segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Poema em várias traduções e anúncio de uma antologia de poesia brasileira contemporânea na França


Esta tradução de Patrick Quillier para o francês fará parte de uma antologia de poesia contemporânea brasileira (apenas vivos) a sair na França em breve, organizada por ele, começando com os três mais velhos: Ferreira Gullar (1930), Augusto de Campos (1931) e Zuca Sardan (1933), e seguindo por vários autores de diferentes gerações até os três mais jovens da seleção: Érica Zíngano (1980), Juliana Krapp (1980) e Reuben da Rocha (1984). São 30 poetas. A antologia chama-se Retendre la corde vocale: anthologie de poésie brésilienne vivante, e será um número especial da revista Bacchanales, editada pela Maison de la Poésie Rhône-Alpes, em Grenoble.

Este poema foi também traduzido por Hilary Kaplan para o inglês e publicado na revista americana Action Yes; para o alemão por Odile Kennel e publicado em minha antologia pela editora berlinense Verlagshaus Berlin, intitulada Körper: ein Handbuch, em 2013; por Aníbal Cristobo para o espanhol, publicado em Ciclo del amante sustituible, sua tradução integral do meu quinto livro, lançada pela Kriller71 Ediciones em 2014; e por Bart Vonck para o holandês, publicado em uma antologia holandesa dos meus poemas, intitulada Het verzamelde lichaam e lançada em Amsterdã pela Uitgeverij Perdu em 2015.

O original está em Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2012).


Rêves Hollywoodiens du poète

1

que-ce-serait-bien oh ! a script
où une armée estonienne
conspirerait pour lapider
Gertrude Stein
& moi platoonique venant la secourir
au son des Rolling Stones.

2

que-ce-serait-bien oh ! science fiction
avec Winnie-the-Pooh en pleine baise
& moi dans un acte de métissagenèse
machinanimalement j’utéruserais des automates
évitant des crampes à Sisyphe
au son de Sonic Youth.

3

que-ce-serait-bien oh ! a cartoon
où une infection dûment estampillée
tsunamiquement dévasterait des amygdales
entre Poughkeepsie et Rangoon
& moi shaman développant le vaccin
au son de Björk & Maysa.

4

que-ce-serait-bien oh ! an epic porn
de Rob Lowe à Rock Hudson
all hunks and Hulks of Hollywood
de colliers en chaînes on all fours
& moi à l’envers dans un harem à la 8 ½
au son de « I´m a slave for U ».

5-

que-ce-serait-bien oh ! a western
once again awaiting barbarians
en invasions contre l’Occident
& moi en moine copy & paste
sauvant de l’oubli & Oz & Dante
au son de Portishead.

(Traduction de Patrick Quillier)

§

The Poet’s Hollywood Dreams

1-

I’d like a script
in which an Estonian army
conspires to stone
Gertrude Stein
& I plato(o)nic at salvation
to the sound of the Rolling Stones.

2-

I’d like science fiction
with Winnie-the-Pooh in coitus
& I in an act of humachine
mixegenation uterize automatons
struck with Sisyphean cramps
to the sound of Sonic Youth.

3-

I’d like a cartoon
in which a tsunamic infection
in franchises devastates amygdalas
from Poughkeepsie to Rangoon
& I shaman develop the vaccine
to the sound of Maysa & Björk.

4-

I’d like an epic porn
from Rob Lowe to Rock Hudson
all hunks and hulks of Hollywood
in rows in collars on all fours
& I’m mixed up in a harem to 8 ½
to the sound of “I’m a slave for U.”

5-

I’d like a western
once again waiting for the barbarians
to invade the Occident
& I a monk copy & paste
to save Oz & Dante from oblivion
to the sound of Portishead.

(Translation by Hilary Kaplan)

§

Sueños Hollywoodenses de Poeta

1-

¡quién pudiera oh! a script
en que un ejército estonio
conspirase para la lapidación
de Gertrude Stein
& yo platoonico al rescate
al son de los Rolling Stones.

2-

¡quién pudiera oh! science fiction
con Winnie-the-Pooh en cópula
& yo en un acto de miscegenación
magmánimo uterase autómatas
salvando de sus calambres a Sísifo
al son de Sonic Youth.

