15 minutes, dir. Richard O. Moore (courtesy Thirteen/WNET New York, Richard O. Moore and the Estate of Frank O'Hara).

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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Poema recente de William Zeytounlian


passado

o que assoviar
quando se esquece
a última das
canções?

a aposta
absurda foi
para que não
precisássemos
mais delas

nesse ínterim,
pensar sobre
os rumos
da poesia
enquanto há
sem-teto
expatriados
ruínas
famintos
e nosso passado
e seus mortos
e nós, envergonhados de nossa responsabilidade sobre ele
e nós, envergonhados por não assumirmos nossa responsabilidade sobre ele
e nós, envergonhados de nossa vergonha,
incapazes de sentir a vergonha,
incapazes de vergonha
incapazes de qualquer capacidade
incapazes até de incapacidade
e envergonhados por isso,

enquanto se projeta o passado como uma sombra sob nossos pés
enquanto ele se estende interminável até perder-se de vista
olhamos para o passado como para uma sombra
mas nos enganamos
ele é uma sombra,
mas olhamos para ele como para um deserto
e ele é, de fato, um deserto
era,
é,
e no fundo inimaginável deste deserto a perder de vista
se aproxima a ideia de um inimigo
um inimigo a encarar
inimigo afrontável
um inimigo que é maior que qualquer inimigo, pois é gigantescamente ideia
uma ideia amiga sobre a qual nos enganamos
ideia amiga que tomamos por inimiga pois nos afronta
e nos envergonha

essa ideia:
nossa amiga

enquanto
procuramos
dinheiro e
trabalhamos
por comida.



São Paulo, 1988.

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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Burocracia no céu ou senso de humor no inferno?





Domeneck & Nikolaus - "Heaven Burocracy" (2014)

maybe heaven burocracy
or sense of humor in hell
that I was meant for you
but you for someone else

maybe the postman mixed
or confused our addresses
in the end we got drafted
to these opposite trenches

maybe this entire time
you were a double agent
or your loyalty wavered
left me on the loser side

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sábado, 9 de agosto de 2014

Dois poemas da série "Odes a Maximin"

Há cerca de um mês, a revista lisboeta Enfermaria 6 publicou o primeiro texto da minha série "Odes a Maximin". Ontem, a carioca Confraria Do Vento publica em seu blogue o segundo. 

Agradeço muito a Ronaldo Ferrito pelo convite. Ele incluiu ainda uma nota (e foto do divino rapaz), explicando quem foi o Maximin histórico, que uso para ligar meu texto em arco a uma tradição específica. A da "Musa Puerilis" e do velho "culto a Antínoo". Mas gostaria de deixar claro que "Maximin" é uma máscara - para alguém que está vivinho da silva aqui em Berlim. Não, não é O Moço. (Até que enfim).

Abaixo, reproduzo os dois poemas, mas convido todos a visitarem as revistas.

:

ODES A MAXIMIN 

Ora
cansei-me d´O Moço,
há o tempo de bajular
e o tempo de escorraçar
os fantasmas
dos natais passados
para permitir-me
deixar-me encurralar
por outros
e dessarte inicio
esta celebração
do bendito
menino filantropo
que passo a chamar
de Maximin.

§

Texto para o menino que por vezes me visita, quando se cansa de meninas, e que doravante chamarei de Maximin, como se este fosse o último bilhete de Heliogábalo a Hierócles