3-

¡quién pudiera oh! a cartoon
en que una infección en franquicias
tsunámica devastase amígdalas
entre Poughkeepsie y Rangoon
& yo shaman a medrar vacuna
al son de Björk & Googoosh.

4-

¡quién pudiera oh! an epic porn
de Rock Hudson a Rob Lowe
all hunks and Hulks of Hollywood
de collares en hileras on all fours
& yo del revés en un harén de 8 ½
al son de “I’m a slave for U”.

5-

¡quién pudiera oh! a western
once again awaiting barbarians
en invasiones contra el Occidente
& yo monje copy & paste
salvando del olvido a Oz & Dante
al son de Portishead.

(Traducción de Aníbal Cristobo)

§

Hollywood Träume des Dichters

1-

hätt ich nur, ach! ein Script
in dem Pierre Brice und sein Heer
die heimliche Steinigung
anstrebte von Gertrude Stein
& ich eilte platoonisch zur Hilfe
zum Klang der Rolling Stones.

2-

hätt ich nur, ach! Science fiction
mit Winnie Puuh bei der Paarung
& ich würde in einem Mischgeburt-Akt
maschinierlich Motoren gebärmuttern
entbände Sisyphus seiner Krämpfe
zum Klang der Sonic Youth.

3-

hätt ich nur, ach! ’nen cartoon
in dem eine Angina mit Lizenz zum Tsunami
alle Mandeln zerstörte in den Rachen
zwischen Poughkeepsie und Rangoon
& ich als Schamane erfände den Impfstoff
zum Klang von Maysa & Björk.

4-

hätt ich nur, ach! ’nen epic porn
von Rock Hudson bis Rob Lowe
all Hunks and Hulks of Hollywood
mit Halsband in ’ner Reihe on all fours
& ich um 8 ½ verkehrtrum im Harem
zum Klang von “I´m a slave for U”.

5-

hätt ich nur, ach! einen Western
once again awaiting barbarians
auf ihrem Feldzug gegen den Okzident
& ich copy & paste-Mönch rettete
Ochs & Ente vor dem Vergessen
zum Klang von Portishead.

(Übersetzung von Odile Kennel)

§

Hollywoodiaanse Dichtersdromen 

1.

had ik maar oh! a script
waarin een Ests leger
samenspande om Gertrude
Stein te stenigen
& ik platoonisch te hulp
op de klank van de Rolling Stones.

2.

had ik maar oh! science fiction
parend met Winnie-the-Pooh
& ik in een daad van raskruising
zou machinemoedig automaten baarmoederen
Sisyphus zijn spierkrampen besparen
op de klank van Sonic Youth.

3.

had ik maar oh! a cartoon
waarin een vrijgestelde en tsunamische
infectie keelamandelen zou verwoesten
tussen Poughkeepsie en Rangoon
& ik shaman die het vaccin ontwikkelde
op de klanken van Björk & Maysa.

4.

had ik maar oh! an epic porn
van Rob Lowe tot Rock Hudson
all hunks and Hulks of Hollywood
met halsband in gelid on all fours
& ik averechts in een harem om 8½
op de klank van ‘I’m a slave for U’.

5.

had ik maar oh! a western
once again awaiting barbarians
in invasies tegen het Westen
& ik copy & paste-monnik die
Oz & Dante van vergetelheid redde
op de klank van Portishead.

(Vertaling van Bart Vonck)

§

Sonhos Hollywoodianos de Poeta

1-

quem-me-dera oh! a script
em que um exército estônio
conspirasse pelo apedrejar
de Gertrude Stein
& eu platoonico ao resgate
ao som de Rolling Stones.

2-

quem-me-dera oh! science fiction
com Winnie-the-Pooh em cópula
& eu num ato de miscigênese
maquinânimo uterasse autômatos
poupando de suas cãibras a Sísifo
ao som de Sonic Youth.

3-

quem-me-dera oh! a cartoon
em que uma infecção em franquias
tsunâmica devastasse amígdalas
entre Poughkeepsie e Rangoon
& eu shaman a medrar a vacina
ao som de Björk & Maysa.