Como o sol que incha e cresce,
Maximin, são teus
a pujança, o tônus e a tesura.
Quem-me-dera pudesse dar-te
todos os dias
o que é digno de tua condição
cesariana, ou fosse eu a carruagem
conduzida por tua potência
equina, oxalá
eu o cavalo que montas
com maestria, charioteer,
eu, tua cheerleader, que vivo
da caridade do teu epidídimo,
ora deixa-me
descansar o pescoço
extenuado sobre teu corpo
esponjoso, meu cabelo
confundindo-se com teus parcos
pelos púbicos, já quase públicos,
Maximin, tanta é a segurança
com que te exibes no mercado
e na ágora, maximiza-me
em tua perene intermitência,
diariza tuas doações
tão fluidas sobre meu rosto,
je vien, tu viens,
então vem e quebra
com teus sucos
meu jejum, Maximin,
minimiza minha idade,
mexe-me contigo em mim,
tantas são, miríade,
as posições possíveis
entre cavalgadura
e montaria, Maximin,
machuca-me
à prostrada, naquele pontículo
entre delícia e cicatriz,
pois os cães pretorianos
já se aproximam
para arrastar-me aos gritos
desse trono que usurpo
quando te cansas do vúlveo
e escalamos a torre de marfim,
mas ainda assim trono
onde se crê que alguma menina
melhor sentaria,
Maximin, e já sabemos
qual será nosso fim.

§

Texto em que o poeta quer deitar Maximin num diwan e cantá-lo feito um místico árabe, quando então se lembra da ascendência do divino rapaz

Filho de berberes e alemães
graças à fuzarca abençoada
de corpos após a Queda
do Muro, me disseste
que foste o mais perfeito
bebê da maternidade
de tua mãe, a generosa.
Eu creio e sou devoto.
Não sei se necessário
um começo perfeito
para teu óbvio sucesso,
agora, no pleito.
Seria prudente comparar-te,
seguindo a antiga arte
dos meus colegas árabes,
tal Muhammad al-Nawaji
ou meu caro Abunuwasi,
e afirmar de gazela
as tuas pernas
tão firmes, estáveis?
Seria cometer uma gafe
etnográfica, se entoasse
em cantares dos cantares,
tal um árabe, a tua púbere
belezura berbere?
Tudo o que sei
é que, se não vens,
sou um mero magrelo
a atravessar feito camelo
o Magrebe.
Maximin, ademais,
nos ademanes
da minha nomenclatura
mais que científica
dos corpos do teu gênero,
dividindo rapazes
entre touros, leões e cavalos,
sempre te considero espécime
ideal das pujanças taurinas,
teu torso e teus ombros
que seriam edredão fácil
de tão largo
ainda que não mui macio,
sobre todo o meu corpo
raquítico e geriátrico,
como esses teus membros
de tronco de carvalho
que frequente
me deixam em estado
de Salix babylonica.
Tua inteligência de cão
de rua, a forma das mãos
com que nos manipulas
fácil pela lente do desejo
que distorce tudo, fazem-te
mais perigoso que o coice
de cavalo, a garra do leão
e todos os chifres de touro,
como este que carregas
nas tuas calças
largas de skatista.
És um tanto sádico.
Maximin, queria beber
apenas uma vez mais
teu suor e saliva e sêmen
de berbere
escorrendo de tua pele
de bebê.
Quando? Onde?
Ainda não te cansaste
daquela caverna escura?
Escalemos o pico nevado.
Vamos comer sushi
diante de um Fuji
falsificado de Hokusai
nos restaurantes
dos imigrantes
dessa tua cidade.
Sou meteco,
não grego,
são esparsos
os meus privilégios
e minhas bulbouretrais
já se cansam do estado,
como em Kanagawa,
das grandes ondas.
Devo gritar dos telhados
in a barbaric yawp
teu verdadeiro nome?
Confesso que ainda
não ouso a entrega
ao mundo de tua alcunha
oficial de batismo,
apenas este, Maximin,
pois temo tua concubina,
essa ninfeta com sangue
de valquíria, os genes
de nibelungos, o gênio
de Wagner.

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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Elogio do pai



Este não será ainda o texto que eu hei-de dedicar ao senhor, João Domeneck. Eu ainda estranho a morte do senhor, a morte do senhor é uma notícia sem corpo, uma mensagem sem voz, aqui deste lado do Charco que eles chamam de Atlântico. Mas é a notícia que faz da nossa ausência mútua algo mais escuro. Quantos caracteres, quantos signos foram necessários para anunciar a morte do senhor? Tão poucos. Mas quantos dariam conta da enormidade dessa novidade absurda? Ao mensageiro que lhe trouxe a notícia da morte de Saul, Davi caiu-se por sobre ele com a espada. Mas a mensageira era minha irmã, João Domeneck, aquela que o senhor criou como se fosse sua. E o era menos, por não ter saído das suas coxas?

Duas décadas depois de ter deixado a casa do senhor e da mãe, é como se cada dia devesse ter sido um preparo para estes, imediatamente posteriores à morte do senhor, mas nunca são. Que frase louca me veio à cabeça agora, João Domeneck, “a morte nunca é sã.” O senhor riria? Meus irmãos têm todos feito suas homenagens, expressado o descorçoo da perda, e sinto essa voz acusatória, dirigindo-se não a mim, mas ao senhor, “E o teu filho metido a escritor, João Domeneck, não vai dizer nada, não vai abrir aquela bocarra cheia de opiniões?” Me deixem quieto no meu canto, sobre a morte do senhor eu não tenho opinião, só susto. É, este não será ainda o texto que eu hei-de dedicar ao senhor, João Domeneck. Este é apenas o primeiro registro do susto.

Eu me lembro da morte da mãe do senhor, aquela italianona ruiva do Molise, aquela avó de coração de romã, numa véspera de véspera de Natal, e a sua viagem à sua cidade natal, ao velho cemitério de Taiaçú, no interior do interior de São Paulo, para buscar os ossos do pai do senhor, que também se chamava João Domeneck, não, não se chamava João Domeneck, é hora de corrigir os erros de imigração, da nossa imigração, o pai do senhor, João Domeneck, chamava-se Joan Domènech, eu sei. Ou, como o senhor sempre se lembrava, o Jão Catalão, como era chamado pelos brasileiros, o povo da terra que escolheu, os sitiantes vizinhos, antes de morrer, quando o senhor tinha apenas 12 anos e teve então que cuidar de mãe e irmão menor. Naquele natal, após enterrar sua mãe italiana e colocar sobre o caixão dela os ossos do seu pai catalão, o almoço foi uma coisa silenciosa, pesada e chuvosa, e eu me lembro de ficar observando-o ali, cabeça da mesa, calado, inescrutável como sempre fora, me perguntando: “O que está passando pela cabeça desse homem, meu Deus?” Hoje, todo lido e viajado, moleque metido a besta – como o senhor diria, eu poderia vir com citações sublimes, dizer que por sua cabeça passava uma lamentação identificável por qualquer homem e mulher e cabra carcomidos pelo sal do Mediterrâneo, mas o que sabia eu naquele tempo? E o que sei eu hoje?

Será que o senhor algum dia leu um dos meus poemas? Não sei, João Domeneck, e peço já perdão por não ser Drummond algum, é pouco provável que eu um dia possa dedicar ao senhor e à sua mesa, que o senhor sempre manteve cheia, abastada, com fartura de tudo (ainda que não faltassem as admoestações a que não acabássemos com o iogurte em um só dia, e que não se come só mistura), algum poema como “A Mesa.” Com a filiação agora pela metade, resta essa senhora cansada, trabalhadora, com os cabelos que já nem mais perde tempo em tingir, e essa minha vontade de poder fazer como Drummond, apenas “pedir à mãe que cosa, / mais do que nossa camisa, / nossa alma frouxa, rasgada.”