4-

quem-me-dera oh! an epic porn
de Rob Lowe a Rock Hudson
all hunks and Hulks of Hollywood
de coleiras em fileiras on all fours
& eu às avessas num harém à 8 ½
ao som de “I´m a slave for U”.

5-

quem-me-dera oh! a western
once again awaiting barbarians
em invasões contra o Ocidente
& eu monge copy & paste
a salvar do olvido a Oz & Dante
ao som de Portishead.


Ricardo Domeneck, in Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2012).


.
.
.

sábado, 13 de agosto de 2016

História da terra do corpo

Uma história da terra
no próprio corpo.

Do pai, a porção branca
da carne,
ascendência registrada
em cartórios por tabeliães,
o nome próprio que retém
do avô a pronúncia catalã
de origem, e da avó nomes
de cidades do passado,
como uma certa Campobasso
que tanto poderia ser Atlântida.

Do pai, principalmente,
a possibilidade dos convites
às salas-de-jantar da casa-grande.

Da mãe, sobrenome proletário
de qualquer zé-ninguém
e o tingir castanho
da pele de gente cabocla
do interior, o passado
esquecido de ocas,
do estupro de mulheres
ameríndias e africanas
apagado e silenciado
pela História,
mas não pela carne.

A carne lembra-se
e lembra.

Feito o pânico irracional
da mãe, a cada gripe,
de que morra a casa toda.

As linhas retas de pais,
lembradas,
e as linhas tortas de mães,
esquecidas.

Mas na língua mesma resiste
talvez a memória
de um desastre antigo,
quando empreteja
o céu e se grita
da casa
que se corra e tire
a roupa do varal,

que vai cair um toró.

É sempre e ainda
o toró que vem.

E a carne dos filhos
sem entender bem
por quê
deseja e teme
o toró-final
que venha e leve
roupa e varal,
quintal e casa.


§

Berlim, 12 de agosto de 2016.

.
.
.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Lançamento do EP de Crooked Waves e da antologia de escritores internacionais em Berlim



Hoje, no Alt Berlin (Chausseestrasse 102), ocorre o lançamento de Your + 1: some Berlin-based international writing (Gully Havoc, 2016), antologia que editei, com autores internacionais que vivem em Berlim, e de Floating (Gully Havoc, 2016), o EP de estreia de Crooked Waves, o produtor alemão Nelson Bell. Ambos saem pelo selo Gully Havoc, que dirijo com Ellison Glenn a.k.a. Black Cracker. A  antologia traz textos de Adelaide Ivánova, Hanne Lippard, Annika Henderson, Cia Rinne, e vários outros. Ouça o álbum de Crooked Waves abaixo.



.
.
.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Dois poemas recentes

Após outra conversa em que Louis McGuire e eu falhamos em adivinhar a senha

                     Outra manhã
            tardia, destas manhãs
                  que vêm tarde
                      por nossa recusa
            em permitir que o sol
                  dê fim à noite,
            manhãs tardias de noites
                 temporãs, aguadas a vinho
            em nossos milagres minúsculos
    ao transtornar em vinho a água
            em meio à poeira
                de nossos quartos
               com aluguéis atrasados
  e pós de toda ordem
                  sobre os móveis
   quando na penumbra gratuita
       de nossas cortinas puídas
  chegamos, em nossos colóquios
         de bêbados honestos,
                          não a um cerne
       mas a um consenso
      de verdade, uma crença
                  qualquer nossa,
          debates repetitivos
             no roteiro trivial de novela
      em que as reviravoltas
      dos beijos na testa
                  são
     as facas nas costas,
                  e tentamos fixá-la,
     essa verdade a varejo,
         torná-la uma coisa
   que se pega com as mãos,
            como estes isqueiros,
    estes cinzeiros que transbordam
            enquanto esvaziam-se os cálices,
             se ao menos
      encontrássemos a sequência,
       a sequência certa de palavras,
  artigo que siga substantivo e verbo,
              que é o dizível que nos importa,
            uma sentença feito reza
                      que a torne reiterável
      amanhã e depois de amanhã,
             tão reiterável quanto este sol
     que arde fora das cortinas puídas,
                  a sequência de palavras
       que faça deste consenso
                  de verdade temporária
         uma parte da penumbra
             e a ilumine,
                          enquanto engatamos
             a noite à manhã e a manhã à tarde,
                           intuindo
             que deste acordo
                     talvez
        dependa a inauguração
                  de um calendário novo,
      e bracejamos ao falar
                         um ao outro
         “eu sei o que você
                          quer dizer”
               na barafunda de vocábulos
                     que desperdiçamos
           com a boca nessa busca,
                mesmo sabendo não
                haver sem
                    o dizer o saber,
               nessa emergência
            de compreensão qualquer
               da catástrofe
            individual e coletiva
        que parece iminente,
                    e desejamo-nos ao fim
                sorte
                   ao sentirmos o pó
          acalmar-se no sangue
                 e resta tão-só a poeira
       a irritar as narinas, os pulmões,
              quiçá em vez próxima
        quando engatemos vez outra
             a noite à manhã e à tarde
                e notemos essa verdade pairar
         no ar feito a gripe
            que tão frequente nos acomete
       e nos deitemos na cama
                         com os ácaros
            e busquemos de novo
   feito porcos num abatedouro
                   esta pérola
         inteligente e inteligível
    que sempre nos elide,
          no chão lúcido
                 da manhã que não cessa
      de nos querer moer,
            esta senha que se esgueira
     e escapule, código
              que abra a saída
                   dos fundos
              ou detenha
    estas engrenagens, leitões
                  bêbados, honestos,
        guinchando meias-verdades
               sobre o pó


(publicado originalmente na revista portuguesa Enfermaria 6. E, na Modo, meu amigo Louis McGuire)


§


Texto em que o poeta se dá ares para justificar a lambança da existência

Se naquela manhã
em que acordamos juntos
sobre aqueles lençóis
impecáveis, ainda moços,
alguma canção escolhida
a dedo, perfeita,
houvesse soado no quarto,
como se vinda de cada
parede e, inaudível para nós,
emocionara uma plateia
que nos era invisível,
mas assistia a cada movimento
nosso, pernas entrelaçadas,
dentes nos dentes;

ou se naquela tarde
em que você anunciou
que desejava a solteirice
e me deixou plantado
naquele ponto de bonde
sozinho, algum
movimento originalíssimo
de câmera enquadrasse
tensões de músculos isolados,
em mim, em você, um lábio
se contraindo, cento e vinte e três
fios de cabelo móveis
ao vento, e então
três ou quatro pessoas
numa plateia para nós inodora
soltassem um ai baixinho,
contraindo os mesmos músculos;

ou se agora mesmo
enquanto escrevo sozinho
estas linhas
a uma mesa de café,
alguém reconhecesse
numa tela
este cliché de filmes:
o escritor sozinho à mesa do café,
e tal imagem entusiasmasse
algum adolescente
que sonha ser também um dia
o escritor sozinho à mesa do café,
interpretado por algum famoso
e/ou canastrão
num filme qualquer
que outra vez revisitasse
a imagem gasta
do escritor sozinho à mesa do café;

mas éramos só nós dois
sobre aqueles lençóis,

sem plateia,

éramos só nós dois
naquele ponto de bonde,

sem plateia,

sou eu só
à mesa deste café
escrevendo estas linhas
e dando-me ares
como se houvesse câmeras
focando minhas mãos e rosto
ao chegar ao fim deste poema,
tentando justificar esta lambança
com uma plateia
que só existe na minha cabeça.


(publicado originalmente na revista brasileira Escamandro)

.
.
.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Vídeo para "Morning Light" do produtor alemão Crooked Waves

Nelson Bell

Crooked Waves é o produtor alemão Nelson Bell, sobre o qual já falei aqui, e com quem tenho o prazer de colaborar no duo Bell Dome. Vejam o vídeo para a faixa "Morning Light", de seu EP de estreia, Floating (2016), que Black Cracker e eu estamos lançando por nosso selo/editora Gully Havoc. Produção adicional por Louis McGuire.