Não era sempre fácil, pai, e note que só agora, neste parágrafo, dirijo-me ao senhor assim, João Domeneck. Como se aprende a ser o filho obediente e honrar pai e mãe quando se discorda de tanta coisa no campo político, religioso, e nessa mistura louca dos dois em nossa República? Como se aprende a ser o filho que nem sequer pior que a encomenda saiu, mas cresceu com aquela sensação de ter sido entregue com defeito de fábrica? E nós nunca tivemos essa conversa, João Domeneck, nunca falamos abertamente disso, pai. Não pude jamais contar ao senhor quem eu realmente era, a quem amava, e quando as dores dos pés na bunda vieram, nunca chorei no seu ombro. Havia um acordo tácito, um pacto de silêncio, mas nutrido por aquela certeza, agora eu sei, agora, neste susto grande, de que o amor fala muito alto, o amor tem garganta de ouro (piscadela, aqui, a meus irmãos, que entenderão a citação), o amor cala bispos e senadores, cala tudo o que não vem da terra, e o que vem da terra é uma compreensão total entre tudo o que ama, sofre e morre, mas sobretudo morre, como diria aquele outro católico, Miguel de Unamuno, que o senhor teria certamente aprovado, da mesma forma como se pôs sorridente quando me flagrou lendo Santo Agostinho e suas Confissões. Mas não disse nada.

Não, aquela conversa não houve, e sabemos que a História tem uma preferência obsessiva por tudo o que houve, e o que não houve é relegado aos casos de memória curta das famílias. E isso nos serve bem, pois éramos e somos gente pequena. E a gente pequena é aquela dos segredos inconfessáveis, que vão sendo comunicados num estranho tipo de morse, como um agitar de bandeiras ao alto e abaixo entre dois barcos de papel numa poça d'água, evitando a língua, da mesma forma como não se põe colher de boca no doce, para não azedar o pudim. Lição que aprendi com o senhor, que no entanto até do leite que coalhava sabia aproveitar para a fartura da mesa.

Não, este não foi, é ou será ainda o texto que eu hei-de dedicar ao senhor, João Domeneck. Mas tendo-o chamado de “elogio” no título, cabe-me agora dizer ao senhor que busquei, sim, um elogio nestes últimos dias, não o do gênero literário, mas como compreendemos a palavra no interior, e posso dizer a todos, ao aproximar-me do final deste texto, isto: que foi com o senhor e a mãe, quando eu ainda era muito criança, que aprendi o que significava a palavra “cafuné.” E não creio que se possa fazer maior elogio a um pai e mãe.

Quanta gente morreu este ano, das causas que têm sido as causas pelos séculos dos séculos, velhice, doença e guerra, pai, muita guerra. Não faz uma semana que descrevi este 2014 como um “ano de perdas irreparáveis” ao falar da morte de outro artista que respeitava, porque têm morrido muitos, pai, da profissão desse filho – metido a besta – do senhor. Só não esperava que o ano me faria pagar tão caro pelo uso daquele adjetivo.

R.I.P. João Domeneck Filho (1932 – 2014).


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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A Tradição do Landay: poesia feminina afegã


A escritora Eliza Griswold e o fotógrafo Seamus Murphy viajaram ao Afeganistão em busca da tradição do landay, uma forma poética milenar da língua pachto (também conhecida simplesmente como afegão ou afegane), composta tradicionalmente por mulheres. Os landays são dísticos de lírica amorosa, mas também satíricos, que têm sido uma das formas de resistência das mulheres afegãs há séculos. Cada verso tem tradicionalmente 11 sílabas. Uma tentativa de tradução, a partir das versões para o inglês no filme acima:

Você é como a América, meu querido.
Ainda que sua a culpa, é meu o castigo.

§

No pomar, eu quero beijar você. Mas, sem barulho!
Os outros pensarão que há bodes presos no arbusto.


§

Poderia provar até a morte, se provasse a tua língua
Enquanto o via tomar sorvete, ambos crianças ainda.

A tradição tem sido perseguida no Afeganistão. Por ser tradicionalmente ligada à lírica amorosa, os fanáticos religiosos proíbem que mulheres componham seus landays, por acreditarem que eles denotam uma vida licenciosa. Mas a tradição sobrevive. A próxima vez que algum demente falar sobre a "crise e inutilidade da poesia", faça um favor ao demente: envie a ele ou ela este vídeo.



Foto de Seamus Murphy, do livro 
I am the beggar of the world: Landays from Contemporary Afghanistan.



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