.
.
.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

"People Flowed", nova colaboração com Nelson Bell (Crooked Waves)

Escrevi este texto na noite posterior aos ataques em Paris e Beirute. Nelson e eu gravamos os vocais e trabalhamos na música um par de dias depois de Orlando. Nosso amigo Dominic Ryan o masterizou agora, após o ataque  Istambul. Não vamos parar nunca?
 



Bell Dome - "People Flowed". Written by Nelson Bell & Ricardo Domeneck. Mastered by Dominic Ryan. Berlin, June 2016.

then the blood
flowed
and as the blood
flowed
the protocol didn't change
people screamed
then people screamed
for more blood
it is always so
blood flows
people scream
then people scream
more blood
i ask myself
isn't there an end
to blood
don't the stocks
of the world
run low
our spleens
can't possibly be
this tireless
i am 38
i have seen my share
of massacres
as a child
i learned the word
war
with images of beirut
yesterday there were
more images of blood
in beirut
as a child
i learned the word
terror
with strange initials
ira
raf
the initials have changed
not the terror
bombs explode
triggers are pressed
blood flows
people scream
then people scream
more blood
i am 38
is this half-way
already
like dante begins
his comedy
half-way in life
i look around
it looks like a dark wood
if i live 38 more years
will the initials
change again
are we trying
all possible combinations
i don't know how
tortoises parrots whales
can take it

.
.
.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Versos domingueiros




Tua garganta inflama como se abraçasse a si mesma,
sobre as vértebras trombam-se as pontas dos dedos.
Nana, nenê. A Cuca é ninguém menos que tu mesmo,
no escuro, livre por saber-te o monstro sob o berço.



Berlim, 26 de junho de 2016.

.
.
.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Vem aí a segunda edição de "Cigarros na cama"

Cigarros na cama, meu bolero de fossa pós-apocalíptica no ano 2011, ou Ano 1 d.M. (depois d'O Moço), terá segunda edição este ano pela Luna Parque. Talvez haja até ineditinhos para açucarar (ou amargar?) a edição. Mais notícias em breve.



.
.
.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

"Malik Adan em minha sala" (2016)



Malik Adan é um jovem ator alemão, nascido em Berlim em 1992.

.
.
.



terça-feira, 14 de junho de 2016

Bandeira (poema para vozes sobre palanques)



meu nome-função
foi já temido e respeitado
como dádiva dos espíritos

wíŋkte entre os lakotas
nádleehé entre os navajos
lhamana entre os zunis
aayahkwew entre os crees
sipiniq entre os inuítes

entre os itelmens da sibéria
koekchuch
entre os samoanos da polinésia
fa'afafine

e girei as ancas como
köçek
em palcos para os otomanos

e mesmo entre os que ontem
mesmo metralhavam-me
já fui mukhannathun
ou ainda hoje hijra 
chamam-me pela índia

assumi tantas
funções
em meus eus
em relação-dança
a vosso elela

e vos ensinei
barroca-rococó
que o inútil é útil

e curei, curandeira
e nomeei, batizeira
e teci, costureira
e invoquei, xamaneira
e entreti, entreteneira

hoje são outros os nomes
com que me celebrais
pelas ruas

bicha
sapata
viado
boiola

e até destes vossos inúteis
algo útil fiz
em meio a minhas irmoããs

sabendo que vossas
estrelas-de-seis-pontas cruzes e crescentes

cedo ou tarde são usadas
como estrela-ninja espada e foice

contra nossos lindos corpinhos

mas ora faz
séculos milênios
assistimos à morte
dos vossos deuses
um por um

cá estamos ainda
a vosso serviço, idiotas

por que seria diferente
com estes que ora exigem
tudo organizado em apenas
duas gavetas
como se assim fosse
desde o começo do mundo?

grandessíssima
mentira
para boy dormir

vossa doença binária
é moda passageira

e

é chegada a hora
é passada a hora
é chagada a hora
de que nos desaquendeis,
filhotes de alibãs

porque dos erês às cacuras,
já nos cansou a belezura

transformar vossos cacetetes
em varas de condão
e vossas horrorosas pochetes
em marsúpios

nós, gloriosas canguruas

apontando o caminho
a saltos largos
para vossos passos
de cágados
todo cagados

rumo à civilização

.
.
.

Arquivo do blog